O legado de Leontina Bissani Fávero: mulher, mãe e educadora

Resolvi dedicar meu primeiro escrito de 2026 no site de Nei Alberto Pies para homenagear essa mulher guerreira, contar um pouco de sua história, expressar meus sentimentos com relação a ela, dizer aos leitores de minha coluna do quanto ela foi importante na minha vida, na nossa família e na vida de tantas pessoas.

No dia 7/2/26 minha querida e amorosa mãe Leontina Bissani Fávero, deixou este mundo terreno. A dor da despedida é grande, mas maior ainda é a história que ela nos deixa — uma história de vida dedicada ao cuidado, à educação, à fé e à comunidade.

Resolvi dedicar meu primeiro escrito de 2026 no site de Nei Alberto Pies para homenagear essa mulher guerreira, contar um pouco de sua história, expressar meus sentimentos com relação a ela, dizer aos leitores de minha coluna do quanto ela foi importante na minha vida, na nossa família e na vida de tantas pessoas.

Leontina nasceu no dia 26 de março de 1933, na comunidade de Vila Cabrito, hoje município de Vila Maria. Desde muito cedo, sua vida já foi marcada por desafios. Ainda bebê, enfrentou uma cirurgia pulmonar extremamente delicada. Talvez ali, logo no início de sua caminhada, a vida já estivesse anunciando que aquela menina teria uma missão especial, que exigiria força, sensibilidade e coragem.

Seus pais, Silvio e Solange Bissani, atentos à sua condição de saúde e ao seu potencial, possibilitaram que ela estudasse. E esse gesto mudou não apenas a vida da Leontina, mas a vida de centenas — talvez milhares — de pessoas. Aos 15 anos de idade, ela já se tornava professora, iniciando uma trajetória que duraria 31 anos, dedicada à alfabetização e à formação humana

Leontina foi mais do que professora: foi educadora no sentido mais profundo da palavra. Trabalhou sempre com turmas multisseriadas, em condições que exigiam ainda mais compromisso, criatividade e responsabilidade. Alfabetizou crianças, adolescentes e, em muitas famílias, chegou a ensinar três gerações. Eram tempos difíceis, de poucos recursos. Quase não havia livros didáticos, sua principal ferramenta de trabalho era quadro e giz. Mesmo assim soube ser EDUCADORA, no sentido profundo do termo. Tinha a confiança e o respeito dos pais e das crianças, tinha autoridade de quem sabe ensinar e afeto de que quem educa ama e ajuda crescer.

No dia 17 de fevereiro de 1956, uniu sua vida a Severino Pedro Fávero, seu companheiro de caminhada. Juntos construíram uma família sólida e amorosa, e tiveram cinco filhos: Geci, Alcir, Marilene, Zenaide e Altair. Leontina e Severino fizeram de sua casa, em frente à Igreja de Santo Agostinho, não apenas um lugar de moradia, mas um verdadeiro ponto de referência da comunidade — um espaço de acolhida, presença e serviço.

A pequena escola Santos Dumont (em homenagem ao brasileiro criador do 14-Bis, o primeiro avião a decolar por meios próprios em 23 de outubro de 1906, no Campo de Bagatelle, Paris), localizada ao lado da Igreja Santo Agostinho, no interior de Marau, foi o lugar onde minha mãe Leontina, por mais de três décadas alfabetizou centenas de crianças. Para se ter uma ideia das dificuldades, a luz elétrica só chegou na comunidade em 1978, justamente no ano em que ela se aposentou depois de ter lecionado 31 anos e 4 meses.

Meu irmão Alcir e minhas irmãs Geci, Marilene e Zenaide estudaram da 1ª a 5ª série com minha mãe. Eu também fui alfabetizado e estudei até a 4ª série quando ela se aposentou. Me recordo da forma como ela preparara suas aulas à luz de vela ou de lampião abastecido com querosene. Todos os dias ficava até tarde da noite para fazer o diário de classe das 4 turmas de aula, que estudavam na mesma sala. Me impressionava como ela conseguia organizar o quadro verde com as atividades para as 4 séries que estudavam juntas. Sua dedicação e amor ao magistério era tanto que duas das minhas irmãs (Marilene e Zenaide) e eu nos tornamos professores.

Além de professora, Leontina foi catequista, sempre disponível para colaborar com os afazeres comunitários, com discrição, compromisso e fé sincera. Após se aposentar em 1978, quando muitos pensariam em descanso, ela assumiu uma nova e longa missão: tornou-se ministra da Eucaristia da Comunidade de Santo Agostinho, serviço que exerceu por mais de 35 anos. Só deixou essa função quando as forças físicas já não permitiam continuar — não por falta de vontade, mas porque o corpo já não acompanhava o coração.

Sua vida foi marcada pela constância, pela responsabilidade, pela fé vivida no cotidiano. Leontina não buscava reconhecimento, mas deixou um legado imenso. Ensinou com palavras, com gestos e, sobretudo, com o exemplo. Mostrou que educar é um ato de amor, que servir é uma forma profunda de viver a fé e que a grandeza de uma vida está na doação silenciosa.

No último domingo, dia 8 de fevereiro, nos despedimos com saudade, mas também com gratidão. Gratidão por tudo o que ela foi, por tudo o que fez e por tudo o que permanece vivo em cada pessoa que aprendeu a ler, a rezar, a acreditar e a viver melhor por causa dela.

Que Deus a acolha em Sua paz, e que nós saibamos honrar sua memória vivendo aquilo que ela nos ensinou: cuidar, educar, servir e amar.

Descanse em paz, Mãe Leontina. Seu legado permanece entre nós e não será esquecido.

Para finalizar, gostaria de pedir a todos que conheceram ou conviveram com a professora Leontina que deixem seus comentários abaixo.

Fotos: arquivo pessoal do autor

Autor: Altair Alberto Fávero altairfavero@gmail.com Professor e Pesquisador do Curso de Filosofia e do PPFEdu/UPF. Também escreveu e publicou no site “Razões e desafios para não desistir da docência”: www.neipies.com/razoes-e-desafios-para-nao-desistir-da-docencia/

Edição: A. R.

Docência não é um trabalho de produção em série

Uma educação que se resume em formar mão de obra barata está prestando um desserviço à humanidade. Equipes gestoras, professores e comunidade escolar como um todo precisam agir com criatividade e a ousadia, demonstrando que acreditam na potência do fazer educativo.

Chegamos em 2026 e eu não poderia me eximir da responsabilidade de refletir sobre o que aprendi no decorrer dos 365 dias de 2025, dentre os quais 200 foram letivos. Me refiro, especialmente aos desafios experimentados na educação pública, da qual sou “filho” e na qual sigo trabalhando como quem visa oportunizar para crianças, adolescentes e jovens uma experiência transformadora com o conhecimento.  É deste, que depende o presente e o futuro da sociedade.  

O que segue são tópicos, óbvios, porém vivemos tempos no qual isso precisa ser dito e continuamente reforçado.

1⁰- Infelizmente, para muitos dos que frequentam a escola, o conhecimento científico é encarado como obsoleto e sem sentido. Estes ignoram que a sociedade é construída por ideias que migraram para a realidade concreta da vida, do imaginado, ou seja, mundo virtual para o analógico/ mundo que é real. Uma das tarefas da escola é trabalhar com a imaginação das crianças, dos adolescentes e jovens, para que possam querer, sonhar e buscar construir um outro mundo possível. Isto não se faz com a oferta de um ensino focado no mercado, seguindo um modelo bancário tão bem criticado e combatido pelo patrono da educação – Paulo Freire.

 2⁰ – Ideologias não são apenas textos, são forças em movimento que fazem o mundo acontecer. Trata -se, antes de mais nada, de valorizarmos a ciência apreendida e construída nos bancos escolares; de olharmos com atenção e visão crítica para qual ideologia sustenta as políticas educacionais, das Escolas Estaduais do Rio Grande Do Sul, objetos de estudo desta e outras reflexões postadas neste precioso site que propaga a ciência ao divulgar autores, cujos interesses sustentam a formação integral do ser humano. Não existe educação neutra.

3⁰ – Não pode ficar de fora o clamor por uma reforma necessária nos currículos de formação docente das universidades públicas e privadas. É urgente que os professores cheguem ao chão da Escola com amor por um fazer que pode ser transformador, com clareza metodológica, fiel a concepção de um ensino transformador, humano e humanizador.  É necessário que educadores tenham consciência política e de classe que os motive ao engajamento sindical, que defenda seus direitos.

É esta organização que procura ser voz e força motriz da defesa da categoria, em muitos casos despolitizada, com esperanças anestesiadas e forte influência do neoliberalismo para o qual importa a meritocracia, o lucro e a força bruta de trabalho.

A esse respeito, convenhamos, nosso humanismo aponta para horizontes de sentido nos quais a pessoa tem valor, tem dignidade e potencialidades para desenvolver. É urgente despertar a capacidade de sonhar e querer mais de nossos jovens.  

Leia proposta do professor Paulo César Carbonari: www.neipies.com/aprender-a-sonhar-uma-proposta-ofensiva-para-a-educacao/

Uma educação que se resume em formar mão de obra barata está prestando um desserviço à humanidade. Equipes gestoras, professores e comunidade escolar como um todo precisam agir com criatividade e a ousadia, demonstrando que acreditam na potência do fazer educativo.

4⁰   Para tanto, governos precisam entender que a melhoria na qualidade do Ensino requer investimento real naqueles sujeitos que fazem a escola acontecer, especialmente nos professores, esta gente que teima em apostar na formação de pessoas, estes humanos muitas vezes tratados como “máquinas”, forçados pelo sistema a abrir mão de suas convicções para responder às demandas impostas pelo neoliberalismo.

5⁰ – Professores não trabalham em uma fábrica com produção em série, não estão diante de uma esteira a serviço da indústria cultural. Na escola, não existe uniformidade e tratar crianças, adolescentes e jovens advindos de diferentes contextos como iguais é injustiça, e não é isso que desejamos, pelo contrário, queremos contemplar a diversidade e as especificidades de nossos educandos com equidade.

Quanto de equidade existiu na premiação de estudantes e equipes no ano de 2025? Quanto de justiça se aplicou ao avaliar os diferentes como iguais? 

 6º – Repetimos que as escolas não são esteiras e os estudantes não são robôs receptores de informações, tanto estes quanto os docentes trabalham lado a lado, ou pelo menos deveriam, para construírem aprendizado, educarem o agir que se deseja   ético e justo.  Convém que o ser humano seja considerado e promovido.  Contrariando a lógica da IA, os educandos precisam aprender a questionar, serem provocados para reflexão e ação no sentido da valorização integral da pessoa. 

  7⁰ – Aprendi que seguirei sendo aprendente;  entendi que  não posso sucumbir ao desespero.

Considerando tudo o que acredito, remando contra a maré incauta do sistema, aprendi a desaprender, desconstruir e a reconstruir desde a práxis cotidiana minha opção pela docência.  Aprendi com Valter Hugo Mãe que “quando se sonha grande a realidade aprende!”, os ideais se tornam palpáveis e a vida segue como desafio a ser encarado com propósito, visto que “quem tem um porquê enfrenta qualquer como” de acordo com Friedrich citado por Vitor Franklin.

