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A problematização na educação

 

 

A problematização do mundo aberto, que se baseia na condição própria da natureza humana como inquisitiva, a uma ação transformadora, trata da condição social na produção do conhecimento como fundamental na crítica do próprio conhecimento, bem como na sua condição política e ideológica.

 

Paulo Freire propôs diversos saberes necessários à prática pedagógica ao longo de sua obra, desde o esboço do livro “Pedagogia da Autonomia” e até mesmo, indiretamente, em suas reflexões posteriores em “Cartas a Cristina”.

De acordo com reflexões internacionais são cinco as principais ideias de Freire: (i) pedagogia da pergunta ou problematização; (ii) ensinar exige respeito pelo conhecimento dos alunos; (iii) ensinar exige respeito pela autonomia de ser aluno; (iv) ser alfabetizado não é aprender a repetir palavras, mas aprender a dizer sua palavra; (v) e ensinar exige escutar.

Este trabalho traz um recorte sobre a pedagogia da pergunta ou problematização através de uma história de vida focal autobiográfica, apresentada em dois momentos. O primeiro momento trata-se da problematização do meu processo de construção como educadora e o segundo momento apresenta uma reflexão sobre a problematização em si mesma.

 

Problematizando meu processo de construção como educadora

“Nenhum vento é favorável quando não se tem rumo.” Quem nunca ouviu esse ditado? Esse provérbio expressa um pouco de minha trajetória pessoal e profissional, além de que, em uma linguagem mais direta indica que a definição de objetivos é um passo fundamental para o sucesso.

Da época dos bancos escolares até o atual momento, passando pela experiência de ser professora na rede pública brasileira e em universidades privadas nos Estados Unidos, onde atualmente sou professora adjunta no Onondaga Community College, esse provérbio está entre algumas considerações que se tornaram essenciais na minha carreira.

Nesta minha trajetória pude constatar que a definição de objetivos impacta, sim, os fatores de aprendizagem.

Nutro empatia por Paulo Freire, para o qual devemos “nos colocar no lugar do educando”. Assim, fazendo um breve resgate do meu tempo de estudante e avaliando minha educação, acredito que as séries iniciais do ensino fundamental foram satisfatórias, sob meu ponto de vista.

Aprendi a ler, somar e dividir e devo recordar que fui considerada uma “aluna” normal, até que os conflitos próprios da adolescência se acumularam na expressão de um intenso senso crítico. Talvez, aquela “aluna” que questiona o porquê dos conteúdos, as amarras do sistema, os conflitos do mundo, enfim, imersa naquela sensação de não saber qual a função da escola.

Esses questionamentos me acompanharam ao longo de minha formação final na educação básica e parte do ensino superior em Ciências Biológicas, quando recebi um convite para lecionar ciências em uma comunidade precária no sul do Brasil.

Confesso que hesitei, pois afinal sou filha de professora e além do mais, quem quer ser professor quando essa profissão, embora nobre, sofre um processo de desvalorização ao nível nacional há várias décadas?

Para ser professor é necessário ter coragem e perseverança, pois os desafios são imensos… Ah, Desafios? Aceitei.

Dificuldades de várias ordens surgiram devido à situação da educação atual, que muitos autores atribuem à crise econômica, desestrutura familiar, falta de incentivos e políticas públicas, ruptura social, entre outras palavras complexas que aprendi no Mestrado em Educação no Brasil, Ph.D. e pós doutorado nos EUA, e em meu Ed.D. no México.

Contudo, meus objetivos ajudaram a manter o foco e guiar minha paixão pela educação, ressignificando meus próprios saberes e fazendo com que eu reconstruísse minha práxis cotidiana e não desistisse… Aqui vale resgatar o ditado popular de que “uma vez professor, sempre professor”.

 

A problematização em si mesma

Um dos tópicos dessa história focal que elegi na obra de Freire aborda as seguintes assertivas “se faz necessário desenvolver uma pedagogia da pergunta. Estamos sempre ouvindo uma pedagogia da resposta. Geralmente, os professores respondem às perguntas que os alunos não têm”.

Ao problematizar minha própria formação como educadora, foi possível observar traços de uma educação tradicional ou bancária baseada na memorização e transmissão de conteúdos, que caracterizam a pedagogia da resposta.

A falta de adaptação no ensino fundamental e médio (no meu caso e de muitos outros) pode ser um resultado da falta de autonomia dos alunos proporcionada por essa educação. Felizmente, nas últimas décadas têm-se observado um reconhecimento global sobre a importância da problematização na formação do pensamento crítico e para manter os estudantes motivados visando o sucesso escolar.

A problematização do mundo aberto, que se baseia na condição própria da natureza humana como inquisitiva, a uma ação transformadora, trata da condição social na produção do conhecimento como fundamental na crítica do próprio conhecimento, bem como na sua condição política e ideológica. A importância desse método pode justificar-se na tríade antropológica em Freire:

  1. O ser humano é um ser em transição, ou seja, é um projeto inacabado, que está em constante busca de si mesmo; é incompleto, finito, temporal e não sabe de maneira absoluta.
  2. O ser humano é um ser de relações. “Ninguém educa ninguém, os homens se educam em comunhão”, mediatizados pelo mundo.
  3. O ser humano é um ser em busca – estando em permanente procura, curioso, “tomando distância” de si mesmo e da vida que porta; esta capacidade de reflexão dialógica e crítica assume a si mesmo e ao mundo como realidades inacabadas.

Este vídeo é um pequeno resumo do livro “PEDAGOGIA DA AUTONOMIA” de Paulo Freire.

 

A problematização como minha construção

Através desta história de vida focal autobiográfica, realizei um resgate sobre a problematização, iniciando pelo meu processo de construção como educadora até a problematização em si mesma. Nesse resgate, foi possível observar que apesar de receber uma educação tradicional na educação básica, passei pela ruptura com a mesma e recebi a influência da obra de Freire na minha formação profissional. Posso concluir que a problematização tem um papel fundamental na formação do pensamento crítico e na motivação dos estudantes.

300 anos da Mãe Aparecida nas águas

Para a fé cristã, 2017 é celebrativo: 500 anos de reforma luterana, 100 anos de aparição em Fátima, 300 anos de Nossa Senhora Aparecida. Foi em 1717 o encontro de uma imagem que transformou a fé do povo da Vila de Santo Antônio de Guaratinguetá e proclamada em 1930 Padroeira do Brasil pelo Papa Pio XI.

Em Fátima, Maria apareceu visivelmente a três pastorinhos, que a Igreja reconheceu ser sobrenatural. Aqui a três pescadores e certamente escravos, que recolheram a imagem negra do Rio Paraíba.

