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Como a culpa é de quem ouve rádio?

O fato de ouvir as duas músicas sempre neste horário, é parte daquilo que conhecemos como “jabá”, que é justamente a cobrança de dinheiro para tocar as músicas citadas, entre outras, o que coloca a música tocada no rádio, em uma situação semelhante a propaganda do sabonete, do refrigerante ou do biscoito.

 

 

Nos dias em que viajo para uma cidade de interior, entre 18 e 19 horas, a emissora sintonizada pelo motorista da Topic, nunca deixa de tocar duas músicas que colam no ouvido como chiclete.

Uma delas, Como A Culpa É Minha? (Oi Nego), é interpretada por Devinho Novaes, jovem oriundo de um bairro da periferia de Aracaju, produzido por um empresário e político sergipano, cuja carreira cresceu em meio a combinação rentável e devastadora em termos culturais, de uma teia de interesse e negócios que envolvem concessões de rádios para deputados e senadores, obtidas em troca de apoio político ao governo federal de plantão, cobrança de dinheiro para que as emissoras de rádio de propriedade desses políticos.

Embora formalmente sejam uma concessão pública, tocam determinados cantores e bandas e o apoio dos patrões desses artistas as campanhas de prefeitos e governadores, em troca da exclusividade para a contratação das suas empresas nas festas das cidades, quando financiadas com dinheiro público e/ou quando contam com as estruturas de apoio das prefeituras e governos estaduais.

O fato de ouvir as duas músicas sempre neste horário, é parte daquilo que conhecemos como “jabá”, que é justamente a cobrança de dinheiro para tocar as músicas citadas, entre outras, o que coloca a música tocada no rádio, em uma situação semelhante a propaganda do sabonete, do refrigerante ou do biscoito.

Por essa razão, a maioria dos brasileiros, deixam de ter acesso a uma rica produção musical de artistas que não tem patrocinadores com capital suficiente para investir na divulgação de suas canções, ou que não querem se submeter a esquemas “cabulosos”, os quais contribuem para eleger cada vez mais, um tipo de político que está destruindo, inclusive culturalmente, as cidades, os estados e o nosso país, semelhante a uma praga de cupins ou de insetos.

Isso me faz lembrar uma situação que vivi na adolescência quando residi no Rio de Janeiro na década de 1970.

Devia ter por volta dos treze ou quatorze anos, quando fui abordado, junto com alguns colegas pelo repórter de uma emissora, o qual munido de uma prancheta com uma relação de canções, propunha que escolhêssemos uma delas para que fosse tocada. As mais pedidas fariam parte de uma sequência das mais, mais. Perguntei se não poderia escolher livremente, fora da lista, a informação que recebi foi negativa. Então fiz a escolha, mesmo que limitada. Naquela época, não fazia ideia da existência do tal “jabá”, a razão pela qual, umas canções faziam parte da lista e outras não.

Essa situação toda me faz lembrar as tentativas dos ricos brasileiros em querer a não participação de Lula na disputa eleitoral em 2018, nos oferecendo uma lista de escolha, mas sem a presença de uma das maiores lideranças políticas que essa país já teve, reconhecida como tal, também por outras grandes lideranças políticas de outros países.

Assim também é com a música brasileira, sem negar o valor sentimental e afetivo, atribuído por milhões de brasileiros  as  canções que tocam várias vezes durante dia e noite,  nas emissoras de rádio de grande audiência, é bom que saibamos que muitas outras canções ficam desconhecidas e sem essa oportunidade,  porque seus artistas não tem dinheiro ou mesmo que tenham algum, não querem fazer parte desse verdadeiro esquema de corrupção cultural que é o “jabá”, combinado com outras “sacanagens”, reiterando o que já afirmei acima.

A situação é semelhante aos motivos da prisão de Lula e da sua interdição como candidato a presidente em 2018, pois como afirmado por ele, se eleito pretende revogar todas as leis injustas e criminosas aprovadas pelo governo dos golpistas, assim também como finalmente, combater o monopólio dos meios de comunicação que impede termos acesso a diversidade do melhor que o Brasil produz em todas as artes, assim como os espaços democráticos para a noticia, afim de que possamos ouvir as diversas versões de um mesmo acontecimento.

Devinho Novaes – Como A Culpa É Minha? (Oi Nego)

 

A segunda canção:
Largado às traças (Zé Neto e Cristiano)

Sou Zezito de Oliveira. Nasci em São Cristóvão(SE), cidade patrimônio histórico da humanidade, título conquistado recentemente, localizada na região metropolitana de Aracaju. Durante a minha adolescência morei no Rio de Janeiro e lá obtive régua e compasso, lembrando uma canção do Gilberto Gil, para atuar no campo da mobilização social e cultural. Retornei à Sergipe, em meados da década de 1980 e desde então resido em Aracaju, envolvido com diversas iniciativas sociais e culturais. Sou graduado em História e pós graduado (especialista) em arte-educação e desde a adolescência estou sempre buscando conhecer fundamentos e novidades relativas a arte e a cultura, seja para deleite pessoal, como para contribuir nos processos de desenvolvimento humano e social. Isso me leva a pesquisar e estudar politicas e gestão cultural, arte-educação popular culturas juvenis, cultura digital, economia solidária da cultura, campos prioritários de estudo e formação extra-curricular, bem como viajar país afora. Atualmente, atuo como professor de história e artes, blogueiro e como produtor e assessor em iniciativas culturais de base comunitária. Coordeno o blog Ação Cultural.

 

 

Desnacionalização predatória, é não!

Os predadores internacionais só estão interessados em administrar e
lucrar com as riquezas das nações, entram por meio das empresas
e roubam os países coloniais, não estão interessados em humanidades
e evolução, é um mundo sem alma, sem humanidade protagonista.

 

É preciso falar sobre desnacionalização predatória imputada aos povos por predadores imperiais nacionais e internacionais em absoluto conluio para controlar e escravizar os povos. É preciso fazer critério de verdade sobre o que é internacionalizar conhecimento, cultura e humanidade entre os povos. Agir em prol do que é local, nacional, soberano para então conectar internacionalmente.

