A pedagogia inspiradora da práxis benincaniana

No apagar das luzes de 2025, quero aproveitar o espaço desta coluna para mais uma vez homenagear um outro grande mestre, que fez toda a diferença na minha vida pessoal e profissional: professor Elli Benincá.

Fui seu aluno, orientando, monitor, bolsista voluntário, amigo, colega e admirador. Os anos que convivi com ele representam pra mim memórias vivas, lembranças fraternas e experiências pessoais e profissionais que me constituíram como professor-pesquisador, e que me acompanham no modo de ser docente, orientador, estudioso das questões filosóficas e dos dilemas educacionais.

Elli Benincá, na sua simplicidade acolhedora e na sua capacidade de mobilizar pessoas e instituições, nos ensinou com maestria e coragem que precisamos ousar sem perder a humildade de aprender com os outros e se coloca a serviço de um bem maior na construção de processos pedagógicos de formação cooperativa em prol de uma sociedade mais justa, digna e fraterna. Na feliz expressão de Lucídio Bianchetti, no Elli existe uma práxis benincaniana que nos inspira e que o torna um clássico regional e com o tempo se tornará um clássico cosmopolita.

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Foi oportuna a iniciativa dos colegas do PPPGEdu, liderados por Claudio Dalbosco, de constituir um grupo de amigos de Elli Benincá (colegas próximos, familiares de Elli, ex-alunos ligados ao Itepa e a UPF, dentre outros). Com isso instaurou-se um movimento de tornar vivo seu pensamento, por meio de estudos, criação de um site e de um selo editorial, a organização de um memorial dos seus textos, a realização de eventos em torno de sua obra e principalmente a produção acadêmica.

Junto com Lucídio Bianchetti, organizamos em 2024-2025 a coletânea Práxis dialógica benincaniana: memórias e experiências formativas (Fávero; Bianchetti, 2025) publicado em outubro deste ano pela editora da UPF. Na sequência faço uso de alguns recortes da apresentação da coletânea com o objetivo de divulgar este belo trabalho que será lançado no dia 20 de março de 2026 no auditório do PPGEdu precedido de uma conferência do amigo Lucídio Bianchetti para todos os interessados.

Com professor Lucídio Bianchetti e professora Maria Isabel da Cunha.

Por meio de depoimentos, relatos de experiências e reflexões, o conjunto de autores/as que compõe os capítulos da coletânea visam contribuir para ressaltar o quanto a vida e a obra do Elli continuam repercutindo, influenciando, desafiando as novas gerações que estão se formando e dedicando-se ao quefazer educacional e de engajamento social. Pesquisas empíricas, adensamento teórico-metodológico, atuações engajadas, relatos e reflexões evidenciam o poder heurístico da práxis dialógica benincaniana.

Para os que conviveram com Elli Benincá, a coletânea (de acesso gratuito pelo site da editora da UPF ou no link que se encontra no final do texto)  torna-se uma forma de rememorar os ensinamentos e vivências deste grande mestre que soube como poucos articular, de forma coerente e produtiva, um intenso exercício intelectual com uma prática pedagógica/pastoral engajada e comprometida; para aqueles/as que não tiveram o privilégio de conhece-lo ou de desfrutar de sua convivência, por meio dos textos que compõe a coletânea poderão apreender e testemunhar seu legado na direção de torná-lo um clássico regional que soube articular teoria e prática em sua atividade intelectual e nas suas ações pedagógica. 

O primeiro texto resulta de depoimento/entrevista que Eldon Henrique Mühl nos concedeu, especialmente para esta coletânea. Ao invés de seguirmos o roteiro tradicional de entrevistas, com perguntas e respostas, enviamos um roteiro de questões que foram abordadas pelo prof. Eldon. Em seu depoimento, o entrevistado aborda aspectos relacionados à sua formação e sua atuação profissional por mais de 45 anos na UPF. A maior parte do depoimento, contudo, é dedicada a questões relacionadas à sua formação e atuação profissional em estreita convivência com Elli Benincá.

No texto Experiência na formação de pedagogia curso de férias na UPF – o legado de Elli Benincá no modo de fazer a docência, Sueli Salva reflete sobre a oportunidade formativa que transformou radicalmente seu percurso de vida intelectual, cultural e pessoal. A autora resgata e reflete sobre seu ingresso no Curso de Férias, na Faed/UPF, a partir do ano de 1981. Destaca as aprendizagens decorrentes da presença do Padre e Professor Elli Benincá, na sua atuação no ensino, na pesquisa e na extensão, bem como no exercício constante de escrita, seja de forma mais espontânea em momentos de registros de eventos, fatos, acontecimentos, vivências, seja como exercício de pensamento. São narrativas de experiência e de existência possíveis, construídas por uma mulher professora, decorrente da formação e influência do Mestre Elli Benincá. 

Em Lembranças do curso de Pedagogia em Regime de Férias da UPF: narrativas como experiência de reflexão/autoformação, Neusa M. Roveda Stimamiglio aborda o curso de Pedagogia – Séries Iniciais da UPF, na década de 1980, considerando que este foi um divisor de águas em sua vida pessoal e profissional, possibilitando-lhe uma reflexão ampla sobre os aspectos sociopolíticos e econômico-culturais envolvidos na Educação.

 Dentro deste projeto coletivo que registra as variadas experiências e trajetórias de profissionais que estiveram em contato com o Professor Elli Benincá, nos mais diversos espaços de formação e atuação, rememora as lembranças do Curso, focando particularmente a presença, influência e práxis dialógica benincaniana, que denotam a contribuição do Elli na sua vida pessoal e profissional e na sua condição de pesquisadora. Reforça também a importância do resgate da memória e de seu registro, por meio da escrita, como processo de reflexão e autoformação.

Com professor Angelo e Padre Elli.

Com Lições benincanianas ancoradas na práxis dialógica: Um antídoto à pedagogia da constrição, Lucídio Bianchetti destaca dois aspectos constitutivos da práxis dialógica benincaniana: a sala de aula como um espaço sagrado e a escrita como estratégia qualificada para a instauração dessa práxis. Particularmente este último aspecto ganha uma importante dimensão em um momento em que predominam escritas telegráficas, superficiais, fugazes, via meios digitais, constituindo-se em uma “pedagogia da constrição”, em flagrante oposição à pedagogia proposta e exercitada pelo Elli. O texto resulta de sua intervenção no Seminário organizado pelo Núcleo de Pesquisas em Filosofia e Educação (NUPEFE) do PPGEdu/UPF/RS, em 30 de abril de 2021, como parte de atividade voltada ao resgate da “Herança pastoral e pedagógica” do Elli Benincá. Na retomada do texto foi mantido o tom coloquial, de exposição e foram agregadas algumas notas e referências.

Angela Trombini Scartezini com o texto: A memória de aula como exercício formativo e práxis pedagógica, resultante de sua dissertação de mestrado, parte do pressuposto de que existe uma grande diferença entre aprender e estudar, reflete sobre os exercícios formativos da práxis dialógica benincaniana enquanto forma de vida, tendo a figura do mestre/professor entendido como um estudioso entre estudantes.

A questão central está em pensar como podemos reivindicar novamente a escrita da memória como exercício autoformativo e fonte de pesquisa em um contexto dominado pelo discurso da aprendizagem com predomínio da tecnologia. A pesquisa realizada indicou que os exercícios formativos da práxis dialógica benincaniana – a escuta, o diálogo e a escrita da memória de aula – tornam-se um importante antídoto formativo e pedagógico, constituindo-se em um permanente desafio a ser enfrentado na educação, uma vez que os fatores mobilizadores da ação pedagógica e o destino da educação na sociedade atual estão em jogo.

No ensaio Palavra, diálogo e formação humana: por uma pedagogia da humildade dialógica, Claudio Almir Dalbosco, Elaine Hanel, Elcio Alcione Cordeiro e Rodinei Balbinot se desafiam a realizar “uma viagem através da palavra”, colocando-se a caminho com alguns viajantes já experimentados, quais sejam, Agostinho (354 – 430), Fiori (1914 – 1985), Freire (1921 – 1997) e Benincá (1936 – 2020), tendo por norte investigativo a seguinte indagação: Que caminhos para a formação humana essa viagem nos fará ver em uma paisagem já agredida pela mercantilização (financeirização) da educação e acidentada pelo retorno da barbárie disfarçada de civilização? A hipótese dos autores é que esses clássicos viajam juntos, através da palavra, e que o que se experimenta durante o percurso, num processo paciente do movimento dialético da escuta-pergunta-resposta-pergunta, é uma pedagogia da humildade dialógica.

Dario Fiorentini, com seu texto Reverberações da Pedagogia Benincaniana na problematização e investigação colaborativa entre universidade & escola explicita contribuições e reverberações da pedagogia benincaniana em sua trajetória profissional e científica, tendo como foco central de estudo o professor, seu trabalho e sua aprendizagem profissional em comunidades investigativas e colaborativas entre universidade e escola. Isso é feito por meio da análise narrativa de experiências de aprendizagem, de investigação e de teorização do próprio autor em dialógico com alguns estudos internacionais que se aproximam da práxis benincaniana. Pretende, assim, contribuir para o debate e a compreensão da episteme e da metodologia da práxis benincaniana, ampliando e agregando outras possibilidades de exploração, significação e investigação acerca da formação do professor e de sua prática docente sob uma perspectiva crítica e emancipatória.

No texto A Práxis dialógica benincaniana: da teoria e da prática pedagógica, Jerônimo Sartori ressalta que a práxis na perspectiva benincaniana fundamenta-se na ação educativa dialógica, a qual se estabelece na relação entre a teoria e a prática pedagógica.