Os pescadores, não tendo pescado nada, encheram depois suas redes. Ofereceriam um banquete aos magnatas portugueses do Brasil colônia, no regime de escravidão. A imagem negra da Virgem encontrada vinha a ser uma mensagem de Maria ser mãe de todas as raças e culturas.

Católicos são acusados de serem idólatras, por venerarem imagens de santos. O mandamento primo do decálogo proíbe fazer escultura e imagem alguma (Ex 20,3-5).

A verdadeira razão desse mandato é Deus ser o único.

Os deuses ou ídolos não são nada. A representação de Deus com imagens é por não ter a forma de criatura e não ser um objeto manipulável.

A fabricação da serpente de bronze que Deus ordena a Moisés (cf. Num 21, 6-9) não configura uma idolatria. Essa imagem não era mágica e milagrosa por si só. O olhar de fé para ela, acreditando na Palavra que Deus tinha pronunciado, realizou a cura da morte física àqueles que eram picados pelas serpentes venenosas.

Ninguém adora uma fotografia de sua mãe porque a guarda com carinho. Somos simbólicos, numa era da imagem, do virtual, do ícone, do representativo. A iconografia sempre foi uma pedagogia dos cristãos, desde as catacumbas. A própria Bíblia é imagem, ícones impressos no papel. Incontáveis milagres comprovados em 300 anos de devoção à Nossa Senhora Aparecida, não se devem a uma simples imagem quebrada, encontrada um dia por pescadores, como eram os apóstolos. Não somos iconoclastas.

Maria, representada por imagens devocionais, não é taumaturga ou deusa milagreira. Tudo se deve a fé de um povo que caminha rumo a Cristo, apoiado a sinais, figuras e sacramentais da vida, por meio daqueles que já O amaram mais. Maria conduz ao Salvador e Senhor. Ou duvidamos que a mãe de Cristo está no céu e que pode rezar por nós pecadores?

Resistência pelos direitos

 

A rigor, a luta por direitos sempre é luta de resistência.
E, em sentido atual… significa angariar forças para imunizar-se
e imunizar a sociedade de posições neoconservadoras,
neonazistas atentatórias à dignidade humana.

 

 O tema é super oportuno e se põe numa conjuntura complexa de retrocessos em vários sentidos. Assim que, compreender o sentido de resistência requer situar-se nestes contextos. Mas também requer perceber os múltiplos sentidos e usos da noção de resistência, na biologia, na física, na história, na geografia, na política, na filosofia…. e também sua raiz etimológica, formada por “re” = de novo + “sistere” = continuar existindo.

Em termos histórico-políticos o uso contemporâneo foi associado ao movimento antinazista, especialmente na França (resistência francesa) – no campo contrário ao dele os colaboracionistas, daí porque, no jargão político, resistência é o movimento que faz oposição a uma proposta, política, governo ou poder considerado ilegítimo e ilegal por ser opressor e totalitário (sendo que aquele que contribui com estes tipos é colaboracionista – no sindicalismo brasileiro estes últimos foram apelidados de “pelegos”).

O sentido político de resistência articula dois aspectos: a oposição – o que significa que nele está contida a ideia de conflito, de divergência, de contradição e também a ideia de posicionamento o que leva à luta (agón) contra determinada posição (o que inclui pelo reverso ser a favor de outra determinada posição). Por outro lado, recolhendo o sentido vindo da biologia (immunitas – imunidade) também tem o sentido político de defesa, de defender-se, de proteger-se – o que novamente requer ler a realidade de modo a identificar oposições e exigir posição.

O modo de resistência pode ser diversificado, sendo que, em termos estruturais, pode ser de ação ou de inação. No caso da ação há um envolvimento direto para promover processos, movimentos, dinâmicas e atuações capazes de incidir sobre os fatores geradores da necessidade de resistência.

Ela pode ser ela direta ou indireta, sutil ou forte, pacífica ou violenta. Inclui perspectivas instituintes e constituintes no sentido de afirmar dimensões utópicas e hererotopicas. No caso da inação há promoção de processos, movimentos e dinâmicas que inibem a ação, que a desinstalem, que a desmontem, que a tornem inoperativa (é o agir para não agir) – uma espécie de puxar para trás com força equivalente ou maior do que aquela a quem se pretende oferecer oposição. Inclui perspectivas destituintes no sentido de afirmar dimensões distópicas.

Em termos ideológico-políticos, a resistência pode ser do tipo progressista ou do tipo conservador. No primeiro caso estará estribada em posições que querem mudanças de tipo reformistas, transformadoras ou revolucionárias; no segundo caso em posições de manutenção (conservadoras) ou de restauração (reacionário). Imagino que aqui nos interessa o tipo progressista de resistência.

As formas históricas de resistência são as mais diversas e se expressão em rebelião, revolução, burla, comédia, escracho, greve, não-violência, desobediência civil ou mesmo até o monasticismo.

No Brasil os escravos desenvolveram diversas formas de resistência. São exemplos o sincretismo religioso, a capoeira, o banzo. Neste último caso, a palavra vem do quimbundo mbanza, que significa “aldeia”), entendida como a “melancolia” dos escravos com saudade” de sua terra – o banzo era uma prática de protesto dos escravos que se traduzia em greve de fome, em sentido mais forte, o suicídio, o aborto, o infanticídio, as fugas e, de modo mais organizado, a formação de quilombos. A desqualificação fez transformar banzo em sinônimo de dengo ou choramingo.

Em suma, resistência exige luta contra práticas e formas de organização do poder que sejam ilegítimas. Também significa organização para defender os direitos diante de práticas e propostas austericidas a aporofóbicas.

A rigor, a luta por direitos sempre é luta de resistência. E, em sentido atual… significa angariar forças para imunizar-se e imunizar a sociedade de posições neoconservadoras, neonazistas atentatórias à dignidade humana; também para enfrentar, pondo-se à frente na frente de propostas e políticas que sejam destrutivas de direitos e acima de tudo, exercer a criatividade ético-política para gestar novas formas de vida, fazendo a vida brotar nas fendas da “terra seca”. Uma cunha numa pequena rachadura pode parecer nada, mas se mantida em perspectiva de resistência pode significar a destruição daquilo a que se oferece como resistência.

Paulo César Carbonari, professor do Instituto Superior de Filosofia Berthier (IFIBE) e militante de direitos humanos no Brasil, faz importantes reflexões sobre o significado da ética em nossa vida cotidiana. Partindo de uma concepção de que somos seres em relação, o professor afirma que a humanidade está nas mãos dos seres humanos. Somos abertos, inconclusos, podemos sempre ser diferentes e mais do que somos. Ao mesmo tempo que pode estar na perspectiva de potencialização e afirmação positiva, a humanidade pode também estar na perspectiva da destruição e dominação de uns sobre os outros.

