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O rádio

O rádio é um mundo. Sempre que eu penso rádio, penso em rádio AM. Ali a vida vibrava.

Dia 13 de fevereiro foi dia Mundial do rádio, dia de nostalgias. Mais sobre: https://www.unesco.org/pt/days/world-radio

Sempre que eu penso rádio, penso em rádio AM. Ali a vida vibrava. Notícias, futebol, programas ao vivo com comunicadores capazes de levar uma tarde inteira nas costas, ou uma manhã. Programas com ouvintes falando ao telefone, mandando dedicatórias de amor. Coisa bonita demais.

Quando eu era pequena ouvia, junto com meu pai, o programa do Collid Filho, na Rádio Tupi, ondas curtas, sempre com poemas e músicas românticas. O pai tinha discos dele também. Era uma delícia.

Na Rádio Fronteira do Sul, além dos programas do pai, também adorava o Show da Tarde. A gente ia lá na rádio e gravava a dedicatória, pedindo a música. João Paulo era quem comandava os enormes gravadores de fita de rolo. Era o máximo.

Ouvia também o programa do Barros de Alencar, na Tupi. Ali rolava o correio do amor. Minha irmã mandava cartas pra lá e chegou a ter vários correspondentes por conta do rádio. Era uma espécie de tinder dos anos 70.

O rádio é um mundo.

Quando morei em Passo Fundo, ouvia todos os dias o rei do rádio, o José Gomes JG, na Rádio Uirapuru. O carro da TV estava sempre ligado nele e volta e meia a gente ia lá dar um abraço no JG, pedir uma música. Era muito bom. Invariavelmente ele colocava a música “As Andorinhas” do Trio Parada Dura, porque sabia que eu gostava e dedicava para nós. E, nessa hora, a gente abria as janelas da Fiatizinha da TV e cantava a plenos pulmões, eu, Gilmar Lima e Flavio Goncalves. Era uma festa.

José Gomes, JG. Reprodução/rede social

Até hoje, quando ouço essa música, me ponho a cantar, cheia de pura alegria. Lembranças tão boas…

O rádio foi minha primeira casa, quando ainda era uma menina, ajudando o pai no Ranchinho do Nhô Zé. E é nessa casa que ainda sigo, hoje na Comunitária do Campeche. O rádio é bonito demais… e imorrível…

Autora: Elaine Tavares. Jornalista e educadora.

Edição: A. R.

Filosofar com Nietzsche

Ao exigir do homem moderno que tome consciência das consequências, das possibilidades e dos limites de seu saber e agir, nosso filósofo coloca questões que até hoje prosseguem conosco.

Dentre os clássicos da filosofia moderna, Friedrich Nietzsche (1844-1900) talvez seja um dos pensadores mais incômodo e provocativo. Em sua obra, todos os domínios são postos em xeque­­­­: científicos, éticos, religiosos, estéticos e políticos. Sua vocação crítica cortante o levou ao submundo de nosso civilização, sua radial honestidade intelectual denunciou a mesquinhez e o cinismo ocultos em nossos valores mais elevados, dissimulados em nossas convicções mais firmes, renegados em nossas mais sublimes esperanças.

Para Nietzsche filosofar é um ato que se enraíza na vida e um exercício de liberdade que exige vigilância crítica, coragem de denunciar a impostura da mistificação intelectual, determinação para assumir a própria vida. Por isso foi e continua sendo um pensador desconcertante.

Nietzsche foi considerado um dos grandes mestres da suspeita, pois denunciou a moralidade e a política moderna como transformação vulgarizada de antigos valores metafísicos e religiosos que são usados cinicamente para dominar as massas.

Nietzsche se opôs à supressão das diferenças, à padronização dos valores que, sob o pretexto de universalidade, encobre a imposição totalitária dos interesses particulares de grupos que querem dominar. Para ele, igualdade não pode ser entendida como uniformidade, pois quando isso acontece, as pessoas são transformadas em peças anônimas da engrenagem global de interesses e ocorre a manipulação de corações e mentes pelos grandes dispositivos formadores de opinião.

Conforme nos diz Giacóia Junior, professor da Unicamp e um dos grandes estudiosos de nosso filósofo, o pensamento de Nietzsche pode ser comparado a uma espécie de sensor que registra e antecipa questões e desafios de nosso século, pois sua ambição foi o de realizar um diagnóstico fiel da situação do homem moderno.

Pelo fato de nos considerarmos herdeiros dos progressos do iluminismo, julgamo-nos liberados das cadeias da ignorância e da superstição. As possibilidades advindas da utilização industrial da ciência e da técnica, nos fez acreditar que poderíamos descobrir todos os segredos do universos e construir uma sociedade livre das formas de opressão, violência e exploração. No entanto, nos adverte Nietzsche, esse otimismo trouxe consequências ocultas: o mesmo progresso que produziu enormes avanças conduz inexoravelmente à exaustão dos valores herdados da tradição, à sua impossibilidade de dar sustentação a futuros projetos viáveis, no campo do conhecimento, quer da ética, quer da política.

