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Todo mundo quer ser mulher?

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Na cidade onde você mora mais da metade da população é formada por mulheres. Engraçado, todas as representações da Câmara de Vereadores são homens.
A única mulher que aparece é a que serve o cafezinho.
E aí, você ia querer ser mulher numa sociedade como esta?

 

Você saiu de casa para ir trabalhar. Está no ponto de ônibus.
Alguém passa de carro, diminui a velocidade e baixa o vidro.
O carro passa. Você mexe no celular.
O carro passa novamente, em velocidade ainda mais baixa.
A pessoa que dirige olha fixamente para você. Você não a conhece.
O carro passa.
Volta a mexer no celular, quando é surpreendido pelo mesmo veículo.
A pessoa que dirige começa a sorrir e falar que tipo de situações sexuais gostaria de viver com você.
O ônibus chega antes da próxima situação acontecer.
Você agradece ao deus que acredita (por ter paciência e pela história ter acabado aí) e entra no ônibus.
Trabalha dois turnos. Está cansado. Quer ir para casa.
Lembra que precisa ir ao mercado.
Você está de vestido, escolhendo tudo que precisa levar para casa.
Uma pessoa se abaixa para pegar um produto e espia embaixo do seu vestido.
Não uma, nem duas, mas várias vezes.
Você está cansada, prestando atenção nas suas compras, sequer percebe a atitude do cidadão.
Ele mexe nas calças, parece estar incontrolável.
Você termina suas compras, vai para casa.
Dorme. Mais um dia de trabalho.

No Rio Grande do Sul, uma mulher é agredida a cada 20 minutos.

 

Você escuta do chefe que pode ser que eles não contem mais com você no quadro da empresa.
Ele deixa claro que você já não é mais nenhuma mocinha e que carteira suja só não é pior que mulher passada.
Diz que ao menos você não engravida mais então a próxima empresa não precisa se preocupar.
Ri e encerra dizendo pra você não se preocupar, porque ainda dá um caldo.
Você chega no outro emprego. Tem reunião.
Você pede sua vez de falar, todos se inscrevem para fazer sua intervenção, mas na sua vez o seu colega acha que pode fazer adendos e mais adendos e quando você insiste em terminar de falar, ele começa a falar mais alto para abafar o que você diz.
Você é especialista no assunto, estudou muito tempo, mas o seu colega que não entende do assunto acredita que tem uma solução melhor.
Todos concordam com ele. É coisa de homem, dizem.
Você está esgotada. Vai embora.
Chega em casa e todo o serviço doméstico está por fazer.
Você faz tudo enquanto seu companheiro faz suas tarefas pessoais, pois acredita que limpar a casa não é tarefa para quem mora na casa, mas para você.
Termina o serviço e liga a TV na sessão plenária, quer acompanhar a política da sua cidade. Na cidade onde você mora mais da metade da população é formada por mulheres. Engraçado, todas as representações são homens.
A única mulher que aparece é a que serve o cafezinho.
E atrás do cafezinho, e apenas ali, está Ela.
Única guerreira no meio de tantos.
Parece que as coisas mudaram mas nem tanto nos últimos séculos.

 

Em outro artigo, a autora reflete sobre a questão da cultura do estupro no Brasil:
“Os brasileiros fazem questão de perpetuar a cultura de estupro, que nada mais é que o fato de tirar o foco do criminoso e colocar na vítima.
Seissentos segundos. Esse é o intervalo entre um estupro e outro no Brasil. A cada dez minutos uma pessoa é violentada sexualmente no nosso país. Esses dados assustadores foram declarados pelo estudo mais recente do Ministério da Justiça, que aponta que 50 mil mulheres são estupradas por ano no Brasil. Veja mais aqui.

 

O telefone toca, é uma pessoa que você mal conhece
Ela quer saber se seu companheiro está com você antes de falar.
Você diz que não faz diferença.
Para a pessoa que liga, se você não está acompanhado naquele momento, faz diferença sim.
E você está dando abertura para ela falar o quanto tem desejos sobre você.
Mesmo você nunca querendo causar esses desejos e pouco se importando com quem ligou.
Mas claro, se estivesse acompanhada merecia respeito.
Sozinha nunca merece.
Existindo nunca merece.
Bem na verdade, parece que nunca merece.
Em situação nenhuma, em lugar nenhum, com roupa nenhuma.
Isso é ser mulher.
Todo dia, de uma forma tão frequente, acabamos naturalizando todo tipo de barbaridade que a sociedade nos submete.
E aí, você ia querer ser mulher numa sociedade como esta?

A trajetória política da bióloga, botânica, tradutora e educadora responsável pelas conquistas dos direitos civis das mulheres brasileiras contada por quem a conheceu. 

Cata-ventos-conhecimento

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Uma vida vale pela empreitada que lhe dedicamos. Um projeto de conhecimento vale pela sinergia, pelo entusiasmo e pelo engajamento pessoal e coletivo que o mesmo consegue despertar.

Nossa website é uma construção que envolve a dinâmica dos cata-ventos: sempre abertos a possibilidades de interação e integração dos saberes e sabores que vem da vida e da natureza. É uma construção feita por muitas mãos. Nasceu do desejo e da necessidade de comunicar conhecimentos e reflexões que se importam com a construção de um ser humano mais colaborativo e solidário e um mundo mais humanizado.