Se um povo perde sua soberania será escravo da internacionalização de cérebros e mão de obra sem pátria ou dignidade.

O modelo do Ciências Sem Fronteira é perfeito exemplo do que deve ser feito. Conexões internacionais entre os povos são um grande bem, desde que cada povo mantenha sua identidade pátria e soberania humana e tecnológica para desenvolvimento recíproco. Não é aceitável a desnacionalização promovida pelos predadores capitalistas que tentam fazer isso à custa do sofrimento e da soberania das nações.

Uma geopolítica canibal está fora do rumo que a humanidade está preparada para tomar. É preciso um basta ao imperialismo predador por parte de todas as nações que compõe o planeta terra. É tempo de soberania e internacionalização evolutiva. É tempo de humanizar o mundo no que o humano tem de melhor. A dinâmica do mundo está plenamente ativa para uma nova vivência, para uma nova humanidade.

Os predadores internacionais só estão interessados em administrar e lucrar com as riquezas das nações, entram por meio das empresas e roubam os países coloniais, não estão interessados em humanidades e evolução, é um mundo sem alma, sem humanidade protagonista.

Depende de nós defender ou entregar nosso país a essa força anti-humana que tem assolado o planeta. Depende de nós dizer não!

Em outro artigo publicado no site, Cristina Schnorr também afirma: “Se, persistimos e somos sérios, ao final vencemos e recolhemos o fogo como vitória humana e humanizada na inteligência da vida. Se, erramos e somos preguiçosos, todos os dias nosso fígado será destruído e precisará regenerar-se do princípio, de dor em dor, até humanizar-se no fogo dos deuses, a liberdade”.

 

Democracia, uma escolha civilizatória?

 

Maconha é planta, mas mata a alegria

Liberar? Proibir? Acabar com o crime liberando o crime?
Terminar com o roubo permitindo o roubo.
Cuidando da vida destruindo a vida?

 

Por muitos anos observei. Hesitei. Constatei. Perdi algumas noites de sono. Me emocionei. Fiquei sem saber o que fazer. Talvez em alguns momentos me tornei refém de meus pensamentos.

A vida me enchera de máscaras. De carapaça. Não. Confesso que não tem quem aguente. Calado. Não mais.  O lamento. O choro. De muitas mães. A preocupação de infinitos pais. “Cuide com quem ele anda e me avise.”

Lamento se alguém discordar do que falarei. Meu coração não é de pedra. Muito menos minha alma é dotada de tanto poder. Vou falar! Depois que recebo do nada uma mensagem de um ex-aluno me perguntando se eu tinha tempo. Disse que tinha. Ele me diz: tem bastante? Desabafa. As palavras não conseguem expressar tamanha ansiedade para contar. Eu estático. Apavorado.

Você não fala pra ninguém o que te digo. Se quiser pode falar. Pode compartilhar. Só esconde meu nome. Robledo confiou a mim algo, um grande segredo. Um desabafo guardado a “sete chaves”. As chaves não bastaram. As palavras furaram a porta. Arrebentaram a garganta. Explodiram o coração. Rompeu o silêncio.

Daí Laercio, tudo bem? Me diz uma coisa: tá muito ocupado agora? Precisava conversar contigo. Seguinte, não tá ocupado mesmo? Laércio, entrei numa ruim prá te falar…..  Meu erro no colégio: fui me perdendo nas atividades até que fiz cagada e me fudi, literalmente me fudi, assim, nunca tive problema de droga né?

Entrei, Laércio, na vida da maldita maconha. Quando parei de estudar, demorou um pouco pra mim entrar, mas no final as amizades puxaram….. fumei, curti pra crlho a sensação que ela dá. Mas daí eu, como sempre fui meio atordoado com essas merda, por causa da minha família e tals. Eu fui indo aos poucos…. até que no começo pensei que não ia me dar nada, sabe? Tava tudo tranquilo. Eu fui indo aos poucos….Até que no começo pensei que não ia me dar nada, sabe? Reparei que quando eu fumava uns beck no início, que nem eu te falei, era bomm, prestava mais atenção … mas daí percebi que não era bem assim quando eu tava fazendo as coisas chapado. Daí completou 4 meses de maconha e eu peguei e percebi que tava passando meus dias chapadão. Comprei até um boong. Daí assim, tudo certo, jogava uns basquete ainda…. mas meu treino de luta eu parei. Então foi passando uns tempos e, tipo, nunca mais me dava fome se eu não fumasse, já tava nessas. Eu parei de jogar basquete e só ia naquela maldita praça fumar maconha. Laércio, mas tipo só tava passando dias e dias. Eu ali perdendo 1 semana da minha vida, sempre gostei de ler livro, sabe? Antes eu lia um livro de 100 páginas em 1 hora, entendendo bem o livro. Percebi que essa merda só atrasou minha vida tipo foi 1 ano perdido, Laércio. Perdido mesmo. Só nessa merda que eu quis entrar ….. Hj em dia só quero voltar a estudar… um piá ativo, fui sempre assim.

Percebo que a fala do meu aluno, e de tantos outros que já ouvi, é um clamor. Dor da alma. Dor da vida. Perdida. Tempo que foge. Como água na palma da mão. Tempo que está onde o vento sopra. Tempo da juventude. Desespero que grita a ânsia do ser. Ninguém pode negar a sensação agradável. Boa. Ilusória. A droga.

A maconha afeta a psique, que no adolescente está em formação.

Mas o que leva tantos jovens a buscar esse recurso destrutível para suas vidas? Há várias hipóteses. Umas das razões é a fraqueza moral. A falta de coragem para enfrentar seus problemas. Ela dará coragem para efetivamente vencer esse problema e ingressar no mundo fantástico. Assim ela mexe com o psicológico e logo adiante vem a depressão. Grande causa de suicídio.

Todas as drogas dão sensação. Euforia. Falsas. Cada vez mais requer doses para alcançar esse efeito. Isso requer dinheiro. Mais dinheiro. Surge o crime para a satisfação da abstinência. A abstinência ninguém segura. Extremo.

