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Os poderes da fé e da oração operam milagres

Talvez aí resida o verdadeiro milagre:
conectar-se com Deus.
Estar com ele para que ele esteja com a gente.
Viver com ele para que ele viva com a gente.
Conversar com ele para que ele converse com a gente.

 

 

Quando chegamos aos quarenta anos, elaboramos ideias mais consistentes que passam a nos orientar na vida adulta. Estas ideias são os conceitos que vamos sedimentando acerca da existência, do sentido da vida e do sentido do mundo. Aconteceu comigo quando me deparei com a palavra e o conceito “milagre”.

Sou um homem de fé, cristão, educado na doutrina Católica Apostólica Romana. Tenho conhecimentos de várias e muitas tradições religiosas e também de filosofias como ateísmo e agnosticismo porque sou professor de Ensino Religioso em escolas públicas. Estes conhecimentos nunca abalaram a minha fé, mas, antes, pelo contrário, confirmaram ainda mais minhas crenças. Nunca acreditei cegamente em milagres, mas sempre achei que poderiam existir entre a gente, a partir da fé de cada pessoa.

Um dia, ao ouvir uma homilia de um religioso, num canal de televisão, descobri o conhecimento que precisava para um amplo entendimento de milagre.

O religioso dizia: “se você tem algum problema, alguma situação difícil na qual esteja passando, creia em Deus. Não peça a solução para o seu problema, mas tenha fé. Não queira impor a Deus a sua vontade. Deus sabe o que se passa contigo e, se você tiver fé, ele saberá te ajudar naquilo que você precisa. Este é o verdadeiro milagre”.

Desde então, passei a me “perturbar” com o assunto e por isso decidi escrever, em forma de reflexão.

Vejo que a maioria dos cristãos acredita nos milagres, assim como eu. No entanto, tem uma ideia de milagre diferente desta que relatei acima.

A maioria dos cristãos acredita no poder mágico e extraordinário que vem do poder de Deus sobre a nossa frágil condição humana. Nesta perspectiva, o milagre sempre é um fenômeno externo à vida da gente. A gente pede, implora e se Deus não atende, a gente xinga, a gente esbraveja Deus porque Ele não nos atendeu. Parece que o milagre é só de Deus e a gente fica na passividade de ser apenas seu beneficiário. Isso, talvez, explique porque há tanta gente que está brigada com Deus.

Eu mudei meu conceito de milagre, a partir da fala do religioso. Passei a entender que milagres existem todos os dias, para aqueles que têm fé. Para aqueles que acreditam no poder de sua fé, sem a exigência de ser atendido naquilo que eles imaginam ser a solução dos seus problemas.

 

Oração para ter força e coragem.

Mahatma Gandhi, líder religioso hinduísta, em texto “Poder da Oração” afirma que ele simplesmente orava, mas um dia percebeu que se tornara um homem de fé. Percebeu que nada seria sem a força de Deus que agia nele. Disse ainda que orar ou rezar, não é pedir, mas sim, estar com Deus.

Talvez aí resida o verdadeiro milagre: conectar-se com Deus. Estar com ele para que ele esteja com a gente. Viver com ele para que ele viva com a gente. Conversar com ele para que ele converse com a gente.

Não tem problema a gente mudar de ideia. “O mais triste é não ter ideias para mudar”, como dizia Barão do Itararé. Antes tarde que mais tarde, sejamos capazes de rever os conceitos fundantes de nossa vida e de nossa existência. Cada dia é uma oportunidade para a gente se revelar a Deus e de Deus se revelar para a gente. Os milagres existem para quem tem fé!

A derrota do pensamento

O pensamento diplomado, o pensamento que busca
a verdade através da leitura e do conhecimento de
diversas fontes, o saber ancestral, baseado nas experiências vividas
estão sendo derrotados pelo saber imediato e sem relação com nada.
Falta-nos o discernimento crítico da realidade e dos conhecimentos.

 

Há alguns anos, tive a oportunidade de ler o livro A derrota do pensamento, do filósofo francês Alan Finkielkraut, e relembro essa leitura apenas para justificar o título deste artigo.

É inegável que, com o advento da internet e das redes sociais, se popularizaram a escrita e a possibilidade de emitir opinião sobre os mais variados temas. Isso é bom! Porém o que refiro como derrota do pensamento é o nivelamento de todas as pessoas (ou quase todas), pois há muito de exclusão social e digital na abordagem dos temas.

 

Idiotização da mídia e manipulação – Fora da Caixa.

Decidi escrever este texto a partir de alguns daqueles debates que a gente acaba fazendo no Facebook com amigos e familiares – no meu caso, como graduado em Teologia, querendo fundamentar com argumentos alguns temas de religião. A conclusão é que de pouco valeram aqueles anos de estudo de Teologia. Assim, como de pouco adianta minha graduação em Filosofia, especialização em Bioética ou mestrado em Comunicação Social.

Para não encerrar o exemplo em mim mesmo, quero ampliar essa ideia da derrota do pensamento. Num dos debates sobre religião, um interlocutor amigo do Facebook fala da perseguição aos cristãos na Bolívia e Venezuela.

Daí eu me pergunto: o que sabemos nós, brasileiros e brasileiras, sobre esses países, se o que recebemos é um bombardeio de informações falsas e negativas dessas nações pela grande mídia?

Sempre tive como referência em assuntos internacionais o professor Paulo Visentini, autor de diversos livros e profundo conhecedor de geopolítica e de como se relacionam os países, seja na América Latina, Oriente Médio ou qualquer parte do mundo. Mas qual é a diferença da opinião do professor Visentini para a opinião do meu interlocutor do Facebook?

Outro interlocutor, estudante de Filosofia nos primeiros semestres, com a finalidade de se tornar padre da Igreja Católica Romana, autodenominando-se conservador de direita, achou-se no direito de apontar os erros do Papa Francisco na condução da Igreja. Não importa que Jorge Bergoglio tenha feito tantas faculdades, que tenha vivido as mais diversas situações como argentino, arcebispo, cardeal e, agora, talvez como a liderança mais respeitada em todo o mundo. Só importa o desejo de se manifestar, mesmo que sem argumentos.

Não é apenas o pensamento diplomado que está sendo derrotado. Trata-se também do pensamento de quem busca a verdade através da leitura e do conhecimento de diversas fontes, e se trata do saber ancestral e baseado nas experiências vividas, que não pode ser desprezado pelo saber imediato e sem relação com nada, além da própria impressão da realidade, influenciada pelos meios de (des)informação que hoje dispomos.