Desde final de 2014 fazemos deste um espaço de intensa e respeitosa colaboração, vinda daqueles que se somam, convidados para contribuir com a afirmação da humanização. Humanizar-se é o maior desafio humano, mediado pelo conhecimento crítico, construtivo e plural.

A ignorância atrofia o ser humano. O conhecimento o liberta. A ignorância prende uma alma humana. O conhecimento libera as almas para sonhar e buscar possibilidades de plena realização. A ignorância embrutece as pessoas. O conhecimento as humaniza, tornando-as melhores seres humanos.

A contribuição solidária e interessada é o alicerce de nossas publicações. Fazemos grande esforço, estudo e dedicação para agregarmos elementos que resultem numa leitura mais interessante, prazerosa e dinâmica utilizando imagens, destaques de textos, links de outros conteúdos, vídeos.

Os cata-ventos inspiram permanentemente a nossa imaginação, as nossas ousadias e a nossa criatividade.

Queremos promover conhecimentos que geram humanização em processos abertos e dialógicos. Continuaremos apostando que a vida se faz em movimentos e que as relações interpessoais são ricas oportunidades de aprendizagem para todos os seres humanos.

A vida se faz da graça, dos sabores, dos amores e das cores que todos, e cada um de nós, decidem cultivar e aproveitar.

Vida longa a todos os que acreditam que podemos ser melhores, a partir dos conhecimentos que geramos e que deixamos gerar!

Como nos tornamos humanos?

Nosso maior palco é a vida e nela somos eternos aprendizes. Nosso maior desafio é a humanização, através do conhecimento. O conhecimento nos torna melhor seres humanos. A escola e a vida são oportunidades de aprendizagem, socialização e construção de conhecimentos. Humanizar é um dos maiores desafios da atualidade.

Nei Alberto Pies, professor, escritor e ativista de direitos humanos propõe mudanças substantivas para atingirmos a humanização.

 

Créditos
Composição da trilha: Bruno Philippsen
Gravação: Dom Rodolfo Estúdio

Programas de Pós-Graduação da UPF: 20 anos de atividades

Formação qualificada, estrutura adequada e internacionalização
marcam as ações ao longo de duas décadas de história
das pós-graduações da UPF.

 

Em seus 48 anos de atuação, a Universidade de Passo Fundo (UPF) ampliou e qualificou a formação da comunidade por meio dos programas de pós-graduação. Com 61 cursos de especialização, 15 mestrados, 6 doutorados e 9 estágios pós-doutorais, a Instituição se consolida na produção do conhecimento, atuando de forma direta no desenvolvimento e no progresso regional e nacional. Em 2017, várias atividades celebram os 20 anos na caminhada pela excelência na pesquisa. Em maio, a Instituição abre os processos seletivos para mestrados e doutorados, e, em junho, para as especializações.

Em 2010, a UPF contava com sete programas de pós-graduação e um curso de doutorado. Segundo o vice-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação, Leonardo José Gil Barcellos, essa expansão somente foi possível pela ousadia da primeira turma de pós e também de doutorado, propostas e executadas pela Faculdade de Agronomia, que, neste ano, celebram os 20 anos do Programa de Pós-Graduação em Agronomia e os 40 anos do Programa de Pesquisa em Aveia (PPA).

Para Barcellos, uma universidade é medida, também, pela grandiosidade de seus programas de pós-graduação. Em sua opinião, o stricto sensu é a excelência e a inovação na educação em todos os níveis, constituindo a base da pesquisa institucional, culminando na formação de profissionais qualificados.

“A existência do stricto sensu faculta à Universidade a possibilidade de oferecer formação diversificada nas diferentes áreas, num contexto integrado com todos os níveis de ensino e todas as dimensões transversais da Instituição. Nessa matriz, o ensino deixa totalmente de ter um caráter linear e estanque e passa a ser multidimensional e continuado, em um contexto em que não vemos pedaços ou partes isolados entre si, mas sim a sequência orgânica e a interação estreita entre seus componentes”, destaca.

 

Novo prédio para o PPGEdu

Como parte das comemorações, no dia 26 de abril, professores, alunos e a comunidade acadêmica prestigiaram a inauguração do novo prédio do Programa de Pós-Graduação em Educação, que também completa 20 anos de atividades.

Com uma estrutura moderna e pensada para a produção do conhecimento científico, o novo espaço vai ampliar as ações que são desenvolvidas e tem como foco também a aproximação ainda maior com a comunidade.

Para o reitor, José Carlos Carles de Souza, a ampliação reforça o compromisso da Instituição com a qualidade dos cursos que oferece e demonstra que o trabalho conjunto realizado pela Universidade tem trazido resultados importantes.

“Dentre seus muitos projetos, a UPF tem se dedicado a qualificar a pós-graduação, garantindo estrutura adequada para a produção do conhecimento. É com satisfação que entregamos uma área digna da importância do seu espaço. Essa construção demandou um trabalho muito grande da equipe de coordenação do Programa e da Unidade, mas também da Universidade, no sentido de viabilizar os recursos e de buscar as verbas para essa ampliação. Para nós, isso é fundamental quando olhamos para o futuro”, disse.

