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Babacas ilustrados

O que está acontecendo com nossa educação formal
que dá conhecimento, mas não cultura,
que transmite conteúdo, mas não humaniza?
A educação que apenas transmite saberes técnicos
forma apenas babacas ilustrados como tantos que vemos por aí.

 

Muito antes dos movimentos ecológicos, meu pai jamais deixava queimar os restos das colheitas. Era melhor apodrecer e virar adubo. Ele também tinha o que hoje descobri ser empatia por animais e pessoas. Ensinou a sermos honestos, respeitosos e cordiais.

Uma vez uma vaca nossa entrou no milharal do vizinho e, embora tivesse o vizinho dito que não tinha problema, na colheita meu pai levou até ele três cestos do produto para compensar o estrago feito.

Meu pai mal desenhava o nome com um lápis laranja de pedreiro. Nunca teve educação formal, escola, ou livros.

Relato esse exemplo para me perguntar qual o lugar da educação para melhorar nosso jeito de nos relacionarmos com os outros, para nos ajudar a desenvolver a empatia afetiva, para que tenhamos atitudes mais humanas e melhorarmos a convivência.

Surgem esses questionamentos após acompanhar o caso dos brasileiros que constrangeram uma mulher russa, divertindo-se com ela como se lidassem com um brinquedo qualquer. Entre eles um advogado, que chegou a ser secretário de turismo de Ipujuca em Pernambuco, um tenente da polícia militar de Santa Catarina e um engenheiro civil. Todos com ensino superior, mas completamente idiotas. E sempre sob o argumento de “uma brincadeira inocente”. Assim, como há alguns anos atrás, meninos bem educados da classe alta de Brasília atearam foto a um índio por diversão.   Como é possível alguém ser estudado e um babaca social?

“Se fosse por aqui, seja com protagonistas estrangeiros ou brasileiros, a história poderia ser diferente. “Tipificamente, aqui seria enquadrado como contravenção da importunação ofensiva ao pudor”, explica a defensora pública Paula Machado, coordenadora do Núcleo de Promoção e Defesa dos Direitos da Mulher. Ou seja: pagariam uma multa por importunar, de modo ofensivo ao pudor, e tornar pública essa humilhação”.

Veja mais aqui.

Mais uma.  Após alterações sem-pé-nem-cabeça efetuadas para o Prêmio Jabuti deste ano, – que ensacou como batatas iguais a literatura para crianças, a literatura para jovens e a ilustração, – reagiram editores, escritores e ilustradores dessas literaturas. Foi então elaborada uma carta à Câmara Brasileira do Livro, em que mais de 300 profissionais da área questionamos os novos critérios.

Após ouvidos moucos aos questionamentos, Volnei Canônica, conhecedor do assunto e grande movimentador cultural do livro, escreveu um artigo em um site especializado em literatura.

No artigo, expôs os questionamentos já antes contidos na carta. Pois bem, o que não interessava, mas passou a interessar, é que Volnei Canônica é casado com Roger Mello, um de nossos mais significativos autores e ilustradores, sendo já premiado com o Nobel da ilustração, o Prêmio Christian Andersen. Foi então que o curador do Prêmio Jabuti, cheio de pós-doutorados e com seu Lattes recheado de publicações sobre literatura, ao invés de responder aos questionamentos, comenta em post no artigo, que Volnei Canônica tão somente levava a crítica para o lado pessoal, para defender “seu amor”, no dia dos namorados. Ante a repercussão do comentário nas redes sociais, o dito curador veio a pedir demissão, sem, contudo, rever suas posições e preconceitos.

O que está acontecendo com nossa educação formal que dá conhecimento, mas não cultura, que transmite conteúdo, mas não humaniza? Por que meu pai, sem escola, sabia se colocar como ser humano no mundo, com sensibilidade e empatia para outros animais e pessoas?

Será que é possível ensinar alguém a ser mais humano? Como a escola poderia fazer isso?

Do que já vi e vivi, aprendi que a Arte, quando vivenciada e não apenas quando objeto de estudo, desenvolve a sensibilidade e humaniza.

Não adianta, como o curador do prêmio Jabuti, ver a literatura ou outra arte apenas como objeto de saberes. É preciso deixar-se envolver, vivenciar, deixar-se tocar. É como quem canta, como quem dança, como quem representa, como quem lê um livro literário não apenas para ter respostas numa prova, mas para experienciar na própria pele as dores e alegrias dos personagens.

A educação que apenas transmite saberes técnicos forma apenas babacas ilustrados como tantos que vemos por aí. Precisamos de uma educação que vivencie as experiências emotivas e afetivas do ser humano. Creio que as artes, adequadamente mediadas, podem nos ajudar, e muito.  

Bernadete Dalmolin: mulher com ideias inovadoras para a UPF

 

Em entrevista exclusiva para o site, Bernadete Dalmolin
responde a questões que envolvem sua história pessoal e
o desejo coletivo de fazer uma gestão inovadora na
UPF (Universidade de Passo Fundo) a partir do diálogo,
da humanização e da gestão compartilhada.

 

Professora Bernadete, como avalias o processo da eleição para a Reitoria em 2018? O que significa a vitória da proposta de um grupo de pessoas que propôs a gestão compartilhada para a nossa querida UPF?

Foi um importante momento de participação, de avaliação e de discussão de projetos para a universidade que queremos nos próximos anos. A vitória da proposta do Movimento Ação UPF significa que a comunidade acadêmica deseja avançar, efetivamente, na vivência da gestão democrática, envolvendo os docentes, discentes e técnicos-administrativos, orientando-se pelas relações dialógicas e de humanização.

A UPF tem uma organização colegiada muito clara, mas ela deve ser fortalecida e ressignificada institucionalmente, potencializando a capacidade de análise, de resolução, de eficiência e de agilidade, sem prejuízo à educação que caracteriza o ensino universitário.

 

Quais foram e quais são as motivações pessoais para estar à frente da UPF para o período de 04 anos? O que de sua trajetória pessoal e profissional estará impregnado na forma de gerir a Universidade?