Esperamos que o passo seguinte a essa avalanche de opiniões nas redes sociais seja o do discernimento crítico do que dizemos, curtimos e compartilhamos.

 

A forte ideologia de consumo, incutida na gente todos os dias, também nos faz relativizar demais as informações e os conhecimentos com os quais lidamos? Vídeo “Compro, logo existo”?

 

Ideologia – eu quero uma pra viver!

Em época de liberdade sexual e religiosa, onde as pessoas
podem assumir suas escolhas e crenças, deparar-se com
discursos velhos e hipócritas soa estranho e preocupante.
Doutrinação nunca foi nem nunca será uma
forma de convencer alguém do que é bom.

 

A última semana do ano de 2017 foi marcada por uma postagem leviana e que preocupa. Dois vereadores de nossa cidade Passo Fundo gravaram um vídeo que me soou absurdo. Eles criticam de forma categórica a “ideologia” de gênero aprovada no PME – Plano Municipal de Educação de Passo Fundo por meio do PL 5146/2015.

Não sei qual o papel de ambos nesta construção do PME.

Segundo os parlamentares, a ideologia de gênero é a moda do momento (mas ela é discutida há mais de 20 anos), uma pretensão das escolas, uma imposição e tem como objetivo destruir a família e manipular a mente das pessoas.

As crianças seriam então doutrinadas nesta “ideologia do mal”. Meu Deus. Em que mundo eles vivem?

 

“Ao relacionar a ‘ideologia de gênero’ como sendo ‘ideologia do mau’ a casos de pedofilia, os vereadores ofendem aos mais de 1,2 mil professores municipais e subestimam a inteligência das pessoas. O discurso só é aplaudido ou compartilhado por quem desconhece a profundidade do tema e se deixa levar por fanatismos religiosos. É de lamentar que o ano Legislativo, tão produtivo em Passo Fundo, encerre com um debate retrógado, sem significado para a educação”.
( Zulmara Colussi, em O Nacional, 28 de dezembro de 2017)
Mais informações, aqui.

Na realidade os discursos tem, antes, um viés eleitoreiro e de doutrinação religiosa do que uma real preocupação com a educação municipal, que sofre outros tantos graves problemas que deveriam ser prioridade na pauta de um vereador.

Não pude deixar de mais uma vez expor minha opinião, uma vez que este é aberto às opiniões e indignações.

A tão criticada “ideologia de gênero” apenas compreende que ninguém nasce homem ou mulher, mas que cada indivíduo deve construir sua própria identidade, isto é, seu gênero, ao longo da sua vida. É apenas uma forma de dizer que muito além de quereremos direitos e oportunidades iguais para homens e mulheres (que ainda estamos longe de conseguir), buscamos a compreensão de que não deve haver divisão do mundo entre homens e mulheres, pois somos sim todos iguais, independente do sexo. A questão é não haver diferença de sexos.

Nossas diferenças são apenas genitais e não deveriam importar culturalmente.

Essa simples palavra confunde as pessoas e confundiu nossos políticos, uma vez que eu sua compreensão falar em ideologia de gênero nas escolas seria uma forma de incentivar a homossexualidade e pior ainda, fizeram uma relação grave com abuso e exploração sexual infantil e esclarecem que a ideologia é uma imposição.

O Plano Municipal de Educação teve ampla discussão com participação de nossos educadores. Professores que compreendem o que falta no currículo escolar.

Professor dirigente do CMP Sindicato diz que Plano Municipal de Educação é fruto de uma discussão iniciada há mais de 10 anos e que proposta dos vereadores é desonesta e leviana.
Veja mais aqui.

É muito mais prejudicial para uma criança ver televisão aberta por horas, sem compreender realmente o que estão vendo, sem nenhum tipo de filtro, sem ter respeito por sua condição social. A escola é o espaço para o debate e a ideologia de gênero cumpre este papel. Simples assim.

Não vamos criar resistência aos termos que não conhecemos e não vamos acreditar em oportunismo.

Família é onde tem amor. Família é onde existem pessoas que se amam, independente do gênero. Porque ser do bem mesmo é ser alguém que compreende que somos iguais.

Você sabe o que é ideologia de gênero? Veja este vídeo bem esclarecedor.

Os pobres que o jornalismo não vê

O jornalismo deve ir às periferias e ver os dramas
de um mundo de carências e misérias que a imprensa
pós-golpe afastou dos nossos olhos.
Esta ainda é uma tarefa dos jornalistas.

 

O jornalismo ainda está devendo reportagens que desmascarem os índices médios de inflação e mostrem a realidade dos pobres depois do golpe.

É preciso ir ao mundo que desconhece a inflação baixa do jaburu-da-mala e a recuperação da economia propagandeada pelo Jornal Nacional.

O Brasil da classe média ignora a realidade de quem ganha salário mínimo ou um pouco mais e paga R$ 150 por dois botijões de gás, que vai pagar 30% mais pela luz, que enfrenta o aumento semanal da gasolina (tem seu carrinho ou se vira de moto) e que não enxerga a tal retomada do emprego.

Os índices da inflação que não levam em conta a vida desse povo, mas o custo de vida de uma classe média, também empobrecida, não conseguem dar conta dessa realidade.

Os repórteres devem ir a campo para contar como sobrevivem os que almejaram ascender socialmente, durante os governos de Lula e Dilma (e muitos conseguiram), e que agora enfrentam retrocessos devastadores.

Mas é preciso ir além dos números e das estatísticas. Os dados sobre o custo de vida real, que se contrapõem a uma inflação média enganosa e às besteiras ditas pelo jaburu-da-mala, servem de esclarecimento pela metade.

O sentido maior da compaixão para com os pobres: não os defendemos por serem bons ou anjos, mas porque são parte de uma sociedade desigual que não sabe lidar com eles.

Pobreza e compaixão

É preciso mais. O jornalismo deve ir às periferias e ver os dramas de um mundo de carências e misérias que a imprensa pós-golpe afastou dos nossos olhos. Esta ainda é uma tarefa dos jornalistas.

 

“Todo profissional deve defender os interesses intrínsecos ao seu ofício. Os jornalistas, assim como os professores, trabalham com temas de interesse geral, a educação e a informação. Por isso mesmo, precisam toda hora justificar o seu trabalho e legitimar a função social do seu trabalho. Os jornalistas, em especial, lutam pela qualidade da informação, apresentando slogans como este: “Sem jornalista não tem informação”. (Nei Alberto Pies)

https://www.sul21.com.br/jornal/jornalismo-e-seus-interesses-por-nei-alberto-pies/

Sobre arte e a arte do viver

O reinado do medo vai tecendo suas teias, aprisionando cada vez mais nossas vidas, roubando-nos o que nos resta de criatividade, isto é, o natural dom para driblar nossas necessidades com criatividade, não apenas para sobreviver à obscuridade, mas para levar encantamento à alma, órfã de imaginação que revoluciona os sentidos maios sublimes, ensejando epifanias.