O primeiro vice-presidente da FUPF, professor Alexandre Nienow destacou o comprometimento de todos para que a nova estrutura pudesse ser utilizada pela coletividade.

“A trajetória de um Programa de Pós-graduação não se inicia a partir da sua criação, mas muito antes, em decorrência da dedicação e o comprometimento dos professores, alunos e funcionários em trabalhos de excelência no ensino, pesquisa e extensão”.

Na comemoração dos 20 anos do PPGEdu, o prédio da pós-graduação é o coroamento dessa trajetória, concebido e construído coletivamente pela Faculdade de Educação, o PPGEdu, a UPF (reitoria e vice-reitorias) e a Fundação Universidade de Passo Fundo , envolvendo os diferentes setores da Instituição”, pontuou.

 

Inscrições abrem em maio

Os programas de pós-graduação stricto sensu abrem suas inscrições a partir do dia 02 de maio. Abaixo, a lista dos que serão oferecidos.

  • Programa de Pós-Graduação em Bioexperimentação (PPGBioexp) – 08/05 a 02/06
  • Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais (PPGCiamb) – 22/05 a 20/06
  • Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGEdu) – 02/05 a 02/06
  • Programa de Pós-Graduação em Envelhecimento Humano (PPGEH)– 02/05 a 16/06
  • Programa de Pós-Graduação em História (PPGH) – 02/05 a 20/06 para o Mestrado e até o dia 28/06 para o Doutorado
  • Programa de Pós-Graduação em Projetos e Processos de Fabricação (PPGPPF) – 02/05 a 30/06

 

Fotos: Leonardo Andreoli
Assessoria de imprensa UPF

Impermanências

 

Werther Brado estava na ponte da vida. Não seria a hora de se jogar?
Assim tão pobre de alegria, de amigos e de vivências abortadas,
não teve outra opção senão dar tempo ao tempo.

 

Ao final do dia, como sempre, Werther Brado deparou-se com a solidão. Descobriu que ela, veladamente, o acompanhava dia a dia. Até então, jamais dera importância ao fato. A diferença é que, nesse dia, ela veio tão forte, contundente e furiosa, que o deixou profundamente prostrado.

Seguindo a rotina, após um intenso dia de trabalho, foi à praia. Feito um condor cercado de vazio, Werther procurou acomodar-se no alto de um rochedo. Enquanto admirava o pôr-do-sol e o voo dançante dos pássaros, ruminava seus pensamentos em torno dos sentidos da vida.

Como a paisagem era confortável e desafiadora, descobre que algo inusitado estava acontecendo. Quando vê, chora contaminado de silêncio e melancolia. Pareceu-lhe que o silêncio era um todo e a melancolia sua grande e fiel companheira.

Pensamentos iam e vinham. Então lembrou das mazelas vividas na juventude. Eram pensamentos idos e vividos. Experiências arriscadas sob o fio da navalha. Não pôde brincar com o tempo. Ele passava célere, corroendo as almas de dentro e de fora.

Foi a tempo de sentir no rosto o toque da brisa leve e fresca. Parecia o carinho da amada. Enquanto olhava sua imagem refletida no espelho d’água, uma onda de recordações começou a retumbar contra sua cabeça.

Werther perguntou:
– Quem sou eu? O que faço aqui? Aonde vou?

O silêncio, o mar e o rochedo nada responderam. O desespero veio forte, certeiro e contundente como a pedra de Davi. Werther Brado estava na ponte da vida. Não seria a hora de se jogar? Assim tão pobre de alegria, de amigos e de vivências abortadas, não teve outra opção senão dar tempo ao tempo. E tudo ficou escuro e fantasmagórico. Clareado o dia, respirou profundo e, convicto, disse a si próprio:
– Tudo é impermanente, Werther! Isso também vai passar!

 

Conheça mais sobre o autor e seus contos, assim definido pelo professor Dr. Juliano Tonezer da Silva:
“Por fim, para o encantador de leitores, eu elencaria três sinônimos: mágico, pois seus contos, lendas e causos nos deixam maravilhados; cativante, pois suas histórias nos deixam fascinados; e, magnífico, assim como são magníficas suas Histórias Preciosas”.
Veja mais.

 

Ética, democracia e educação

O contexto social e político sombrio que vivemos aponta debate acerca na democracia
e o papel que ela desempenha na reorganização da sociedade brasileira.
O que é democracia? Qual seu vínculo com a ação humana e com a ordem social?
Que democracia precisamos e como construí-la?

 

O Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGEDU) da Universidade de Passo Fundo (UPF) realizou no mês de agosto de 2016, no auditório da Biblioteca Central do Campus I, a Aula Magna para seus alunos e professores.

O conferencista foi Pedro Pagni, professor da UNESP, campus de Marília, São Paulo. O referido professor é especialista em Filosofia da Educação e estudioso do pensamento pedagógico contemporâneo. A conferência intitulou-se “Ética, democracia e educação”, baseando-se na obra Democracia e Educação, publicada pelo filósofo americano John Dewey, em 1916.

