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Criança não namora nem de brincadeira

Namoro infantil não existe. As crianças têm um coração puro, sem maldades, são inocentes por natureza.

É comum nos dias atuais a erotização precoce das crianças entre os adultos, mas os pais devem evitá-la. Quando duas crianças tornam-se amigas muito próximas, principalmente se for uma amizade entre menino e menina as pessoas logo dizem que os dois são “namoradinhos”, isso não é verdade.

Criança não namora nem de brincadeira, criança brinca, criança é amiguinha da outra e apenas isso. As crianças têm vínculos de amizade inocentes e cheios de carinho, gostam de abraçar, beijar, ficar junto, mas tudo isso não significa que seja com outras intenções senão as de demonstrar afeto pelo amiguinho.

Vivemos tempos em que a indústria da moda e da beleza ditam normas e regras à sociedade, contribuindo para que cada vez mais a criança se pareça com um mini adulto, ou seja, se vista e aja como ele. Os pais devem ter cuidado com isso.

Toda criança deve ter o comportamento adequado a sua idade, pular etapas da fase infantil é prejudicial ao desenvolvimento da criança e pode trazer sequelas na idade adulta. Criança deve se vestir como criança e nunca usar produtos ou calçados de adultos. Os pais também devem manter cuidados com o uso exagerado por parte das meninas de maquiagens. Ao menino cabe o direito de chorar em público quando sentir vontade, também é preciso acabar com essa história de que homem não chora.

Toda criança tem o direito de escolher os seus amiguinhos e não é nada demais se o seu filho escolher uma menina para ser a sua amiguinha e gostar de brincar com ela e estar ao seu lado, isso não significa que ele esteja apaixonado, que sinta ciúmes, que tenha desejos pelo corpo da menina. Nada disso.

Deve ser permitida a criança viver as fases da sua infância de forma clara e obedecê-las sem atropelos. Uma criança jamais sentirá desejos sexuais por outra, tudo o que ela deseja é sentir-se bem ao lado do amiguinho e feliz com a sua presença. Os pais de uma menina também não devem proibir que ela veja o seu amiguinho só porque acham que ela está apaixonada. A menina igual ao menino quer apenas poder estar ao lado do seu amiguinho.

Criança também sente tristeza, saudades e amor pelos seus amiguinhos. Algumas chegam a adoecerem se passarem muito tempo distantes dos seus amiguinhos mais próximos. Os laços de amizade entre as crianças são sinceros e mesmo que se aborreçam umas com as outras, é questão de um tempinho curto para voltarem a brincar. Criança não guarda mágoas e nem raiva por muito tempo.

Evite que a sua criança seja vítima de namoro precoce.

Mesmo que a criança aceite ser o namoradinho de outra, converse com ela e diga que a idade de namorar ainda não chegou. Explique que só adultos namoram, casam e têm filhos. Não alimente essa ideia na sua criança, pode ser bastante prejudicial ao seu desenvolvimento. Toda criança deve apenas brincar e estudar.

Se na escola começarem com essa coisa de “namoradinhos” fale com a professora do seu filho. Ensine à sua criança que ela deve se comportar como tal, ou seja, sem se envolver nas conversas dos adultos e buscar brincar com outras crianças da sua idade. A adultização da criança tem sido fato frequente nos últimos anos, por isso essa coisa de acharem que criança namora.

É muito comum nas festas de família ao verem duas crianças brincando dizerem que são “namoradinhos”.  Duas crianças brincam ingenuamente, tudo coisa da infância. Nas suas cabecinhas, o que estão fazendo não são nada demais. Estão apenas brincando uma com a outra porque se gostam e têm afinidades. São verdadeiros amiguinhos, isso sim podemos dizer.

É importante lembrar que as crianças não têm maturidade orgânica, social e afetiva para a ação de namorar. Os carinhos trocados pelas crianças são ingênuos, cheios de ternura e meiguice. Elas não têm outro objetivo a não ser demonstrar que estão felizes com a presença do amiguinho. Nenhuma criança deve ser estimulada a namorar. Isso nunca. Seria uma afronta a vida infantil. Os pais devem estar atentos a isso.

Respeitar as crianças nas suas atitudes e gestos, na sua fase infantil, nas escolhas dos seus amiguinhos e, principalmente, nas brincadeiras que mais os agradam isso sim é tarefa dos pais, como também, vigiar as pessoas próximas da criança para que não as adultizem antes do tempo.

Namoro infantil não existe.

As crianças têm um coração puro, sem maldades, são inocentes por natureza. Não sabem diferenciar o que é bom ou ruim para elas, por isso muitas acham engraçado quando as chamam de “namoradinhos”, elas nem imaginam o que isso significa. O melhor é deixar que elas cresçam e façam as suas escolhas conforme as suas necessidades, por enquanto deixemos que brinquem muito com os seus amiguinhos. Criança não namora nem de brincadeira.

Assista: Criança não namora, nem de brincadeira!

Autora: Rosângela Trajano

Edição: Alexsandro Rosset

Somos feitos para imensidão

“Sou um rio que se abre para a vida e que possui o sabor de suas águas. Sinto-me contente ela vida que trago dentro de mim.” (O Rio, diretor Décio Zandonade)

Para que definir o que somos? Por que se perguntar sobre si mesmo e sobre nossas potencialidades?

Ao definir quem somos, aumentam as possibilidades de compreensão de nós mesmos e dos outros. Não basta compreender a si mesmo. A humanidade que está em mim também reside nos outros. Para postularmos uma compreensão do ser humano, usaremos uma metáfora. Afinal, é “para isso que servem as metáforas, as analogias, as parábolas: para nos despertar para novas possibilidades, na medida da semelhança que percebemos, das ligações que fazemos entre o contexto da metáfora ou da parábola e a situação real” (Virgílio V. Vilela).