 

Disse a mim mesmo que não voltaria a tocar no assunto sobre a necessidade de arte numa contemporaneidade que dá mostras de nela não depositar quase ou nenhum interesse. Até porque gastar suas forças na tentativa de sobreviver ao caos reinante?

Que o mundo está em escombros, não há dúvida. Que aguardamos o ressurgimento da Fênix para nos tirar do atoleiro, também não há estranhamento.

É o reinado do medo tecendo suas teias, aprisionando cada vez mais nossas vidas, roubando-nos o que nos resta de criatividade, isto é, o natural dom para driblar nossas necessidades com criatividade, não apenas para sobreviver à obscuridade, mas para levar encantamento à alma, órfã de imaginação que revoluciona os sentidos maios sublimes, ensejando epifanias.

O que leva, mais uma vez, à ponderação de que não é só de pão que vivemos, mas de poesia, como disse brilhantemente William Carlos Williams “não é fácil encontrar novidades em poemas, mas homens morrem miseravelmente todos os dias por falta do que neles existe”.

Assim, a pretexto de sobrevivência, vamos sepultando-nos a conta gotas sobre o som de infindáveis réquiens, cada vez mais aturdidos, satisfazendo os sentidos comezinhos. E o sistema reinante, com inefáveis pendores diabólicos, dita o que tem de ser consumido para que nos sintamos na trilha certa, coerente com os demais, em passos militares rumo ao matadouro.

A verdade que precisa ser dita que tal comportamento é a opção pelo mais barato, pois no dizer de Jung “quase não há exceções à regra de que uma pessoa deve pagar caro pelo divino dom do fogo criativo”.

Entre um celular que faz tudo, inclusive pensar pelo usuário, e as labaredas da liberdade criativa opta-se pela geringonça tecnológica, que nos escraviza em vez de libertar.

Já estou me alongando demais. Se alguém chegou até aqui foi por pura coragem – e por sentir-se, igualmente, desconfortável neste mundo de aparências, que alimenta Narciso com coisas absolutamente inúteis. Duke Ellington disse “só interessa o que tem swing”. Você sabe o que tem swing?

O patriarcado não está na cabeça das feministas

A política educacional pode dialogar com a cultura familiar e fazer
uma crítica à cultura do estupro. Porque ao falar contra a
discriminação de gênero, vamos falar que homens e mulheres podem
respeitar o outro. O estupro é o desrespeito absoluto.

 

A noção vigente de masculinidade é associada à violência, e por isso é importante combater pela raiz a chamada cultura do estupro — é o que defende Lia Zanotta Machado. No final dos anos 90, a professora titular de Antropologia da Universidade de Brasília (UnB), especialista em violência e direitos das mulheres, participou de um estudo que até hoje é referência: integrante do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Mulher (NEPeM/UnB), ela e outras pesquisadoras entrevistaram encarcerados por sentença de estupro, com o objetivo de entender o imaginário deles a respeito do crime. A pesquisa concluiu que o estupro somente era considerado crime pelos que o cometeram quando violava as relações de família e de posse dos homens sobre as “suas” mulheres — esposas, filhas, irmãs —, aquelas que eles consideravam “honestas”. Todas as outras mulheres eram vistas como disponíveis. “Ao se defenderem, quando acusados, esses homens afirmaram que as mulheres provocam, seduzem e consentem, ou estão em lugares e horas onde ‘mulheres de família’ não deveriam estar”, explicou. Na entrevista que concedeu à Radis, Lia analisa as origens da cultura do estupro — a desigualdade entre homens e mulheres — e joga luz sobre esse crime que se apresenta em diferentes formatos na nossa sociedade.

O que é a cultura do estupro? 

A chamada cultura do estupro vem de uma história de longa duração, presente nos códigos penais e civis, que estabeleciam concretamente a desigualdade de direitos entre homens e mulheres. No período colonial, basicamente o chefe de família tinha o poder de posse sobre as mulheres e os filhos, como se fossem escravos ou servos. Isso marcou o masculino. Já não está mais na nossa Constituição, desde 1988, que fala de igualdade de gênero, mas a legitimidade da ideia de posse e da desigualdade persistem. No Brasil Colônia, estupro era só contra uma mulher virgem. Isso ainda está na nossa memória. Estupro seria contra mulher virgem, “honesta”, fiel, casada. Assim, existe a ideia de que, contra todas as outras mulheres, elas é que teriam provocado. A legislação muda, mas até há pouco tempo o estupro era um crime contra os costumes, não contra a dignidade da pessoa. Ainda vigora a ideia de que, quando as mulheres dizem não, elas na verdade estão dizendo sim. Porque “caberia” a elas dizer não, mas na verdade elas “querem”. Então você nega a palavra da mulher, você não dá valor ao corpo da mulher, à pessoa… Tudo é objeto de posse do homem.

A origem da cultura de estupro é o patriarcado? 

O patriarcado é um fato, e existiu legalmente. Não é só uma memória das pessoas, da cultura do homem machista. O que eu insisto é que a cultura do estupro está sediada na memória dos nossos códigos penais e civis. O patriarcado não está na cabeça das feministas. Ele foi inscrito e legitimado, legalizado nos códigos civis e penais da história do Brasil durante a Colônia, o Império e a República. A igualdade de gênero só aparece em 1988 com a Constituição. A desigualdade diminui ao longo do tempo, mas se mantém na república, no Código Civil, dando direitos desiguais à mulher.

O discurso dos estupradores sentenciados reflete essa cultura? 

Eu lembro que na nossa pesquisa, um homem que cometeu estupro dizia: “ah, ela estava na rua, à noite, esperando o ônibus, eu parei, e pensei uma mulher que está na rua a essa hora aqui eu posso pegar”. E “pegou”. E depois passou um carro, com o irmão dela, que viu e foi salvar a mulher. Aí ele disse para mim o seguinte: “Nunca pensei que essa mulher tivesse um irmão”. Se ele soubesse que essa mulher de alguma forma era “de alguém”, ele não teria estuprado. Os homens que estupram essas mulheres, que eles consideram “disponíveis”, vão para casa dormir e no dia seguinte trabalhar. Eles nem acham que isso é crime.

E quanto ao estupro coletivo?  