Quais serão os enfrentamentos que se apresentarão para nós neste 2026?

Como vamos seguir alimentando nossos propósitos enquanto educadores? 

Faço votos de que seu ano novo seja repleto de indignação produtiva e de sonhos para realizarmos, juntos e de mãos dadas, nutrindo em cada desafio esperança do verbo esperançar, porque como ensinou Paulo Freire:

“É preciso ter esperança, mas ter esperança do verbo esperançar; porque tem gente que tem esperança do verbo esperar. E esperança do verbo esperar não é esperança, é espera. Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é levar adiante, esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo”.

Por fim, convido todos e a cada  um a pensar no que já aprendeu no vasto e desafiador campo da educação. Escreva seu aprendizado, reflita sobre o quanto foi possível crescer humanamente ao contribuir com a formação de outras pessoas. E entendamos, de uma vez por todas, que formação continuada se dá na opção por cursos de aperfeiçoamento, e, em pós-graduações, mas principalmente a partir do estudo da prática que cada um realiza.

Formação continuada se faz na práxis/ ação – reflexão e encaminhamento para a prática novamente. Este conceito encontra guarida na pedagogia benincaniana sobre a qual existem várias publicações neste site.

Leia também: www.neipies.com/a-pedagogia-inspiradora-da-praxis-benincaniana/

Feliz e esperançoso 2026 para quem chegou até aqui e deseja seguir aprendente.

Autor: Marciano Pereira. Também escreveu e publicou no site “Educação e meritocracia nas escolas públicas do RS”: www.neipies.com/educacao-e-meritocracia-nas-escolas-publicas-do-rs/

Edição: A. R.

O caroço de abacate

A história “O caroço do Abacate” é uma narrativa que contamos para crianças da Educação Infantil. Coordenamos pequeno grupo voluntário de contadores de histórias que, semanalmente, conta histórias em duas escolas de Educação Infantil de Porto Alegre. É uma experiência pedagógica muito significativa com turmas de crianças de três a seis anos, em parceria com a supervisão pedagógica de cada escola.

“Era uma vez, um lindo abacateiro que vivia no fundo do quintal da casa em que morava Ismael, menino muito simpático que tinha 8 anos. Ele gostava da época do ano em que o abacateiro, depois da floração, ficava cheio de abacates: primeiro, pequeninas bolas verdes que iam crescendo… quando chegavam no tamanho certo, Ismael ajudava o pai a colher as frutas verdes para serem colocadas num cesto grande e guardadas dentro de casa, num lugar bem protegido do frio, assim evitava que elas caíssem no chão e se esborrachassem. 

Ismael todo o dia ia até lá para apalpar os abacates e ver se a casca já estava macia, que era o sinal que a fruta já estava madura e pronta para ser saboreada.

Certo dia, Ismael encontrou dois abacates maduros, eram os primeiros da temporada. Ficou muito feliz, levou as duas frutas para a cozinha para preparar a sobremesa que seria comida depois do almoço. Com uma faca, cortou aos abacates ao meio, retirou os caroços e, com uma colher, retirou a polpa da fruta e colocou numa travessa amassando-a com um garfo, transformando-a num creme. Misturou o suco de um limão e duas colheres de açúcar, colocou na geladeira para ficar geladinho.

Depois do almoço, Ismael, todo feliz, ofereceu a sobremesa para os pais e o avô que morava com eles, todos adoraram o creme de abacate. A mãe explicou a todos que o abacate poderia ser utilizado como salada também.  O avô então perguntou ao menino: -Ismael, onde puseste os caroços dos abacates? O menino respondeu que tinha colocado no cesto do lixo orgânico. Então o avô pediu que pegasse os dois caroços de abacate, os lavasse e secasse que ele explicaria o que havia dentro delas. Ismael ficou muito curioso, pensando: – O que haveria dentro das sementes? O avô perguntou ao neto: – O que tu achas que tem dentro de cada uma? 

O menino ficou pensativo e disse ao avô que iria pegar uma faca para abrir e ver. O avô explicou que não era preciso fazer isto e que quando cada caroço fosse colocado num vaso com terra fofa por cima, aguando-as um pouco todos os dias, uma nova árvore de abacate iria florescer.

Dentro da semente de abacate há um novo abacateiro, explicou o avô, assim como dentro de cada fruta tem as sementes como a laranja, a bergamota, a pitanga, a manga, a uva, o pêssego… Dentro de cada semente há uma futura árvore daquela fruta. Só Deus que nos ama tanto, poderia nos oferecer a oportunidade de sempre plantar novas sementes para que não nos falte nunca o alimento.  Ismael ficou encantado com o ensinamento que o vovô lhe deu e o convidou para irem plantar aqueles dois caroços de abacate”.       

A história “O caroço do Abacate” é uma narrativa que contamos para crianças da Educação Infantil. Coordenamos pequeno grupo voluntário de contadores de histórias que, semanalmente, conta histórias em duas escolas de Educação Infantil de Porto Alegre. É uma experiência pedagógica muito significativa com turmas de crianças de três a seis anos, em parceria com a supervisão pedagógica de cada escola.

Os momentos de contação de história são aguardados com muita expectativa pelos alunos.  Escolhemos narrativas que passam informações edificantes seguindo um roteiro pré-estabelecido que inicia com histórias sobre Deus, nosso Pai e Criador, depois sobre prece, a maneira de nos comunicarmos com Ele, estimulando o desenvolvimento da religiosidade básica inerente a cada criança, respeitando a denominação religiosa de cada família e de acordo com as recentes pesquisas científicas da Neuroteologia sobre a importância da oração e da fé.

Na sequência da contação, seguem os temas que se relacionam às histórias: Jesus, nosso irmão e mestre. O amor a si e ao próximo, à família, à verdade, ao trabalho, aos animais, às plantas, à natureza, ao estudo. As boas maneiras, a bondade, a caridade, a solidariedade, a fraternidade e os cuidados com o corpo, a questão da higiene física e mental.

Temos consciência de que a linguagem simbólica da literatura proporciona ao infante, numa maneira lúdica e alegre, o contato com o ensino moral de forma prática.  Não é uma fala racional, intelectual, mas emocional. A criança se identifica com os personagens que erram, sofrem, se corrigem, se modificam, encontram a felicidade. Ela interage com os acontecimentos e educa suas emoções básicas: a raiva, a tristeza, o afeto, a alegria, o medo, a curiosidade em intensa conexão com o que ocorre na narrativa.

Esta proposta de atividade pedagógica visa atender às necessidades do desenvolvimento integral do infante a fim de prover a plena realização de sua personalidade em meio a uma atmosfera de segurança e afetividade. A criança, nesta fase, é mais acessível às impressões que recebe   que podem colaborar no seu melhoramento de conduta.

Levamos sempre em consideração que não se pode perder o ensejo educativo da fase infantil, ofertando à criança histórias que envolvam mensagens edificantes que falam à alma de forma simbólica em torno de episódios desafiantes, com personagens que ela se identifica. É uma nutrição espiritual que é oferecida, pois ela ampara moralmente o aluno, desenvolvendo as suas potencialidades naturais e prevenindo seu envolvimento com os males sócias, especialmente nos dias atuais, tão repletos de desajustes emocionais e morais. O recurso da boa página literária deveria ser usado com mais frequência na escola, especialmente na educação infantil e nos primeiros anos do ensino fundamental.

A audição de uma boa história, na infância, funciona, para a mente, como uma vacina para os futuros desafios da vida na idade adulta. A mensagem que permanece viva de uma boa história é de que tudo passa e pode ser superado na vida e que vale a pena continuar vivendo e agindo corretamente. Esta atividade previne as enfermidades da alma como o egoísmo, a prepotência, o orgulho, o ciúme, o ressentimento e o ódio.

Na nossa atividade prática, antes da contação da nova história, recordamos a história da semana anterior. A criançada lembra todos os detalhes, é impressionante.  Só então se narra a nova história, que pode ter ilustrações ou projeção de imagens ou se utilizar, com muita emoção, só a voz. A seguir, faz-se uma   reflexão sobre o tema da história, dramatização ou desenho sobre a mesma, ou outra forma simbólica de expressão artística.

A história “O Caroço do Abacate”, entra no tema do amor às plantas, à natureza. Uns três meses antes de se contar a mesma, prepara-se algumas sementes de abacate num pote com água onde ela fica imersa pela metade, após algum tempo começa a desabrochar o broto da nova árvore e aparecer as raízes, ou se coloca as mesmas em vaso pequeno de terra com ela enterrada pela metade, e a árvore começa a aparecer.  É o novo abacateiro surgindo, comprovando a bondade divina, nos ofertando continuamente, auxiliado pelo nosso esforço, o alimento saudável. A observação do fenômeno natural acontecendo   impressiona demais a criançada, pois elas visualizam nova árvore nascendo da semente. 

No próximo encontro se recorda a experiência anterior. São, aproximadamente, trinta e cinco encontros de contação de histórias edificantes no ano letivo que dão mais sentido à vida destas amoráveis crianças, na melhor fase para a aquisição do aprendizado moral.

Autora: Gladis Pedersen de Oliveira – Pedagoga. gladispedersen@gmail.comTambém escreveu e publicou no site “A arvore”: www.neipies.com/a-arvore/

Edição: A. R.

Um Deus ao alcance da nossa mão?

Jesus dedicou sua vida a “libertar Deus” das mãos dos agentes religiosos e políticos do seu tempo, das imagens falsas, interesseiras e idolátricas que eles apregoavam e impunham. E pagou caro por isso.

A sede de Deus queima a alma humana como o sol impiedoso que esturrica a terra (cf. Sl 63,2). Essa é a experiência dos místicos e buscadores de Deus, inclusive daqueles que não o chamam por esse nome e até se declaram não-crentes ou ateus. Quem busca um sentido pleno para seu viver e um mundo que acolha e respeite a todos é um buscador de Deus.

As Escrituras estão repletas de histórias de gente que vive essa busca visceral, de Abraão a Paulo, passando pela escrava Agar (cf. Gn 16,7-14) e pela Sulamita (cf. Ct 3,1-4). E ninguém buscaria a Deus se, de alguma forma, não tivesse sido encontrado e seduzido por ele. Mas Deus permanece sempre envolto Mistério, e não se deixa ver de forma clara.

As letras sagradas nos alertam que quem vê Deus face a face paga com a morte (cf. Gn 32,31; Ex 33,20). Por isso, ele se deixa apenas entrever, ser visto pelas costas ou em meio à escuridão, como ocorreu com Jacó e Moisés. Em Jesus, Deus se deixa ver, ouvir e tocar, mas não se deixa reter (cf. Jo 20,17). Deus é próximo, mas não está ao alcance da mão.

Eis aqui a razão da interdição bíblica à confecção de imagens de Deus. Deus é sempre mais que aquilo que escutamos, compreendemos, vemos, experimentamos ou ensinamos. Ele é Mistério envolvente, um mistério de amor que nos abraça, mas não permite que ninguém se aproprie dele. Diante dele somos sempre sedentos e peregrinos.