O autor ressalta que a práxis abordada tem suas raízes no trabalho de docente e de pesquisador de Benincá, que em sua trajetória no campo da educação empenhou esforços para entender qual a orientação teórica que embasa a prática pedagógica dos professores. A teoria benincaniana olhada a partir da escola e da sala de aula emerge de um ato político e ético, compromissado com a observação, o registro e a reflexão crítica acerca de práticas pedagógicas de professores e de seus posicionamentos teórico-metodológicos, bem como das concepções que se entrecruzam no ato de ensinar e de aprender, e dos modos de teorizar a própria prática. Ressalta o autor que a metodologia de estudos adotada e orientada por Benincá no grupo de pesquisa: Teoria e prática pedagógica, permitiu-lhe adentrar em diferentes possibilidades para produzir conhecimentos, tomando a sala de aula como “laboratório experimental” para a potencializar o diálogo em prol da teorização da própria prática pedagógica.

No texto A práxis dialógica benincaniana na construção do Projeto Político Pedagógico (PPP) na Escola Menino Jesus, Altair Alberto Fávero, Claudia Toldo Oudeste e Elci Favaretto tematizam e rememoram a presença da práxis dialógica benincaniana na construção do Projeto Político Pedagógico (1994/1995) na Escola Notre Dame Menino Jesus/Passo Fundo. O objetivo do texto é mostrar de que forma a assessoria realizada pelo professor Elli Benincá, na elaboração do referido Projeto, evidencia os princípios de uma práxis dialógica. Para a elaboração do texto, além dos escritos de Benincá, os autores utilizaram os registros dos integrantes da equipe pedagógica que participou do referido processo e as recordações dos participantes. Na percepção dos autores, nas ações de assessoria prestadas pelo professor Benincá, materializam-se os seguintes princípios dialógicos: escuta, registro, reflexão, estudo compartilhado, trabalho coletivo, tempo de convivência, sentimento de pertencimento, compromisso e confiança na potencialidade do grupo.

Partindo da questão: Por que eles (elas) não falam? Proposições pedagógicas no enfrentamento da cultura do silêncio Elisa Mainardi e de Eldon Henrique Mühl reexaminam uma experiência vivenciada em meados dos anos de 1990, por ocasião do acompanhamento de Elli Benincá a um projeto assessorado pelo Centro Regional de Educação (CRE) da UPF em uma instituição de assistência social, envolvendo gestores, funcionários e monitores que atendiam crianças e adolescentes no contraturno do período escolar. Isso ocorria em núcleos localizados em diversos bairros periféricos da cidade de Passo Fundo, com o intuito de promover a discussão e a elaboração do Plano Político Pedagógico, de forma participativa e colaborativa, tendo por referência os estudos de Benincá. A proposição do projeto foi uma iniciativa oriunda do estágio supervisionado do Curso de Pedagogia. Os autores buscam destacar algumas nuances do processo vivenciado, especialmente as contribuições de Elli Benincá na compreensão e reflexão acerca dos conflitos pedagógicos e encaminhamentos metodológicos adotados no decorrer deste processo.

Com o texto Docência e formação humana: sobre formar(-se) na práxis pedagógica, Elcio Cordeiro, Rudinei Balbinot e Altair Alberto Fávero analisam a docência universitária e todo o complexo de sujeitos como personagens vivas, formando-se humana e profissionalmente na busca do bem comum, indicando que a área da educação se amplia na trama da organização social e política.

Para os autores, é possível analisar a docência universitária como espaço de estudo e projetar nesta arquitetônica, vias que possibilitam, na práxis pedagógica, a metamorfose da educação universitária e a formação humana. Nesse sentido, trabalham com a hipótese de que a práxis pedagógica universitária, antes de ser uma ação de capacitação e treino profissional é um espaço-tempo de autorreflexão e autoformação, onde se forja tanto na vida como na profissão, em diálogo com a tradição. Refletir a própria prática é a virada de chave para um docente comprometido com o quefazer formativo e de que existem muitas maneiras de aperfeiçoar a práxis docente, uma delas, pode ser a práxis dialógica, como propõe o pedagogo, filósofo, teólogo e professor Elli Benincá.

Em Trajetórias formativas e aprendizagem docente: o transformador encontro entre professoras e um mestre, Flávia Eloisa Caimi e Rosane Rigo de Marco revisitam a trajetória de formação docente de um grupo de professoras da educação básica e do ensino superior que, no diálogo amoroso e rigoroso entre si e com o Professor Elli Benincá, tomaram o cotidiano escolar/acadêmico como ponto de partida da prática pedagógica, transitando por diferentes e necessários campos teóricos e metodológicos que lhes facultassem um olhar reflexivo e um fazer humanizador/transformador da docência.

O capítulo intitulado Pesquisar e formar-se colaborativamente: pistas para desenvolvimento de uma formação contínua, José Jackson Reis dos Santos e Lorita Maria Weschenfelder, refletem sobre a construção e o desenvolvimento de processos formacionais, tendo como principal referência a abordagem colaborativa, mobilizada, sobretudo, com base no pensamento de Elli Benincá (1936-2020) e Paulo Freire (1921-1997). Santos e Weschenfelder abordam a colaboração entendida como práxis pedagógica e argumentam a favor de uma formação contínua implicada com as realidades sociais e educacionais, numa perspectiva crítica e emancipatória. Convocam os(as) leitores(as) a um processo de reconstrução dos modos de pensar-fazer pesquisa científica, problematizando e situando caminhos outros na construção do conhecimento.

Que em 2026 e nas próximas décadas possamos avançar, com coragem e determinação, na continuidade do legado de Elli Benincá, este grande mestre inspirador que nos presenteou com uma forma peculiar de tratar a formação humanizadora por meio da pedagogia da práxis dialógica benincania. Reforço o convite do lançamento da obra no dia 20 de março de 2026, às 14 horas, de forma presencial e transmitido pelo canal do youtube   do Gepes, no auditório do PPGEdu da UPF.

Referências:

FÁVERO, Altair Alberto; BIANCHETTI, Lucídio. Práxis dialógica benincaniana: memórias e experiências formativas. Passo Fundo: Editora UPF, 2025. Link de acesso gratuito: https://www.researchgate.net/publication/395830499_Praxis_dialogica_benincaniana_memorias_e_experiencias_formativas

Autor: Altair Alberto Fáveroaltairfavero@gmail.com Curso de Filosofia, Mestrado e Doutorado da UPF. Também escreveu e publicou no site “Razões e desafios para não desistir da docência”: www.neipies.com/razoes-e-desafios-para-nao-desistir-da-docencia/

Edição: A. R.

Cada livro que chega a uma criança é uma porta que se abre!

Neste último dia 12 de dezembro de 2025, a APL (Academia Passo-Fundense de Letras) realizou Sessão Solene de Encerramento do Ano Acadêmico 2025. Na oportunidade, concedeu-me Entrega de Menção Honrosa Francisco Antonino Xavier Oliveira. Sou muito grata por este reconhecimento!

Senhoras e senhores, boa noite!

Receber hoje esta homenagem da Academia Passo-Fundense de Letras é, para mim, mais do que um reconhecimento. Eu poderia dizer que é uma honra – e de fato é – mas, antes de tudo, é profundamente simbólico para a trajetória de uma mulher que, na infância e na adolescência, não teve acesso à leitura e à literatura da forma como sempre sonhou.

Estar aqui hoje, neste espaço que celebra os livros, os autores, a imaginação e a memória da nossa cidade, é como fechar um ciclo e, ao mesmo tempo, abrir muitos outros.

Quando eu era criança, os livros eram um mundo que eu via de longe. Faltavam bibliotecas perto, faltavam recursos, faltavam oportunidades. E, ainda assim, sobrava vontade. Vontade de ler, de conhecer outras realidades, de colocar os pés para além das fronteiras do bairro, da cidade, do país, por meio das páginas de um livro. Estar aqui hoje, sendo homenageada por uma instituição que existe justamente para promover a literatura, a cultura e o pensamento, tem um sentido muito especial. É como dizer para aquela menina lá de trás: “Nós conseguimos. E não sozinhas: caminhamos junto com muita gente”.

Posso dizer, com certeza, que um dos momentos mais emocionantes do meu mandato foi ver a impressão de tantas obras literárias viabilizadas com recursos de emenda impositiva destinada à Academia Passo-Fundense de Letras. Ver esses livros ganhando forma, saindo do projeto para a folha impressa, foi como assistir ao nascimento de muitas sementes. Sementes que vão germinar em escolas, bibliotecas, salas de aula, clubes de leitura, nas mãos de professoras, estudantes, leitoras e leitores de todas as idades.

Para mim, poder contribuir com os trabalhos da Academia é uma alegria e também uma grande responsabilidade. Porque não se trata apenas de apoiar uma entidade; trata-se de olhar para o povo de Passo Fundo e, em especial, para as nossas crianças e adolescentes, e dizer: vocês importam, os sonhos de vocês importam, a imaginação de vocês importa.

Cada livro que chega a uma criança é uma porta que se abre. É a possibilidade de ela se reconhecer em uma história, de descobrir que pode ser protagonista da própria vida, de entender melhor o mundo e de também desejar transformá-lo.