Há vários casos de estupros feitos por quatro, cinco homens… Esse estupro indica que se quer mostrar para outros homens o quanto se é viril. Existe uma espetacularização. Não é feito só para ter a posse. Na criminalidade organizada, os jovens têm que se mostrar corajosos, têm que estar prontos para matar ou morrer, portanto eles põem o revólver para cima para mostrar… “ninguém olha no meu olho, e eu posso ter todas as mulheres”. Há grupos de traficantes que estupram as mulheres do grupo rival para mostrar poder, por exemplo. É um pouco o que acontece no estupro em guerras, como na Bósnia, e também entre gangues. Apareceram casos também na minha pesquisa de pessoas que contrataram terceiros para estuprar a mulher do inimigo. O estupro virou cada vez mais uma demonstração da macheza e da virilidade aos olhos dos outros homens. Neste caso de estupro coletivo [da jovem no Rio de Janeiro], a maneira como ele foi exposto nas redes sociais pelos próprios executores, sem acreditar que alguém poderia se sensibilizar e ser contrário ao ato, mostra isso.

Quais as repercussões desse tipo de comportamento para a saúde e a segurança das mulheres?

Muitas mulheres têm dificuldade de contar a sua história de estupro.  Outras falam muito para tentar “exorcizar” o que aconteceu. Elas entram em depressão. É um sofrimento absolutamente incrível. Qualquer pessoa que já foi assaltada sabe que a gente sente uma impotência. Imagine o que é a impotência diante de alguém que penetra o seu corpo, segura e controla fisicamente, e que destitui a sua condição de pessoa? O que você fala não importa, o que seu corpo quer não importa. É um trabalho enorme de recuperação. A atenção que essas mulheres vítimas necessitam é total, porque você pode contrair aids, DSTs, pode ter laceração genital e do períneo, infecção, engravidar… E é uma das coisas mais terríveis em termos de trauma psíquico.

Qual a sua avaliação do discurso dos estupradores? 

Não são monstros nem doentes… Eu lembro de um [estuprador entrevistado na pesquisa] que dizia que tinha visões…. Mas ele tinha consciência do que fazia. Ele tentava colocar essa questão do desejo dele. O estupro não é uma questão apenas sexual, é questão de humilhação, de humilhar o outro, de mostrar que é poderoso. E ele é um ato, não é toda a vida deste homem. Existem serials [estupradores em série] que se organizam para estuprar, mas a maioria deles não se organiza para tal, eles estupram e ao mesmo tempo têm uma vida cotidiana, seja ela de criminoso ou de trabalhador, e têm pessoas por quem eles têm afeto.

E em relação ao estupro feito por pessoa conhecida da mulher?

Também existe a cultura do estupro familiar. Que diz o seguinte: as ´minhas´ mulheres não podem ser estupradas por ninguém, mas como eu sou tio de uma menina, padrinho, amigo da mãe, e como eu ajudo essa família, eu ´tenho´ direito a ter relação com essa menina, com essa mulher, com essa cunhada. Aí é um estupro que mistura afeto e posse. É uma ideia de uma extensão da posse que o pai e o marido têm sobre as mulheres. Há na nossa pesquisa, um caso que apareceu em jornais, de um homem que tinha relações com as suas enteadas. Ele dizia que fazia isso porque a mulher dele não era mais “capaz” de fazer sexo com ele, então, se ela não tinha, as filhas “tinham” que ter.

Como combater a cultura do estupro? O aumento de penas resolve o problema?

Eu não sou favorável ao aumento da pena. É preciso que haja punição, sim, mas quanto maior a pena para o crime, mais os juízes e promotores tendem a aderir à ideia de que não foi um estupro. Essas são as conclusões derivadas da pesquisa que realizo atualmente. A grande questão é o que fazer com esses homens na prisão, para que isso não se repita, e que tipo de fiscalização existe para que ele não saia em uma condicional sem acompanhamento. Os juízes e os promotores têm que ser mais atentos, porque eles tendem ainda a pensar que, se o denunciado é alguém conhecido da vítima, e se ela estava envolvida inicialmente, então, houve consentimento, como se ela não tivesse direito de dizer não a qualquer momento. Como no caso de uma mulher que tem um namorado e ele a chama para ir a um motel. Ela diz não, mas ele diz “ah, vamos lá, mas só para conversar”. Se depois ela diz “eu fui estuprada”, o juiz diz, “não, não foi estupro, porque você entrou no motel”. Na verdade, a ideia do consentimento é que você pode desistir a qualquer hora. Mas, se há um namoro [o juiz ou o promotor podem entender que] não tem estupro. Ou que a continuidade do processo é “difícil de provar” e que pode provocar sofrimento à vítima. Mesmo com toda a nossa cultura, denunciar um namorado que a estuprou… Apesar de haver a Lei Maria da Penha, no Brasil de um modo geral não se ouve o que a mulher diz. É tão difícil denunciar. É preciso que sejam levadas adiante essas denúncias. A mulher só denuncia quando está absolutamente certa de que foi estupro, pois na nossa cultura, é a ela que se atribui a vergonha. Mesmo quando o denunciado é desconhecido da mulher, em geral há a tendência de delegados, promotores e juízes muitas vezes entenderem que a mulher provocou ou seduziu, quer pelas roupas, quer por estar em espaços noturnos ou isolados.

E o que pode ser feito?

Existe algo que pode ser feito no interior das próprias famílias. Os principais lugares de formação e educação que nós temos no Brasil, por um lado são as relações familiares, e por outro a formação escolar. Nas famílias, especialmente nas classes populares — em comunidades com mando do tráfico ou das milícias — o valor da virilidade às vezes é levado a qualquer custo. Nas classes mais altas, você também tem uma transmissão de valores masculinos em que a sensibilidade de um homem é vista como “negativa”, feminilizada. Então a virilidade é ensinada “contra” as mulheres. Controlar as mulheres e desafiar os outros homens. Essa é a virilidade ensinada. A grande novidade é que nós já temos a ideia da igualdade, de que homens e mulheres podem ter sensibilidade e serem respeitosos, que é possível o cuidado tanto dos homens para as mulheres quanto das mulheres para os homens. A cultura da sensibilidade, do respeito e da cidadania. Essa cultura arcaica de que os homens devem controlar as mulheres e responder a qualquer desafio dos outros homens por meio da violência física e verbal tem que terminar, tem que ser enfrentada. Isso implica uma formação psicológica.

Como pensar esta questão em termos de política social?