Num certo sentido, o Novo Testamento é, em sua essência, a Boa Notícia de Deus, mas, ao mesmo tempo, uma séria advertência àqueles que cremos em Deus: não nos fiemos cegamente nas nossas ideias, imagens ou experiências de Deus. Aqueles que estavam seguros de saber quem é, como é e o que quer Deus, o condenaram à morte na cruz!

Deus está próximo de nós, no tempo e no espaço, na cruz e nos crucificados, na resiliência dos fracos, na busca dos sonhadores, nos sutis fios que tecem o milagre da vida. Mas não está ao alcance das mãos e das redes de palavras e impropérios daqueles que querem dominar, taxar, excluir, invadir ou condenar. O deus deles é falso, é um ídolo que mata.

Jesus dedicou sua vida a “libertar Deus” das mãos dos agentes religiosos e políticos do seu tempo, das imagens falsas, interesseiras e idolátricas que eles apregoavam e impunham. E pagou caro por isso.

 Mas sua luta continua: o nome, a imagem e a palavra de Jesus precisam hoje ser libertadas do sequestro ideológico de pessoas e setores “terrivelmente religiosos” que as usam para dividir, agredir, excluir e condenar.


Autor: Dom Itacir  Brassiani. Bispo da Diocese de Santa Cruz do Sul. Também escreveu e publicou no site “A religião e as imagens de Deus”: https://www.neipies.com/a-religiao-e-as-imagens-de-deus/

Edição: A. R.

Respeite o tempo de aprender da sua criança

Aprender se parece muito com o desabrochar de uma flor. Não adianta puxar as pétalas para que se abram mais rápido. É preciso água, sol, tempo e silêncio. Quando respeitamos o tempo da criança, oferecemos a ela a chance de florescer com raízes fortes, curiosidade viva e amor pelo saber.

Aprender, para a criança, não é um gesto mecânico nem um percurso previsível. É um acontecimento delicado, que se constrói no encontro entre o olhar curioso e um mundo que ainda está sendo descoberto. O tempo da infância não obedece à urgência dos adultos nem às exigências de resultados imediatos. Ele se move em outra cadência, mais próxima do ritmo da natureza do que do relógio. Há dias em que o aprender avança rápido, impulsionado pelo encanto; em outros, parece repousar, como quem precisa respirar antes de seguir. Respeitar esse tempo é reconhecer que a aprendizagem não se impõe, ela se oferece.

A criança aprende quando pode explorar sem medo, quando sente que o erro não é fracasso, mas parte do caminho. Cada tentativa, cada pergunta que surge sem resposta pronta, é um convite ao pensamento. Perguntar, aliás, é uma das formas mais profundas de aprender. A criança pergunta porque se espanta, e se espanta porque o mundo ainda não perdeu o mistério. Quando o adulto se apressa em responder tudo, corre o risco de silenciar esse espanto. Há perguntas que precisam permanecer abertas por um tempo, amadurecendo por dentro, até que a própria criança encontre uma resposta ou descubra novas perguntas ainda mais bonitas.

O aprendizado infantil caminha entre o faz de conta e a realidade, e não há fronteira rígida entre esses dois territórios. É brincando que a criança experimenta papéis, testa hipóteses, organiza emoções e compreende o mundo. No jogo simbólico, ela ensaia a vida. Uma caixa vira casa, um pano vira mar, uma palavra inventada vira explicação possível. Interromper esse processo em nome de uma aprendizagem “séria” é esquecer que o brincar é, em si, uma linguagem profunda do aprender. As pausas, os risos, os silêncios e até o aparente desinteresse fazem parte desse percurso lento e necessário.

Cada descoberta feita nesse tempo é como um presente cuidadosamente embrulhado. Não se abre de qualquer jeito. A criança guarda esses presentes na memória da infância, e muitos deles permanecem ali por toda a vida: a primeira leitura compreendida sozinha, o número que finalmente se encaixa, a sensação de entender algo sem ajuda. São conquistas íntimas, que fortalecem a confiança e o desejo de continuar aprendendo.

Quando o aprendizado é forçado, perde-se esse sabor. Quando é acolhido com cuidado, transforma-se em alegria duradoura.

Cabe aos pais e responsáveis um exercício de paciência profunda. Esperar é um gesto ativo, cheio de amor. Esperar não significa abandonar, mas acompanhar de perto sem pressionar, observar sem comparar, orientar sem invadir. Cada criança aprende no seu tempo e do seu jeito, com seus próprios caminhos e pausas. Exigir que ela seja a melhor, a mais rápida ou a mais eficiente é substituir o espanto pela ansiedade. O verdadeiro cuidado está em permitir que ela seja inteira no processo, respeitando seus limites, seus interesses e suas formas singulares de compreender o mundo.

Aprender se parece muito com o desabrochar de uma flor. Não adianta puxar as pétalas para que se abram mais rápido. É preciso água, sol, tempo e silêncio. Quando respeitamos o tempo da criança, oferecemos a ela a chance de florescer com raízes fortes, curiosidade viva e amor pelo saber. E talvez esse seja o aprendizado mais importante de todos: ensinar sem roubar o encanto, educar sem ferir o tempo, cuidar para que o mundo continue sendo, para a criança, um lugar de espanto e descoberta.

Respeitar o tempo da criança é, antes de tudo, um ato ético e profundamente humano.

É reconhecer que a infância não é um ensaio apressado para a vida adulta, mas um tempo pleno em si mesmo, carregado de sentidos próprios. Quando apressamos a aprendizagem, quando cobramos desempenho e resultados, corremos o risco de transformar o saber em peso, e não em desejo. A criança não aprende para corresponder a expectativas; ela aprende porque o mundo a chama, porque algo a inquieta, porque sente prazer em descobrir. Preservar esse chamado interior é uma das maiores responsabilidades do adulto que educa.

Há uma sabedoria silenciosa no modo como a criança se aproxima do conhecimento. Ela observa longamente, repete gestos, insiste em perguntas que parecem simples, mas carregam profundidade. Volta ao mesmo tema inúmeras vezes, como quem precisa rodear o mistério antes de compreendê-lo. Esse movimento circular, tão comum na infância, é muitas vezes interpretado como atraso, quando na verdade é aprofundamento. Aprender devagar não é aprender menos; é aprender com raízes. E raízes levam tempo para se firmar, pois crescem para dentro antes de aparecerem para fora.

O tempo da aprendizagem infantil também é feito de corpo. A criança aprende com as mãos, com os pés, com o riso, com o cansaço. Precisa correr para depois escutar, precisa brincar para depois concentrar-se. O corpo pede pausas, e nessas pausas o pensamento se reorganiza. Brincar não é interrupção do aprender, mas condição para que ele aconteça de forma saudável. No jogo, a criança elabora experiências, cura pequenos medos, amplia a imaginação e dá sentido ao que vive. Negar esse tempo corporal é exigir que ela aprenda de maneira fragmentada, desconectada de si mesma.

Há também um tempo afetivo que sustenta todo aprendizado. A criança aprende melhor quando se sente segura, quando sabe que pode errar sem ser ridicularizada, quando percebe que alguém acredita nela.

O afeto cria um chão firme onde o conhecimento pode pousar. Sem esse chão, o saber escorrega, não se fixa, não permanece. Por isso, ensinar é também cuidar. É olhar com atenção, escutar com paciência, acolher as dificuldades sem pressa de corrigir. O aprendizado que nasce do afeto não gera medo, mas coragem.

Cada criança carrega um modo próprio de compreender o mundo. Algumas aprendem observando em silêncio, outras falando sem parar; algumas precisam de mais tempo, outras de mais repetição. Compará-las é ferir sua singularidade. O verdadeiro educar reconhece a diversidade dos ritmos e confia que cada um deles tem sentido. Não se trata de baixar expectativas, mas de ajustá-las ao humano. Aprender não é competir; é tornar-se. E tornar-se exige tempo, escuta e respeito.

Quando permitimos que a criança descubra por si mesma, mesmo que demore, ensinamos algo que vai além de qualquer conteúdo: ensinamos autonomia, confiança e amor pelo conhecimento. Ela aprende que pode buscar respostas, que suas perguntas importam, que o mundo é um lugar aberto à curiosidade. E esse aprendizado, silencioso e profundo, acompanha a pessoa por toda a vida.

Assim, respeitar o tempo da criança é proteger a infância como espaço de encantamento e crescimento. É aceitar que o aprendizado verdadeiro acontece aos poucos, como o desabrochar de uma flor que não sabe que está florescendo. Basta que haja cuidado, paciência e amor. O resto, no tempo certo, a própria criança faz.

Autora: Rosângela Trajano. Também escreveu e publicou no site “Ofereça a sua criança uma infância que não precisará ser curada na vida adulta”: www.neipies.com/ofereca-a-sua-crianca-uma-infancia-que-nao-precisara-ser-curada-na-vida-adulta/

Edição: A. R.

O Preço do Diploma (e quem paga a conta)

A economia da questão é simples: no momento em que o país deixar de tratar o ensino como mercadoria, deixaremos de pagar a conta.

O que realmente é indispensável para exercer uma profissão em um mundo em que o conhecimento está aos poucos sendo assessorado pela inteligência artificial?

Quais as aptidões necessárias para ingressar em uma faculdade? E quais delas seriam indispensáveis ao sair dela?

Você verdadeiramente faria medicina, se na sociedade, todos ganhassem igualmente bem?

Leia também: www.neipies.com/a-valentina-nao-vai-fazer-medicina/

É, meus caros, o Enamed escancarou uma verdade incômoda: a exploração do ensino.

O problema disso é o mesmo dos gastos descontrolados da gestão pública: a conta sempre chega para a sociedade pagar, com o salário ou com a vida.

Minha opinião acerca desse fuzuê? Aluno só entra na faculdade, seja ela pública ou privada, seja medicina ou qualquer outro curso, se passar com a nota referência no ENEM. Aluno só sai da faculdade que escolheu cursar se passar no exame da “ordem”: um bom nome, faz jus a necessidade.

A economia da questão é simples: no momento em que o país deixar de tratar o ensino como mercadoria, deixaremos de pagar a conta.

Autora: Ana P. Schaeffer. Também escreveu e publicou no site “Não está tudo bem”: www.neipies.com/nao-esta-tudo-bem/

Edição: A. R.

Natalino e Annoni: memórias eternizadas pelo tempo

Na maior parte das vezes, lembrar não é reviver, mas refazer, reconstruir, repensar, com imagens e ideias de hoje, as experiências do passado. A memória não é sonho, é trabalho (Ecléa Bosi).

A memória, é, ao mesmo tempo, minha matéria-prima e minha ferramenta. Sem ela, não existe nada (Gabriel Garcia Márquez, 2024, p. 5).

