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A morte dos que sonham

Marielle tombou antes de ensinar aos homens de
lata como ter um coração de carne. Mulher e negra regou a
terra com sangue antes de ensinar ao espantalho a
importância de um cérebro.

 

“Sou fruto do pré-vestibular comunitário”, disse Marielle Franco para lembrar quando anos atrás se engajou num cursinho no complexo da Maré, uma das maiores favelas do mundo, para ter alguma chance nos vestibulares mais concorridos do Rio de Janeiro.

Passou o microfone para outra mulher negra da Roda de conversa Mulheres Negras Movendo Estruturas. Pouco tempo depois, sua trajetória de ativista negra inundaria as redes em choque pelo horror: a vereadora do PSOL, 38 anos, a quinta mais votada no Rio em 2016, havia sido assassinada a tiros na região central do Rio de Janeiro sob intervenção federal militar.

História e trajetória de Marielle Franco.

Todo menino ou menina tem ao menos um sonho. A paz do mundo, uma roseira de esperança no quintal, um caderno de justiças para ser desfolhado na precisão. Mas, há meninos e meninas que sonham comprar pedaços do mundo.

Há meninos e meninas que querem vender roseiras e ser donos de canteiros. Há meninos e meninas que sonham ter fábricas de cadernos. Não podemos ser ingênuos. Quase sempre uns sonhos precisam vencer os outros. Isso pode tornar-se, às vezes, questão de vida ou morte.

O relógio faz meninos e meninas homens e mulheres. Crescidos, expõem para venda seus sonhos redondos. Fartas bandejas.

Verdade, alguns não os vendem. Oferecem-nos gratuitamente para famintos. Quem vende sonhos sonhou tornar-se um vendedor. Quem apenas os oferece sonhou ser um doador.

O problema é que os doadores de sonhos estragam o mercado dos vendedores. Isso pode tornar-se, às vezes, questão de vida ou morte.

Marielle, negra, saiu da favela não para ser exemplo de meritocracia, mas como exceção para olhar aos seus como quem salva. Como Doroty tinha sonhos além do arco-íris descolorido dos negros, pobres e favelados.

Entrevista de Marielle Franco ainda em 2016 sobre a sua eleição. Muito interessante!

Marielle tombou antes de ensinar aos homens de lata como ter um coração de carne. Mulher e negra regou a terra com sangue antes de ensinar ao espantalho a importância de um cérebro. Só os leões tiveram uma lição de coragem. Pena que seus dentes a calaram antes da última frase.

Ao cerrar os olhos, Marielle olha com ternura o buraco esquerdo em nossa lata. Marielle morta profetiza nossas cabeças descerebradas. Mas, se quisermos, poderemos apreender sua coragem.

Eu só não desculpo Marielle por sua ingenuidade. Devia ter desconfiado. Além do arco-íris, o mundo não está preparado pra ser colorido. Marielle, você exagerou na dose de fé e esperança!

Quem precisa de políticos anjos?

Palácio do Congresso Nacional

“Não somos anjos em voo vindos do céu,
mas pessoas comuns que amam de verdade.
Pessoas que querem um mundo mais verdadeiro,
pessoas que unidas o mudarão”.
(Gente, de A. Valsiglio/Cheope/Marati).

 

Muitos de nós gostaríamos que os políticos fossem anjos. Se assim fosse, estariam imunizados contra todas as situações e oportunidades que não promovem o bem comum e a prática da bondade. Mas os políticos, assim como cada um de nós, não são anjos e sim, seres humanos, ou seja, também não são perfeitos.

A política não é um espaço para a ação de anjos, mas é o espaço de disputa dos mais diferentes interesses que estão em jogo na sociedade. A disputa destes interesses é legítima, desde que os mesmos estejam sempre bem explicitados, para que todos saibam o que move os candidatos que se propõem a representar os interesses da população.

As contradições no exercício do poder estão sempre presentes nos movimentos que operam a política.

Os políticos posicionam-se a partir das conjunturas e contextos de cada momento, das articulações e negociações que são possíveis para aprovar os projetos que estão em pauta, das forças sociais que estão mobilizadas em cada momento histórico. É natural que joguem com seus interesses pessoais, mas é inaceitável, numa democracia, que estes interesses sobreponham-se aos interesses coletivos.

O mais intrigante e perigoso em nossa cultura de não-reflexão é que abrimos mão das responsabilidades para com a gente e para com o mundo.

Política sem reflexão

As agremiações partidárias (partidos) expressam e materializam os projetos de sociedade que estão em disputa no País. Estes projetos traduzem-se em propostas concretas de como governar, de como construir as políticas públicas, de como distribuir a renda, de como construir as oportunidades, de como desenvolver uma nação.

Há então que se discernir a diferença entre votar em pessoas ou votar em projetos, que embora “sempre juntos e misturados”, traduzem-se em diferentes consequências. “O voto não tem preço, mas tem consequências”. Por isso mesmo, é possível contemporizar as posições e atitudes pessoais dos candidatos com os projetos que os mesmos representam, observadas as circunstâncias e as intencionalidades em que ambas acontecem.

Defenda a Democracia. Ela é civilizatória, ela é progressista, ela é pacificadora, ela é de todos e para todos!

Democracia, uma escolha civilizatória?

Os candidatos não representam a si próprios, mas representam interesses que estão em disputa na sociedade. Talvez fosse melhor sermos governados por anjos, seres sobrenaturais e imunes a qualquer interesse mundano. Como não é possível, cabe a cada um e cada uma avaliar o projeto com o qual cada um dos candidatos está comprometido. Neste projeto, o compromisso com a vida humana e com a sociedade é o bem maior que deve ser resguardado.

Diferenças entre caravanas de Lula e Bolsonaro

As posturas radicalmente diferentes dos dois blocos
constituem indicadores importantes sobre o Brasil que temos
e, o mais assustador, a possibilidade de radicalizá-lo
ainda mais no futuro.

 

A caravana de Lula pelo Rio Grande do Sul ainda vai produzir muitos trabalhos teóricos sobre o “desnível” de muitos grupos militantes para viver republicanamente em um país democrático.

Historicamente, a direita sempre foi violenta e covarde. O seu alimento é o ódio e suas próprias frustrações. As arruaças, seu prazer. O que vemos é o alarido autoritário, a agressão gratuita, a negação de direitos elementares e constitucionais.

Estas turbas que andam pelas ruas, alimentando as redes sociais, são marionetes de fascistas de longa história, que agora entram em êxtase com os ecos dos filhotes de suas ninhadas. São matilhas deste lúmpen ignorante e violento criado pelo autoritarismo. Está tudo com os conformes da história.