Nietzsche viveu e pensou em profundidade a crise que se abatia sobre a Europa ao final do século XIX. Foi um pensador que teve coragem de pensar seu tempo e indicar as contradições proporcionadas pela cultura. Ao exigir do homem moderno que tome consciência das consequências, das possibilidades e dos limites de seu saber e agir, nosso filósofo coloca questões que até hoje prosseguem conosco. Ler suas obras, de difícil compreensão, nos ajudam a compreender o tempo presente, marcado por acontecimentos que desestruturam nossa compreensão do mundo e geram um vazio existencial opressivo.

A despeito de sua visão sóbria produzida pela crise, Nietzsche tentou ser, ao mesmo tempo, um anunciador de novas esperanças que possam produzir a criação de novos valores, a instituição de novas metas para a aventura humana na história.

Encontramos em Nietzsche um pensador paradoxal que combina elementos antagônicos: sombra e luz, agonia e êxtase, gravidade e leveza. Uma provocação produtiva para dessecar o tempo presente e construir desafios futuros.

Autor: Dr. Altair Alberto Fáveroaltairfavero@gmail.com Professor e Pesquisador do Mestrado e Doutorado do PPGEDU/UPF. Também publicou no site “A dialética do senhor e do escravo”: https://www.neipies.com/a-dialetica-do-senhor-e-do-escravo/

Edição: A. R.

Quando um filho se sacrifica pela sua mãe

A maioria dos filmes sobre mãe e filho que vi focalizam os sacrifícios que as mães fazem pelos filhos. Alguns, é verdade, mostram a tirania delas. Poucos se detém no sacrifício que filhos fazem pelas mães.

Acompanhei um rapaz que havia, após muito esforço, passado no vestibular para medicina em uma cidade muito distante da sua. Teria de se afastar da mãe viúva e de uma irmã adolescente. A mãe, ao saber, teve uma crise de pânico. Mesmo tratada e assintomática, não admitia se afastar do filho. Não podia se mudar junto pois sustentava a família como costureira.

O filho implorava para que o deixasse ir. A mãe respondia com choro descontrolado. Quando ele me perguntou o que fazer, nós dois ficamos a pensar. A matrícula se encerrava em três dias.

“Vou e não olho para trás e olho só para mim. E é um direito meu, lutei por isso, não estou fazendo nada de errado. Ou não faço a matrícula e fico com a minha mãe. Faço mais um ano de cursinho e tento passar na faculdade que fica a apenas trinta quilômetros de minha cidade. Priorizo a relação com a minha mãe ou o meu futuro profissional?”.

Como fazia parte dele a empatia, deduzi a decisão que tomaria. Praticava o VAIVÉM EMPÁTICO: ia em imaginação ao interior das pessoas e retornava trazendo o sentimento que nelas deduzia existir e sentia como elas.

“Vou ficar. Não faz parte de mim virar as costas para minha mãe e para minha irmã. Vou fazer mais um ano de cursinho”.

Sem empatia não sentiria o sofrimento da mãe e iria embora. Mas com empatia, o sofrimento desesperado dela era sentido por ele. E assim percebia a limitação de sua mãe e a gravidade da situação.

Esse rapaz acabou no ano seguinte entrando na faculdade de medicina próxima a sua cidade.

Não tive mais notícias dele, mas posso crer que vem sendo um bom médico.

Autor: Jorge A. Salton. Também publicou no site a crônica “Psicólogos e psiquiatras gostam de olhar pela janela”: https://www.neipies.com/psicologos-e-psiquiatras-gostam-de-olhar-pela-janela/

Edição: A. R.

O pensamento tornou-se cego

O enfrentamento da “policrise” que marca a humanidade atual implica em retomar o caminho do conhecimento como superação destas “cegueiras” que levam a crer no que não é recomendável crer, seguir a quem não é adequado seguir, fazer o que se deve evitar seja feito.

Edgar Morin* afirmou o que está no título em artigo recentemente publicado constatando o que chama de uma “situação paradoxal” na qual se encontra a humanidade: “o progresso científico e tecnológico, que está se desenvolvendo prodigiosamente em todos os campos, é a causa dos piores retrocessos do nosso século”. Isto porque, “o progresso dos conhecimentos, multiplicando-os e separando-os criando barreiras entre as disciplinas, levou a um retrocesso do pensamento, que se tornou cego”.

A cegueira do pensamento resulta do domínio do cálculo, do exagero tecnocrático, da excessiva busca de poder, o que faz com que o conhecimento fique “incapaz de conceber a complexidade da realidade e em particular das realidades humanas”. Isso explica o “retorno aos dogmatismos e aos fanatismos” que “espalham os ódios e as idolatrias”.

A humanidade vive uma “policrise”: “é a crise da humanidade que não consegue se tornar Humanidade”. Para ele já teria sido ultrapassado o ponto de revisão e de retorno e “agora parece tarde demais”. Ainda assim, acredita que, mesmo que talvez já não haja esperança, o desafio é “passar para a Resistência”, visto que as experiências históricas apontam que ela pode existir quando já não há esperança e, talvez, servir de ativador para que seja restaurada.

O conjunto de posicionamentos deste grande pensador contemporâneo aqui brevemente resumido enseja comentários e reflexões, conforme segue.