A principal motivação é, sem dúvida, compartilhar um projeto de Universidade em que a UPF reforça seu caráter comunitário, aprofundando a concepção de uma Instituição formadora e de produção do conhecimento contribuindo para o desenvolvimento da região. Além disso, dar vazão e voz ao enorme capital intelectual acumulado nessas cinco décadas de história.

“Entendemos que é com transparência e agregação das pessoas, com as capacidades de cada uma, que nos potencializaremos em torno de um projeto comum”.

Penso que sempre tem um encontro de trajetórias num coletivo como este que se constituiu no Movimento Ação UPF. Da minha trajetória, acredito que estarão presentes algumas características, comoo diálogo, a capacidade agregadora, a transparência e o afeto.

Quais são, hoje, os maiores desafios da gestão desta Universidade num contexto de crise institucional, política e econômica, mas também de um tempo onde o próprio papel da educação vem sendo questionado?

É preciso considerar o contexto de criseeconômica que, neste momento, afetam visceralmente as Instituições Comunitárias. Aliado a isso, as profundas transformações da educação superior, como a massificação dos sistemas, as formas de competição entre instituições de ensino superior, o tensionamento entre o público e o privado, assim como as inovações tecnológicas. A UPF necessita conviver e dialogar com esse tempo, enfrentando cautelosamente as dificuldades, fazendo as adequações necessárias e, abrindo-se às inúmeras possibilidades que ele traz consigo.

“Entendemos que é necessário aprofundar o papel das Instituições Comunitárias, reforçando seu caráter de instituição pública não estatal. Cumprimos, ao longo da história, um papel fundamental, fazendo frente a “vazios educacionais” (não cumpridos pelo Estado) e impulsionando o desenvolvimento das regiões”.

Buscaremos, em conjunto com as nossas associações, intensificar essa pauta junto aos órgãos governamentais, a fim de abrir frentes de financiamento diferenciadas às nossas ICES.

Assumimos como orientação a visão de futuro segundo a qual uma grande universidade comunitária se faz com excelência acadêmica, sustentabilidade econômica, interação com a comunidade, produção do conhecimento e gestão compartilhada. Isso significa que, internamente buscaremos equilibrar colegialidade e pró-atividade na gestão, movendo-nos com agilidade frente aos desafios e sermos resilientes na preservação dos valores acadêmicos.

 

Como é conciliar ensino, pesquisa e extensão no século XXI de tantas transformações?

É um desafio, pois requer uma ruptura de uma base formativa que está arraigada em modelos (teorias, metodologias e práticas) bastante tradicionais, fruto de um processo histórico e fragmentado de fazer ciência, de aprender e de ensinar.

Penso que é no entrelaçamento dessas dimensões que poderemos encontrar novos sentidos às atividades acadêmicas do nosso tempo, ou seja: ao fazermos pesquisa, geramos extensão (ou vice-versa), transformando a sala de aula em um ensino mais dinâmico aos nossos estudantes.

Nós temos condições de acelerar esse ambiente inovador, a partir do relacionamento com os diferentes públicos, de identificação de oportunidades, de negociação, de cooperação, inovando nossos currículos, fortalecendo e abrindo linhas de pesquisa e tornando, cada vez mais, nossa “casa UPF” e nossa comunidade um lugar mais qualificado para crescer e se desenvolver.

“Este papel está na gênese da universidade e, num mundo cada vez mais plural e complexo, com diferentes e variadas formas de vida, o que faz a diferença é essa integralidade que potencializa a formação de um sujeito crítico, ético, aberto ao diálogo, com capacidade de pensar por si mesmo, com olhar abrangente, sensibilidade imaginativa e responsabilidade social”.

O que significa para ti, para a instituição e para a própria comunidade geral a eleição da primeira reitora mulher da Universidade de Passo Fundo?

O mundo da gestão ainda é eminentemente masculino. Romper a lógica hegemônica, neste caso, também é importante e inovador. Que pena que é a primeira vez em 50 anos, até porque as mulheres sempre estiveram presentes no cenário da educação brasileira, mas que bom que aconteceu agora (na UPF as professoras somam mais de 40% do total).

Creio que isso será muito importante para que outras mulheres possam ocupar espaços de gestão, trazendo para esse campo, características que são próprias ou mais aguçadas no gênero feminino.

Em momentos da campanha eleitoral ouvíamos depoimentos que expressavam “incômodos” com a possibilidade da UPF teruma reitora, como por exemplo: “uma gestão complexa não é para pessoas sentimentais, emotivas”, dentre outros, buscando desqualificar características e negar trajetórias (inclusive de gestão).

“Penso que precisamos superar pré-conceitos que reforçam uma cultura dominante de um perfil masculino para os cargos da alta gestão”.

Acho que as diferenças entre homens e mulheres são salutares e complementares e, promover a igualdade de gênero no lugar do trabalho, é uma questão justa e inteligente, aproveitando as competências e talentos de cada um/uma, também nos espaços estratégicos de condução e de tomadas de decisão.

 

Qual é a sua visão sobre a construção de um conhecimento para a humanização, que é uma das propostas do nosso site? (a ideia que defendemos é de que, através do conhecimento reflexivo, podemos superar a nossa ignorância e nos tornarmos assim pessoas melhores).

Falar em humanização é falar em relações, em reconhecimento do outro como sujeito de direitos e saberes.

“É preciso deixar claro que não estamos falando apenas de cordialidade, ou de momentos de uma reunião dos funcionários com seus dirigentes, estamos falando de uma postura, de uma prática cotidiana. Estamos falando do resgate e fortalecimento do que é ser sujeito, ser HUMANO”.

Entendo que a construção de um conhecimento para a humanização passa pela superação de uma cultura institucional fortemente assentada nos modelos de gestão, que vem de determinadas escolas clássicas e que ainda são fortes na sociedade. Modelos esses, que produziram como efeito, a dominação, a separação entre quem pensa e quem executa o trabalho, a alienação. Formas não compatíveis com uma gestão de educação da natureza da nossa.