São as classes sociais que dominam sociedades injustas e autoritárias, que criam a la farta os grupos abjetos de capangas, jagunços, lacaios, militantes abandidados, e correntes de ódios para impedir os direitos dos outros.

Há uma grande diferença com a esquerda em geral, com os republicanos e democratas.

Bolsonaro também fez a sua caravana recentemente pelo Rio Grande do Sul. Todo mundo conhece a sua história macabra e seus desejos de retorno do autoritarismo, negação de direitos republicanos, conquistas harmonizadoras das sociedades propostas pelos direitos humanos.

A caravana do Bolsonaro foi recebida efusivamente pelos seus correligionários. Fez sua pregação. Destilou ódios e mostrou sua vaga plataforma de um paizinho mixo de caserna. Todos que foram vítimas do que ele defende não foram perturbá-lo fisicamente e nem cercear o seu discurso.

Os democratas e republicanos, a esquerda em geral e os movimentos sociais, inclusive com poder de mobilização muito maior que os apoiadores de Bolsonaro, não fizeram um só gesto para calá-lo ou impedir a sua mobilização. Vale lembrar que estes movimentos anti-Bolsonaro ultrapassam em muito o petismo.

Bolsonaro passou para deslumbre de seus partidários, deixou outdoors semeados com sua figura patética e ameaçadora; enormes audiovisuais reproduzem seu semblante ameaçador nas paredes dos prédios sem que tenha recebido uma pedrinha sequer…

As posturas radicalmente diferentes dos dois blocos constituem indicadores importantes sobre o Brasil que temos e, o mais assustador, a possibilidade de radicalizá-lo ainda mais no futuro.

O que o anti-lulismo está fazendo é somente a antecipação de momentos ainda mais tensos e violentos. E tem revelado o quanto é torpe nas relações sociais e humanas, o quanto trabalha contra a formação de uma sociedade que divirja sob preceitos republicanos e democratas.

 

Amor, dedicação e luta por uma educação transformadora

Professora Emérita 2017
é referência para a rede municipal de Passo Fundo
e para comunidade escolar na qual atua.

 

O ano de 2017 foi marcado pelo reconhecimento da dirigente do CMP Sindicato, vice-presidente do Conselho Municipal de Educação e diretora da EMEF Antonino Xavier Vera Lúcia Mondin dos Santos, que recebeu das mãos do vice-prefeito João Pedro a distinção de Professor Emérito, conferida pela Prefeitura de Passo Fundo.

Com uma trajetória marcada pelo afeto com os alunos e colegas, Verinha desenvolve um trabalho que consolidou os laços da comunidade em torno da escola em que atua desde a nomeação na rede municipal, em 1992.

Atuante não só na vida escolar e na comunidade, como também nas lutas travadas pela qualidade da educação pública e valorização do magistério, a professora foi homenageada pela trajetória marcada pela luta para a melhoria das condições físicas da escola e pela efetiva mudança que conseguiu promover na vida de diversas gerações de alunos. Alunos, colegas e comunidade também prestaram homenagens à professora através de apresentações artísticas e da entrega de flores. Na oportunidade, o Secretário de Educação Edemilson Brandão reforçou que Vera foi escolhida por ser um exemplo de luta pela educação.

 

Pedagogia como instrumento de transformação

Graduada em Educação Física, antes de prestar o concurso do município, atuou nas redes particular e estadual, mas foi na rede municipal, especificamente na EMEF Antonino Xavier, que Vera passou os últimos 25 anos.

Dentre os orgulhos que Vera demonstra durante a conversa que conta sobre sua trajetória, está a dedicação com a escola. A relação que vai além do vínculo de trabalho é envolvida de amor e afeto, além do cuidado no desenvolvimento de uma pedagogia transformadora, que já colhe como fruto a união da comunidade.

“A razão da escola são os alunos, aqueles que estão ali. Então, se você não tem uma proposta político-pedagógica que sirva, a escola se torna inoperante. Não se torna uma escola boa de ir, uma escola que possa unir a comunidade e nós percebemos isso numa época que a comunidade sofria com a violência, a pobreza absurda e o alto índice de analfabetismo”, relata.

Na década de 90, a AXO era uma escola despreparada para a comunidade, sem estrutura. Além dos buracos no chão, vidros quebrados e ratos que corriam pela antiga Brizoleta, não existia uma escola diferenciada, proposta para a comunidade. Foi quando a equipe da qual Vera já fazia parte percebeu que aquela escola não servia para aquelas famílias: era urgente que a escola tivesse a identidade daqueles pais e alunos.

Há cerca de 15 anos, a escola desenvolve uma pedagogia diferenciada. Primeiramente, com a pedagogia do amor, depois a pedagogia do abraço, que foi quando se explicou que a escola era para acolher, não era uma inimiga, seguido pela pedagogia da emancipação, em que se continuou o processo que estava trazendo resultados.

“Se está lá e não ajuda para melhorar a vida daquelas pessoas, para que serve? Com o tempo, a estrutura física foi melhorando, mas não adianta estrutura se não tiver acolhida e espaço para a comunidade vir e se sentir acolhida. Depois desse processo, a comunidade se sentiu valorizada tanto na questão pedagógica, de acolhida quanto na questão de estrutura, e se sentiu parte da escola, criou um laço conosco. Hoje nossos ex-alunos trazem seus filhos para estudar aqui na escola, porque eles sabem desta relação”, conta orgulhosa.

“Acho que uma escola tem que ser afetiva. O laço com o aluno e a comunidade tem que ser real. Acredito que uma escola acolhedora, alegre, afetiva faz a diferença na vida das crianças. Educação é oportunidade. Eles precisam de espaço, uma luz, um caminho, ter uma opção, enxergar que existem outras possibilidades”, salienta.

 

De luta!

Com a fala mansa e amorosa, Vera buscou diversas melhorias para a escola em que sempre atuou. Defensora ferrenha da educação pública de qualidade, desempenha um importante papel como vice-presidente do Conselho Municipal de Educação e integrante de espaços como o Fórum Municipal de Educação, por exemplo.

Desde o início da sua carreira, Verinha atua ativamente das lutas pelas pautas do magistério e foi uma das defensoras da criação do Sindicato dos Professores Municipais. Foi uma das idealizadoras da transformação do CMP em Sindicato representativo do magistério municipal. “As lutas são constantes. Eu acredito que autonomia tanto da rede pública quanto da rede privada precisa acontecer. Nós precisamos ter uma questão geral que são as leis, a LDB está aí, e essa autonomia de cidades e localidades precisa existir. Uma escola não pode ser igual à outra, uma criança não é igual à outra, as comunidades precisam de escolas que sirvam para as suas necessidades”, destaca.

