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O educador como agricultor

Ensinar sem conhecer quem são os alunos
seria o mesmo que o agricultor lançar a semente
em qualquer solo, sem conhecê-lo e tratá-lo corretamente.
Contudo, o gosto pela lida, baseado no amor zeloso e simples,
faz toda a diferença no exercício diário de qualquer profissão.

  

Como podemos observar, a profissão do agricultor não é nada fácil. Está sempre sujeito a riscos. Da preparação do solo até a comercialização dos grãos enfrenta muitos obstáculos, dos quais alguns dependem da solução de sua própria ação e outros obstáculos não.

O planejamento de sua ação, ancorado em sua destreza para se antecipar aos fatos e escolher as melhores alternativas fortalecem suas capacidades de solução contra as intempéries naturais e econômicas.

Mas, em que sentido a profissão do agricultor auxilia para pensar metaforicamente o papel do educador e a profissão de professor?

Se olharmos com atenção as etapas que constituem o trabalho do agricultor, caracterizando-o enquanto tal, é possível observar que muitos fatores independem de sua ação: forças da natureza, estradas apropriadas para o transporte, silos adequados para o armazenamento e humores do mercado internacional. Claro, ele pode interferir para acelerar o reparo das estradas, por exemplo, mas tal reparo depende em última instância da decisão do poder público.

Contudo, há muita coisa que está ao alcance de sua ação, sendo isso precisamente o que interessa a Dewey. A ação bem sucedida do agricultor depende do cumprimento de várias etapas: capacidade de previsão, observação cuidadosa, consideração meticulosa das condições existentes, estabelecimento do plano de ação e escolha certa entre alternativas possíveis.

O autor resume o núcleo da ação do agricultor do seguinte modo: “Seu propósito é simplesmente prever as consequências de suas energias relacionadas com as coisas que estão à sua volta, uma previsão empregada para dirigir seus movimentos no dia a dia”.

O resultado mais eficiente do emprego de suas energias depende do conhecimento maior das coisas e, ao mesmo tempo, do planejamento adequado de sua ação.

Algo semelhante acontece com o educador, seja pai ou professor. Ser bem sucedido no que faz depende do conhecimento de todas as etapas do processo educativo, respeitando-as em seus pequenos detalhes.

Há, como na ação do agricultor, um conjunto de fatores que independem da vontade do educador e que pesam decisivamente no desempenho de sua ação. As forças do ambiente externo, natural ou social, interferem na relação que o professor mantém com seus alunos, dentro da sala de aula. Poderá dar melhor aula, enriquecendo a experiência formativa de seus alunos, se o ambiente lhe for favorável.

“Muitos, como eu, nasceram e viveram a infância na roça. Eu sinto orgulho de ser um filho da roça, porque a vida no “interior” me ensinou valores muitíssimo finos e refinados. Na companhia de árvores frutíferas, animais, nascentes, riachos e lavouras, as pessoas que lá residem formam verdadeira comunidade. Comunidade quer dizer comunhão, integração, relação. Esta comunhão se perdeu na vida urbana atribulada e estressante. Todo o tempo na cidade tem que ser um tempo ocupado. Não temos mais tempo para curtir o próprio ritmo (do tempo).

Vida na roça

A escola pode estar mal construída, em local de difícil acesso, com telhado quebrado e com falta de material. Pode ter o espaço de sala de aula muito pequeno, não conseguindo abrigar confortavelmente o número excessivo de alunos.

Além disso, pode contar com pais e diretores que se interessam pouco pelo processo pedagógico em si, entregando literalmente filhos e alunos ao professor. Há, ainda, o problema da gestão pública dos recursos destinados à educação: o governo, além de ter destinado pouca verba, torna-se ineficiente e corrupto para fazer chega-la a tempo na escola.

Com todas estas condições desfavoráveis, o professor fica obviamente prejudicado no exercício de sua profissão, contando ainda mais com o fato de não receber remuneração justa pelo seu trabalho.

Mas, como na ação do agricultor, há um conjunto de coisas que dependem do próprio professor. Em primeiro lugar, cabe a ele e a mais ninguém, selecionar de maneira mais adequada possível, o conteúdo a ser tratado. A escolha do conteúdo precisa levar em conta as condições existentes, das quais o perfil dos alunos é decisivo.

Ensinar sem conhecer quem são os alunos seria o mesmo que o agricultor lançar a semente em qualquer solo, sem conhecê-lo e tratá-lo corretamente. Daí a importância sobre a observação cuidadosa das condições culturais dos alunos; saber de onde provém; qual é seu contexto social e familiar; o que sabem ou não sabem, tudo isso é muito importante para a organização do ensino.

Além do bom domínio de conteúdo e do conhecimento dos alunos, a postura do professor é determinante para que o processo pedagógico seja bem sucedido. Do mesmo modo que o agricultor não pode estabelecer um ideal de cultivo ignorando as condições existentes, o professor não pode querer simplesmente impor seus próprios fins como objetivos adequados ao desenvolvimento dos alunos.

Respeitar a condição cultural do aluno, tomando como ponto de partida a capacidade de fazer suas próprias experiências é um princípio pedagógico indispensável para que o professor possa ser bem sucedido em sua tarefa de ensinar as novas gerações.

Se o agricultor desenvolve em cada safra as mesmas atividades, mas nunca repetindo-as da mesma maneira, o professor recebe a cada ano alunos diferentes, sem repetir literalmente o mesmo conteúdo e procedimento.

Cada safra representa um novo ambiente, assim como cada turma significa, para o professor, um novo desafio, exigindo-lhe novo recomeço. Mesmo experiente e vacinado na lida, sabe que vai correr risco de não se fazer entender diante da nova turma.

Assim como o bom agricultor, que não se deixa orientar somente pela rentabilidade de seu negócio, mas, ao contrário, zela diariamente pelo crescimento das plantas, o professor demonstra todo seu amor à educação, cuidando cotidianamente de seus alunos.

Assim com o agricultor que espera boa safra e boa cotação de preço para seus produtos, também o professor espera colher os frutos formativos de seu trabalho, sendo remunerado de maneira justa.

Nem uma e nem outra profissão é um mar de rosas, pois, como vimos, estão rodeadas de obstáculos e dificuldades.

O sucesso do professor depende, primeiramente, do mesmo modo que o sucesso do agricultor, de sua capacidade de distinguir entre o que depende e não depende de sua própria ação. Isso ele precisa ter como pano de fundo para poder planejar adequadamente sua ação, prevendo suas possíveis consequências, para escolher da melhor forma entre as alternativas disponíveis.

Contudo, o gosto pela lida, baseado no amor zeloso e simples, faz toda a diferença no exercício diário de qualquer profissão.

Sociedade desconstrutiva

Dostoiévski já dizia: Se Deus não existe, tudo é permitido.
Somos produto de uma mentalidade que caminha em desconstrução.

 

A polêmica exposição patrocinada pelo Santander Cultural, em espaço nobre em nossa capital, é apenas a ponta de um iceberg de uma sociedade em busca da desconstrução.

O desrespeito e ultraje à fé cristã e católica, em tom abusivo, numa apologia e incentivo à pedofilia, zoofilia e orgias sexuais são batizadas de cultura contemporânea e pluralista, sob o pretexto da defesa dos direitos de opção sexual.

A exposição “artística”, agressiva e enfadonha, fere diversos artigos da Constituição Brasileira. Chamam de arte a deturpação da sociedade.

O que torna preocupante é que isso não é apenas um fato isolado, mas reflexo de uma mentalidade e organização global, onde se quer abolir a ética, a moral, a família e a fé, em nome da liberdade e do pensamento pós-moderno.

Para destruir a sociedade, tem que se desumanizar o homem, maculando sua essência mais genuína. A ideologia do gênero, propagada como um bem e antídoto é o veneno de nosso século. É rebeldia da criatura contra o Criador.

Se defendemos a família tradicional, composta de um varão e de uma mulher, com seus filhos gerados desse amor abençoado, estaremos hoje sendo acusados de homofóbicos.

Se nas escolas defendemos o dia dos pais e das mães, estaremos sendo preconceituosos e unilaterais.