 

O segredo da resistência é a persistência e a resiliência. Isso tudo para que se possa realizar o que está no radical etimológico da resistência que é insistir para re-existir.

Desconstruindo mitos e idealizações do ser gaúcho

 

 

Decretou-se a morte do gaúcho real e, de suas cinzas,
como uma fênix grega, renasceu o
gaúcho sul-rio-grandense idealizado – romanceado.
Um trabalhador sincero, franco, bondoso, honesto, servil,
ético, patriótico, etc. um exemplo de dedicação ao estancieiro.

 

Na região platina [Rio Grande do Sul, Argentina, Paraguai e Uruguai] um personagem polêmico ocupa lugar de destaque na historiografia sul-rio-grandense contemporânea: o gaúcho-gaucho. De consenso historiográfico, apenas a sua origem: o gaúcho teria se formado do nativo destribalizado, desgarrado, do contato do europeu com o indígena e vagueava pelos campos platinos.

Nos períodos setecentista-oitocentista os trabalhadores do campo eram identificados como peões, cavaleiros, gaúchos, camiluchos, gaudérios, gauchos e changadores e considerados a ralé do Rio da Prata e Brasil. Colonos contrabandistas que comercializavam, ilegalmente, couros de gado.

Os couros eram entregues aos traficantes europeus. Viviam as margens da lei. Homens de má índole. Aproveitavam-se das guerras territoriais fronteiriças entre Portugal e Espanha para pilhar gado nas estâncias portuguesas. A caça ao gado era a principal atividade do gaúcho e lhes rendia algum dinheiro e produtos como a aguardente, garantindo assim, sua sobrevivência e seu modo de vida. Donos de uma liberdade invejável com moral, gosto e costumes irrefreável pela ordem social vigente.

Eram excelentes cavaleiros e se identificavam com o cavalo. O cavalo era sua extensão. Sentia-se um homem superior no lombo de um cavalo. A pé, era “um homem ordinário”. A habilidade no cavalgar estava, em certa medida, definida antes mesmo que o gaúcho tivesse condições de determiná-la. Ainda crianças, essa atividade era o principal meio de sobrevivência dos gaúchos. Manuseavam com maestria a boleadeira, lança, facão e laço. Passavam as noites ao relento e se alimentavam basicamente de carne.

A maioria dos viajantes que estiveram pelo território sul-rio-grandense, no século 19, referem-se aos gaúchos como um ser irresponsável, que não se apegava à família, ao trabalho, era um ladrão de gado e passava a maior parte do tempo nos bolichos-pulperias, bebendo, cantarolando e jogando cartas.

 

Peão de estância

O gaúcho contemporâneo idealizado e materializado no Rio Grande do Sul resulta da unificação dos modos e costumes do peão de estância, trabalhador assalariado, que vendia a sua força de trabalho ao estancieiro, com o gaucho ladrão de gado, contrabandista, sem chefe, sem lei, sem polícia e sem governo.

Os peões de estância eram, na sua grande maioria, nativos guaranis. Devido as suas habilidades na montaria e domesticação do gado, sobretudo, cavalar-muar, eram muito requisitados para trabalho nas Estâncias do Rio Grande do Sul. Eram os trabalhadores das lides do campo, responsáveis pelo amansamento e vigilância dos rebanhos.

Deduz-se nos relatos dos viajantes que estiveram nos territórios do Rio Grande do Sul que os nativos, com a destruição dos sete povos em meados do século 18, acabaram se estabelecendo nas estâncias exercendo o trabalho de peão. Os gaúchos se empregavam esporadicamente como peões de estância, quando estavam sem dinheiro.

Setembrino Dal Bosco, em 2015, lançou livro Escravidão e pastoreio no Rio Grande do Sul 1780-1889. Conheça mais sobre a obra.
Veja mais aqui.

 

O contato dos imigrantes interno e externo com os peões nativos, trabalhadores escravizados e com o gaúcho nas lides campeiras aproximou costumes e modos de vida diferenciados. Os primeiros já domesticados e estabelecidos nos limites da estância. O segundo levando uma vida sem chefes, sem leis e sem polícia, mas com uma habilidade enorme em laçar, caçar, courear, cavalgar, arrebanhar, vigiar etc., permitindo a apropriação por parte dos peões das qualidades dos gaúchos.

 

O mito do bom gaúcho

Possivelmente, o mito do bom gaúcho tenha surgido de uma forma paralela e concomitante, acompanhando a evolução de outro mito da historiografia sul-rio-grandense: a democracia pastoril.

De uma maneira geral, a historiografia tradicional do Rio Grande do Sul apresenta uma sociedade homogeneizada, onde a atividade pastoril imprime traços característicos especiais ao gaúcho, de simplicidade e igualdade. Onde todos cultivam os mesmo ideais, hábitos e costumes. Em um ambiente que não tem diferenças sociais, o esforço é o trabalho comum entre latifundiários e seus servidores. Gerando homens leais e corajosos, dispostos a qualquer ato de heroísmo ou bravura pelo bem comum.

No contexto do desenvolvimento da sociedade pastoril latifundiária do século 19, onde o fazendeiro, dono da estância, era, de acordo com o mito da democracia pastoril, benevolente até mesmo com seus trabalhadores escravizados, aos poucos, de uma forma lenta e gradual, o mito ideológico do bom gaúcho foi sendo construído, desconsiderando as características do gaúcho histórico, suprimindo os seus defeitos e preservando as suas qualidades.

Decretou-se a morte do gaúcho real e, de suas cinzas, como uma fênix grega, renasceu o gaúcho sul-rio-grandense idealizado – romanceado. Um trabalhador sincero, franco, bondoso, honesto, servil, ético, patriótico, etc. um exemplo de dedicação ao estancieiro.

 

O gaúcho idealizado

O gaúcho apareceu, na sua feição primitiva, em terras do rio da Prata. E começou a esboçar-se, como tipo social, a partir de 1536, data da primeira fundação de Buenos Aires. Apesar de existirem traços comuns entre os gaúchos que vagueavam na região platina, como o cavalo e o boi; a carne assada e o mate amargo; o couro e o sebo; o luxo dos aperos e outros apetrechos de montaria; indumentárias de uso comum – chiripá; armas – a faca, a lança e as boleadeiras – etc., a historiografia tradicional sul-rio-grandense defendeu, e defende com unhas e dentes, que naquela região existiriam três tipos de gaúchos: o argentino, o uruguaio e o rio-grandense.

Escorando-se no mito da democracia pastoril, a figura do bom gaúcho sul-rio-grandense começou a ser construída na literatura romântica, em 1868, tendo o jornalista e professor Apolinário Porto Alegre como um dos principais construtores desse mito. Apolinário foi um personagem atuante na literatura sul-rio-grandense do século 19. Foi poeta, contista, romancista, dramaturgo, ensaísta, pesquisador, crítico literário etc., e um dos principais fundadores do Partenon Literário.

