É hora de virar a página

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O enfraquecimento da leitura no Brasil não pode ser tratado como falha individual; para ela, a questão é estrutural. “Não se muda a realidade só com campanhas de incentivo à leitura. São necessárias estratégias governamentais que garantam condições de acesso ao livro e à leitura”.

Márcio acorda todos os dias por volta das 7 horas. Após despertar no banho, toma café e vai até o ponto de ônibus. Depois de um trajeto de cerca de 20 minutos, chega no trabalho. Às 18h, bate o último ponto do dia. 20 minutos de condução, chega em casa, exausto. Encerradas as tarefas domésticas, deita em seu sofá e passa horas rolando a tela do TikTok e do Instagram. Dorme e acorda para um novo dia.

Essa não é somente a história de Márcio, personagem fictício criado para esta matéria, mas de milhões de outros brasileiros das mais variadas idades. Após um dia de trabalho, o único alívio encontrado é sentar-se ou deitar-se confortavelmente enquanto rola o feed.

E essa realidade se torna preocupante: uma pesquisa feita pela consultoria Consumer Pulse revelou que os brasileiros passam, em média, mais de 9 horas por dia navegando na internet. Desse tempo, mais de 3 horas são dedicadas às redes sociais. Esse dado coloca o Brasil acima da média mundial, que é de 6 horas e 38 minutos.

Enquanto o celular ocupa horas do dia, a leitura de um livro acaba ficando para depois. Ao mesmo tempo que as redes sociais servem de escape nas brechas da rotina — dentro do transporte, intervalo do almoço, cansaço antes de dormir — ler requer um investimento contínuo de atenção, incompatível com a agenda de tarefas.

Ler é mais do que decodificar palavras

A discussão sobre leitura vai além da simples ideia de “incentivar o hábito”. Para a professora e pesquisadora da área de Letras da Universidade de Passo Fundo, Dra. Fabiane Verardi, a literatura precisa ser entendida como um direito formativo. “A literatura é um direito básico, tão essencial para a formação humana quanto a saúde ou a alimentação”, afirma. “O uso intenso do celular como forma de entretenimento está relacionado às condições de vida de grande parte da população brasileira. Quando o orçamento é apertado e o cansaço é constante, o celular aparece como opção barata e imediata. Tendo em vista o valor elevado dos livros no Brasil, estes itens passam a ser vistos como algo supérfluo, até inacessível”, critica Fabiane.

“A literatura é um direito básico, tão essencial para a formação humana quanto a saúde ou a alimentação”.

Não é “reaprender” a ler, mas desacelerar

Em meio a rotina hiperestimulada pelas redes sociais, fala-se com frequência que as pessoas “desaprenderam” a ler, mas a professora prefere outro caminho. “Não se trata de impor o livro como oposição às telas, mas de mostrar que existem diferentes modos de atenção”, diz a professora.

Para ela, o desafio é recriar condições para que a leitura profunda volte a acontecer, o que envolve desacelerar práticas escolares, diminuir a fragmentação excessiva das atividades e valorizar o tempo de encontro com o texto. “Crianças e jovens que crescem imersos nas telas desenvolvem uma relação com a informação marcada pela rapidez, fragmentação e alternância de estímulos, e isso impacta a formação do hábito da leitura”, comenta.

A falha na literatura é um problema estrutural


Apesar disso, a especialista alerta que o enfraquecimento da leitura no Brasil não pode ser tratado como falha individual; para ela, a questão é estrutural. “Não se muda a realidade só com campanhas de incentivo à leitura. São necessárias estratégias governamentais que garantam condições de acesso ao livro e à leitura. Muitas escolas convivem com bibliotecas precarizadas. Elas precisam ser fortalecidas, além de atualizar os acervos e formar mediadores e bibliotecários. Outra estratégia também é criar políticas de isenção ou redução de impostos sobre livros, tornando-os mais acessíveis”, aponta.

Ela também chama atenção para o avanço de discursos de censura. “Existe hoje um fenômeno de discursos de desconfiança com a literatura, como se determinados livros pudessem ‘modelar’ ou ameaçar crianças e jovens. A literatura não impõe modos de ser, mas amplia horizontes de compreensão do mundo e do outro. Censurar livros é negar o direito à leitura como direito cultural”, salienta Fabiane.

Para Fabiane Verardi, a escola ainda é o principal espaço de formação de leitores, especialmente em um país marcado por desigualdades sociais. Para muitas crianças e jovens, é o único local onde o livro circula. No entanto, a questão central é o lugar que a literatura ocupa no projeto educacional do país.

“A leitura literária é tratada como atividade acessória, subordinada a demandas avaliativas, revelando uma concepção empobrecida de formação, voltada ao desempenho e não à constituição do sujeito”, comenta. 

As redes sociais também podem ter um papel positivo, funcionando como porta de entrada. Perfis, clubes de leitura e projetos literários ajudam a aproximar o livro do cotidiano, mas não substituem a experiência de leitura prolongada.

“Há perfis, projetos e comunidades que usam as redes para falar de leitura com profundidade, indicar obras, promover clubes de leitura. As redes sociais podem atuar como aliadas secundárias, desde que estejam a serviço de uma concepção de leitura que valorize a experiência literária em sua integralidade”, ressalta ela.

Segundo ela, a escola deve aproximar as famílias para ampliar a literatura dentro de casa, junto às crianças e jovens. “Família, bibliotecas públicas, centros culturais, projetos comunitários e coletivos de leitura podem e devem ampliar as experiências leitoras, oferecendo outros modos de encontro com o livro e com a literatura. A perda do hábito de leitura não pode ser dissociada de escolhas políticas, pois ela é resultado de um projeto que ora negligencia, ora controla a literatura, em vez de reconhecê-la como bem público. A leitura se constrói quando há continuidade, presença e sentido”, resume.

“Investir em bibliotecas vivas, garantir a presença estruturante da literatura no currículo, formar mediadores e afirmar, de forma inequívoca, que ler não é privilégio nem ameaça, mas condição para uma educação democrática e humanizadora”.

Literatura que iniciou na infância e continua na graduação

Entre os exemplos de quem mantém o vínculo com os livros está a estudante de Jornalismo da UPF Ana Paula Comin. No 5° nível do curso, Ana começou a ler ainda na infância. “Meu interesse começou com os gibis da Turma da Mônica e chegou à série Goosebumps”, comenta Ana. Hoje, ela prefere suspenses e thriller psicológico.

Para Ana, a leitura é uma forma de se distanciar das telas. “Ela amplia o vocabulário, melhora a escrita e estimula o nosso pensamento crítico”, enfatiza.

Fã de Raphael Montes, ela diz que a Universidade também amplia horizontes: “Com textos mais críticos e novas formas de interpretação, as leituras da graduação me tiram da zona de conforto e expandem meu repertório”, finaliza Ana.

Créditos: Luís Henrique de Melo/ Assessoria de Imprensa UPF

Legenda: Bibliotecas de acesso público como a da UPF oferecem mais de 290 mil exemplares de livros à comunidade

Edição: A. R.

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