Vera lembra que o magistério é uma categoria massacrada, que enfrenta diversas dificuldades para atuar, como as famílias que não vão até a escola e deixam que decisões sobre a vida dos alunos tenham de ser tomadas pela escola, que fica sozinha.

“Nos sentimos abandonados em várias questões políticas da atuação do professor, mas precisamos continuar tendo esperança, oferecendo esse caminho. Porque a escola é a única trincheira de civilidade que eles ainda têm, em várias comunidades, e a nossa é uma delas. Sempre fui em busca dos direitos dos alunos, dos professores, dos pais, da comunidade, todas as questões que são de direito são bandeira de luta”, desabafa.

A professora aponta que, se você quer um local onde as crianças possam ter um exemplo e onde possam contar com uma estrutura acolhedora, esse caminho é a escola. Para ela, as escolas de periferia devem oferecer tudo que as crianças dali têm direito.

Nessa luta por educação pública de qualidade e luta pelos direitos da categoria, Vera destaca que o CMP Sindicato sempre teve atuação direta e as categorias precisam de quem as represente. “Alguém precisa estar à frente desta luta. Precisamos de pessoas que lutem nestas questões da vida funcional do professor municipal, principalmente quando o funcionalismo público tem sido acusado de tantas crises. Nós somos lutadores por uma sociedade melhor e eu estendo essa homenagem a todos os meus colegas da rede municipal, a todos os dirigentes do CMP Sindicato, Conselho Municipal de Educação e por todos que lutam por uma educação melhor, uma educação pública de qualidade”, disse.

 

Dança da vida

Um dos projetos que marcaram a carreira da professora foi o “Criança na Dança da Vida”. Incentivada pelo CMP, que na época ainda era associação, Vera e outra colega montaram uma apresentação de dança com os alunos da rede. O espetáculo foi um sucesso e, no ano seguinte, a Secretaria Municipal de Educação abraçou o projeto, subsidiado pela SME, onde, duas vezes por semana, as professoras cedidas trabalhavam dança com alunos de diversas escolas. Esses alunos, por sua vez, levavam o aprendizado para suas escolas multiplicando o conhecimento passado por Verinha.  Anos depois, várias alunas do projeto desenvolveram suas carreiras voltadas para atividades da dança ou educação física, área em que atuam até hoje.

 

Esta reportagem foi produzido pela jornalista Ingra Costa e Silva e publicada no Jornal Impresso Educação e Debate do CMP Sindicato de Passo Fundo, RS.

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As muitas formas de dizer a violência

Se queremos a paz no cotidiano,
preparemo-nos para a justiça e não para o
aumento de prisões ou do direito de portar armas de fogo.

 

Os medievais diziam que erramos de várias formas, mas há uma única forma de fazer a coisa certa. Só se acerta o alvo de um único jeito, mas há infinitas possibilidades de se errar.

Algo parecido acontece com as múltiplas cópias possíveis de serem feitas a partir do original. O original é só um, as cópias são muitas. Essa ideia é atraente, mas é falsa.

Essa postura é reflexo de um platonismo tardio que pensa a partir da metafísica do Um, do Bem, do Justo em si. Aristóteles já havia confrontado Platão e dito que o bem, o verdadeiro, o belo, o ser, enfim, se diz de várias e legítimas formas. Mas isso tudo é conversa de filósofos metafísicos e a questão que interessa, aqui, é mais pé não chão, mais terra e menos nuvens. Sejamos, pois, fieis à terra, como diz Nietzsche.

Gabriel o Pensador – Paz – Pela paz a gente berra

Interessa-me, na continuidade temática da Campanha da Fraternidade 2018, Fraternidade e Superação da Violência, sobremaneira, a ideia Aristotélica de que o ser se diz de muitas formas.

No caso específico da violência, a violência se faz de muitas formas. A mais perceptível é a direta e ostensiva que se traduz em “atos violentos”. A violência direta e cotidiana, traduzido em atos violento, é aquela violência nua e crua, a violência de uma arma na mão, de um soco na cara, de uma facada no peito etc.

Cotidianamente essa é a violência que nos afeta, nos mobiliza, nos preocupa. Ela de fato é uma forma do ser da violência e não há como negar a sua vigência e crescimento à luz do dia do nosso mundo da vida.

As políticas públicas, na área da segurança, têm se concentrado nessa forma de violência, numa verdadeira maratona na modalidade “secar gelo”, punindo, fichando e colocando na cadeia os agressores.

Quando a população clama por segurança e a imprensa estimula construções de cadeias, mesmo que para isso teremos que fechar escolas, é para enfrentar, bem ou mal, esse tipo de violência.

Contudo, sem ampliar o arco das violências, cometemos o auto engano de tomar a parte pelo todo. E o todo, quando se trata de violência, remete, no mínimo para outras duas formas, além da direta e de atos violentos.

Essas duas formas são a “violência institucional” e a “cultura da violência”. Concentremo-nos, aqui, na violência institucional.

“A violência direta é a forma mais extrema de agressão, mas apenas aparentemente é a mais letal”, diz o texto base da Campanha da Fraternidade (p. 21). A mais letal é a sistêmica e institucional. Essa violência não se configura como um fato ou um evento isolado e, por isso, é a violência mais difícil de detectar. É a violência sem rosto, sem autoria direta e só com muita capacidade de percepção podemos dizer: é isso, é aqui.

A violência institucional ou sistêmica, mais do que atos isolados e diretos, são processos sociais, conectados a processos políticos e econômicos, que se sedimentam nas instituições e se apresentem com rosto de naturalidade, quando na verdade, são mecanismos sutis de violência operados e mantidos pela exclusão e pela desigualdade que o sistema capitalista produz e reproduz.

Em meu entendimento não há síntese melhor desse tipo de violência do que a formulada por Brecht quando diz: “Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem” (Bertolt Brecht).

Parafraseando Brecht poderíamos dizer: “De um jovem que arranca o celular das nossas mãos se diz violento, mas ninguém diz violento o sistema que acha natural que as seis pessoas mais ricas do país detenham igual riqueza das 100 milhões mais pobres”.

De passagem poderíamos dizer que a violência direta, aquela que tem rosto, cara, endereço e que se traduz em atos violentos, em boa medida, é efeito da violência sistêmica e institucionalizada, geradora de desigualdades e exclusões de toda ordem.