A cegueira apontada por ele tem causas e consequências. Talvez seu apelo caminhe na direção do que sugere Jose Saramago no “Ensaio sobre a Cegueira”, no sentido de uma “cegueira branca” que toma conta e que não deixa ver o que “salta aos olhos”. E, diante dela, o desafio na hora do “vamos ver”, é de ter que “fechar os olhos para ver” o tanto de cegueira que está ao nosso redor visto ser o pior cego aquele que não quer ver, mesmo que possamos ter “a responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam” (1995, p. 241).

Há uma cegueira que não é nova e nem acomete subitamente a humanidade. Já foi denunciada por vários da Teoria Crítica e, infelizmente, parece imune dado estar vacinada pelo positivismo crasso que toma conta da “vida científica”. Suas exigências submetem ao “cálculo do suportável”, ao esvaziamento e ao “desencantamento”. Não há valores que possam subsistir, exceto aqueles que alimentam a “roda viva” das muitas repressões que roubam o desejo de “ter voz ativa” e de o “nosso destino mandar”, e carregam milhões aos cultos a mamon.

A grande sábia, a “doutíssima” Diotima, aquela que instruiu a Sócrates no “Banquete” de Platão, dizia que a “ciência do amor” estaria no “intervalo” intermediário entre entendimento e ignorância – um algo que está “entre estes dois extremos”. Tudo o que é “gênio”, como o amor, tudo o que e genial, como a ciência, está entre extremos: ali também estaria a ciência, estaria a filosofia, os que filosofam – o filósofo, assim como o amor, está “entre o sábio e o ignorante” (204 a, b, c).

Um dos problemas da “cegueira” é que ela “destrói este intervalo” e, dessa forma, impede o conhecimento.

Não há ciência se o que se sabe é um absoluto que faz desaparecer por completo a dúvida, toda a ignorância. É preciso que se preserve alguma ignorância, alguma dúvida, junto com algum saber, para que se esteja desafiado a saber, a conhecer, a fazer ciência, a saber ainda mais e melhor. Sempre que se agir para destruir esta possibilidade se estará fechando alternativas e dando vasão a dogmatismos e fanatismos, a ódios e idolatrias.

O enfrentamento da “policrise” que marca a humanidade atual implica em retomar o caminho do conhecimento como superação destas “cegueiras” que levam a crer no que não é recomendável crer, seguir a quem não é adequado seguir, fazer o que se deve evitar seja feito. E, acima de tudo, em encontrar caminhos que abram espaços para que o amor seja o gênio a fazer viva a ciência e a ciência processo de respeito, produção, reprodução, desenvolvimento, manutenção e cuidado da vida, de todas as formas de vida, da vida em abundância, sobretudo aquela que humaniza a Humanidade.

Que a resistência insurgente alimente estes processos e nos faça agentes desta insistente prática.

* Artigo publicado em Repubblica, de 24/01/2024, tradução de Luisa Rabolini para o IHU On Line, disponível em http://www.ihu.unisinos.br/…/636250-a-resistencia-do…

Autor: Paulo César Carbonari, Doutor em filosofia (Unisinos), coordenador nacional do Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH). Escrito no Carnaval de 2024. Contato: carbonari.paulo@gmail.com Também publicou no site “Ética e ciência: elementos para subsidiar reflexões”: https://www.neipies.com/etica-e-ciencia-elementos-para-subsidiar-reflexoes/

Edição: A. R.

Que tipo de revolucionário foi Jesus?

Se antes corríamos o risco de colocarmos vinho novo em odres velhos, hoje há muitos odres novos, estratégias, marketing, estruturas eclesiásticas para todo gosto. Porém, o vinho está em falta. Os odres estão vazios. As igrejas estão cheias de pessoas vazias.

Quando se fala de revolução, pensa-se em uma insurreição popular, rebelando-se contra autoridades constituídas, depondo governos, provocando divisões, instigando o ódio e a revolta. E não é por menos. Basta uma rápida verificada na História para constatar isso. Toda revolução política teve seus presos políticos, seus torturados, mortos e desaparecidos. A guilhotina usada na revolução francesa não nos deixa mentir.

Porém, a revolução proposta por Jesus é de outra natureza. Aliás, a expectativa dos discípulos era de que Jesus promovesse um levante contra Roma e as autoridades judaicas que haviam se promiscuído com o Império.

Jesus propunha um tipo de revolução totalmente inversa ao que eles esperavam. Não uma revolução armada, mas uma revolução de amor. Existiria algo mais subversivo que o amor?

O Evangelho é, por si só, a mais subversiva mensagem jamais pregada.

Vejamos alguns exemplos de seu conteúdo revolucionário.

Sem dúvida, o mais subversivo sermão pregado por Jesus ficou conhecido como Sermão da Montanha. Enquanto o senso comum acreditava que felizes eram os ricos arrogantes, Jesus afirma que felizes são os pobres de espírito. Se para eles felizes eram os que gargalhavam nos banquetes dos palácios, para Jesus, felizes eram os que choravam.

Neste sermão, o Mestre Galileu propõe uma ética totalmente inversa àquela disseminada pelos mestres da época.

“Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por dente. Eu, porém, vos digo: Não resistais ao homem mau. Se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra. E se alguém quiser demandar contigo e tirar-te a túnica deixa-lhe também a capa. Se alguém te obrigar a caminhar uma milha, vai com ele duas.” Mateus 5:38-41

Ora, se isso não é subversivo, o que é, então?