Vida real. Sensação verdadeira do viver se foi. Abraçar alguém. Beijar quem gostamos. Encontrar com um familiar. Ouvir uma boa música. Isso é natural. A pessoa vira robô, não sente mais sensações naturais. O morto vivo se constitui. Como ser vegetativo.

Liberar? Proibir? Acabar com o crime liberando o crime? Terminar com o roubo permitindo o roubo. Cuidando da vida destruindo a vida? Julga-se que a droga está sendo o grande flagelo da humanidade.

Será que estamos vivenciando este milênio que devasta e ilude a vida de tantos jovens?

Se fosse só a destruição de um ser da família, não era tão agravante. O pior a família toda se destrói. Mundo sem saída. Vida morta.

Não se trata de criminalizar quem usa a maconha ou qualquer outro tipo de droga tóxica. Trata-se de refletir sobre como encaramos as drogas. Trata-se de pensar que mundo é este onde as drogas impõem-se como condição de felicidade. Irreal. Ilusória.

Maconha não vicia. É planta. É bem saudável. Falsa impressão de felicidade. Euforia. Diferente de alegria. Primeira necessidade. Segunda necessidade. Terceira necessidade. Não vicia.

Há quem diga que a maconha tem propriedades medicinais, mas no Brasil não há regulação e nem controle de nada disso. Eu prefiro ficar com a ideia de não incentivar e nem promover qualquer droga, também a maconha.

Desculpa. Sou da vida. Pra vida vim. A vida quero viver. Luto pra viver. Não para morrer. Tudo o que não promove a vida sou contra.

Crenças e certezas

Numa destas boas aulas de Ensino Religioso em uma turma do nono ano do Ensino Fundamental, os adolescentes “travavam” uma boa discussão. O tema: a importância das religiões na vida da gente. Posições se alternavam, mas o respeito à opinião e crença de cada um foi mantido sempre. Alguns defendiam o direito dos ateus, outros defendiam a importância de suas religiões. Uns sinalizavam que o caminho da salvação passa pelas igrejas, outros defendiam que também passa pela ética ou pela espiritualidade.

Essa nossa geração de adolescentes e jovens não é uma geração perdida, mas uma geração com muita “sede de buscas”.

Neste contexto de uma aula, uma opinião mais estruturada de uma aluna chamou atenção dos demais colegas da turma e do professor. Desafiada a escrever sobre o tema que expressara, a aluna Ana Beatriz Peres de Souza assim registrou em uma folha de caderno.

“Duas palavras com significados diferentes, mas que causam certas confusões por causa de pessoas que não sabem usá-las. Acho que isso acontece pelo simples fato de que elas se completam.

Se eu creio em algo, a probabilidade de eu querer encontrar a certeza, ou de que algum dia irei encontrá-la, é grande. Comparo essas palavras com expectativa e realidade, sendo a crença uma expectativa e a certeza uma realidade a ser alcançada.

Na religião, a crença é indispensável, pois religiosos acreditam em um Deus que ninguém pode ver, ou seja, ninguém tem a certeza de sua existência e nem pode dizer que tem, já que até mesmo dentro do próprio coração, há uma dúvida. Porém, se alguém pudesse nos dar uma resposta clara para tudo ou se Deus aparecesse para nós, não haveria fé e a religião poderia passar a ser uma ciência racional, pois tudo estaria provado e claro para todos.

Percebo que a igreja cristã surgiu da certeza da existência de Jesus e da crença de que ele seja o filho de Deus, ou seja, a crença e a certeza e a crença, neste caso, podem andar juntas em um só caminho ou direção.

Enfim, devemos aprender a usar estas duas simples palavras para que não haja contradição e que a pregação seja mais clara. Eu não tenho certeza de muitas coisas, mas creio que um dia ainda terei”.

 

Autora: Ana Beatriz Peres de Souza

Vale mais na escola: a avaliação ou o conhecimento?

A escola deveria responsabilizar-se por despertar prazer,
autoestima, pelos estudantes como seres em formação,
que estão carentes de reconhecimento.

 

Nas formações e palestras que realizo para professores na região do RS, tenho focado muito na discussão sobre avaliação e a construção das notas dos alunos.

Uma questão basilar nas minhas provocações é a ideia da média. Como um professor pode saber se o aluno que atinge 7,0 aprendeu mais que o aluno que atingiu 5.0? Sendo que na maioria das vezes esse professor não tem diagnóstico do nível de conhecimento do aluno no início do processo? Quem me garante que o aluno que chegou na média, não iniciou a disciplina com conhecimentos acumulados 6.0, e ao longo do semestre melhorou 1.0? A média pode esconder e deturpar MUITO o processo.

Nesta mesma linha, pergunto sempre:
– Levantem a mão os professores aqui presentes que são medianos em TODAS as áreas do conhecimento!

Normalmente ninguém se pronuncia, por reconhecer que existem áreas do conhecimento que não domina ou não tem nenhum prazer em estudar ou se aprofundar. Nessas oportunidades gosto de falar das minhas próprias limitações, reconhecendo que sinto que falo melhor do que escrevo, mas que isso deveria ser normal para qualquer pessoa (ou pelo menos na ampla maioria de pessoas).

Se reconhecemos isso, alguém consegue explicar o motivo de obrigarmos os alunos a serem medianos em todas as áreas do conhecimento? (e se não for na minha disciplina, defenderei sua reprovação, independente se ele tiver altas capacidades em outras áreas?).

Alguém me explica qual seria o motivo de avaliarmos os alunos por notas que comparam pessoas diferentes (constroem hierarquias entre os alunos), mas que essas mesmas avaliações não são capazes de avaliar o aluno individualmente dentro das próprias capacidades e limitações que o seu contexto social e cultural o permite ser? A nota deveria perder centralidade, e entrar a aprendizagem dos alunos.

Se não problematizarmos essas questões, a educação estará apenas selecionando e retendo alunos por critérios que a maioria dos professores não atende.