Voltar e pisar outra uma vez a terra, local do acampamento Encruzilhada Natalino e Fazenda Annoni, 40 anos depois, em Pontão/RS, emociona, arrepia e encanta. Faltam olhos para ver aquele território ocupado. Faltam palavras para perguntar: onde foi parar aquela poeira que atravessava os barracos de lona preta, que embaçava os olhos dos acampados, vertendo lágrimas? Como vive e o que faz todo aquele povo que ali resistiu a todas as pressões por vários anos? E aquelas crianças, que corriam e brincavam alegres entre os barracos, aguardando o horário da escola, onde estão e o que fazem hoje?  São lembranças intactas guardadas daqueles tempos, avivadas ao chegar aos dois locais na manhã do dia 24 de outubro/25, reencontrando a mesma casa de tijolos na esquina, a cruz e as pessoas, ouvindo suas vozes em depoimentos testemunhais, passadas quatro décadas.

Tão logo ocorreu o acampamento da Natalino (1981), anunciado pelas rádios de que os pobres estavam à beira da estrada, movida pela curiosidade, visitei as famílias e ouvi delas lições de vida, porque estavam acampadas. Por dias refletindo sobre o que vi e ouvi das pessoas, o sentimento de curiosidade se transformou em solidariedade. Por isso, mais tarde, retornei para morar e conviver com eles por uma semana, experimentando o gosto amargo da poeira que secava a garganta, e o sabor da comida bem preparada nos fogões improvisados.

Junto com uma multidão de gente, celebramos a 5ª Romaria da Terra no dia 23 de fevereiro de 1982 com o lema: Povo unido jamais será vencido. Essa frase, ouvida em alto e bom tom, marcou o reencontro de muitos de nós, na mesma encruzilhada onde os acampados da Natalino, tornaram o movimento, conhecido no mundo. Há 40 anos essa encruzilhada é vista como espaço de tomada de decisões importantes, de escolher qual caminho construir. Para Dom Tomás Balduíno (em memória) que visitou o acampamento, “Natalino é um lugar de memória e de orgulho”.   

Quis o destino que logo em seguida, abril de 1982 fosse morar à beira do Rio Purus no Amazonas, distante 36 horas de barco da capital Manaus. E, muito mais distante da Natalino. Movida pelo desejo de missão em territórios abandonados pela política de educação e saúde, atuei na educação como se quisesse mudar o mundo e formar intelectuais. Lá havia escola até a quarta série, multisseriada. As duas professoras, dedicadas, ensinavam o que sabiam às crianças ribeirinhas, vindas de longe, remando, driblando as ondas do rio Purus, em uma canoa escolar. Com a comunidade, lutamos e conquistamos até à oitava série. A formatura foi uma celebração festiva. Por três anos, entre as águas, as florestas, trocando cartas com familiares e amigos, seguidamente voltava-me a lembrança da Natalino, sem ter notícias do que ocorria com as famílias acampadas. Haviam elas aceitado ir para o Mato Grosso? Haviam vencido o ditador Curió? As crianças haviam parado de morrer? E a saúde do povo, como estava?  E a escola, continuava na lona? Perguntas não faltavam. Respostas não chegavam. Suponho que as cartas haviam se extraviado, pelo vento e pelas águas.   

Ao retornar ao Rio grande do Sul em abril de 1985, fui para a Universidade. Em seguida ao dia 29 de outubro deste ano, soube pela rádio de Erechim, da ocupação da Fazenda Annoni. A lembrança da Natalino se avivou de forma inquietante. Logo em seguida estive lá, em solidariedade. E mais tarde, convivi mais tempo no local, ouvindo as angústias e esperanças do povo. Visitei vários barracos, fiz refeições e tomei chimarrão com eles. De longe os via organizados em pequenos grupos, conversando, à sobra das árvores. Não arrisquei pedir para participar da conversa, por dar-me conta de que haviam segredos de organização, sigilosos. Se vazassem seria um perigo.  

Na marcha histórica à Porto Alegre, em busca de soluções para a Reforma Agrária, caminhei com eles em um domingo, próximo à Bento Gonçalves. Ali se somavam centenas de pessoas, entre apoiadores e alguns curiosos. Após 28 dias de caminhada deste povo, juntei-me à marcha para a chegada à Capital, em 25 de julho de 1986. Éramos uma multidão, em torno de 30 mil pessoas, de todas as idades, cantando os mesmos versos e acertando os últimos passos para chegar à cidade grande. Embora visse seus rostos cansados, pingando suor, e com os pés sangrando, em seu semblante, só lia duas palavras: determinação e coragem. Se havia dor, era escondida. 

Em outro momento, estive na Assembleia Legislativa, onde as mulheres faziam comida em uma cozinha improvisada, para alimentar o povo que permanecia acampado na Praça Matriz, junto com centenas de apoiadores, e também curiosos, jornalistas, fotógrafos, pesquisadores. Ali encontrei a Jorra, a Roseli Nunes, a Cleusa e outras tantas Marias e Teresas. Após dois meses acampados em Porto Alegre, sem a solução alguma para o problema, eles retornaram para Annoni, e se abraçaram aos familiares, que haviam permanecido guardando o acampamento.  

Na sua cabeça, planejavam fazer outras ocupações de terras improdutivas, porque havia pressa de ocupar e plantar para comer. A brigada militar, astuta, armada e truculenta, a mando do Estado, se colocou à sua frente, impedindo os colonos saírem do acampamento. Confrontos inevitáveis que jorravam sangue e dor. De um lado, o Estado opressor, do outro, agricultores lutando por terra para plantar e escola para os filhos. De longe, acompanhava as notícias, às vezes com poucas verdades sobre o acampamento. À noite, custava pegar no sono, lembrando deles.

Em 1986, cursando Pedagogia em Erechim, os professores: Roseli Caldart, Luiz Carlos Lukmann e eu, fomos visitar o assentamento de Nova Ronda Alta, reencontrando famílias que antes estavam acampadas na Natalino. Queríamos conhecer a escola em que Salete Campigotto dava aula, e que na época, cursava Pedagogia na UPF. Fomos recebidos em sua casa, vimos seus filhos correndo de um lado para o outro, ali por perto. Ela tinha pouco tempo de dar-lhe atenção, porque recebia muitas pessoas, e se esmerava contar de onde vieram sem-terra, e como chegaram ali. Mostrava e falava da escola e sua pedagogia com orgulho. O método de alfabetização de Paulo Freire era citado várias vezes, por que nesta escola ela tentava colocá-lo em prática, escrevendo e decifrando o significado das palavras: acampamento, morte, marcha, organização, coletivo, cruz, sino. Soube mais tarde de que faltou pouco para Paulo Freire vir ao assentamento, mas como estava exacerbado de compromissos na Secretaria de Educação em São Paulo, enviou sua equipe para dialogar com a professora e a comunidade, movidos pela ideia de fazer uma escola “diferente”, sem cercas e muros, com direito à conscientização e liberdade à palavra. Por força da organização, os três filhos de Salete, acessaram o ensino superior, assim como os muitos filhos de outros camponeses, também.  Todos vivem com autonomia e determinação.

Essa primeira visita nos motivou a organizar uma turma de Pedagogia da FAPES, hoje Universidade Regional Integrada (URI), a conhecer a experiência da escola do assentamento. Aos que foram a esta visita e prestaram atenção aos relatos da professora Salete, lhes serviu de lição e aprendizado. Retornaram inquietos, desassossegados, se percebendo professoras em escolas urbanas, sem um fio de possiblidade de mudanças, autonomia e consciência de classe. A escola para elas, era seu lugar de trabalho, de sobrevivência, obedientes ao Sistema.  Nesta visita vimos o germinar de uma semente de escola de acampamento/assentamento brotando, e que anos após anos, se espalhou por 24 estados onde o MST está organizado.   

Naquele período no curso de graduação em Pedagogia, relia Pedagogia do Oprimido, e espiei Fundamentos da Escola do Trabalho de M. M. Pistrak, único livro traduzido em Português da experiência de educação socialista (1917 a 1930) à época. Essa leitura fervilhava em minha cabeça, sem poder algum de insurgência. Sabia que meu sustento vinha de uma escola privada, onde atuava, contrariada todos os dias por pensar diferente. Ingênua ainda, queria mudar o mundo, e levar mais gente a ver o que estava acontecendo nos acampamentos do MST. Nesta escola, era vista como um espinho no pé dos professores, indiferentes às injustiças e o acúmulo dos poderosos. A maioria eram contra os sem-terra, sem nenhuma indignação com a riqueza acumulada na carteira de poucos. Entre eles haviam apenas dois, com os quais era possível trocar algumas palavras, quase em segredo.   

Desde então, acompanhei mais ao longe, a luta e resistência do povo acampado, e como se organizavam recomeçando a vida no assentamento, haja visto que a Fazenda Annoni havia sido liberada para plantação. Lembro que em 1991, tão logo as famílias estavam se organizando nas diferentes áreas, circulei por lá para entrevistar pessoas que haviam estado juntos na criação da FUNDEP/DER[1]/1990, que me incumbia de sistematizar. As estradas quase intransitáveis nos levavam, entre um atoleiro e outro, a circular pela Annoni, vendo de longe, as casas improvisadas, alguns tratores em movimento, animais pastando e muita terra plantada. Ali também, os pássaros voam livres, e já ensaiavam construir seus ninhos.

À direta da estrada por onde entramos na Fazenda, ao alto, avistamos um pequeno cemitério. Era ali que dormia para sempre Roseli Nunes (1954-1987), mulher assassinada por que lutava, disposta a contrariar o sistema capitalista que levaria o povo a morrer de fome. Com apenas 33 anos, Roseli foi arrancada de seus três filhos pequenos e da luta, mandada para o além. De lá onde está, nos envia rastro de sol, de ternura e de cuidado. Uma bandeira vermelha, hasteada, ao sol e ao vento, sinaliza aos passantes, onde repousa seu corpo, a sete palmos abaixo da terra, no coração da fazenda Annoni. 

Logo adiante avistamos uma construção diferente, mais estruturada, feita de tijolos e janelas de vidro. Ao seu entorno, um pouco de grama, e no mais, terra vermelha. Era a Escola 29 de Outubro (1990) que já estava de pé, com poucas salas de aula. Já eram os indícios de que a escola havia entrado na luta, e a luta encharcava os saberes da escola. Por isso, creio, em 24 de outubro de 2025, a Escola Estadual de Ensino Fundamental 29 de Outubro, recebeu o Prêmio Pena Libertária, do SINPRO/RS[2]. Uma homenagem merecida pela pedagogia que a engendra, com a alegria das crianças e educadores que circulam livremente pelo espaço bem cuidado, entre árvores e flores, frutos e hortaliças. E também os passarinhos.  Hoje a Escola 29 não se parece mais com aquele de 1990.  

 Nesta época, a terra que soprava poeira aos céus, já estava esverdeada pela plantação que alimentava o povo e os animais. Pensava eu, como dariam conta e construiriam suas vidas naquele descampado, atravessado pelo vento que cortava a alma, e pelo sol escaldante que penetrava em suas cabeças, ainda que quase todos se protegiam com grandes chapéus de palha. Aquela terra vermelha, vista no acampamento, já não era mais a mesma. Estava revolvida. As diferentes plantações tomavam o lugar do capim-annoni. O horizonte ao longe, a lua e as estrelas, não sofriam mais de solidão e do silêncio. O amanhecer e o anoitecer estavam acompanhados de gente, de escola, de hortas e sonhos.