O Paternon literário foi fundado em 1868 por literatos liberais, republicanos e abolicionistas de Porto Alegre, entre eles Apolinário Porto Alegre e o romancista Caldre e Fião, com o objetivo de agregar intelectuais para discutir filosofia, política, cultura e comportamento e sociedade.

A tese orientadora do “bom gaúcho” provavelmente tem origem nas elaborações do tradicionalista Antônio Augusto Fagundes, por volta de 1940, que escreveu sobre os hábitos e costumes diferenciados dos gaúchos sul-rio-grandenses, em relação aos diferentes tipos de gaúchos que vagueavam pelos campos da região platina.

O eixo central das elaborações apresenta o gaúcho dos pampas do Rio Grande do Sul como um homem honrado, destemido, bondoso, valente, franco, defensor da pátria, honesto, etc. Ataca ferozmente a visão pangauchista e, sobretudo, os historiadores que andam em busca do gaúcho real.

 

Sem chefes, sem lei, sem polícia

Enquanto os gaúchos da banda de cá eram enaltecidos pelos literatos sul-rio-grandenses como sinônimo de liberdade, honradez, valentia, bravura, hospitaleiros, responsáveis, honrados, violentos apenas quando “lhe pisavam no poncho”, o gaucho da banda de lá – Argentina, Uruguai e Paraguai – eram estereotipados como selvagens, violentos, assassinos, ladrões de gado, saqueadores, mulherengos, bêbados, jogadores, irresponsáveis etc. apesar de que, na sua origem, possuíssem as mesmas características.

Os gaúchos construíram um modo de vida próprio, um grupo social que vivia sem chefes, sem leis, sem polícia. A desobediência dos gaúchos das normas e regulamentações vigentes, sua relutância em se estabelecer definitivamente, despertou nos estancieiros da região platina, à vontade de enquadrá-los no modelo de organização social existente. Os estancieiros na tentativa de refrear o modo de vida dos gaúchos impunham regramentos inócuos, sem efeito prático, aos bolicheiros, como fechar o estabelecimento aos domingos, proibição dos jogos de cartas, da venda de bebidas alcoólicas.

 

Gaúchos diversos e difusos

Na tentativa de encontrar uma justificação plausível para diferenciar o bom gaúcho sul-rio-grandense do mau gaúcho que vagueava pelos pampas da Argentina, Uruguai e Paraguai, criou-se um processo evolutivo de gaúcho: gaudérios, guaso, gaucho, gaúcho. A figura do pré-gaúcho exerceu importante papel na construção do mito do bom gaúcho. No começo o conceito gaúcho era muito vago. Por ser vago açambarcava todos os errantes e vagos dos pampas platinos – gaudérios, changadores, guapos, gaúcho malo, gauchos e gaúchos – sob sua guarda. Em regra, os adjetivos que acompanhavam o personagem eram depreciativos.

No entanto, nos relatos dos viajantes que aqui estiveram, e presenciaram in loco o modo de vida daquele ser de disposições taciturnas e apáticas, todos eram nascidos na região platina, tocavam muito mal uma guitarra, cantavam desafinadamente, caçavam gado com suas boleadeiras e lanças, comiam carne assada, dormiam ao relento, eram bons cavaleiros, usavam botas, esporas de latão, sombrero, poncho, chiripá, ganhavam dinheiro com o contrabando de couro, não tinham patrão, não trabalhavam a terra, não sabiam o que era governo, freqüentavam bolichos-pulperias onde jogavam, bebiam aguardente e se divertiam com as mulheres.

A historiografia tradicional sul-rio-grandense tratou de diferenciar cada um deles. Os de boa índole, os bons, habitavam única e exclusivamente os pampas do Rio Grande do Sul. Os de má índole, os maus e os feios – gaudério, guapo, gaúcho malo, gaúcho etc. – habitavam os territórios pampeanos do Paraguai, Uruguai e Argentina.

Utilizando este expediente, sem sequer ficarem enrubescidos, nossos historiadores tradicionais determinaram que o gaúcho violento, mau caráter, ladrão de gado, eterno inimigo da sociedade, indomável, aventureiro, jogador. etc. pertencia às populações castelhanas. Por outro lado, o gaúcho do Rio Grande do Sul era sóbrio e ordeiro. Um exemplo!

 

Todos gaúchos platinos

Apesar dos criadores do mito do bom gaúcho sul-rio-grandense terem e continuarem se esforçando ao máximo para tentar sustentar a surrada tese, justificando esta tentativa de diferenciação em gaúchos diversos e difusos como gaudério, guapo, gaúcho malo, todos adjetivos que identificam o gaúcho da banda de lá, ou seja, o mau gaúcho, criando, inclusive, numa concepção darwinista, a existência do pré-gaúcho, não há mais espaço para negar que o gaúcho do Rio Grande do Sul era o mesmo gaucho da região platina.

O gaúcho real morreu com o cercamento dos campos em 1870. A cerca transformou o gaúcho em invasor. O roubo do gado, que nas palavras do viajante francês August Saint-Hilaire, que esteve nos pampas do RS em 1820, era considerado como “cousa legítima”, passou a ser tratado como crime de abigeato passível de condenação pela justiça. O gaúcho ultrapassava a cerca, caçava o gado e era preso e condenado.

Aos poucos, com a evolução da atividade pastoril latifundiária na região do Prata, a estância foi engolindo o gaúcho real, reduzindo seu espaço vitalício, demarcando os pampas sul-rio-grandense e platino e, o seu lugar foi tomado pelo peão de estância, que possuía algumas características dos gaúchos como agilidade no laço, bons nas lides campeiras e no cavalo mas que não era o gaúcho histórico, pois o peão de estância aceitava de uma forma passiva e submissa a exploração da sua força de trabalho pelo latifundiário.

Acordo historiográfico há quando se trata da origem do gaúcho. Não há acordo quando se trata da possível diferenciação existente entre as características do gaúcho da região platina com o gaúcho do Rio Grande do Sul. O gaúcho – gaúcho era o ser errante e vago que, no lombo de um cavalo, portando apenas suas armas para caçar e se defender, campeava pelos campos da região do Prata tendo uma vastidão ao seu alcance. E as autoridades do Rio Grande do Sul insistem em enaltecer, anualmente, em setembro, durante a Semana Farroupilha, a eternização do mito.