Esta obra impactou o pensamento educacional mundial, influenciando também o debate brasileiro, sobretudo, pela contribuição de Anísio Teixeira, o qual estudou com Dewey nos Estados Unidos e foi tradutor de suas principais obras para o português.

john deweyJohn Dewey

Com a teoria Escola Nova, o autor contrapôs ao sistema tradicional de educação, propondo o modelo de ensino-aprendizagem focado no aluno como sujeito da mesma. A teoria prevê ainda, que a aprendizagem deve partir da problematização dos conhecimentos prévios do aluno. Importante ativista e defensor da democracia, também participou de movimentos em defesa das causas sociais.

A proposta da “metodologia de projetos” surgiu com a sua contribuição e de William Kilpatrick. Dewey acreditava que, mais do que uma preparação para a vida, a educação era a própria vida.
Veja mais sobre John Dewey.

 

Diagnóstico da situação política atual

O professor Pagni iniciou sua conferência com o diagnóstico da situação política atual. Destacou alguns problemas e limites que a democracia representativa brasileira enfrenta.

A democracia como governo da maioria gera seus próprios impasses, na medida que os políticos eleitos para nos representarem passam a cuidar somente de seus interesses pessoais, dos interesses de seus partidos políticos e dos grandes grupos econômicos, os quais os financiam, em suas campanhas eleitorais.

No atual estado de organização política, a democracia representativa, ainda que precária, é indispensável. Não há como pensar o bom funcionamento dos papéis distintos que competem aos três poderes, executivo, legislativo e judiciário, sem a organização eficiente da democracia representativa. Eleições gerais, com escolha pública dos candidatos por meio do voto da maioria, ainda é o melhor mecanismo oficial para assegurar o funcionamento das instituições.

Se a democracia representativa é indispensável, por si mesma não é suficiente como garantia do bem público, compreendido como algo que pertence a todos. Ela precisa estar ancorada na sociedade civil forte e organizada, a qual, por meio de suas mais diferentes organizações, fiscaliza os representantes eleitos.

John Dewey pensa, em Democracia e Educação, sobre qual seria a melhor forma de vida e de organização social para este novo tipo de sociedade. Daí que desenvolve uma teoria da democracia pensada duplamente, como organização social e como forma de vida.

Entrevista com Vinícius da Cunha, professor de História da Educação da USP Ribeirão Preto. Neste programa Cunha fala sobre “a influência do pensamento de John Dewey na educação”. Entrevista gravada em 2009.

 

Quanto maior for a distância entre os eleitos e seus eleitores, menos fiscalização existe. Quanto maior for a autossuficiência e a arrogância do governo, mais espaço livre para a corrupção e para a deturpação do bem público. Tudo passa a ser feito em nome de interesses individuais.

O professor Pagni conhece bem a história da educação brasileira e o modo como as políticas públicas trataram da própria educação. Sua tese, neste contexto, é que predominou e ainda predomina na política brasileira o sentido oligárquico forte de democracia representativa. Em que consiste este modo oligárquico?

O conferencista esclarece que tal modo se apoia na propensão à superioridade e, como base nela, nas relações verticalizadas que acontecem entre o representantes eleitos e aqueles que os escolheram. Oligarquia é o domínio da minoria sob a maioria, tornando-a refém dos interesses da minoria.

O poder econômico nas mãos de poucos grupos sustenta a ambição humana e o desejo de superioridade de uns sobre os outros. Na medida em que a política distancia-se da ética e o sistema político se independiza por completo da sociedade civil, a aliança entre o poder econômico e os partidos políticos fortalece a ambição e a vaidade desmesurada de líderes políticos. Neste contexto, o líder político não deve mais lealdade ética ao seu próprio partido, quanto mais à base eleitoral que o elegeu.

 

Deturpação da democracia representativa

O que se observa é a deturpação da democracia representativa, pois os representantes passam a representar a si mesmos e aos seus próprios interesses. As políticas públicas que visam o bem comum e o atendimento das necessidades da população são enfraquecidas ou simplesmente ignoradas.

O parlamento, sem força, não aprofunda a reflexão sobre o projeto de país e nem se ocupa com o debate acerca das grandes reformas que o Estado precisa. Não se ocupa com o debate sobre o modelo e o tamanho do Estado.

O contexto social e político sombrio aponta para a necessidade de se retomar o debate acerca na democracia e o papel que ela desempenha na reorganização da sociedade brasileira. O que é democracia? Qual seu vínculo com a ação humana e com a ordem social? Que democracia precisamos e como construí-la?

Estas e outras perguntas motivam a retomada da grande obra Democracia e Educação, de John Dewey. Quando a escreveu, Dewey tinha diante de si um país, os Estados Unidos, em franca industrialização e desenvolvimento, mas com quase tudo ainda por construir, do ponto de vista da organização social e das relações humanas compatíveis com a sociedade plural que começava a se intensificar.

Educação, cidadania e democracia

O sentido político da educação pode ser colocado sob a perspectiva das relações entre educação, cidadania e democracia, sendo que todas elas estão totalmente ligadas.