A história, sistematizada e publicizada em muitas obras por pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento, socializadas na tarde ensolarada do dia 24 de outubro, no pátio da Escola 29, nos afirma que a Natalino e Annoni foram os berços onde nasceram as primeiras ideias e lutas pela educação e escolas nos acampamentos e assentamentos do MST. Assim como ali nasce as primeiras ideias de se organizar em Equipe de Educação, seguida da criação do Setor Nacional de Educação, em 1987, em uma reunião em São Mateus, no Estado de Espírito Santo. Aquelas primeiras ideias, nascidas e sistematizadas em poucas linhas, em pequenos cadernos, se espalharam pelo país, juntando gente, sonhos e esperanças. Sem dúvida, foram estas primeiras linhas o semear de muitas sementes, brotadas em lugares onde o povo vivia analfabetizado, sem escola, e por isso sem acesso ao mundo das letras, juntadas na escrita.

A princípio, a luta era por uma escola de acampamento diferente da escola usual capitalista, longe da vida. Com o passar do tempo, em 1996, essa escola, por pressão dos acampados, foi batizada e reconhecida pelo Estado/RS, por Escola Itinerante dos acampamentos do MST. Por isso sua estrutura deveria estar em condições de ser construída e descontruído a depender das circunstâncias e adversidades da luta. Com este formato e com educadores também acampados, a escola acompanhava as marchas, as ocupações. Estava presente, encharcada da vida e da luta dos acampados. Acompanhei a luta por esta Escola Itinerante por 12 anos no Rio Grande do Sul. E a exemplo desta, a criamos em Santa Catarina, Paraná, Goiás, Piauí e Alagoas.

Em 1998 concluí do Mestrado na UFRGS. Por necessidade do Setor de Educação, pesquisei e dissertei sobre a Formação de Professores nas escolas de acampamentos/assentamentos. Com a leitura das obras de Paulo Freire, a ideia era entender mais e melhor a formação pedagógica necessária para trabalhar nas escolas do MST, porque a escola conhecida não agradava e não servia ao projeto de Reforma Agrária. Assim fomos avançando e alargando a luta pela escola, junto com a organização dos setores de educação estaduais. Neste mesmo ano, colocamos na roda da história da educação brasileira o Projeto de educação do campo, hoje com 27 anos. 

Em 2006, retornei à Universidade, buscando estudar de forma sistemática alguns temas. A princípio, sem intenção e desejo de construir tese, convencida por outras pessoas, iniciei o doutorado. Obviamente que a orientação do Setor de Educação foi sistematizar a pedagogia da Escola Itinerante, porque era uma necessidade fazer reconhecer todo o aprendizado desta escola contra hegemônica, como ciência: No decorrer de quase mil dias, tentei responder à pergunta: A Escola Itinerante dos acampamentos do MST é um contraponto à escola capitalista?

Para entendê-la desde seu princípio, “diferente”, for preciso ler tudo o que havia sido escrito sobre a escola iniciada no Natalino, Nova Roda Alta e Annoni. Entrevistei as primeiras professoras e alguns pais.  Entendi que ali foi o berço de pensar e colocar em prática uma escola diferente, contrariando a escola, cuja pedagogia não dialogava com os saberes e contradições do campo, como também o berço de pensar a formação de professores/educadores. Frente as dificuldades de encontrar bibliografia que ajudasse a construir tese, fui buscar apoio em Paulo Freire. Com ele, compreendi que a realidade, viver as experiências, conversar e ouvir o povo, em boa medida teria elementos suficientes para fundamentar a tese. Assim, mergulhei na realidade, escutei o povo, fiz várias vezes e mesma pergunta, até entender o projeto, já claro em suas cabeças, mas não ainda na minha. Entre idas e vindas para os acampamentos, as marchas e ocupações ao encontro da escola itinerante, mesmo a encontrando “queimada pela brigada militar na ocupação da Fazenda Guerra, a mando do Estado, pude entender a sua dinâmica, o conteúdo e a Pedagogia do Movimento que a embasava, sistematizada em tese por Roseli Caldart em 1999.   

Em 2009, após escrever sobre uma escola em luta, com todo o cuidado, e validar o que escrevia com os educadores itinerantes, a tese estava concluída. Era hora de submetê-la à banca de avaliadores na Universidade, com todo o ritual que nos impõe. Apresentada a mais de 100 pessoas na Faced/UFRGS, aprovada pela banca examinadora, respirei fundo, segura de que havia sido reconhecida como ciência uma forma escolar que daria conta do projeto social daquele povo que lutava por outro modo de vida, e que a escola precisa estar junto, e refletir a sua pedagogia[3].

Ao descer os sete andares da Faced, e chegar ao pátio, fui surpreendida por inúmeras crianças Sem Terrinha, acampadas em frente a FACED. Elas vieram dos acampamentos próximos para encontrar-me, e saber o que havia escrito e apresentado em tese, sobre sua Escola, “aos estranhos” a elas. Vestidas de festa, com cantorias, poesias, e fortes gritos de ordem, fizeram perguntas, e atentamente ouviram minha tentativa de respondê-las em linguagem infantil. Portando a bandeira do Movimento, me deram flores e abraços apertados. Ali tive a nítida comprovação de que a verdadeira banca se fazia com aquelas crianças, que tinham a Escola Itinerante como sua casa, e não como casa alheia. Foi nestas escolas que encontrei o suporte metodológico e de conteúdo para costurar uma tese, publicada em livro: Escola Itinerante – na fronteira de uma nova escola. Olhando para aquelas crianças, as reconheci como as verdadeiras educadoras/pedagogas de mim. Eram elas que poderiam aprovar ou não o que havia visto e sistematizado em 12 anos, forjando a criação de escolas e acompanhando a construção da Pedagogia do Movimento.     

Recentemente, em 2022, me reencontrei com a Escola 29 de Outubro, originada no berço da antiga Fazenda Annoni na década de 1980.  Este reencontro se deu por uma razão muito especial, uma provocação pedagógica de troca de cartas entre crianças do quarto ano e eu, no período da pandemia que tomou volume, velocidade e concretude. Percebendo que a correspondência fluía em provocações e construção de novos aprendizados entre nós, nasceu a ideia de um livro: Cartas de Afeto e aprendizagens – relação de educandos com a educadora. Esta é a obra mais recente, com cartas escritas por crianças de pouco idade, mas grandes na coragem e determinação. Estes, filhos e netos, herdeiros de assentados, contam a história da Annoni em forma de cartas, porque ouviram essa história várias vezes, de seus pais e avós.

Esta singela obra, apresentada em mística pelas crianças/escritoras, abriu o encontro de pesquisadores/escritores no dia 24 de outubro no encontro dos 40 anos da Annoni.  Esta, acompanhou a apresentação de tantas outras, trazidas por pesquisadores, a maioria universitários, que, por quatro décadas, permaneceram escavando tudo o que diz respeito ao que cercou a vida e o movimento das pessoas que constituíram os acampamentos da Encruzilhada Natalino e Fazendo Annoni.

A mim chamou atenção a seriedade, o respeito e a ética com que mulheres e homens/pesquisadores, de várias áreas do conhecimento, entraram nestas áreas de conflitos, ganharam a confiança, perguntaram e ouviram atentamente os testemunhos que o povo lhes entregou, com toda a sinceridade e confiança. Nestes pesquisadores, os Sem Terra acreditaram e lhes confiaram o que de mais precioso poderia fazer parte de sua pesquisa, a fidelidade aos fatos. É desta forma que “a literatura testemunhal se torna uma trilha para dar outro lugar à experiência, uma vez escutada e reconhecida, ganha outro sentido em nossas vidas (Vera Vidal Brasil, 2025, p. 16).[4]

Com as informações seguras, foi se construindo os alicerces da pesquisa, sem que houvesse alguma contestação. Essas obras são de uma fidelidade à luta como de fato ocorreram os fatos, contados pelos protagonistas, lá no início, nos acampamentos, e depois já nos assentamentos. São livros que elucidam a história do povo: a presença ou interferência da Igreja, a construção dos barracos, as iniciativas na educação, a busca por saúde alternativa com chás e curandeiras, e por políticas públicas para combaterem as doenças do povo: como as gripes, verminoses, sarampo, varíola, intoxicações e falta de vitaminas. A cada criança que estava por nascer, era um dilema ser recebido num hospital e conseguir um médico que aceitasse fazer o parto. Tudo está contado em detalhes, incluindo as estratégias criadas e combinadas em segredo, para driblar com maestria a polícia, na madrugada de 29 de outubro, quando as cercas foram cortadas e os pés deles pisaram a terra vermelha. Lá dentro se conheceram, construíram a resistência, negociaram, levantaram as estacas da escola improvisada, escreveram cartas para as autoridades, planejaram as marchas e a pedagogia para explicar ao povo porque marchavam para a capital. Mesmo que seus pés sangrassem e seus chapéus voassem pelo vento, eles não voltariam atrás. O tempo do acampamento foi uma verdadeira escola a céu aberto, encharcada de pedagogia e resistência, luta e afeto.     

Ouvindo os autores das obras, a vontade é de ter e ler todas as obras, e também ajudar aqueles que já com vista fraca ou catarata avançada, não leem mais. Estas pesquisas ajudaram e ajudam muito dar visibilidade à Natalino e Annoni, desde seu início na década de 1980, até a atualidade. Ainda que há pessoas que querem esquecer toda essa história, essas obras, escritas no calor dos fatos, sempre servirão para lembrá-los de como ocorreram os fatos, principalmente porque, como e quando Roseli Nunes teve seu direito sagrado à vida, interrompido em um acidente propositalmente provocado em um trevo de estrada em Sarandi, em 1987, deixando seus filhos, ainda pequenos órfãos de uma mãe ainda tão jovem. Os livros, nós sabemos, têm sua força e poder de guardiões da memória, mesmo em folhas envelhecidas, tudo aquilo que o tempo pode apagar de nossas lembranças.

Conto tudo isso para dizer que retornar à Annoni, para a festa dos 40 anos, tem um sabor doce e um significado singular, cheio de lembranças, de memórias, de emoções acumuladas e de lágrimas não deixadas cair, para não parecer fraca, e sensível demais.

Retornar à Annoni após 40 anos, é um privilégio, certamente. Juntos fomos escavando lembranças, construindo memórias coletivas, escrevendo a sua história, estreitando as brechas para evitar a entrada de pesquisadores decididos a contá-la na versão dos vencedores. Penso que fizemos a nossa parte, disputando as memórias da classe trabalhadora, produzindo e divulgando sobre elas. Uma forma pedagógica de combater as memórias que possam vir da classe dominante. Ao tomarmos a frente para entendermos a luta pela terra travada nesta região, hoje temos estantes cheias de obras que contam a versão verdadeira dos acontecimentos, ouvidos à viva voz dos sujeitos que viveram os fatos, e agora, confiados a nós para contá-los. Lembremos que por um longo tempo a realidade do povo se fazia a melhor bibliografia, não haviam outras fontes. Quarenta anos depois, temos fontes primorosas em livros, que não deixam apagar o que foi construído por mulheres e homens, crianças e adolescentes, forjados na luta, no sol ardente e nas noites mais frias de décadas passadas.