Ou não é fato percebido que em países nórdicos, onde a justiça distributiva é mais efetiva, a violência direta e cotidiana tende a diminuir drasticamente?

Então, se queremos a paz no cotidiano, preparemo-nos para a justiça e não para o aumento de prisões ou do direito de portar armas de fogo. Sem a superação da violência institucionalizada as soluções de intervenções pontuais serão sempre um “secar gelo” de resultado temeroso.

 

A Paz (Heal the World)

 

Palavras jogadas ao vento

Palavras ao vento. Palavras sem efeito. Fala sem ouvido.
Palavras ao vento são palavras em vão. Palavras vãs não tem eficácia.
O vento é leve. O vento desfaz.

 

Cheguei. Olhei. Sentei. A brisa da manhã já avisa que o sol logo estaria ali. Tinha tudo para ser um dia eficaz. Era Sábado. Março. Observei. Professores sentados ao fundo. Acheguei-me a eles. Mas por que os professores costumam sentar ao fundo de uma reunião. Dia normal gostam dos que sentam a frente? Paradoxo.

O ambiente estava pronto. Cadeiras arrumadas. Quem as arrumara? Em torno de 150 cadeiras. Reunião de pais. A primeira do ano. Recordo-me de que a diretora na semana anterior pediu que para salientar importância do comparecimento dos pais. Muitos alunos novos. O dia chega era 8horas e 10 minutos.

A diretora pega o microfone. Falou e testou o volume do microfone. Pais. Mães. Olhares atentos. Era como se uma autoridade máxima iria falar. E era. Logo o assunto em pauta esteve. Horário. O de sempre. Frisou a diretora e estabeleceu um paralelo da casa de cada um. Em casa pode. Aqui não. Temos de manter uma organização mínima.

Aqui trabalhamos com muitas pessoas que precisam cumprir “hábitos escolares”. Esses. Diferentes dos hábitos de casa. Se em casa o pirulito e o chiclete pode. Aqui não. Eles precisam entender isso. Aqui trabalhamos com “uma cidade”. Se cada um quiser fazer o que bem entende, fica impossível. Se cada um quiser num horário, aqui não pode. Trabalhamos com a necessidade da concentração.

Minha cabeça deu uma reviravolta. Olhei a diretora. Falando. Uma gota de imaginação na minha mente brota. Uma canção era possível compor naquele momento. Meu pensamento viaja. Um papel. Um papel. Não havia. Olhei para o lado. A coordenadora tinha. Pedi. Sentei-me de novo. São 1200 alunos que frequentam a escola. Reportei-me para o local eram 150 cadeiras arrumadas. Algumas vazias. Onde estão os demais pais?

A diretora continuava a proclamar sua palavra. Importante. Quem as ouvia? Palavras ao vento. Quem poderia captá-las? O vento. Que vento?

Os pais e mães atentos. Muito atentos. Será que esses pais eram os que as palavras deveriam ter chegado? Como poderia ter eficácia aquelas palavras. Importantes. Se de 1200 alunos teríamos a presença de 140 pais?

Meu cérebro voltou-se numa reflexão profunda.

Como ser eficiente quando a fala não fala? Quando as palavras não chegam? Palavras ao vento. Palavras sem efeito. Fala sem ouvido. Palavras ao vento são palavras em vão. Palavras vãs não tem eficácia. O vento é leve. O vento desfaz. Tudo o que a diretora falou não chegou. Segundo, estarão os alunos sem a informação. Como manter uma ordem sem com que os interessados não sabem? Onde estarão os demais pais?

Na prática “se colocar no lugar do outro” permite que
você tome conhecimento de algo que vai além da sua percepção.
É se proporcionar entender o outro. Receber o que ele tem a contribuir,
mesmo que baseado na argumentação (e não em juízos de valor)
você tenha que desconsiderar quase tudo depois.

Saber ouvir

Como fazer com que os pais tomem conhecimento sobre o pensamento da escola, se as palavras foram jogadas ao vento? Como tornar o pensamento da escola em ação se o esforço foi em vão?

Garanto que se cada pai tivesse a consciência de que seu filho é um ser humano. Humano. Ser humano. Jamais negaria esse gesto nobre de participar de uma reunião de início de ano no colégio do seu filho que o carinho fala mais alto. São nesses momentos que a gente demonstra a importância que o filho tem na vida da gente. Ele se sente valorizado.

Olha! Eu sou importante, a minha mãe, o meu pai foram à reunião porque eu sou importante. Sabe-se que a vida é corrida. É sábado, tem de se descansar. Porém, filho é pra sempre. Filho é importante. E é dando a importância nas simples coisas que valorizaremos as grandes.

Não adianta quando vier as “datas importantes” rechear as mãos dos filhos de presente. Jamais os presentes. Tudo o que damos financeiramente suprirá os pequenos gestos que dispomos aos seres amados.

O mundo líquido sucumbiu às crianças.
Não criemos crianças consumidoras, criemos crianças fazedoras de coisas.
Na escola ou em casa quase não se ensina mais a fazer nada:
tudo já vem pronto, com manual de instruções.

Tempos líquidos na infância

 

Que passagens fazer na Páscoa?

Celebrar a Páscoa é momento de decisão, de cuidado,
para não deixarmos de lado a presença de Deus e perseguir
durante toda a vida a riqueza, o poder e
os prazeres do nosso Ego.

 

A palavra Páscoa, em sua origem etimológica, significa passagem.

O grande mistério da vida envolve a todos e todas e revela o seu movimento num processo de transformação, que tanto pode ser da matéria quanto do espírito.

Sintamo-nos convidados para participar deste mistério pascal de Cristo, da passagem, que sugere mudanças na vida da gente. O convite é para que vivamos a experiência do Amor.

Eis algumas passagens que todos poderiam experimentar.

  • Passagem da estupidez para a sensibilidade: o coração desse povo se tornou insensível. Não compreende com o coração e não se converte, por isso não se cura.
  • Passagem das brigas para a boa convivência: tudo o que vocês desejam que os outros façam a vocês, façam vocês também a eles.
  • Passagem da ignorância para a sabedoria: “portanto, sede perfeitos como é perfeito o vosso Pai que está no céu”.
  • Passagem da preguiça para a vontade de realizar: quem sabe fazer o bem e não o faz, fica em falta com Deus.
  • Passagem da dúvida para a fé: “E do céu se ouvia uma voz que dizia: Este é o meu filho muito amado em quem ponho toda a minha afeição; ouvi-o”.
  • Passagem da ofensa para o perdão: “Perdoa nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”.
  • Passagem do humano para o divino: “Eu, porém, lhes digo: amem os seus inimigos e rezem por aqueles que perseguem vocês”.