Precisamos que a escola se responsabilize por despertar prazer, autoestima, e se responsabilize pelos estudantes como seres em formação, que estão carentes de RECONHECIMENTO. Se o aluno não escreve bem, mas fala bem, precisamos reconhecer essa habilidade e permitir que ele desperte prazer na escrita, mas seja RECONHECIDO pela sua capacidade. JAMAIS reprovar o aluno por isso. A escola e a universidade DEVERIAM ser espaços de descoberta de talentos e NUNCA MAIS espaços de destruição de sonhos.

Espero que essas formações sejam menos “beija-flor apagando incêndio”, e se se transformem gradativamente em movimentos de modificação de práticas no sentido de “água morro abaixo”.

Educação ética: uma necessidade contemporânea

A virtude moral pode ser ensinada e a síntese de toda virtude
moral é fazer ao outro o que gostaria que o outro me fizesse.
Não ensinar e não aprender esse princípio de eticidade
pode ter alto custo, inclusive, monetariamente.

 

De que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro se vier perder sua alma? Essa interrogação, feita por Jesus, não deve ser estranha aos pais que amam seus filhos e aos professores que amam seus alunos. Ou será que os pais não mais se preocupam com a vida ética dos filhos? E, os professores, será que só se preocupam com as habilidades técnicas dos seus alunos? Duvido.

Os pais e os professores se preocupam com a vida ética sim, até mais do que com a vida bem-sucedida profissionalmente. Cuidado, não há contradição entre ser bem-sucedido eticamente e ser bom, virtuoso e honrado. E se tiver que optar entre as duas, não tenha dúvida, de nada vale ter tudo se vier a perder a alma, outro nome para a honra.

Uma vida honrada demora uma vida para ser construída e um instante para ser destruída. E não é só para políticos tradicionais e grandes empresários que vale essa regra. Vale para qualquer vivente, mas tem afetado, sobremaneira, os “famosos” da sociedade do espetáculo.

Uma vida digna e honrada, vivida no anonimato, tem muito menos chance de ser destruída, por razões óbvias e, a mais evidente, pelo reduzido arco de relações em que orbita. Ser “famoso” e importante é uma faca de dois gumes. Sobretudo se a fama for seu ofício e ganha pão.

Há algum tempo o jornalista William Wacck, um bem preparado âncora da maior empresa brasileira de comunicação, famoso e respeitado no meio, deixou escapar, em frente às câmaras, fora do ar, mas que algum tempo depois vazou na internet, uma frase racista do tipo: “só podia ser negro mesmo”. Conheceu o inferno, caiu na desgraça e foi demitido. A demissão lhe rendeu milhões. Mas de que vale ganhar mundos e fundos se vier a perder a honra? Sim, ser racista é ser antiético e, mesmo que não leve para a prisão, faz cair na desgraça aos olhos dos outros, que é a maior das prisões.

Mais recentemente, “famosos” youtubers e atores “globais” caíram na mesma desgraça de ordem ética, perdendo patrocinadores e deixando de participar em eventos, não por falta de habilidades técnicas, mas por falta de educação ética. Sim, ser ético vai muito além do não roubar e não matar e pode ser ensinado.

Comportamentos racistas, machistas, homofóbicos, xenófobos e especistas são sinais de atraso e perversão de ordem moral e má formação de caráter. Pais e professores necessitam ter isso em conta.

Isso coloca uma pergunta constrangedora para todas as famílias e para as escolas. Qual é o conceito de vida bem-sucedida que estamos ensinando para os filhos e estudantes?

Um racista e machista, que não é fruto do acaso, ele aprendeu ser, é tão corrompido como qualquer corrupto. A corrupção é todo ato de desvirtuação da natureza boa de algo, pervertendo-a e tornando-a má. E toda tentativa de rebaixamento do outro, como é o caso do racismo e machismo, é uma perversão de si. O racista é, tal como o ressentido, aquele que toma veneno esperando que o outro morra.

Sim, o racismo é um veneno moral para quem o pratica, diminuindo o sujeito quem ue tenta diminuir o outro. O inferior e o diminuído num ato antiético é o próprio sujeito da ação e não a vítima.

Em outras palavras, o antiético faz mal à saúde moral e mental de quem pratica. O sofrimento é duplo, portanto, de quem pratica e de quem sofre a prática.

Assim, já não basta dizer para os filhos que não devem roubar e matar. Há outras formas de comportamento ético que podem nos levar à condenação e à desgraça, mas que podem ser evitadas se elevarmos a exigência de ordem moral ao limite máximo que nos torna, minimamente, civilizados e nos mantém longe dos seguidores dos homens das cavernas que insistem em achar normal uma moral regressiva e bárbara.

Bárbaro não é aquele que está fora da minha cultura, que não fala a minha língua, que vem de fora, que é migrante e que não confessa as minhas crenças. Bárbaro é o que exclui o outro, o que diminui o outro, o que causa sofrimento ao outro. E o seu contrário, o civilizado e o ético, é aquele que se abre para a hospitalidade que é a medida da eticidade.

A virtude moral pode ser ensinada e a síntese de toda virtude moral é fazer ao outro o que gostaria que o outro me fizesse. Não ensinar e não aprender esse princípio de eticidade pode ter alto custo, inclusive, monetariamente.

Gilmar Zampieri tem agora também o seu blog, onde edita textos que são utilizados em suas aulas no ensino superior. Confira aqui.

A bailarina de Cecília Meireles e os desejos das crianças

 As crianças só realizarão seus sonhos na idade adulta
se desde cedo começarem a receber conhecimentos e incentivos
que sirvam para alicerçar as estradas das suas vidas num futuro próximo.

 

A bailarina
Cecília Meireles

Esta menina
tão pequenina
quer ser bailarina.
[…]
Mas depois esquece todas as danças,
e também quer dormir como as outras crianças.

Se perguntarmos a uma criança o que ela quer ser logo receberemos uma resposta. As crianças assim como os adultos têm sonhos, desejos, vontades. Ainda estão na fase do ser, ser isso ou aquilo, ser algo bonito, algo que impressione os adultos.