Se pregamos nas igrejas a existência única de dois gêneros, como Deus fez e a ciência comprova, somos acusados de discriminatórios, retrógados, fora da modernidade e dos direitos alheios. Os programas educacionais promovidos e exigidos pelo MEC nas escolas, divulgando a ilusória ideologia do gênero, são abusivos e ferem o pudor e o respeito ético, na mais tenra idade.

 

Reações, polêmicas e ponderações

Jones Rossi é editor do Ideias em texto “Seis coisas sobre a exposição no Santander Cultural” enfrenta a polêmica e faz importantes ponderações como esta:

“O boicote promovido por grupos religiosos e civis contra o Santander tem toda a validade e mostra a maturidade de uma democracia na qual as pessoas podem se manifestar pelo que acreditam. Além disso, o Santander, por sua vez, tinha a possibilidade plena de continuar com a exposição, se assim quisesse. Já contra a censura promovida pelo Estado não há nada a ser feito.  Existe outro ponto que diferencia a censura do boicote. Quando o estado censura, é arbitrário. Quando qualquer grupo promove um boicote, sabe que pode dar errado, não existe garantia prévia de que o boicote funcionará. Há vários exemplos do lado oposto ter se movimentado e ter sido bem-sucedido no contra-ataque”.
Veja mais aqui.

 

 Nota da Arquidiocese de Porto Alegre sobre a exposição Santander

“É urgente combater o preconceito e a discriminação em todas as suas manifestações. Nesse sentido, em nome da pluralidade e do respeito às minorias, temos assistido ataques discriminatórios à cultura judaico-cristã que contribuiu na formação cultural do ocidente. Eliminar as dificuldades jamais pode significar desrespeitar o outro e suas crenças, especialmente porque, ao se tratar do imaginário simbólico da fé, entra-se num campo delicado de significados e sentidos que a ninguém é dado o direito de desprezar. Em tempos de terrorismo e intolerância, não se constroem pontes com agressão e desrespeito pelo o que é mais íntimo e sagrado no outro: sua fé e seu corpo”.
Veja mais aqui.

Professor Salah H. Khaled Júnior defende que fechamento da exposição foi criminalização

“Não vejo sequer fumaça de incitação à violência ou preconceito deliberado contra outro grupo social ou religião na mostra, muito menos de criação de uma exposição ou obra de arte especificamente com tais intenções. Fora desse limite, estamos diante de tentativas de imposição da moral de um grupo ou pessoa aos demais. Há precedentes históricos. Já queimamos bruxaslivros e histórias em quadrinhos. Talvez não tenhamos avançado tanto quanto se supunha”.
Veja mais aqui.

 

Em nome da liberdade de opção sexual, se fere as crianças na sua genuína alma infantil, criando feridas indeléveis, de uma sociedade que caminha para a morte.

Os que se rebelam dessa falsa pedagogia, podem ser até condenados, como provavelmente, agora nessa minha posição.

Perdemos infelizmente a linha divisória, porque abolimos quem a faz: Deus.

Dostoiévski já dizia: Se Deus não existe, tudo é permitido. Somos produto de uma mentalidade que caminha em desconstrução.

Estado laico, promotor de conhecimento das diferentes religiões

 

A religião tem um peso relevante neste contexto
em que duelam a democracia e o fundamentalismo
no Brasil contemporâneo.

Todo conhecimento gera compromisso. Em virtude do conhecimento que adquiri na práxis (teoria e prática) em relação à disciplina do Ensino Religioso há mais de 10 anos, sinto dever (ético) de me manifestar sobre os modelos de ensino religioso que o nosso STF (Supremo Tribunal Federal) está decidindo: não-confessional ou confessional.

Sou professor de ensino religioso, formado no paradigma do diálogo inter-religioso.

O Ensino Religioso é parte da formação integral do ser humano e integra os saberes necessários para a compreensão do mundo e das vivências humanas. Não há como desconsiderar a influência e a importância dos saberes religiosos na concepção de ser humano, mundo e sociedade. A busca de sentido para a existência, sejamos religiosos ou não, perpassa a vida de todo ser humano.

A liberdade religiosa, materializada pelo estudo e conhecimento das diferentes matrizes religiosas, é o que preconiza a legislação vigente que, por ora, os ministros poderão alterar. O Ensino Religioso ministrado nas escolas públicas hoje não é mais catequese, não é aula de religião e muito menos lugar para rezar e orar. O Ensino Religioso é a oportunidade de conhecimento das diferentes religiões com o intuito de respeitar e reconhecer as diferentes crenças e práticas religiosas que coexistem na sociedade.

O que prevê a atual legislação brasileira sobre o ensino religioso nas escolas.

 

Em 2015 escrevi: “Nem padre, nem pastor ou líder religioso, sou professor! Como líder religioso, falaria apenas a partir de uma religião. Como professor, posso apresentar o conhecimento acumulado de várias religiões, sem comparar e desmerecer uma em detrimento de outra. É direito dos alunos o conhecimento das diferentes religiões. É seu direito também o conhecimento dos fundamentos de cada e de todas as tradições religiosas. Conhecer as manifestações do sagrado e do transcendente nas diferentes religiões ou tradições religiosas tem o propósito de aprender a respeitá-las”.

Dois professores de ensino religioso em Passo Fundo, RS, discutem, em programa do CMP Sindicato, a importância do ensino religioso nas escolas de educação básica.

A escola não discute e nem questiona fé e religião. Fé e religião são prerrogativas de ordem íntima, pessoal, individual e de livre decisão de cada um. A Escola oportuniza conhecimentos e entendimentos das diferentes práticas religiosas.

Defendo a Escola laica, mas não a Escola atéia ou uma Escola que desconsidera a riqueza e a diversidade dos conhecimentos historicamente acumulados pelas grandes tradições religiosas. Laicidade, para mim, é justamente a possibilidade de trabalhar os conhecimentos religiosos de maneira “desapegada” da fé e das religiões. Onde, justamente, podemos também estudar, observar e considerar os fundamentos dos que não tem fé (ateus e agnósticos).

Como não há neutralidade na educação, aprendi que os diferentes conhecimentos religiosos constroem bases para a vivência da espiritualidade humana, que pressupõe a ideia do CUIDADO: consigo mesmo, com os outros, com a natureza e com o transcendente.

A transmissão de valores e religiosidade da família para os filhos. Como trabalhar a inter-religiosidade no contexto escolar? Como a espiritualidade pode ser trabalhada na universidade?

O Estado do Rio Grande do Sul é um dos poucos estados brasileiros que estendeu a obrigatoriedade da oferta do ensino religioso também ao ensino médio, através de legislação própria, facultativo aos alunos participarem ou não das aulas. A partir de 2017, a Secretaria Estadual de Educação, sabiamente, retoma o Ensino Religioso na grade curricular, ofertando dois períodos no 1º ano do Ensino Médio, justamente para permitir aos alunos e professores um melhor aprofundamento e uma “amarração dos conhecimentos” já trabalhados durante os anos iniciais e finais do ensino fundamental.

Acredito, por fim, que a possibilidade de termos de volta às nossas escolas o ensino religioso confessional beneficiará, infelizmente, a onda conservadora e fundamentalista de entender o ser humano, o mundo e a sociedade que está tentando impor-se ao Brasil.

Sou pela diversidade! A diversidade das culturas, das crenças e das diferentes maneiras de viver e ser pode ter espaço nas escolas públicas de nosso país. Antes tarde que seja tarde, a sociedade precisa definir se o futuro será democrático ou fundamentalista. A religião tem um peso relevante neste contexto em que duelam democracia e fundamentalismo!

Estamos falando sobre estupro, mas vocês estão ouvindo?

 

No país são 130 estupros que acontecem por dia.
Isso significa que quatro em cada dez mulheres
que você conhece já foram estupradas.
E esses números podem ser ainda maiores, uma vez que a
maioria das mulheres que passa por essa situação horrível não faz a denúncia.

 

Num período em que as mulheres estão cada vez mais empoderadas para denunciar casos de estupro, o Brasil contabiliza cerca de 50 mil por ano, sendo que 10 mil destes são estupros coletivos, ainda é necessário encarar um sistema e uma Justiça machista que ainda acreditam que o estupro só acontece após a penetração. Vale lembrar que a nossa lei foi alterada em 2009 e que de acordo com o Código Penal Brasileiro estupro é constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso.