A política educacional pode dialogar com a cultura familiar e fazer uma crítica à cultura do estupro. Porque ao falar contra a discriminação de gênero, vamos falar que homens e mulheres podem respeitar o outro. O estupro é o desrespeito absoluto. Todas as campanhas contra a discriminação de gênero que vinham sendo feitas estão sob, digamos, interdição do Congresso Nacional. Porque no Plano Nacional de Educação, enviado pelo Executivo então vigente, estava registrada a necessidade de lutar contra a discriminação de gênero, sexual, racial e religiosa. Mas o Congresso retirou a discriminação de gênero do texto. Considero a retirada da palavra gênero do Plano Nacional de Educação inconstitucional, já que a Constituição diz que não pode haver discriminação sexual. Como sexo e gênero estão interrelacionados, não poderia ter sido tirada a palavra gênero. Isso depende de uma interpretação jurídica, é claro, mas em termos sociais é um desastre. As políticas públicas educacionais precisam expandir com urgência a ideia de cidadania com igualdade de sexo e de gênero: sem discriminação, sem violência e sem estupro. (E.B.)
Fonte: Revista Radis
Autora: Elisa Batalha

Destruição de uma arma popular

Você já pensou como os trabalhadores e trabalhadoras se organizarão em defesa de seus direitos sem sindicatos? Ou com sindicatos frágeis, sem estrutura e sem dinheiro para organizarem as lutas e movimentos?

 

Nos últimos dias ouço falar muito sobre a lei que institui o fim da obrigatoriedade com o imposto sindical, inclusive vejo pessoas se posicionando a favor e outras contra nas redes sociais. Assim, senti-me desafiado a escrever a cerca desse tema que envolve a organização da sociedade. Isso implica em entender a luta de classes travada há muitos anos.

Para que minha escrita torne-se entendível me disponho a fazer um retrospecto histórico para que muitas pessoas, inclusive você que agora está lendo o meu texto, possam se dar conta que isso vai além do que apenas livrar o trabalhador do desconto. E começo com algumas perguntas: Você sabe o que é luta de classes? Você se enxerga de qual lado, daqueles que criaram a lei ou do lado daquele que com suor encara um dia de trabalho e pouco é valorizado?

Primeiramente, necessário entender que houve uma classe que só conquistou o direito de viver dignamente com batalhas e muito sangue e é dessa classe, que com clareza, eu me vejo inserido. Essa luta inicia aqui nessa terra, baseando-se nos anos de 1500, em que todos os indígenas viam a terra como sendo parte dela, para ilustrar trago a famosa frase por eles cultuada: “Somos da terra e ela é parte de nós”.

Um dos mais importantes manifestos ecológicos, a Carta do índio Seatle ao presidente americano que desejava comprar terras indígenas.

Com a chegada dos portugueses essa filosofia de vida cai por terra. A terra que era para todos passa a representar um triunfo por parte dos europeus. Com isso, havia uma necessidade de escravizá-los e isso perdura por muitos anos até que um dia a classe mais fraca, o índio, percebeu que necessitava se organizar para se defender. Surge então, a primeira organização social em busca de direito, Confederações dos Tamoios.

Sempre há em jogo um capital, que por consequência, representa o poder entre duas classes. Uma que suga e a outra que é sugada. E por isso, passamos por várias organizações sociais, a maioria delas com a terra representando o triunfo para o poder, porque esse de define com quem tem mais ou àquele que domina mais.

A Cabanada luta sangrenta e desumana, porém o povo do Pará não baixou a cabeça. A Balaiada que ocorreu no Maranhão contra o recrutamento do exército. Tivemos a histórica escravização dos negros que demanda luta até hoje, mas historicamente a organização que se rebelou contra essa desumana opressão foi o Zumbi dos Palmares e seu povo. Tivemos no Nordeste muitas lutas de classe e por terra, porém uma que merece destaque é Canudos. Nas décadas de 70, 80 e 90 tivemos um levante de lutas populares sociais que teve como fomento a igreja católica, na famosa organização das Comunidades Eclesiais de Bases (CEBs), tendo como luta travada em torno da divisão da terra dignamente e dos direitos fundamentais do cidadão. Com isso, nasce o MST (Movimento dos trabalhadores Sem Terra).

Nesse momento histórico a luta se estabelece contra o poder instituído e governamental. Nesse período, há que se dizer que os sindicatos dos trabalhadores tornam-se evidentes e fortes nessa época, tornando a principal arma contra os opressores.

Para entendermos um pouco esses movimentos, organizações sociais sempre pra se fortalecerem com os poderosos demandavam de ajuda, no caso a contribuição. E a ideia de quem está numa ponta do iceberg é destruir tudo o que tem possibilidade de dar poder a classe trabalhadora.

A contribuição sindical deixar de ser obrigatória é a destruição de um poder que os trabalhadores tinham e tem para que os direitos dos cidadãos pela educação, saúde, segurança e agricultura de subsistência sejam garantidos.

Com a lei impedindo que se arrecade, os sindicatos ficarão enfraquecidos e, por consequência, a classe trabalhadora não pressiona para que o governo preze pela classe que mais necessita. Por outro lado, fica fácil para o governo garantir os grandes investimentos para as empresas privadas, na grande maioria, aquelas que os elegeram e ajudam a se manter no poder esmagando a grande massa que depende do suporte do Estado. Com isso, as questões básicas e sociais do cidadão que paga o imposto ficam de lado, com a desculpa que não há dinheiro. Exemplo claro que estamos vivenciando no país e no estado.

Atitude vergonhosa! Não podemos ser ingênuos. Organizar um movimento de luta de garantias sociais custa dinheiro, por exemplo, levar os sindicalizados até a capital e garantir alimentos, hospedagem. Ou vocês que já, por vezes, hospedaram-se no CPERS acham que para manter isso tudo não depende de dinheiro? Sem contribuição sindical tira-se o poder de luta de qualquer sindicato. E aí, meus amigos, fácil os governos pintarem e bordarem com o dinheiro público.

 

Conheça e acompanhe o trabalho do combativo sindicato dos professores estaduais do Rio Grande do Sul, CPERS.

http://cpers.com.br/

É claro que o discurso usado não é esse, porque senão você encararia diferente. O discurso vendido e comprado, infelizmente, por muitos trabalhadores é que, torna-se absurdo obrigar que o trabalhador contribua “com esses sindicatos”.

Trago para compartilhar com vocês um texto maravilhoso que resume o que eu quero expressar sentimentalmente aqui. Esse texto chama-se O Povo de Eça de Queiroz:

 

 

O povo

“Há no mundo uma raça de homens com instintos sagrados e luminosos, com divinas bondades do coração, com uma inteligência serena e lúcida, com dedicações profundas, cheias de amor pelo trabalho e de adoração pelo bem, que sofrem, que se lamentam em vão. Estes homens são o POVO.