Não se trata apenas de pacifismo panfletário, mas de amor às últimas consequências.

“Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo, e odiarás o teu inimigo. Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (vv.43-44). Não se trata de fazer vista grossa aos seus abusos e desmandos, mas de insistir em amar a seus inimigos, ainda que estes sejam desprezíveis, indignos de nosso amor.

Em momento algum, Jesus endossou o estilo de vida vigente à época. Seu compromisso não era com a manutenção do status quo, mas com a introdução de uma nova ordem de coisas onde o ser humano teria mais importância do que as instituições e tradições. Onde o sábado que era uma das instituições mais prezadas pelos judeus, teria sido feito para o bem-estar do homem, e não o homem para o sábado.

Jesus ajusta o foco de modo que possamos enxergar a vida dentro de uma perspectiva que possibilite uma relação saudável entre os seres humanos e o sagrado, sem fundamentalismos engessados.

Ele denunciou através de Seus ensinamentos a inversão de valores predominante naquela sociedade. Desferiu um golpe fatal no espírito consumista, colocando a avareza como oponente de Deus. “Ninguém pode servir a dois senhores. Ou há de odiar a um e amar o outro, ou se devotará a um e desprezará o outro. Não podeis servir a Deus e às riquezas” (v.24).

Em outras passagens, Ele demonstra que no Reino de Deus as coisas funcionam de maneira inversa ao mundo. No Reino quem quiser ser o maior, tem que ser o menor. Quem amar sua própria vida, acabará desperdiçando-a, mas quem se dispuser a gastá-la por amor de Cristo e de seu semelhante, a reencontrará.

Para Jesus, o Reino de Deus não seria uma realidade distante, algo a ser esperado para depois desta vida, mas a ser buscado hoje como prioridade absoluta. Buscar o Reino de Deus é buscar a justiça, a igualdade entre os homens, desejando que a vontade divina se cumpra na terra como no céu.

Ora, não há nome mais próprio para isso que subversão.

Infelizmente, a igreja cristã tem se promiscuído com o mundo, trocando os valores eternos do reino pelas propostas indecorosas feitas por um sistema apodrecido. Pastores, em busca de fama e reconhecimento, vendem-se e negociam os votos de seu rebanho.

Cristãos ajustaram suas crenças às agendas políticas e ideológicas, demonstrando maior lealdade aos poderosos que ao próprio Cristo. A verdade foi trocada por um prato de lentilhas, e pior, lentilhas podres.

Se antes corríamos o risco de colocarmos vinho novo em odres velhos, hoje há muitos odres novos, estratégias, marketing, estruturas eclesiásticas para todo gosto. Porém, o vinho está em falta. Os odres estão vazios. As igrejas estão cheias de pessoas vazias.

Creio que assim como a Reforma Protestante só aconteceu porque a igreja redescobriu o conteúdo subversivo das epístolas de Paulo, a Revolução acontecerá quando a igreja redescobrir o teor subversivo dos Evangelhos, principalmente do Sermão da Montanha.

Em vez de gastarmos nosso tempo pregando invencionices humanas, retornemos à mensagem do Reino e do Amor de Cristo. Em vez de uma nova Reforma Protestante, necessitamos sim é de uma Revolução Reinista, isto é, centrada no Reino, e não em estruturas denominacionais.

Autor: Hermes C. Fernandes. Também publicou no site a crônica “De que lado estou, afinal”?: https://www.neipies.com/de-que-lado-estou-afinal/

Edição: A. R.

Por que escrevo

Dificilmente as pessoas entendem que a escrita pode funcionar como uma terapia. Não é a mesma coisa, mas soa terapêutico. Sem contar o prazer que se tem em se praticar essa arte.

Estou completamente sozinha enquanto escrevo estas linhas. O mês propicia idealizarmos um monte de coisas. Tenho vários planos. Acredito que aconteça isso com a maioria das pessoas. Reavaliar valores, considerar desafios, assim como se programar para o que queremos e o que não queremos para este novo ano.

No quarto onde estou sinto um silêncio enorme. Do outro lado da janela ainda há um sol oblíquo batendo em um coqueiro. A copa da árvore, ao lado, uma cerejeira, está repleta de luz e de sombras.

Tenho intimidades com a natureza e gosto de registrar o que sinto, quando tocada por ela. Sinto leveza e inspiração que me conduzem a criar.

Pouco tempo atrás, um passarinho estava empoleirado em uma ramificação do tronco da ameixeira. Ele tinha algo comprido dependurado no bico, uma espécie de minhoca, e se esforçava para engolir jogando a cabeça para traz e para frente. Depois foi embora.

Sopra um vento leve trazendo gorjeios e cantos de vários pássaros. Acho o cantar do rabo-de-palha tão triste, parece uma súplica. Li que são os pássaros mais misteriosos do Brasil.

A enorme solidão que sinto é parecida com o silêncio absoluto que faço no momento da escuta nos atendimentos do consultório.

Fico afásica, só prevalece a fala do outro e quando chego em casa nem a TV gosto de ligar. Se está ligada, vou para outra peça da casa e pego um bom livro. Acho a TV pouco instrutiva, traz a coisa pronta e os apresentadores são enfáticos e falam muito alto.