Vivemos, recentemente, um período duro no Brasil, marcado pela negação da cultura, pelo ataque às artes, ao pensamento crítico e pela tentativa de substituir o diálogo e o respeito por ódio e intolerância. Esse ciclo deixou marcas profundas, mas também reforçou em nós a certeza de que a cultura é um campo de disputa fundamental. Por isso, ver hoje a Academia Passo-Fundense de Letras forte, atuante, produzindo, publicando, promovendo encontros, debates, lançamentos e ações com a comunidade é motivo de grande alegria e alívio. É a prova de que a cultura resiste, renasce e se reinventa.

Estar aqui nesta noite, ao lado de escritoras, escritores, acadêmicas, acadêmicos, amantes da literatura, é também reafirmar o meu compromisso de seguir caminhando junto com a AP Letras. Enquanto eu tiver mandato, enquanto eu tiver voz, vocês podem contar comigo para defender a cultura, o livro, a leitura, a educação e o acesso democrático ao conhecimento. E mesmo para além do mandato, a literatura seguirá sendo uma causa que eu abraço com o coração inteiro.

Agradeço profundamente por esta homenagem, que recebo com gratidão, humildade e emoção. Que possamos seguir juntas e juntos, fazendo de Passo Fundo um município em que cada criança, cada jovem, cada pessoa trabalhadora possa encontrar, em um livro, um abrigo, uma pergunta, um caminho e, quem sabe, uma nova possibilidade de futuro. Muito obrigada, de coração.

Autora: Eva Valéria Lorenzato. Também escreveu e publicou no site “As mulheres e a política”: www.neipies.com/as-mulheres-e-a-politica/

Edição: A. R.

A história de “Dona Marcela”

Marcela recebeu uma homenagem da prefeitura. Ao subir ao palco, disse apenas:

— Obrigada. O maior prêmio é saber que ainda temos um propósito. A felicidade não vai embora com a juventude — vai embora quando deixamos de amar.

— Desculpe… para onde está me levando? — perguntou a mulher baixinho, olhando confusa pela janela do carro.

— Dona Marcela, chegamos. Este é o lar de idosos “Santa Ana”. A partir de hoje, a senhora vai ficar aqui.

— Ficar aqui? — a voz dela tremia. — E a minha filha? Ela não vem?

— Disse que vai telefonar — respondeu o motorista, colocando no chão uma pequena bolsa com um casaco, uma escova e uma fotografia antiga.

— Muita saúde, dona Marcela. A senhora vai se sentir bem aqui.

O carro partiu. Marcela ficou sozinha, com o vento frio acariciando-lhe o rosto úmido.

Na porta, uma mulher de bata azul a esperava.

— Seja bem-vinda, dona Marcela. Eu sou Nicoleta, enfermeira aqui. Venha, vou levá-la para o seu quarto.

— Quarto? Eu tinha uma casa… um jardim… e flores…

— Aqui também vai ter flores, vai ver — respondeu Nicoleta com doçura.

O quarto era pequeno, mas limpo. Na cama ao lado dormia uma senhora idosa.

— O nome dela é tia Ileana — explicou Nicoleta. — Fala pouco.

— Tudo bem — sorriu Marcela. — Eu nunca fui boa em ficar calada.

Os dias passavam devagar. Os moradores eram silenciosos, cansados, cada um com suas lembranças. Alguns esperavam visitas que nunca chegavam, outros viviam apenas do passado. Mas Marcela não sabia ficar parada. Certa manhã, pediu uma pá.

— O que vai fazer, dona Marcela? — perguntou o porteiro.

— Preciso de um pedaço de terra. Quero plantar flores.

E plantou: hortelã, manjericão, calêndulas.

— Aqui vai ser a nossa primavera — dizia às outras. — Se não temos o que esperar, vamos esperar florescer.

Algumas semanas depois, o pátio cheirava a vida.

Um dia, tia Ileana sussurrou:

— Cheira à infância…

— Sim, minha querida. À infância e a Deus — respondeu Marcela.

Daquele dia em diante, Ileana voltou a falar.

Marcela foi falar com a diretora:

— Deixe-nos fazer uma pequena oficina de costura e histórias. Todo mundo tem uma história. Se a gente não contar, ela morre com a gente.

A diretora sorriu.

— Está bem, dona Marcela. Se conseguir reunir o pessoal, eu arranjo os materiais.

E conseguiu. Poucos dias depois, a sala de jantar estava cheia de vozes, risos e linhas coloridas.

— Eu fui costureira em Iași! — dizia uma.

— Eu fazia roupas para artistas! — acrescentava outra.

Marcela ria:

— Viram? Ainda estamos vivas. Temos mãos, temos coração. Só faltava vontade.

A primavera verdadeira chegou. O lar estava diferente: flores por toda parte, paredes pintadas, rostos sorridentes. Na porta, um poema de Marcela dizia:

“Não importa onde é a tua casa,

importa ter alguém que te escute,

e um pedaço de céu onde possas dizer ‘obrigado’.”

Num domingo, um carro elegante parou em frente ao portão. Dele saiu uma mulher jovem, elegante.

— A minha mãe está aqui. Marcela Ioniță.

Marcela estava no jardim, regando as flores.

— Irina…

— Mamãe… vim te levar para casa.

— Para casa? — sorriu. — Eu já estou em casa.

— Mamãe, me perdoa… achei que estava fazendo o melhor.

— Você fez o que sabia, minha filha. Mas veja — essas pessoas não têm mais ninguém. Se eu for embora, quem vai regar as flores delas?

— Mas você não é obrigada a cuidar delas, mamãe.

— O amor não é obrigação, Irina. É presente.

Irina olhou ao redor: flores, paz, sorrisos.

— É bonito aqui, mamãe.

— É. E o mais bonito é que eu achava que a vida tinha acabado… e ela só estava começando.

Desde então, Irina vinha todos os fins de semana. Trazia frutas, doces, roupas. Marcela a apresentava com orgulho:

— Esta é a minha filha. Ela me ensinou que não devemos ficar magoados com quem nos deixou. Devemos apenas mostrar que ainda sabemos ser felizes.

Com o tempo, a diretora lhe disse:

— Dona Marcela, todos aqui a amam. Queremos que seja coordenadora das atividades.

— Eu? Com setenta e três anos? — riu ela.

— Sim. A senhora é a alma deste lugar.

E assim, ela se tornou “Dona Marcela” — a mulher que trazia esperança. Escrevia poemas, preparava chá de hortelã, organizava noites de canções.

— De onde vem tanta força? — perguntou Nicoleta.

— Das lágrimas que decidi não chorar. Transformei-as em sorrisos.

Três anos depois, o lar “Santa Ana” não era mais um lugar de solidão, mas de vida. Os jornais escreveram: “Os idosos que renasceram graças a uma mulher simples.”

Marcela recebeu uma homenagem da prefeitura. Ao subir ao palco, disse apenas:

— Obrigada. O maior prêmio é saber que ainda temos um propósito. A felicidade não vai embora com a juventude — vai embora quando deixamos de amar.

Numa manhã, Marcela partiu serenamente, enquanto dormia. Na mesinha de cabeceira, um bilhete dizia:

“Não chorem.

Fui apenas regar as flores do outro lado.

Cuidem uns dos outros.

O amor nunca se aposenta.”

Irina encontrou o bilhete e chorou — não de tristeza, mas de gratidão. Continuou o que a mãe havia começado: visitava, ajudava, trazia flores e histórias.

E assim, uma mulher simples, esquecida, tornou-se o início de uma nova vida para muitas almas. Porque às vezes não é preciso mudar o mundo inteiro.

Basta regar uma flor.

E um coração.

(Autoria desconhecida)

Autoria creditada a Catequista em missão: Cristiane Dre Bobko: https://www.facebook.com/catequistaemmissao

Edição: A. R.

A árvore

Precisamos desenvolver na criança, no jovem, no adulto a conscientização sobre a importância da árvore como guardiã da vida equilibrada onde ele se encontra: no jardim, no pátio, no bosque, na beira dos rios, na praça pública, nas calçadas das ruas…

A árvore na natureza é um ser vivo, que pode ser considerada gênio maternal, criada pelo poder divino e que tem inúmeras atribuições para contribuir com a vida do ser humano. Ela fortalece o solo com suas raízes, estabiliza as fontes naturais de água, purifica o ar, realizando a fotossíntese, em contato com o sol, ameniza o calor, pois, oferece sombra acolhedora que refresca a brisa, melhorando a sensação do clima, além de embelezar os espaços onde se encontre. Ela tem vida ativa tanto dentro do solo, com suas raízes, como fora do solo, com seu tronco, galhos, folhas, flores e frutos.

Em Porto Alegre, no Bairro Independência, a rua Gonçalo do Carvalho é totalmente arborizada e consideradas uma bela rua. No forte do verão, na capital gaúcha, a temperatura nesta rua é de 5 a 6 graus menor do que as ruas sem árvores, onde predomina o concreto armado … as árvores nativas, quando são naturais de um eco sistema, podem ser usadas para recuperação de áreas degradadas ou preservação permanente, paisagismo, arborização urbana entre outras atividades, de acordo com a necessidade do local.

Precisamos desenvolver na criança, no jovem, no adulto a conscientização sobre a importância da árvore como guardiã da vida equilibrada onde ele se encontra: no jardim, no pátio, no bosque, na beira dos rios, na praça pública, nas calçadas das ruas…

A árvore pau-brasil que simboliza nossa nação está criticamente em risco de extinção no país. Ela é o símbolo oficial do Brasil, de acordo com a Lei Federal 6.607 de 7 de dezembro de 1978, que declara, também que este é o dia oficial da árvore pau-brasil. No entanto, o ipê de flor amarela é reconhecido, internacionalmente, como a árvore que representa nosso país no exterior, pois, ele está presente em todas as regiões do Brasil e a sua flor amarela é considerada a flor símbolo de nossa pátria, por decreto de 27 de junho de 1961.