No vídeo O Rio, o diretor faz uma interessante analogia entre a trajetória de um rio e a vida de um ser humano. Rio e ser humano possuem razões que os fazem viver, existir. O rio, com seu desejo de conhecer a imensidão do oceano. O ser humano quer conhecer a felicidade, sua maior razão de ser. Ambos, um caminho em aberto e por construir, feito de obstáculos, companhias, medos, frustrações, conquistas, fascínios, limites.

Todo rio sabe a água que tem e o sabor que ela possui.

Todo rio é capaz de acolher outras águas que a ele desejam se agregar para conhecer o mar, mesmo aquelas pequenas e franzinas. Somadas, essas forças possibilitarão o sonho que é de todos: conhecer a imensidão do oceano.

Os medos, dos rios e dos humanos, significam a necessidade de proteção e cautela, pois viver é sempre perigoso. Sim, pois “o novo, o desconhecido, é sempre preocupante”. “O futuro, ah!, o futuro, sempre dá medo.” Mas os medos não podem deixar ninguém imobilizado, sem ação. O medo está na essência daquele que vive, mas sabe que, inevitavelmente, um dia irá morrer. Mas é “essa mistura de medo de fascínio é que me impulsiona, que me faz buscar, que não me deixa ficar parado”.

O que é comum entre os humanos: o desejo de felicidade. De cada um e cada uma, em particular, os sonhos, os objetivos, as metas. E é bom que seja assim, pois são as diferenças que nos permitem a complementariedade. A felicidade é sempre construída pelas pequenas e grandes conquistas do cotidiano. E as conquistas não esgotam, jamais, nosso desejo de felicidade. A cada conquista, criamos novas necessidades e nos desafiamos a concretizá-las.

E onde entra a tão discutida liberdade? Liberdade é a possibilidade de exercermos nossas escolhas.

Essas escolhas, por sua vez, nos permitem os diferentes caminhos. Livre é todo aquele que é capaz de assumir todas as responsabilidades que recaem sobre seus atos. Liberdade também se adquire conquistando as coisas que a gente descobre e que a gente gosta, mesmo aquelas mais perigosas.

O futuro pessoal e profissional, sobretudo dos jovens, é carregado de muitas dúvidas, em um tempo de m um tempo de poucas certezas. E os jovens de hoje sentem dificuldades para projetar metas e sonhos, pessoais e profissionais. No universo juvenil é recorrente a ideia de que o futuro é um mundo com poucas perspectivas. Essa ideia gera apatia, desinteresse e desilusão, fazendo com que percam a dimensão do traçado de um rio, que vê no caminho a sua força, a sua liberdade.

Somos seres de projeto, inacabados.

E “a vontade de viver e ânsia de liberdade” são os segredos da vida, vida compartilhada. Sabemos, todos, que nossos tempos são de difíceis caminhos e distintos modos de caminhar.

Os jovens é que têm um amanhã mais longo e mais incerto. E há perguntas que não querem calar: nossa tão proclamada experiência de vida ainda é referência para a vida dos jovens? O que é possível prever? O futuro é só de horizontes? Quais as referências que hoje orientam a construção do nosso amanhã?

São as perguntas que alicerçam a evolução dos seres humanos. Essa construção, por sua vez, tem como limite a imensidão (de possibilidades).

Tenhamos, todos, muita sorte ao desbravarmos nossa imensidão.

Nosso maior palco é a vida e nela somos eternos aprendizes. Nosso maior desafio é a humanização, através do conhecimento. O conhecimento nos torna melhor seres humanos. A escola e a vida são oportunidades de aprendizagem, socialização e construção de conhecimentos. Humanizar é um dos maiores desafios da atualidade. Assista: https://youtu.be/Il_XyDpcsgY?t=2

Autor: Nei Alberto Pies

Edição: Alexsandro Rosset

Filosofia para dar sentido à vida

O que significa viver bem? Podemos viver bem sem que os que estão próximos também tenham uma vida boa?

“Uma vida não examinada não merece ser vivida!”. Foi com essa frase que Sócrates, um dos mais importantes e reconhecidos filósofos da Grécia Antiga, confrontou seus acusadores e juízes no tribunal de Atenas no ano de 399 a.C. Acusado de profanar os deuses da cidade ao propor novas divindades e corromper os jovens atenienses, ao defender-se Sócrates identifica-se com a filosofia. Considera a acusação contra ele uma acusação contra a própria filosofia.

Ele mostra que a filosofia e a política do seu tempo são incompatíveis, pois esta última, uma vez instituída, sabe tudo, sacraliza o banal e descuida o mais importante. A filosofia, por sua vez, ao contrário, pergunta, reconhece os limites, destrói o aparente, dessacraliza os valores instituídos e impostos socialmente, cuida de si e dos outros, resiste à ordem imposta e continua fazendo perguntas.

Mesmo condenado, Sócrates ironiza os acusadores e os poderosos do seu tempo que o condenaram, pois estes valorizam o menos importante, cuidam e zelam de tudo, menos de si mesmos, de sua alma, de sua interioridade, de suas virtudes. Estão tão preocupados com o poder e com o dinheiro que esquecem de perguntar sobre o que significa viver bem; estão cegos sobre si mesmos e não conseguem distinguir o caminho da virtude do caminho da vício; gastam sua vida acumulando riquezas, mas não são capazes de educar virtuosamente seus próprios filhos; por isso tem uma morte infeliz, desesperadora, pois tardiamente percebem que escolheram os caminhos errados por não examinarem a própria vida.

Com Sócrates, a filosofia se torna uma atitude de vida que visa cuidar de si, da alma, da virtude, do bem viver.

Por isso a ideia de que “uma vida não examinada não merece ser vivida”. Mas o que significa examinar a vida? Por que examinar o modo como estamos vivendo é tão importante?