Apesar de tão pequeninas sabem bem falar dos seus desejos, sem levar em conta as dificuldades e obstáculos que sofrerão ao longo da vida para alcançarem essas vontades. Mas é desde a tenra idade que se constrói na criança uma vontade enorme de querer conquistar o mundo, salvar o planeta, proclamar a paz.

A bailarina de Cecília Meireles queria ser bailarina. E as nossas crianças o que querem ser? Será que sabemos? Algumas crianças mudam de ideia o tempo inteiro. Hoje querem ser bombeiros, médicos, enfermeiros, juízes, professores amanhã querem ser músicos, escritores, pintores.

É para que tenham sonhos que colocamos as nossas crianças nas escolas, que vigiamos os seus sonos nas madrugadas friorentas, que nos preocupamos com os seus desempenhos nas escolas. Só poderão realizar os seus sonhos na idade adulta se desde cedo começarem a receber conhecimentos e incentivos que sirvam para alicerçar as estradas das suas vidas num futuro próximo.

Quando uma criança diz querer ser alguma coisa, ficamos preocupados se é algo simples demais, pois como vivemos num mundo de ambições, concorrências e disputas achamos que as nossas crianças não estão num bom caminho querendo ser uma coisa tão simples. Trocamos a criança de escola, mudamos seus brinquedos, vigiamos seus amiguinhos, procuramos onde está o erro. Por essa razão vemos tantos adultos depressivos exercendo profissões que não foram escolhidas por eles, mas pelos pais.

Deixemos que as nossas crianças escolham o que querem ser, não nos preocupemos com o que dizem hoje, elas terão as suas próprias opiniões quando crescerem.

A preocupação que devemos ter com as crianças é a de uma formação virtuosa e zelosa para com o nosso próximo. Que as nossas crianças nunca se tornem egoístas, pior vício de uma pessoa.

Contudo, como toda criança que brinca de ser bombeiro o dia todo, que corre, pula, cai aqui e acolá, sobe em árvores, imagina voar em cavalos de cabos de vassoura… essa criança também quer dormir igual as outras na sua cama abraçada ao seu travesseiro ou ursinho de pelúcia. Ao final do dia brincou tanto de ser gente grande que à noite só quer descansar e esquece quem será amanhã para viver um novo sonho na madrugada.

Assim são as crianças ao nosso redor: elas querem apenas viver num mundo da imaginação, espelham-se em nós, geralmente desejam ser iguais aos pais, professores ou familiares, costumam imitar um desses.

Toda criança quer ser um herói da televisão, dos quadrinhos ou dos cinemas. Elas sentem que precisam ser boazinhas e ajudar as pessoas como fazem os seus heróis. Querem ter poderes sobrenaturais, poderes que não veem nos adultos e que não têm, mas gostariam de ter.

Assim como a menina que quer ser bailarina de Cecília Meireles, conheço muitas que gostariam de ser princesas, conheço meninos que gostariam de ser jogadores de futebol e tantos outros desejos de querer ser alguém nessa vida cheia de contradições e competições.

O melhor que fazemos é ensinar as nossas crianças o valor de uma competição, que elas sejam ensinadas a saber perder, a lutar pelos seus sonhos, mas nunca desanimarem diante das perdas.

Deixemos que as nossas crianças sejam tudo o que quiserem e que possam bailar no ar, feito a menina de Cecília Meireles, ou que elas queiram ser simplesmente grandes, como respondem muitas.

Roberto Cruz e a crença no poder da literatura

Os alunos têm que entender a importância de realmente ler,
porque se você lê, ninguém te faz de bobo,
porque você tem o conhecimento.

 

Desde o lançamento do seu 1º livro “Missão Fênix”, na Bienal de São Paulo, em 2016, o carazinhense Roberto Cruz tem se destacado nacionalmente pela sua escrita, que movimentou o nicho da ficção policial. O escritor, formado em geografia, divide o seu tempo entre o seu trabalho em uma transportadora, atualizações na página Conexão Geoclima, participação em palestras e feiras – e a criação de um novo livro! Nessa entrevista você vai conhecer mais sobre o trabalho do autor e sobre a sua relação com a literatura.

 

Como começou a sua relação com a leitura e a escrita?

Eu comecei com a leitura tardiamente. Eu sempre gosto de frisar isso, porque eu não era um leitor na minha infância e adolescência, eu me tornei um leitor ao entrar na fase adulta – e graças a Harry Potter!

“As escolas não oferecem o que a gente quer ler, elas têm uma listagem de livros que somos obrigados a ler e, às vezes, você não pega o gosto pela leitura, se não tem o exemplo de casa”.

A escola é muito focada na diretriz, por mais que hoje em dia, felizmente, isso venha mudando. Quando eu descobri o tipo de livro que eu gosto de ler, descobri que livros são muito bons (risos). Com relação a escrita, no colégio eu já escrevia peças de teatro e isso já era uma espécie de autoria. Eu tenho quatro livros prontos na minha carreira recente e, desses, somente um foi publicado, os outros três estão engavetados e vão permanecer assim (risos).

 

Como aconteceu a publicação desse seu primeiro livro?

A publicação é uma coisa muito engraçada, porque a gente escreve e quer ser publicado, queremos que as pessoas leiam, só que ao mesmo tempo vem o pânico de se aquilo vai ser aceito ou não. O ser humano tem medo do “não”, e isso é uma coisa que eu coloco sempre nas minhas palestras, que “o não você já tem”.

Eu já não tinha um livro publicado (risos), eu corria o risco de receber um sim. Mandei o livro para uma editora graças a alguns amigos meus que disseram que eu tinha que mandar. Fiz uma pesquisa e encontrei a Editora Novo Século, que tem um selo chamado “Talentos da Literatura Brasileira”. Esse selo é exatamente para pessoas como eu, que nunca tinham lançado um livro e que estão entrando agora no mercado nacional. No site dizia que poderia levar até 3 meses para receber uma resposta, então eu enviei o resumo da obra às 9h30 e desencanei. Ao meio-dia recebi um e-mail pedindo o original, pensei os três meses passariam a contar a partir daí, mas, no outro dia recebi o contrato da editora para assinar, eles iriam publicar o meu livro. A literatura recebeu um boom de novos autores, principalmente na literatura fantástica, mas atribuo essa rapidez na publicação ao nicho de leitura que o meu livro preencheu, que é o da ficção policial.