No Rio Grande do Sul, a erva-mate é considerada a árvore símbolo do Estado, conforme lei 7.439 de 18 de dezembro de 1980. Ela pode atingir doze metros de altura, tem caule cinza e folhas ovais, frutos pequenos verdes ou vermelhos arroxeados. A planta se reproduz através das fezes dos pássaros. Quando pequena a árvore é muito sensível ao sol. Suas folhas são usadas como chá mate, quente ou gelado e chimarrão.  A flor símbolo do Rio Grande do Sul é o Brinco de Princesa. As árvores nativas do Estado são: Ipê Amarelo, Cedro Rosa, Cerejeira, Butiazeiro, Jerivá e Araucária.

O pau-brasil, a erva mate, o ipê amarelo e a trepadeira brinco de princesa deveriam estar presentes em todos os pátios das escolas gaúchas com a devida identificação para que crianças, jovens e professores visualizassem se conscientizassem da importância da preservação da natureza como fonte da vida harmônica.

As secretarias municipais do meio ambiente deveriam introduzir estas e outras árvores nativas nas praças, ruas, parques, buscando, de forma organizada, restabelecer o equilíbrio da natureza para começar a reverter e amenizar o problema climático difícil que está ocorrendo por causa da degradação da natureza.

Reflitamos sobre a simbologia da árvore de natal para melhor compreendermos o valor desta planta. Ela traz tradições e símbolos antigos que representam vida, esperança, continuidade, proteção.

Antes do Cristianismo, no hemisfério norte, costumavam decorar árvores durante o solstício de inverno, pois lá o pinheiro continuava verde mesmo no frio mais intenso, é a vida que resiste e celebra a esperança em melhores dias no futuro. No cristianismo é a promessa de renovação trazida pelo nascimento de Jesus.

O pinheiro tornou-se mais usado porque é uma árvore perene, fica verde o ano todo e representa imortalidade, fé e esperança. As luzes representam a luz espiritual, celebração da vida; as bolas coloridas simbolizam as frutas, as estrelas lembram a estrela de Belém; laços e fitas representam a união fraterna que deve existir entre todas da família.

A presença da árvore de natal renova as energias, fortalece os vínculos, proporciona reflexão sobre o ciclo que se encerra, gratidão pelas conquistas e esperança pelo novo ciclo. É um símbolo universal de celebração no lar, convite ao acolhimento, paz e concórdia.

Para finalizar nossas reflexões sobre o tema, evocamos Olavo Bilac no poema Velhas Árvores que tão bem canta a preciosidade desta planta que é nossa companheira da vida, doada por Deus para nos secundar na natureza.

Olha estas velhas árvores, mais belas

Do que as árvores moças, mais amigas,

Tanto mais belas quanto mais antigas,

Vencedoras da idade e das procelas…

O homem, a fera e o inseto, à sombra delas

Vivem, livres da fome e de fadigas:

E em seus galhos abrigam-se as cantigas

E os amores das aves tagarelas.

Não choremos, amigo, a mocidade!

Envelheçamos rindo. Envelheçamos

Como as árvores fortes envelhecem,

Na glória de alegria e da bondade,

Agasalhando os pássaros nos ramos,

Dando sombra e consolo aos que padecem!

Leia também: As arvores são guardiães das histórias dos nossos ancestrais: www.neipies.com/as-arvores-sao-guardiaes-das-historias-dos-nossos-ancestrais/

Autora: Gladis Pedersen. Também escreveu e publicou no site “A linguagem simbólica das parábolas de Jesus”: www.neipies.com/a-linguagem-simbolica-das-parabolas-de-jesus/

Edição: A. R.

A buzina na cidade: um grito de ansiedade

Quando o urbano for igual ao afetivo-humano não haverá mais a necessidade de gritar com o outro para sair da frente porque está estorvando a locomoção. Urge humanizar as praças das cidades para que cumpram seu desígnio do encontro gratuito e gerar afinidades.

A cidade é o lugar da proximidade e das mil e umas procuras. É também o lugar da satisfação e das facilidades, pois tudo está ao alcance das mãos e dos olhos, isto é, no mesmo local geográfico.

A busca frenética que move a todos para obter tudo o que se encontra na cidade faz as pessoas acelerarem os passos, com o intuito de não perder a vez no desejo de adquirir o produto almejado. A procura pelos serviços oferecidos na cidade impele as pessoas para o aceleramento no atendimento de suas demandas, desde as redes de mercados até os serviços burocráticos para organizar a vida jurídica e a normatividade social das convivências.

A cidade é um espaço planejado e construído para atender as necessidades das pessoas. Portanto, a cidade é um aglomerado de demandas onde são transformados em serviços e estão à pronta entrega, na relação de oferta e procura.

É nesta correria, para dar conta das várias demandas impostas às pessoas que fazem o trânsito ser um espaço de disputa de lugar. E quando o trânsito não flui com a velocidade exigida, logo se ouve o grito de ansiedade e quase desesperado das buzinas. Esta gritaria das buzinas nas ruas da cidade é causa dos nervosismos que muitas vezes acaba em violência, ceifando a vida de muitas pessoas que morrem prematuramente, única e exclusivamente por falta de paciência no trânsito.

A pedagogia urbana nos ensina: “que é melhor perder um minuto na vida do que perder a vida em um minuto”.

A lei da física denota uma verdade cristalina qual seja, “dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar e o mesmo espaço ao mesmo tempo”. A cidade, sendo o espaço do aglomeramento de muitas pessoas, exige que essa lei da física seja cumprida à risca pelos transeuntes das metrópoles para evitar as trompadas físicas. Há motoristas que pensam que o outro condutor que está à sua frente é um estorvo no trânsito. Não há ruas para um carro só, mas somente uma rua para muitos carros e outros meios de transportes que necessitam do mesmo espaço para trafegar.

O tráfego na cidade não é feito só para as máquinas motorizadas. Há os milhares de pedestres, motociclistas, bicicleteiros, carroceiros e alhures que necessitam e têm o mesmo direito de trafegar nas ruas das cidades. O problema maior é que muitos motoristas acham que, pelo fato de possuírem um carro mais potente e veloz tem a preferência no trânsito. É aqui que nasce a maior parte dos conflitos e até as desavenças por causa da falta de paciência para esperar os ritmos de cada transeunte.

A buzina é uma invenção maravilhosa, com a finalidade primeira de alertar e de “avisar” aos demais que estão motorizados que próximo dali há outra máquina. A buzina só tem a finalidade de dar o alerta e nunca deveria ser usada para agredir e “xingar” os outros no trânsito. Quando a buzina passa a ser a extensão do nervosismo dos condutores de veículos, o espaço urbano se transforma numa agitação neurótica insuportável.

O interessante é que o conceito urbano significa exatamente o civilizado. E a cidade vem da palavra “pólis” que significa a capacidade de viver juntos na mesma área geográfica.

Por isso a cidade é o lugar da proximidade, da pluralidade das várias iniciativas. Mas a cidade tem uma regra comum: a convivência, o respeito e a solidariedade com o próximo.

A cidade gradativamente foi perdendo esta característica original. Muitas vezes o que se percebe na cidade são os medos e a impaciência generalizados. A proximidade ao invés de criar laços de confiança, o que se percebe nas “pessoas urbanizadas” é o medo de se misturar com o diferente. Este medo do outro faz com que se mude a cada dia a estrutura das cidades, com fabricação da parafernália de aparelhos de “segurança” de toda a espécie. Essa segurança aparece nas construções de muros altos, cercas elétricas, alarmes com infravermelhos monitorados por controles remotos.

O “grito” das buzinas é o resultado deste medo de se misturar ou de “perder a vez do lugar”. Assim, nossos centros urbanos não têm grupos afins, mas multidão que se desloca de um local para outro sem levar em conta o que está ao seu lado. O negócio é ir e não se encontrar. O “encontro atrapalha” o movimento urbano. Por isso quanto mais se corre na cidade, mais ela se torna dinâmica, mesmo que para isso tenhamos que flagelar o corpo, no corre-corre. Para constatar esta realidade basta observar os rostos das pessoas, sejam elas motoristas ou pedestres, normalmente estão com o corpo rígido e com o semblante contraído como alguém que está assustado com um perigo iminente.

A cidade sempre foi o lugar de se fixar residência. A saída do campo para cidade e vice versa, é uma constante trajetória da humanidade. O ser humano sempre está em busca de se fixar, isto é, habitar para conviver. Se a busca primordial do ser humano é a convivência social, a cidade nasce como uma organização humana para responder a este anseio de solidariedade orgânica e não mecânica.

Quando o urbano for igual ao afetivo-humano não haverá mais a necessidade de gritar com o outro para sair da frente porque está estorvando a locomoção. Urge humanizar as praças das cidades para que cumpram seu desígnio do encontro gratuito e gerar afinidades. É por isso que a nervura política se concentra na cidade como mediação para organizar a urbanidade em convivência fraterna.

A cidade está perdendo esta dimensão e com isso não está mais cumprindo a sua missão de gerar a convivência pública. A maioria das cidades deixou de ser civilizada e se transformou num acampamento urbano, com intrigas e rusgas entre os vários grupos.

Urge criar uma nova mentalidade urbana a fim de que haja a tranquilidade dos habitantes citadinos. A tarefa mais urgente é criar uma boa convivência entre os automóveis e o ser humano com o objetivo de transformar nossas ruas e avenidas em lugar de jardim e de harmonia. Aí, sim, a buzina vai ser um sinal de cumprimento e atenção a quem passa do lado.