Para isso, instituiremos modos de trabalho que produzam tanto compromisso e convivência solidária com o interesse comum, quanto capacidade reflexiva e autonomia dos diferentes espaços de gestão. Dito de outra forma, trabalharemos fortalecendo a capacidade de ser, de pensar, de refletir, de criar e de fazer de cada um.

 

O que a comunidade acadêmica e comunidade geral pode esperar da gestão compartilhada para os próximos quatro anos? Qual será a marca e a identidade de trabalho desta gestão que representas como reitora?

Pode esperar uma gestão em que todos importam e todos serão convidados a participar, a refletir e a decidir. Assim, acreditamos que iremos ampliar a autonomia de gestão das unidades e dos cursos e potencializar a capacidade de análise, de resolução, de eficiência e de agilidade.

 

Por fim, como defines numa frase você, Bernadete Dalmolin.

Uma pessoa presente, de diálogo, de fácil convivência e que se inquieta com injustiças de toda a ordem.

Espero que dê tudo certo

Desejo que qualquer um,
em qualquer profissão,
tenha uma vida digna e feliz.

 

Acompanhei a polêmica sobre a brincadeira “se nada der certo”, na qual alguns alunos imaginavam o que fariam, caso não tivessem êxito na vida acadêmica. Pensei nos meus filhos e sobrinhos. Pensei no futuro deles, no que eu desejo para eles. O significaria “dar certo ou errado”?

Duas escolas do Rio Grande do Sul criaram, em ocasiões diferentes, uma atividade curiosa. Os alunos do terceiro ano do ensino médio se fantasiaram dentro do desafio : e se os meus planos de vestibular e de vida falharem? Desafio dado e surgiram garis, faxineiras, vendedoras, presidiários etc. As fotos circulam pela internet. Qual o problema da atividade?

Dar errado, para mim, é ser alguém desonesto, intolerante, violento. É ser estelionatário, assaltante, traficante. Ver que alguém que eu amo tornou-se uma pessoa que pensa só em si, e que se considera melhor do que os outros pelo simples fato de ter nascido numa situação econômica mais favorável, seria uma constatação de que “deu errado”.

Se tudo der certo, meus filhos, sobrinhos e amigos vão estudar, aprender, trabalhar. Vão encontrar uma profissão da qual gostem e vão poder viver dela. Vão ter uma vida material confortável e segura.

Espero que tudo dê certo, e que eles e todos os jovens do país possam seguir o caminho profissional que desejarem e se destacar pela sua competência. Qual profissão eles terão? Não sei. Para mim, tanto faz, desde que seja uma atividade honesta e que possa ajuda-los a ser pessoas melhores.

Na verdade, para os que puderem ir mais longe nos estudos e nos sonhos, desejo que tudo dê mais certo ainda. Desejo que eles aprendam a respeitar as diferenças, mesmo quando não puderem compreendê-las.

Desejo que percebam que nem todos têm as mesmas oportunidades, infelizmente. Desejo que entendam que são privilegiados, mas que isso não os torna melhores, apenas mais obrigados a desempenhar um papel social construtivo. Espero que compreendam que fazem parte de uma comunidade, que suas ações têm consequências, e eles são responsáveis por elas.

Espero que tudo dê certo para todos. Mas se a vida não acontecer conforme a expectativa, e ao invés de médico, um filho ou sobrinho acabar sendo atendente de lanchonete, desejo que isso dê certo. Desejo que ele possa trabalhar de forma produtiva e honesta, que seja remunerado decentemente e respeitado por colegas e clientes. Desejo que qualquer um, em qualquer profissão, tenha uma vida digna e feliz.

A civilização se afogará no próprio lixo?

A perspectiva é que se não houver
mudanças drásticas no modelo de produção,
essa civilização se afogará em seu próprio lixo.

 

No decorrer da história foram construídas diferentes percepções sobre o lixo, desde a percepção e a associação ao inútil, até uma percepção ecológica. O fato é que ele ajuda a contar a história de muitas civilizações, até mesmo a nossa.

A palavra “lixo” sempre esteve associada ou definida como tudo aquilo que se descarta que não mais pode ser utilizado, resultante de diferentes atividades, sejam elas domésticas, comerciais e industriais, dentre outras. Na idade média, a idéia de lixo (excedentes humanos) era restrita aos resíduos eliminados pelos organismos, como fezes, urina e o próprio corpo em decomposição. Desta forma, ele era apresentado como uma ameaça aos seres humanos, especialmente por ser a causa do surgimento de grandes epidemias.

Com a revolução industrial, o desenvolvimento de técnicas e as descobertas científicas possibilitaram a ampliação da percepção do lixo. Passou-se a compreender que a própria emissão de gases poluentes é uma forma de lixo. A partir da década de 70, mudou-se a perspectiva de percepção desses excedentes humanos, e passou a ser uma das grandes preocupações ecológicas, sobretudo, por causa da industrialização crescente.

Atualmente, um dos grandes debates que ganham força política é a relação excedente versus meio ambiente. É um debate que se insere também na agenda dos direitos, especialmente ao direito à saúde ambiental. Um direito que por muito tempo vem sendo negligenciado pelo poder público, especialmente, aos mais pobres.

O fato é que com a modernidade, particularmente no ramo da indústria moderna, a produção de resíduos cresceu enormemente. Na ponta inicial do processo industrial, para atingir a eficácia da produção em massa, exigiu que se cortassem, aparassem, segregassem, separassem ou extirpassem as partes de matéria prima. Na verdade, cortamos as árvores, demolimos as montanhas para extrairmos os metais, consequentemente, poluímos a água e o ar.

A história das coisas.

O grande problema desse sistema de produção em massa é com a sua própria sobrevivência num planeta finito. Deparamos-nos hoje com escassez de recursos naturais, devido à utilização demasiada e descontrolada, buscando cegamente o desenvolvimento e o crescimento econômico.