Estes homens estão sob o peso de calor e de sol, transidos pelas chuvas, roídos de frio, descalços, mal nutridos, lavram a terra, revolvem-na, gastam a sua vida, a sua força, para criar o pão, o alimento de todos. Estes são o POVO, e são os que nos ALIMENTAM.

Estes homens vivem nas fábricas, pálidos, doentes, sem família, sem doces noites, sem um olhar amigo que os console, sem ter o repouso do corpo e a expansão da alma, e fabricam o linho, o pano, a seda, os estofos. Estes homens são o POVO, e são os que nos VESTEM.

Estes homens vivem debaixo das minas, sem o sol e as doçuras consoladoras da Natureza, respiram mal, comendo pouco, sempre na véspera da morte, rotos, sujos, curvados, e extraem o metal, o minério, o cobre, o ferro, e toda a matéria das indústrias. Estes homens são o POVO, e são os que nos ENRIQUECEM.

Estes homens, nos tempos de lutas e crises, tomam as velhas armas da Pátria, e vão, dormindo mal, como machas terríveis, à neve, à chuva, ao frio, nos calores pesados, combater e morrer longe dos filhos e das mães, sem ventura, esquecidos, para que nós conservemos o nosso descanso opulento. Estes homens são o POVO, e são os que nos DEFENDEM.

Estes homens formam as equipagens dos navios, são lenhadores, guardadores de gado, servos mal retribuídos e desprezados. Estes homens, são os que nos SERVEM. O POVO

“Há no mundo uma raça de homens com instintos sagrados e luminosos, com divinas bondades do coração, com uma inteligência serena e lúcida, com dedicações profundas, cheias de amor pelo trabalho e de adoração pelo bem, que sofrem, que se lamentam em vão. Estes homens são o POVO.

Estes homens estão sob o peso de calor e de sol, transidos pelas chuvas, roídos de frio, descalços, mal nutridos, lavram a terra, revolvem-na, gastam a sua vida, a sua força, para criar o pão, o alimento de todos. Estes são o POVO, e são os que nos ALIMENTAM.

Estes homens vivem nas fábricas, pálidos, doentes, sem família, sem doces noites, sem um olhar amigo que os console, sem ter o repouso do corpo e a expansão da alma, e fabricam o linho, o pano, a seda, os estofos. Estes homens são o POVO, e são os que nos VESTEM.

Estes homens vivem debaixo das minas, sem o sol e as doçuras consoladoras da Natureza, respiram mal, comendo pouco, sempre na véspera da morte, rotos, sujos, curvados, e extraem o metal, o minério, o cobre, o ferro, e toda a matéria das indústrias. Estes homens são o POVO, e são os que nos ENRIQUECEM.

Estes homens, nos tempos de lutas e crises, tomam as velhas armas da Pátria, e vão, dormindo mal, como machas terríveis, à neve, à chuva, ao frio, nos calores pesados, combater e morrer longe dos filhos e das mães, sem ventura, esquecidos, para que nós conservemos o nosso descanso opulento. Estes homens são o POVO, e são os que nos DEFENDEM.

Estes homens formam as equipagens dos navios, são lenhadores, guardadores de gado, servos mal retribuídos e desprezados. Estes homens, são os que nos SERVEM.

E o mundo oficial, opulento, soberano, o que faz a estes homens que o vestem, que o alimentam, que o enriquecem, que o defendem, que o servem? Primeiro, despreza-os; não pensa neles, trata-os como se fossem bois; deixa-lhes apenas uma pequena porção dos seus trabalhos dolorosos, não lhes melhora a sorte, cerca-os de obstáculos e de dificuldades, forma-lhes em redor uma servidão que os prende e uma miséria que os esmaga, não lhes dá proteção; e, terrível coisa, não os instrui, deixa-lhes morrer a alma. É por isso que os que têm coração e alma, e amam a JUSTIÇA, devem lutar e combater PELO POVO.

E ainda que não sejam escutados, têm na amizade dele uma consolação suprema.”

Eça de Queirós (1845-1900)

Descubro e aprendo que sabedoria política e reconhecimento de classe não estão nos diplomas acumulados. Descobri isso com meu pai dias atrás. pois qual minha surpresa, ao chegar na casa do meu pai há poucos dias atrás, (há que se dizer que meu pai não sabe ler), disse-me: – “Pois é, então agora ficou do jeito que “eles” queriam, vão acabar com a organização social, pois para fazer pressão aos grandes na briga da fatia que toca aos pobres, ficou difícil. Agora, os governos que gostam de tirar direitos e massacrar o povo, ficou moleza”. Meu pai se referia ao fim da obrigatoriedade à contribuição sindical.

Ao ouvir isso de meu pai, fiquei por um lado encantado porque veio isso da boca do meu pai, porém, me dei conta, no exato momento, de que consciência política e reconhecimento de classe não vem de canudos (diplomas), tão pouco vem de pessoas que sabem ler, porque não foi o que ouvi de muitos meus colegas professores “letrados”.

Portanto, nem tudo o que sai da boca de quem faz e vota as leis é o que meramente devemos comprar, pois no caso do fim da contribuição sindical é mais um engodo desses governos neoliberais e opressores como temos hoje. Na verdade, é uma destruição da arma do povo que amedronta os que querem que a classe trabalhadora sustente as mordomias e as riquezas da minoria.

O Natal é da família

Que é o Natal? É a ternura do passado,
o valor do presente e a esperança do futuro.
É o desejo mais sincero de que cada xícara se encha com bênçãos ricas
e eternas, e de que cada caminho nos leve à paz. (Agnes Pharo)

 

A festa de Natal permite que revivamos os dramas, as alegrias, os encontros e os desencontros familiares. As festas natalinas e de final de ano são um convite para celebrar a mágica dos nascimentos e renascimentos de nossas vidas.

Quantas de nossas famílias, hoje, buscam um novo sentido e uma oportunidade para renovar os laços que as mantém ou as constituem? Quantos lares esperam que a celebração de mais um Natal harmonize as suas relações e renove as esperanças de que a vida pode ser melhor? Quantos filhos, pais e mães não desejariam renovar suas vidas, reinventando os seus papéis e as suas responsabilidades? Quantas coisas, num só Natal, em um único dia do ano.

Os filhos crescem, formam suas próprias famílias e, muitas vezes, deixam que a vida os afaste de seus pais velhinhos que acabam ficando em segundo plano. Veja esta mensagem com uma surpreendente história que envolve uma pessoa idosa e seus filhos.

Vivemos num tempo em que a afirmação exagerada de nossas individualidades gera vazios existenciais muito grandes, levando à depressão, desgosto e desilusões. Não valorizamos como deveríamos a memória, a coletividade e a convivência.