A Lei 12.015 de 2009 extinguiu o crime de atentado violento ao pudor e incluiu essa conduta em estupro. Sendo assim, qualquer ato com sentido sexual praticado com alguém sem seu consentimento, até mesmo um toque íntimo, é considerado estupro pela lei.

No início do mês um cidadão ejaculou no pescoço de uma mulher dentro de um coletivo urbano na cidade do Rio de Janeiro. Liberado pelo juiz que alegou que o homem não teria causado nenhum constrangimento à vítima, ele repetiu o ato no dia seguinte, com outra moça, em outro coletivo urbano. Este senhor já tinha quinze passagens pela polícia por motivos, senão iguais, semelhantes.

No país são 130 estupros que acontecem por dia. Isso significa que quatro em cada dez mulheres que você conhece já foram estupradas. E esses números podem ser ainda maiores, uma vez que a maioria das mulheres que passa por essa situação horrível não faz a denúncia. Seja por vergonha, pela falta de preparo da rede de acolhimento da mulher vítima de violência ou pelo medo dos julgamentos, a maioria não denuncia porque a sociedade impõe que a culpa foi dela que estava no lugar escuro, que andou com as pessoas erradas, que usava roupa muito curta.

Todo dia, de uma forma tão frequente, acabamos naturalizando todo tipo de barbaridade que a sociedade nos submete. E aí, você ia querer ser mulher numa sociedade como esta?

Todo mundo quer ser mulher?

 

 Sua culpa é ser mulher.

Seu fardo é ser mulher e viver numa sociedade machista que naturaliza a cultura do estupro a ponto de permitir que alguém interprete que receber uma ejaculada no pescoço, sem consentir, não causou constrangimento.

É ter que aguentar playboy na balada achando que pode enfiar a mão dentro do teu vestido, sem o teu consentimento, porque você “já estava bêbada mesmo”. É ter que aguentar cara tirando o pinto para fora da calça e esfregando em ti dentro do metrô. É ter que acelerar o passo toda vez que vê um estranho andando atrás de ti na rua e não tem mais ninguém naquele lugar.

E isso acontece pelo simples fato de que os homens acreditam que podem fazer o que bem entenderem conosco. Quando falamos de estupro temos que ter claro que não estamos falando de sexo: estamos falando de poder. Estamos falando de violência.

Quando um homem estupra uma mulher, nada mais é do que essa pessoa acreditando que os seus desejos, o que ele quer, são mais importantes do que o que a mulher quer. Ele se considera superior e por isso pode “fazer a escolha por ela”.

O que chamamos de cultura do estupro só é possível
por estarmos inseridos em um contexto com profunda desigualdade entre
os gêneros, a desumanização das mulheres e a objetificação de seus
corpos. Isso não é minha opinião, mas os fatos que a sociedade nos
confirma diariamente quando, por exemplo, dizemos que a culpa é dela
porque estava lá.

Por todas elas: contra a cultura do estupro

 

Isso é o machismo, que a gente tanto fala, posto em prática.

E a gente fala sim, faz textão, faz vídeo, denuncia, coloca o dedo na ferida do patriarcado.

Porque não são só os índices que aumentaram: o que aumentou foi a nossa coragem de falar sobre o assunto e mudar a realidade.

Não vamos mais nos calar!

Vamos falar de estupro, de aborto e de todos os assuntos que estejam ligados à vida (ou à causa da morte) de milhares de mulheres e vamos apontar sim, o dedo na cara de quem não respeita os nossos direitos individuais.

Mas e você: está pronto para nos ouvir?

Limites: entre o direito dos filhos e o dever dos pais

Fatherhood story June 12, 2009 Photography by Mark A. Philbrick Copyright BYU Photo 2009 All Rights Reserved photo@byu.edu (801)422-7322

 

Respeitar os filhos, dar-lhes amor, carinho e proteção,
permitir que participem efetivamente da vida da família
é tão importante quanto ensiná-los a ter autonomia e
responsabilidade com o que é seu e com o que é do outro.

 

Vivemos períodos de nossa história em que muitos seres humanos, de diferentes idades, não possuíam direitos. Homens sem posses, negros, índios, mulheres e crianças, por exemplo, não tinham direito de frequentar escolas, participar da vida política, de votar, etc.

Vagarosamente os tempos foram mudando e alguns direitos foram assegurados a essas e a outras pessoas. Quero aqui falar um pouco sobre direitos e deveres das crianças e adolescentes e direitos e deveres dos pais.

No decorrer do século XX foi se percebendo as modificações, tanto no campo da educação, como no campo das relações humanas, onde “respeito” à criança e ao adolescente começou a ser visto com outros olhos.

Muitas vezes ouvi e acredito, que você leitor também ouviu a frase, “criança e cachorro não tem querer”. Pois bem, com o passar do tempo essa fala foi sendo deixada de lado, pois se não em todos os lares, em muitos se começou a entender que criança tinha sim querer, assim como os adolescentes e adultos também têm.

O fato de se reconhecer que crianças têm direitos, entre eles à educação, carinho, lazer e “querer”, fez com que as relações entre pais e filhos melhorassem muito, que os pais fossem menos autoritários e que os filhos pudessem participar mais da vida em família e até ajudar a tomar decisões. Em síntese, a relação entre pais e filhos se tornou mais democrática.

Teoricamente esse “jeito novo” de educar seria perfeito, mas na realidade não é bem assim. O que temos visto nesse início do século XXI é preocupante, para não dizer assustador. Se por um lado o jeito novo de educar mostrou um avanço nas relações, por outro, trouxe alguns problemas. O que se vê hoje em muitas famílias é a grande dificuldade dos pais em dizer não para os filhos, é como se eles tivessem abdicado do direito de contrariar a vontade deles.

Sobre a influência dos pais nas decisões dos filhos.

Parece-me que houve uma grande distorção no termo democracia. Respeitar a criança e o adolescente não significa em hipótese alguma omitir o “não”. Dizer não, na hora certa, pode ser sinônimo de cuidado e proteção.

É preciso que nós pais entendamos que em determinadas situações os adultos possuem mais condições de discernir o que é certo do que é errado, o que é compatível com a idade do seu filho e o que não é o que pode lhe oferecer perigo ou não. Amar significa cuidar, proteger e para proteger muitas vezes o “não” se faz necessário.

Aristóteles já dizia: “A justiça está no meio termo”!

Fica claro para mim que o resultado de se passar de um extremo onde a criança não tinha querer para o outro extremo, onde criança tudo pode, resultou em uma geração bastante difícil de lidar, que enfrenta muitos problemas e causa outros tantos.

Essa geração que tudo pode, exceto ouvir não, são os filhos que frequentam nossas escolas e que, por vezes, torna o ambiente escolar um lugar difícil de conviver.

Nas escolas nos deparamos com crianças, adolescentes e jovens que têm extrema dificuldade de conviver com regras comuns, as chamadas normas de convivência, de respeitar seus professores, de aceitar as diferenças nos colegas e, sobretudo, de reconhecer autoridade e respeitar a hierarquia da escola.

Tão intrigante quanto a geração de “filhos” é a geração de “pais” que educam esses jovens que diariamente circulam na escola. Angustio-me quando me deparo com pais e, principalmente, mães que ao procurarem pelo serviço de coordenação pedagógica ou ao serem procurados pela escola relatam:

Não sei mais o que fazer professora, ela não me obedece”.

“Professora ele sai e volta à hora que resolve voltar e ainda fica furioso se pergunto onde e com quem estava”.

“Quando meu filho descobriu que a senhora havia me chamado na escola ele me trancou em casa e tive que ligar para minha filha vir do trabalho para abrir a porta.”

“Professora eu queria que você visse as marcas roxas nas pernas e braços onde ele me bateu”.

“Por favor, diga a professora do meu filho que não quero mais que ela escreva no caderno do meu filho que ele não fez as tarefas, pois ele não gosta. Gostaria que ela me chamasse e dissesse para mim.”

“Vou chegar atrasada tem como ficar com meu filho até eu chegar”.

“Não posso ir até a escola, pois trabalho”.

Todos esses relatos mostram uma geração de pais que tem grande dificuldade de educar dentro dos padrões da democracia. Pais que não sabem a hora de dizer sim e de dizer não, pais que para compensar a falta de tempo, de afeto e de carinho tentam compensar com bens materiais. Pais que ainda não entenderam que mais importante que a quantidade de tempo que possuem para ficar com os filhos é a qualidade do tempo que a eles dedicam.