Mas o problema não acaba por aqui.

No final desse processo, na outra ponta do sistema, emergem os excedentes humanos, os resíduos como subproduto do processo. Que fim dar a ele? O que fazer com esse excedente?

Ele sempre foi encarado como inútil, mas com um potencial desastroso, por isso criou-se a indústria de manejo do lixo. Infelizmente, as medidas tomadas não foram suficientes para neutralizar ou amenizar os perigos de sua exposição. O manejo ocorreu através da criação de aterros sanitários, ali os excedentes da humanidade poderiam ser transportados e depositados. O grande problema é que, adotamos um sistema altamente poluente para nossas águas, solos e ares.

Outro fator problemático é que devido à urbanização desordenada há enorme carência de espaços para a construção de aterros. A oferta de aterros sanitários é cada vez menor, enquanto a produção de lixo prossegue inabalável. Os sinais são claros, caminhamos para a autocombustão e explosão do sistema atual. A perspectiva é que se não houver mudanças drásticas no modelo de produção, essa civilização se afogará em seu próprio lixo.

Conforme descreve o sociólogo polonês Zygmunt Bauman: “A modernidade tem sido suspeita de uma tendência essencialmente suicida, semelhante uma cobra comendo seu próprio rabo”, o problema é que ela nunca sabe quando o estômago será seu alimento.

O século XXI, apesar da perspectiva de avanços científicos e tecnológicos, caminha sob o signo da incapacidade de incluir no ciclo de uso o destino ecologicamente correto para as montanhas de excedentes gerados pela humanidade e depositados em lugares impróprios. Nos bastidores do Estado e do mercado temas como crescimento, desenvolvimento e sustentabilidade são atualmente os grandes desafios, assim como a necessidade de efetivar ações e criar uma nova concepção.

Precisamos apostar na reciclagem, para isso primeiro devemos mudar nossa percepção sobre o lixo nos livrando daquela velha mentalidade que o associava ao inútil. Ele é fonte de riqueza, muitas pessoas poderão tirar o sustento para suas famílias, em um trabalho ecologicamente correto.

Repensar, reduzir, reutilizar, reciclar.

É tempo de reestruturar esse sistema linear, cujo ciclo pode ser resumido em extração, industrialização, uso e descarte. Precisamos transformar esse sistema linear em algo novo. Atualmente há iniciativas que pensam todo o processo produtivo no modelo de “ciclo fechado”, são iniciativas baseadas na sustentabilidade, equidade, energia renovável. É um sistema circular que não desperdiça recursos e nem pessoas. É nessas iniciativas que precisamos apostar.

Projeto Rio Passo Fundo: educação ambiental em pauta

Um dos trabalhos realizado pelo
Projeto envolveu as escolas de Passo Fundo
e região em ações de educação ambiental.

 

Antes da cidade, o Rio foi berço para os indígenas e levou tropeiros por caminhos recém abertos, serviu de alimento, abrigo e passagem. Pelo Rio, passavam o gado, o couro, o sebo, e parte da gente que desbravava o país no início do século XIX. Antes mesmo de Passo Fundo nascer, o Rio, que dá nome ao município e a sua Bacia Hidrográfica – que abrange 30 municípios –, já aguardava a chegada da cidade e testemunhava a história: a vinda dos índios Caingangues e Tupi Guaranis, do tropeiro paulista, do imigrante, do comércio e da indústria.

É essa importância histórica, cultural e econômica que o Projeto Rio Passo Fundo: patrimônio paisagístico, natural, ambiental, histórico-cultural, econômico e político – desenvolvido pelo Museu de Artes Visuais Ruth Schneider (MAVRS), com o apoio do Museu Histórico Regional (MHR), do Museu Zoobotânico Augusto Ruschi (Muzar) e do Comitê Rio Passo Fundo e realizada a partir do patrocínio do Programa CAIXA de Apoio ao Patrimônio Cultural Brasileiro 2017/2018, busca reconstruir com a sociedade. Ele propõe sensibilizar a comunidade para olhar, de forma diferente, abrangente e consciente, para o Rio Passo Fundo.

O projeto, que envolverá os 30 municípios da Bacia Hidrográfica do Rio Passo Fundo – desenvolvido durante os anos de 2017 e 2018 –, consiste na realização de exposições e, principalmente, na construção de um banco de dados, constituído a partir de informações obtidas durante as expedições realizadas e, ainda, através do Edital de Mapeamento de Potenciais Informativos que permitirá que a comunidade tenha acesso e conhecimento sobre todas as informações que compreendem a Bacia Hidrográfica. Para a construção das exposições – que serão abertas à visitação no mês de julho – foram realizadas nove expedições aos municípios ribeirinhos ao Rio Passo Fundo, em busca de informações, vestígios históricos e ambientais, onde realizou-se entrevistas e coletas de material biológico para análise e produção de tintas naturais.

Buscando a interdisciplinaridade, o projeto envolve diversos cursos e acadêmicos da Universidade de Passo Fundo, além da participação de vários apoiadores, entidades e instituições da sociedade. Os estagiários, bolsistas e voluntários com a supervisão de professores e da equipe que coordena o projeto, estão auxiliando na elaboração de materiais que irão compor as exposições – maquetes, jogos interativos, banco de dados, compilação de informações e o planejamento das próprias exposições.

 

Ações educativas

Uma sala de aula cheia de alunos com olhares atentos, dispostos a conhecer e a compartilhar histórias, lendas e fatos relacionados com o Rio Passo Fundo. Este foi o cenário encontrado pela equipe do Projeto Rio Passo Fundo não apenas em Passo Fundo, mas, também, nas escolas visitadas na região por onde este rio passa.

O Projeto realizou, desde 2017, diferentes ações que buscaram compreender a visão dos alunos a respeito do Rio Passo Fundo e do meio ambiente, além de fornecer instrumentos e informações a respeito do uso dos recursos hídricos e o impacto que pequenas atitudes podem gerar.