 

Dewey pensa, em Democracia e Educação, sobre qual seria a melhor forma de vida e de organização social para este novo tipo de sociedade. Daí que desenvolve uma teoria da democracia pensada duplamente, como organização social e como forma de vida.

 

 

Quem fala se liberta

 

Todos falam, mas nem todos são ouvidos e bem compreendidos.
E é lamentável que muitos acreditem que escutar os outros é perder tempo.
Perdem-se, então, muitas possibilidades de vida, liberdade e realização humanas.

 

Os bons “escutadores” andam sumidos e fazem muita falta no atual momento histórico. Quando temos poucos dispostos a nos ouvir, criamos diferentes maneiras de comunicar as nossas alegrias, dores e angústias de ser humano, como também nossas bestialidades. Amplia-se, então, geralmente, ainda mais nossa incompreensão por parte dos outros.

Rubem Alves é autor do texto “Escutatória”. Conheci escritos do autor nos anos 90, durante os meus estudos de ensino médio, por uma grande professora estadual da disciplina de literatura e nunca mais deixei de lê-lo.

 

 

Temos necessidade de comunicar aquilo que nos incomoda, que nos irrita, que nos prende a nós mesmos. Falar sempre é um ato libertador, porque nos permite uma melhor compreensão de nós mesmos e dos outros. É também constante busca de compreensão, pois viver na eterna incompreensão gera desilusão e descrença nas possibilidades humanas.

Nossos relacionamentos interpessoais tornaram-se desacreditados, controversos e complexos porque, na sua maioria, são interesseiros.

Comunicamos o que nos convém comunicar. Ouvimos, interpretamos e falamos aquilo que nos traz status e reconhecimento social, sem nos importar como os outros nos vêem, nos sentem ou nos percebem. E nem sempre medimos o que falamos.

Não existe emancipação do ser humano sem uma boa comunicação. E o privilegiado exercício da fala e da escuta torna consciente o que somos, o que pensamos e o que sentimos. Mas é um caminho arriscado que muitos temem percorrer, porque falar verdadeiramente aos outros sobre a gente mesmo significa desnudar-se, expor-se, abrir-se. Muito bem contemporiza Charles Brown Jr. numa de suas canções: “se perguntarem prá você/ o que falar sobre si mesmo o que dirá?/ dirá que sabe o que não sabe/ tudo aquilo que jurou nunca dizer, por quê? pra quê?”.

As verdadeiras amizades e os relacionamentos sinceros engrandecem a vida do ser humano, tornando-o mais expansivo, mais aberto e mais liberto de suas angústias e sofrimentos. Geram confiança, imprescindível na fala e na escuta. Esta confiança, por sua vez, não nasce do acaso. Nasce como conquista, na lealdade, franqueza e sinceridade e vai se constituindo em relações de reciprocidade entre as pessoas.

Como nos revela, o exercício da fala também nos amadurece, nos torna mais sábios e mais conscientes no uso das palavras. Já disse Aristóteles: “o sábio nunca diz tudo o que pensa, mas pensa sempre tudo o que diz”.

Mude suas palavras, mude seu mundo. Em “O cego e o publicitário”, uma estratégia diferente, bolada por um publicitário, para o cego comunicar-se e pedir ajuda: “é um lindo dia e eu não posso vê-lo”. Emocionante!

 

 

Falar bem não é só uma questão de estética, construção gramatical ou retórica, mas é uma arte que nos exige ponderação, discernimento, bom senso, coragem, leitura de realidade, análise do contexto, consideração e respeito ao outro a quem dirigimos nossa mensagem. Sim, porque o que conta, afinal, é ser bem compreendido e bem interpretado.

 

Em outro artigo, escrevo: “os problemas de comunicação, em especial dos que sofrem com gagueira, constituem-se problema social, uma vez que interessam a todos.

O ser humano é especialista em compensar. Sem compensar não sobreviveria, porque se não é possível ser bom em tudo, é necessário ser bom e útil em alguma coisa. Por isso a gente se faz gente “agarrando-se” ao que tem de bom, em coisas que tem facilidade e que nos rendam reconhecimento dos outros.

Veja mais.

 

Seres humanos realizam-se plenamente quando sujeitos, emancipados e livres.

Permitir possibilidades da fala e da escuta aos outros é mais do que um gesto democrático e de cidadania. É, antes de tudo, uma atitude pedagógica que permite a cada um reconhecer-se como sujeito de pensamento e de ação.

Todos falam, mas nem todos são ouvidos e bem compreendidos. E é lamentável que muitos acreditem que escutar os outros é perder tempo. Perdem-se, então, muitas possibilidades de vida e de liberdade.

Quem fala se liberta e quem escuta permite a si mesmo e aos outros que o mundo e as consciências se alarguem, permitindo que aconteça o que é a maior busca de todos: a felicidade e a realização.

 

 

Educação e relações de afetividade

 

Que ser humano queremos ajudar a formar
e como envolver a todos (ou muitos)
para que se incluam no projeto educativo proposto?
A afetividade, impregnada pelo testemunho,
carrega os valores universais do respeito à alteridade, da solidariedade,
da gratuidade, do cuidado do patrimônio social, do empenho pessoal pela justiça social.