 

Referências

ALBECHE, Daysi Lange. Imagens do gaúcho: história e mitificação. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1996.
BAGUET. A. Viagem ao Rio grande do Sul. Santa Cruz do Sul. Santa Cruz do Sul: EDUNISC; Florianópolis: PARULA, 1997.
BOSCO. Eduardo Jorge. El gaúcho a través de los testimonios extrangeros 1773-1780. Buenos Aires: Emece Editores S.A. 1947.
BRAZ, Evaldo Munõz. Manifesto gaúcho. Porto Alegre: Martins Livreiro, 2000.
DREYS, Nicolau. Notícias descritivas da província do RS de São Pedro do Sul. 4 ed. Porto Alegre: Nova Dimensão, EdiPUCRS, 1990.
Evaldo Munõz. Retratos do gaúcho antigo: a gênese de uma cultura. Porto Alegre: Martins Livreiro, 2002.
GOULART, Jorge Salis. A formação do Rio Grande do Sul. Caxias do Sul: Martins Livreiro, 1985.
HERNADEZ, José. El gaúcho Martin Fierro. Trad. Walmir Ayala. Rio de Janeiro: EDIOURO S.A. 1991.
HÖRMEYER, Joseph. O Rio Grande do Sul de 1850: descrição da Província do Rio Grande do Sul no Brasil meridional. Porto Alegre: D.C. Luzzatto Ed. EDUNI-SUL, 1986.
ISABELLE, Arsène. Viagem ao Rio Grande do Sul, 1833-1834. Trad. e notas de Dante de Laytano. 2 ed. Porto Alegre:Martins Livreiro, 1983.
MAESTRI, Mário. Uma história do Rio Grande do Sul: a ocupação do território. 2 ed. Passo Fundo: EdiUPF, 2000.
MAESTRI, Mário. Deus é grande o mato é maior: História, trabalho e resistência dos trabalhadores escravizados no RS. Passo Fundo: EdiUPF, 2002.
NICHOLS, Madaline Wallis. O gaúcho: caçador de gado – cavaleiro ideal de romance. [Trad. e notas Castilhos Goycochêa]. Rio de Janeiro: Zelio Valverde, 1946.
QUESADA, Maria Sáenz. Los estancierios. Buenos Aires: Sudamericana, 1980.
REVERBEL, Carlos. O Gaúcho: aspectos de sua formação no Rio Grande do Sul e no Rio da Prata. Porto Alegre: L&PM, 2002.
SAINT-HILAIRE, Auguste. Viagem ao Rio Grande do Sul 1820-1821. Trad. Leonam de Azeredo Penna. Belo Horizonte: Ed. Da Universidade de São Paulo, 1974.

 

Origami

 

 

Frágil origami. Talvez seja também como a música,
que se mostra encantadora e surpreendente no sutil
e imprevisível intervalo das notas, fronteira do improviso,
da brincadeira e da liberdade.

 

Havia um origami de elefante caído no meio-fio, perto de uma lixeira. Parei, olhando-o detidamente.

O papel estava manchado de batom. Aliás, marca de um beijo vermelho.

Peguei-o, percebendo que fora feito num papel de carta. Uma carta de amor, escrita numa caligrafia fina e nervosa, talvez de mulher.

O texto, absolutamente desencontrado, revelava o desespero de um amor irrealizado, de uma paixão que irrompera forte, destruída pelo tempo, pela falta de sentido da vida. Larguei o origami no chão, abandonando-o à própria sorte.

Fui-me com a certeza de que a vida, a nossa vida, lembra um origami, revelando em suas dobras, verdades e não verdades, ilusões, sonhos, esperanças e fracassos, tornando a visão linear impossível para quem quer que seja.

Os espaços abruptamente interrompidos, as dobraduras e as ousadas alternâncias geométricas dizem muito daquilo que somos, levando-me à crença de que a existência, de fato, é um origami…

Frágil origami.

Talvez seja também como a música, que se mostra encantadora e surpreendente no sutil e imprevisível intervalo das notas, fronteira do improviso, da brincadeira e da liberdade.

 

Em defesa da igualdade de oportunidades (ao invés de: Em defesa dos ricos)

 

Muitos tratam como crime a atitude de quem luta por causas humanitárias,
quando estas exigem mudanças na estrutura e organização da sociedade.
A compaixão e o amor são compromissos fundamentais para a construção de uma sociedade mais humanizada, inclusiva e promotora da vida.

Sou leitor e assinante do Jornal Zero Hora há mais de dez anos. Sempre fui um leitor crítico à sua linha editorial, mas nunca imaginei ser “enquadrado” por um de seus colaboradores.
A mídia tradicional é expert em manipulações e tendências para manter o “status quo”, ou o “modus operandi” de uma sociedade dividida em classes sociais.
Veja o que um dos colaboradores do Zero Hora escreveu em coluna com o título: “Em defesa dos ricos”.

“Você é da elite? Claro que é, ou não estaria lendo este jornal. No mínimo, pertence à elite cultural. Mas não vai reconhecer, não é? Se reconhecer, será em voz baixa, pedirá para eu não contar aos outros”.

Na sequência, o colunista faz sua defesa dos ricos: “pegue uma cidade como Porto Alegre. Há vários lugares aprazíveis em Porto Alegre, há tanta coisa boa a se fazer na cidade. Mas não se faz, porque essa é uma cidade que se empobreceu ao desprezar suas elites”.

Defendendo prioridades na segurança como uma forma de manter as elites convivendo e consumido no país e não fora dele, Coimbra sentencia: “consumindo aqui, e não lá, as mal amadas elites garantirão emprego para os pobres e arrecadação de impostos para que o governo preste serviço aos pobres. Quer dizer: as elites vão trabalhar para os pobres”.

Leia coluna completa aqui.

Seguem minhas reações, depois de um período de ruminação. (Ruminar é o ato que o boi faz depois de sua refeição, deitando-se à sombra de uma árvore para degustar e mastigar novamente o alimento ingerido, para uma melhor digestão).

Não sou parte da elite, nem cultural e nem econômica. Não quero fazer parte de elite nenhuma. Quero construir uma sociedade que produza meios e condições para que todos “tenham vida em abundância”, como já está escrito nas sagradas escrituras cristãs. O problema que esta “abundância generalizada” é para uma minoria, um pequeno grupo social, uma pequena elite que sempre dominou os meios políticos, culturais e econômicos para manter seus privilégios, em detrimento da exploração dos demais.

Nós podemos construir uma sociedade sem este abismo colossal que divide os poucos que possuem quase tudo e os muitos que não possuem quase nada. Nosso Brasil, por sua privilegiada riqueza natural, tem condições de produzir alimentos, bens materiais e culturais que permitam a todos uma vida bonita, sem sofrimentos e que contemple os direitos humanos fundamentais.