Uma das primeiras ações encaminhadas dentro do Projeto Rio Passo Fundo foi a distribuição de questionários investigativos. Além de serem aplicados nas comunidades e cidades visitadas, os questionários foram enviados para escolas e trabalhados em sala de aula. O retorno aos alunos foi realizado através de palestras e oficinas que abordaram a importância da água para a vida. Além dos questionários, outras ações educativas – aplicação de oficinas, participação em feiras e projetos – foram realizadas. O objetivo é um só: proporcionar conhecimento para a comunidade da Bacia Hidrográfica do Rio Passo Fundo.

Para Débora Bueno, integrante da equipe de metodologia do Projeto, trabalhar a educação ambiental é trabalhar a questão de pertencimento. “O Projeto tem como intuito reconstruir a história desse rio que é tão importante para nós e para 30 municípios que compõe a Bacia Hidrográfica”, inicia. “E só damos valor para aquilo que conhecemos. E a reconstrução dessa história é essencial para que as pessoas comecem a valorizar esse recurso e se sensibilizem diante dele. Costumo dizer que o objetivo é conhecer para pertencer: a pessoa só se identifica com aquilo que ela realmente conhece”, explica.

Kélen Scherer da Costa, que também integrou a equipe de metodologia, acredita que a educação ambiental possibilita que o sujeito compreenda sua relação com o meio ambiente. “Assim, é possível instigar um olhar mais amplo e sensível com as questões sociais e suas transformações. É por intermédio desses processos que as pessoas constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do meio ambiente e para a consolidação de uma sociedade mais justa e equilibrada ambientalmente.”, comenta. “O Projeto Rio Passo Fundo possibilitou a aproximação da equipe, tanto com as crianças, através das ações realizadas nas escolas, quanto com a comunidade. Levou até esses grupos a possibilidade da troca de conhecimento, através de uma construção coletiva”, complementa.

Com a abertura do circuito de exposições, no mês de julho, outras ações serão realizadas dentro dos Museus. “As exposições resultam de todo o processo que passamos no Projeto e vão estar abertas para que as pessoas tenham acesso às informações e percebam a significância e a importância desse. Precisamos conhecer o nosso rio para se sentir parte dele”, conclui Débora.

 

Texto: Sammara Garbelotto

Desfile de fantasmas em tempos de crise

Quando se trata de olhar para o futuro do Brasil,
a crise revela um horizonte sombrio e povoado de incertezas.
Neste caso, a escuridão e a falta de transparência torna-
se terreno fértil para a produção de fantasmas.

 

Tempos de crise costumam dar origem a uma série de medos, dúvidas, apatia, indiferença e não poucas perguntas sem resposta. Do ponto de vista socioeconômico e político, além do desemprego e subemprego, a crise engendra descrédito e desconfiança com respeito ao governo, mas também insegurança e instabilidade frente às instituições. Quando se trata de olhar para o futuro, entretanto, a crise revela um horizonte sombrio e povoado de incertezas. E neste caso, a escuridão e a falta de transparência torna-se terreno fértil para a produção de fantasmas.

Um desses fantasmas é o discurso sobre o retorno dos militares ao poder. Nas últimas semanas, com efeito, seja a partir da intervenção do Rio de Janeiro, seja durante a greve dos caminhoneiros, alguns representantes de alto grau das forças armadas levantaram o tom da voz.

O problema é que, para muitos, crise é sinônimo de caos e desordem. Nessa visão marcadamente conservadora, passa-se o mais rápido possível à necessidade de buscar uma nova ordem, no sentido de restabelecer o status quo. A crise é imprevista e imprevisível, o que significa que o “novo” constitui um perigo a ser imediatamente exorcizado. Ordem e imprevisto são dois inimigos declarados de morte.

Mais do que “caos”, porém, a crise costuma ser uma “encruzilhada” nos rumos da trajetória humana. Um sulco na história pronto para nova semeadura. O conceito de encruzilhada supõe a existências de diversos caminhos e, portanto, a possibilidade de uma escolha, seguida de consequente ação transformadora. Em outras palavras, de um ponto de vista mais aberto e inovador, encruzilhada pressupõe distintas alternativas e a necessidade de uma opção.

Em lugar de uma ameaça, o “novo” representa uma oportunidade de avanço, rompendo com os padrões tirânicos da mesmice. Disso resulta que, enquanto a visão de crise tende a ser obsoleta e retrógrada, a encruzilhada lança-nos em um novo desafio. A primeira tende a bloquear toda e qualquer iniciativa, para defender com unhas e dentesa ordem estabelecida, a segunda toma as rédeas do momento para fazer amadurecer as iniciativas no terreno remexido da história.

Talvez seja isso que está em jogo nas eleições de outubro. Ao invés de usar as trevas para preparar o palco a um verdadeiro desfile de fantasmas, por que não iluminar as nuvens sombrias até o fundo, no sentido de encontrar alguma luz que possa nos servir de semente e de orientação?

A voz alterada de certas figuras das forças armadas ou das autoridades não passam de braçadas de náufragos: tanto mais raivosas, brutais  e desesperadas quanto mais grave a tempestade e maiores as ondas. Por outro lado, o redemoinho da tempestade não é o melhor lugar nem o melhor momento para tomar decisões de longo alcance. Os ventos e as águas revoltas não permitem ver o porto e a luz do farol. Mais sábio esperar pela calmaria, quando o rumo da embarcação pode ser retomado com maior segurança.

Voltemos ao “sulco na história para nova semeadura”. Nesta perspectiva, as eleições ganham nova roupagem. Ao invés de cultivar o medo dos fantasmas, torna-se imperativo acreditar na semente lançada à terra. Temos ainda bem frescas na memória expressões como “trabalho de formiguinha”, “visita às famílias”, “círculos de reflexão e ação”, “comunidades eclesiais de base”, “fortalecer as organizações de base” – entre outras. Daí é que pode nascer a visão inovadora da encruzilhada. São frases que apontam distintas alternativas e que nos chamam a dar uma resposta, a fazer uma escolha.