 

Sabemos que todas essas passagens não se dão de forma mágica; exigem de cada um de nós a opção pelo bem. Dizendo de outra forma, é preciso acolher a presença de Deus em nós e revela-la aos que conosco convivem.

O amor de Deus nos salva; no egoísmo nos perdemos. O caminho da comunhão nos fortalece, os caminhos do egoísmo nos desunem.

Celebrar a Páscoa é momento de decisão, de cuidado, para não deixarmos de lado a presença de Deus e perseguir durante toda a vida a riqueza, o poder e os prazeres do nosso Ego.

É preciso bendizer, fortalecer, cultivar, enobrecer nossa alma. Este é o maior presente que cada um de nós pode dar a si e ao mundo. Deixemos a presença de Deus brilhar na gente!

Ódio gratuito não é marca de nossa cidade

“Eu sou gaúcho lá de Passo Fundo e
trato todo mundo com maior respeito”…

 

Manifestar-se contra a presença de alguém numa cidade é aceitável. Sentir-se incomodado com a presença física de uma pessoa é compreensível, haja vista que está em disputa, neste momento histórico do país, se Lula pode ou não pode continuar participando da política.

Disseminar e praticar ódio gratuito contra aqueles e aquelas que ainda o consideram uma liderança e um símbolo de lutas por mais igualdade e cidadania no Brasil, não é nada civilizatório, nem educado, nem faz parte da maioria deste povo ordeiro e trabalhador desta nossa amada cidade. Ainda são resquícios de uma cidade que transita entre ser provinciana e cosmopolita.

Grave mesmo é você usar de força física e bruta para impedir quem quer que seja no seu direito de ir e vir. O que não desejo para mim, não deveria desejar e praticar contra os outros. Grave é você desejar a morte ou a eliminação física de alguém pelo simples fato de você não concordar com ele. Grave é você agredir fisicamente, por meios estúpidos e gratuitos, quem também exerce sua liberdade de opinião e expressão. Grave é você exibir sua estupidez e violência e ser aplaudido por isso. Grave é quando as forças policiais agem tomando posição deliberada de não agir, não permitindo que os direitos de alguns sejam efetivados.

O fascismo deu seu ar de graça neste triste episódio, amplamente divulgado, onde produtores rurais – aqueles mesmos que afrontaram um juiz de nossa cidade com um porrete com a inscrição direitos humanos- celebraram suposta marca pelo impedimento da Caravana de Lula em nossa cidade.

“Mesmo alertado com antecedência e oficialmente sobre a violência programada contra a caravana, o governo do Rio Grande do Sul não impediu que os grupos se formassem nem mobilizou o efetivo policial necessário para conter os agressores.”

Veja mais.

Este contexto fica ainda mais complexo na medida em que autoridades políticas, que nesta hora deveriam propor-se a mediações, fazem justamente o contrário, incitando o povo ao ódio e à intolerância.

Na esteira dos últimos acontecimentos, assistimos a episódios cada vez mais ilustrativos de que estamos vivendo no Brasil um Estado de Excessão, não o Estado Democrático de Direito. A execução da vereadora Marielle Franco, no Rio de Janeiro, somada à eliminação física de outros tantos lutadores sociais nos demais estados do país, demonstra claramente que torna-se cada vez mais perigoso lutar e defender DIREITOS HUMANOS no Brasil.

 

Antes mesmo da morte da vereadora carioca Marielle Franco (PSOL), o Brasil já era considerado há anos um dos países mais perigosos para ativistas que defendem direitos humanos ou causas ambientais, ao lado de países como Colômbia, Filipinas e México, Honduras.

Veja mais. 

O povo gaúcho, também a população de Passo Fundo, RS, em maioria, aproveitará os episódios acima relatados para uma profunda reflexão sobre si mesmos. Constatará que ideias extremistas que pregam o ódio gratuito, a violência brutalizada, a eliminação física por causa de pensamentos divergentes, o uso das forças policiais para repressão aos que lutam por seus direitos sociais não são bem-vindos a esta terra que tanto exaltamos e amamos. Afirmará, ainda mais, os valores republicanos e cosmopolitas como a liberdade, a democracia, os direitos humanos (direitos de todos nós), a cidadania e a política no seu sentido mais amplo e irrestrito.

 

Espanha: a viagem que mudou a minha vida!

A vida que foi transformada com uma viagem à Espanha foi a
do Prof. Dr. Rogério da Silva, Diretor da Faculdade de Direito da
Universidade de Passo Fundo. Ele foi para a cidade de Granada, na Espanha,
a estudos de doutorado, na Universidade de Granada e levou a
família inteira para curtir essa experiência junto com ele.

 

“A ideia inicial era ir para Portugal, mas conselhos de amigos acabaram influenciando na escolha. Trata-se de uma cidade histórica, situada na região da Andalucia, há 418 km de Madri.

Foi a oportunidade de ficar fora do Brasil com a família por um período de quatro meses, tempo suficiente para conhecer uma parte da Espanha e se apaixonar por uma cidade, onde a história está por todos os lados.

Com uma população em torno de 250 mil habitantes, um pouquinho maior do que a cidade de Passo Fundo, RS, Granada se destaca pelo turismo e pela qualidade da Universidade de Granada, com mais de 60 mil alunos, sendo uma das que mais recebe estudantes de todas as partes do mundo.

Em Granada, é comum encontrar nas ruas pessoas de diversas nacionalidades e uma mistura de idiomas, lamentavelmente o português é muito pouco utilizado e a impressão é de que brasileiros vão pouco a Granada, apesar da sua história.

Não é nada fácil nos primeiros dias entender o espanhol granadino, por ser muito rápido, é preciso pedir para se “hablar despacito” para que se possa compreender. O português é raramente utilizado, mas se dominares o inglês, não terás dificuldade nenhuma para se comunicar, pois em todos os lugares encontrará alguém que fala com fluência o inglês.

Nossa chegada a Granada aconteceu em um sábado à noite, depois de cinco horas e meia de viagem de trem saindo da capital Madri. A escolha do trem foi justamente para conhecer o sistema que no Brasil não existe, e também poder desfrutar da paisagem. É uma viagem tranquila e confortável, aos poucos vai se conhecendo a geografia do interior da Espanha.