 

Educar revela sempre um processo relacional.

Se observarmos a natureza, encontraremos os cuidados dos progenitores para com as suas crias. Todos querem, por instinto, salvaguardar sua espécie da atividade predatória concorrente. O zelo para com os pequenos se traduz em proteção e ensino preparatório para a sobrevivência. O comportamento adulto afeta a vida dos neonatos, garantindo ou não a continuidade da prole. Nesta luta, o que é ser inteligente?

No processo educacional humano, o que significa empenhar a inteligência? Podemos seguir os ditames instintivos da natureza e promover a justiça do mais forte, transformando, assim, a convivência social em campo de batalha e gerando o acúmulo de violência (produção de morte) em todas as áreas da atividade humana.

Ao assumirmos a postura do amor, nos descentralizamos do nosso egoísmo e mergulhamos na transcendência que afeta a todos, possibilitando o bem comum. A pergunta na definição do projeto educacional se impõe: que ser humano queremos ajudar a formar e como afetar a todos (muitos) para que se incluam no projeto proposto?

O afeto a ser veiculado pelo testemunho carrega em si os valores universais do respeito à alteridade, da solidariedade aos mais fracos e necessitados, da gratuidade no serviço ao bem comum, do cuidado do patrimônio social, do empenho pessoal pela justiça social.

Uma palavra aos pais de alunos: o testemunho, ou seja, o exemplo, é a maior dádiva para a saúde integral de seus filhos, mas também pode se constituir em força desintegradora do caráter e da personalidade deles (dos filhos).

 Sueli Ghelen Frosi, da Escola dos Pais, entende que “as famílias felizes têm a concepção de que é bom tocar, de que é bom abraçar, de que é saudável mimar-nos e mimar aos outros. São famílias amorosas, que distribuem todo o carinho que recebem e, sabiamente, generosamente, transcendem seus lares, transmitindo para a sociedade o que vivem”.
Veja mais.

Com que qualidade e frequência seu filho ou filha recebe um afago, um colo, um embalo, um incentivo? Como anda a autoestima, a segurança, o amor próprio de seu filho?

Queridos pais: tenham certeza que tudo tem a ver com o ambiente familiar em que todos estão inseridos. Ainda, ajudem seus filhos em sua vida escolar, colaborem com a escola, pois juntos (escola e pais) atuaremos mais fortalecidos para que todos vivam mais felizes, mais integrados e melhor resolvidos.

 

Vídeos que expõem pontos de vista sobre a polêmica e controversa questão:
“Escola ensina, família educa?”

 

 

 

A manada de José Mayer e a Globo

Estamos descobrindo que Mayer e a Globo,
com seus sentimentos de poder total, têm muitas coisas em comum
(e não estou falando da relação com as mulheres,
mas das mais amplas relações humanas).

 

José Mayer frustrou muitos dos machos que o seguiam como inspiração, ao largar a nota em que admite que errou e que vinha errando há muito tempo com as mulheres.

Mayer confessou que era um assediador, mas arranjou um atenuante. É aí que ele pode ter frustrado os machos que o consideram o cara, o alfa a ser imitado. Mayer não só admitiu que era um predador, como veio com uma conversa sociológica.

 

Repercussões na própria Rede Globo em programa Vídeo Schow

 

A culpa seria dele e de toda uma geração que se sentia à vontade para assediar as mulheres do jeito que bem entendesse (ainda mais se fosse galã da Globo). Os machos que o admiram talvez não admitam, mas José Mayer acertou o diagnóstico. A nota é muito boa. Tão boa que fica muito acima da média em casos complicados como esse (se é autêntica é outra história).

Ele pede desculpas, confessa que sempre foi assim, anuncia que vai mudar e apela para que outros da sua geração também mudem. Só falta dizer que vai virar pastor. A nota tem até pretensões literárias.

Mas aí alguém pode estar pensando: eu avancei muitas vezes para além do razoável, mas nunca passei a mão nas partes íntimas de colegas de trabalho. Mayer passava. Deveria achar normal. Bonitão, insuportável, superior.

A tese de cientista social do assediador não o absolve, mas ameniza a própria culpa e talvez melhore sua situação no caso de um pedido de reparação da moça na Justiça. Mayer tenta se colocar como exemplar de uma manada. Ele é o que é porque integra uma coletividade de assediadores da mesma idade, com as mesmas cabeças atrasadas.

Pesquisei nas redes sociais sobre as repercussões e os comentários sobre o caso. Li até comentários de mulheres que parecem ver algum exagero no julgamento público, se não nesse caso, em muitos semelhantes. E muitos homens incomodados com a reação das artistas da Globo.

Elogiada por protagonizar e incentivar o debate de assuntos polêmicos em seu “Amor & Sexo”, na TV Globo, a apresentadora Fernanda Lima é uma das engajadas da campanha “Mexeu com uma, mexeu com todas”.
Veja mais.

 

Esses talvez não mudem, mas ele encerra a nota em tom de auto-ajuda: “O que posso assegurar é que o José Mayer, homem, ator, pai, filho, marido, colega que surge hoje é, sem dúvida, muito melhor”.