 

O lançamento desse seu primeiro livro aconteceu na bienal do livro em São Paulo, em 2016, esgotando todo o estoque de livros! Como foi essa experiência?

Surreal! Uma bienal é uma cidade que só respira literatura. Ter um estande para fazer o meu lançamento, com sessão de autógrafos, em uma bienal do livro foi surreal. E ter esgotado o estoque dele na bienal foi uma vitória a parte também. Na bienal do Rio de Janeiro, que eu fui no ano seguinte, também esgotei duas vezes o estoque dos livros, nos dois finais de semana!

É muito reconfortante saber que o livro está se vendendo, que as pessoas gostam e procuram. Há uns dias recebi um e-mail de uma professora de história que comprou o meu livro na Bienal, dizendo que o ela passou a usá-lo nas aulas do segundo ano do ensino médio, que estuda a Segunda Guerra Mundial. Ela propôs que os alunos lessem o livro para dizer o que é real ou ficção dentro da história. Isso não tem preço, é muito fantástico!

O Missão Fênix envolve temas como a 2ª Guerra Mundial, o atentado de 11 de setembro, espionagens e terrorismo… Como você chegou até essa história que mistura temas antigos e atuais?

Eu estava escrevendo um livro de fantasia antes de escrever Missão Fênix e aconteceu o acaso de eu estar assistindo televisão, no domingo a noite, e ver uma entrevista do Edward Snowden no Fantástico. Eu assisti e pensei que alguém poderia pegar uma história sobre esses temas de espionagem e fazer um livro sobre isso, eu adoraria ler essa história. Mas era para alguém escrever, não eu (risos). Terminei de ver a entrevista e troquei para o History Channel, em que estava passando um documentário sobre o terrorismo. Depois começou a passar outro sobre a 2ª Guerra mundial e pós-guerra. Eu assisti aquilo e fui dormir.

No outro dia acordei com a linha do livro na minha cabeça. Por mais que eu sentasse na frente do computador para escrever meu livro de fantasia, eu só tinha o Bernardo (protagonista de Missão Fênix) na minha cabeça. Pesquisei muito sobre a Segunda Guerra e usei muito do meu conhecimento sobre geografia. Foi um ano e meio de trabalho para chegar ao final do livro.

E agora você já está trabalhando em um novo livro! O que você pode nos contar sobre ele?

Esse segundo livro vai ter como base a Guerra Fria, porque eu me pego pensando que se a guerra fria acontecesse hoje o maior problema não seria a bomba atômica, mas sim a guerra biológica, então é esse o pano de fundo da história. A pesquisa está sendo muito maior porque biologia não é o meu forte (risos). O livro não é uma sequência, mas vai manter alguns personagens de Missão Fênix, como o protagonista Bernardo.

 

Você também tem sido convidado para dar muitas palestras em escolas da região. Como é essa experiência de contato com os jovens?

Acho muito importante essa participação nas escolas. Tenho duas palestras voltadas para literatura, outra sobre guerras, voltada para a 1ª e 2ª Guerra Mundial; e outras duas sobre geografia. Eu estou indo muito em escolas porque as escolas são o nosso futuro. No que depender de mim, no que eu puder ajudar, vou estar sempre ajudando! Os alunos precisam entender que é possível sair de uma escola pública e lançar um livro em uma bienal, por exemplo. Dá trabalho, é um caminho árduo, mas é possível. Eles têm que entender a importância de realmente ler, porque se você lê, ninguém te faz de bobo, porque você tem o conhecimento.

 

Agora Carazinho tem uma Academia de Letras! Você fez parte desse movimento de criação, como aconteceu?

Tudo começou com a Secretária Sandra Citolin (in memorian). Éramos amigos e toda vez que ela me encontrava dizia “Roberto, nós precisamos criar uma Academia em Carazinho, é uma vergonha Carazinho não ter uma academia ainda”. E ela falava isso para muitos escritores da cidade, mas ninguém tomava a frente para fazer. Até que o Lúcio e o Lorival, da Biblioteca Pública começaram esse movimento. Foi um processo longo e de muita discussão para chegarmos ao estatuto final da academia, mas agora ela já está em processo de legalização.

É de uma importância ímpar a criação da academia, porque a partir dela vamos conseguir talvez mobilizar a comunidade para uma feira do livro, eventos sobre literatura, palestras…

Esse passo dado é um ganho cultural muito grande para a cidade. Esperamos poder colaborar como entidade para que as pessoas aumentem o seu gosto pela leitura ou que ganhem esse gosto. Queremos colocar o povo dentro da Academia e colocar a Academia na rua para fomentar a leitura.

Entrevista originalmente publicada na Revista Contato Vip, mês de junho de 2018.

A Revista Contato VIP circula desde 1993 na região norte do Rio Grande do Sul, sediada em Carazinho, RS. Em 2014 foi iniciado um projeto expansão e hoje a revista circula também na região Noroeste e em Passo Fundo. Veja mais. 

 

Remédio para as “daninhas”

Os homens inventam coisas
que matam e que curam,
sem nenhum constrangimento,
porque agem em nome do progresso,
da ciência e dos lucros.

 

Certo dia, um senhor de 60 anos preparava-se para aplicar “secante” para controlar as ervas daninhas no quintal de sua propriedade. Estava sem equipamentos de proteção, dissolvendo o poderoso líquido com uma taquara, num latão de tinta, que havia sobrado na sua modesta e minifúndia propriedade.

Presenciando os riscos de tal situação, demonstrei a ele minha preocupação, interrogando-o sobre o que vira. Eis o que me disse, com a maior convicção: “professor, não tem problema, é puro remédio para matar as plantas. Daria até para beber, que nenhum mal me faria”.