Primeiramente, examinar a vida significa pensar sobre como estamos vivendo, quais são as escolhas que estamos fazendo. Para fazer isso é necessário pensar, pensar bem, pensar com qualidade. Algo difícil de ser feito em dias como os nossos em que tudo parece andar de forma muito rápida.

O corre-corre diário e o excesso de atividades faz com que a grande maioria das pessoas não tenham tempo de pensar sobre o tipo de vida que escolheram para viver. Assim, a vida vai passando e os acontecimentos sequer são questionados. Exemplo disso é que muitos acreditam que a vida se resume em ganhar dinheiro, de preferência muito, para poderem comprar tudo que desejarem. E dessa forma, gastam sua vida, seu tempo, sua saúde, sua juventude, sua convivência numa frenética luta pelo dinheiro.

Muitos comprometem sua qualidade de vida em função disso.

Alguns, somente na velhice se dão conta que deixaram a vida passar e esqueceram de viver as pequenas coisas, os momentos que não tem preço, a convivência com os filhos, com os amigos, com os vizinhos; Outros nem conseguem chegar na velhice, pois perdem sua vida num acidente, numa doença física ou num acontecimento banal; outros ainda desenvolvem alguma forma de doença psíquica (depressão, esquizofrenia, distúrbios mentais) e passam a vida tentando recuperar a saúde psíquica com complicados e conturbados tratamentos.

Dar sentido à vida significa que precisamos dar significado aquilo que fazemos e dar direção no nosso próprio existir. Nossa vida não pode ser um barco sem leme que navega para qualquer direção.

Tampouco, pode ser uma vida pobre de sentido que se limita a acumulação de dinheiro ou de vaidades pessoais. Neste aspecto o apelo de Sócrates, mesmo sendo dito a mais de 25 séculos, continua atual e necessário para pensarmos a forma como estamos vivendo e o modo como educamos as próximas gerações.

Enfim, resta a pergunta fundamental: o que significa viver bem? Podemos viver bem sem que os que estão próximos também tenham uma vida boa?

Não vivemos mais em uma civilização em que se trabalhava para viver, onde as questões econômicas – como trabalho, consumo e acumulação – estavam subordinadas à finalidade de viver bem; mas em uma civilização onde vivemos para trabalhar, gastar mais dinheiro e consumir mais; e o viver bem foi identificado com o sucesso profissional ou a capacidade de consumo.

Quando o sentido da vida não está mais nela mesma, a educação também perde o seu sentido original de possibilitar uma vida boa e formar uma pessoa “de bem” e se concentra em capacitar tecnicamente os jovens para o sucesso econômico. Assim, o valor e o sentido de vida e da educação passam a ser medidos e julgados através do cálculo econômico”. (Jung Mo Sung, pg.12, Livro Educar para reencantar a vida).

Autor: Dr. Altair Alberto Fávero

Edição: Alexsandro Rosset

Apagão ou destruição da docência no Brasil?

“É muito vulgar a afirmação de que, hoje, qualquer um de nós traz no bolso, no seu celular, mais informações, dados e imagens do que a ciência acumulou ao longo dos séculos. (…) Numa palavra, como aprender a pensar, sabendo que nunca o poderemos fazer sozinhos. É para isso que precisamos dos professores, para comporem uma pedagogia do encontro (António Nóvoa e Yara Alvim) 

A educação, como a Ciência e a Cultura, está passando por um momento de profundas incertezas e inseguranças promovidas pelo Estado brasileiro. Desafios e dilemas impactam todo o sistema educacional e a comunidade escolar. Porém, o professor é o primeiro a sentir e repensar seu futuro nesse contexto.

A expressão “apagão docente” ou “apagão de professores” tem sido utilizada pelos meios de comunicação para anunciar a iminente falta de professores que teremos para atender a demanda de educação básica no Brasil, segundo algumas estimativas, já em 2025.

Este termo é utilizado, também, para denunciar os “apagões” da Ciência e da “Cultura”, acentuados pelo governo atual.

Um conjunto de medidas estão em curso acelerando este desmonte e a destruição de áreas estratégicas que afetam a soberania nacional. Destacam-se os cortes orçamentários sistemáticos, a redução de gastos e investimentos, o anti-intelctualismo e a falta condições de trabalho na pesquisa e na docência. Sem financiamento não existirá produção de conhecimentos, nem ensino.

As maiores evidências do apagão docente e a destruição da carreira dos professores expressam-se na baixa procura por cursos de licenciatura, na redução de matrículas, na extinção de oferta de cursos de licenciaturas pelas Instituições de Ensino Superior (IES), na defasagem quantitativa entre o número de jovens professores e no número de docentes na etapa final de suas carreiras.

50 anos ou mais

Estudos e dados do INEP/MEC indicam que a maioria dos professores em efetivo exercício possuem 50 anos ou mais, enquanto os professores com até 24 anos correspondem a menos que um quinto. O censo do ensino superior 2020, publicado recentemente, confirma tendência de redução de matrículas nos cursos de licenciatura nos últimos anos. O último censo revela, também, que os Cursos de licenciaturas tiveram o menor ingresso (18%), seguidos Cursos de tecnologia (26%) e os Cursos de Bacharelado com 55%.

Em 2020 tivemos uma redução de 24 mil matrículas em relação a 2019, sendo que 48,3% das matrículas estão concentradas somente na Pedagogia (815.000 estudantes), 9,1 Educação Física Formação Professores, 5,7% matemática, 5,3% História e 4,7% Biologia, totalizando 73,1% matrículas em apenas 5 licenciaturas. Física com apenas 1,8% das matrículas e Química 2,3 agravam a falta de professores já existentes, pois nem todos os habilitados exercem docência. Até porque o professor recebe salários, segundo alguns estudos, em torno 30% a 40% menores do que outros profissionais com curso superior equivalente.

