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Liberdade religiosa: matéria da TV Globo é ótimo material pedagógico para aulas de Ensino Religioso

Matéria especial da TV Globo, exibida no dia 07/09/2022, é um interessante material que pode ser trabalhado com estudantes dos anos finais do Ensino Fundamental e estudantes do Ensino Médio em aulas do componente Curricular Ensino Religioso ou da área de Ciências Humanas.

Segue matéria:

“Na série especial de reportagens sobre a Constituição, o Jornal Nacional vai tratar nesta quarta-feira (7 de setembro) de mais um direito que ela assegura a todos os brasileiros: a liberdade religiosa.

Um dos grandes debates da Assembleia Constituinte foi sobre incluir – ou não – no texto uma referência ao nome de Deus. A discussão mobilizou ateus, seguidores de todas as religiões e partidos políticos.

Os representantes do Partido Comunista do Brasil não queriam que o nome de Deus fizesse parte do preâmbulo. Já os constituintes evangélicos queriam que Deus fosse a primeira referência no texto.

O resultado foi notícia no Jornal Nacional“Constituinte: mais de 90% dos parlamentares fecham o acordo e votam na mesma proposta. Eles aprovaram hoje o preâmbulo, que é a apresentação da Constituição.”

Antes mesmo do primeiro artigo, a nossa Constituição começa assim:

“Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembleia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte Constituição da República Federativa do Brasil.”

“A Constituição Federal de 1988 tem um valor extraordinário. Imagine uma constituição que, no seu preâmbulo, sob a proteção de Deus, promete a criação de uma sociedade justa, com erradicação das desigualdades. Uma sociedade que seja fraterna e que tem entre os fundamentos da república a dignidade da pessoa humana”, exalta o presidente do STFLuiz Fux.

Ao longo da nossa história, nem todas as Constituições garantiram a liberdade de culto. O Brasil já teve uma religião oficial e que até hoje é a maior do país: o catolicismo. Trazido pelos portugueses há mais de 500 anos, passou a conviver com outras crenças ao longo do tempo, principalmente com os diferentes ramos do cristianismo: os protestantes ou evangélicos tradicionais e pentecostais. A liberdade religiosa veio permitir e proteger a construção de todos os templos.

Assim, palavras e culturas foram se misturando. Doutrinas do Ocidente e do Oriente foram plantadas e deram frutos aqui. Um giro pelas religiões do Brasil parece um giro pelo mundo inteiro. Hoje em dia, a diversidade da fé é um patrimônio de todos e a liberdade de culto, uma realidade protegida pela Constituição.

Essa convivência pressupõe diálogo e respeito. A paz e a compaixão criam pontes, abrem portas e se unem à força da lei na proteção das minorias, garantindo o direito de crer e de não crer. No círculo da fé, a liberdade de um é a liberdade de todos.

“A religião é uma característica que não define as pessoas. O que define as pessoas é o seu caráter, é a sua integridade, é a sua competência. O caminho que cada um percorre é uma escolha individual. Tem gente que medita, tem gente que vai à igreja… A gente deve respeitar as opções de todos”, afirma o ministro do STF Luís Roberto Barroso.

Quem vive no Brasil tem o direito constitucional de não acreditar em nada que não veja diante dos olhos, mas a fé do povo brasileiro é visível em cada esquina.

As igrejas foram o grande símbolo das nossas riquezas e do nosso talento durante a maior parte da história, e não é preciso entrar em nenhuma delas para reconhecer esse brasileiríssimo nazareno naturalizado, com endereço permanente no topo da nossa autoestima: o Cristo Redentor. Símbolos de fé estão gravados na identidade brasileira”.

 Sugestões aos professores e professoras:

Este material pode ser utilizado com estudantes dos anos finais do Ensino Fundamental (em aulas de Ensino Religioso) ou com estudantes do Ensino Médio (área de Ciências Humanas ou componente curricular Ensino Religioso), destacando habilidades da BNCC e outras que foram construídas nos estados e municípios que convergem sobre a temática Liberdade Religiosa.

Assista a matéria com os estudantes e promova discussões e aprofundamentos do tema: https://g1.globo.com/jornal-nacional/brasil-em-constituicao/noticia/2022/09/07/brasil-em-constituicao-liberdade-religiosa-e-um-direito-garantido-a-todos-os-brasileiros.ghtml

Seguem algumas sugestões de habilidades:

(EF08ER06) Analisar práticas, projetos e políticas públicas que contribuem para a promoção da liberdade de pensamento, crenças e convicções.

(EF08ER06RS-02) Articular           práticas               que reconheçam a diversidade cultural e religiosa na promoção dos Direitos Humanos.

(EF09ER06RS-03) Reconhecer e apropriar-se de valores éticos, morais e religiosos que contribuem para a erradicação de discursos de ódio e práticas de violência.

(EF09ER02) Discutir as diferentes expressões de valorização e de desrespeito à vida, por meio da análise de matérias nas diferentes mídias.

A Ética a Nicômacos de Aristóteles

O ser humano feliz é aquele satisfeito consigo mesmo, que se ama e ama seus amigos de forma generosa e desinteressada. São estes e tantos outros aspectos que nos induzem a dizer que a Ética a Nicômacos, apesar de ter sido escrita há mais de 24 séculos, continua nos dando preciosas lições para pensar os dilemas do nosso tempo.

Aristóteles, discípulo de Platão, é considerado um dos maiores pensadores do ocidente e um dos filósofos mais completos da antiguidade grega clássica. Em sua época, nada ignorou de tudo o que se conhecia. Foi pesquisador, filósofo e fundador de diversas ciências. Sua obra gigantesca desafia até hoje a compreensão dos estudiosos e teve uma imensa repercussão sobre o desenvolvimento de toda a filosofia ocidental. Foi professor, fundador de uma escola (o Liceu) e preceptor de Alexandre, rei da Macedônia.

Aristóteles escreveu sobre lógica, física, biologia, metafísica, política, arte e ética. Seu pensamento é tão importante na história da filosofia que podemos dizer com certa segurança que não é possível realizar um curso de filosofia sem estudar Aristóteles.

A obra Ética a Nicômacos figura como sendo um dos escritos mais amadurecidos do pensamento de Aristóteles. Dividida em dez livros, possivelmente se trata de apontamentos de aulas dadas ao seu filho Nicômacos, a obra trata sobre a excelência moral e a excelência intelectual e busca definir quais são as coisas boas para o homem e determina o sentido do Bem Supremo.

Em outros termos, Aristóteles fala dos princípios da educação do cidadão e a sua maneira, contribui de modo considerável para contemplar a imagem da finalidade da educação da Antiguidade Clássica. Assim, para ele, o objetivo fundamental de sua teoria política e ética consiste em concretizar a noção de felicidade.

Analisando os diversos sentidos em que a felicidade é compreendida, uma vez que, segundo a opinião unânime, todos buscam alcançá-la, Aristóteles acaba por concluir que ela coincide com o prazer decorrente da plena realização das virtudes inerentes à natureza humana. Quando o ser humano consegue afinar os desejos e as ações com seu pensamento, agindo em plena consciência com a própria natureza e realizando os fins que lhes são próprios, ele atinge a plena felicidade que não se limita a honra, o poder, o sucesso ou o prazer. A felicidade plena reside na vida virtuosa.