Mas não só! São sobretudo formas de ação conscientizadora, organizadora e mobilizadora que devem ser cultivadas como se faz a um jardim de flores. Estas, como sabemos, antes de buscar o calor e a luz do sol, buscam o frio e o escuro do solo. Antes de aventurar-se pelo azul do céu, mergulham as raízes no umidade da terra. Antes de respirar o ar livre, nutrem-se do respiro pesado que reina nos porões e periferias da sociedade.

Com fantasmas ou sem eles, qualquer projeto novo de país deve fincar seus alicerces bem firmes na realidade econômica, social, política e cultural. Só assim terá tronco forte e braços rígidos para enfrentar os ventos que varrem continuamente a paisagem do mundo globalizado.

Orientação profissional e educacional na escolha da profissão do ser humano

A orientação educacional nos dias de hoje
extrapola as quatro paredes da escola, vai além
da cultura local e se universaliza cada vez mais.

 

Para falar da orientação profissional e educacional da escola, sempre é bom comungar da concepção grega do ambiente social que gera aprendizagem de qualidade: o verbo ballein (lançar, arremessar), com os prefixos sym (junto, com) e diá (separar, desunir, dividir), pode render uma bela e significativa reflexão sobre a função do orientador em uma escola.

Symbolus remete à confirmação da filição. Assim, a orientação precisa confirmar a unidade, dar o direito, fazer participar. Cada pessoa tem o direito de se exibir, mas também tem o dever de desenvolver a dimensão ética do acolhimento e respeito alheios presentes, espera-se, no projeto político e pedagógico da escola.

Diábolus é o termo que expressa a presença do espírito que tende a dividir, a separar, a desunir. Todos nós somos ao mesmo tempo simbólicos e diabólicos, faz parte da contingência humana. O trabalho do orientador é fazer tender para o simbólico.

Cabe ao orientador educacional fazer prevalecer o simbólico. É dele a responsabilidade de lançar sua presença e suas ações de tal maneira que se crie, se sustente e se aprofunde, na comunidade escolar, o entendimento, a colaboração, a comunhão. Assim, a escola cumpre com suas principais funções (passar o conhecimento de geração para geração e elevar o nível de convivência amorosa) e todos ganham em seu processo de amadurecimento e personificação autônoma.

As dificuldades se avolumam quando a escola está inserida em um ambiente social injusto e regido por políticas que se articulam para manter e ampliar privilégios de alguns grupos.

A vergonhosa e atual realidade política do país, veiculada todos os dias pelos meios de comunicação, é o contraponto negativo do que se espera de uma comunidade escolar. Trabalhar educação nos dias de hoje é remar contra a maré. O orientador precisa ter ciência dessa realidade. Sua atuação deve declinar para a coesão do grupo docente e sua liderança imbuída do ânimus que congrega e impulsiona: a reversão de um processo é sempre difícil, complicada e duradoura.

O caminho a ser percorrido está descrito no Plano Político-Pedagógico da escola. Cabe ao orientador conhecê-lo em profundidade, já que é o norte a ser perseguido. Com esse referencial, todas as ações adquirem caráter convergente, o que vai exigir planejamento prévio. As ações soltas, desconexas estão fadadas ao fracasso.

A força orientadora sempre deve conduzir, à luz do Projeto Político-Pedagógico, ao symbolus grego. Todos são convocados e merecem marcar seus passos na caminhada da comunidade escolar. Outra vez o orientador prima pela solidariedade e ajuda mútua, todos vão se constituindo na relação.

Saber do momento histórico de cada educando, bem como de sua condição social, é fator preponderante para o sucesso da orientação como também para o progresso do estudante em sua vida escolar.

Plantar o espírito de colaboração entre os estudantes é certeza de colheita farta, é preciso mostrar a todos os benefícios que a comunhão gera e o quanto ela melhora as condoções de vida não só dos seres humanos, mas de todas as formas de vida que o planeta abriga. Ninguém mais pode se ausentar do cuidado das condições de vida que o Planeta Terra ainda nos está a oferecer.

A orientação educacional nos dias de hoje extrapola as quatro paredes da escola, vai além da cultura local e se universaliza cada vez mais. É preciso entender que a competição gera miséria, desumanidade e morte. O amor, a comunhão, não é a proclamação da anulação pessoal, e sim sua afirmação, mas também é afirmação e preservação do outro.

Entre as muitas e variadas tarefas e responsabilidades de um orientador educacional, destaca-se a de identificar as dificuldades dos alunos e a busca de possíveis soluções para as dificuldades que se apresentam. O olhar do orientador não pode pairar somente sobre as dificuldades que o aluno revela em seu processo de ensino-aprendizagem, mas se ampliar para além das quatro paredes da escola.

É preciso alcançar a realidade familiar e conhecer as relações existentes entre pais e filhos (responsáveis). Muitas vezes os entraves no processo de aquisição do conhecimento são de fundo emotivo. Toda a ajuda que produz equilíbrio emocional favorece o desempenho intelectual. Aqui, o elogio tem sua vez.

Na relação com a escola, o orientador tem a incumbência de acompanhar o trabalho diário dos professores; participar do reforço escolar dos alunos; analisar e avaliar o rendimento dos alunos; orientar para a continuidade dos estudos e para a escolha profissional e/ou vocacional; acompanhar os alunos incluídos presentes na escola; ministrar palestras aos pais, visando a cooperação entre as famílias e a comunidade escolar, informando sobre o processo avaliativo adotado pela escola e sua prática em relação aos encaminhamentos necessários, dialogar com os pais sobre a permanência ou troca de escola em casos diagnosticados; expedir documentos escolares e arquivar documentos dos alunos.

O orientador educacional precisa compreender a fluidez e a dinâmica da sociedade humana como um todo, contudo há de atentar para as especificidades das comunidades locais, uma vez que toda a realidade pode ser expressa pelas mais variadas linguagens.