Quase 60% das licenciaturas são EaD

Outros indicadores do censo preocupam e precisam serem considerados. Das matrículas nos cursos de licenciatura registradas em 2020, 33,6% estão em instituições públicas e 66,4% estão em IES privadas. Ou seja, para ser professor a maioria precisa pagar. 72,8% das matrículas em cursos de licenciatura são do sexo feminino, enquanto 27,2% são do sexo masculino.

Em relação à modalidade de ensino, as matrículas em cursos de licenciatura presencial representam 40,7%, enquanto a distância (EaD) são 59,3%. Essas, sem formação prática ou práticas de estágio em escolas públicas.

Essa condição docente brasileira é um fenômeno social complexo e multicausal. A desvalorização da educação e dos professores é histórica e inerente à estruturação educacional brasileira.

Privilégio

Enquanto o direito à educação era privilégio de uma elite, a docência até era glamourizada. Com a ampliação deste direito a todos – ocorrido somente em 2009 com a PEC 59 –, desencadeia-se um processo de precarização da educação básica pública e de desvalorização dos profissionais.

Abandono da carreira

O “apagão docente” materializado na destruição da docência é evidenciado também pelo abandono do projeto de ser docente.

Estudo de Lilian Wagner e Janaína Pereira Carlesso (UFN, Brasil), a Profissão docente: um estudo do abandono da carreira na contemporaneidade revela que, não se trata apenas de uma renúncia ou desistência do professor, mas do desfecho de um ciclo e de um processo de fadiga, insatisfação, descuido, desprezo, incompreensão e um mal-estar.

A análise do estudo aponta ainda, que a desvalorização profissional, o faz de conta dos colegas, o descaso e desrespeito dos estudantes, as decepções frequentes, as expectativas financeiras, a falta de reconhecimento profissional e pessoal, é que levam os professores a buscar outras profissões. Desta forma, manifestam-se duas fases importantes do ciclo profissional: o pôr-se em questão e o desinvestimento na carreira.

Salários e contratualidade

O Plano Nacional de Educação aprovado em 2014 tinha como meta, que as redes de ensino tivessem, até 2017, apenas 10% de seu corpo docente temporário e, a valorização de profissionais do magistério de forma a equiparar seu rendimento médio aos demais profissionais com escolaridade equivalente, até sexto ano de vigência do PNE (Meta 17).

A equiparação salarial aumentou no período abordado, passando de 65,3%, em 2012, para 78,1%, em 2019, mas foi mais em decorrência do decréscimo do rendimento bruto médio mensal dos demais profissionais, que correspondeu a uma perda real de 13,3% do poder de compra efetivo ao longo dos anos analisados, do que pelo aumento do rendimento dos professores.

Já sobre os docentes com contrato temporário, designado ou contratado, apenas quatro redes estaduais (Rio Janeiro, Rio Grande do Norte, Sergipe e Rondônia) atingiram a meta em 2018.

Precarização dos vínculos

Estes vínculos precários já atingem mais de 560 mil professores da rede pública em todo o país. Ou seja, 40% dos professores, em média, vivenciam relações frágeis e inseguras de trabalho.

Em sete estados o número de contratos temporários da rede estadual ultrapassa a quantidade de contratos efetivos: Espirito Santo, Acre, Ceará, Mato Grosso do Sul, Santa Catarina e Paraíba.

O RS está entre os estados com maior número de contratos emergenciais: em torno 40%, há quase duas décadas e 8 anos sem reajuste mesmo com inflação em alta.

O uso excessivo do regime temporário de remuneração instável e a alta rotatividade inviabilizam a criação de vínculos dos professores com a comunidade escolar e que resultam na fragilização da condição docente.

Rotatividade versus qualidade

“As pesquisas internacionais apontam que a permanência do professor no local de trabalho é fundamental para a qualidade de ensino. Uma escola que mantém o corpo docente mais estável têm um coletivo mais integrado para planejar e para trocar informações sobre os alunos”, afirma Dalila Andrade de Oliveira, pesquisadora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

A desigualdade social e educacional se expressa também nas escolas mais pobres, que possuem maior rotatividade no quadro de professores, diretores menos experientes e menos alunos interessados nas vagas existentes na periferia.

Fragmentação

Tal situação fragmenta o projeto político-pedagógico e compromete a formação dos estudantes, reproduzindo o ciclo da pobreza e a falta de oportunidade educacional de qualidade na aprendizagem.

Uma série de outras razões contribuem para o apagão docente, que já é real e vai se agravar a partir dos próximos anos letivos.

Registra-se ainda, o desprestígio e a desvalorização  social; a contestação e não pagamento do piso nacional por gestores públicos; o exercício da docência em áreas conhecimento sem habilitação acadêmica; a insegurança provocada por mudanças nos planos de carreira no efetivo exercício e na aposentadoria; a ausência de políticas de apoio financeiro na formação inicial e continuada; a responsabilização dos professores pela falta de condições de aprendizagem dos estudantes e, a desresponsabilização dos gestores públicos pela má gestão da educação.

Cinco ameaças à educação brasileira

Destacam-se, por fim, cinco aspectos políticos e econômicos que ameaçam os professores e sua carreira.

O primeiro, é o da (des)valorização docente. É necessário que os docentes sejam reconhecidos como trabalhadores da educação e contemplados com todas as frentes de valorização da carreira, englobando questões salariais, condições de trabalho, políticas de carreira e as formações inicial, continuada e de pós-graduação.

O segundo, é rever a política do teto de gastos, imposta pela Proposta de Emenda Constitucional 95, que impede a possibilidade concreta de valorização docente e instaura um incerteza na carreira destes profissionais.

Para educação brasileira, com grave déficit histórico, não se deveria aplicar teto de gastos, mas cumprir a Meta 20 do PNE vigente.