O que o episódio acaba por revelar é que não só os machos, mas também alguns atores do estilo de Mayer deveriam estar em desuso, num mundo em que se disseminam as agressões às mulheres, os casos de estupro e outras formas de crueldade e desrespeito, sem falar na homofobia.

Estamos descobrindo que Mayer, o canastrão, leva para seus personagens o que de fato é. E que ele e a Globo, com seus sentimentos de poder total, têm muitas coisas em comum (e não estou falando da relação com as mulheres, mas das mais amplas relações humanas). Com a diferença de que a Globo manipuladora nunca irá pedir desculpas.

 

Uma vida dedicada à cultura

Fotos: Arquivo pessoal /Paulo Dutra

Abrimos a temporada de novas entrevistas da série “Profissões Educadoras” com um personagem que contribui para uma revolução cultural na cidade. Nosso entrevistado nasceu em Santo Antão, interior de Passo Fundo e, ainda criança, veio com a família morar na Vila Operária e mal sabia ele que iria bem mais longe, ganharia o mundo. Refiro-me a Paulo Gilberto Bilhar Dutra, o Paulo Dutra, 60 anos de idade e uma vida dedicada à cultura e ao voluntariado. Formado em economia, é funcionário público há 42 anos, mas atrevo-me a chamá-lo de “operário da cultura”. Presidente do Festival Internacional do Folclore de Passo Fundo é responsável por colocar Passo Fundo no mapa internacional dos festivais de folclore, congregando 160 voluntários em torno de uma bandeira: a paz entre os povos.

Confira a entrevista.

 

Márcia Machado: Como a cultura entrou na tua vida?

Paulo Dutra: Na década de 70, nós tínhamos um grupo de teatro no antigo Colégio Comercial, que funcionava no Colégio Joaquim Fagundes dos Reis no período noturno e ali tínhamos um grupo de teatro que desenvolveu muitas atividades. Durante três anos trabalhamos ali e depois de formado continuei por mais um ano, nós inclusive viajávamos com o grupo. Desde o antigo primário participei de atividades culturais, especialmente ligadas ao tradicionalismo. Na Vila Operária, no Grupo Escolar Anna Willig, nós tínhamos um grupo de dança, também participei do Grêmio Estudantil, Centro Cívico e do Coral. O primeiro Coral no qual cantei foi com a professora Terezinha Brás, ainda no antigo Segundo Grau. Entrei para o Coral da Universidade de Passo Fundo, antes de entrar para a Universidade, eu já estava metido lá. Ainda participei de um grupo de danças no bairro Vera Cruz, chamado Mate Amargo, após ingressei no Grupo Terra Pampeana.

Márcia Machado: Foi com o grupo Terra Pampeana que nasceu a ideia do Festival Internacional de Folclore?

Paulo Dutra: Fui patrão do grupo por um bom tempo, fizemos um trabalho diferenciado sobre a cultura gaúcha e o grupo teve muitas atividades, muitas oportunidades dentro do Estado, pelo Brasil e fora do Brasil. Realizamos um trabalho intenso e com esse trabalho surgiu o CIOFF – Conselho Internacional de Organização de Festivais Folclóricos e Artes Tradicionais, onde fomos convidados a representar o CIOFF no Rio Grande do Sul pelo trabalho realizado pelo Terra Pampeana.

Márcia Machado: A ideia do Festival não nasceu em solo passo-fundense, tão pouco brasileiro?

Paulo Dutra: A ideia surgiu na Itália, enquanto participávamos de festivais lá, achamos que nossa comunidade também mereceria a oportunidade de ter aquela troca de informações que estávamos usufruindo. Voltamos e apresentamos o projeto para o legislativo que, na época, tinha como presidente o vereador Tadeu Karczeski e para o executivo chefiado pelo prefeito Airton Dipp e também fundamos o CIOFF/RS. O grupo trabalhou durante um ano, tínhamos a experiência de festivais nos quais participamos e mobilizamos toda a cidade, através de reuniões com escolas, igrejas, CTGs, associações de bairros, entidades. Tudo depende da motivação e esse grupo estava motivado e conseguiu fazer essa articulação envolvendo toda a comunidade. E o Festival está aí até hoje, completando 25 anos, sempre com o intuito de promover a paz entre os povos. Já estamos preparando a próxima edição.

“A ideia surgiu na Itália, enquanto participávamos de festivais lá, achamos que nossa comunidade também mereceria a oportunidade de ter aquela troca de informações que estávamos usufruindo”.

 

Márcia Machado: Como você se vê no papel de articulador dessa grande festa cultural que é o Festival?

Paulo Dutra: Eu me sinto feliz em participar. Não acho que eu seja o articulador porque a articulação se dá com um grupo que trabalha junto, há muito tempo, então tem ideias, tem coisas que são realizadas dentro dos grupos e que vão para a prática e a gente não sabe de quem é, a gente nem lembra. A ideia surge, é discutida, aprofundada e executada. Dizem que eu sou idealizador do festival de Passo Fundo, mas eu não sou. O Festival surgiu dentro do Terra Pampeana e até hoje a gente não lembra como aconteceu a discussão na Itália, o que sabemos é que ela foi tomando corpo e acabou resultando no Festival, tudo a partir do empenho de um grupo.