Pais que precisam se dar conta que os filhos são seus para sempre e que na escola estão de passagem e, portanto, não devem transferir a responsabilidade que é sua para a instituição. Pais que precisam urgentemente entender que os limites, que não são dados em casa, causarão dificuldades para os filhos em se relacionar na escola, na igreja, no futebol, nas festas e posteriormente, no trabalho.

Escola, aluno e família formam o tripé que sustenta o processo de formação. Neste Programa Destaque Cristo Rei vamos refletir a fundo sobre a importância dos pais para o pleno desenvolvimento escolar das crianças, adolescentes e jovens.

“Ninguém pode respeitar seus semelhantes se não aprender quais são seus limites – e isso inclui compreender que nem sempre se pode fazer tudo o que se deseja na vida. É necessária que a criança interiorize a ideia que poderá fazer muitas, milhares, a maioria das coisas que deseja – mas nem tudo e nem sempre”. (Tania Zagury – em livro Limites Sem Trauma)

É importante que filhos e pais entendam que o limite é necessário, que existe diferença entre querer e poder, pois, muitas vezes, o meu querer vai contra as necessidades dos colegas de classe, por exemplo.

Ser democrático no ato de educar é muito importante. Conversar com os filhos, permitir que eles se expressem e opinem sobre os assuntos da família é tão importante quanto deixar e estimular que eles também participem das atividades da casa.

Sueli Ghelen Frosi, da Escola de Pais do Brasil afirma que pais e mães sempre são educadores e que devem ser parceiros da escola, para a humanização dos filhos. Os filhos são educados pela linguagem, pelas emoções, pelo respeito e pelos exemplos.

Pequenas tarefas condizentes com sua idade e capacidade podem e devem ser realizadas pelos filhos, pois assim como participam das discussões, também devem participar da rotina dos afazeres da casa e principalmente cumprir com seus compromissos escolares. Isso faz com que se sintam parte importante, que tenham organização e assumam responsabilidades de acordo com sua faixa etária.

A criança que tem bons hábitos adquiridos na família, dificilmente terá na escola dificuldades em dar conta das suas tarefas ou de manter uma relação amistosa com colegas, professores e funcionários, pois já tem internalizado o respeito pelo seu próximo.

Quando nascemos não temos noções de ética ou valores definidos. É tarefa dos pais passar para os filhos uma boa educação que deve sim ser democrática, porém não permissiva e não perniciosa. A propósito, encontrei em diferentes dicionários a definição paro o termo democrático:

Democrático: que toma decisões com a participação dos envolvidos. (Saraiva Jovem – página 293)

Democrático: que possui um caráter participativo. (Dicionário Didático, Editora SM – página 252)

É isso que precisa ser entendido pelos pais: assegurar aos filhos o direito de participar não significa deixá-los decidir tudo em casa – hora de dormir, onde passear, quanto gastar, o que e quando comprar, etc.

Existem decisões que não podem ser determinadas por uma criança de 8 anos, por exemplo. É necessário que os pais estabeleçam com os filhos regras que precisam ser cumpridas por todos na casa, caso contrário estaremos formando uma geração de tiranos que só pensam no seu bem estar e na satisfação de seus caprichos.

Respeitar os filhos dar-lhes amor, carinho e proteção, permitir que participem efetivamente da vida da família é tão importante quanto ensiná-los a ter autonomia e responsabilidade com o que é seu e com o que é do outro.

O que vemos ainda com bastante frequência são pais e avós carregando a mochila de crianças que já têm condições de fazerem isso sozinhas e, que na metade da tarde, largam seus compromissos para levar trabalhos escolares ou objetos que os filhos esqueceram em casa.

Mais grave que isso mães que dizem, sem nenhum constrangimento, que vão arrumar um atestado médico porque a filha “não gosta” de praticar atividade física, enfim, pais omissos que se submetem a qualquer vontade de seus filhos.

Em seu livro Limites Sem Trauma, Tania Zagury dá vários exemplos do que é dar limites e do que não é dar limites, mas uma dica considero fundamental:

Dar limites é dizer “sim” sempre que possível e “não” sempre que necessário.

A criança que não aprende a ter limites é a mesma que acha que só possui direitos, importa-se somente consigo mesma e que com o passar do tempo começa a enfrentar as consequência que variam desde a falta de interesse pelos estudos, passando pela dificuldade de enfrentar problemas mínimos até chegar ao desrespeito pelo outro, seja ele um familiar, um colega de escola e posteriormente os colegas de trabalho.

Pais e professores precisam ser grandes parceiros na formação educacional de cada ser humano.

Há poucos dias chamei para conversar, uma criança de 10 anos que havia batido na colega sem que essa tivesse feito qualquer coisa. Ao perguntar por que bateu na colega ela me respondeu: bati porque bati e pronto!

A escola é uma instituição que tem se colocado como colaboradora dos pais na tarefa de educar, porém nunca poderá substituí-los. Nenhuma família pode se dar ao luxo de terceirizar a educação dos filhos delegando a outrem a responsabilidade que é sua.

Finalizo escrevendo uma frase do grande psiquiatra Içami Tiba, que também é título de uma de suas obras:

Quem Ama Educa!

 

Marina Colasanti, vencedora de prêmio no México, na Jornada Nacional de Literatura

 

 Escritora Marina Colasanti, vencedora de prêmio no México,
participará da conferência sobre igualdade de gênero,
no dia 5 de outubro.

 

Prestes a completar oito décadas de vida e vencedora do Prêmio Iberoamericano SM de Literatura Infantil e Juvenil, anunciado há poucos dias, Marina Colasanti é uma das escritoras mais esperadas para a 16ª Jornada Nacional de Literatura, que acontece de 2 a 6 de outubro, em Passo Fundo/RS.

Com mais de 50 livros, de contos, crônicas, poesia, ensaios e literatura infantile juvenil, Marina estará na Jornada no dia 5 de outubro para debater sobre a mulher na sociedade, durante a conferência “Por elas: a arte canta a igualdade”, ao lado dos escritores Federico Andahazi e Conceição Evaristo e do integrante do Comitê brasileiro do HeforShe (ElesporElas) Edegar Pretto.

 

Eu sei, mas não devia


Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E, não acreditando nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagar mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e ver cartazes. A abrir as revistas e ver anúncios. A ligar a televisão e assistir a comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição. Às salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente molha só os pés e sua no resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se de faca e baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida. Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.

 

Marina, que teve atividade marcadamente feminista nas décadas de 1970 e 1980, se considera uma feminista histórica. Nessas últimas décadas, segundo a escritora, o tema ficou esquecido e só agora as jovens retomam a questão da igualdade e do empoderamento.

Precisamos ainda discutir a posição da mulher porque, em pleno século XXI, as mulheres continuam ganhando menos do que os homens para realizar o mesmo trabalho, tendo menos acesso ao topo da pirâmide, carregando quase sozinhas as tarefas domésticas e os filhos (o Brasil continua não tendo creches suficientes), sendo demitidas pouco depois de voltar da licença maternidade, sendo assediadas, sendo espancadas e mortas”, declara Marina.

A escritora já participou da movimentação literária em Passo Fundo. A primeira vez foi na segunda edição da Jornada. Marina também ressaltou a importância da Jornadinha.

“A cidade e a Jornada eram muito diferentes, estavam ambas começando. Hoje, graças ao trabalho de tantos anos, graças ao empenho vital da professora Tânia Rösing, a Jornada tornou-se indispensável não só para Passo Fundo, mas para o Brasil. E seria injusto falar da Jornada e não falar da Jornadinha – da qual participei mais de uma vez –, pois a Jornadinha demonstra de forma cabal que, trabalhando a leitura desde a infância, fazem-se adultos leitores”, ressalta a escritora.

 

 Desafios na formação dos novos leitores

 Vontade política é um dos principais instrumentos para incentivar a formação de leitores no Brasil, na opinião de Marina. “Todo mundo sabe o que tem que ser feito. Só na minha casa, estamos falando disso há mais de 40 anos. Há o decálogo da Unesco, há uma bibliografia quilométrica. Porém, é preciso querer. E esse querer se chama vontade política. Fazemos nossos esforços, mas esforços individuais têm alcance limitado, não mudam um país”.

