A cretinice digital e uma nova indiferença a caminho

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“Faça-os ler! Para não criar cretinos digitais “¹

Passeando pelas ofertas de livros na ‘Amazon’, chamou minha atenção uma frase que deveria estar exposta nas portas de todas as bibliotecas:

“Ler por prazer é um importante antídoto contra o surgimento do cretino digital.”²  Foi então que lembrei de algo incômodo…

Muito se apontou sobre o mecanismo do ‘waths,’ que virou mania nacional, onde aparece o sinal, na forma de dois pequenos riscos azuis, identificando uma mensagem lida.  Para a segurança de quem envia e na expectativa de receber o seu retorno, a sinalização remete à transparência; como em qualquer diálogo.

Mas há o recurso inverso, no qual o assinante pode desativar, e, quem recebe, não quer que você saiba que recebeu ou leu a sua mensagem.  Quando enviada a você, que possui as notificações ativas, ele sabe que foi lida.  Mas, a que você enviou, não deseja que você a dê como lida. Nossa!  É um paradoxo na ditadura das novas relações. _ As minhas coisas eu as trato como entendo tratar. As suas, vire-se!

Seria mais ou menos como você dar um bom dia para o seu vizinho e aguardar pela sua decisão em responder; pelo mesmo bom dia. Você o cumprimenta, mas ele tem o direito de ficar pensando o dia todo se irá responder.

Pode ser que nem responda, aliás.

_ É o bordão viciado e banal que se ouve o tempo todo:  estava na correria!

A nova realidade é assim, neste mundo de controvérsias intermináveis: lê mensagens quem quer, responde se quiser.  Está em curso, então, uma nova indiferença, agora escondida sob o manto azul das telas, que protegem em uma mesma medida: engajados e cretinos!

_ Por que deveria responder se o palco está escuro?

O que era para ser a maior e mais impactante rede de conhecimento universal, jamais imaginada, com acesso ilimitado e gratuito de informações infinitas, sim, o que nos elevaria como humanidade, despertou a antessala de uma estupidez padronizada: a percepção vale mais do que o fato, o tempo de cada um vale mais que o tempo do outro e, pela disputa por atenção, dane-se quem está na espera.

Por um milhão de Barsas, quanto foi dito até agora, que somente a leitura e o seu decorrente despertar pode dissipar a escuridão que nos envolve?

Mas, não se discute muito sobre o impacto da leitura fluida e prazerosa enquanto reserva na empatia dos leitores. Será preciso investigar mais. Uma história, qualquer delas, tem o poder de nos transportar em seis veios e de nos fazer sentir e viver em todas as suas linhas. O que dirá um conto infantil…

A empatia, que sempre nos salva de um dia impossível, nasce da capacidade que podemos olhar outros papéis senão somente os nossos, e, de forma quase absoluta, sentir e viver o outro em seu personagem:  no seu êxtase ou no seu abandono.

Não são vídeos, palestras, filmes, teatro… Ajudam, mas não completam a viagem. Somente na leitura e pela sua fruição, por exemplo, é que uma criança poderá entrar na cidade dos sonhos, salvar a sua amiga de um dragão ante a iminência de um fim de mundo.  Ali, neste capítulo, onde se trocam papeis fantasiosos de amizades secretas, pode nascer o desejo de mudar sua vida; o que não deixa de ser uma resposta.

A partir do mundo digital, vê-se nascer, ao contrário, filósofos de poucas frases, recortes de narrativas incompletas, onde se sabe somente o que foi permitido mostrar e saber.  Sem continuidade, sem amplitude, surgem então, os novos sociólogos das respostas enlatadas, dos chavões e slogans, das conclusões que resultam de capítulos mal lidos. E de comportamentos alienados, claro!

A resistência se dará no resgate da leitura! Anotem!  Sem pressa, a leitura genuína irá deslocar as máscaras de quem acha que o estudo levado a sério, o debate e a crítica, como ferramentas científicas, estão ultrapassados.

_ Faça-os ler!  Conforme o autor Miguel Desmurget nos adverte. Mas eu acrescentaria… _Faça-os sentir.  Pois não há leitor que resista à empatia, quando já navega no interior do seu conto.

Não que as redes e seus tentáculos formam, com originalidade incomum, novos tipos de pessoas, desonestos ‘on line’, com retornos que não chegam, respostas nunca dadas ao seu tempo…  Há vigarice, dentro e fora da redoma digital. Mas agora ampliou, dilatou e expandiu os cretinos sem leitura, com influência o bastante para tisnar mentes ainda em formação ou consciências dispersas; as que transitam nas dobras da ignorância coletiva.

Despertar, dói.

Um bom leitor, jamais fica no limbo de uma ausência. Porque resposta atrasada é um conceito. O ato de ler e se informar já se constitui em um retorno e o silêncio, pode ser um grito com muitos significados.

Afinal, quem não dispõe a você 7 segundos para responder sua mensagem, mesmo que seja -depois eu ligo- já o deixou nas sombras das gavetas sem prioridade.

Enquanto aguarda por alguém, no qual você não sabe se já leu a sua mensagem, porque ele não quer que você saiba, faça o seguinte: ligue para a sua tia.  Aquela tia querida que você nunca tem tempo em atendê-la e que responderia a você na hora.  Quantos assuntos não teria para contar? Retorne ao seu Pedro, o taxista da esquina, que há muito fazia corridas para você e sempre tentou arrumar um assunto qualquer, que na sua correria das horas, nunca foi possível ouvi-lo.

Prove, com saudades, dos sabores das respostas rápidas, dos que sempre tiveram você disponível em sua agenda e dos que não se escondem atrás das telas.

A empatia começa no espaço analógico.

Ainda não li os dois livros de Michel Desmurget, ‘A fábrica de cretinos digitais’, e sequer o ‘Faça-os ler’.  Não sei o que estou esperando!  Mas estão na fila.  É que estou paralisado diante de ‘Vésperas’, da catarinense Adriana Lunardi e não sei se li algo tão maravilhoso neste último ano.

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Somente a leitura nos ensinará a nadar contra a maré, novamente!

Referências:

  1. Faça-os ler! Para não criar cretinos digitais. Miguel Desmurget. (Vestígio)
  2. Ler por prazer… idem, Miguel Desmurget.

Autor: Nelceu A, Zanatta. Também escreveu e publicou no site “O santo Mel de cada dia”: www.neipies.com/o-santo-mel-de-cada-dia/

Edição: A. R.

1 COMENTÁRIO

  1. A resistência se dará no resgate da leitura! Anotem! Sem pressa, a leitura genuína irá deslocar as máscaras de quem acha que o estudo levado a sério, o debate e a crítica, como ferramentas científicas, estão ultrapassados.
    (Nelceu A. Zanatta)

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