O jogo contra a Escócia parece ter despertado uma alma que há tempos não era invocada. A essência do futebol brasileiro estava, sem dúvidas, incorporada naquele time.
“A Copa deveria acontecer logo depois das eleições”, me disse uma amiga outro dia desses. O motivo? Só assim para o Brasil se unir de novo.
E ela tem razão. É preciso um pretexto forte para nos lembrar de quem somos nação.
“Vi um anjo no mármore e esculpi até libertá-lo”.
Inspirado nas ideias de Platão, para Michelangelo a forma ideal já existia na mente de Deus e estava, de certo modo, refletida ou aprisionada dentro da matéria. O trabalho do escultor era um ato quase espiritual de quebrar a “prisão de pedra” para trazer a alma, a essência da figura, para fora.
E, acredite você ou não, um técnico da seleção brasileira deve ser, antes de tudo, um escultor. Porque o futebol brasileiro é arte. Uma arte que precisa dos elementos certos para se manifestar. Na Grécia Antiga, esses elementos essenciais eram três:
- Proporção: quando nada falta e nada sobra.
- Beleza: quando os pés esquecem o peso e passam a brincar com a bola.
- Harmonia: quando o Brasil inteiro joga junto.
Um bom escultor tem a consciência de que não é um braço ou uma perna isolada que faz uma obra de arte; é o todo. E isso fica claro na resposta unânime do Mister em toda entrevista em que um repórter insiste em eleger o “diamante da temporada”.
O Brasil tem disso: o nosso imaginário cultural ainda espera pelo Salvador. O Neymar ocupa esse lugar para muitos, o futebol e o político também. Mas, sinceramente, e sabe-se lá se foi fruto do acaso ou de uma escolha técnica, o fato de o “Menino Ney” não ter jogado até então fortaleceu a unidade da equipe.
Quando não há um messias em campo, os outros são obrigados a crescer. Assim, a gente deixa de esperar “Jesus chegar” para fazer alguma coisa e assume a própria responsabilidade. Para Kant, isso se chamaria maioridade.
É também tarefa do escultor intuir o lugar exato de cada elemento. Alisson no ataque e Vini Júnior no gol seria o fim já no início! Existe uma inteligência na composição: cada parte encontra sentido não isoladamente, mas em relação ao todo.
Para os gregos antigos, a arte possuía algo de espiritual. O verdadeiro escultor não era apenas aquele que moldava a matéria, mas aquele capaz de despertar o melhor da humanidade através da sua obra.
Talvez seja isso que sentimos diante de um time que realmente funcione: algo maior do que onze jogadores correndo atrás de uma bola. Há um sentimento raro de pertencimento, de integração, de reconhecimento.
Porque, no fundo, a seleção é um espelho. E quando ela joga como arte, revela também algo sobre nós: um povo criativo, que improvisa na falta, ginga na adversidade, persiste depois dos tombos e que, apesar de tudo, ainda encontra razões para sorrir.
Se conseguíssemos canalizar esse mesmo espírito de união e maturidade para a nossa política… já imaginou até onde poderíamos chegar?
Autora: Ana P. Scheffer. Também escreveu e publicou no site “Pé direito e pé esquerdo e o andar do Brasil”: www.neipies.com/pe-direito-pe-esquerdo-e-o-andar-do-brasil/
Edição: A. R.