A pesquisa se impõe tanto na codificação quanto na decodificação dos sentidos. A meta maior aponta para a qualificação das relações na constituição da personalidade humana, que preserva e promove as dimensões da justiça, da verdade (ainda que relativa), do amor e da vida.

De fundamental importância para uma boa orientação educacional é o orientador conhecer o chão da vidade cada estudante. As muitas e diversificadas realidades familiares que constituem o universo da comunidade escolar revelam a complexidade profissional de um orientador educacional, ainda mais hoje em dia com a inclusão a cargo das escolas.

A investigação e a observação são dimensões vitais com exigência de tempo integral. O que socialmente é instituído como profissão requer, como extensão, a opção vocacional.

Delimitação legal das atribuições do Orientador Educacional

A Lei nº 5564, de 21.12.1968, regulamentada pelo Decreto nº 72846, de 26.09.1973, em seus artigos 8º e 9º define as atribuições do orientador educacional, que ora transcrevo aqui:

“Artigo 8º” –São atribuições do Orientador Educacional:

  1. Planejar e coordenar a implantação e funcionamento do Serviço de Orientação Educacional em nível de: 1 – Escola; 2 –Comunidade.
  2. Planejar e coordenar a implantação e funcionamento do Serviço de Orientação Educacional dos Órgãos do Serviço Público Federal, Estadual, Municipal e Autárquico; das Sociedades de Economia Mista, Empresas Estatais, Paraestatais e Privadas.
  3. Coordenar a orientação vocacional do educando, incorporando-a no processo educativo global.
  4. Coordenar o processo de sondagem de interesses, aptidões e habilidades do educando.
  5. Coordenar o processo de informação educacional e profissional com vistas à orientação vocacional.
  6. Sistematizar o processo de intercâmbio das informações necessárias ao conhecimento global do educando.
  7. Sistematizar o processo de acompanhamento dos alunos, encaminhando a outros especialistas aqueles que exigirem assistência especial.
  8. Coordenar o acompanhamento pós-escolar.
  9. Ministrar disciplinas de Teoria e Prática da Orientação Educacional, satisfeitas as exigências da legislação específica do ensino.
  10. Supervisionar estágios na área da Orientação Educacional.
  11. Emitir pareceres sobre matéria concernente à Orientação Educacional.

“Artigo 9º” –Compete, ainda, ao Orientador Educacional as seguintes atribuições:

  1. Participar no processo de identificação das características básicas da comunidade;
  2. Participar no processo de caracterização da clientela escolar;
  3. Participar no processo de elaboração do currículo pleno da escola;
  4. Participar na composição, caracterização e acompanhamento de turmas e grupos;
  5. Participar do processo de avaliação e recuperação de alunos;
  6. Participar no processo de encaminhamento dos alunos estagiários;
  7. Participar no processo de integração escola-família-comunidade;
  8. Realizar estudos e pesquisas na área da Orientação Educacional.

 

A atividade de orientação, sem dúvida, é uma tarefa complexa, a experiência avoluma o aprendizado, que por sua vez confere maior consistência e segurança ao profissional de orientação educacional. Aliás, esta é uma lei natural da contingência humana, quanto maior a experiência, o exercício, tanto maior será o aperfeiçoamento.

Espera-se de todo o orientador educacional e profissional que faça a opção ética pelo bem, que em sua postura assume ser para-raio, bússola, afeto, enfim, o amor em seu ambiente de trabalho.

Nós é que construímos o caráter político

Essa é uma clave de caráter cultural.
A riqueza está na mente.
Somos nós quem construímos
o caráter político.

 

Se fossemos deuses ou uma espécie de seres perfeitos, não precisaríamos da política. Precisamos da política por causa das nossas imperfeições inevitáveis. Somos seres imperfeitos por natureza e devemos nos fazer exemplo da evolução sempre que possível, no melhor sentido possível, na busca por sobriedade. Somos nós quem construímos o caráter político.

Estamos em uma crise de representatividade.Uma cultura que nasce de carências não se define como pobre por ser aquela que tem tão pouco. A verdadeira pobreza se encontra naquele que tem muito e deseja mais e mais e infinitamente mais. Essa é uma clave de caráter cultural.

A riqueza está na mente. Está na sobriedade, na bagagem leve. Está na sensatez, no que é solidário, na comunicação.

Eu particularmente aprecio uma fala lenta e bem pensada. Quem nunca presenciou uma confusão dialogal que beirava o enfurecer com pessoas que impunham a razão como se estivessem empunhando uma britadeira?

Ou aquela pessoa que não tem o mínimo de sensibilidade com o que sente o próximo. Assim, uma pessoa manifesta sua carência de recursos construtivos e agregadores, pobre por sua negligência. Mas não sejamos hipócritas, em algum momento de nossas vidas já tivemos atitudes parecidas. E é preciso reconhecer.

Uma das poucas certezas que temos é que a base fundamental para termos mais compreensão em um mundo de controvérsias é que precisamos praticar mais a autocrítica.

Tenha paciência. Não tente doutrinar as pessoas. Porque falar de política é importante, é legal e se faz muito necessário nos dias de hoje. Mas sejamos felizes uns com os outros, acima de tudo. 

Busque a autocrítica

Pensemos: como problemas tão complexos, que envolvem toda uma história milenar, podem ser respondidos cruamente? Supondo que o desenho de nossa atual magnitude se construa na trajetória de nossos passos?

A educação, em seu modelo dialogal e libertador, é a mais importante fonte para nos conectar à informação e ao conhecimento, o que se faz essencial para darmos passos sóbrios. A falta dela interfere na boa relação com o próximo e incorpora a índole malfeitora. Faz corromper seu estado sóbrio, fortalecendo seus mecanismos mais primitivos, tomando como exemplo um deles a negação: a negação de termos uma história de escravização; a negação de assassinatos e torturas em um regime ditador;a negação de fraudes; a negação de um golpe…

Você nunca sentiu a sensação da ignorância?

Dizer que a democracia será daqui a 50 anos aquela que conhecemos hoje é negar o espírito evolutivo do homem e da civilização.