Em outro artigo já publicado, Pobreza e compaixão, defendemos que a compaixão (tomada como compromisso com a superação da miséria humana) é o sentido maior na defesa dos pobres: “não os defendemos por serem bons ou anjos, mas porque são frutos de uma sociedade desigual, que não sabe e não quer lidar com eles”.

Uma sociedade que gera fome, violência e desigualdades não pode se autodenominar democrática. A democracia pressupõe maior igualdade de condições para a maioria da população. Democracia e miséria são incompatíveis, já ensina Betinho (Herbert de Souza).

“Democracia é oportunizar a todos o mesmo ponto de partida. Quanto ao ponto de chegada, depende de cada um”. (Fernando Sabino)

Alimentar o discurso de ódio e de separação das pessoas em ricos e pobres não é a saída para a crise econômica, política e cultural na qual se encontra o nosso país. A solidariedade é o maior valor humano, quando for capaz de operar mudanças significativas que promovam a vida e a dignidade.

Como já ensinou Betinho (Herbert de Souza): “O Brasil tem fome de ética e passa fome em consequência da falta de ética na política”.

O número de pessoas vivendo na pobreza no Brasil deverá aumentar entre 2,5 milhões e 3,6 milhões até o fim de 2017, afirmou um estudo inédito do Banco Mundial. Veja mais aqui.

Ao invés de ódio e rancor de classes, divulgo e procuro viver compaixão. Poucos vivem a compaixão.

Muitos perderam a sensibilidade, o que os impossibilita de viver a caridade e o amor ao próximo. Outros preferem atribuir aos pobres a culpa pela sua situação de miséria e vulnerabilidade. Outros discursam democracia, não perguntando se esta propicia as mesmas condições e oportunidades a todos, como ponto de partida. Porque o ponto de chegada depende de cada um de nós. Muitos tratam como crime a atitude de quem luta por causas humanitárias, quando estas exigem mudanças na estrutura e organização da sociedade.

O amor na sala de aula: depoimento de uma professora

Este depoimento é para lembrar a você, querido professor,
que sem amor nada conseguimos em sala de aula.
Educamos alunos preparados para concursos e o mercado,
mas nunca preparados para a vida.

Quando fui professora do terceiro ano do ensino fundamental I na Escola Municipal Sérgio de Oliveira Aguiar no município de Extremoz, Rio Grande do Norte, a minha turma era composta por quatorze crianças entre os seis e oito anos de idade. Eram quatro meninas e dez meninos.

No dia anterior ao meu primeiro dia de aula pintei a sala de cor branca e colei figuras feitas de EVA nas paredes. Limpei as janelas e o piso da sala.

Coloquei uma toalha e um vaso com flores em cima da mesa. Lembro-me de que o filósofo Michel de Montaigne fala que uma sala de aula deve ser acolhedora e ter janelas e vasos com flores. Escolhi livros na biblioteca e criei um cantinho para a leitura. Estava quase preparada para receber os meus alunos! Quase por quê? Porque eu me sentia ansiosa para ver aqueles rostinhos olhando para mim, eu não sabia como seria recebida pelas crianças.

Finalmente, o dia amanheceu e cheguei à sala de aula. Recebi os meus alunos com um sorriso no rosto e mais espantada do que eu estavam eles com a decoração da sala. Todos disseram um uníssono “Uau”. Os dias foram se passando e a gente aprendendo a conviver uns com os outros. A gente pintava, brincava, cantava, corria e estudava.

Os alunos disseram-me que antes ninguém brincava com eles em sala de aula, que a professora só fazia ensinar a matéria e pronto. Ela nunca nos contava uma história, disse um deles. O outro reclamou ainda “ela nunca brincou com a gente”. Pedi para que desenhassem eles brincando e falaram-me que não sabiam desenhar.

Eu disse que todo mundo sabe desenhar. Não existe desenho feio ou bonito. E os convenci a desenharem as suas brincadeiras”.

Um dos desenhos era um menino brincando de empinar papagaio. Os dias passaram-se e na semana seguinte eu os ensinei a fazer um papagaio. Começava assim as nossas aulas de artes.

Um dia, o Gabriel adoeceu na sala de aula e mandei chamar a sua mãe. Enquanto eu cuidava dele com carinho a mãe, brutalmente, entrou na sala e o levou para casa. Naquela tarde tive uma conversa com os meus alunos e eles me disseram que sentiam falta de abraços, de ouvir historinhas e de brincarem com os pais em casa.

Pensei: meus alunos estão precisando de amor e não somente aprenderem a fazer continhas. Acho que vou ensinar os dois para eles”.

Mas como ensinar o amor às crianças? Amando-as. Fazendo-as sentirem-se amadas. E foi o que eu fiz.

Que ser humano queremos ajudar a formar e como envolver a todos (ou muitos)  para que se incluam no projeto educativo proposto? A afetividade, impregnada pelo testemunho,  carrega os valores universais do respeito à alteridade, da solidariedade, da gratuidade, do cuidado do patrimônio social, do empenho pessoal pela justiça social.

Educação e relações de afetividade

No outro dia, cheguei na sala de aula com a ideia de criarmos um desenho animado onde todos participariam com as suas vozes e eu faria um bonequinho para cada um.

O nosso filminho se chamaria simplesmente “Meninos da praia”. As meninas não gostaram da ideia do nome do filme, porque eu só falava dos meninos, mas eu disse para elas que aquele nome acolhia a todos era apenas um jeito que escolhi de falar. Mas, preferi mudar o nome do filminho para “Crianças da praia”. E assim agradei a todos. Nós éramos democráticos. Tudo era submetido à votação.

Dessa forma começou o meu ensino com o amor e nunca mais parei de dá amor aos meus alunos. Eu levava flores para eles, criei o grupo de monitores que ajudavam àqueles que precisavam de reforço nos estudos, antes de terminar as nossas aulas cada um me dava um abraço de despedida e ensinei-lhes a desenhar.

A hora do desenho era a que eles mais gostavam, pois eu sempre dizia que cada pessoa desenha do seu jeito e levava desenhos de artistas do mundo inteiro para eles verem e se entusiasmarem.

Nunca apliquei avaliações com os meus alunos. Eles não precisavam ser avaliados. Sabiam produzir textos como nunca vi na minha vida, faziam poesias que era uma beleza e desenhavam príncipes, princesas e fadas como ninguém.

Eu nunca tive jeito para desenhos realistas, mas uma vez inventei de desenhar cada um deles. E eles gostaram da brincadeira de serem desenhados. Fizemos uma exposição na feira de ciências com os nossos desenhos que foi um sucesso.

Este depoimento é para lembrar a você, querido professor, que sem amor nada conseguimos em sala de aula. Educamos alunos preparados para concursos e o mercado, mas nunca preparados para a vida.

O amor em sala de aula é bastante importante.