Como ainda era verão, a primeira impressão ao desembarcar foi de muito calor. Granada é uma cidade onde a temperatura pode chegar aos 40 graus durante o dia. A grande vantagem é que está localizada a 100 km das praias do Mar Mediterrâneo, que ficam lotadas durante a temporada. Em compensação no inverno, a temperatura desaba, chegando facilmente a zero graus.

No aspecto climático é bastante semelhante com Passo Fundo, RS, a diferença é de que o inverno é seco e a facilidade de calefação, em todos os lugares, amenizam o frio.

Além disto, comprar roupas de inverno é muito mais barato do que no Brasil, isto vale para qualquer estação do ano. Aqui pagamos caro demais por produtos de qualidade inferior. Isto é apenas uma das descobertas que se faz quando se está na Europa.

Nas baixas temperaturas é possível esquiar em uma das estações mais procuradas da Europa, Sierra Nevada, que fica a 30 km de Granada, e que durante a alta temporada, que começa no final de novembro, recebe milhares de turistas que aproveitam para praticar esportes ou se divertir com a imensa quantidade de neve. Ao ir a Sierra Nevada é necessário estar muito bem agasalhado, pois o frio é intenso e à noite as temperaturas caem ainda mais.

De vários lugares de Granada é possível enxergar os morros cobertos de neve, que após o descongelamento vão servir para abastecer a população. Em Granada não existe a necessidade de comprar água mineral para beber, pois a água da torneira é de excelente qualidade.

A deslumbrante Alhambra

Legenda 1: Neve em Granada, tem Alhambra ao fundo.
Legenda 2:  Mirador de San Nicolás com Alhambra ao fundo.

Não é somente a serra e o mar que levam turistas a Granada. A principal atração que pode ser visitada durante o ano todo são os castelos de Alhambra. Trata-se de uma cidade amuralhada que ocupa a maior parte da colina de La Sabika. A maior parte do complexo de Alhambra foi construído entre 1248 e 1354, nos reinados de Maomé I e de seus sucessores.

A visita a Alhambra não pode ser feita com pressa, ao cruzar os portões, aos poucos vai se regressando ao passado, o local é muito procurado diariamente, e o ideal é comprar os ingressos antecipadamente, de preferência o pacote completo, para não se perder nenhum detalhe.

Impressiona pelo tamanho de seus castelos, pela arquitetura e pelo cuidado com sua preservação. O passeio é obrigatório para quem gosta de história, para mim a experiência foi tão deslumbrante que voltei uma segunda vez, e iria novamente, pois são muitas coisas para serem vistas, lidas e refletidas.

Fazer o passeio com pressa é totalmente desaconselhado, pois para ter acesso as áreas mais procurados é preciso enfrentar filas, mas nada que não compense a espera. O que mais impressiona de Alhambra é como foi construída uma estrutura tão complexa, que hoje é considerada um dos locais mais visitados da Europa.

Se para as pessoas das áreas do Direito, Jornalismo e História é um passeio deslumbrante, para quem é da arquitetura e engenharia, torna-se uma visita obrigatória.

Não se pode ir a Granada e não se fazer uma caminhada pelo bairro de Albaicín, que juntamente com o vizinho Generalife, uma vila que inclui extensos jardins e hortas de Alhambra, constituem um sítio que está inscrito na lista de Patrimônio Mundial da Unesco. Em Albaicín há inúmeros monumentos e conjuntos monumentais de distintas épocas, fundamentalmente, nasridas e renascentistas.

Com relação a cidade de Granada, esta possui toda a estrutura para receber muito bem os turistas, que podem chegar de ônibus, carros, trem ou de avião. Hotéis e hostels de todos os preços podem ser encontrados pela cidade, assim como, uma ampla rede de serviços.

Chama muito a atenção a limpeza de suas ruas e praças, o trânsito organizado com estacionamentos subterrâneos no centro da cidade e a segurança.

Para brasileiros paranoicos com a segurança é uma benção, tanto que os caixas eletrônicos ficam na rua e podem ser utilizados a qualquer hora. Outra atração de Granada são os inúmeros cafés e restaurantes completamente lotados, principalmente durante a parte da manhã.

Detalhe: em Granada, a parada para o almoço é às 14h 30min, quando praticamente tudo é fechado, retornando às 17h. É preciso se acostumar, pois a primeira hora da tarde é depois das 17 horas, com o encerramento das atividades por volta das 21 horas.

Durante os 4 meses que estivemos em Granada, fizemos uma programação para conhecer os inúmeros locais turísticos, mas em função da quantidade, lamentavelmente não foi possível ir a todos.  Acho até que foi proposital para que possamos retornar.

Apesar da rotina de estudos na bem estrutura Faculdade de Direito, da Universidade de Granada, onde mais de cinco mil alunos fazem o curso, foi possível passear e conhecer um pouco da história.

Na sua próxima viagem a Espanha, um país preparado para receber turistas, e que em 2016 recebeu mais de 75 milhões de pessoas que gastaram 77 bilhões de euros, inclua na sua agenda uma visita a linda e exuberante cidade de Granada, com certeza vai se apaixonar, assim como nós nos apaixonamos”.

Em dezembro de 2017, contamos também a experiência do professor Jandir Pauli que morou por um certo período na França para estudar.

Morar na França para estudar

 

Esta matéria foi publicada na revista impressa Contato Vip, assinada por Camila Docena.

A revista Contato VIP foi fundada em abril de 1993, circulando mensal e ininterruptamente até hoje. Sua sede está localizada na cidade de Carazinho, mas sua circulação se dá em toda a região do planalto médio e região noroeste do Rio Grande do Sul, através de assinaturas, venda em bancas e divulgação dirigida.

Além da edição mensal que aborda temas atuais, com ênfase em sociedade, moda e saúde, a revista Contato VIP publica edições especiais segmentadas, tendo entre os títulos Medicina & Saúde, Casa & Decoração e Eventos & Gastronomia.

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Fora de padrão

Aumento de diagnósticos de transtornos psiquiátricos
e uso massivo de medicamentos ameaçam
autonomia e direito à singularidade.

 

Até os 13 anos, a adolescente Laura Delano era exatamente como esperavam que ela fosse na cidade de Greenwich, parte do estado norte-americano de Connecticut, uma das mais ricas da região metropolitana de Nova Iorque. Na escola particular apenas para meninas que frequentava, ela se encaixava bem, apesar de se sentir diferente das colegas. Usava boné de beisebol em vez de cabelos longos escovados, jogava hóquei com os meninos, mas mantinha boas notas e era respeitada pela comunidade. “Havia muita expectativa, muita pressão sobre nós, mesmo que não comunicada verbalmente”, lembra ela. “Todas fomos nascidas e criadas para sermos perfeitas”.