No entanto, o conhecimento da virtude, por si só, não suficiente para determinar o comportamento do ser humano. A virtude não nasce com o ser humano e também não adquirida definitivamente. É preciso exercício e esforço constante para se aprimorar a virtude. Assim, a virtude, associada às noções do fazer e do agir, torna-se uma das noções mais fundamentais da educação no âmbito de uma pedagogia ativa, que ainda hoje constitui o objetivo principal da reflexão pedagógica moderna.

A virtude, na perspectiva de Aristóteles, reside na capacidade humana de encontrar o equilíbrio, a justa medida. As virtudes morais, portanto, têm como condição a temperança, ou seja a capacidade de dominar a esfera do desejo e das emoções sem se deixar dominar por ela. Enquanto o vício é resultado do excesso ou da falta, a virtude constitui a capacidade de buscar a justa medida, o meio-termo. Assim, enquanto as ações virtuosas geram disposição para a virtude e esta, por sua vez, será causa de atos virtuosas; de outro lado, as ação que resultam numa desmesura ou descontrole dos afetos e dos desejos são a origem dos vícios e que, por sua vez, levam os seres humanos a cometerem atos inadequados, porque reforçam os vícios.

Para Aristóteles, a amizade é uma forma de coroamento da vida virtuosa e a maior fonte de felicidade para o ser humano. A felicidade nessa perspectiva não pode ser comprada em supermercado, nem vir por encomenda por transportadora; também não reside no acúmulo de riqueza e poder; também não está nos títulos honrosos ou no sucesso efêmero divulgado nos meios de comunicação.

O ser humano feliz é aquele satisfeito consigo mesmo, que se ama e ama seus amigos de forma generosa e desinteressada. São estes e tantos outros aspectos que nos induzem a dizer que a Ética a Nicômacos, apesar de ter sido escrita a mais de 24 séculos, continua nos dando preciosas lições para pensar os dilemas do nosso tempo.

Autor: Dr. Altair Alberto Fávero

Salvem a leitura

Pennac diria: “é preciso dar de farejar a uma orgia de leitura”. Monteiro afirmou: “um país se faz com homens e livros”. E eu vos digo: “salvem o prazer de ler!”

Adentro ansioso o portão do local. Situada dentro de uma escola, a biblioteca municipal está resplandecente. Tudo fora preparado com muito zelo naquele espaço diminuto, mas cheio de vida, para que eu, o contador de histórias, pudesse realizar meu trabalho. Cada detalhe devidamente pensado por minha amiga Nilva.

Nilva, de sobrenome Belo, de vocação docente, cuja missão é contar histórias, é uma companheira que conheci em um festival. Ela, do interior goiano; eu, do planalto gaúcho. Uma verdadeira vencedora em sua vida, dizia-se salva pelos livros. Ultrapassara as condições adversas nas quais havia nascido e, por meio do estudo e da dedicação constante, tornara-se professora e, àquela época, coordenava o programa municipal de livro e leitura da cidade de Alexânia, em Goiás. Foi essa a mulher de trajetória intensa que me acolheu naquele lugar.

Um dos grandes feitos de minha amiga foi ter provocado, em seu município, uma mudança de paradigma. Sabedora da importância da leitura, começou a se questionar como poderia fazer de suas aulas mais atrativas. Foi o ponto de partida para a carreira de contadora de histórias, desenvolvida em um carinhoso projeto chamado Leiturégua – Carroça da leitura, que levava em uma carroça a magia dos livros a diversos cantos. Sua figura irreverente e questionadora conseguiu um feito e tanto: a abertura de duas bibliotecas públicas em âmbito municipal. Uma grande vitória.

Sob esse contexto de um lugar extremamente atencioso com a causa da leitura que me inseri. Meu segundo livro nascera lá, no coração do Brasil, terra de Cora Coralina, e por intermédio de Nilva fui pela primeira vez ao estado para contar histórias. Estava ansioso não apenas para partilhar as narrativas que conhecia e as que eu já havia escrito, como também para reverenciar a movimentação corajosa dos defensores da leitura.

Ao entrar em contato com eles, senti-me em casa. Todos nós, ali, já havíamos viajado muitas vezes para os mesmos lugares, pelas páginas de um livro. Tratava-se, portanto, de uma conexão entre velhos companheiros.

A escrita acima é mais retórica do que qualquer outra coisa, reconheço. O foco da reflexão vem agora.

Era o meu dever, porém, falar dessa experiência, de minha amiga, dessa gente. Principalmente para fazer entender algo de grande relevância: a leitura e sua defesa podem brotar de qualquer lugar. E pessoas comprometidas podem, por conta própria, dar vida a esse apelo, encamparem projetos, moverem iniciativas, fazerem a diferença. Afinal de contas, há um cenário bastante preocupante no que diz respeito ao Brasil leitor.

Segundo informações do Instituto Pró-Livro, em seu tradicional estudo Retratos da Leitura no Brasil, a média de livros lidos pelos brasileiros, em 2019, foi de aproximadamente 5 obras, sendo apenas 2,5 lidas inteiramente. Na média geral, averiguada pelo instituto com os entrevistados, apenas 8% das pessoas leem todos os dias, 12% leem ao menos uma vez por semana e 54%, por exemplo, simplesmente não leem. Entre os leitores de literatura, apenas 38% leram o último livro por gosto.

Se não quisermos nos aprofundar nos números, basta olharmos a realidade próxima. Em meu trabalho como artista da palavra, estando em contato com inúmeras escolas de toda parte, não raro encontro locais com bibliotecas abandonadas, onde falta efetivo de profissionais para cuidar desses espaços, fora o descaso com o material riquíssimos que muitas delas possuem. Ora, se no espaço dedicado à educação e ao conhecimento não há esse estímulo, é sinal de um desvio muito grande na condução daquilo que se almeja como sendo uma formação humana e social de qualidade.

Agora, é preciso tomar parte desse desafio no cotidiano. É preciso ler e compartilhar livros, independente do lugar. Falar de leituras, espalhar obras pela cidade, formar clubes de leitura e debates. Começar de baixo; primeiro em casa, depois em comunidade, dentro do próprio bairro. É preciso que os pais leiam, mas que os professores também o façam. Somente na chamada orgia de leitura, propagada por Pennac, é que se poderá encontrar um caminho para que comecemos a modificar as nossas vidas.

Os livros mudaram Nilva. Nilva, empenhada, ajudou a transformar uma comunidade. O Bartolomeu Campos de Queirós, famoso escritor infanto-juvenil já falecido, criou o Movimento por um Brasil Literário. Diversas pessoas, famosas ou anônimas, estão se movimentando.

Acreditam na palavra. Acreditam no potencial do ser humano. É nessa gente que devemos nos espelhar. Como diz a sabedoria popular, uma andorinha só não faz verão. E também, ainda parafraseando o povo, é junto dos bão que nós fica mió.

Falando nisso, estou mergulhado na leitura de Ortodoxia, de Chesterton. E você? Quais são as tuas novidades literárias?

Autor: Gabriel Cavalheiro Tonin (Gabito)

REFERÊNCIAS

Retratos da Leitura no Brasil. In:  www.prolivro.org.br

Código Florestal: dez anos depois, poucos avanços na área ambiental

Nesses dez anos em que ainda se discute a falta de obediência ao Código Florestal, não cessou o registro de números horrorosos de destruição de florestas.