“Para fazer um país leitor, é preciso haver vontade política”, enfatiza a escritora.

 

Inspiração

 A literatura é algo presente desde sempre na vida de Marina, que começou a escrever o primeiro livro entre 1963 e 1964. “Sempre fui leitora voraz, passei por muitas fases na vida. O que continua me inspirando é o todo das minhas leituras, são a forma e o pensamento de tantos escritores poderosos que transformaram em palavras os sentimentos humanos e os transmitiram”, ressaltou Marina.

Nesta edição, a Jornada homenageará quatro grandes nomes da literatura: Ariano Suassuna, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector e Moacyr Scliar. “Ariano Suassuna me encanta pela fusão entre a tradição literária portuguesa e a realidade nordestina; Carlos Drummond é poeta maior; de Clarice, fui jovem admiradora primeiro e editora no Caderno B do Jornal do Brasil depois; com Moacyr Scliar, não tenho maior afinidade, embora o conhecesse e reconheça a qualidade da sua escrita”, comentou a escritora, ressaltando que nenhum deles é inspiração para ela. Sobre isso, esclarece que “nenhum deles é inspiração para mim (nunca fui ‘seguidor’de ninguém).

“A minha inspiração tem raízes internas e fundas, vem de um olhar pessoal sobre o mundo, da soma de duas culturas, de muita experiência de vida”.

 

Prêmio Iberoamericano SM de Literatura Infantil e Juvenil

 Marina Colasanti é a vencedora do 13º Prêmio Iberoamericano SM de Literatura Infantil e Juvenil. O prémio literário é de 28 mil euros e foi criado em 2005 pela Fundación SM (México). A cerimônia de premiação acontecerá no dia 28 de novembro, durante a Feira Internacional do Livro de Guadalajara.

 

Sobre a escritora

Marina Colasanti é poeta, narradora, jornalista e tradutora. Nasceu em Asmara, na Eritréia, viveu em Tripoli, na Líbia, e, com o começo da II Guerra Mundial, a família regressou à Itália. Em 1948, transferiu-se definitivamente para o Brasil.

Com formação em Artes Plásticas, ingressou em jornalismo e durante trinta anos trabalhou em jornais e revistas como redatora, editora e ilustradora. Teve destacada atuação nas questões de gênero, seja por meiodos seus artigos, que resultaram em quatro de seus livros, seja com participação direta como membro do Primeiro Conselho Nacional dos Direitos da Mulher. Foi publicitária, muitas vezes premiada. Trabalhou em diversos programas televisivos como âncora, apresentadora e roteirista.

Seu trabalho se destaca pela diversidade. Publicou mais de 50 livros, de contos, crônicas, poesia, ensaios e literatura infantile juvenil. É considerada revitalizadora por excelência dos contos de fadas, reunidos recentemente em seu livro “Mais de 100 Histórias Maravilhosas”. Traduziu para o português importantes obras da literatura universal. É sua própria ilustradora.

Ziraldo conversa com Marina Colasanti, uma das mais premiadas escritoras brasileiras, autora de livros infantis e juvenis, contos, novelas e ensaios. Formada em Belas Artes, ela conta que ilustra a maioria dos seus livros.

 

Jornada Nacional de Literatura

 A 16ª Jornada Nacional de Literatura e a 8ª Jornadinha Nacional de Literatura são promovidas pela Universidade de Passo Fundo (UPF) e pela Prefeitura de Passo Fundo. Os eventos contam com os patrocínios da Ambev, do Banrisul, da Corsan, da Companhia Zaffari & Bourbon, da Fapergs, da Ipiranga, da Panvel, da SulGás, da Triway e da TechDEC; com o apoio cultural da BSBIOS e do Sesi; com patrocínio promocional da Capes, da Italac e da Oniz; com a parceria cultural do Sesc; financiamento do Governo do Estado – Secretaria da Cultura – Pró-cultura RS LIC e realização do Ministério da Cultura.

As inscrições para a Jornada e para a Jornadinha estão abertas e são limitadas. Para a Jornada, o público pode se inscrever tanto para o evento completo quanto para apenas uma das noites. Os interessados devem se inscrever no portal www.upf.br/16jornada. A programação completa também está disponível no site da Jornada. Informações podem ser obtidas pelo e-mail jornada@upf.br ou pelo telefone (54) 3316-8368.

 

 

Marina Colasanti participará da conferência “Por elas: a arte canta a igualdade”, ao lado dos escritores Federico Andahazi e Conceição Evaristo e do integrante do Comitê brasileiro do HeforShe (ElesporElas) Edegar Pretto.

Educação: mais esperanças, menos violência e mais qualidade de vida

 

Não cometemos crime ao lutar por nossos direitos,
como muitos desejam supor. Sem medos, caminhamos pacificamente,
segurando bem firme as nossas armas: nossa voz e nossas bandeiras.
Aprendemos, faz bom tempo, que quem luta, também educa.
E que se “educar é nossa vida, lutar é nossa atitude”.

Era uma tarde de muito calor. Milhares de professores, embalados por sua cidadania, caminhavam pelas ruas da capital Porto Alegre. Um suave aceno embalava as suas utopias. Uma senhora, de um edifício bem alto, na Borges de Medeiros, ninava as suas esperanças, embalando um lenço verde. O lenço era verde e verde é de esperança. E aquela senhora reconheceu que aquela multidão era movida por uma causa: a educação pública e de qualidade para todos.

(Esta é uma das memórias das tantas lutas que insiste em povoar a minha mente que me leva às lutas por mais respeito, dignidade e agora, por salários mais valorizados e pagos em dia.)

Não cometemos crime ao lutar por nossos direitos, como muitos desejam supor. Sem medos, caminhamos pacificamente, segurando bem firme as nossas armas: nossa voz e nossas bandeiras.

Aprendemos, faz bom tempo, que quem luta, também educa. E que se “educar é nossa vida, lutar é nossa atitude”.

O sol escaldante e reluzente da capital, naquele dia, nos fez lembrar do educador Rubem Alves, que certo dia resolveu perguntar-se e responder-se:

“o que é que se encontra no início? O jardim ou o jardineiro? É o jardineiro. Havendo um jardineiro, mais cedo ou mais tarde um jardim aparecerá. Mas, havendo um jardim sem jardineiro, mais cedo ou mais tarde ele desaparecerá. O que é um jardineiro? Uma pessoa cujo pensamento está cheio de jardins”.

Se pudéssemos conversar com a senhora do lenço verde, da Borges de Medeiros, e com todos os que nos acenam (dos mais diferentes jeitos), diríamos a estes que os professores e professoras semeiam, todos os dias, um jardim de esperanças em suas salas de aula.

Que todos os dias, enfrentam o seu ofício não só pelo salário, mas como uma missão de contribuir para com a humanidade, através da educação. Que todos os dias correm riscos de vida, pela vida de outras pessoas, por causa da violência que já chegou às nossas escolas. Que seus dias tem sido castigados, semelhante ao castigo que o sol impõe às plantas do jardim, no rigor dos nossos verões.

A secretária de finanças da CNTE, Rosilene Corrêa Lima, alerta: “Brasil é um dos países que pouco investe em educação, portanto pouco valoriza os trabalhadores em educação. Aquilo que a gente não valoriza, a gente tende a agredir”. Rosilene acrescenta: “Se você tem uma sociedade violenta, infelizmente você terá uma escola sofrendo dessa violência. A escola não fabrica violência, ela é vítima da violência”. A reportagem foi exibida no programa Fantástico, no dia 27 de agosto de 2017.

Nós somos jardineiros e fazemos a luta a partir de nossa dignidade. Somos referência para muitos jovens, porque ainda não deixamos de semear em suas vidas (e em seus corações) a ideia de que a vida é um jardim, que precisa ser cultivado, regado e cuidado. As flores precisam de carinho. Os seres humanos, de reconhecimento.

Os vegetais precisam de sol, os alunos precisam de horizontes. As plantas precisam de terra, adubo e água. Os seres humanos precisam de estímulos, zelo e cuidados.