Por isso, talvez, o anseio em articular palavras que possam ganhar vidas com o passar do tempo, no momento em que alguma pessoa deixar cair o olhar sobre elas. Conforme li certa vez, não lembro onde, “é na leitura que um texto ganha vida”.

Na hora em que escrevo, elas cantam dentro de mim e me perco de meu próprio ser. Entro em devaneios. É algo imprevisível, que não consigo controlar. Diferente de quando leio e me perco na fala do autor. Às vezes tenho bem claro o que quero transmitir, mas a ideia vai se afastando e se compondo em movimentos. Escolho uma palavra em vez de outra, como se surgisse outro eu em meio à linguagem.

Tudo aquilo que sinto procuro transmitir como se estivesse vivendo e vendo, como foi o caso do pássaro tentando engolir uma larva ou minhoca. Ele parecia tão absorto. Não demonstrava estar desprovido de presença na realidade de sua existência. Ele até poderia obscurecer-se por pensamentos, como eu na hora da escrita, mas depois voltaria à realidade. São pensamentos coesivos do eu que a leitura e a escrita dissolvem.

Desnudo o meu eu quando escrevo para me encontrar. Emoções que guardo dentro de mim às vezes tomam vieses exagerados e preciso expressá-las, pois ficam parecendo feras selvagens enjauladas. Poxa vida! Que triste sina esta de escrever!

Ouvi de uma pessoa conhecida, não amiga, se assim o fosse não diria:

— Não esqueça de que poderá estar se expondo demais com tua escrita.

— É verdade — eu disse.

— Parece que você anda angustiada.

— Dá para notar?

A pessoa riu na minha cara.

— Está tudo bem — falei – o problema é que gosto de escrever.

Ficou me olhando séria e então pensei que não adiantava explicar muito. Dificilmente as pessoas entendem que a escrita pode funcionar como uma terapia. Não é a mesma coisa, mas soa terapêutico. Sem contar o prazer que se tem em se praticar essa arte.

Saí pensativa: “se não for assim, o que seria enfim escrever?”.

Autora: Elenir Souza. Soledade, RS, dia primeiro do ano de 2024.Também já publicou no site a crônica “Reencontro”: https://www.neipies.com/reencontro/

Edição: A. R.

Conae 2024 e Conferência Nacional das Juventudes reafirmam a educação como direito

A educação continua sendo o grande desafio histórico brasileiro. Após seis anos de interrupção de um processo democrático e participativo, de 28 a 30 de janeiro de 2024, realizou-se o maior evento de participação social do campo da educação: a Conferência Nacional de Educação (Conae-2024), na Universidade de Brasília (UNB).

Estiveram presentes mais de 2,5 mil pessoas, representando a sociedade civil, entidades que atuam na educação e órgãos do poder público, com destaque para a participação de educadores(as) e estudantes.

A Conferência Nacional foi organizada pelo Fórum Nacional de Educação (FNE) – que conta com 64 entidades – e pelo Ministério da Educação (MEC), em conformidade com o estabelecido na Portaria 478, de 17 de março de 2023.

Durante o segundo semestre de 2023 ocorreram as conferências municipais e estaduais em todo o Brasil, discutindo uma série de temas e escolhendo os delegados e representantes para esta Conae de 2024.

O documento aprovado e em fase final de consolidação será referência obrigatória para orientar o projeto de lei do novo Plano Nacional de Educação (PNE) de 2024-2034 a ser elaborado e enviado pelo atual governo ao Congresso Nacional.

Os participantes da Conferência protagonizaram uma sólida avaliação das causas e consequências do descumprimento do PNE vigente (2014-2024) e reafirmaram a educação enquanto direito de todos e responsabilidade do Estado, das famílias, com a colaboração da sociedade brasileira.

Propostas aprovadas nesta conferência nacional

  • Revogação do Novo Ensino Médio (NEM) e substituição por um novo projeto em tramitação no Congresso (PL 2601/2023 e PL 5230/2023);
  • Revogação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e substituição por um novo projeto curricular a ser construído;
  • Revogação da BNC-Formação, política de formação de professores que deve ser substituída pelas Diretrizes Curriculares Nacionais para as licenciaturas;
  • Universalização da pré-escola a partir dos 4 anos, do Ensino Fundamental de 9 anos e garantia de educação para toda a população até 17 anos;
  • Triplicar matrículas da educação profissionalizante no Ensino Médio;
  • Educação de tempo integral (sete horas) para pelo menos 50% dos estudantes; Padrões de qualidade para a educação a distância;
  • Implantação efetiva do custo aluno-qualidade, patamar mínimo a ser investido considerando critérios de qualidade de ensino e não o orçamento disponível;
  • Investimento de 10% do PIB em educação.

As próximas etapas

Começam agora as batalhas decisivas junto à finalização do novo Plano Nacional de Educação para envio ao Congresso Nacional.

A batalha no parlamento será intensa para garantir a destinação de 10% do PIB para a educação, aprovado nesta Conae de 2024.

O PNE que esteve em vigor entre 2014-2024 já previa esta meta de 10% do PIB para a educação pública, mas, de acordo com o texto, a ideia era chegar a 7% em cinco anos e depois a 10% em dez anos. Isso não ocorreu. Segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira, o Inep, o Brasil investiu na educação pública em 2022 o equivalente a 5%, bem abaixo da meta do PNE vigente.