O adágio popular ensina: “a pressa é inimiga da perfeição”. Todos respeitando as regras do trânsito sem o “grito da buzina” tornaremos o urbano espaço da civilidade e a cidade o lugar da vida boa.

Autor: José André da Costa. Também escreveu e publicou no site “Ansiedade: a palavra síntese eleita em 2024”: www.neipies.com/ansiedade-a-palavra-sintese-eleita-de-2024/

Edição: A. R.

Mesmo na idade que tenho, preciso de um farol

Sim, preciso de um farol que me oriente o caminho… Pensava que essa necessidade era para quando jovem. Com o passar dos anos e com a experiência acumulada, seria eu meu próprio farol.

É fato, mas só em parte. Cada fase da vida tem suas peculiaridades. Que bom quando podemos contar com as “dicas” de quem já a viveu.

Sempre me interessei por faróis de pedras, de tijolos e cimentos. Não só pela beleza, localização e a luz que via mesmo estando muito longe deles.

Alguns parágrafos adiante vou contar do farol que está mais longe ainda: está a sessenta anos de distância. E está perto, está aqui comigo, me iluminando nos meus dias e nas minhas noites.

Graças ao Mateus Casarin consegui visitar alguns dos faróis de pedras, de tijolos e cimentos. O grupo, liderado por ele, se encontrou sexta à noite na pousada Pouso Alegre em Mostardas/RS. Na manhã seguinte começamos a encarar muita areia e dunas na direção do Farol Cristóvão Pereira nas margens da Lagoa dos Patos. A direita, a Lagoa. A esquerda, plantação interminável de pinos. Ao meio-dia, churrasco em uma fazenda. Farol de Mostardas, Farol da Solidão…

Recomendo muito. Escrevam para o Mateus: contato@rsoffroad.com.br

O outro farol, aquele a me orientar a viver a idade que tenho, encontro-o sempre.

Encontro-o nas lembranças, preciosas lembranças, do meu avô materno Armando Araújo Annes.

Quando em dúvida de que rumo tomar, dou um espiada na minha memória de seus últimos anos.

Como ele fez? Como eu devo fazer?

Posso gostar da vida até seus últimos momentos? Sim. Ele gostou.

Não podia mais subir no telhado para encher a caixa d’água, mas podia aproveitar pequenas coisas. Pequenas grandes coisas.

Quando escrevia o roteiro do filme “Delicadezas”, me veio a lembrança dos faróis.

E foi assim que incluí: “Quem nesta vida não precisa de um farol para indicar o caminho. Nem que seja um velho farol…”

“Delicadezas” já estreou no CINELASER do Passo Fundo Shopping neste último mês de setembro.

Trailer: https://youtu.be/yqu8DC28ffY

Autor: Jorge Alberto Salton. Também escreveu e publicou no site “Há um fantasma dentro de nós”?: www.neipies.com/ha-um-fantasma-dentro-de-nos/

Edição: A. R.

Por onde você andava enquanto os sabiás não cantavam?

Chopping wood with axe illustration

“Quando o machado entrou na floresta, as arvores disseram: o cabo é um dos nossos.” (Provérbio turco)

O dia amanheceu lindo!

Parece que nestas manhãs, nossos desejos já despertam atendidos.

Assim vinha eu caminhando pela Brasil Oeste, sentido centro, seguindo o contrafluxo onde andava pelos anos 70, a partir do centro, vindo para o IE.

A avenida era muito grande para os meus 18 anos.  E continua grande!  Dobrei a 20 de setembro para alcançar uma pequena fruteira na Moron e… O maior susto!

Uma camionete da Companhia de Luz. 

Não é possível!  Alguém vai perder hoje, possivelmente, muitas árvores.

Sempre elas!

Olhei para trás e vi um rastro de podas malfeitas sobre as árvores, que tiveram o azar de nascer e crescer, sob a fileira de postes: abertas, dilaceradas, podadas em V, para dar passagem a toda sorte de um emaranhado de fios, alguns soltos, outros a soltar, um desfile feio de uma fiação ultrapassada e mal planejada. Na falta de tecnologia e de boa vontade em aplicá-la ao sistema, faz-se o mais conveniente: podar…   Mais barato. Mais estúpido.

Veja você mesmo o estrago: a feiura, a agressividade que esta gente faz com as árvores nas cidades, protegidos pelo discurso que seus galhos são perigosos à rede elétrica. As árvores ficam expostas, com o seu ventre aberto, divididas, como que seus braços apontando para o céu.  Algumas ainda tiveram o acaso de crescer no outro lado da rua, escapando, temporariamente, dos engenheiros da morte ou dos vizinhos que preferem calçadas higienizadas a folhas caídas pelo chão.

Então voltaram os sabiás… Insistem em cantar, eles. Haverá um tempo em que os sabiás não cantarão, aliás. Na primavera ou em qualquer mês.

Onde você estava enquanto eles lutavam para sobreviver, comendo o que tinha pelo chão sujo de nossos bairros ou matando a sede em qualquer poça de água abandonada por aí? Perceberam que há menos deles? Muitos nem vão cantar mais, até porque galhos para pousar e cantar ficarão escassos.

Um dia teremos luz barata e farta.  Talvez não tenhamos ar para respirar, contudo.

_Mas isso é nada, dirão alguns.

_Há tantas e tantas árvores por aí.  Quem se importa por apenas algumas?

Tudo importa!

A dor para quem sente a serra e o machado é diferente de quem a produz, mas com o tempo e com os temporais medonhos que se prenunciam, mais dor se espalhará. Todos gemerão.

Um adulto de 80 kilos e saúde perfeita, importa-se muito com um pequeno espinho que tortura seu pé. E uma pequena unha que se encrava no canto do dedo, pode estragar o dia de um gigante que imagina ser o dono do seu destino.  Mas se não retirar o seu estorvo, rapidamente, o seu dia e o seu humor acabarão cedo.

E por quais razões, na natureza seria diferente? Há gritos e gemidos que se espalham pelas ruas das cidades, que já nem ligam tanto pela destruição.

Porque tudo está ligado, conectado e todas as coisas fazem sentido quando percebemos que se complementam; tanto que o resultado das árvores e da mata que se derruba na Amazônia, já respinga em nossos quintais aqui no Sul.

Se nossos olhos veem, está visto.  Mesmo que olhemos, sem ver!

Nossos sentimentos não recuam após nossos olhos denunciarem. Nós os abafamos e os justificamos, com indiferença. Como estamos parcialmente anestesiados, defendemos a ideia alienante de que, -se não cortarem o que está meu pátio, nada deve me abalar.

Você, meu leitor, conhece alguém mais perigoso para uma rua de arvores frondosas, alguém mais nefasto do que um lenhador urbano, ‘seguindo ordens’, com aqueles carros malditos? Ao soltar a escada, a agonia se inicia!

Sim, um novo modelo de carrasco da natureza, um estuprador de galhos e troncos, e outros, idiotizados, em escritórios refrigerados, empenhados em derrubar em uma manhã o que o tempo e a natureza levou 50 anos para subir.

E assim é o que somos: espectadores, assistindo com descaso o corte indiscriminado, muito mais identificados com os cabos dos machados, na ilusão de que não pertencemos a mesma espécie; agarrados em circunstâncias e pensamentos que nos destruirão mais tarde.

Quem sabe um dia, subiremos em árvores e nos amarremos a elas, impedindo que predadores urbanos usurpem de nossa paisagem e de nossa fotossíntese, com o argumento medieval de que se precisa cortar árvores em nome da segurança de fios e cabos defasados, que ganham até demais para modernizarem sua fiação elétrica… Mas não o fazem! Porque é mais fácil descer a serra e cortar galhos, ao invés de esconder estes horrendos nacos de fios pendurados em postes cansados, apontados para a incompetência de quem destrói a vida aos poucos, em nossa casa urbana.

E aí?  Vamos para a rua toda vez que a Prefeitura ligar a motoserra?  Ou vamos levar à Prefeitura galhos e troncos manchados de sangue, deixando expostos em seus gabinetes como resultado de sua ignorância?

Hoje não nos diz respeito, claro. Amanhã, ou, depois, veremos.

Voltei pela Av Brasil e desisti da fruteira.

Autor: Nelceu A. Zanatta. Também escreveu e publicou  no site “O santo mel de cada dia”: www.neipies.com/o-santo-mel-de-cada-dia/

Edição: A. R.

Bernard Charlot: uma luz em tempos de barbárie

As suas palavras são certeiras e convidativas que dispensam comentários. Que Charlot continue sendo uma luz em tempos de barbárie.

Foi com um sentimento de perda que nesta semana recebemos a notícia do falecimento de Bernard Charlot (1944-2025). Perdes um amigo, uma referência intelectual de primeira grandeza, um pesquisador ímpar para o campo da educação e das áreas afins, um pensador entusiasmado pela vida, pelo conhecimento, pela luta em prol de um mundo mais digno solidário, inclusivo e menos desigual. Tive a oportunidade de escutar Charlot em diversas ocasiões. Em todas delas, sempre a lucidez, uma fala firme e consistente, um olhar sensível sobre as problemáticas da educação e do conhecimento.

Conheço os escritos de Charlot de longa data. Ainda no período da graduação, por orientação do professor Jaime Giolo, li pela primeira vez Mistificação Pedagógica (Charlot, 2013). Depois assisti sua conferência em um evento promovido pela UPF, passei a gostar ainda mais dos seus textos.