O terceiro aspecto passa pelos possíveis impactos da reforma trabalhista que incidem nos professores/as da esfera privada com contratos intermitentes, mas que podem também, num futuro próximo, atingir os professores das redes públicas. Em alguns países já há a contratação de professores pelo período de nove meses, correspondente à temporada de atendimento aos estudantes, o que gera a perda de estabilidade da categoria.

Isso permite aos reformadores empresariais da educação se apropriarem das políticas públicas para beneficiar o sistema privado, ampliando a privatização da educação com fundos públicos, que é o quarto aspecto.

O quinto aspecto, não menos importante, é a reforma no Novo Ensino Médio. Se os secretários estaduais de educação decidirem ofertar só Matemática, Português e Inglês (em alguma série), adotar o quinto itinerário técnico-profissional (inclusive com “notório saber”), desenvolver até 30% currículo através EAD e de plataformas educacionais, conforme permite a lei nº 13.415/2017, não precisarão mais contratar professores das Ciências Humanas (História, Geografia, Sociologia, Filosofia) e promoverão drástica redução custos com professores Educação Física, Biologia, Química, Literatura e Artes.

Concursos em baixa

Com o volume de contratos temporários e redução de pessoal, não serão realizados concursos para professores, como já ocorre em vários estados.

Os estados do Rio de Janeiro e do Paraná já terceirizaram as 1.200 horas da parte flexível do currículo (40%) mediante contratos de parceria com o sistema S e uma faculdade privada, com oferta a distância.

No Rio Grande do Sul, a nova Matriz curricular em implementação a partir de 2022, reduziu significativamente a carga horária de várias disciplinas e áreas de conhecimento desestimulando os atuais e futuros interessados na profissão docente. Aumentou, portanto, a insegurança e a incerteza, principalmente, dos professores com contrato emergencial.

Afinal, que razões um/a professor/a terá para investir na formação de carreira com um futuro ameaçado?

Enfrentamento

Para fazer o enfrentamento desta situação algumas medidas estruturais precisam ser implementadas imediatamente: políticas públicas de financiamento da formação inicial de professores; investimento na atratividade e permanência na profissão; valorização social e estatal da profissão docente ao patamar das profissões mais reconhecidas e sonhadas pelos jovens; reconhecer e legitimar que na escola e na educação o maior especialista e autoridade é o professor; estruturação e planejamento em redes de Instituições de Ensino Superior (IES) para formação em todos disciplinas e áreas que já faltam professores ou que irão faltar em breve e, qualificar a formação acadêmica numa perspectiva teórico-prática mais densa e instituir residência pedagógica remunerada.

Causas do apagão

O apagão docente é resultado de políticas e ações planejadas e irresponsáveis de governos empenhados com a destruição da educação pública e alinhados com a mercantilização da educação básica. Para tal, fragilizam ainda mais a esfera pública e promovem a destruição da carreira docente. Tal destruição interrompe projetos profissionais, projetos de vida e utopias de uma sociedade e humanidade melhor.

Ataques à autonomia docente, liberdade de cátedra, liberdade de ensinar e aprender com os estudantes já são parte de nosso cotidiano.

A falta de professores não é apenas consequência de descaso com a educação, mas um projeto de destruição da ciência, da cultura e da educação básica pública de qualidade social e emancipatória.

FONTE: https://www.extraclasse.org.br/opiniao/2022/05/apagao-ou-destruicao-da-docencia-no-brasil/

Autor: Gabriel Grabowski

Edição: Alexsandro Rosset

 

Estamos mais burros?

Abordagens imbecilizantes se disseminam, porque os fabricantes da desinformação se atraem e potencializam suas ações a partir do poder.

As pessoas estão mais pobres, mais tristes, mais desesperançadas e mais desiguais. E estão também mais burras. A sensação é de que pessoas próximas e distantes foram acometidas pelo surto de emburrecimento geral.

Não é uma teoria nova, nem uma tese de rede social, é a constatação da realidade. Tios, primas, sobrinhos, colegas de trabalho, vizinhos, todos apresentam, em algum momento, sinais de que ficaram mais burros.

E quem percebe que os outros estão mais burros pode também ter emburrecido. Uma das explicações possíveis foi oferecida pelos que examinam comportamentos coletivos, entre os quais o sociólogo italiano Domenico de Masi.

O avanço de líderes da extrema direita tem como um dos efeitos danosos, e com sequelas, o déficit de inteligência da população.

Países com governos fascistas, incluindo o Brasil, passam a refletir de acordo com a média fixada pelo governante, que inspira seus subordinados, que inspiram seus assessores, que contaminam quem está por perto.

Abordagens imbecilizantes se disseminam, porque os fabricantes da desinformação se atraem e potencializam suas ações a partir do poder.

Mas há um impasse nessa tese. Poderia estar acontecendo uma situação inversa. O Brasil mais idiotizado é apenas o que encontrou em Bolsonaro um líder capaz de defender suas ideias.

E pontos de vista antes recatados, que raramente eram apresentados em público, passaram a ser expostos com ênfase e radicalidade. Porque há um líder que pensa o que essa média acha do mundo.

É quando se fortalecem as teorias da Terra plana, o ataque à universidade e à ciência, a negação da vacina, a rejeição à quase tudo o que representa avanço civilizatório.

Há uma sensação de que o primo aquele, que não era tão idiota, envelheceu e ficou mais imbecil nos últimos anos. Ele não acredita em aquecimento global, subestima a destruição da Amazônia e desqualifica a eleição.

O sujeito que ataca a vacina é o mesmo que, num impulso para a abordagem de temas complexos, propõe interpretações próprias para anistia, indulto e perdão.

E aí temos perdão bíblico misturado a todo tipo de perdão, indulto e anistia. Na pressa, o militante de extrema direita simplifica questões que exigem calma, estudo e dedicação.

Tudo porque o tio que expõe o rebaixamento da própria inteligência é, segundo a teoria de Domenico De Masi, um sujeito que pode estar pedindo socorro.