O que é um jardineiro? Uma pessoa cujo pensamento está cheio de jardins. O que faz um jardim são os pensamentos do jardineiro. O que faz um povo são os pensamentos daqueles que o compõem. (Rubem Alves)

Logo a gente que cuida de jardins, não é bem cuidado. O nosso clamor é por reconhecimento. Por sabermos da importância dos jardins, exigimos que os governos façam sua parte para engrandecer e embelezar o jardim das nossas vidas, e o jardim das vidas daqueles e daquelas que cuidamos com o maior carinho. Lidamos com vidas e temos dignidade.

Sabemos, por consequência, quanto nos custa ensinar, mas não reclamamos deste preço. Como amamos a nossa profissão, resolvemos pedir que nos reconheçam como gente, e como profissionais da educação, com os nossos salários em dia.

Sabemos que o sol tende a nos castigar com o avanço do verão. Mas também sabemos que este mesmo sol brilha para todos e é fonte inesgotável para gerar vida, capaz de conduzir novos horizontes.

 

Violência nas escolas é violência da sociedade

O Brasil ainda não lidou com o legado da escravidão e isso influencia a violência da sociedade brasileira até hoje. É o que nos explica Glenda Mezaroba, mestre e doutora em Ciência Política, nesse vídeo.

Vídeo produzido pelos alunos da Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF), do curso de Ciências Sociais – Licenciatura/Campus Juazeiro-BA, como avaliação da disciplina Metodologia de Projetos e Intervenção Social, ministrada pela professora Paula Galrão, realizada com os alunos da 2ª série do ensino médio do Colégio Padre Luiz Cassiano, Petrolina-PE. Em setembro de 2013.

 

Violência na escola – Diga não!

Em uma palestra sobre inclusão social e justiça, Djamila trata de questões como o direito à voz em uma sociedade que se silencia frente às desigualdades. Mestre em Filosofia Política pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), secretária-adjunta da Secretaria de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo e colunista da revista Carta Capital, Djamila é conhecida pela militância nos movimentos negro e feminista.

Para além das violências cotidianas vivenciadas pelos professores, vivemos agora a violência de não recebermos o nosso merecido salário. Quem trabalha, precisa receber. Os professores do RS recebem salários atrasados e parcelados há mais de dois anos.

No horizonte do sol, arriscamos paralisar as aulas, pois aprendemos que aqueles que nada arriscam nada podem conquistar. E para a senhora do lenço verde, pedimos que não canse de nos acenar, pois a vida e a luta é esperança. Seu gesto, com certeza, estimulará muitos outros a nos acenar.

 

Magistério: uma categoria que está adoecendo

O professor é uma peça-chave na educação do país e, se houver o intuito de dar prioridade à educação é urgente e necessário valorizar o professor em termos de salário, de condições de trabalho, além do reconhecimento social da importância da profissão.

Conforme dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT), profissões como médicas e professor estão entre as mais desgastantes gerando uma alta incidência de licença por afastamento. Em Passo Fundo o cenário não é diferente, sendo que no que diz respeito aos professores da rede municipal de ensino um levantamento realizado pelo setor de biometria do município aponta que mais de 70% dos professores que se afastaram por motivo de doença acreditam o afastamento tem relação direta com o trabalho.

No funcionalismo de Passo Fundo a Secretaria Municipal de Educação representa 47% dos servidores afastados. Uma vez que é a maior secretaria, registra o maior índice de afastamentos por licença saúde.  No topo dos afastamentos estão as doenças de CID M, que são as doenças do sistema osteomuscular e do tecido conjuntivo. Em segundo lugar as patologias de CID F, que sãos os transtornos mentais e comportamentais, seguidos das doenças respiratórias e de gravidez.

Foto: Ingra Costa e Silva

De acordo com a professora de Educação Infantil e dirigente do CMP Sindicato, Regina Costa dos Santos, com o passar dos anos a profissão foi assumindo uma demanda social, que foi se associando a sua função de planejar e orientar alunos os alunos.

“O acúmulo de funções é algo que atinge diretamente a saúde do professor, tanto da mente quanto do corpo. Se a gente for ver nas salas de aula do município, são superlotadas!

Professores que alfabetizam de 25 a 28 alunos, muitas vezes numa estrutura precária que sequer conta com quadro branco, onde o pincel desliza exigindo menos da mão e do punho, e ainda conta com o quadro negro que usa o giz, que influencia diretamente no número de doenças respiratórias por exemplo”, comenta.

Para o psicólogo do setor de Biometria da Prefeitura Municipal de Passo Fundo, Mario Junges, para que se resolva a situação do grande número de professores afastados é necessário fazer uma contextualização. Saber quem são os servidores, como funcionam suas relações de trabalhador, relação professor aluno, sua frequência, para posteriormente chegar aos números e identificar quais são os problemas, como podem dar conta e quais as maneiras de diminuir estes números.

Mario lembra que quando se adoece dentro do trabalho, não significa que somente o trabalho seja o gerador da patologia. “É preciso levar em consideração o ser humano como um todo, suas relações familiares, relações sócio econômicas e culturais, sua história de vida até chegar na Prefeitura, ” explica o psicólogo.

Segundo Regina a dinâmica da escola não possibilita que o professor tenha um tempo para relaxar entre um período e outro, por exemplo, medida que aliviaria a tensão e interferiria diretamente na saúde do professor. “São coisas simples e na perspectiva da prevenção, como um tablado para que o professor de baixa estatura não force muito braços e costas, que previnem a doença dos professores. Não é preciso esperar o profissional adoecer”, alerta.

Prevenção

O núcleo de Biometria da Prefeitura desenvolve um projeto multidisciplinar de Gestão em Saúde Ocupacional de Professores que conta com enfermeira do trabalho, médica do trabalho, psicólogos e assistente social. Através deste projeto a biometria passa a ingressar os espaços escolares e analisar, junto ao profissional, onde estão os problemas para assim resolver os índices de absenteísmo. O psicólogo Mário ressalta a importância de os professores procurarem o núcleo antes de adoecer, pois é preciso ter tempo para agir antes que o adoecimento ocorra.

Regina lembra que valorizar o professor financeira e psicologicamente significa contribuir com a sua saúde e consequentemente um melhor atendimento por parte do atendimento deste profissional. “A gente precisa que o poder público tenha essa interpretação. Em tempo de campanha muitas promessas surgem, mas precisamos avançar em políticas públicas de qualidade de educação, porque da forma como está hoje não está respondendo como deveria”, confessa a professora que ainda confidencia que espera que a sociedade possa contribuir na luta por melhores condições de trabalho e por um salário digno para estes profissionais.

Conforme a professora Regina, o CMP Sindicato vem pensando e realizando diversas discussões em diferentes espaços, como o Conselho de Representantes Sindicais, projeto Saberes em Ciranda, Congresso, Núcleo de Biometria… buscando contatos de parcerias e experiências de outros sindicatos, que possam contribuir na busca de alternativas para melhorar a qualidade de vida e trabalho do magistério. “Acreditamos que o desgaste ocasionado durante os anos dedicados à docência são as principias causas do adoecimento da categoria”, confessa.

 

Discutir a temática é importante

Não é de agora que a profissão docente ocupa os primeiros lugares do ranking de profissionais que adoecem em virtude do trabalho. Seja pela falta de estrutura das escolas ou pela desvalorização da categoria, milhares de professores se afastam das salas de aula todos os dias no país. Buscando debater os desafios impostos aos professores em um período político, social e econômico de muita turbulência o CMP Sindicato promoveu na última semana o IV Congresso dos Professores Municipais.

Com o tema “Professor: resistência, democracia e saúde” a atividade teve como objetivo contribuir com análise frente aos inúmeros, ataques aos direitos já constituídos da classe trabalhadora e o aumento significativo de adoecimento da categoria.

A atividade foi dividida em duas mesas temáticas, sendo que uma delas tratou dos ataques à classe trabalhadora e os Impactos na vida funcional dos professores, enquanto a outra trouxe para debate a saúde do professor e contou com nomes de peso, como o presidente da Confederação Nacional de Trabalhadores da Educação Heleno Araújo, o professor da UPF Dr. Claúdio Wagner, o dirigente do SINPRO Cássio Bessa e o representante do Sintrajufe Neri Nunes Cavalheiro.