Nos dias de hoje, fica cada vez mais claro – ao menos para os atores sociais que conseguem perceber com suficiente clareza o nível de desajuste planetário (crise civilizatória) que atingimos – que agregar valores de sustentabilidade é absolutamente central na tomada de decisão das empresas e na elaboração de acordos comerciais, por exemplo.

No cenário internacional, é dado como certo que o País que consegue implementar uma legislação ambiental mais rigorosa logo se destaca e sai na frente na sempre necessária transformação da sociedade em suas dimensões políticas e ambientais. Franca e abertamente, há razões de sobra para dizer aqui que essa é a pauta que define as coisas no mundo dos negócios. E é justamente nessa direção que precisamos avançar.

Criado para estabelecer as áreas de proteção em imóveis rurais, Áreas de Preservação Permanente (APPs), de Reservas Legais (RL – na Amazônia, p. ex., é preciso conservar 80% da vegetação) e de Áreas de Uso Restrito (AUR), o Código Florestal, CF – na verdade, a Lei de Proteção da Vegetação Nativa 12.651, de 25 de maio de 2012 -, uma década depois de aprovado pelo Congresso Nacional, ainda não foi cumprido e há muito por fazer.

Balanço feito, dez anos depois, num cenário desfavorável à agenda ambiental, resta pouca coisa para comemorar. A fiscalização é morosa e os passos (na direção de consolidar as regras de proteção da vegetação em áreas particulares, reconhecendo as áreas consolidadas para regularização dos imóveis rurais, objetivo-chave do CF) são demasiadamente lentos. Falta vontade política, tanto quanto falta mobilização social.

Em outras palavras e em termos gerais, a perceptiva lentidão na implementação do Novo Código Florestal – a nosso ver quase que de forma deliberada – pelo Governo Federal em conluio com a Bancada Ruralista no Congresso Nacional, agravada pela falta de transparência (vide a capacidade de verificação daquilo que está cadastrado, atrapalhando o Programa de Regularização Ambiental, PRA), ajuda a criar um cenário de elevado risco e muita insegurança para o investidor, dois fatores contrários ao razoável equilíbrio socioambiental de qualquer sociedade.

Dito isso, vamos aos fatos. A Comissão de Meio Ambiente (CMA) do Senado aprovou o relatório de avaliação de política pública de Regularização Fundiária no último dia 2 de novembro, com foco nos impactos ambientais gerados pela grilagem na Amazônia Legal. Ali avaliou-se a Implementação do CAR, apontando que tem sido utilizado como um corta caminho para legitimar a grilagem em terras públicas em todo país, com destaque para o arco do desmatamento nas franjas da Amazônia; e mesmo sendo um instrumento muito utilizado pelos Governos do Pará e Mato Grosso, não lograram sucesso com esse instrumento de monitoramento e regularização ambiental dos imóveis rurais. “Por isso, a ligação entre a grilagem marcada pelo CAR e a retirada da floresta como meio de comprovar a posse sobre a terra, sem nenhum interesse imediato na produção ou no aproveitamento adequado da área, é um dos principais impulsionadores do desmatamento. Cerca de 66% dos casos ocorreram dentro do perímetro declarado ilegalmente como particular, segundo o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia”, assim destaca o documento lido na ocasião pelo presidente da Comissão de Meio ambiente.

Decorrido todo esse tempo desde sua criação, de acordo com o relatório da CMA, denúncias apontam que o Sistema Nacional de Cadastro Ambiental Rural tem recebido registros sobrepostos de propriedades ilegais em terras públicas destinadas e não destinadas. Trata-se, no mais das vezes, de registros sobrepostos a Florestas Públicas Não-Destinadas (FPND), Terras Indígenas (TI) e Unidades de Conservação (UC) que não poderiam ser aceitos no sistema como propriedade privada ou mesmo posse legítima; portanto, com direito de registro no CAR.

Indo direto ao ponto crítico: não avançar na regularização ambiental das propriedades rurais (por conta de travas de gestão) resulta favorecer o desmatamento ilegal, um de nossos reconhecidos dramas. Da mesma forma, não avançar na remuneração pelos serviços ambientais, outro ponto bastante vulnerável, dificulta manter os benefícios (recuperação da cobertura vegetal, combate à fragmentação de habitats e assim por diante) que os ecossistemas desempenham para os seres humanos.

Colocado às claras, vamos aos números com mais detalhes: do total de 6 milhões de imóveis cadastrados, apenas 29 mil – ou 0,4%, (2% da área) – foram analisados com sucesso, informa o Sistema Nacional de Cadastro Ambiental Rural. Todavia, até agora, nenhum estado brasileiro superou a marca de 4% dos cadastros validados. Logo, não é exagerado afirmar pontualmente que o sistema funciona de forma irregular.

Se, de um lado, São Paulo, Pará e Mato Grosso avançam no método e na forma de análise, Alagoas e Sergipe, do outro, sequer regulamentaram o Programa de Regularização Ambiental. Por conseguinte, esses números escandalosamente baixos não permitem qualquer sinal de comemoração. Sendo rigoroso na análise, foram poucos os avanços, ainda que, hoje em dia, se saiba como o meio rural brasileiro está ocupado, qual o seu tamanho, onde estão as áreas degradadas e as que ainda estão conservadas.

Mas parece mesmo que o Sistema está sendo usado para garantir que as questões fundiárias tornem o problema ambiental brasileiro maior ainda, uma vez que não deixa de garantir, guardadas as proporções, as mesmas regras das oligarquias rurais e, quem sabe, capitanias hereditárias e sesmarias, com concentração de terras e exclusão social, senão vejam: grosso modo, mais de 80% das propriedades rurais detém 20% das terras, enquanto 20% das propriedades rurais tem o inverso, com grande concentração de terras.

Em números gerais, o Brasil tem 860 milhões de km2, sendo 60 milhões km2 para agricultura e 200 milhões km2 para a pecuária, e declarados mais de 560 milhões km2 em áreas com propriedades privadas, sendo 300 milhões km2 sem produção declarada, apenas para ocupação e especulação, base para os crimes fundiários. Decerto, isso torna a situação ainda mais perversa, afinal, grandes proprietários são irrigados pelo crédito agrícola como justificativa para garantir o agroexportador e superávit primário.

Nessa mesma direção, não podemos deixar de destacar ainda as agressões do grupo de ruralistas que ajudou a promover esse Código Florestal com o claro desejo de se desobrigar dos compromissos com a proteção do meio ambiente, como se não tivesse obrigação constitucional com a presente e às futuras gerações, e nem mesmo com o equilíbrio essencial à qualidade de vida e bem-estar das populações, deixando de lado o principal, a Função Social da Terra.

De qualquer maneira, que fique claro: todos temos obrigações nas propriedades urbanas, com áreas institucionais e proteção nos loteamentos, recuos nas construções urbanas, calçadas, arruamentos e etc. E uma vez apontado isso, fica a pergunta: nesse particular, como poderiam os proprietários rurais se desobrigarem desses importantes instrumentos da Reserva Legal e APP´s na proteção do nosso grande patrimônio natural Brasileiro?

Para todos os efeitos, esclareçamos algo mais: ainda sobram “consequências” marcadas pelo inaceitável retrocesso na preservação das florestas devido à anistia (perdão) concedida (especialmente a ruralistas, é claro) a infrações ambientais (leia-se desmatamentos) cometidas até julho de 2008 (com base de valores da época, a estimativa era de até 8 bilhões de reais), o que também faz aumentar – e muito – a sensação de impunidade.

