Um ano a mais ou um ano a menos?

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A cada aniversário que completamos, vamos acumulando novas fases, e não substituindo uma por outra. Assim, é possível que continuemos mantendo as fases anteriores vivas dentro de nós, de forma que a criança, o adolescente e o adulto jovem que fomos um dia poderão ter suas qualidades reeditadas em determinados momentos e, por vezes, poderão até mesmo dialogar.

Adoro conhecer a etimologia das palavras. A gente sempre descobre que, lá atrás, muitas delas tinham um significado mais interessante que o usual. Nesta semana, descobri que a palavra aniversário significa “o que volta todos os anos” e parei para refletir. Mas, afinal, o que será que volta? Estou ciente de que não é o tempo…

O antropólogo Luiz Marins, ao sugerir que observemos o pêndulo do relógio, pergunta: ele vai e volta ou ele vai para um lado e vai para o outro? Até eu terminar de escrever esta crônica, espero que surja alguma possível resposta, mesmo que provisória.

Impossível não lembrar aqui do que escreveu Roberto Pompeu de Toledo: “Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. […] entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez.”

Esta frase, erroneamente atribuída a Carlos Drummond de Andrade, pode justificar a vantagem de fazermos aniversário.

No sentido que o autor coloca, ao desejarmos feliz aniversário para alguém, na verdade, estaríamos desejando um “feliz você novo”.

Martha Medeiros propõe essa ideia, destacando que, por mais que na nova idade tudo pareça igualzinho, podemos renovar nossos pensamentos e acreditar que a nova idade será palco do melhor ano da nossa vida, até porque será o ano que estaremos vivendo. Assim, todas as idades e fases da vida que estivermos vivendo podem ser as melhores (ou não).

A cada aniversário que completamos, vamos acumulando novas fases, e não substituindo uma por outra. Assim, é possível que continuemos mantendo as fases anteriores vivas dentro de nós, de forma que a criança, o adolescente e o adulto jovem que fomos um dia poderão ter suas qualidades reeditadas em determinados momentos e, por vezes, poderão até mesmo dialogar.

O que será que a Marilise de oito anos diria para a Marilise de hoje? E, se pudéssemos prever, o que será que a Marilise de cem anos diria para a Marilise de quase cinquenta? Ah, eu aprenderia muito se pudesse ouvir essas conversas.

Voltando ao pêndulo do relógio, decidi pensar que ele só vai. Vai para um lado e vai para o outro, da mesma forma que sempre ando em sentido único: para frente. O que volta todo ano, conforme diz a etimologia da palavra aniversário, é somente o nome e o número do mês e do dia, mas não o do ano.

E o que são os anos?

Será que deveríamos mensurar nossa idade em anos? Faço aniversário no mês de maio, mas, quando alguém, no início do ano, me pergunta quantos anos eu tenho, já respondo com a idade nova. Se for para arredondar, prefiro os números maiores, pois assim pensam que estou mais “conservada”. E só isso já seria motivo suficiente para comemoração.

Mas podemos, também, escapar da comemoração, escondendo essa data ou viajando, por exemplo. Mas não podemos nos esconder do nosso aniversário…

Então, é melhor comemorar, nem que seja como uma desculpa para reunirmos a família e os amigos, comer bolo, apagar as velas enquanto fazemos pedidos e receber presentes.

Segundo algumas tradições, isso tudo não é só para diversão e entrosamento. Para os gregos, o bolo simbolizava a lua, que era a forma de Ártemis, deusa da caça, se manifestar, iluminando as noites. Já as velas, na crença popular, são dotadas de magia especial para atender pedidos. Para completar, os presentes e uma refeição melhorada funcionavam como proteção ao aniversariante, pois ajudavam a invocar os espíritos bons.

Se isso tudo for verdade, quero fazer como na Rússia, onde muitos comemoram a data do aniversário duas vezes por ano. A justificativa para isso é que, se a pessoa tem nome de santo, deve comemorar o dia do seu nascimento e também o dia do seu santo padroeiro.

Mas o melhor de tudo não seria repetir o bolo, as velas e os presentes, mas, sim, ser acordada novamente, ao amanhecer, ao som da voz dos meus pais e irmãos cantando: “Marizinha, queridinha, Marizinha, queridinha…” Claro que não poderiam faltar os beijos, as afofadas, o presente, o cartão e o café na cama. Obrigada, vida, por eu poder repetir isso, hoje, com o meu marido e os meus filhos.

Por fim, para que possamos sempre ter motivos para comemorar, precisamos realizar projetos de curto, médio e longo prazo, praticar atividades físicas e comer pouco. Simples assim. Estudiosos chegam a afirmar que, ao incorporarmos essas “normas” à nossa vida, poderemos até ficar mais jovens à medida que envelhecemos.

Vamos, então, renovar os contratos com nós mesmos, fazendo com que tenhamos sempre mais coisas para agradecer do que para pedir. Sempre mais para comemorar do que para lamentar.

Mas, afinal? Ao completarmos mais um ano de vida, devemos contabilizar um ano a mais ou, na realidade, estamos diminuindo um ano da nossa expectativa de vida? A resposta a essa pergunta dependerá do nosso ponto de vista: se está focado no passado ou no futuro.

Para Wilber, um dos meus pensadores preferidos, “todo o tempo é agora”. Disso se segue que o passado e o futuro são ilusões, e que a única realidade é a realidade presente. E que “presente” pode ser esse Presente…

Fotos: arquivo pessoal

Autora: Marilise Brockstedt Lech. Psicóloga Educacional. Cadeira 39 da Academia Passo-Fundense de Letras. Autora da Crônica “Onde mora a felicidade”: www.neipies.com/onde-mora-a-felicidade/

Edição: A. R.

1 COMENTÁRIO

  1. A autora Marilise Brockstedt Lech sempre nos surpreendendo com suas peculiares e ricas reflexões. Obrigado pela confiança no trabalho da gente.

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