Conta hoje sermos livres: sem vínculos com nada e com ninguém. Será que vale a pena acreditar nisso? Existe outro caminho?

As famílias são cobradas por uma responsabilidade que nem sempre sozinhas conseguem arcar. As relações na família, como na sociedade, estão fragilizadas, exigindo de cada um e cada uma de nós um maior zelo, cuidado e proteção de uns para com os outros. Por isso mesmo que as nossas famílias serão melhores na medida em que investirem mais tempo, mais amor e mais energia nas suas relações.

A experiência das famílias é sempre comunitária, de compartilhamento de sabores e dissabores.

As famílias estão desafiadas a fortalecer as relações de convivência por todos os que as compõem.

História de Natal contada por Benício Rios.

O Natal, com sua energia e inspiração, pode ser uma grande oportunidade de reconciliação das famílias. A família não é uma ideia e nem uma fórmula para a gente oferecer como solução para os problemas do ser humano e da humanidade, mas ainda revela-se o mais completo “porto seguro” e lugar de intensa convivência e humanização.

A família é a maior referência para a vida pessoal e comunitária, portanto, lugar para a realização de nossa felicidade.

O amor é a mais revolucionária das armas que a humanidade já construiu para gerar seres humanos livres, solidários, abertos, comprometidos com a permanente defesa e promoção da vida.

O amor precisa ser reinventado, assim como as formas como convivemos e nos promovemos gente/ser humano. Promovamos, neste Natal, as famílias como o melhor lugar para nos fazermos gente. Acreditemos na magia que só o amor é capaz de mudar. O Natal, esta festa cristã, pode comprometer o nosso coração, a nossa alma e as nossas energias para uma vida na dignidade.

O Natal em família não é uma festa de ocasião, mas uma oportunidade para as famílias revisarem as suas relações, projetos e perspectivas. Aproveitemos o Natal para nos humanizar. Humanizar é nosso maior trabalho e desafio como ser humano. Viver sozinho e só não vale a pena! Que o Natal tenha a força para nos inspirar para a vida que se faz sempre solidária.

Vídeo emocionante sobre o Natal.

Um curso de religiões de matriz africana: por muitos caminhos

Abordar as religiões de matriz em um curso de extensão significa
trazer para o território da universidade os sujeitos que constroem essas tradições religiosas. Nosso objetivo era valorizar os saberes tradicionais das religiões de matriz africana, desfazendo noções discriminatórias e racistas, a partir da troca de saberes entre as comunidades acadêmica, passo fundense e o povo de santo.

 

O final do ano se aproxima e é hora traçar as perspectivas para o próximo. Para isto, proliferam-se orientações ritualistas das mais diversas tradições religiosas para essa transição. Contudo, neste período nenhuma outra religião é mais lembrada que as de matriz africana.

Ialorixás e babalorixás são chamados para programas de televisão para previsões do ano, segundo o orixá regente do ano. Não são raras as vezes observar pessoas pulando as 7 ondas na praia. O que faz com que a relação com as religiões de matriz africana fique restrita somente a estes dias? Ou, em outras palavras, por que os rituais destas religiões não estão presentes em outros períodos do ano? Qualquer resposta à essa pergunta é complexa. Contudo, uma possível pode estar no racismo presente na sociedade brasileira.

No ano de 2016, pelo projeto de extensão UPF e Movimentos Sociais: desafio das relações étnico-raciais, coordenei o curso de extensão em saberes tradicionais: religiões de matriz africana. O curso foi ministrado por mim, pela Ialorixá Carmem Holanda (de uma tradição do candomblé), Baba Akinele (do batuque), com auxilio do Laboratório de Estudo das Crenças (LEC/PPGH) representado pela professora Gizele Zanotto e o estudante extensionista Jeferson Sabino e com o apoio das seguintes entidades: Associação Cultural das Mulheres Negras, Comissão de Direitos Humanos de Passo Fundo, Coordenadoria de Promoção da Igualdade Racial, Sociedade Beneficente e Cultural Ilê Asé Alafim Oba Aganjú Jetioká (Carazinho), Egbé Asé Akinele, Associações dos Remanescentes dos Quilombos da Arvinha e Mormaça (Sertão), IFSUL, Grupo Alforria/Confraria de São Miguel.

A Universidade, pelo seu methier acadêmico, com muros quase intransponíveis, estabelece uma relação de distanciamento com as religiões de matriz africana. Estas, em alguma medida, na maioria das vezes, são concebidas como objetos de nossos projetos acadêmicos. Mas, este não era nossa abordagem.

Abordar as religiões de matriz em um curso de extensão significa trazer para o território da universidade os sujeitos que constroem essas tradições religiosas. Nosso objetivo era valorizar os saberes tradicionais das religiões de matriz africana, desfazendo noções discriminatórias e racistas, a partir da troca de saberes entre as comunidades acadêmica, passo fundense e o povo de santo.

No curso de extensão compreendemos saberes tradicionais como aqueles construídos a partir de uma identidade própria, história partilhada, memória e um território, que lhes permite desenvolver relações próprias e diferenciadas com a natureza, tanto no plano simbólico quanto no campo das técnicas e modos de fazer e produzir, distintas daquelas existentes nas sociedades urbano-industriais (Cunha, 2007).

As religiões de matriz africana estão baseadas em saberes construídos a partir de tradições orais que ancestrais, orientados por valores simbólicos que fogem à lógica burocrático-racional. Cada ialorixá traz consigo o saber acumulado, através de experiências transmitidas do passado, durante o contato social do grupo – nas instituições familiares, religiosas, educativas.

Esses saberes tradicionais africanos tomaram conta da UPF, em dez encontros temáticos que contemplavam a diversidade das religiões de matriz africana, culinária e orixás, linguagens e atabaques, natureza e cura, intolerância religiosa, que culminaram na formatura. Contudo, alguns encontros foram realizados no ile Igbè Asè Akinele como forma de ir ao encontro dos territórios destas tradições. O curso tinha como participantes estudantes da UPF e professores da UPF e da rede pública de ensino, das áreas do direito, jornalismo, publicidade e propaganda, serviço social, educação, história, psicologia, que estavam dispostos a colocar as lentes da matriz africana. A sala de aula, como templo de produção do conhecimento, com folhas de árvore dispostas ao chão fora transformada simbolicamente num terreiro.