O que ele diz, ao simplificar tudo o que aborda, é que o seu jeito simplificador de ver o mundo é o que lhe serve, porque desqualifica a sabedoria dos outros. Sabedorias que ele não alcança,

O brasileiro que ataca a universidade e a ciência está de alguma forma afrontando um incômodo, ou tudo o que ele não consegue ver como algo que possa ajudá-lo.

A ignorância encoberta pela gritaria é o que importa, porque o saber do outro o incomoda, sempre incomodou. Mas agora ele expõe esse incômodo como arma, sem constrangimentos.

O emburrecimento seria assim a manifestação de um recalque que ataca a socialização do conhecimento, o sistema de cotas, o ProUni e o acesso de classes sociais ascendentes ao saber, ao lazer, ao entretenimento.

O sujeito que aparentemente ficou burro ficou mais desinibido. Ele defende hoje em voz alta, o tempo todo, o que antes eram temas eventuais defendidos com alguma moderação. Por isso a sensação de que estamos mais burros se acentuou com o bolsonarismo.

Estamos mais expostos à desinibição dessa gente, no mundo real e nas redes sociais. Só que o emburrecimento seria o sintoma de algo pior do que o rebaixamento de inteligência cognitiva.

Estamos mais burros porque estamos mais ressentidos, mais preconceituosos, mais moralistas, mais racistas e mais homófobos. De acordo com um conceito que prosperou a partir dos anos 90, estaríamos perdendo não a inteligência das racionalidades, mas a emocional, afetiva e amorosa.

O brasileiro ficou mais prepotente, egoísta e inescrupuloso. O rebaixamento da inteligência é o efeito dos ódios e da sabotagem da cidadania e das liberdades.

O sujeito emburrecido é alguém que estava apenas hibernando à espera um líder que o conforte e o fortaleça. Descobriram que a mentira conforta e aquieta. Perdemos inteligência social.

FONTE: https://www.extraclasse.org.br/opiniao/2022/04/estamos-mais-burros/

Autor: Moisés Mendes

Edição: Alexsandro Rosset

Senhoras prefeitas, senhores prefeitos! (Cidades podem ser educadoras)

Rubem Alves chama atenção às prefeitas e prefeitos que devem ensinar o povo a pensar em jardins, para que as cidades não se transformem em selva. Os jardins a que ele se refere é a própria cidade como espaço-corpo dos habitantes pois, se não pensarmos em jardins, fugiremos da selva que ela se tornará. Cidades podem ser educadoras.

“Senhoras prefeitas, senhores prefeitos: eu não sou político. Nada entendo de administração. Não tenho conselhos técnicos a oferecer. Mas ouso pedir que me leiam. O texto é curto. Não vai tomar muito tempo.

Ignorem minhas incompetências. Se o que vou dizer fizer sentido, ficarei feliz. Se não fizer sentido, é só esquecê-lo.

Jay Forrester, professor de administração do MIT (Massachusetts Institute of Technology), enunciou a seguinte lei das organizações: “Em situações complicadas, esforços para melhorar as coisas frequentemente tendem a torná-las piores, algumas vezes muito piores e, ocasionalmente, calamitosas”.

Essa mesma lei foi enunciada há quase 2.000 anos, de forma mais simples e poética: “Não se costura remendo de tecido novo em roupa podre. O remendo de tecido novo rasga o tecido podre e o buraco fica maior do que antes” (Jesus).

As senhoras e os senhores estão diante de uma situação complicada. O impulso administrativo é fazer coisas para melhorá-la. A roupa que têm nas mãos está podre e esburacada. O impulso administrativo é costurar remendos de pano novo no tecido podre. Forrester e Jesus profetizam: “Não vai dar certo”.

O livro sagrado do taoísmo, o “Tao-Te-Ching”, diz que estamos constantemente divididos: de um lado, a tentação de 10 mil coisas que demandam ação. Todas elas não-essenciais. Do outro lado está uma única coisa: o essencial, raiz das 10 mil perturbações.

Sabedoria é deixar o sufoco das 10 mil coisas não-essenciais e focalizar o essencial. Pergunto: estão enrolados pelas 10 mil coisas não-essenciais que demandam ação ou já se focaram no coração do bicho de onde nascem as 10 mil coisas?

Há algum tempo fiz um artigo com o título “Sobre política e jardinagem”. Gosto de jardins, de jardinagem. Os jardins são o mais antigo sonho da humanidade. As escrituras contam que Deus se cansou dos seus infinitos espaços celestiais e começou a sonhar. Qual foi o seu sonho? Um jardim: paraíso. E achou o jardim tão melhor que o seu céu que resolveu se mudar de casa: passou a morar no jardim. Gostava de caminhar por ele quando a brisa da tarde era fresca.

Uma das necessidades mais profundas do corpo é o “espaço”. O corpo precisa do “seu” espaço. Por isso os lobos e os cães urinam em certos lugares. A urina é a cerca que usam para marcar os espaços. Os pássaros marcam seus espaços cantando. Esse espaço é parte do corpo. Quando ele é invadido, o corpo estremece com a fúria que leva à luta ou com o medo que faz fugir.

Diferentes de lobos, cães e pássaros, não urinamos ou cantamos para marcar nossos espaços. Criamos símbolos. Para os homens, o símbolo que marca o espaço-corpo é o jardim. Quando esse espaço é destruído, a vida social é destruída.

Paraíso” deriva do grego “paradeisos”, que vem do antigo pérsico “pairidaeza”, que quer dizer “espaço fechado”. Jardim é um espaço fechado. Por quê? Para ser protegido, para ser nosso. Fora dos muros que fecham o jardim, está o espaço selvagem, ainda não moldado pelo desejo de vida e de beleza que mora nos seres humanos. Política é a arte de criar esse espaço. É a arte da jardinagem aplicada ao espaço público.