Descobri a potência do seu pensamento nos textos que compõe sua teoria sobre a relação com o Saber: Da relação com o saber e às Práticas Educativas (Charlot, 2002), Relação com o saber, formação de professores e Globalização (Charlot, 2005), Os jovens e o saber: perspectivas mundiais (Charlot, 2001), Da relação com o saber: elementos para uma teoria (Charlot, 2008), dentre outros. Mais recentemente Educação ou Barbárie? uma escolha para a educação contemporânea (2020). Foi este último livro que me ganhou por completo e é dele que tiro a ideia expressada no título de que Charlot representa uma luz em tempos de barbárie. Na sequência, retomo os apontamentos do prefácio (Fávero, 2023) da coletânea A obra de Bernad Charlot por seus intérpretes (Cavalcanti; Rego, 2023).

Bernard Charlot certamente é um dos grandes intelectuais contemporâneos que nos ajuda a pensar não somente a pedagogia em suas múltiplas faces, mas a pesquisa em e na educação, a sala de aula, a mistificação pedagógica, as estruturas sociais, os sujeitos da educação, as práticas e desafios docentes, a relação com o saber, a globalização, a sociologia da educação, a etnografia da escola, o fracasso escolar, a violência na escola, a exclusão escolar, as contradições do trabalho docente, as antropologias do discurso pedagógico e tantos outros temas e problemas que perpassam seus inúmeros escritos publicados em artigos, capítulos de livros, entrevistas, livros autorais, relatórios, vídeos, sites e tantos veículos de informação.

Conforme nos relata Giolo (2011) numa valiosa síntese publicada num dos volumes da Coleção Pedagogia Contemporânea, das editoras Segmento e Vozes, dedicado a analisar as diversas matrizes da sociologia da educação, Charlot é parisiense de nascimento (nasceu em 15 de setembro de 1944), graduado em Filosofia em 1967, período em que realizou pesquisas no campo da epistemologia, sob a orientação de Georges Canguilhem e obteve seu título de doutorado pela Universidade de Paris 10 com a tese “Sobre a relação com o Saber” em 1985. Em 1969, como alternativa à prestação do serviço militar, Charlot optou por realizar um trabalho docente na Universidade de Túnis, na Tunísia. Giolo (2011) menciona que, segundo depoimento dado por Charlot numa entrevista na Revista Espaço Pedagógico da Universidade de Passo Fundo (vol. 10, n. 2, 2003, jul.-dez.), a sala de aula foi seu grande desafio intelectual.

Quando chegou na Universidade de Túnis e deparou-se com uma turma de alunos que já eram professores, sentiu o chão abrir-se diante de seus pés. Em suas palavras: “Nunca tinha ensinado. Nunca tinha estudado pedagogia”. A constatação deste problema transformou-se rapidamente numa mobilização em direção à pesquisa educacional, resultando num processo intenso de estudo compartilhado com os próprios alunos, relacionando elementos teóricos com as experiências dos seus estudantes. Desse processo de confrontação entre teoria e prática, Charlot constatou “um nó difícil de desatar (nó ainda presente para quem educa e aprende): a defasagem entre o discurso pedagógico e a realidade social” (Giolo, 2011, p. 31).

No retorno à França em 1973, ao assumir a disciplina de psicopedagogia na École Normale, onde ocupou-se com a formação de professores especializados em alunos em situação de fracasso escolar, Charlot constatou o mesmo problema encontrado no trabalho realizado na Universidade de Túnis, o qual se misturava com outros problemas tais como “o fracasso escolar e a dominação de classe” (Giolo, 2011, p.32). O estudo dessa problemática leva Charlot a publicar diversos artigos no início da década de 1970, e se dedicar, de forma mais sistemática, ao trabalho de produção do livro Mistificação pedagógica: realidades sociais e processos ideológicos na teoria da educação (Charlot, 2013). Esta importante obra, traduzida para o português em 1979, se soma a outros estudiosos franceses da época (George Snyders, Pierre Bourdieu, Roger Establet, Christian Baudelot, dentre outros), os quais realizam uma ampla e radical análise crítica do pensamento pedagógico e da função do aparelho escolar.

Conforme ressalta Giolo (2011, p. 34, Mistificação pedagógica “procura mostrar como o discurso pedagógico é mistificador na medida em que, ao falar de tudo sobre a educação esconde que sua referência fundamental é o mundo social e, especialmente, o mundo do trabalho”.

O livro, em largos traços, mostra que a educação é política e, portanto, não é neutra, pois é um ato político que se efetiva, na interpretação de Giolo (2011), em quatro sentidos:

a) “transmite modelos sociais que são diferentes para cada grupo social”;

b) “forma a personalidade com base em normas e valores presentes na própria estrutura social”;

c) “difunde ideais políticas com as quais a classe dominante consegue fazer passar como legítimos os seus ideais de vida social”;

d) “a educação é encargo da escola que é, como tantas outras, uma instituição social que se move no campo das regras gerais da sociedade” (Giolo, 2011, p.34).

A mistificação pedagógica consiste justamente na redução do social ao individual, ou seja, no processo de retirar os estudantes das contradições e conflitos do cotidiano e inseri-los num ambiente cultural, abstrato, puramente abstrato, protegido do mundo. Trata-se, portanto, para usar uma expressão de Jean Chateau, de um “desvio educativo” que consiste em dar as costas ao mundo, para depois, melhor servi-lo, ou seja, “o indivíduo é a realidade fundante da vida social” (Giolo, 2011, p.34).

Com propostas para uma pedagogia social, Charlot contrapõe-se ao “desvio educativo”, pois para ele é fundamental que ocorra uma mediação entre o mundo real da criança e o mundo social, ou seja, a cultura é antes de tudo uma prática de socialização e formação da personalidade social das novas gerações.

Nesse sentido, a luta coletiva na escola deve ser contra a lógica de funcionamento da estrutura social para evitar o fracasso escolar programado que se materializa quando as classes populares são mantidas num nível muito baixo de apropriação da cultura e do conhecimento historicamente elaborado. Isso não significa que não possa haver êxitos paradoxais ou fracassos paradoxais, pois “o sujeito é um ser de desejo e como tal interpreta o mundo, busca um sentido, age” (GIOLO, 2011, p.37). É este desejo e sentido que produz “mobilização”, esforço, envolvimento e atitude na realização de toda e qualquer atividade. Conforme ressalta Giolo (2009, p.20), Charlot prefere o conceito de “mobilização” ao conceito de “motivação”, pois o primeiro “tem a ver com uma atitude interna do sujeito, assentada em expectativas próprias e em desejos”, enquanto que “motivação define-se, preferencialmente, como uma ação externa”.

A “teoria da relação com o saber”, segundo a interpretação de Giolo (2011, p. 40) é “a menina dos olhos de Charlot” da qual é possível definir alguns elementos importantes:

1) “o ser humano nasce inacabado e, portanto, aprender é uma atividade central da espécie humana”, ou seja, o ser humano não nasce pronto, mas traz consigo potencialidades múltiplas que podem ser desenvolvidas por meio da educação;

2) “a humanidade não é uma essência individual”, mas é resultante de processos históricos e culturais elaborados pela humanidade e que a educação possibilita a apropriação do patrimônio humano da espécie (humanização), pelo ingresso numa cultura (socialização) e pela construção do eu (singularização);

3) “a relação com o saber é sempre, também, uma relação com o mundo, com os outros e consigo mesmo”, ou seja, a relação com o saber não se limita a uma dimensão cognitiva, pois é também incorpora elementos dos contextos, das convivências e das experiências singulares e/ou coletivas;

4) “há várias formas de aprender”, também chamadas de “figuras do aprender”, tendo em vista que o resultado deste processo se traduz em saberes, conceitos, enunciados, comportamentos, atitudes, ações e práticas;

5) “aprendem-se na escola coisas que não podem ser aprendidas em outros lugares”, e por isso a escola é importante e fundamental principalmente para as camadas menos favorecidas que pode significar profundas e radicais transformações das subjetividades;

6) “a transformação da escola passa por superar o desafio de criar as condições para que os alunos”, de modo espacial das classes menos favorecidas, daqueles que não teriam condições de ter acesso ao saber historicamente elaborado se não fosse a escola pública; estes, na maioria das vezes, operam com uma lógica distinta da lógica da escola, e por isso é necessário oportunizar condições para que “construam uma relação com o saber escolar de forma a se mobilizarem para aprender”.

Os aspectos rapidamente apresentados de forma resumida abstraídos dos distintos escritos de Charlot, indicam os desafios contemporâneos da educação.

Dito em forma de perguntas: qual o sentido do aluno ir para a escola? Qual o sentido de estuar? Como equalizar e valorizar a atividade do aluno e ao mesmo tempo transmitir o patrimônio cultural acumulado? É possível mobilizar os estudantes para o saber? Os saberes disponibilizados pela escola, fazem sentido na vida dos alunos das classes menos favorecidas? A escola deve submeter-se a lógica do mercado que exige dela a qualificação de quadros para atender os interesses do capital produtivo? São questões importantes, complexas e cruciais que Charlot se debruçou como pesquisador e que lhes possibilitaram, além da construção de reflexões potentes, indicativos oportunos para pensar nossas práticas.

Tem razão Giolo (2011, p.42) quando diz que Charlot “fez do ofício de pesquisador o meio privilegiado de contribuir com a atividade prática de ensinar e aprender e também com a atividade política transformadora”. Em seus escritos encontramos inspiração e subsídios para promover “as lutas do povo, dos trabalhadores, dos movimentos sociais, dos movimentos ecológicos, dos movimentos em favor dos direitos humanos, das minorias, dos humildes”. Sua singularidade, expressa nas distintas publicações, revela um pesquisador que acredita que a humanidade pode caminhar na direção de um outro mundo, mas que para isso são necessárias “inteligências capazes de compreender as contradições que constituem o próprio metabolismo das relações sociais” (Giolo, 2011, p.42).