Nada democrática a sociedade que não tolera os pensamentos divergentes e que combate as diferentes formas de organização social que querem praticar e viver os ideais coletivos. (Nei Alberto Pies)

Novas ditaduras

Não façamos de nós uma rotulação fútil de esquerda ou direita ao nos comparar com o mundo de interesses que gira em torno de se locupletar.

Como latino-americanos, não podemos negar a nossa história.A integração não é de esquerda nem de direita, é uma necessidade histórica do continente, porque chegamos tarde. O fato é que precisamos nos dar a abertura de nos integrarmos econômica e politicamente. Não vamos a lugar nenhum sozinhos. Como já dizia um grande educador, ”não há saber mais ou saber menos: há diferentes saberes”.

Precisamente, pois esse é o tesouro mais importante que temos… quando lutamos por um mundo melhor, o principal elemento que é a nossa felicidade. De minhas reflexões em relação a humanidade sou um leigo e por vezes indignado. Mas creio que somos todos.

“Não se governa um país como se administra uma empresa. Política tem que ter interesse de carinho humano, de reconhecimento humano. Não pode ser instrumento para acumular riqueza. Deve ser um instrumento para colher o amor social”. Pepe Mujica

Por que o Brasil não é um Uruguai?

Tudo o que escrevi não é contra você e
nem contra o Brasil, viu?
Não estou ofendendo ninguém,
é só um desabafo!

Está na moda escrever desabafos, então, como não sou anacrônica, faço também.

Eu juro que gostaria de morar no Uruguai, onde o povo é calmo, é pobre, mas de cabeça erguida e catedrático, aprova leis que aqui são inconcebíveis, pelo simples fato de que estão dentro do seu tempo, sem falsos moralismos.

Fico com inveja de ver um povo que vê as coisas com generosidade, que olha para o outro e torce para que seja feliz, mesmo que case com alguém do mesmo sexo, não havendo necessidade de paradas gays.

O povo uruguaio tem crianças conectadas à internet há anos e fornece notebooks às crianças desde os sete. O presidente uruguaio, de cabeça erguida, incita seu povo a estudar, muito, porque ele quer fornecer ao mundo pessoas de excelência.

Tive uma amiga uruguaia, há mais de 30 anos atrás, que era uma pessoa diferenciada, pianista formada e pós graduada, que aqui no Brasil costurava para fora, por que aqui não aceitaram seus títulos. Ela, sem saber, ensinou-me muita coisa sobre como ter filhos que gostam de estudar. As crianças dela tinham prazer com as pesquisas, com os mapas que desenhavam, com as maquetes que faziam, mesmo que o professor não pedisse. E ela não encarava aquilo como algo extraordinário, mas como normal, coisa de criança fazer mesmo.

Aqui não! Se alguém estuda mais e se destaca é CDF, sofre até bulliyng. Aqui, suporta-se que se roube tanto, que as cifras escapam da nossa capacidade de contagem e importam-se e muito, com as migalhas que o governo destina para a erradicação da fome.

Aqui a gente não entende que renda mínima é dever do Estado, gente! Aqui, a gente acha que há uns mais humanos do que os outros, por que falam em Direitos Humanos como se a expressão fosse um desaforo, ou palavrão.

Se a gente não fosse ignorante, não precisaríamos de leis novas, porque, sendo humanos, enxergando quem está ao nosso lado e respeitando a constituição, tudo estaria resolvido.

E isso tudo o que escrevi não é contra você, viu? Não estou ofendendo ninguém, é só um desabafo!

Conversa com Bial – Pepe Mujica.

 

Busque a autocrítica

Tenha paciência. Não tente doutrinar as pessoas.
Porque falar de política é importante, é legal
e se faz muito necessário nos dias de hoje.
Mas sejamos felizes uns com os outros,
acima de tudo.

 

Todo discurso eleitoreiro político é mutável com o tempo, com os acontecimentos… tanto da esquerda quanto da direita, isso é política. Não faça dessa ilusão partidária uma doutrinação cotidiana. Isso cega e te fere, te contamina e o que mais preocupa: te adoece. Você fica mais propenso a promover o ódio, a agir compulsivamente e a fortalecer o seu preconceito.

O que eu proponho fazer aqui é uma reflexão sucinta.

Sabemos que o sentimento de injustiça é enorme dentro de todos nós que acompanhamos tudo o que se passa, e devemos lutar por aquilo que prezamos ser o certo. Lute. É importante. E seja flexível, seja inteligível. Todo mundo erra e precisamos respeitar isso! Às vezes, não é necessário provar o tempo todo, para todo mundo, o quanto você é coerente a qualquer custo e que precisa provar que está com a razão sempre. Isso cria uma necessidade em sentir prazer pelo conflito e esquecer do que deve ser construído a partir daqui.

Tentar construir, e não conflitar, pode ser um bom avanço para própria saúde mental. Permita-se compreender o que o outro está falando. Escute mais. Tente fazer o máximo para que o diálogo seja proveitoso, mesmo que esteja falando com aquela pessoa difícil de se manter um papo reto.

Tenha paciência. Não tente doutrinar as pessoas. Porque falar de política é importante, é legal e se faz muito necessário nos dias de hoje. Mas sejamos felizes uns com os outros, acima de tudo.

Ou pelo menos tente. Tentar ser mais permissível, compreensível e manter a criticidade como um ato construtivo, é um passo evolutivo.

Uma ideia bem bacana que pode serpropícia no nosso dia-a-dia: busque a autocrítica.

O orgulho é um fator interessante quando tocamos neste assunto, pois parece que, automaticamente você mostra sua vulnerabilidade ao admitir seus erros, o que pode ser usado contra você por algum tipo de oposição. Isso, tomando aqui uma dose de ciência, é devasto. A definição de uma má cultura. É um tabu que precisa ser quebrado.

“Não há nada mais trágico neste mundo do que saber o que é certo e não fazê-lo. Que tal mudarmos o mundo começando por nós mesmos?”(Martin Luther King)

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