Nos dias 24 e 25 de outubro/2025, reencontrei pessoas admiráveis e acolhedoras, com as mãos calejadas, os cabelos grisalhos e com traços faciais marcados pela idade. Hoje, cientes de que a passagem pelo tempo é inevitável e sem retorno, continuam a caminhada, sem aborrecer-se, e sem muita pressa para chegar. Com tempo, alcançaram aprendizados que tornou sua vida mais leve e divertida. Ao seu lado, encontrei seus filhos: médicos, veterinários, educadores, advogados, jornalistas, artistas, camponeses de raiz, que buscaram aperfeiçoamento para contribuir com mais competência na luta pela terra. Um passo adiante, avistei Marcos Tiarajú e sua irmã, filhos de Roseli, e o neto. Tiarajú é médico formado em Cuba e ela é assistente social. Vi também muito povo semeando solidariedade, rodeados de apoios, decididos a continuar na luta pela Reforma Agrária, ainda intacta, no papel, porque os poderosos do capital usam de todos os mecanismos para impedir sua realização. Não pensem eles que o povo está cansando. Conforme João Pedro Stédile: Pode demorar, mas já estamos a caminho.  De acordo com Telmo Marcon “a luta pela terra revela-se ser uma universidade para o desenvolvimento humano. Todos/as têm oportunidades para se desenvolver intelectualmente, aprender a conquistar direitos por meio da organização, partilha e luta assumida em conjunto”[5].

Por fim, a pergunta: Como os movimentos sociais nos constituíram como pessoas, pesquisadores, professores, cidadãos é uma pergunta provocativa para todos nós. São 40 anos que esta região/território se mostra fértil para pesquisa, capaz de interrogar os pesquisadores que a interrogam. Capaz de responder às muitas perguntas sem que as tenhamos formulado, nos dando trabalho dobrado para elucidá-las. Capaz de nos motivar a ir fundo, escavar o que a luta ainda tem a nos dizer sobre tudo o que ocorreu nestas terras hoje povoadas de gente e cheias de plantações. Terras que se mostram desafiadoras para os sociólogos, os pesquisadores, os educadores, os filósofos, os médicos e jornalistas.  E, sobretudo, para os primeiros sem-terra, hoje, Sem Terra do MST.  

De modo especial o MST e sua forma de organização, tem sido o nosso grande pedagogo, mestre de ofício, porque foi capaz de construir uma Pedagogia própria, do Movimento, obviamente inspirado na Pedagogia do Oprimido e Pedagogia Socialista. O aprendizado nos diz que aquele pesquisador, que o descortina pela pesquisa, não espera o entardecer, acha jeito de conhecê-lo, pessoalmente. E dele não se distancia mais, porque nasce entre o Movimento e o Pesquisador, um compromisso ético, uma necessidade de estar perto, próximo, aprendendo com ele. Quem diria que à sombra das árvores da Escola 29 de Outubro, no coração da antiga Fazenda Annoni, estaríamos nós, 40 anos depois, socializando nossas pesquisas, com teses afirmativas de que valeu muito apena cortar as cercas naquela noite de lua cheia de 29 de outubro de 1985! Pelo visto, o cintilar dos arrames cortados, que jogou as duas pontas para os lados, abrindo espaço para pisar naquela terra, não sairá tão fácil dos ouvidos daquele povo. E nem dos nossos, pelo tom de voz vibrante que usam para nos contar.

Contudo, com nossa aproximação e confiança que ganhamos dos Sem Terra foi sim determinante para nossa formação humana, pedagógica, política. Creio que nenhum de nós tem algum fio de arrependimento de ter “gasto” a sola de sapato, e ficar tanto tempo ocupado, ouvindo e alinhavando sua história no papel, aprendendo com cada palavra e gestos concretos de solidariedade.     

Sem dúvida, estudar e sistematizar a caminhada de uma organização, seu projeto social da forma como pensa quem luta, participando de sua construção, se constituiu um desafio e um aprendizado sem igual.  Um aprendizado que vem da escuta do povo, do pisar com respeito na terra por eles cultivada, que antes lhe causou dor e lágrimas. Do sentar-se às suas mesas, fartas de comida saudável, gratos pelo seu trabalho organizado. Respeito que fomos ganhando porque não os traímos, dando a conhecer a eles o que pesquisamos, e fazendo validar como ciência a história construída por eles, colhendo contribuições e críticas. Esta é uma convicção que deve nos acompanhar a vida inteira.     

Fiquemos atentos, mantendo-nos sensíveis às causas deste povo, e às interrogações que as mudanças da realidade possam vir a nos fazer, ainda hoje ou amanhã. Se vier aquelas mais audaciosas e desafiadoras, que tenhamos coragem de buscar suas respostas, mesmo que provisórias. A pesquisa, quando atravessa a alma do pesquisador, e a alma dos sujeitos da história pesquisada, não se esgota nunca. Não há ponto final.

Não descuidemos dos próximos 40 anos, porque a pesquisa feita do presente, com memórias do passado, tem o dever de jogar luz no futuro. Muito ainda está por vir. A artesania de sua construção deve continuar, por que “as chaves do futuro e de utopia estão escondidas, quem sabe, na memória das lutas, nas histórias dos simples, nas lembranças dos velhos (Bosi, p. 208)

Estou segura de que, nenhum de nós seria o pesquisador e ser humano que é, sem esta história de luta, construída ao lado e com o braço empunho deste povo.

Foto aérea da Escola 29 de Outubro. (Foto: Ricardo Teles)

Foto aérea da Comunidade do Assentamento 16 de março Pontão-RS (antiga Fazenda Annoni). (Foto: Ricardo Teles)

Encontro de Escritores e Pesquisadores da Luta pela Terra e Reforma

Fotos: Rafa Dotti/Matéria site MST – 40 anos da Fazenda Anoni: https://mst.org.br/2025/10/25/emocao-e-anuncios-marcaram-o-primeiro-dia-da-festa-dos-40-anos-da-fazenda-annoni/

Autora: Isabela Camini. Do Setor de Educação do MST. Doutora em Educação pela URGS. Autora de várias obras, entre elas: Escola Itinerante – na fronteira de uma nova Escola, SP, Expressão Popular, 2009: Cartas de Afeto e Aprendizagens, relação entre educandos e educadora, Passo Fundo, Saluz, 2024. 


[1] FUNDEP – Fundação de desenvolvimento, Educação e Pesquisa da Região Celeiro. DER – Departamento de Educação Rural.

[2] Esta é a terceira vez que o Sindicato das Escolas Privadas/RS, escolhe experiências de Educação do MST para a entrega deste prêmio. Em 1999, o Prêmio foi recebido pela Escolas Itinerantes dos Acampamentos do MST. Em 2000, foi para a Escola Josué de Castro (hoje IEJC), em cerimônia realizada em 11 de outubro de 2000. E em 24 de outubro de 2025, o Prêmio ficou nas mãos da Escola 29 de Outubro, como é conhecida, no Assentamento 16 de Março/ Pontão/RS, com o lema: “Da terra brota uma escola em movimento”.  

[3] Deste dia, uma lembrança não sai de minha cabeça. Dado o tema polêmico em tese, porque a governadora Yeda Crusius junto com o Ministério Público/RS, projetavam inviabilizar a vida escolar das crianças acampadas, o ex-governador Olívio Dutra veio assistir a defesa.

[4] BRASIL, Vera Vidal. Potência do desejo e dever de memória. In: Crianças e Exílio – memórias de infâncias marcadas pela Ditadura Militar. São Leopoldo. Carta Editora, 2025.

[5] MARCON, Telmo. Os Movimentos Sociais como educadores. Contribuições Políticas e Pedagógicas do acampamento Natalino. Passo Fundo: Ed. Universidade de Passo fundo, 2016.

Edição: A. R.

Aprender a sonhar: uma proposta ofensiva para a educação

Se as coisas são inatingíveis… ora! Não é motivo para não querê-las… Que tristes os caminhos, se não fora a mágica presença das estrelas! (Mário Quintana, Das utopias)

Sonhar é um dos recursos humanos mais importantes para alimentar a vida e “suportar” a realidade. Mais que sua possibilidade como recurso psíquico, nos interessa explorar sua importância política, visto que se faz mais do que um recurso, stricto sensu, tornando-se um dos principais alentos à construção de alternativas alterativas, insurgentes, transformadoras, revolucionárias. Mas, como sonhar em temos de profundas incertezas e de “retorno ao pior do passado”? Não seria o caso de parar de buscar futuros incertos e, em troca, abraçar momentos efêmeros?

Como sonhar em tempos preditivos? Como fazer da educação um lugar do sonho e do aprender a sonhar? Pensá-lo como parte da educação, como parte do processo de ensinar e aprender é o que nos propomos nesta brevíssima reflexão. E sugerimos que se apresente como uma “proposta ofensiva” para a educação.

Antes de seguir, um breve esclarecimento. “Proposta ofensiva” se inspira no que sugeriu Jacques Derrida no texto “Dónde comienza y cómo acaba un cuerpo docente[1], no contexto da reflexão sobre o ensino da filosofia na França. Trata disso depois de afirmar que “não há lugar neutro ou natural na educação” (1982, p. 61) e de tecer considerações sobre “desconstrução”, que “sempre teve em princípio por objeto o aparato e a função da educação em geral, o aparato e a função filosófica em particular e por excelência” [hegemonizada de forma “falogocêntria”] (1982, p. 66). É na oposição ao que seria uma proposta “escatoteleológica” que sugere que, na que apresenta, estejam “propostas ofensivas”. Propostas deste tipo “se ajustariam ao mesmo tempo ao estado teórico e prático da desconstrução e tomariam formas muito concretas, as mais eficientes possíveis na França, em 1975” (1982, p. 69).

Com o perdão do exagero, uma “proposta ofensiva” não se contenta em defender o que posto, mas se abre imaginativamente para o novo, para gerar o novo, para acolher, cuidar, nutrir e cultivar, “o-que-vém”. A abertura altruísta é a marca de um tipo de educação assim construída, feita não para “repetir e transmitir”, mas para criar e transgredir, insurgir.  Por isso “tudo a ver” propor ensinar a sonhar como ofensivo. Ofensivo não no sentido de causar ofensa e/ou agressão, mas no sentido de promover ataque… para atingir a uma norma, preceito, regra, no sentido de transgressão. Isso implica enfrentar um contexto excessivamente preditivo, que fagocita o criativo, a criatividade, transformando o que se acumulou em insumo para consumir, operando por padrões que apontam tendências – o que, aliás, acontece também com várias pautas chamadas progressistas.