Seja como for, queremos enfatizar o seguinte: nesses dez anos em que ainda se discute a falta de obediência ao CF, não cessou o registro de números horrorosos de destruição de florestas. Serve de exemplo: de 2012 a 2020, 32 mil quilômetros quadrados foram destruídos, o que prontamente exige um modelo de economia de restauração.

E tem mais: não bastasse a lentidão já mencionada, é lugar-comum a forte pressão para alterar radicalmente o conteúdo do CF que, se implantado 100%, tem potencial de conservar mais de 150 milhões de hectares de vegetação nativa. De acordo com pesquisadores do Climate Policy Initiative / Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (CPI/ PUC-Rio), há, atualmente, 56 projetos de lei em tramitação no Congresso Nacional que pretendem alterar o Código Florestal. Um deles, num total desapego à realidade, defende a retirada do estado de Mato Grosso da Amazônia Legal, o que eliminaria de imediato a necessidade de restauração de 3 milhões de hectares apenas nesse estado.

Resistir e enfrentar esse específico tipo de pressão, bem sabemos, é a ordem do dia. Disso não podemos fugir. Inútil dizer, no entanto, que, o que mais chama a atenção, foi o tempo perdido, dada a justificativa da urgência de se corrigir a insegurança jurídica do Código Florestal de 1965, mesmo sabendo que a Bancada Ruralista queria a todo custo anistia às multas e embargos de áreas referentes ao período final dos anos 1990 e início dos anos 2000, quando o desmatamento estava em níveis estratosféricos.

De qualquer maneira, oportunidades foram perdidas. Por exemplo: agregar valores à produção agropecuária brasileira, agregar a biodiversidade contida na Reserva Legal, da proteção das águas e corredores de conexão florestal, e ainda em relação às áreas de Preservação Permanente, valiosos instrumentos de gestão territorial e ambiental que os outros países agroexportadores não possuem e sequer poderiam ter.

Detalhe: mesmo que em um primeiro momento não tivesse maior valor de prêmio pela agregação desses citados valores, ao longo do tempo, certamente, poderíamos “marcar” a produção agropecuária brasileira como sustentável. Falando em marcas, vale lembrar o outrora Café do Brasil – produto que faz parte da nossa história.

Por fim, traduzindo outros valores essenciais que ajudam a entender o mundo de hoje, estamos convictos que o futuro (ainda a ser escrito) nos perguntará que tipo de atitude fomos capazes de ter diante das causas maiores da Humanidade: a preservação do meio ambiente e a conservação da floresta e da natureza, parceiras inseparáveis da vida.

Autores:

(*) Marcus Eduardo de Oliveira, economista e ativista ambiental. Especialista em Política Internacional pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESP, 1995) e mestre em Integração da América Latina pela Universidade de São Paulo (USP, 2005). Autor de Civilização em Desajuste com os Limites Planetários, (ed. CRV, 2018), entre outros. prof.marcuseduardo@bol.com.br

(**) Mário Mantovani, geógrafo, especialista em recursos hídricos e ambientalista. Um dos responsáveis pela criação da Associação Nacional de Municípios e Meio Ambiente e pela implementação de Consórcios Intermunicipais de Meio Ambiente.
Atualmente exerce a presidência da Fundação para a Conservação e a Produção Florestal do Estado de São Paulo (Fundação Florestal)

FONTE: https://www.ecodebate.com.br/2022/11/11/codigo-florestal-dez-anos-depois-poucos-avancos-na-area-ambiental/

A magia da arte de contar histórias

A história, a lenda, a fábula, o mito, a parábola são métodos pedagógicos excelentes e desempenham papel relevante para o esclarecimento e o aprendizado de crianças e jovens por ajudar a desenvolver a dimensão emocional, moral, espiritual e intelectual da inteligência deles.

A história, entre os gêneros literários, é a forma mais rica e de mais fácil compreensão tanto para crianças, jovens e adultos. A criança tem grande interesse pelo mundo encantado do faz-de-conta, da imaginação, da fantasia que explore a emoção e o sentimento.

A história, a lenda, a fábula, o mito, a parábola são métodos pedagógicos excelentes e desempenham papel relevante para o esclarecimento e o aprendizado de crianças e jovens por ajudar a desenvolver a dimensão emocional, moral, espiritual e intelectual da inteligência deles.   

A boa história instrui e edifica o leitor ou ouvinte, além de recrear, desvia os maus pensamentos e prepara-os para atividades sadias. Situações comovedoras, surpresas, curiosidades sadias apresentam atração, interesse e estimulam a inteligência, provocam reflexão, cultivam a memória, atingem a sensibilidade, a imaginação e o interesse pela leitura.

Ao longo da caminhada evolutiva da humanidade, encontramos importantes contadores de histórias, entre os quais destacamos Jesus, com suas parábolas fugindo da linguagem convencional, rebuscada, filosófica ou excessivamente racional.

A pessoa que se propõe a contar uma história deve conhecê-la bem, saber todos os detalhes e levar em conta os seus elementos essenciais: a introdução do assunto, o enredo, o clímax e a conclusão.

A introdução da história deve ser curta e despertar o interesse do ouvinte; neste momento será apresentado o foco da narrativa, situando o assunto no tempo e espaço e apresentando os principais personagens. O enredo é a ação que se segue, o desenrolar dos fatos, a ação dos personagens, os eventos devem seguir-se em sequência lógica, cada um deve ter uma significação cada vez mais intensa até atingir o clímax da história e chegar à conclusão, o ponto culminante, com expectativa máxima do ouvinte, momento rápido e chegar e dar uma satisfação à expectativa do ouvinte sobre o que acontece com os personagens principais.

A introdução da história é curta, o enredo mais longo e movimentado com os fatos que devem ter unidade entre si e que prendam a atenção. A linguagem utilizada pelo narrador precisa ser simples, correta e adequada às condições do ouvinte.

Há condições prévias a serem observadas pelo contador de histórias, como a análise cuidadosa da história, levando em consideração o assunto que ela trata e a parte técnica. Ele necessita conhecê-la bem, saber a sequência dos episódios que ela contém e emocionar-se com o enredo. Para tal, fará a narrativa para si, primeiro em silêncio, depois em voz alta, ao exercitar-se colocar-se, usando a imaginação, empaticamente no lugar do ouvinte e emocionar-se como o enredo.

Preparar-se para provocar no expectador a surpresa, o riso, as lágrimas, o medo, a admiração, a alegria e a reflexão sobre as peripécias narradas. Questionar-se: O que eu vou fazer na performance para despertar estas emoções nos outros?

Narrar os eventos da história com naturalidade, com segurança demonstrando o domínio dos pormenores do texto com voz agradável, modulando-a de acordo com o que está sendo narrado. Dispensar atenção a todos, dirigindo o olhar aos presentes.

O olhar expressa uma linguagem inarticulada analisando a reação fisionômica da plateia, de forma individual e coletiva, simultaneamente. Olho nos olhos. A sequência rítmica vai se alterando conforme o clima emocional que o texto exija, sem este artifício a narrativa fica monótona, sem vida. Há pontos psicológicos na história que vale a pena fazer pequena pausa, que vai provocar atitude de ansiedade pelo que segue. É recurso ótimo de arte pois permite o descanso entre uma emoção e outra, estabelecendo equilíbrio entre elas.