Um aspecto que chama atenção nas pesquisas e escritos de Charlot, conforme bem ressalta Giolo (2011), é sua postura epistemológica e sua sensibilidade social exigida também para seus investigadores. Tal postura implica em fazer uma leitura positiva da realidade como sendo uma condição essencial para quem se engaja em equipes de pesquisa por ele coordenadas. Isso significa olhar e inquirir a realidade com a intenção de explica-la, a partir do que ela é e não por aquilo que ela não é.

Não se consegue explicar uma determinada realidade, ou mesmo a situação dos alunos, a partir de suas carências, daquilo que lhes falta. Deve-se entender o que está acontecendo, o que se está vivendo, qual a lógica inerente aos acontecimentos, quais as relações com contexto, com os outros atores, com o entorno. Isso possibilita compreender a realidade e encontrar caminhos que produzam mobilização. É esse olhar positivo sobre a realidade que possibilita avançar nas investigações no sentido de construir modelos suficientemente claros, simples e viáveis para que se realize um trabalho investigativo nos distintos campos de ação.

A vitalidade de Charlot também é algo a ser ressaltado e celebrado. No dia 15 de setembro deste ano (2022) completou 78 anos e continua com uma jovialidade de pensamento, pesquisa e escrita de causar inveja.

Um dos seus últimos livros que tive a alegria e a satisfação de ler, intitulado Educação ou barbárie? Uma escolha para a sociedade contemporânea, Charlot (2020) discute com maestria diversos aspectos que envolvem a educação contemporânea tais como: a questão antropológica no discurso pedagógico, a qualidade da educação e o problema da transparência e do controle, a questão da neurociência e a neuroeducação, as tecnologias digitais e a cibercultura, o discurso transhumanista e a serventia da pedagogia num cenário habitado por robôs, o desafio de pensar a humanidade do homem e a educação de um ponto de vista antropológico. Trata-se de uma obra de tirar o fôlego e que se torna imprescindível para todos aqueles que estão dispostos a se envolver de forma comprometida com a pesquisa em educação e a arte de educar.

A grandiosidade de Charlot fez com que em vida pudesse receber muitas homenagens. Dentre elas destaco a coletânea A obra de Bernard Charlot por seus intérpretes (Cavalcanti; Rego, 2023), publicada pela editora CRV/Curitiba e que tive a honra de prefaciar. A coletânea vem celebrou, naquele momento a vitalidade de Charlot. Os distintos capítulos que compõe a obra, o texto e o registro fotográfico de Dilson Cavalcanti sobre a cerimônia de outorga do título Doutor Honoris Causa concedido pela Universidade Federal de Pernambuco (Universidade Federal de Pernambuco), as reflexões sobre os desafios da educação na contemporaneidade tratados na entrevista concedida à Teresa Cristina Rego e Lucia Emília Nuevo Barreto Bruno (FEUSP- SP),a discussão sobre a escola do direito à diferença e do direito à semelhança elaborada por José Carlos Libâneo (Pontifícia Universidade Católica de Goiás), a análise de César Nunes (Universidade Estadual de Campinas) sobre a contribuição de Charlot para a formação do pensamento crítico dialético, as considerações de Maria Amália Santoro Franco (Universidade Católica de Santos) acerca das epistemologias da pedagogia crítica, o exame da genealogia acadêmica de Charlot escrito por Betânia Leite Ramalho (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), as reflexões registradas por Valeida Anahí Cápua Charlot (Universidade Federal de Sergipe) sobre o que chamou de contos e encontros da relação com o saber, o texto escrito por Christine Delory-Mamberger (Université Sorbonne Paris Nord – França) sobre o mundo da escola, relação com o conhecimento e figuras do eu, as ponderações sobre o aprendente, a aprendizagem e a inclusão social elaboradas por Georgios Stamelos (Universidade de Patras Grécia), as contribuições de Charlot para os estudos sobre o aprender, capítulo escrito por Soledad Varcellino (Universidad Nacional de Rio Negro – Argentina) e, por fim, uma entrevista com o próprio Charlot sobre a relação com o saber e outras questões realizada por Adriana Marrero (Universidad da República Uruguaia – Uruguai) são capítulos densos, elucidativos, provocativos que certamente auxiliarão leitores e leitoras no trabalho de aproximação ao pensamento e aos escritos deste grande mestre e exemplo para muitos de nós.

Finalizo este escrito com último parágrafo de Educação ou Barbárie que nos dá a dimensão deste grande pensador que nos deixa de seu convívio presencial, mas que se faz presente na formação de muitas gerações:

“Ocupar o mundo com humanidade e se ocupar dele, com todas as formas de solidariedade que esse conceito implica. Esse deve ser, em minha opinião, o princípio básico de uma educação contemporânea. Trata-se de educação, e educação ao humano. Aprender é necessário, mas não suficiente. Pode-se ter aprendido muitas coisas e alimentar as fogueiras da Santa Inquisição, fabricar a bomba de Hiroshima, deixar imigrantes afogarem-se no Mar Mediterrâneo ou aderir a essas outras formas de barbárie que nos propõem o pós-humanismo. Educar é educar o humano. A barbárie, sejam quais forem suas formas, incluindo muito modernas, pensa fora do humano. Educação ou Barbárie, hoje é preciso escolher” (Charlot, 2020, p.304).

As palavras são tão certeiras e convidativas que dispensam comentários. Que Charlot continue sendo uma luz em tempos de barbárie.

ASSISTA TAMBÉM:

Referências:

CAVALCANTI, Dilson; REGO, Teresa Cristina. A obra de Bernard Charlot por seus intérpretes. Curitiba: CRV, 2023.

CHARLOT, Bernard. Da relação com o saber às práticas educativas. São Paulo: Cortez, 2002.

CHARLOT, Bernard. Da relação com o saber: elementos para uma teoria. Porto Alegre: Artmed, 2008.

CHARLOT, Bernard. Relação com o saber, formação de professores e globalização: questões para a educação hoje. Porto Alegre: Artmed, 2005.

CHARLOT, Bernard. A mistificação pedagógica: realidades sociais e processos ideológicos na teoria da educação. São Paulo: Cortez, 2013.

CHARLOT, Bernard. Educação ou barbárie: uma escolha para a sociedade contemporânea. São Paulo: Cortez, 2020.

FÁVERO, Altair Alberto. Prefácio. In: CAVALCANTI, Dilson; REGO, Teresa Cristina. A obra de Bernard Charlot por seus intérpretes. Curitiba: CRV, 2023, p.13-19.

GIOLO, Jaime. Bernard Charlot: educação mobilizadora. In: REGO, Teresa (Org.). Educação, Escola e Desigualdade. Coleção Pedagogia Contemporânea. São Paulo Vozes e Segmento, 2011.

NUSSBAUM, Martha. Sem fins lucrativos: por que a democracia das humanidades. São Paulo: Martins Fontes, 2015.

Autor: Altair Fávero. Também escreveu e publicou no site “Razões e desafios para não desistir da docência”: www.neipies.com/razoes-e-desafios-para-nao-desistir-da-docencia/

Edição: A. R.

As pedras geladas e o Papai Noel

Natural disaster scene with hurricane illustration

Por que assim, Noel Papai? Presentes não esperados, não queridos, não bem-vindos. Inquietantes presentes, numa tarde de domingo que passava tranquilamente.

Para a fé cristã, é tempo de advento, de esperançar, preparar, celebrar a vinda do Messias, o Salvador. Alguns, no entanto, mais esperam pela figura folclórica do Papai Noel.

Esse ano antecipou-se? O que nos trouxe? Pedras brancas vindas com força brutal sobre a cidade. Pedras geladas e grandes. Por que Papai Noel essas pedras assim tão subitamente? Tão tragicamente, por quê? E não poupaste nem as luzes e enfeites que anunciavam a alegria de mais um Natal que se aproxima; de um Messias que vale a pena acolher. Por que assim, Noel Papai? Presentes não esperados, não queridos, não bem-vindos. Inquietantes presentes, numa tarde de domingo que passava tranquilamente.  

As telhas de barro, do barro vermelho do campo pequeno. Do Erechim, RS, que agora já é grande. Que foi planejado, construído e depois depredado. Uma pequena amostra de um cenário de guerra, como comentam moradores e passantes. Não daquelas guerras com armas de fogo. Mas, com armas das emergências ambientais. Fato ocorrido dois dias após o término da COP 30, que tratou das mudanças climáticas, uma realidade que se agrava e é repetidamente comprovada.  Quanto à COP, observou-se que houve avanços pontuais, mas, em geral, o resultado ficou abaixo do necessário.

Com o granizo, resultou que, por todas as ruas e avenidas da cidade, há amontoados de telhas perfuradas, arruinadas, descartadas, à espera de outro destino.  Erechim das pedras descidas do céu, das lonas colocadas às pressas e agora do muito aluzinco que se faz nova cobertura. Aluzinco que, embora térmico para o interior das residências, reflete uma parte significativa do calor solar de volta para o ambiente externo. E vale verificar, de ora em diante, os impactos para o microclima sobre a cidade e seus desdobramentos. Telhas de barro, de cimento amianto e de fibrocimento foram retiradas de repente. Em parte, pelas pedras geladas; o restante pela força humana aplicada mesmo a contragosto.  