Trabalhar o sonho implica na possibilidade de futuro e de discutir o que pode significar e, principalmente, como será construído e quiçá, realizado, ainda que não integralmente. Futuro é sempre incerteza… um certo acreditar na “possibilidade do impossível”.

I

Para alimentar o sonho é preciso alimentar aquilo que o torna possível. Entre os alimentos do sonho estão os conflitos e as contradições da realidade da vida… algumas delas, quem sabe, venham a ser superadas… são elas que indicam o grau da imperfeição persistente e que segue precisando ser transformada… matar o conflito e a contradição equivaleria a matar o sonho… o impossível não está na harmonia das muitas possibilidades e sim na desarmônica que as caracteriza, ainda que, na busca de harmonia, o que dificilmente se consegue realizar totalmente…

O futuro, quando capturado pelo controle preditivo, se desenha aos moldes de padrões pretéritos comprometidos com interesses coagulados em tendências que alimentam modelos de consumo acumulativos para quem é capaz de capturar as informações necessárias à produção dos padrões e de desenhar as possibilidades ajustadas aos ganhos de quem as controla. Não há lugar para “futuros outros” que não sejam aqueles desejáveis por quem programa a inteligência que os gera: é generativa, no sentido bem estrito do que se pode engenheirar controladamente. Criação? Nada… mais do mesmo, do mesmo que enche as burras do 1% que concentra a riqueza do mundo.

O futuro é capturado por uma retórica ideológica da “inovação”. Os sonhos são literalmente roubados. São traficados, como são as informações e os dados que lhe dão base… não são e nem estão ao comum, ao em comum. A distinção entre preditivo e criativo é aparente, visto que o generativo presente no que seria o criativo é tão controlado quanto o preditivo. Rigorosamente tudo está sob os controles dos modelos matemáticos programados (popularmente chamados de algoritmos). O modelo vai “criar” tendo por base aquilo que aprendeu no treinamento, não somente nos dados, mas principalmente no “modelo”, dos padrões, das distribuições e das estruturas. É uma questão de input e output. A aprendizagem é um acontecimento maquínico, um treinamento, um machine learning.

Num mudo assim, insistentemente programado, agravadamente emburrecido, covardemente capturado, fica difícil a imaginação, quase impossível educação para sonhar. Mas é ela o que alimenta o impossível… é ela que abre para a possibilidade de aprender a sonhar… aprender do sonho… Buscaremos em inspirações críticas subsídios para seguir a sonhar e a fazer da educação um sonho que alimente sonhos…

Davi Kopenawa, em A queda do céu,[2] faz do sonho o principal alimento da educação. Segundo ele, os “brancos”, os napë, aqueles que, na língua yanomami, são equivalentes a “inimigos”, “estrangeiros”,[3] temos uma prática de conhecimento que, no fundo, é de esquecimento (“seu pensamento é cheio de esqueci­mento” (2015, p. 140)), e precisamos anotar tudo em “peles de papel” o que vamos falar, pior, nossa fala não vem de longe e nem vai muito longe… esta talvez seja a mais dramáticas das qualidades do “sombrio”: estar cada vez mais desenraizados e cada vez mais abandonados dos sonhos.

O sonho é o modo de conhecer as coisas. Pois, “quando queremos conhecer as coisas, esforçamo-nos pa­ra vê-las no sonho. Esse é o modo nosso de ganhar conhecimento”. É por ali que se chega aos espíritos, sem os quais não é possível conhecer as coisas: assim é que se abrem os “os caminhos dos xapiri” e, dessa forma, podem fazer “crescer meu pensamento” (2015, p. 465). Com as palavras dos espíritos “dentro de nós”, têm a garantia de que “não se perdem jamais”. Ademais, com elas é que “podemos pensar com retidão” (2015, p. 466).

O conhecer, finalidade precípua da aprendizagem é um exercício de introjetar, de ouvir, de colocar dentro aquilo que faz “crescer meu pensamento”, os espíritos, os xapiri. A verdade construída pelo pensar reto, não vem do excesso de preocupação com os objetos, as mercadorias, o mundo exterior, mas com o mais profundo e permanente cultivo aberto e profundo do próprio espírito no encontro com os espíritos ancestrais. O saber, mais, a sabedoria, não vem do dado e nem dos dados, vem da “escuta” dos espíritos, mais do que “história” (2015, p. 458), são “nosso histórico” (2015, p. 466).

Franz Hinkelammert, na Crítica à Razão Utópica (1983)[4], diz que há uma polarização decisiva entre o possível e o impossível, sendo que ela tem como critério limite a “reprodução da vida humana real e concreta”.

Uma razão utópica no mau sentido é aquela que trabalha com um mau infinito, com um impossível limitador, quase que como que com uma distopia, uma ilusão. O que fica patente é que o impossível é necessário, não porque coincidam no que há de conteúdo que faz do impossível uma necessidade, o que se tornaria uma determinação, o que exatamente o destruiria em sua condição de impossibilidade. A questão é que a necessidade do impossível se põe como um contrafático ao possível ao modo da política como arte do possível e somente com a abertura ao impossível haveria as condições para efetivar o possível. Sem horizonte não haveria caminho.[5]

Paulo Freire, na Pedagogia do Oprimido (1968)[6], diz que o exercício de superação das “situações-limite” mediante “atos limite” indica que há um conjunto de processos e de tarefas que cabem ao ser humano na dinâmica concreta de sua libertação. No horizonte está a inauguração do “inédito viável”, que consiste no “mais além delas e em relação com elas”, as “situações-limite” (1975, p. 110).

O novo, a liberdade, não está fora da realidade; é parte da construção da libertação, de sua viabilização não como o mesmo da opressão, mas como o inédito, da humanização. O “inédito viável” implica no “desaparecimento da opressão desumanizante” e, para isso, “é imprescindível a superação das ‘situações-limite’ em que os homens [e as mulheres] se acham quase coisificados” (1975, p. 111). O inédito viável é um modo de afirmação da possibilidade do impossível ou, da realização de alternativas que enfrentem acontecimentos que limitam a ação. Ele é a porta aberta para a efetivação da libertação como realização de uma utopia que é inédita e viável.

Enrique Dussel em 14 Tesis de Ética (2016)[7], discute o tema no contexto do “princípio da factibilidade”. A proposta de “possível” é apresentada por Dussel sob a denominação de “factível”, “operável”, “depende de muitos níveis de possibilidade”. Ele distingue “o que é possível de ser pensado […] mas que é impossível empiricamente [como o planejamento perfeito]”; o que “pode ser empiricamente possível segundo as leis necessárias da natureza, porém impossível a partir de outras condições” (2016, p. 97); o que “pode ser economicamente possível, porém politicamente impossível”; “ser politicamente possível, porém culturalmente impossível” e assim sucessivamente (2016, p. 98).

O utópico, assim como a alteridade, “irrompe” como o que “nunca foi imaginado como possibilidade”, irrompe como “poder-ser”, como “pro-jeto”. Este novo não é uma “potência no sistema”, não é “passagem da potência ao ato”. Pelo contrário, é a passagem “do impossível ao ato”, uma “atualidade imprevisível”, sempre “acrescentada pela liberdade do [da] outro [outra]”, mais do que uma “probabilidade estatística”, “fixa um novo atalho”, nas “pegadas da alteridade”.

A experiência criativa, fonte da utopia e alimento da libertação, constitui o “princípio criativo ético de factibilidade”. Este princípio é enunciado da seguinte maneira: “devemos pretender a criação de práxis e de instituições que, em favor da vida das vítimas e partindo dos acordos por elas feitos, efetivem empiricamente aquilo que é possível. Possibilidade que, como um horizonte, encontra-se aquém da impossibilidade do idealista (de extrema esquerda ou de direita que, por exemplo, nega o Estado, um porque é inevitavelmente sempre repressor e o outro em nome da liberdade de mercado) e além da impossibilidade do conservador, pondo em obra com sabedoria prática (a phrônesis subsumida no consenso comunitário) o novo, possível e melhor que o vigente, em favor dos oprimidos, sabendo que os erros são inevitáveis, que a aplicação do princípio é falível, porém que podem ser corrigidos no processo da práxis pela interpelação e participação das próprias vítimas” (2016, p. 184).

Enfim, o principal desafio é realimentar o sonho, para o que é necessário recuperar as condições para escutar os espíritos, fazê-los dançar, para o que é preciso “reencantar o mundo”. Aprender a sonhar, a alimentar o sonho, a acreditar que o impossível tem possibilidade, é recolocar a imaginação não só no poder, como pediam as juventudes do maio de 1968, mas em tudo, na vida, em toda a vida e, especialmente na educação como prática do sonhar… com aprendizagem que faz sonhar e que alimenta as imaginações…

Autor: Paulo César Carbonari. Doutor em filosofia (Unisinos), professor de PPGPDH/UFFS e membro da coordenação nacional do Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH Brasil), coordenador do Projeto Sementes de Proteção Popular (SMDH/MNDH, Avuar com apoio da União Europeia). Também escreveu no site “Ainda estamos aqui”: www.neipies.com/ainda-estamos-aqui/


[1] Publicado numa coletânea [versão em espanhol do original de 1976]: GRISONI, B. Políticas de la filosofia. Trad. Oscar Barahona e Uxda Doyhamboure.México: Fondo de Cultura Económica, 1982. p. 57-108. OBS. Todas as citações são traduções nossas.

[2] KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A queda do céu: palavras de um xamã yanomami. Trad. Beatriz Perrone-Moisés. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

[3] Ver nota explicativa no Prefácio de A queda do céu, de Eduardo Viveiro de Castro (2015, p. 12-13).

[4] HINKELAMMERT, Franz. Crítica à Razão Utópica. Trad. Alvaro Cunha. Rev. H. Dalbosco. São Paulo: Paulinas, 1988.

[5] Ver nosso artigo “Utopia e Libertação: alternativas para fazer possível o impossível!”, publicado em CASTRO, Fabio C. L. de; SERPA, Valentinne (orgs.). Filosofia Latino-Americana. Semana Acadêmica do Curso de Filosofia da PUCRS. Porto Alegre: Fundação Fênix, 2020. p. 117-136. Disponível em https://fundarfenix.com.br/ebook/62-filosofia-latina-americana/ 

[6] FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1975.

[7] DUSSEL, Enrique. 14 Tesis de Ética. Hacia la esencia del pensamiento crítico. Madrid: Trotta, 2016.

Edição: A. R.

Uma casa, um pequeno universo

Vivemos um tempo em que muitos se distanciam da natureza. O entorno de muitas casas vira cimento, calçada asfalto. Vira espaço sem vida. É necessário reconectar-se à natureza, a partir de nossas casas.

Sempre entendemos que uma casa é um pequeno universo. Pensamos que a casa é um centro irradiador de vida.

Embora projetadas como um lugar de segurança e proteção, nossas casas sempre estão completamente envoltas pelas intempéries, contratempos e oscilações da natureza. Tudo o que acontece na natureza afeta também a nossa casa.