Márcia Machado: Como atrair 160 pessoas para um trabalho totalmente voluntário?

Paulo Dutra: Para ter voluntários, e eu sempre fui dedicado a essa causa do voluntariado, precisa ter um tema que atraia as pessoas, não só pela cabeça, mas pelo coração. E a questão do tema folclore está arraigado nas pessoas, é a vida, a cultura de cada um, todo mundo quer saber de onde veio, para onde vai. É a transmissão de cultura de geração para geração, então, é um tema que atrai as pessoas. Quando você tem um tema que te motiva e que motive as pessoas a trabalhar com o coração, aí o voluntariado acontece. Então, tem que ter cabeça, motivação e coração para isso.

Para ter voluntários precisa ter um tema que atraia as pessoas, não só pela cabeça, mas pelo coração.

 

Márcia Machado: O diferencial do Festival é o envolvimento de toda a comunidade. Os grupos visitantes percebem isso?

Paulo Dutra: Esse retorno que os grupos têm nos dado, não é só em relação ao Festival e a organização, mas é em relação ao comportamento da cidade. Como as pessoas recebem bem os grupos visitantes nas ruas, nas lojas, nos mercados, seja onde for. As pessoas querem com eles e não tem idade, tanto que num dos festivais a dona Heloisa Almeida, no alto dos seus quase 90 anos, estava em todos os desfiles e você também via crianças dançando e conversando com os grupos também. A comunidade compreende que para muitos é uma oportunidade única de conhecer várias culturas e que só o Festival proporciona isso.

Esse retorno que os grupos têm nos dado, não é só em relação ao Festival e a organização, mas é em relação ao comportamento da cidade. Como as pessoas recebem bem os grupos visitantes nas ruas, nas lojas, nos mercados, seja onde for.

 

Márcia Machado: O público busca uma interação maior com os grupos a cada Festival?

Paulo Dutra: A sinergia é grande, tanto que nós fomos aumentando o número de oficinas porque as pessoas pediam mais contato com os grupos. Exemplo disso é a oficina gratuita de conversação, momento em que a comunidade pode interagir com os grupos e também aprender as danças em outra oficina oferecida. Nas praças com os espetáculos, nas ruas com os desfiles diários. Outro exemplo foi um show aberto que realizamos no Parque da Gare e impressionou pelo número de pessoas participantes. Procuramos oferecer esse contato direto com os grupos, é uma troca. Só o Festival proporciona isso.

Márcia Machado: A disseminação da cultura dos povos tem um viés educativo?

Paulo Dutra: A questão cultural ela é muito importante para a educação e esses eventos com os quais a gente trabalha, todos eles têm um cunho educativo. O Rodeio Internacional de Passo Fundo, por exemplo, valoriza a questão da nossa terra, das coisas da nossa gente, das nossas raízes. Na medida em que tu conhece, começa a valorizar mais e a discutir sobre isso, é um princípio de desenvolvimento da educação. A Jornada de Literatura, nem se fala, é a formação de leitores, porque o conhecimento é cultura, e cultura é educação. O Festival é isso, muita cultura e educação, pois no momento que tu vai receber alguém de fora e que vai trazer a sua cultura, obviamente que as pessoas vão perguntar sobre a cultura local, então, você tem que buscar, tem que ler, tem que ter o conhecimento e esse processo na comunidade está sendo natural. Quem tem o conhecimento e a informação, tem outro tipo de educação.

A questão cultural é muito importante para a educação e esses eventos com os quais a gente trabalha, todos eles têm também um cunho educativo.

 

Márcia Machado: Como resumiria essa tua dedicação à cultura?

 Paulo Dutra: Eu me sinto feliz em participar dessas oportunidades, em saber que posso contribuir com a comunidade, mas sozinho a gente não faz nada. Existe a necessidade de apoio e temos o apoio dos poderes públicos de Passo Fundo, dos patrocinadores e da comunidade. O último Festival reflete isso, mesmo diante de toda a crise econômica, Passo Fundo foi a única cidade brasileira, em 2016, a realizar um festival do CIOFF, os demais não saíram.

Márcia Machado: Você imaginou que o Festival ia tomar essa proporção e chegar ao ranking dos 10 melhores do mundo?

Paulo Dutra: Não. Ele acabou se transformando em um dos maiores festivais do mundo, nós já recebemos aqui praticamente todos aqueles que foram presidente do CIOFF mundial, como Finlândia, Canadá e França, e o conceito deles em relação ao Festival de Passo Fundo é excelente, pois já visitaram festivais no mundo todo e colocam o nosso entre os 10 melhores do mundo. Eu não imaginava que o Festival fosse tomar a proporção que tomou.

Quem tem o conhecimento e a informação sobre diferentes culturas, tem outro tipo de educação.

 

Márcia Machado: O que você espera para o Festival no futuro?

Paulo Dutra: Continuar sempre. O tempo passa e o meu grande desejo é que alguém assuma a liderança desse trabalho. Temos incentivado e pedido muito aos voluntários para alguém assumir. A aposentadoria dá um certo medo, mas um dia terá que ocorrer também.

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