O Brasil, devido ao passivo histórico de não ter investido na educação durante seus primeiros quatro séculos e meio, apresenta uma das maiores demandas educacionais do mundo.

Quase metade de nossa população de crianças, adolescentes, jovens e adultos tem este direito à educação negado, negligenciado ou precarizado. Mais de 50% dos adolescentes não concluem o ensino médio e apenas 18% dos jovens de 18 a 24 acessam a universidade na idade adequada.

Portanto, investir 10% do PIB na educação é a principal estratégia de inclusão dos estudantes pobres, considerando nossas desigualdades e racismo estrutural.

É aí que, justamente, se apresentam, de forma contraditória, os interesses do capital, das elites e do Congresso conservador, negando esta ampliação de recursos para a educação e a pesquisa.

Do orçamento de 2024, recursos foram reduzidos nas Universidade Federais para ampliar o Fundo Eleitoral com vistas às eleições municipais de 2024. A sociedade precisa reagir.

Qual é a prioridade: R$ 5 bilhões para educação ou para fundos eleitorais?

Além do descumprimento das metas do PNE atual, tanto a União como os demais entes da federação – estados e municípios – descumpriram e descontinuam seus Planos de Educação, deixando de investir os percentuais constitucionais previstos para a educação.

Sabedores disto, no eixo do financiamento, os delegados da Conae 2024 aprovaram uma meta para o chamado Custo Aluno-Qualidade Inicial (Caqi), um indicador que mostra, em valores financeiros, quanto deve ser investido ao ano, pelo Estado, em cada aluno da educação básica.

Segundo estimativas dos coordenadores dos trabalhos, atualmente, cada aluno recebe, em média, R$ 6 mil anuais de investimentos, por meio do Fundo Nacional da Educação Básica (Fundeb). Se o Caqi for regulamentado pelo Congresso, esse valor pode chegar a R$ 12 mil por ano, dizem fontes, conforme a destinação dos 10% do PIB para a educação.

Críticas já foram disparadas contra a proposta de 10% do PIB para educação aprovadas na Conae.

O editorial Educação a sério, do jornal Folha de S. Paulo, do dia 2 de fevereiro último, representando os interesses das elites, considerou como uma “meta farsesca”.

A Associação Nacional de Pesquisa em Financiamento da Educação (Fineduca), composta por pesquisadores renovados sobre o financiamento da educação, reagiu ao editorial e reafirmou que o “Brasil possui riqueza para realizar a aplicação de valores equivalentes a 10% do PIB em educação pública e que “é chegada a hora de priorizar a Educação no processo de desenvolvimento social e econômico do Brasil”.

E prossegue a Fineduca: “até quando o Brasil terá que esperar para iniciar, seriamente, a priorização da educação de sua população? Se nada for feito nas próximas décadas, diversas gerações poderão ser consideradas perdidas educacionalmente, reproduzindo a histórica exclusão social e educacional”. Por isso, a hora de virar a chave é agora, com o respaldo do PNE (2024-2034).

Em dezembro de 2023, também foi realizada em Brasília, a 4ª Conferência Nacional de Juventude, com o tema: Reconstruir no Presente, Construir o Futuro: Desenvolvimento, Direitos, Participação e Bem Viver. “O jovem tem direito à participação social e política e na formulação, execução e avaliação das políticas públicas de juventude”.

Nesse sentido, doze resoluções, uma por cada eixo, foram aprovados, abordando os diversos direitos das juventudes em consonância com a Política Nacional de Juventude e o Estatuto da Juventude, além de 18 moções sobre diversos temas.

No eixo 2, Do direito à educação, foram aprovadas três propostas na perspectiva de:

  • Instituir um Plano Nacional contra a evasão escolar, de forma a garantir políticas de acesso e permanência estudantil em todos os níveis de ensino, por meio da efetivação do Plano Nacional de Assistência Estudantil no ensino superior, incluindo estudantes bolsistas do Prouni e do Fies e demais estudantes de universidades privadas;
  • Fortalecer as políticas de educação escolar indígenas (com produção de materiais didáticos específicos e bilíngues) e a educação no e do campo e nos territórios de povos originários, povos e comunidades tradicionais, por meio da ampliação das escolas e de campi universitários no interior, com maior diversidade de cursos ofertados e,
  • Criar comitês de acompanhamento e fiscalização do Novo Ensino Médio, de forma conjunta, entre a sociedade civil e o governo, buscando implementá-lo como um espaço de escuta, de forma que os estudantes tenham autonomia e participação nas tomadas de decisão, valorizando o diálogo e o processo democrático.

Ainda, referente ao ensino médio, aprovou-se recriar a Formação Geral Básica (FGB) de 2.400 horas, além do fortalecimento e da expansão do modelo dos Institutos Federais (IFs) que ofertam a educação profissional integrada ao ensino médio, sendo a rede com melhor desempenho escolar no país.

Para os estudantes inseridos/as no mundo do trabalho, oportunizar a oferta de ensino noturno de qualidade, incluindo a matéria de língua espanhola como obrigatória, garantindo 2.100 horas de FGB  para as EPTs (Educação Profissional e Tecnológica), fim do notório saber e dos itinerários formativos.