Fiquei então a pensar na sua tão convicta afirmação. Meu pensamento e minhas percepções de mundo me indicaram que este senhor, e outros tantos, são iludidos a partir da semântica das palavras (imaginem quando um herbicida pode ser considerado um remédio!)

Tem gente preparada para inventar nomes, sobrenomes e propagandas sofisticadas, capazes de iludir gente humilde de nossa terra que planta. E tem gente que usa sofisticados meios para convencer quem compra os produtos que resultam desta engenhosa produção (de alimentos e de valores agregados).

Agrotóxicos e Saúde: esta edição do Sala de Convidados fala sobre agrotóxicos e os males que eles fazem à saúde. embora uma vasta gama de pesquisas científicas demonstrem o mal que os agrotóxicos fazem à saúde das pessoas que consomem os alimentos pulverizados com eles e à saúde dos trabalhadores do campo que aplicam os pesticidas, o Brasil ainda é um dos maiores consumidores mundiais desses produtos. E ainda há setores na sociedade que querem diminuir o controle sobre eles.

“Venenos ilegais contaminam o que você come”, estampa um jornal de grande circulação. Dos venenos legalizados o jornal não falou. Pagamos pela ilusão de produtos bonitos e saudáveis ao comprarmos verduras e frutas lindas e brilhantes, mas que escondem malefícios na sua cor, na sua textura e na sua aparência justamente pelo efeito de produtos tóxicos e, na maioria, nocivos à nossa saúde.

Os homens inventam coisas que matam e que curam, sem nenhum constrangimento, porque agem em nome do progresso e da ciência. Resta saber como cada um decide o que consumir saudavelmente. Quem morre ou quem se cura é sempre a gente. O problema é que não temos poder nenhum sobre a produção. Resta saber o que nos resta!

Pacote do veneno é aprovado em Comissão na Câmara dos Deputados. Projeto representa graves retrocessos à saúde e ao meio ambiente, ao afrouxar a atual Lei de Agrotóxicos; Idec e outras organizações são contrários a sua aprovação. Veja mais.

 

A prosa e o verbo: a cantilena do Estado mínimo

De acordo com os defensores da cantilena do Estado mínimo,
o Brasil não é capaz de gerir suas estatais.
Esta é a pseudo-tese utilizada pelos defensores da privatização
e multiplicada acriticamente na sociedade brasileira.

 

Por décadas [1930-1980], os setores-chaves da economia brasileira eram controlados pelo Estado.  Estes setores [siderurgia, telecomunicações, sistema financeiro, energético-petrolífero, segurança, transportes, logística…], são considerados estratégicos por qualquer nação e garantem sua soberania, autonomia e independência no mapa geopolítico internacional.

Algumas dessas empresas estatais que pertenciam ao Estado Brasileiro já foram privatizadas, sobretudo a partir dos anos 90: Companhia Siderúrgica Nacional; Usiminas, Embraer; Sistema Telebrás; Companhia Vale do Rio Doce; bancos estaduais, etc.         As remanescentes, que ainda não foram totalmente privatizadas, estão sempre na alça de mira dos defensores do Estado mínimo: Petrobras, Banco do Brasil, Hidrelétricas, Caixa Econômica Federal, BNDES, etc.

De acordo com os defensores da cantilena do Estado mínimo, o Brasil não é capaz de gerir suas estatais.  Esta é a pseudo-tese utilizada pelos defensores da privatização e multiplicada acriticamente na sociedade brasileira.

A privatização seria necessária para que o Estado consiga sanear suas contas e otimizar sua atuação.  Assim, poderia focar apenas nas áreas em que realmente sua presença é importante [saúde, segurança e educação], dizem eles.          

Os argumentos são sempre os mesmos, na maioria falsos ou, então, compostos de meias verdades.  De forma sintética, eles se resumem a um papagaiar sistemático de que todos os males do país residem na existência de estatais e o remédio é entregá-las à iniciativa privada.

No Brasil, a prosa utilizada pelos vendilhões do patrimônio público é bombardear com falácias mil contra nossas estatais, com o apoio incondicional da imprensa burguesa. Enquanto isso, o verbo utilizado por outros países é comprar com as suas estatais.  Parece contraditório? Não é.

Em outras palavras, no Brasil é pecado o Estado possuir estatais estratégicas que garantam sua soberania, porém em outros países não.  Ao contrário, além de assegurarem a propriedade do Estado em áreas estratégicas da sua economia, esses países estão espalhando seus tentáculos estatais nas áreas estratégicas de nossa economia.

Cabe aqui, no mínimo, uma reflexão crítica.  Privatizar realmente rendeu, rende ou renderá bons resultados para o nosso país? Ou o Estado brasileiro deveria manter o controle sobre áreas estratégicas da economia como serviços de água, energia elétrica, petróleo, mineração, siderurgia, tecnologia, sistema financeiro, comunicações, entre outros?

 

Invasão de estatais estrangeiras

Para assegurarem seus interesses geopolíticos estratégicos, os governos da Alemanha, França e Espanha acabam de fechar um acordo.  Eles adquiriram 52% do gigantesco grupo de armamentos European Aeronautic Defense Space Company [EADS].  Os três Estados controlam, direta e indiretamente, várias empresas prestadoras de serviços na área de defesa interna e externa, inclusive no nosso país, através da Cassidian Defesa e Segurança do Brasil Ltda.

No caso da Espanha, o Estado mantém sob seu controle a construção aeronáutica, naval, ferroviária e armamentos. É com essas empresas que a Espanha quer invadir o mercado brasileiro. O instrumento dessa operação é uma instituição chamada SEPI [Sociedade Estatal de Participações Industriais]. Com a SEPI, o Estado espanhol exerce sua tarefa permanente de controle nacional dos setores estratégicos da atividade econômica. No Brasil esse é um assunto tabu. Os defensores do Estado mínimo tem brotoejas só em pensar na possibilidade do país ter uma estatal como a SEPI.