A aprendizagem de uma criança acontece quando há desejo de aprender. Quando a família não vê o processo de aprendizagem como algo importante e a escola não faz investimento nesse aluno, fica difícil despertar nas crianças o desejo pelo saber, pois se todos desistiram dela porque ela não desistiria?

Educação e afeto – Ana M. Detoni

Os meus alunos faziam bagunça como todos os outros, mas a um simples gesto de emoção meu e eles silenciavam. A minha escola era pequena e muito simples, mas era o que eu tinha. Ensinei filosofia e inglês aos meus alunos mesmo sem constar da grade curricular. Queria que eles soubessem como enfrentar a vida quando adultos.

Eu me preocupava com os sentimentos dos meus alunos e quando eles mentiam para mim ficava triste. A mentira surgia sempre quando eles faltavam à aula.

O aluno Guilherme faltava bastante e os seus amiguinhos diziam que ele ficava brincando na rua quando não vinha à escola. No outro dia tive uma conversa franca com Guilherme e ele me falou que gostava de brincar na rua. Então, disse a ele que a partir daquele dia a gente ia correr na praia todas as sextas-feiras. A escola se localiza numa praia. Ele ficou feliz com a notícia e nunca mais faltou à aula.

A introdução da filosofia se deu quando um dos alunos veio me perguntar por que iriam pintar o muro da escola. Eu respondi que o muro estava com lodo. Ele me perguntou “O que é o lodo?, Por que nasce o lodo?” Eu vi que aquele porquê levaria a outros porquês e dei uma aula sobre o lodo. Foi linda a nossa aula! Surgiram as mais diferentes perguntas sobre o lodo! E nunca mais paramos de filosofar.

Eu tinha o Dudu, o Cadu e o Edu. Cada um com o seu jeito meigo de ser. O menino Edu gostava de continhas e produzia bastantes historinhas com apenas sete anos de idade. Era um grupinho fechado o dos Eduardos. Eles gostavam de brincar entre si.

O amor que eu dava aos meus alunos nunca era demais. Eu tinha o cuidado de levar chocolates para cada um deles, de repetir a explicação da atividade e fazia atividades individuais em seus cadernos todos os finais de aulas.

Eu tinha a missão de escrever quatorze tarefas distintas para cada um dos meus alunos todos os dias. As tarefas eram elaboradas de acordo com o desenvolvimento cognitivo de cada um.

Um dia, o aluno Igor me trouxe, de casa, um livro enorme de contos de fadas para que eu lesse para eles. Eu li o conto dos Três Porquinhos que marcou a nossa turma. Passaram a somente querer ouvir esse conto. Acho que eu imitava as vozes dos porquinhos de um jeito engraçado. Antes de começar as nossas aulas nós rezávamos um Pai Nosso e agradecíamos a Deus por estarmos ali. A música que nos marcou foi “Era uma vez” que cantávamos todos os dias.

Hoje faz onze anos que fui professora daquela turminha. E ontem recebi uma ligação de Guilherme que conta agora dezessete anos. Ele me disse que estava com um problema sério e que só tinha a mim para pedir ajuda. Por que eu, Guilherme? Porque a senhora foi a única pessoa que me amou nessa vida. O problema de Guilherme era coisa de adolescente, ainda bem. E lá fui eu dormir chorando, emocionada. O meu menino cresceu, pensei!

Na edição 300 da revista NOVA ESCOLA, convidamos o professor e filósofo Mario Sergio Cortella para ser entrevistado por três educadores da rede pública de ensino. Nesse vídeo, Cortella explica o papel da afetividade e vínculo com o professor para a aprendizagem do aluno.

Zeca Camargo participa da primeira conferência da Jornada

 

Jornalista e escritor integra o debate da conferência
“Literatura e imagem: além dos limites do real”,
na noite do dia 3 de outubro, na 16ª Jornada Nacional de Literatura

 

“Eu tenho certeza de que as conversas que lá tivermos vão ser capazes de nos jogar muito além dos limites do real”. Essa é a expectativa do jornalista e escritor Zeca Camargo sobre a sua participação na 16ª Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo/RS.

Zeca apresentará, durante a Jornada, suas percepções em relação a “Literatura e imagem: além dos limites do real”. Esse será o tema central da primeira conferência da Jornada, na noite do dia 3 de outubro, no Espaço Suassuna, ao lado dos também escritores Pedro Gabriel, Rafael Coutinho e Roger Mello.

As múltiplas possibilidades da leitura, em especial a leitura da imagem, estarão entre os grandes debates da Jornada. Para Zeca, a leitura é sempre um ponto de partida. E, segundo ele, têm, no seu infinito, um poder limitado: seu domínio é o das palavras.

Somos nós que, como leitores, criamos o resto – um novo real, se preferir, a partir daquele que elas (as palavras) nos oferecem. Se a literatura que temos diante de nós parte do real ou de um universo completamente imaginado, não importa. Somos capazes de desenvolver muitas realidades além dela”, observa o escritor.

Entre as obras indicadas de Zeca para a Jornada, estão: “1000 lugares fantásticos no Brasil”; “Isso aqui é seu Novos olhares”; e “De A-ha a U2”. O escritor comenta como começou a escrever livros.

Jornalista tem que gostar de escrever, né? Mesmo na televisão, fazer uma reportagem envolve a criação de um texto. A prática só aumentou essa relação. Os primeiros livros que escrevi eram, na verdade, grandes reportagens – e eu trouxe um pouco disso para as crônicas e para as tentativas de ficção que tenho feito. É um ‘ofício’, como a gente brinca, um desdobramento natural da nossa maneira de observar o mundo”, revela o jornalista.

Dieta mental

A comunicação e a literatura têm uma relação muito próxima. Zeca comenta que, quando a discussão sobre ‘como escrever melhor’ surge com os seus alunos de jornalismo, sua resposta é simples: “Lendo mais!

Nossa dieta mental do dia a dia envolve sempre algum texto – do jornalismo à crônica, passando, claro, pelo whatsapp…

Mas é na literatura que refinamos nossa comunicação – se não para diretamente crescermos na nossa conversa e no nosso pensamento, ao menos para abrirmos nosso leque de assuntos e temas. Uma coisa alimenta a outra”, destaca Zeca.

Iniciou no jornalismo em dezembro de 1987. Já trabalhou no jornal Folha de S. Paulo, nas emissoras MTV, TV Cultura, e Globo. Inspirado pelas reportagens no Fantástico, Zeca Camargo já escreveu seis livros e, agora, lança a coleção Eu ando pelo mundo. Confira a entrevista e embarque nesse bate papo! Programa Sala de Visita, Livraria Cultura.