Em uma noite comum, mas que ficou gravada na memória, Laura se observou mais profundamente no espelho enquanto escovava os dentes para dormir e acabou perdendo o “senso de si”, como ela mesma descreve. “Eu olhava para o meu rosto mas via uma pessoa estranha”. Sem ter tido acesso anterior a um arcabouço de informações que a ajudassem a dar sentido àquela experiência, Laura se comparou a uma atriz. Decidiu continuar “interpretando” o papel de boa filha, boa aluna e boa atleta. “Eu me sentia manipulada pelos meus pais, pelos outros alunos, pelos professores, pela cidade, pela sociedade americana a alimentar uma certa ilusão”.

Eventualmente, o pano caiu. Laura passou a se comportar mal em casa. Gritava, falava palavrões, batia as portas. Depois, começou a se automutilar e pensar na morte. “Eu me transformei em uma pessoa muito raivosa e descontrolada. Não enxergava significado na minha existência e não sabia comunicar isso às pessoas”. Seus pais então a levaram pela primeira vez a um profissional de saúde mental. O psiquiatra identificou que sua raiva e irritabilidade eram sintomas de mania e o desespero e os pensamentos suicidas eram sintomas de depressão — ambas fases de transtorno bipolar. “Aquele diagnóstico mudou a minha vida”.

Laura hoje viaja o mundo contando esse episódio para explicar os efeitos da padronização, patologização e medicalização da vida. Esteve no Brasil entre os dias 30 de outubro e 1º de novembro para participar do seminário “A Epidemia das Drogas Psiquiátricas: Causas, Danos e Alternativas”, realizado na Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Ensp/Fiocruz), no Rio de Janeiro. Ela está há sete anos sem tomar nenhum dos 19 medicamentos prescritos para os vários transtornos mentais “incuráveis”, diagnosticados ao longo de sua jornada pelo sistema de saúde mental norte-americano.

“Não estou aqui para dizer que médicos psiquiatras ou medicamentos são maus, mas para dizer que a sociedade está construída em cima de histórias poderosas que moldam o sentido da nossa existência — e algumas dessas histórias estão nos ferindo”, ressalva. “Acredito que meu colapso teve a ver com o contexto da minha vida. A pergunta certa não é ‘o que há de errado comigo’ e sim ‘o que aconteceu comigo?’”.

Dentro da caixa

Tentar encaixar pessoas e comportamentos em um padrão está na origem da patologização, segundo o jornalista Robert Whitaker, autor de “Anatomia de uma epidemia: pílulas mágicas, drogas psiquiátricas e o aumento assombroso de doença mental” (Editora Fiocruz), também presente no evento. Ele aponta que o aumento do diagnóstico de transtornos e do uso de drogas psiquiátricas não levou a uma redução do “fardo” das doenças mentais, mas sim ao seu crescimento dramático. “No passado, crianças consideradas ‘difíceis’ eram parte da vida. Crescer é difícil, afinal. Agora temos um novo padrão, em que todos temos que estar felizes o tempo todo”.

Uma em cada 50 crianças nos Estados Unidos é diagnosticada com bipolaridade, informa. O Brasil não fica muito atrás: é o segundo país que mais consome metilfenidato, o princípio ativo da ritalina (medicamento usado para tratar o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade ou TDAH), segundo o Instituto Brasileiro de Defesa dos Usuários de Medicamentos. “Estabeleceram uma relação entre ‘doença’ e o ‘não aprender’, a ‘doença do não aprender’, um olhar que busca a homogeneidade e rejeita a diferença”, avalia a secretária executiva do Fórum sobre Medicalização da Educação e da Sociedade, Helena Monteiro, para quem a escola é a principal demandante da padronização na infância.

Como resumiu Whitaker em seu livro, em 1980, a American Psychiatric Association (APA) adotou um “modelo de doença” para categorizar transtornos mentais — e esse modelo foi exportado para o Brasil e para grande parte do mundo. “O público passou a ser ensinado que depressão, ansiedade, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade e esquizofrenia eram doenças do cérebro, causadas por desequilíbrios químicos, e que uma nova geração de drogas psiquiátricas havia sido desenvolvida para corrigi-los”.

Whitaker mostra recentes pesquisas da própria literatura mundialmente reconhecida em Psiquiatria que contradizem esses paradigmas. Além de não diminuir a carga epidemiológica das doenças, o uso contínuo de medicamentos de efeito no sistema nervoso provoca piora de cada uma das doenças em questão. Pacientes com diagnósticos brandos que tinham um bom prognóstico (chances de evoluir para uma melhora e desaparecimento dos sintomas) e que tomaram remédios se saíram pior do que os com diagnóstico severo mas que não usaram as drogas no longo prazo. “Trata-se de surto iatrogênico [termo que quer dizer dano causado pelo tratamento]”, observa.

O autor procura mostrar como, embora os medicamentos psiquiátricos possam aliviar os sintomas no curto prazo (melhor que o placebo), em longo prazo aumentam o risco de uma pessoa se tornar cronicamente doente e prejudicada funcionalmente. “A literatura mais recente argumenta a favor de se repensar profundamente o uso de drogas psiquiátricas, com a defesa de que elas precisam ser indicadas com muita cautela, e que devem ser criados modos alternativos de tratamento”.

O número de pessoas declaradas incapacitadas de trabalhar devido a transtornos mentais aumentou quatro vezes nos Estados Unidos nos últimos 30 anos, e esse aumento tem sido observado em muitos outros países que adotaram o mesmo paradigma de assistência. Quatro milhões de adultos norte-americanos com menos de 65 anos recebem auxílio do sistema de Seguridade Social por serem considerados incapacitados por questões mentais. Um em cada 15 adultos jovens entre 18 e 26 anos encontra-se “funcionalmente prejudicado” por esses transtornos.

 

Epidemia

O jornalista denuncia que existe uma epidemia de diagnósticos de transtornos mentais. “Há crianças de dois anos sendo ´tratadas´ nos Estados Unidos por bipolaridade, por exemplo”, observa. Os diagnósticos em crianças cresceram pari passu com a prescrição de estimulantes e antidepressivos, com objetivo de conter sintomas como os de TDAH. O papel das indústrias e do marketing de remédio é um dos aspectos cruciais da questão, avalia.