As pausas no momento certo são instigantes, o ouvinte também prende o fôlego e o narrador dá um tempo para ele respirar e pensar no que está acontecendo, construir a imagem mental da cena descrita, rica de imaginação e de emoção vibrante.

O narrador e o ouvinte precisam envolver-se emocionalmente com a história demonstrar as emoções básicas: alegria, tristeza, medo, afeto e raiva, conforme as situações vividas pelos personagens. Quem conta, precisa fazer o outro acreditar no que ele está contando como se ele fosse testemunha ocular do acontecimento narrado. Ele não fala impávido, o corpo deve acompanhar a voz no que está sendo contado, todo corpo fala junto, o tronco, os braços, as mãos, os dedos, a postura dos ombros, o movimento da cabeça, a expressão facial e dos olhos com gestos leves, comedidos e apropriados.

A voz é um prolongamento do corpo, com ela se pode envolver o ouvinte, tocá-lo, tatear, abraçar, afagar, retrair. O timbre, a altura, o ritmo e a intensidade da voz é que vão dar luz e fazer brilhar a história.    

As histórias podem ser lidas ou contadas. O narrador pode utilizar o recurso da leitura da história, de grande valor educativo pois enriquece a linguagem e estimula à leitura, mas ela de ser bem lida, com gestos e olhar adequados. Para tal é necessária uma acurada preparação prévia.

O livro de onde é extraída a leitura representa para o ouvinte infantil um baú mágico, com aventuras e surpresas. A história contada pelo narrador é a forma de apresentação preferida pois é acessível a qualquer auditório e proporciona maior aproximação entre o narrador e o ouvinte. O narrador tem mais facilidade de observar as reações dos ouvintes e utilizar mais recursos de expressão.

Ao escolher a história a ser contada, o narrador deve considerar o interesse e a capacidade de compreensão do público a que se destina. Levar sempre em consideração que é preciso muito exercício e esforço para aprender todos os desafios que envolvem uma contação de histórias.

A contação de história ou a sua leitura para crianças e jovens proporciona ao adulto uma sensação muito agradável pois ajuda-o a equilibrar-se, desenvolvendo a criatividade, a linguagem, o raciocínio e a memória, descarregando emoções e sentimentos do inconsciente desde a fase fetal ou infanto-juvenil abrindo canais de extravasamento destas energias. Ele pode reencontrar a criança perdida dentro de si.

O momento da contação de história é sublime, os sentimentos e emoções falam mais alto do que a razão e a lógica e propicia a semeadura de valores morais. O contador de boas histórias é o semeador que saiu a lançar a semente do bem no solo fértil da mente infanto-juvenil. Estas sementes se multiplicarão dando algumas “cem por uma, outras sessenta e outras trinta.” (Mateus, 13: 1 a 9).

Autora:  Gladis Pedersen de Oliveira – autora do livro: A Literatura e a Magia da Arte de Contar Histórias   – Olsen Editora – Porto Alegre – 2013

    

A emergência da pós-humanidade

No princípio dos tempos havia harmonia, paz e felicidade. Tudo parecia concorrer para o bem viver de todos. Agora, porém, as coisas já não são assim. Saímos da antiguidade para a modernidade e depois para a pós-modernidade. Daí seguimos para a pós-verdade e a pós-humanidade, o que mudou quase todo projeto original. Passamos pela floresta, pela caverna e pelo asfalto; cruzamos os oceanos, sobrevoamos as nuvens, fomos à lua e agora decaímos. Parece mesmo que estamos em queda livre.

Adveio o sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman (1925 – 2017) e afirmou que o fim da modernidade foi brusco. Disse que a pós-modernidade iniciou no exato momento em que os acontecimentos que deveriam ficar dentro de quatro paredes foram publicizados em cadeia nacional.

O que era de foro íntimo foi se tornando sempre mais público e vulgarizado. E, em contrapartida, muitas coisas que deveriam ser coletivas e públicas foram mais e mais sendo privatizadas. Assim, emergiu o que alguns chamam de alta modernidade e, outros, simplesmente, pós-modernidade.

A entrada na fase da pós-verdade está relacionada às consequências mais desastrosas da pós-modernidade. Nesse contexto, a verdade sofreu abalos não só porque emergiram muitas incertezas e pluralidade de opiniões, mas principalmente porque a mentira passou a fazer mais sucesso. E, assim, as relações sociais e políticas foram se impregnando de fake news, meias verdades e meias mentiras. O terreno se mostrou propício para o retorno do estado de natureza (pré-social), em  uma espécie de “guerra de todos contra todos”, como descreveu o filósofo Thomas Hobbes no livro Leviatã.

A perspectiva da pós-humanidade veio por acréscimo. Desde que se sentiu a necessidade, brotada do desejo, de dar vazão e fazer circular o ódio que estava camuflado ou controlado no recôndito da alma humana, inauguramos a fase nebulosa da pós-humanidade. Ela tem se aprofundado de forma célere nos últimos tempos. Alguns estão denominando esta fase doentia de epidemia do neonazismo. De certo modo, todos somos afetados por esta onda epidemiológica. Muitos se tornam transmissores em alto grau e alastram a doença. Dessa afetação resultam muitos desafetos e outros tantos indiferentes a qualquer sofrimento alheio.  

Se é verdade que o ambiente tange, tinge e configura comportamentos e o caráter das pessoas, isso não é a verdade absoluta.

Richard Sennett, sociólogo e historiador norte-americano, autor do livro “A corrosão do caráter: consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo” (1998) oferece uma significativa reflexão sobre o contexto político e social do mundo pré e pós-globalizado. Segundo ele, embora haja aspectos positivos advindos com o chamado novo capitalismo, por outro lado são notáveis os fatores que contribuem para a corrosão do caráter humano, da integridade e da confiança mútua.

O ódio que dorme no coração humano não é novidade, como já indicava e advertia Jesus Cristo: “Uma nação lutará contra outra, um reino contra outro reino […]. E vocês serão entregues até mesmo pelos próprios pais, irmãos, parentes e amigos. E eles matarão alguns de vocês. Vocês serão odiados por todos, por causa do meu nome. Mas não perderão um só fio de cabelo. É permanecendo firmes que vocês irão ganhar a vida!” (Lc 21, 10;16 -19).

Por mais difícil que seja, é possível permanecer firmes no que de fato importa. É possível estabelecer limites e parâmetros subjetivos e objetivos aos avanços da barbárie e da decadência humana. É possível (ou haverá de ser) modificar, transformar e ressignificar as relações interpessoais e sociais.

É necessário continuamente produzir uma metamorfose civilizatória e humanitária baseada na busca da verdade, da ética, da democracia, da solidariedade, da convivência fraterna e da ajuda mútua. Oxalá consigamos dar esse salto de qualidade a tempo e garantir vida sustentável, saudável, fraterna, digna e feliz para todos e todas!

Autor: Dirceu Benincá

Combate ao racismo: da acomodação para a reação

O Papa afirmou, por ocasião da morte de George Floyd nos Estados Unidos: “não podemos tolerar nem fechar os olhos diante de nenhuma forma de racismo ou de exclusão e pretender defender o caráter sagrado de toda vida humana”. Para os cristãos enfrentar o racismo é compromisso de fé e de fidelidade ao Filho de Deus.