No eixo 3, do direito à profissionalização, ao trabalho e à renda, o binômio trabalho e educação permanece figurando como preocupação relevante para a juventude, evidenciando suas angústias, sofrimentos e preocupações com o futuro.

A pandemia produziu e ampliou impactos irreversíveis na inserção profissional e na formação da juventude brasileira.

Neste contexto, as juventudes participantes da 4ª Conferência rejeitaram “regras trabalhistas que empurram os jovens para a informalidade e o desemprego” e afirmaram que “o melhor programa social que existe é o emprego”, colocando como prioridade o aumento da empregabilidade dos/as jovens, de maneira a garantir novas oportunidades de trabalho e crescimento profissional.

Mesmo com o descumprimento das metas dos planos de educação vigentes, com as resistências conservadoras no congresso nacional, com os interesses privados disputando os fundos públicos e com o atravessamento de forças contrárias à oferta de educação pública de qualidade para as juventudes brasileiras, é preciso sonhar, esperançar e lutar pela educação enquanto direito humano fundamental.

É necessário, também, ampliar a frente nacional por um projeto democrático, justo e igualitário, com soberania para o nosso Brasil.

Fonte: https://www.extraclasse.org.br/opiniao/2024/02/conae-2024-e-conferencia-nacional-das-juventudes-reafirmam-a-educacao-como-direito/

Autor: Gabriel Grabowski, professor e pesquisador.

Toda amizade é social

Amizade social é o oposto da guerra, do individualismo, da indiferença, do ódio e de comportamentos que a esses se alinham. A grande questão, nos tempos atuais marcados por tantos reveses políticos, sociais, econômicos, religiosos e ambientais, é como garantir que a amizade social se concretize de forma duradoura.

Aparenta evidente dizer que a amizade é social. Porém, também o óbvio precisa ser reafirmado, sobretudo em tempos de tendências crescentes aos preconceitos, intolerância, privatização, indiferença e isolamento. Situações essas que facilmente vão se naturalizando e massificando. De pronto, vale ressaltar que toda amizade tem caráter social, uma vez que sempre implica relações entre duas ou mais pessoas.

À primeira vista, o conceito amizade traz a compreensão de uma relação virtuosa e humanizadora. Contudo, nem sempre as amizades têm como objetivo o bem comum e coletivo. Daí a importância de distinguir as intencionalidades, os conteúdos e as ações que decorrem das relações de amizade. Pode haver amizades com vistas a lesar, explorar, violentar, destruir, enfim conspirar a favor do mal. De outra parte, pode-se alimentar amizades voltadas para o cuidado mútuo e/ou de outros, para a fraternidade, a promoção da vida e da humanização.

Aristóteles, filósofo grego da Antiguidade, trata a philia como o conjunto dos laços e relações afetivas que caracterizam de modo particular os seres humanos. Philia pode significar ao mesmo tempo amor, amizade, bondade, solidariedade e irmandade. Para Aristóteles, a amizade “é uma virtude ou implica virtude, sendo, além disso, sumamente necessária à vida. Porque sem amigos ninguém escolheria viver, ainda que possuísse todos os outros bens” (Livro VIII de Ética a Nicômaco).

A amizade social é o tema da 60ª edição da Campanha da Fraternidade (CF) promovida pela Igreja Católica. Trata-se de uma grande utopia da Igreja e da sociedade que se quer vivendo relações saudáveis no sentido mais amplo do termo. É um ideal de vida plena, muitas vezes concretizado em algum grau no curso da existência. Acerca disso, é sugestivo o dito de Jesus de Nazaré e registrado pelo evangelista Mateus (23, 8): “Vós sois todos irmãos e irmãs”. Desejo esse assumido como lema da CF/2024.

Uma campanha para que haja fraternidade é sempre algo sintomático. De algum modo, expressa que ela, na prática, anda com dificuldades de se afirmar. De se instalar nos seres humanos socializáveis, mas nem sempre socializantes. É retrato da presença de barreiras, de divisões, de cadeias que isolam, de extremismos que afastam. Mas, ao mesmo tempo, é insistência de quem se sente no dever de estimular a unidade na pluralidade, relações verdadeiramente fraternas e não meramente toleráveis.

Surgida no conturbado contexto do golpe militar de 1964, a Campanha da Fraternidade pretendia desde o princípio chamar a atenção para questões cruciais que afetam toda sociedade. Na época, a preocupação central era o elevado grau de autoritarismo e violência social. A proposta partiu de dom Eugênio Sales visando promover a solidariedade e a dignidade humana. Objetivava também ser uma maneira de recepcionar as inovações do Concílio Vaticano II, realizado entre 1962 e 1965.

Amizade social é o oposto da guerra, do individualismo, da indiferença, do ódio e de comportamentos que a esses se alinham. A grande questão, nos tempos atuais marcados por tantos reveses políticos, sociais, econômicos, religiosos e ambientais, é como garantir que a amizade social se concretize de forma duradoura. Por certo, não é obra do acaso, nem tarefa fácil ou apenas de alguns. É desafio colocado para toda a sociedade.

A amizade social requer compreensão da realidade e diálogo; respeito às diferenças e unidade naquilo que é essencial. A amizade social com conteúdo humanizador é uma virtude a ser buscada de maneira pessoal, coletiva e contínua. Segundo o livro do Eclesiástico (6, 14): “amigo fiel é proteção poderosa, e quem o encontrar, terá encontrado um tesouro”. É sábio quem cultiva boas amizades e é capaz de propagar socialmente os seus frutos.