Encontrar textos sedutores é a maior dificuldade para formar leitores. Segundo o jornalista e escritor, as leituras “obrigatórias” muitas vezes assustam crianças e adolescentes. O importante é não desistir. “É preciso paciência e perseverança na maioria das vezes. Mas, encontrando um bom texto, acessível e fascinante, já ganhamos esse desafio. Eu sempre procuro escrever cada parágrafo como se fosse um capítulo das ‘Mil e uma noites’: o leitor tem que ter a curiosidade de querer saber onde aquela história vai levá-lo”, comenta o escritor.

 

Inspirações

Vários autores inspiram ou inspiraram Zeca durante a vida dele. O jornalista revela que a primeira paixão foi Agatha Christie, “porta de entrada” para os livros.

“Antes era uma paixão casual – como quando eu encontrava um primeiro capítulo que começava: ‘Era no tempo do rei’… (“Memórias de um sargento de Milícias”, de Manuel Antônio de Almeida)”, relembra o escritor.

Mas, conforme ele, os gostos mudam. “Já me apaixonei por narrativas de autores indianos, como Salman Rushdie e Rohinton Mistry. Já tive minha fase Patricia Highsmith. Hoje, leio qualquer coisa que Edward St. Albin escrever – e sempre releio um Eça de Queiroz de vez em quando… Mas um autor que nunca deixa de me encantar é Ian McEwan – pela maneira como escreve, pela estrutura que dá às suas histórias e pela maneira com que sempre nos surpreende”, pontua Zeca.

 

Expectativa para a Jornada

As Jornadas Literárias acontecem há 36 anos. Nesta edição, uma das homenageadas é Clarice Lispector, uma das grandes escritoras brasileiras. Clarice também é muito especial para Zeca Camargo, que relembrou algumas obras marcantes da autora, como “O ovo e a galinha” (conto de “A legião estrangeira”) e “A paixão segundo GH”. “Pelas sensações que ela sempre me provocou, fico extremamente feliz de participar de uma Jornada que a homenageia entre nomes tão fortes da literatura brasileira”, comentou Zeca.

Sobre a Jornada, o jornalista afirmou que é um encontro de uma força enorme para o universo dos livros no Brasil.

“Fiquei bem feliz com o convite para participar dessa edição. Eu tenho certeza de que as conversas que lá tivermos vão ser capazes de nos jogar muito além dos limites do real”, finalizou o escritor.

 

Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo

A 16ª Jornada Nacional de Literatura e a 8ª Jornadinha Nacional de Literatura são promovidas pela Universidade de Passo Fundo (UPF) e pela Prefeitura de Passo Fundo. Os eventos contam com os patrocínios do Banrisul, da Corsan, da Ambev, da Companhia Zaffari & Bourbon,  da Ipiranga, da Panvel, da SulGás, da Triway e da TechDEC; com o apoio cultural da BSBIOS e do Sesi; patrocínio promocional da Capes, da Fapergs, da Italac e da Oniz; com a parceria cultural do Sesc; financiamento do Governo do Estado – Secretaria da Cultura – Pró-cultura RS LIC e realização do Ministério da Cultura.

Zeca Camargo enfatizou que a Jornada é um encontro de uma força enorme para o universo dos livros no Brasil. Inscrições para a Jornada estão abertas até 1º de outubro

Malas

Mundo, mundo,
Vasto mundo de Passo Fundo!
Tantas falas de malas!
Tantas malas!
Tantos malas!

Malas com dólares,
Mau agouro;
Malas de ouro,
Ali Babá dos tesouros!
Malas com Reais,
Jamais tanto se viu
Como pode!
Onde o bode?
Mala preta,
Pimenta malagueta.

Upa-upa, gaúcho!
De mala e cuia
Troteias na garupa
Do pingo xucro
Indo à bruta luta
Da guerra perdida
Nas lidas da vida.

E agora, Tatu?
Mala sem alça,
Arrastas as malas de pano
Às malas da memória
Para contar a história
Da guerra inglória
Do gaúcho que não morreu

Pedro de Malas Artes,
Bem-aventurado da prosa,
Carregas nas histórias risórias
As falas das gentes
Malas postais calientes
Marcadas pela esperança
Do grande Rio Grande.

Jeca-Tatu, Blau, eu e tu
Sepé Tiaraju, Tatu-Guaçu
Embalamos malas
Poetizar é preciso
Carregar malas também
Ah, como é vasto o mundo das malas!
Vai além de Passo Fundo!
E como espantam o mundo!

Caíram todas as máscaras

A regra é esta: foi-se embora o capital social que
algumas grandes empresas tentavam preservar.
A reputação, os compromissos sociais, a imagem externa,
os vínculos duradouros com as comunidades, nada disso interessa mais.

 

Teve um tempo em que grandes empresas eram sustentadas pela reputação institucional construída por décadas. Agora, o que importa é o resultado imediato às custas do marketing de ocasião.

A reputação, os compromissos sociais, a imagem externa, os vínculos duradouros com as comunidades, nada disso interessa mais. O que interessa é vender o produto. Mesmo que tenha soda cáustica, pelos de rato, pedaços de unhas e restos de propinas.

Degradou-se o esforço construído também por profissionais que se dedicavam a fortalecer marcas associadas a compromissos humanistas e à diversidade.
A reputação é algo vago, cada vez mais distante para os empresários brasileiros e em especial para seus herdeiros pragmáticos.

Obter resultados de curto prazo para os acionistas é a tática da sobrevivência, no ambiente pós-golpe de devastação da democracia e da economia. A estratégia vai até amanhã.

Foi-se o tempo em que boa parte dos empresários gostava de parecer alguma coisa que não era, em meio a projetos grandiosos e sinceros. Mas na maioria dos casos caiu a máscara.

O grande empresário brasileiro é, na média, um reacionário enrustido finalmente exposto pelo golpe. Um ultraconservador, muitas vezes até simpatizante de Bolsonaro, que ainda tentava se vender como um moderado liberal.

Há exceções? Claro, mas não vamos refletir sobre exceções que ainda resistem. A regra é esta: foi-se embora o capital social que algumas grandes empresas tentavam preservar.

A vantagem disso tudo é que o desmonte de compromissos pulverizou também algumas farsas construídas mais recentemente nos anos 90 da redemocratização, em todas as áreas, inclusive na grande imprensa.

Em outro artigo, Moisés Mendes descreve que há um contingente considerável de brasileiros ameaçando deixar o país: “A classe média atordoada se imagina na Austrália, na Nova Zelândia, na Espanha, até na Grécia em crise. Mas nunca no Peru, na Bolívia, no Chile, muito menos na Argentina. O sonho do brasileiro da classe média que deseja ir embora, e mais ameaça do que vai, nunca passa por paisagens latinas. Ir embora significa fugir pra longe”.

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