É importante que a universidade contribua, não na visibilidade destas religiões, mas na construção de uma outra perspectiva sobre elas. As religiões de matriz africana, em muitas vezes, na sociedade brasileira, são classificadas como categoria de acusação. Neste sentido, as universidades têm um papel fundamental ao combater concepções discriminatórias e racistas. Porém, este posicionamento não pode ficar somente no plano téorico, ele necessita ser publicizado.

A formatura do curso de saberes tradicionais foi um momento importante no qual a universidade reconheceu os saberes produzidos por essas tradições religiosas. São saberes orientados por parentescos entre pessoas e divindades que constróem vidas, por mãos calejadas, que no soar dos atabaques, informam uma orixalidade, por corpos, construidos ritualmente, que ao transgredir tempo e espaço, nos ressignificam no axó e que merecem respeito e reconhecimento.

Portanto, as religiões de matriz africana devem ocupar os espaços da sociedade. Eles podem nos ensinar a reestabelece nossos vínculos com a natureza, com os nossos ancestrais, com o nosso corpo. São saberes recheados de afeto, tão raros em nossa sociedade, que não podem ficar restritos ao final do ano de forma tão caricata.

Referências bibliográficas

CORREA, Norton Figueirado. O batuque do Rio Grande do Sul: antropologia de uma religião afro-rio-grandense. São Luis: Cultura e Arte, 2006.

CUNHA, Manuela Carneiro da. Relações e dissensões entre saberes tradicionais e saber científico. REVISTA USP, São Paulo, n.75, p. 76-84, setembro/novembro 2007, Disponivel em http://www.revistas.usp.br/revusp/article/view/13623/15441.

PRANDI, Reginaldo. O CANDOMBLÉ E O TEMPO Concepções de tempo, saber e autoridade da África para as religiões afro-brasileiras. RBCS Vol. 16 nº 47 outubro/2001. Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-69092001000300003.

Documentários

Atlântico Negro – Na Rota dos Orixás. Disponível aqui.

A Tradição do Bará do Mercado – Documentário Completo – Porto Alegre/RS. Disponível aqui.

 

Crédito foto: Ingra Costa e Silva
Autor: Frederico Santos dos Santos
Coordenador do Curso de Especialização em Ciências Sociais – 2ª Edição
Professor do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais
Universidade de Passo Fundo

Excesso entre partilha e conflito

Dinheiro também é importante, sem ele não teríamos atualmente nem o chimarrão, e muito menos talvez o cachorro. Sem contar na comida. Mas não deixe ele se tornar o centro e o fim de tudo. Na falta de comida, ainda conseguimos encontrar alguém que reparta a sua. No excesso de dinheiro, há mais partilha ou mais conflito?

 

Era uma tarde de dezembro. O sol estava forte, mas o vento trazia consigo uma brisa fresca. Acabara de comer uma fatia de melancia, deixada pelo namorido em cima da mesa da cozinha. Logo após, coloquei uma roupa velha para então começar a realizar os serviços que me esperavam.

Da sala ao banheiro vem em minha mente a imagem de meu namorido trajado em vestimentas de guerra, com armas em punho, pronto a sair de casa para algum combate, a princípio inexistente. Não pode haver sensação pior.

As notícias que haviam chegado pelo celular tinham proporcionado tal pensamento: “O exército brasileiro convocava reservistas em situação de disponibilidade”.

Acredito que o objetivo de tal convocação não tenha ligação nenhuma com o meu pensamento, contudo não pude deixar associá-las aos últimos acontecimentos internacionais, em que EUA e Coreia do Norte “provocam-se” simultaneamente em testes com bombas, entre outros.

A possibilidade de um confronto talvez, ou de uma simples troca de farpas, já poderia estar mobilizando os setores ligados a estes assuntos no Brasil. Mas acima disso, me fez lembrar os horrores do passado.

Filhos, Namorados, Irmãos, Tios, Primos, Maridos, tirados de suas casas e enviados a milhares de quilômetros de distância para lutar por algo que em algumas vezes nem sequer acreditavam ou então eram levados a acreditar.

Não estou assim redimindo o motivo da guerra contra os alemães na Segunda Guerra Mundial, porém analisando o que se fez com essa vitória no futuro, e de certa forma criticando os rumos tomados mundialmente em diversas questões, principalmente as do capital e de utilização dos resquícios de guerra.

Imaginar que não terei mais aquela fatia de melancia deixada em cima da mesa, ou então aquele beijo antes de partir para o trabalho, deixou-me preocupada. Ao mesmo tempo, penso em tantas outras pessoas que perderam essas sutilezas e os pequenos prazeres diários da vida, durante os mais diversos confrontos por esse mundo.

No nosso futuro é incabível que ainda tenhamos conflitos, e com a maior tranquilidade na utilização e demonstração do poderio bélico e militar dos países. É claro que há muitas disputas rolando em vários âmbitos, e acerca de muitos assuntos, porém não utilizar a conversa para resolvê-las parece-me insensato e de certa forma estúpida, em mundo que construiu e desenvolveu as mais variadas tecnologias.

Até mesmo no meio rural de muitas das regiões do nosso Brasil, que até os anos 2000 era chamado de atrasado, resolve-se os problemas na base do diálogo. É claro, onde se quer manter a dita ordem e um mero respeito a qualquer custo, ainda utilizam dos massacres, da escravidão, do preconceito, entre tantas outras formas de submissão da população a determinadas vontades e desejos.

Os muitos motivos que levaram as guerras anteriores, já foram praticamente perdoados, e discutidos nos tribunais de justiça de todo mundo. O que nos resta é refletir o que buscamos para a nossa sociedade nestas próximas décadas. Não somente refletir, mas conversar com o vizinho, o amigo, e cada um em sua singela residência colocar o que acredita em prática, sendo ele o bem ou o mal.

Espero que estejas a praticar o bem, e a querer o bem. Isso envolve aquele chimarrão no fim da tarde com os teus pais e filhos, naquela hora em que tiraste de tua cabeça o que não lhe deixa feliz, como ter que bater uma meta de produtividade para ter um dinheiro a mais no fim do mês.

Osvaldir e Carlos Magrão – Roda de Chimarrão

Que estejas levando teu cachorro passear e curtindo o sol se pôr entre as árvores, do que olhando e ouvindo as necessidades que o teu chefe te coloca, porque isso vai ser importante para a lucratividade da empresa.

Dinheiro também é importante, sem ele não teríamos atualmente nem o chimarrão, e muito menos talvez o cachorro. Sem contar na comida. Mas não deixe ele se tornar o centro e o fim de tudo. Na falta de comida, ainda conseguimos encontrar alguém que reparta a sua. No excesso de dinheiro, há mais partilha ou mais conflito?

Seja um agente de sua mudança. Inspire-se!

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