Uma casa está fincada na terra, conectada integralmente com o solo. Seja pela base, seja pelos fundamentos. Quem mora em casa sabe disso! Por isso mesmo, o pequeno universo que se forma em torno de uma casa fincada ao solo deve comportar flores, arbustos, arvores de sombra, pequenos animais, frutas, hortaliças, gramado. Deve comportar e promover diferentes formas de vida, diferentes cores e formatos das coisas criadas e desenhadas pela natureza.

Uma casa não nasce para ter seu entorno cimentado. Ela nasce para promover vida. Ela nasce para ser um espaço irradiador de cuidados que sugerem relações recíprocas entre a natureza e o ser humano.

O ser humano é parte da natureza, por ela é cuidado, nutrido e alimentado. O ser humano é abraçado pela natureza e retribui a ela com seus cuidados e proteção, a partir de sua casa. Lindo assim!

Veja dois pequenos vídeos que retratam nossos cuidados especiais no quintal de nossa casa.

Cecília Meireles descreveu o universo e suas relações de conexão integral, nos versos que seguem.

No mistério do sem-fim
equilibra-se um planeta.
E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,
entre o planeta e o sem-fim,
a asa de uma borboleta

(Cecília Meireles)

Recomendamos também o livro “Pontos de vista” do querido autor Ricardo Azevedo. Neste livro, um lar abriga um cachorro, um gato, um sapo, uma tartaruga, um menino, uma menina, um pai e uma mãe. A narrativa destaca a diversidade de pontos de vista dentro de uma convivência compartilhada. Cada personagem ― humano ou animal ― oferece sua visão própria, suas reações e seus olhares sobre o cotidiano. Este livro me fez pensar na sagrada relação de diferentes sujeitos que habitam um mesmo lugar e constroem diferentes percepções e pontos de vista do mesmo lugar, a partir de uma casa.

Quem nos acompanha nas redes sociais sabe que postamos, curtimos e compartilhamos imagens do entorno da casa onde moramos. Valorizamos cada planta, cada ser, cada flor, cada fruto, cada arbusto e cada elemento que fazem companhia à nossa casa.

Cada cantinho do terreno onde cultivamos plantas ou criamos pequenos animais como peixes merece ser valorizado e destacado como parte integrante deste pequeno universo que se forma em torno de uma casa.

Por fim, queremos afirmar que cuidar de uma casa, como do Universo, requer de cada um grandes responsabilidades. Tudo o que foi criado foi feito para embelezar a vida, a partir da diversidade das plantas, animais e todos os seres vivos. Na natureza, tudo é muito diferente e singular. Tudo tem seu encanto e seu propósito, e nós temos o dever de respeitar e cuidar. E tudo está intrinsecamente interligado e conectado entre si, o que denominamos interdependência.

Acreditamos que Deus criou o homem e a mulher para serem cuidadores/as das belezas do Universo; jamais seus dominadores.

Quem cuida seu pequeno universo (a partir de sua casa e entorno) entenderá a beleza e a complexidade do Universo maior. Se escolhemos morar em determinado lugar, com características e peculiaridades próprias, temos o dever ético de cuidar e preservar para que a natureza que ali está não seja perdida. Naquele cantinho, naquele lote ou terreno, ou área de terras, nós somos os responsáveis por gerir e zelar pela natureza que, teimosamente, ali se revela e se manifesta.

Mesmo que você não tenha o privilégio de morar numa casa (caso more em prédios/apartamentos), sugerimos que traga um pouco da natureza para dentro do seu ambiente habitado. Esta conexão do ser humano com plantas, animais, flores, arbustos, frutas ou legumes certamente humaniza, nos tornando melhores seres humanos.

Autor: Nei Alberto Pies, professor, escritor e editor do site www.neipies.com

A filosofia como meio de transgressão da própria consciência intelectual

Precisamos nos reinventar para tornar a escrita filosófica não apenas um conhecimento necessário para a sociedade atual, mas também recuperar o prazer da escrita, a liberdade de escrever sem calcular tempos, custos, alcances, normas ou ganhos. Entendo que ainda podemos fazer um caminho inverso a partir das mesmas ferramentas que a filosofia nos dá. Haverá outros que sejam corajosos o suficiente para tentar?

Estudar e escrever sobre filosofia tem a ver -nos casos em que me incluo- com uma transgressão inventiva contínua que nos mantenha alertas diante de qualquer normalização. Transgressão, porque implica romper com algo para ir em direção a outra coisa diferente, seja uma situação externa, mas acima de tudo implica uma atitude interna; inventiva, porque implica criatividade, inovação, que não pode cair no engano da repetição. Transgredir inventivamente é muitas vezes aceitar criticamente uma condição imposta e agir contra dela, de agir em contra a corrente.

No contínuo devir da vida intelectual, o filósofo acadêmico deve conhecer, respeitar e cumprir as normas impostas pelos cânones científicos, se quiser ter sucesso. Isso faz parte da normalização. Mas, atenção: o que é ter sucesso no mundo acadêmico? Sabemos que somos medidos por números, em termos de produção de textos denominados científicos, que devem cumprir as normas de publicação, mas acima de tudo somos tratados como números, esquecendo-nos de que somos pessoas.

Desgastamo-nos escrevendo artigos (papers) que sabemos que quase ninguém lerá, apenas os revisores da revista para onde os enviamos e algum que outro colega. Mais frustrante ainda é o negócio da publicação, onde não só se paga para publicar, mas também se deve pagar para acessar aos textos, e o autor e o leitor são roubados para enriquecer as grandes empresas proprietárias das revistas.

Quando falamos em ter sucesso na academia, do que estamos falando? Ainda não vejo nisso nenhuma consonância com o reconhecimento público, com a promoção do humano, com a valorização e o cuidado do trabalhador intelectual. Estamos longe disso. Quanto mais sucesso, mas exploração. Muitos intelectuais se autoexploram para produzir em meio a longas jornadas de trabalho, entre aulas a ministrar, teses a ler, artigos a corrigir, revistas a organizar e, em esforços extremos de cansaço, produzem artigos para publicar.

Como é compreensível, é muito difícil dizer algo novo, desenvolver uma ideia ou conceito que contribua com outros, mas acima de tudo é mais difícil que o que escrevemos seja lido. Se a métrica também exige ser citado, isso leva muitos acadêmicos à autocitação contínua, em uma vida totalmente oprimida e submetida às exigências da produção.

Há anos que os jovens que iniciam uma carreira acadêmica atraídos pelas humanidades encontram vários obstáculos que devem superar. A ilusão de dedicar alguns anos a uma formação básica, depois a uma especialização, para depois ter tempo para escrever e publicar -com a consequente formação permanente nos temas de seu interesse- vê-se, na grande maioria das vezes, frustrada pela esmagadora maquinaria acadêmica.

O sonho de realizar uma vida como escritor vai se transformando no de um funcionário autômata, produtor “em série” de escritos, muitas vezes repetitivos, arrastado pelas exigências acadêmicas.

Nas palavras de Han: “A exigência de tornar transparente a própria escrita equivale à sua eliminação. Escrever é uma ação exclusiva, enquanto que escrever coletivamente, de forma transparente, é meramente aditivo”[1] quando se perde o essencial da escrita. Desde o próprio processo educacional, seja uma graduação, um mestrado ou um doutorado, o jovem estudante experimenta a obrigação de publicar seus primeiros trabalhos se quiser garantir um futuro de sucesso, muitas vezes sem ter tempo para pesquisar em profundidade.

Precisamos questionar o clima cultural em que vivemos diante da falta de liberdade quando esta é submetida à máquina digital e à máquina do capital. Han escreve: “não constituem uma aliança terrível, que aniquila essa liberdade de ação? Não vivemos hoje em uma época dos não mortos, em que se tornou impossível não apenas nascer, mas também morrer?”[2] Essas perguntas esclarecem este ponto: diante do nascimento de uma vocação intelectual, se torna impossível cuidar dela e ajudá-la a crescer. Por quê? Porque a maioria dos acadêmicos e intelectuais está preocupada em evitar sua própria morte. Não há tempo para se dedicar a formar os futuros intelectuais, por um lado, porque eles são sua competência -embora em potencial-, mas acima de tudo porque eles próprios precisam sobreviver.

Em outro texto, Han diz: “A crescente atomização da sociedade nos torna surdos à voz do outro. Isso também leva à perda da empatia”[3]. Na vida acadêmica, assistimos cada vez mais a uma desumanização, com indivíduos que são forçados a viver em um medo contínuo de punição e com uma preocupação que gira em torno da mentalidade econômica, “como a preparação dos estudantes para ingressar na força de trabalho e a transformação do corpo docente em um exército de trabalhadores subalternos e temporários”[4].

Em um texto muito crítico, mas não isento de beleza, intitulado A claustrofobia da Academia, o jovem filósofo argentino Martin Grassi afirma: “A Universidade é hoje outra coisa… já não é academia. Lá já não se inicia nada, porque não há nada para iniciar; nada se inaugura, tudo se repete. Com uma estocada fatal e dialética, a Academia desferiu seu golpe contra a dignidade da Universidade: enquanto na Academia encontramos o poder de produção da verdade, na Universidade encontramos apenas o funcionamento da máquina fabril da reprodução simbólica”[5]. Eis aqui dito de forma poética e consciente o que vivemos hoje.

Precisamos transgredir a própria consciência acadêmica que nos faz repetir esquemas e que não nos permite crescer, mudar, evoluir. Precisamos nos reinventar para tornar a escrita filosófica não apenas um conhecimento necessário para a sociedade atual, mas também recuperar o prazer da escrita, a liberdade de escrever sem calcular tempos, custos, alcances, normas ou ganhos. Entendo que ainda podemos fazer um caminho inverso a partir das mesmas ferramentas que a filosofia nos dá. Haverá outros que sejam corajosos o suficiente para tentar? Acredito que sim, que há muitos por todas as partes.

REFERÊNCIAS:


[1] Han, Byung-Chul. (2014), En el enjambre, Madrid: Herder, 2014, p. 38. Tradução pessoal do espanhol.

[2] Ibidem, p. 56.

[3] Han, Byung-Chul. (2014), Infocracia. La digitalización de la democracia, Buenos Aires: Taurus, 2022, p. 38. Tradução pessoal do espanhol.

[4] Giroux, Henry, La guerra del neoliberalismo contra la educación superior, Barcelona: Herder, 2018, p. 254. Tradução pessoal do espanhol.

[5] Grassi, Martín, El Dios de los ladrones. La disputa por los sentidos del mundo, Buenos Aires: SB, 2021, p. 113. Tradução pessoal do español.

Autor: Diego Pereira Rios. Uruguayo, Profesor de Filosofía por la Universidad de Montevideo (ANEP), Magister en Teología Latinoamericana por la Universidad Centroamericana “José Simeón Cañas” (UCA), El Salvador. Actualmente cursa el doctorado en Filosofía en la Universidade Estadual do Oeste do Paraná (UNIOESTE), Toledo-PR, Brasil. Autor de once libros sobre educación, filosofía, poesía y teología. Email: pereira.arje@gmail.com Também escreveu e publicou no site “A rebeldia do filosofar”:  www.neipies.com/a-rebeldia-do-filosofar/

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