Na mesa temática que tratou da saúde do professor Cláudio Wagner e Cássio Bessa trouxeram presente a ampliação no papel profissional do professor, que exige novas competências e acrescendo responsabilidades aos profissionais, bem como sobrecarga de trabalho. Com isso a categoria se tornou uma das mais doentes, com altos índices de stress, Síndrome de Burnout, Distúrbios Psiquiátricos Menores e até sintomas de depressão.

O professor Cássio Bessa ressaltou que os índices podem ser considerados altos se comparados a resultados encontrados em outros estudos, quer seja com professores, com outros grupos de trabalhadores ou com a população em geral, e trouxe os dados resultantes de pesquisas realizadas pelo Sinpro que trazem presente o afastamento dos professores do trabalho em virtude dos acúmulos da profissão.

“Nos últimos dez anos investigamos o que leva os professores a se afastarem do local de trabalho e as conclusões se repetem. Na nossa categoria existe prevalência do stress, da depressão, resultantes do acúmulo de tarefas e da pressão extrema e por isso é fundamental não somente buscar o tratamento das patologias que levam ao afastamento, mas também discutir como podemos prevenir”, explicou.

O médico e professor da UPF Cláudio Wagner destacou a importância de espaços de formação e aprendizado como o Congresso dos Professores Municipais.

Em sua fala Cláudio destacou a importância de o professor lidar com stress, já que nem todo o stress é patológico. “Quando não é patológico, o stress move o indivíduo ao crescimento e ao desenvolvimento e por isso é essencial aprender a aceitar esse stress, embora ele possa ser incomodo. É importante cuidar de si mesmo, fazer nada ou desenvolver um hobby, pois assim o professor vai reestruturar sua energia psíquica e se sentir mais pronto e preparado para lidar com as demandas de uma escola”, disse o médico ao encerrar a sua fala com uma apresentação musical. 

A dirigente do CMP Sindicato Regina Costa dos Santos pontua que a discussão é necessária e que a temática do Congresso é pertinente para o momento. Lembra que os professores municipais participaram massivamente das discussões e mobilizações realizadas no município em um momento histórico decisivo.

“Frente ao cenário nós não poderíamos discutir outros temas que não estes. Mais que aprofundar e discutir estes assuntos, essa é a oportunidade de reunir toda a categoria para traçar indicativos claros de como a categoria deve encarar o que vem por aí não só a nível federal, mas também estadual e municipal. Assim é possível reivindicar ao poder público que se possa avançar em questões voltadas às condições de trabalho, à pauta de reivindicações da categoria e ao adoecimento do professor”, encerrou.

 

Créditos das fotos e matéria Magistério: uma categoria que está adoecendo: Ingra Costa e Silva

 

Trabalho dos artistas, que ninguém vê!

 

Escrever, pintar, esculpir, fotografar, desenhar, doar tempo,
dinheiro, suor, lágrimas ainda não é considerado trabalho sério.
O que vemos, infelizmente, é uma legião de gente
que ainda tenta sabotar e desqualificar o
trabalho dos artistas em nossas cidades.

 

Existe uma fatia de povo que é especialmente feliz. Estou falando daquelas pessoas que compõem associações, confrarias, grupos de voluntários e que representam a inteligência pulsante de toda cidade humanizada, bonita, arrumada de forma a que tudo funcione para que todos tenham direito a usufruir dos espaços físicos e culturais.

Os voluntários trabalham duro e de graça, dedicam-se a longos planejamentos, projetos difíceis de construir dentro de normas absurdamente exigentes, enfrentam resistências de onde menos esperam, sofrem críticas, reformulam, procuram contemplar a maioria das demandas. E ainda assim movimentam-se felizes porque comemoram cada avanço, cada passo rumo ao que cada instituição persegue com a tenacidade peculiar de quem acredita no que faz.

 

Em entrevista para o Nexjor, a titular da Setorial de Artes Visuais do Conselho Municipal de Cultura, Lindiara Paz, comenta sobre evento que marca uma nova fase para as artes visuais em Passo Fundo.

 

Olhamos para a Antiga Estação Ferroviária (Estação de Passageiros) sem imaginar como ela foi limpa, quem a enfeitou com obras que refletem o que se faz nas artes plásticas, perambulamos em meio a exposições sem sequer pensar que alguém carregou peso e que uma vernissage demanda trabalho braçal prévio de dias.

 

Um importante movimento de intelectuais e artistas da cidade de Passo Fundo tenta impedir que a Antiga Estação de Passageiros da Viação Férrea seja transformada num espaço privado de entretenimento e seja estruturada como uma Casa da Cultura, um ambiente de permanente exposição e promoção das diferentes artes.

Muitos têm seu trabalho formal e é nas horas “de folga” que criam, carregam, limpam, ajeitam, planejam, pensam no que é mais bonito e adequado a quem vai usufruir de tudo aquilo.

As minifeiras de livros demandam uma movimentação incrível, por que alguém carrega os livros, as estantes, arma barracas, fica exposto ao frio, à chuva, ao sol e por que não dizer, à monotonia de constatar pouco interesse por livros.

O que falar então da Feira do Livro, esse empreendimento gigante! Alguém pode avaliar a demanda daquelas doze horas de trabalho dedicadas à cultura, meticulosamente pensadas para que todo mundo tenha acesso à música, à história, à literatura e ao conhecimento em geral. E aquele trabalho de, de novo, carregar, arrumar, expor, agradar, fazer dar certo. Alguém acha pouco?

Às vésperas da Jornada Nacional da Literatura, há um contingente que escreve, inscreve seus trabalhos, prepara lançamentos, prepara a cidade por onde a Jornada deverá passar, escancarando uma organização incrível e o trabalho de milhares de pessoas envolvidas no que dá um apelido pomposo à cidade. Somos a Capital Nacional da Literatura e precisamos cada vez mais fazer jus ao que isso representa.

 

Décima sexta Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo.

Para comandar os palcos de debates, foram convidados os escritores Augusto Massi, Felipe Pena e Alice Ruiz. As mesas abordarão as seguintes temáticas “Por elas: a arte canta a igualdade”, “Centauro, pedra, rosa e estrela: Scliar, Suassuna, Drummond, Clarice”, “Monstros e outros medos colecionáveis” e “Literatura e imagem: além dos limites do real”. A Jornada acontece de 2 a 6 de outubro de 2017, em Passo Fundo.

A nova tríade da Jornada: Alice Ruiz, Augusto Massi e Felipe Pena

 

 

Há um exército de voluntários que viabiliza a cada dois anos o Festival Internacional de Folclore composto por pessoas incrivelmente felizes, por apoiar tanta beleza e animação. Nenhuma administração pública poderia realizar um evento desses, sem o brilho e a alegria dessa gente. Só voluntários movimentam a cultura com essa grandiosidade.

 

Paulo Gilberto Bilhar Dutra, o Paulo Dutra, 60 anos de idade e uma vida dedicada à cultura e ao voluntariado. Formado em economia, é funcionário público há 42 anos, verdadeiro “operário da cultura” em nossa cidade.

Uma vida dedicada à cultura

Sentimos não ser considerado um trabalho sério e árduo os atos de escrever, pintar, esculpir, fotografar, desenhar, doar tempo, dinheiro, suor, lágrimas. É impossível ignorar as decepções ligadas à má vontade de quem está lá para sabotar, reclamar, desqualificar tanto trabalho. Esses não sabem que a vontade de fazer bonito é inabalável e que tanto blá, blá, blá negativo impulsiona e mostra quem é quem em meio a tanta satisfação.

O voluntariado precisa de espaço em todos os sentidos, inclusive de espaço físico. A Estação Ferroviária é o espaço da cultura por excelência. Ela deve abrigar um museu da ferrovia, para que o povo conheça a importância dela no desenvolvimento da nossa cidade, para que o legado seja preservado da forma que merece. Deve ser berço de manifestações artísticas e culturais em todas as suas formas e, acreditem, ela permanecerá viva, dinâmica e nas mãos dos que merecem usufruir dela.

Você quer ser feliz? Você quer ter amigos de qualidade? Você quer ser coresponsável pela humanização da nossa cidade? Voluntarie-se! Não há satisfação maior!

Um ano de vida, recebida em missão

 

Depois de um ano de missão em Moçambique,
África, vivo na prática a experiência de descobrir que alegria
não vem embalada e etiquetada. Faz bem sentir o sabor
de cada dia e saber que as maiores fontes de felicidade
são de graça e correm pro teu colo quando te enxergam.