Deixando de lado as 10 mil coisas a serem feitas, digo que a missão das prefeitas e dos prefeitos é criar esse espaço necessário para que a vida e a convivência humana possam acontecer. Tudo o mais é acessório.


Como se cria esse espaço? A resposta mais óbvia é: fazendo as 10 mil tarefas administrativas que a criação de um jardim exige. “O que vem primeiro? O jardim ou o jardineiro?” É o jardineiro. O que é um jardineiro? É alguém que sonha com um jardim antes que o jardim exista. Um jardim assim não começa com 10 mil atos. Começa com um único sonho. O jardim começa na cabeça das pessoas. Começa com o pensamento. Se o povo não sonhar com jardins, os jardins não serão criados. E os que existem se transformarão em lixo.

Não há jardim que resista aos predadores. Os predadores dos jardins são os seres humanos que não pensam jardins.

A tarefa mais alta das prefeitas e dos prefeitos não são os 10 mil atos administrativos e as inaugurações que se lhes seguem. Sua missão mais importante é seduzir os habitantes das cidades a amar os jardins, a pensar jardins.

Uso a palavra jardim como metáfora para o espaço da cidade, que deve ser uma extensão do corpo das pessoas. Se as pessoas não sentirem que o espaço da cidade é uma extensão de seus corpos, então ele não será jardim, espaço protegido. Será o espaço selvagem de onde se deve fugir.

E cada qual se esconderá atrás dos muros, atrás das grades, atrás dos cães. E viverão no espaço pequeno de seus medíocres apartamentos, de seus medíocres condomínios, de suas medíocres mansões. E a cidade será um espaço morto, entregue à fúria dos carros e à violência das feras.

As senhoras e os senhores já pensaram que, mais importante que as 10 mil coisas administrativas que podem ser feitas, a tarefa essencial é fazer o povo pensar? Que o essencial é educar?

Cidades Educadoras. Assista Márcio Taschetto. https://youtu.be/J9_54JCJ0ME?t=81

O diabo sugeriu que Jesus tomasse providências práticas imediatas para resolver o problema. Jesus respondeu que o que realmente importava era a palavra.
“Sonho que se sonha só é só um sonho. Sonho que se sonha junto é realidade”, diria Raul Seixas.

É preciso que o espaço-jardim da cidade exista primeiro na cabeça das pessoas, para então se tornar realidade. Isso é o essencial”.

Assista também este texto lido e recitado: https://youtu.be/fMOTEnSi-wY?t=73

Autor: Rubem Alves, in memoriam (1933 – 2014)

Esta crônica foi retirada de livro Conversas sobre Política, Companhia Editora Nacional, 2018. Fez parte do PNLD (Plano Nacional do Livro Didático) e foi enviado às escolas públicas do Brasil

Edição: Alexsandro Rosset

As árvores são guardiães das histórias dos nossos ancestrais

As crianças que aprendem a ouvir as árvores passam a ser mais felizes e sabem ser gratas à natureza.

“Antes que qualquer árvore seja plantada ou qualquer lago seja construído, é preciso que as árvores e os lagos tenham nascido dentro da alma. Quem não tem jardim por dentro, não planta jardins por fora e nem passeia por eles.”, versos do nosso querido escritor e poeta Rubem Alves.

Sim, se você não consegue cultivar um jardim dentro da sua alma não tente cultivá-lo fora de si. Do mesmo jeito é se você não consegue escrever a história da sua vida, não tente buscar as histórias dos seus ancestrais, elas de nada servirão para você.

Mas, se você é capaz de plantar árvores dentro da sua alma e de rir das suas próprias histórias, então seja bem-vindo a este texto e eu lhe desejo uma boa leitura, pois para sentir a vida com todos os cinco sentidos é preciso saber amá-la e conhecer a história daqueles que vieram antes de nós e nos trouxeram, de alguma forma, até aqui.

As árvores com as suas raízes apontando para a infinitude da terra e os seus galhos apontando para a luz do sol, a luz da sabedoria infinita do filósofo Platão.

Elas sabem bem o que é sabedoria, pois muitas delas contam séculos de existência e até mesmo as mais novas já vivenciaram muitas experiências ricas e emocionantes, sim porque árvore também tem sentimento e se emociona. Chega a chorar a nossa dor, as nossas perdas, as nossas angústias e aflições quando nos abraçamos a elas. São sentimentais por demais.

Somos filhos das árvores que brotam do solo e saem se enraizando terra adentro mostrando os seus frutos, folhas e galhos que se alimentam dos seus nutrientes. Assim são as nossas histórias, ou seja, somos entrelaçados por um fio invisível que vai tecendo a nossa existência no presente, alimentado pelo passado e com a esperança no futuro breve como breve é a vida.

Quando um fruto dessa árvore cai no chão, nasce com ele um novo ser que carrega as características dos nossos ancestrais, nossas memórias, nossas histórias e experiências seculares. Carregamos dos nossos ancestrais características físicas, tipo: cor do cabelo, cor da pele, formato do nariz, nosso modo de pensar, nossas crenças, a cor dos nossos olhos. Nossos ancestrais são a árvore secular que nos dão a possibilidade de fazermos escolhas, de traçarmos os nossos caminhos, de escolhermos o nosso futuro.

As árvores carregam em seus troncos e nas suas raízes mais profundas as sabedorias dos tempos dos nossos ancestrais que não puderam deixar nada por escrito porque ainda não existia a escrita ou porque não sabiam escrever ainda. Para elas foram contadas sabedorias que não se encontram nas pessoas próximas da gente e que ainda estão vivas, mesmo as mais velhas não têm a sabedoria de uma árvore milenar.