Autor: Dirceu Benincá. Também publicou no site a crônica: A importância da embalagem: https://www.neipies.com/a-importancia-da-embalagem/

Edição: A. R.

Quem deve ter a última palavra: a mente ou o coração?

Que seja a consciência o árbitro que decidirá entre os argumentos da razão e os apelos do coração. Quem deveria ter a última palavra? Os dois, quando a voz de ambos soar em uníssono na câmara da consciência.

Sabe quando você quer muito que algo seja real? Pois é… a gente acaba se deixando levar pelo desejo, buscando respaldá-lo em argumentos que jamais nos convenceriam se já não estivéssemos predispostos a isso.

O coração é hábil em nos pregar peças. Daí a necessidade de vez ou outra, promovermos uma conferência a portas fechadas entre a mente e o coração.

Não que a razão tenha sempre razão. Às vezes, ela também se equivoca. Mas não resta dúvida de que o coração seja bem mais suscetível e vulnerável a certos apelos.

Há que se redobrar os cuidados para que a mente e o coração não se tornem aliados incondicionais. É mais produtivo mantê-los num clima de certa desavença. Caso contrário, a mente sempre vai tentar justificar o que o coração já houver decidido. Sabe como é…

O coração tem um jeitinho faceiro de dobrar a mente e fazê-la submeter-se a seus caprichos, nem que para isso tenha que se valer de chantagens e tentativas descaradas de suborno. A mente não resiste a uma oferta de prazer, principalmente quando convencida de que os custos serão baixos.

Também não se pode ignorar por completo a voz do coração, principalmente quando nos fala pela via da intuição. Não é raro que ele tenha razão. Como disse Blaise Pascal, o coração tem razões que a razão desconhece.

Mente e coração só devem chegar a um acordo depois de boa dose de argumentação de ambas as partes.

Deixe que o coração se pronuncie. Avalie seus argumentos. E caso eles o convençam, atreva-se a ceder.

Que seja a consciência o árbitro que decidirá entre os argumentos da razão e os apelos do coração.

Quem deveria ter a última palavra?

Os dois, quando a voz de ambos soar em uníssono na câmara da consciência.

Depois disso, mantenha-os novamente em cômodos separados, possibilitando avaliar cada nova decisão de ângulos distintos, porém, complementares.

Autor: Hermes C. Fernandes. Também já publicou reflexão “O prazer de ser ponte”: https://www.neipies.com/o-prazer-de-ser-ponte/

Edição: A. R.

Templo é dinheiro?

O lema franciscano devia valer para todos aqueles que se dedicam a propagar suas crenças, qualquer que ela seja: “fazer do necessário o suficiente e viver mais simplesmente, para que simplesmente todos possam viver”.

As igrejas de negócios e os “místicos” de ocasião, exploradores da boa-fé da nossa gente, desmerecem as religiões. São um contratestemunho.

A Receita Federal suspendeu ato descaradamente eleitoreiro de Bolsonaro, de julho de 2022, que ampliava a isenção de impostos (previdenciários e de renda) sobre a remuneração de chefes religiosos.

O privilégio foi suspenso por recomendação do Ministério Público ao TCU. Deveria ter sido anulado de vez, pois a simples suspensão não permite à Receita fazer cobranças retroativas.

O “favor” se soma a vários outros, como isenção de IPTU para templos (1988); IPVA para carros de igrejas (1997); sobre as contribuições de fiéis (2000); ICMS sobre serviços, como conta de luz (2019); flexibilização da prestação de contas das organizações religiosas que arrecadem menos de R$ 4,8 milhões (2019); perdão de dívida de R$1,4 bilhão do imposto sobre lucro líquido dos templos (2021); além da isenção de impostos para entidades filantrópicas vinculadas a instituições religiosas (2023).

Para alguns líderes ditos religiosos, tão apegados a ganhos materiais, isso tudo não é suficiente. Sua reação à suspensão das contribuições sobre a remuneração direta – a que todos nós estamos sujeitos – foi irada e vergonhosa: “perseguição!”, “a esquerda odeia os evangélicos”, “a bancada evangélica vai retaliar o governo Lula”, vociferaram.

Esses “cristãos” andam esquecidos do alerta de Jesus (em Mateus, 6:24): “vocês não podem servir a Deus e ao dinheiro”. Para alguns mercadores da fé, “Jesus é o caminho”, mas cobram pedágio e enriquecem pessoalmente. Prosperidade para uns poucos, que têm gordas contas bancárias, jatinhos e imóveis de luxo, até no exterior. Onde fica a espiritualidade?

O lema franciscano devia valer para todos aqueles que se dedicam a propagar suas crenças, qualquer que ela seja: “fazer do necessário o suficiente e viver mais simplesmente, para que simplesmente todos possam viver”.

As igrejas de negócios e os “místicos” de ocasião, exploradores da boa-fé da nossa gente, desmerecem as religiões. São um contratestemunho.

Autor: Chico Alencar. Também publicou “Compro, logo existo?”: https://www.neipies.com/compro-logo-existo/

Edição: A. R.

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