 

A missão é doar a vida pelos outros. Este é, sem dúvida, um conceito impressionante de generosidade e amor gratuito. Quem não quer ganhar um Nobel da Paz com uma história comovente de sacrifício da própria vida na construção de um mundo melhor?

Acontece que, depois de um ano, sou obrigada a discordar desseclichê de sacrifíciopara constatar com conhecimento de causa: é muito mais vida que se ganha do que se dá.

Desde setembro do último ano, tenho aprendido que a verdadeira experiência de missão não é uma doação. Quando você doa, deixa de ter aquilo que deu. No meu caso, não canso de ganhar os inúmeros presentes que este tempo é capaz de oferecer.

Hoje, tenho consciência que cada um deles é, na verdade, um pedaço de vida que se soma com aquela que trouxe comigo – e imagino, sinceramente, que deva ser esse o autêntico significado de vida abundante.

 

Sentir o coração bater mais forte

Quando cheguei na missão, há um ano, segurar uma criança no colo era uma coisa fofa de se fazer. Elas passavam pelos meus braços e deixavam a alegria que só um sorriso desses pequenos é capaz de deixar. Entretanto, para mim, ainda não tinham nome, história, identidade.

No início, toda nossa comunicação se resumia em olhares e toques na minha pele branca e no meu cabelo amarelo.

Meu português era difícil para eles, tanto quanto o macua deles pra mim. Logo nos aproximamos e percebi que, mesmo estando no 5º ou 6º ano da escola, e mesmo o português sendo a língua oficial de Moçambique, não conheciam o alfabeto ou os números e todo o português deles se resumia em “bom dia”, independente da hora que fosse.

Depois de um tempo, já podia chamá-las pelo nome, conhecer seus pais, mães e irmãos e, a partir disso, já não fazia sentido para mim simplesmente fechar o portão quando não conseguíamos nos comunicar.

Logo sonhamos e concretizamos um espaço para alfabetização e reforço escolar desses pequenos. Em três meses, reformamos um espaço, formamos voluntários, compramos materiais e as aulas iniciaram.

Um dos maiores desafios foi descobrir o que fazer com as crianças de 3 a 6 anos, que estavam na rua, mas ainda não iam a escola. Eu pensava: “Se os de 12 não conhecem o alfabeto, o que a gente faz com os de 3 anos?!”

Depois de quatro aulas, estava sentada na sala da minha casa insatisfeita pela necessidade de fechar uma contabilidade mensal e um coro das vozes desses pequenos inundou meu coração e meus olhos:

— “A, B, C, D”.

Foi assim vez que tive certeza que não seria tão feliz em qualquer outro lugar do mundo.

Espaço de alfabetização e reforço escolar das crianças na missão em Moçambique, África. As crianças demonstram um potencial extraordinário de aprendizagem, em bem pouco tempo de atividades.

Depois de um ano de missão, vivo na prática a experiência de descobrir que alegria não vem embalada e etiquetada. Faz bem sentir o sabor de cada dia esaber queas maiores fontes de felicidade são de graça e correm pro teu colo quando te enxergam.

A sociedade da despedida da dor

 

 

Essa é nossa regra.
Em menos de duzentos anos deixaremos
de matar animais e comê-los.
Em menos de cinquenta anos não haverá mais
gente no Brasil matando gay, travesti e trans.
Haverá mais gente se cortando?
Talvez.

 

Você já viu um porco morrer? Já olhou nos olhos de um boi antes um pouco dele ser abatido. No primeiro, os gritos são de socorro, no segundo, dá para perceber lágrimas. Os humanos, quando matam outros animais, fazem questão de dizer que não agem assim com outros humanos. Bobagem.

Os humanos fazem menos drama para morrer e, portanto, podem ser mortos com muito mais facilidade e menos remorso. O cultivo da morte é demasiado humano. A morte dos animais pertence aos humanos que ainda não conseguiram se identificar com o legado de Deus, a Terra.

O homem bate no cachorro. Apesar do cão ser um animal que aprende muito rápido, ele demora muito para se afastar do seu dono, que ele interpreta como um companheiro, mesmo agredido. Um animal dito “selvagem”, como o leão, reconhece depois de anos quem o criou, e chega a levar tal pessoa para ver a sua família, sua esposa leoa com seus leõezinhos. Esses animais não precisam de uma terrível missão, com a de Jesus, para se disporem a seguir a parábola do Bom Samaritano. Eles reconhecem o diferente como diferente, e são capazes de amá-lo até contra seus instintos tão determinantes.

O filósofo Montaigne escreveu vários ensaios sobre a inteligência animal, exatamente para dizer ao homem: sua razão o conduz ao ceticismo, então, por que a põe com elemento superior à inteligência dos outros animais? Montaigne sabia das coisas.

Ninguém é obrigado a não ser um Karnal que, enfim, ainda vive nos pampas dos anos 60. Mas viver num centro urbano, hoje, e achar que comer animais, matá-los para comer, é alguma coisa que se reduz a “hábito alimentar”, no contexto da vida gourmet do momento, é atraso: é carência de civilização, civilidade, falta de inteligência, coração empedernido.

Fazer como Reinaldo de Azevedo e Pondé fizeram, que foram em seus jornais falar contra as moças que salvaram os beagles daquele laboratório fajuto, que não fazia pesquisa alguma e só maltratava animais, é uma prática de falsários. Essa gente põe a razão científica como tudo podendo, em nome de remédios que não fazem tão bem quanto parecem, e de maquiagens que poderiam ser feitas sem o concurso do sofrimento animal.

É interessante que a tal razão científica tenha se tornado o deus dos conservadores! Nietzsche, um eleito do conservadorismo, foi sem dúvida o homem que mais ridicularizou esse tipo de conservadorismo. Nietzsche ousou dizer que a ciência não podia ser livre. Mas ela é, por natureza.

As pessoas de hoje adquiriram um sentimento pelas árvores uma identidade com muitos bichos. Isso é um ganho moral inestimável. Tão grande quanto o ganho que incluiu entre humanos a mulher, a criança, o pobre, o negro, o aidético, o anão etc. A democracia liberal é um regime, em certo sentido, hoje, totalitário.

Mas, já imaginou viver sem os ganhos dela? Já imaginou viver sem a Doutrina dos Direitos Humanos, dos Direitos Civis, dos respeito às minorias? Seria como viver sem os ganhos do horizonte de perdão posto pelo cristianismo. Seria estar num mundo perverso que abandonamos exatamente porque não quisemos mais ser perversos.

Vivemos hoje, é certo, em uma sociedade em que muitos passam pela automutilação caseira. As pessoas estão amortecidas e, então, se punem. Querem voltar a sentir dor.

O problema apresentado pela médica na série Sob Pressão (Globo), que se corta, não é incomum no mundo de hoje. Numa sociedade desonerada, onde o sofrimento precisa ser eliminado, e de fato é, é claro que devem surgir os que se auto-oneram. Todavia, essa é uma transição que teríamos de passar.

Não vamos, por conta da Marjorie Estiano, querer voltar aos lutos dolorosos ou às crucificações. Ou seja, não é por conta de termos um geração de gente mole nas escolas que vamos reintroduzir a palmatória. Precisamos entender a desoneração como fenômeno do mimo inerente e crescente que faz parte de nossa condição humana.

Não matar os animais está dentro do projeto que Marx chamou de “missão civilizadora do Capital”. O capitalismo se associou bem à democracia liberal e mais ainda à nossa condição própria que requer o mimo, o plus, a vida com o “mais” – inclusive com a mais-valia, claro. Mais-valia faz parte do “mais” e da sociedade de abundância (Galbraith) em que vivemos.

Mais tudo, mas menos dor. Essa é nossa regra. Em menos de duzentos anos deixaremos de matar animais e comê-los. Em menos de cinquenta anos não haverá mais gente no Brasil matando gay, travesti e trans. Haverá mais gente se cortando? Talvez. Mas o fim da dor é um vetor inexorável. Fabricaremos dores suportáveis e administráveis. A sociedade da eutanásia assistida.

 

Como sair da imbecilidade? O professor e Filósofo Paulo Ghiraldelli diz.

 

 

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