No próximo domingo deste mês de novembro, se assinala no calendário civil o Dia Nacional da Consciência Negra. Costuma-se dizer que é um dia de celebração e também de reafirmação das lutas do povo negro pela tão sonhada igualdade racial e social.

Celebrar a data é importante justamente porque a marca do calendário comemorativo não surgiu gratuitamente ou fruto do acaso. Foi consequência de muita luta de homens e mulheres negros.  Muitos que já não estão entre nós, mas deixaram este legado valioso. Celebrar também porque é alimento e força para continuar lutando para que verdadeiramente se viva em um país com condições de igualdade racial. Tornar célebre uma data implica em imprimir nos corações e na memória lembranças que não se perderão, justamente porque foram feitas célebres. Então é também reavivar a memória.

O dia 20 de novembro é uma data propícia para reafirmação de algumas pautas muito caras ao povo negro. Entre elas, e com muita urgência, a superação do racismo. 

O último pleito eleitoral, marcado pelo acirramento político, revelou situações explícitas de racismo. Sem reservas, muitos cidadãos disseram com palavras ou manifestam com gestos que se compreendem melhores devido à cor da pele. Não só se compreendem melhores, como se recusam a ver um cidadão negro como sujeito dos mesmos direitos.

 Algumas notícias, e não foram poucas, de fatos do cotidiano, revelam que esta forma de pensar não é algo incomum. Muitas pessoas realmente pensam assim e agem a partir dessa concepção de mundo.

Felizmente o uso das redes sociais e o trabalho da imprensa têm funcionado como canais de denúncia dessa forma de pensar e agir desumana e ilegal. É necessário continuar denunciando porque apesar de alcance limitado, temos leis que coíbem tais práticas. 

O Papa afirmou, por ocasião da morte de George Floyd nos Estados Unidos: “não podemos tolerar nem fechar os olhos diante de nenhuma forma de racismo ou de exclusão e pretender defender o caráter sagrado de toda vida humana”. Para os cristãos enfrentar o racismo é compromisso de fé e de fidelidade ao Filho de Deus. Não é possível ignorar uma realidade tão negadora da dignidade humana.

Todavia, é necessário avançar para além da denúncia e punição.  É importante um reposicionamento cultural. No passado, o racismo e as atitudes correlatas foram naturalizados, ou seja, enraizados na sociedade como se fossem normais e ajudaram a sustentar o projeto escravagista.

Essa forma de conceber as relações penetrou na índole da maioria dos brasileiros, somada a uma visão elitista e patrimonialista da sociedade. Resulta a falsa concepção de que, pelo fato da pessoa não ser negra ela seja melhor, como dito acima, e também o fato de que por pertencer a uma classe e ter bens, também a faz melhor, inclusive acima da lei.

Por outro, lado se difundiu-se fartamente o “mito da democracia racial”, segundo o qual o Brasil era uma grande democracia de raças e culturas, onde todos viviam de forma harmônica articulando as diferenças sem maiores conflitos. Os fatos da história, sobretudo a desigualdade econômica mostrada em dados que coloca os negros entre os mais pobres desconstrói tal mito. 

Cabe insistir que racismo é muito mais pernicioso que uma simples ofensa moral à pessoa devido a sua pertença étnico-cultural. Isto está tipificado no código de lei como racismo ou injúria racial passível de punição.

O racismo, que sustentou o modelo de produção escravagista no passado, hoje sustenta a desigualdade econômica. Deve certamente inquietar um olhar crítico os dados sociais e econômicos que colocam a população negra, maioria segundo IBGE, em percentuais e também em situação de vulnerabilidade social. Frisa-se que racismo é um grande impeditivo para que os negros e negras ascendam socialmente (DAp 533).

Um jovem negro ou uma jovem negra pode ter todos os méritos e dons, virtudes e potencialidades, contudo o fato de serem negros torna a sua jornada mais árida e isso é experimentado no cotidiano.

É ingênua a leitura de que a meritocracia é fator de ascensão para um jovem. Infelizmente esse discurso ainda tem muitos adeptos.  Muito mais forte e potente que a meritocracia está o racismo espalhado na sociedade e em nossas instituições.

Contudo, a face mais perversa do racismo não está nos impeditivos para os homens e mulheres negros colocarem seus dons a serviço da sociedade.

Ela está na ameaça à vida, ao direito de completar o ciclo vital. No Brasil o racismo, matou, mata e continua matando. E as formas de morte são variadas. Por isso, é tão perverso.

Tal condição exige da população negra não só a celebração do dia 20 de novembro, que tem um caráter simbólico imenso, mas também reforçar a luta contra o racismo. E, no caso, o grande desafio, diante do recrudescimento visível das relações, está em ampliar o leque de apoios para além dos grupos afeitos.

Hoje é pautada a necessidade de não apenas não se compreender como racista, mas ser antirracista.

De um posicionamento de acomodação migra-se para uma atitude de reação. Os fatos do cotidiano cobram tal atitude.  O dia 20 de novembro cobra dos brasileiros de boa vontade essa convicção.

Autor: Pe. Ari Antonio dos Reis

Grupo de Pesquisa Negritude e Teologia – Itepa Faculdades

Você gostaria de receber o mesmo tratamento que os negros recebem?

Jeferson Tenório, escritor, professor e pesquisador brasileiro, escreveu mais esta importante reflexão sobre dia 20 de Novembro, Dia da Consciência Negra, propondo aos leitores e leitoras que vista a pele dos negros como um exercício de compreensão sobre a vida que levam e sobre o tratamento que os mesmos recebem da sociedade. Sua coluna foi publicada no dia 15/11/2022 no Jornal Zero Hora.

“Se sua resposta for “não” é porque você tem consciência de como os negros são tratados no Brasil.

Mais uma vez nos aproximamos do 20 de novembro, o Dia da Consciência Negra. Um dia de reflexão proposto pelo poeta gaúcho Oliveira Silveira.

Proponho o seguinte exercício: vista a minha pele enquanto você me lê.

Imagine que você está preparando uma janta e lembra que não tem um item importante da receita. Você pensa em ir ao supermercado com a roupa que está. Mas antes, passa pelo espelho. Não acha bom sair de qualquer jeito. Precisa estar bem vestido. Troca de roupa. Caminha pelas ruas, são quatro quadras apenas. Logo à frente, uma senhora desconfiada olha para atrás, você não quer que ela ache que você é um suspeito que vai assaltá-la.

Decide atravessar a rua. Mais adiante, um carro da brigada passa por você. É um momento tenso, porque você lembra das 15 vezes que foi abordado apenas por ser negro.

Quando entra no supermercado, olha para o segurança e dá “boa noite”. Ele te olha de volta, mas não responde. Você está com pressa, mas não pode ser apressado. Sabe que não pode simplesmente pegar um produto com rapidez e ir para o caixa. Você precisa parecer inocente. Porque você já é naturalmente suspeito. Sua tarefa é sempre provar o contrário. Provar que não é um criminoso, que só quer terminar sua janta.

E se por um acaso não encontrar o item, você não pode simplesmente sair. O segurança vai desconfiar, vai achar que foi ali para roubar. Entre os corredores, você vê o mesmo segurança atrás de você. Fica na dúvida se está sendo seguido. Acaba levando um produto qualquer para não acharem que furtou algo. Vai para o caixa, paga e depois passa pela porta com receio de que aqueles detectores apitem por qualquer motivo e seja acusado de roubo.