“As companhias farmacêuticas se encaixam no mercado. As sociedades pagam a conta coletivamente. Uma das razões para discutirmos esse tema é que as sociedades não têm mais como sustentar cada vez mais pessoas se incapacitando por depressão e outras doenças mentais”, diz ele, para quem a solução passa por diferentes caminhos muito distantes das pílulas mágicas. “O que ajuda realmente as pessoas a melhorarem são diferentes variáveis, como a confiança para retornar à sociedade, e construir pontes para se manter em contato com a sociedade e a família”.

Whitaker entrevistou pessoas cujas vidas foram mudadas — indubitavelmente para pior — depois que tiveram medicamentos receitados para elas. Em um dos vários casos dramáticos relatados no livro, a mãe de uma criança totalmente saudável de 11 anos procurou ajuda médica: a filha, que esporadicamente fazia xixi na cama, gostaria de participar de uma viagem da escola com seus amigos, e ela estava preocupada. O profissional receitou para a criança um antidepressivo tricíclico “para o xixi na cama”. Dali para diante, efeitos e sintomas devastadores surgiram e a vida da menina tornou-se uma constante peregrinação por médicos e hospitais psiquiátricos. Quando o autor encontrou a família, anos mais tarde, a jovem não tinha sequer no horizonte a perspectiva de retornar a ser uma pessoa alegre, independente e funcional, e só sua mãe falava por ela.

 

Cuidado x controle

Durante sua jornada para dentro do sistema de saúde mental norte-americano, Laura chegou a confiar que o diagnóstico de transtornos mentais traria alívio para sua falta de conexão com a vida: “Em algum momento quis acreditar que minhas questões eram causadas por um desequilíbrio químico que seria corrigido pelos medicamentos e pela terapia”. Mas conta que, mesmo sendo uma “paciente obediente”, sua vida desmoronou progressivamente. Ela pouco se lembra, por exemplo, de seus anos de graduação na Universidade Harvard, uma das mais prestigiadas do mundo. “Eu estava sedada a maior parte do tempo. Ao lutar para manter boas notas, perdi tudo mais — minha saúde, a capacidade de manter relacionamentos e de reter informação, minha sexualidade, qualquer senso de propósito ou direção”. Tentou se suicidar.

Foi internada, onde diz que conheceu de fato a força do sistema de saúde mental sobre os direitos humanos. “Não há muita coisa pior do que estar em uma ala psiquiátrica de segurança, sem nada que pareça familiar, sem suas coisas, sem poder dar opinião sobre sua vida”. Sua existência, avalia ela hoje, foi sobrepujada pelo seu diagnóstico. “Experimentei violações profundas. Fui percebendo que todos esses anos em que tentei ser ‘obediente’ tinham me privado da minha integridade corporal, da minha liberdade de expressão, de ar puro. Não se tratava de cuidado, mas de controle”.

Ao ler o livro de Whitaker, em 2010, começou a refletir sobre quem era. Botou em xeque todos os diagnósticos que recebeu e procurou alternativas holísticas para entender de onde vinha seu sofrimento. “Finalmente entendi que as experiências emocionais com que lidei ao longo dos anos tinham significado, tinham razão política, estavam enraizadas em questões sociais, culturais, de gênero”. Laura hoje escreve um blog (recoveringfrompsychiatry.com) em que tenta “ressignificar” sua vida. “A Psiquiatria dizia quem eu era. Eu mesma passei a dizer, em um processo confuso, mas empoderador”.

 

Abordagens desmedicalizantes

Abordagens que estimulam o diálogo e autonomia dos pacientes são a “tecnologia” de ponta em tratamento do sofrimento psíquico. O finlandês Jaakko Seikkula ajudou a desenvolver a abordagem Diálogo Aberto (Open Dialogue). Trata-se de um método elaborado a partir de terapias centradas nas necessidades de cada pessoa e seu meio social, com a integração da terapia familiar sistêmica e da psicoterapia psicodinâmica. A abordagem é utilizada na Finlândia inclusive para casos considerados graves e nos momentos de surtos (ver entrevista na pág. 22). “Aceitar o outro sem condições é o caminho de ouro para abrir diálogos nas relações sociais que se encontram em crises severas”, diz Jaakko.

Para ele, no sistema de cuidados predominante, os profissionais são orientados a seguir sua via de tratamento dentro de categorias de diagnóstico específicas, mas respeitar as vozes dos pacientes não é objetivo básico. “Infelizmente, a prática hegemônica muitas vezes desrespeita os recursos psicológicos dos usuários e, portanto, enfatiza a prática fortemente centrada no chamado expert. O tratamento é direcionado aos sintomas”, aponta.

Nas crises graves, outro tipo de abordagem é imprescindível, afirma. Os princípios centrais da abordagem do Diálogo Aberto são: ajuda imediata (dentro de 24 horas); uma perspectiva de rede social (sempre convidando os parentes, familiares e outros membros chaves da sua rede social para as reuniões); flexibilidade e mobilidade (adapta o tratamento oferecido para a especificidade e as necessidades de cada caso); responsabilidade da equipe (quem quer que esteja na equipe é responsável por reunir a rede); continuidade psicológica (a equipe se torna responsável pelo tratamento pelo tempo que seja necessário); tolerância à incerteza (criando segurança e confiança em situações onde ninguém tem a resposta definitiva); dialogicidade (focando principalmente no diálogo, deixando em segundo plano querer mudar o outro).

“As pessoas são abordadas como seres humanos em sua plenitude, e não como sintomas”. Conforme observado em estudos, nos casos de psicose em primeiro episódio, 85% podem retornar ao pleno emprego. Nos casos de depressão profunda, a recuperação ocorre mais rápida e mais frequentemente, em comparação com o tratamento habitual. Em ambos, o papel da medicação pode ser reduzido, evitando assim seu efeito nocivo.

O papel do Brasil, segundo Whitaker, é muito relevante para que a reversão do modelo de cuidado tenha êxito global, levando em consideração as suas conquistas na Reforma Psiquiátrica. “Precisamos nos informar na literatura científica acerca de resultados a longo prazo. Em outras palavras, precisamos ter uma discussão científica honesta. Se pudermos ter essa discussão, uma mudança certamente se seguirá. Nossa sociedade se disporia a abraçar e promover formas alternativas de tratamento não medicamentosos. Os médicos receitariam os remédios de maneira muito mais restrita e cautelosa. Em suma, nossa ilusão social sobre uma revolução da ´psicofarmacologia´ poderia enfim se dissipar e a ciência de bases sólidas poderia iluminar o caminho para um futuro muito melhor”, defende.

 

Autor: Bruno Dominguez e Elisa Batalha
Fonte: Radis

 

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