As telhas mais antigas de brasilit ou eternit continham amianto (asbesto). O amianto foi proibido em todo o Brasil desde 2017, embora ainda haja disputas judiciais pela sua extração e utilização. A proibição deve-se ao fato de que a substância pode causar diversos tipos de câncer e doenças respiratórias crônicas, como a asbestose, além do mesotelioma. Deixado progressivamente de ser usado para acondicionar água e alimentos, agora foi extirpado repentinamente da cobertura de casas e de outras construções.  

Onde colocaremos tanto amianto, com seu passivo ambiental? Difícil calcular o montante. Nem a montante, nem a jusante parece ser um bom lugar. Contudo, não obstante tantos sinais, alertas e orientações, ainda há os que, à revelia de tudo, lançam esses destroços e outros detritos nos rios que já não andam limpos e nem saudáveis.

Como “implantar” educação ambiental, ou, mais adequadamente, ecopedagogias sustentáveis, em certas mentes poluídas e poluentes? Como superar essas e outras cegueiras coletivas que ainda persistem?

Os prejuízos econômicos com a recobertura de casas e estabelecimentos são de grande monta. Também com danos em veículos e perdas de plantações. De outra parte, é verdade, a solidariedade uma vez mais foi posta à prova. E foi expressiva. Segue sendo. Em muitos casos, manifesta-se mais forte que os episódios climáticos. Com jeito e sorte, os operários em reconstrução saem ilesos. Alguns, porém, dada a situação de urgência, colocam em risco a própria integridade física, ferindo-se até gravemente.

As lonas, em sua maioria, pretas, aludem aos acampamentos de sem-terra, questão histórica, polêmica e, não raro, combatida. Aqui sem telhado, muitos sem dinheiro para repor, se recompor, consertar, recomprar móveis e outros pertences perdidos. Mas, recobrir, refazer, rearrumar, proteger mais a casa particular e a Casa Comum, isso ficou novamente evidente ser necessário. Também refletir, firmar políticas públicas, acordos internacionais, compromissos empresariais, coletivos e pessoais.

Conforme relatório divulgado em setembro de 2025 pelo Instituto Potsdam para Pesquisa sobre o Impacto Climático (PIK), a Terra já rompeu 7 de seus 9 limites planetários, indicadores que medem as condições seguras do planeta. Os 7 limites já ultrapassados são: mudanças no uso da terra do planeta; mudanças climáticas; biodiversidade; ciclo do nitrogênio e fósforo; uso de água doce; poluição química por compostos como microplásticos; acidificação dos oceanos. Apenas duas fronteiras ainda permanecem dentro dos limites seguros: a carga de aerossóis (poluição do ar) e a camada de ozônio estratosférico.

Serão as emergências climáticas naturais, tão naturais como se usava falar há não muitos anos atrás?

Não, absolutamente não. Elas têm forte contribuição humana, de uns menos, de outros mais. A retirada de muita cobertura verde da Casa Comum em tantos lugares, é uma das causas de múltiplos fenômenos climáticos indesejados. Não naturalizar o que muito se repete, só pelo fato de se repetir, é o primeiro passo. E pensar mais profundo e mais largo sobre o ecocídio que nós, como humanidade, estamos produzindo. Esse é o caminho para ações e resultados mais sustentáveis. Não nos demoremos com as ações propositivas, preventivas, não negacionistas, antes que seja totalmente tarde demais. O futuro depende de outros presentes, com os quais nem nós, nem Papai Noel estamos contentes!

Autor: Dirceu Benincá. Professor da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e do mestrado em Ciências e Sustentabilidade da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). Autor de diversos livros, entre os quais “Em tempos de ebulição” (2023) e “Terra Sem Males dos Males da Terra” (no prelo). Também escreveu e publicou no site “Ecologia integral: o rumo da conversão”: www.neipies.com/ecologia-integral-o-rumo-da-conversao/ 

Edição: A. R.

Ofereça à sua criança uma infância que não precisará ser curada na vida adulta

Oferecer à sua criança uma infância que não precisará ser curada na vida adulta não é concordar com tudo o que ela faz, achar bonito suas birras, sua malcriação, sua falta de educação na casa das pessoas estranhas ou quando recebemos visitas. Contudo, é proporcionar uma vida com segurança e cuidados que mostrem para ela que você estará sempre ali por perto quando precisar. Que você nunca a deixará por nada neste mundo.

Cuidemos dos instantes em que a criança começa a aprender e sentir o mundo: no abraço apertado, no olhar atencioso no gato, nos amiguinhos imaginários, no zelo com o brinquedo, no não querer ficar sozinha no escuro. É preciso saber que a criança necessita de atenção e compreensão para poder desenvolver suas habilidades cognitivas e sensoriais de uma forma saudável.

A criança que se sente cuidada e amada não tem medo de se aventurar e fazer amigos reais, ela sabe que perder faz parte da vida, que nunca vai ficar no escuro e que pode contar com seus pais ou responsáveis sempre que precisar. O amor traz confiança às crianças. Quando confiamos em alguém ao nosso lado tudo se torna mais fácil à vida.

À criança só o que importa é o amor dos adultos quando indaga, quando imagina, quando cria, quando chora, quando tem medo, quando se arrisca a subir em árvores e cadeiras. É a magia da infância entrando corpo adentro e desbravando pequenos aventureiros do tempo.

Oferecer à sua criança uma infância que não precisará ser curada na vida adulta não é concordar com tudo o que ela faz, achar bonito suas birras, sua malcriação, sua falta de educação na casa das pessoas estranhas ou quando recebemos visitas. Contudo, é proporcionar uma vida com segurança e cuidados que mostrem para ela que você estará sempre ali por perto quando precisar. Que você nunca a deixará por nada neste mundo.

Nenhum bicho papão vai levá-la de você. Assim, a criança vai crescer sem traumas e se tornará um adulto confiante nas pessoas, poderá se tornar um líder inteligente e sábio e competir sem o medo das perdas. Essa criança enfrentará as saudades e a solidão, quando adulta, de uma forma menos dolorosa.

A cada dia procure mostrar para a sua criança que você não espera nada dela senão a alegria de brincar, correr e pular quando desejar. Deixe que a sua criança imagine coisas, histórias. Tenha amiguinhos imaginários e goste de se aventurar nos contos de fadas. Já foi provado pelo psicanalista Bruno Bettelheim no seu lindo livro “A psicanálise dos contos de fadas” que eles curam e ajudam as crianças a crescerem sem medos.

Saiba oferecer para a sua criança uma infância sem medos, sem gritos, sem castigos ou punições. Se ela errar, corrija com cuidado. Se ela mentir, corrija com sabedoria. Faça tudo pensando no amanhã que exige tanto dos adultos, neste amanhã que nos torna quase máquinas sem tempo para nada, com agendas lotadas e relógios sempre apressados.

Uma criança que cresce sabendo que suas emoções importam aprende, mais tarde, a não ter medo de sentir, de amar, de chorar em público. Quando cai a criança que recebe um cuidado não terá medo no futuro das suas quedas e perdas. Terá confiança em si própria. Não desistirá nunca dos seus sonhos. Continuará mesmo que tudo seja difícil demais. Será um adulto com corpo e mente saudáveis. Terá ao seu lado pessoas verdadeiramente amigas, pois saberá diferenciar o valor da amizade.

Porque é na infância que aprendemos o nosso primeiro idioma: o amor. E o amor como diz o poeta tudo pode, tudo vence, tudo conquista. O amor é a chama ardente que nos impulsiona a continuar lutando pelos nossos objetivos, por isso ame a sua criança e demonstre seu amor com palavras de carinho, gestos e atitudes.

Surpreenda a sua criança sempre que puder com atitudes bonitas. Não a deixe nunca sentir-se sozinha. Nós, adultos, temos passado muito tempo sozinhos e sabemos bem o quanto isso dói.

Oferecer a uma criança uma infância que não precisará ser curada é permitir que ela cresça sem ser moldada pela dureza que não lhe pertence. É não colocar sobre seus ombros o peso das expectativas que esmagam. É não pedir a ela maturidade antes da hora, nem silêncio antes do entendimento, nem coragem antes do medo.

É ensinar que o mundo é vasto, sim, mas que ela tem um lugar nele. Que ela é suficiente. Que é digna de gentileza, não pelos feitos que realiza, mas pela vida que carrega.

E, sobretudo, é entender que uma infância saudável não se mede em brinquedos caros, mas em tempo. Tempo entregue, tempo vivido, tempo compartilhado. É no chão da sala, no quintal de terra, na conversa antes de dormir, no carinho distraído nos cabelos, que se desenha o futuro emocional de uma vida inteira.

Seja o grande amor da sua criança para mais tarde ela não precisar chorar de amor por pessoas que não merecem. E no mais, ame além vida, além tempo, além vontade de ver o mundo se tornar melhor, porque antes que isso aconteça você vai precisar formar uma criança para vida adulta com a sabedoria dos pássaros a protegerem seus ninhos nos postes de iluminação pública das cidades grandes.

Ame sempre a sua criança e diga isso para ela sempre que puder. Escreva mensagens de amor, se estiver longe faça uma ligação, dê um incentivo, ajude a criança nas suas tarefas escolares, brinque com ela. Seja o eu te amo da sua criança.

Autor: Rosângela Trajano. Também escreveu e publicou no site “Dê colo a sua criança e não um aparelho celular”: www.neipies.com/de-colo-a-sua-crianca-e-nao-um-aparelho-celular/

Edição: A. R.

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