Descrever esta cena cotidiana me faz pensar que tipo de mentalidade é essa, que tipo de imaginário tão fundante e profundo que se instalou em nossa psique social e de lá nunca mais saiu? Que tipo de imagem é essa que não se desfaz, que não se transforma em alteridade?

Que tipo de relação cruel e violenta se criou em torno da cor da pele? Que tipo de sociedade é essa que teima em julgar pela aparência?

O processo colonialista foi tão traumático que parece ter moldado nosso comportamento para sempre.

Então, se você sabe como os negros são tratados todos os dias é porque sabe que o racismo existe e que o problema é seu também”.

Autor: Jéferson Tenório

Episódios de racismo em escolas mostram face mais cruel do extremismo bolsonarista

No mês que se tornou uma referência para atividades que inspiram a luta e a resistência do povo negro, que comemora o Dia Nacional da Consciência Negra no dia 20 de novembro, cenas de extremismo após a vitória do ex-presidente Lula (PT) nas eleições deste ano tomaram conta de rodovias e escolas.

Nas estradas e vias públicas foram feitos atos antidemocráticos questionando a derrota de Jair Bolsonaro (PL) com muita violência e desumanidade – até grávidas em trabalho de parto foram impedidas de passar. Nas escolas, as vítimas da intolerância são os negros e os nordestinos.

“Apesar desses ataques, esse 20 de novembro é o 20 de novembro dos últimos seis anos em que a gente vai, enfim, respirar”, diz a professora da rede pública do Estado de São Paulo e secretaria de Combate ao Racismo da CUT nacional, Anatalina Lourenço, se referindo a vitória de Lula que, segundo ela, foi uma vitória da população negra e dos movimentos sociais.

“Nós conseguimos respirar e vislumbrar a possibilidade de garantia da vida”, diz citando o discurso de vitória feito por Lula em São Paulo, como um discurso em que ele assume uma responsabilidade na luta contra o racismo.

Na Paulista, Lula disse que “o racismo é uma doença que nós precisamos extirpar do nosso país!”, e acrescentou: “Não é possível! Deus nos fez iguais, e não é possível que alguém seja tratado como inferior só porque não tem a cor branca. Não há nenhum branco melhor do que nenhum negro, e não há nenhum negro melhor do que nenhum branco. Nós somos iguais”, disse o presidente eleito.

Racismo e xenofobia nas escolas

Depois das eleições, foram registrados vários episódios de xenofobia e, principalmente, racismo, em escolas de elite do Sul e Sudeste do país, aumentando ainda mais a preocupação de educadores e movimentos negros com a discriminação racial no Brasil.

Armados de uma conduta extremamente agressiva, alunos de algumas escolas de classe média alta protagonizaram, de forma escancarada, casos em que o ódio e o preconceito, característicos dos apoiadores inflamados de Bolsonaro, contra estudantes negros.

Em Valinhos, interior de São Paulo, no ‘tradicional’ colégio Visconde de Porto Seguro, um casal de irmãos, negros, tem sido vítima há tempos de racismo. Com a eleição de Lula, no domingo (30), um deles, o garoto Antônio, de 15 anos, acabou sendo adicionado em um grupo de WhatsApp de alunos da escola, denominado “Fundação Antipetismo” em que as mensagens trocadas eram de cunho não só racista, mas também de apologia ao nazismo.

Outro caso, em Porto Alegre (RS), estudantes do Colégio Israelita Brasileiro fizeram, às gargalhadas, uma live no TikTok com xingamentos a pobres, cuja maioria (72%) é de negros, e nordestinos, “culpando-os pela vitória de Lula”.

Em Florianópolis, a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) afirmou ter recebido uma carta de cunho nazista e racista dizendo que “gays, negros, mulheres femininas, gordas e amarelos” serão “destruídos”. A carta é assinada com as iniciais SS (de SchtutzStafell, a polícia do Partido Nazista alemão) e contém entre outros, ataques à população negra.

“Mulher preta nem para carregar filho serve. Lugar de preto é trabalhando na roça, não em faculdade”, diz trecho da carta.

A raiz do fascismo

Mais da metade dos brasileiros (56%, segundo dados do IBGE de 2020), é de negros e negras. No entanto, a sociedade ainda mantém conceitos predominantes colonialistas que fazem dessa população uma camada oprimida e sem os mesmos acessos a políticas públicas como educação, ‘reservados’ à população não negra. Portanto, essas manifestações nas escolas revelam que a luta antirracista deveria estar no centro dos debates da sociedade – da economia à segurança pública, passando por diversos temas como a saúde.

Na educação, por exemplo, a defesa de políticas essenciais como a implementação de leis como a 10.639/1996 que estabelece a obrigatoriedade do ensino de “história e cultura afro-brasileira” nas grades curriculares dos ensinos fundamental e médio seria uma frente eficaz de combate ao racismo. Quem afirma é Anatalina Lourenço.

“É claro que nessas escolas privadas, você tem uma classe média e tem os ricos. Mas tem também uma classe média que acha que é rica e vai reproduzir todo o mecanismo do racismo presente na sociedade. E a opressão começa pela discriminação racial”, diz a dirigente em referência aos alunos terem dirigido suas agressões a estudantes negros.

Somado a isso está o conceito de que o inimigo, para esses agressores, “é o grupo que que foi estigmatizado como inferior e não pode estar na mesma esfera que eles, os privilegiados”, ela complementa.

“A luta contra o racismo é na sua essência uma luta contra o fascismo e o nazismo. É uma luta contra toda e qualquer forma de opressão e discriminação, que prima pela inclusão e que garante a vida” – Anatalina Lourenço.

Anatalina reforça que a luta contra o racismo é uma luta pela vida e desde o golpe contra a presidenta Dilma Rousseff (PT), que levou a extrema direita ao poder e destruiu todas as políticas de inclusão e ações que vinham sendo implementadas no país para o combate à discriminação racial, “sobreviver” foi a palavra de ordem da população negra.

“Passamos os últimos seis anos desde o golpe tentando sobreviver, tentando garantir a vida e garantir alguns direitos, garantir saúde mental também. E durante todo esse tempo de luta, inclusive por democracia, os episódios de racismo foram cada vez mais frequentes”, ela diz

A dirigente afirma ainda que os assassinatos de negros e negras não só continuaram como crescerem. Dados do 16° Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicados em julho deste ano mostram que 78% das mortes violentas intencionais foram de negros.

“Os episódios recentes nas escolas só reforçam que precisamos estar atentos e precisamos incorporar a luta antirracista como uma luta primordial de garantia da vida. Quem está desempregado, no trabalho precarizado, quem passa fome e quem morreu de covid-19 é a população negra e é a população alvo desses ataques que temos vistos após o resultado das eleições”, diz Anatalina Lourenço.

Para a dirigente, em seu discurso, Lula “apontou os problemas cruciais para além da economia e da miséria que atingem a população negra, permitindo que a gente possa vislumbrar, de fato, políticas radicais antirracistas”.

Entre as ‘políticas radicais’, ela cita uma reformulação das cartilhas seguidas pelas políticas de abordagem violenta e estereotipagem de pessoas negras, tratando-as acima de tudo e de antemão, como ‘suspeitas’. Cita também políticas de gestão empresarial que reflitam a realidade brasileira. “Se uma empresa tem 10 gerentes, por exemplo, ao menos a metade deveria ser negra, já que somos mais de 50% da população”, ela pontua.