No momento em que o governo FORA TEMER! anuncia a privatização da Eletrobrás, a estatal chinesa State Grid já está atuando no Brasil e, de olho no pré-sal, é sócia em 12 blocos no setor petrolífero. A maior companhia de energia do mundo, com 1,5 milhões de funcionários e faturamento de U$ 340 bilhões/ano, a State Grid desembarcou no país há seis anos.

Após uma série de aquisições, a State Grid tem hoje 7.000 km de linhas de transmissão em funcionamento e outros 6.600 em construção. Em junho deste ano a empresa anunciou a compra de 54% da participação do grupo Camargo Corrêa na CPFL, estatal privatizada em 1997 e que volta a ser estatal, só que agora chinesa!  Como é do interesse geo-político estratégico da China, seu governo financia, a baixo custo, o crédito para a State Grid expandir seus tentáculos. É quase certo que comprará também a participação dos demais controladores e assumirá 100% da CPFL a um custo estimado em 25 bilhões de reais.

O governo FORA TEMER!, tal qual um Nosferatu vassalo, está recolonizando a nação.  Recentemente, anunciou o projeto de privatizar 57 estatais, começando pela Eletrobrás, 18 aeroportos, rodovias e até a Casa da Moeda, o que já é, simbolicamente, uma atitude de país colonial.

Um país que até a sua própria moeda será produzida por multinacional demonstra publicamente a perda de sua soberania. A Eletrobrás, responsável, por 37% de toda geração de energia do país, pode ser entregue por R$ 20 bilhões.  A estatal fatura mais de R$ 60 bilhões ao ano. E a State Grid está com suas garras nela.   

Mas, essa entrega ou o dinheiro que entraria com esse literal negócio da China, diferente da mentira sempre contada de que seria usado para melhorar a saúde, a educação e outras lorotas, será entregue aos portadores dos títulos da dívida pública que são, em sua grande maioria, banqueiros e empresas multinacionais.

As consequências dessa política serão graves para as futuras gerações brasileiras. Temos o dever e a obrigação e, sobretudo a responsabilidade histórica com o devir histórico, de impedir, na luta, que ela se materialize.

 

E a montanha pariu um rato!

Mais de três décadas depois, o Reino Unido, que foi o carro chefe das privatizações nos anos 1980, sofre as consequências desta política desumana e de terra arrasada.  Uma pesquisa recente, realizada pelo jornal The Guardian [09/01], demonstra isso. A pesquisa apontou que os britânicos querem a volta do controle estatal de serviços essenciais.

Vejamos os dados:

  • 83% dos britânicos são a favor da nacionalização da água;
  • 77% a favor da nacionalização da eletricidade e gás;
  • 76% a favor da nacionalização das linhas férreas.

A propaganda pró-privatizações era insistente e exaustivamente repetida.  Prometia o paraíso na Terra e a privatização entregou o aumento da miserabilidade social.  A montanha pariu um rato!  Este é o resultado do chamado “Estado mínimo”. É o que afirma o pesquisador Will Hutton, diretor do Hertford College, em Oxford, e presidente do Big Innovation Center, pode-se dizer que os ingleses estão a se dar conta de que fizeram a escolha errada ao optarem pela privatização.

“Transferir os ativos públicos da Grã-Bretanha para a propriedade privada e confiar apenas na regulação para garantir que eles fossem gerenciados para oferecer um interesse público mais amplo foi sempre uma aposta arriscada. E essa aposta não valeu a pena”, afirmou Hutton. 

No artigo em que expôs os resultados da pesquisa, Hutton explica que não são apenas os números das pesquisas que representam uma queda geral da confiança nos serviços privatizados, mas há uma visão generalizada de que os exigentes objetivos de lucro anularam as obrigações de serviço público.

Devido ao caos instalado no Reino Unido pelas privatizações iniciadas nos anos 80, sob o comando de Margaret Thatcher e sequenciada pelos seus sucessores, o governo britânico estuda a criação de uma Empresa de Benefício Público [PBC]. O objetivo de uma empresa de água seria entregar a melhor água à população, o mais barato possível e não o lucro aos acionistas.  O próximo passo seria ter uma base de fundação da PBC em cada empresa privatizada como condição de sua licença para operar, fiscalizando e exigindo o cumprimento do acordado com o governo.

A participação da fundação daria ao governo o direito de nomear administradores cujo papel seria verificar se os objetivos de interesse público do PBC estariam sendo cumpridos como prometido. Isso incluiria assegurar que os consumidores, os interesses sociais e o interesse público viessem primeiro lugar. O modelo privatista implantado na Inglaterra é o mesmo modelo iniciado e implementado pelos antecessores do corrupto governo Temer e sequenciado pelo mesmo.

As grandes corporações transacionais dominam a economia brasileira.   Vejamos como está distribuído este domínio do capital privado por setores da economia: Montadoras [100%]; Eletroeletrônicos [92%]; Autopeças [75%]; Telecomunicações [74%]; Farmacêutico [68%]; Indústria Digital [60%]; Bens de capital [57%]; Bens de consumo [55%]; Siderurgia e Metalurgia [50%]; Petroquímica [47%]. No sistema financeiro, o Banco Itaú tem 40% de suas ações controladas pelo capital privado estrangeiro e o Bradesco 25%. O Banco do Brasil vendeu 30% das suas ações a investidores privados em 2009.

O controle dos principais ramos produtivos da nossa economia encontra-se nas mãos da iniciativa privada que comprovadamente não presta o melhor serviço aos cidadãos, pois seu objetivo é simplesmente o lucro. A PBC inglesa comprova, na prática, a urgência da reestatização das empresas públicas que foram privatizadas em todas as nações.

Urge a necessidade da defesa das empresas públicas brasileiras remanescentes [BB, CEF, Petrobras, Embraer, Eletrobras…] e exigir a reestatização das empresas públicas privatizadas no Brasil com o fim de evitar o caos social já instalado na Inglaterra. Só conseguiremos isso com organização, mobilização e luta!

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