Ações desta natureza, ela finaliza, evitariam que extremistas se sentissem no direito de agredir e propor a morte de pessoas, no caso os negros, em nome de uma suposta ‘liberdade de expressão’, como costumam justificar.

Fonte: CUT Brasil (09/11/2022)

Publicado originalmente em: https://cpers.com.br/episodios-de-racismo-em-escolas-mostram-face-mais-cruel-do-extremismo-bolsonarista/

Privilégios reconhecidos, preconceitos denunciados

Somente quem tenha envergadura moral e ética é capaz de abrir mão de algo que lhe seja vantajoso, pois entende o privilégio sempre priva alguém de seus direitos.

O que distingue um privilégio de um direito legítimo? Imagine uma gangorra. Se de um lado dela estiver o direito, do outro estará o dever, e ambos se equilibram. Tanto um, quanto outro deve ser aplicado indistintamente a todos. Mas se de um lado da gangorra estiver o privilégio, do outro estará o preconceito. Onde impera o direito, todos ganham. Mas o privilégio contempla apenas alguns.

Onde houver privilégios e preconceitos, haverá clamor por direitos.

A equação pode parecer simples, mas envolve muitos fatores. Quem estaria disposto a abrir mão de seus privilégios? Aliás, muitos nem sequer os reconhecem. Por estarem tão acostumados a usufruí-los, parece-lhes algo absolutamente natural.

Nem todo privilégio pode ser renunciado, porém, deve ser constantemente denunciado até que se torne motivo de constrangimento e não mais de vanglória por parte de quem o desfruta.

Paulo, por exemplo, poderia se considerar um privilegiado por causa de sua confortável posição social. Em vez disso, ele mesmo denuncia seus privilégios, considerando-os como excremento, o resultado final de um processo de promoção e manutenção da segregação.

Na apresentação de seu invejável currículo, ele diz integrar a linhagem de Israel a quem pertence as promessas divinas, a tribo de Benjamim de onde procedeu seu primeiro monarca, a mais popular facção política e religiosa de seu tempo, os fariseus, além de ser defensor intransigente das tradições, da lei e da ordem, o que levou-a a perseguir vorazmente os cristãos. “Mas o que para mim era lucro”, arrematou, “considerei perda por amor de Cristo; sim, na verdade, tenho também como perda todas as coisas pela excelência do conhecimento de Cristo Jesus, meu Senhor; pelo qual sofri a perda de todas estas coisas, e as considero como excremento, para que possa ganhar a Cristo” (Filipenses 3:4-8).

Qualquer coisa que nos faça sentir melhores que os demais deve ser ressignificada. A graça nivelou-nos a todos de modo que ninguém é melhor que ninguém. Nenhum privilégio tem o reconhecimento dos céus. Todos são frutos da injustiça.

O que seria considerado privilégio em nossa sociedade contemporânea? Ser branco? Homem? Hétero? Cristão (católico ou evangélico)? O que nos confere vantagens imediatas com relação a outros? Se não podemos reverter isso, alterando nossa posição privilegiada, estaríamos dispostos a abrir mão das vantagens que dela decorrem?

Não posso, por exemplo, alterar minha orientação sexual. Sou hétero. Isso é inerente à minha condição existencial. Mas entendo que isso me confere vantagens sobre os homossexuais. Refiro-me, obviamente, a vantagens do ponto de vista social. Não conheço ninguém que tenha sido despedido do emprego sob a alegação de ser hétero. Mas conheço muitos homossexuais que têm sérias dificuldades de se posicionar no mercado de trabalho devido à sua orientação sexual.

Se quero “ganhar a Cristo”, como disse Paulo, devo expor meus privilégios, denunciando-os e considerando-os perdas.

E por que deveríamos considerá-los perda, se na verdade, se constituem em vantagem e lucro? Pelo simples fato de outros saírem perdendo devido às vantagens advindas de nossa posição privilegiada. Não posso mudar a cor da minha pele.

Mas tenho o direito de não me sentir nada confortável pelo fato de ser preferido numa entrevista de emprego por ser branco. Não devo endossar preconceitos só porque não sou vítima dos mesmos. Tampouco devo apoiar privilégios por me beneficiar deles.

Outro exemplo pode ser encontrado nas páginas do Antigo Testamento. Trata-se do episódio em que Davi, depois de haver cometido adultério, mandou chamar a Urias, o esposo traído que estava no campo de batalha, para outorgar-lhe um privilégio inusitado. Evidentemente, o objetivo de Davi não era a concessão de um privilégio a um dos seus mais leais soldados, e sim, um ardil para tentar livrar sua própria cara. Quando Urias chegou ao palácio, Davi lhe deu uma merecida folga para que pudesse passar a noite na companhia de sua esposa. Com isso, a embaraçosa gravidez de Bate-seba seria atribuída ao próprio marido, e Davi, seria poupado de uma exposição desnecessária que poderia até destituí-lo do trono.

Mas, surpreendentemente, Davi se vê diante de um homem de envergadura moral e ética superior à sua. Como ele poderia desfrutar das benesses e prazeres do leito conjugal sabendo que seus companheiros seguiam arriscando suas vidas no campo de batalha? Sua ética ilibada fez com que abrisse mão do privilégio e voltasse para o front. Nem mesmo embriagando-o, Davi conseguiu dissuadi-lo de reunir-se a seus companheiros. Aquela havia sido a primeira vez que Davi ficara em casa enquanto seus homens lutavam pela expansão do seu reino.

Urias, porém, recusou a oferta. Sentindo-se encurralado, Davi recorreu ao mais covarde expediente. Enviou pelas mãos de Urias uma carta a Joabe, seu general, para que este o pusesse à frente da batalha, de modo que, quando os inimigos avançassem, os demais soldados recuassem e o deixassem sozinho. Morrendo Urias, Davi se livraria de um grande problema. A confiança de Davi na idoneidade de Urias era tão grande que em momento algum ele considerou que ele pudesse abrir a carta e se deparar com sua sentença de morte (2 Samuel 11:7-17). Funcionou. Mas isso custou muito caro a Davi. Deus não o deixaria impune.

Somente quem tenha envergadura moral e ética é capaz de abrir mão de algo que lhe seja vantajoso, pois entende o privilégio sempre priva alguém de seus direitos.

Se me vejo detentor do direito de usufruir de certos privilégios, passo a olhar para outro como quem está abaixo de mim. Isso se chama preconceito.

Geralmente, privilégios são concessões, enquanto direitos são conquistas. Ninguém concede direito a ninguém. O máximo que se pode fazer é reconhecer o direito e buscar protegê-lo. Diferentemente de quem goza de um privilégio, aquele que desfruta de um direito não pode negá-lo aos demais. Isso seria uma contradição.

Moisés, por exemplo, abriu mão de sua posição como príncipe do Egito para sofrer ao lado do seu povo. O próprio Jesus abriu mão de recorrer aos seus atributos divinos, esvaziando-se, assumindo a posição de servo daqueles que deveriam servi-lo. Que Ele seja nosso maior exemplo, de modo que, jamais nos estribemos em nossa posição social, religiosa, eclesiástica, étnica, intelectual, ideológica; mas que nos posicionemos pelos direitos de todos, sem discriminar quem quer que seja.

Autor: Hermes C. Fernandes

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