Quantas histórias não vivem as nossas árvores dos canteiros da nossa cidade sejam elas de amor, de amizade, de paz, de guerras, de poesia e até mesmo de opressão. Ali, parecidas quietas, as árvores escutam e vivenciam junto conosco as mais diferentes histórias dos homens e até mesmo chegam a dar conselhos através dos balanços dos seus galhos ou de um fruto seu que nos alimentamos e adquirimos energia para seguirmos adiante.

Elas sabem das histórias dos nossos colonizadores, da opressão sofrida pelos nossos indígenas, foram testemunhas do grande desflorestamento na época do nosso descobrimento quando levaram do nosso país muitas árvores Pau-Brasil. Guardam todos esses acontecimentos para que um dia possam nos lembrar das nossas ancestralidades.

Para que não esqueçamos dos nossos ancestrais, de onde viemos, como surgimos e os motivos que nos trouxeram até aqui. As árvores sabem que os nossos passados podem nos ajudar a construirmos um amanhã melhor para nós e para os nossos filhos porque elas sabem das lutas dos nossos ancestrais, elas conheceram e vivenciaram as batalhas, as guerras, as transformações sociais, culturais e políticas pelas quais passaram as nossas infinitas gerações.

Olhar essas histórias que as árvores nos contam requer coragem e um mergulho profundo em nossas raízes para compreendermos quem somos.

Saber de onde viemos é o primeiro passo para traçarmos os nossos objetivos e planos para o amanhã e também para passarmos a nos conhecermos melhor e identificarmos a nossa essência.

Assim como a nossa história possui grandes nomes como Robespierre, Voltaire, Descartes e tantos outros importantes que influenciaram o mundo e outros que a história oficial não conta, assim também temos as histórias dos nossos ancestrais que tiveram seus nomes e sobrenomes apagados e a terra de onde vieram.

O apagamento das nossas memórias é uma estratégia dos nossos colonizadores!

Precisamos buscar pelas histórias e significados dos nomes dos nossos ancestrais, esse apagamento nos conta o quanto ainda trazemos os costumes e tradições dos nossos colonizadores. O quanto fomos afetados pelos seus modos de pensarem e de se vestirem, desses europeus que aqui estiveram e deixaram um lastro de violência e lutas por uma terra que já era povoada muito antes deles aqui chegarem. Não me refiro somente ao Brasil, mas aos países do continente africano que também foram “colonizados”, quando antes dos europeus chegarem já existiam povos com as suas culturas e costumes. Todos fomos verdadeiramente invadidos por esses homens.

Este é um processo de embranquecimento das nossas histórias que nos afasta das nossas origens africanas e dos nossos ancestrais, os indígenas. As árvores milenares viveram todas essas histórias de lutas e opressão e sabem como ninguém nos alertar sobre os riscos de sermos invadidos novamente, de termos os nossos pensamentos apagados pela branquitude, de sermos sequestrados de nós mesmos pelo aparato tecnológico que o europeu cria e nós usamos de forma abusiva deixando os nossos filhos e jovens viciados em jogos e redes sociais com algoritmos programados para que façam o que eles desejam.

As árvores não estão nos nossos terreiros ou na frente das nossas casas apenas para decorarem, nos darem sombras e frutos. Elas também podem nos mostrar como a realidade é mascarada todos os dias pela ignorância, pela falta de princípios éticos e morais que tomam os mais diversos governos no mundo inteiro.

Quando o vento passa pelas árvores balançando os seus galhos eles trazem notícias de longe que ficam presas nas suas copas. Dali, as informações são processadas e cada folha seca que cai de uma árvore contém milhas de informações que podem nos ajudar na busca por um amanhã melhor.

É preciso reconhecer que em nossas famílias vivemos histórias de lutas, daqueles que vieram antes de nós, resistências, opressão, violência, afetos, tradições e costumes em que é preciso honrar todas essas histórias que as árvores guardam nas profundezas das suas raízes e nos seus enormes troncos cuidando delas com carinho e zelo para que possamos mais tarde ou num futuro próximo aprendermos a valorizar todas essas sabedorias das árvores para nos ajudar nas escolhas que precisaremos fazer quando o mundo exigir da gente decisões sérias e importantes à vida.

Honrar significa tratar com respeito e reverência tanto as árvores quanto o que elas trazem dentro de si que são as histórias dos nossos ancestrais. Nem todas as histórias são bonitas e lúdicas. Existem histórias de lutas difíceis de serem contadas. Histórias que as árvores nos fazem chorar quando nos lembram que os nossos ancestrais precisaram passar por dificuldades grandes para que nós pudéssemos estar aqui.

Saber ouvir as histórias das árvores não é difícil. Basta se acomodar no silêncio da natureza, encostar o ouvido no seu tronco e mentalizar os seus ancestrais.

Aqueles que você ainda se lembra e aos poucos as árvores trarão outros pensamentos, outras histórias que já foram esquecidas por você ou que nunca lhe foram contadas. As árvores sabem contar histórias como mais ninguém.

O importante é que não paramos mais para ouvir nada e nem ninguém. Estamos sempre caminhando apressados pelas ruas. Parecemos máquinas. Andamos cabisbaixos, com passadas apressadas sem olharmos adiante ou ao nosso redor.

As árvores, muitas vezes, gritam os nossos nomes, querem um pouco de atenção, mas não nos acostumamos a ouvi-las e achamos que elas nunca falam conosco.

Engana-se quem pensa que árvore não fala. Elas falam, gritam, gemem, cantam e até ninam.

Elas sabem contar histórias verdadeiras e imaginárias. Elas alegram as crianças que as procuram para ouvirem histórias que inventam na hora da birra, da incompreensão e da dor da criança. As suas histórias trazem sempre um pouco de emoção, um lado lúdico e poético, mas com ensinamentos cheios de gratidão à vida e a natureza por estarmos aqui e podermos desfrutar deste planeta tão maravilhoso que é a Terra.

Nossas histórias de resistência, mais do que grandes feitos ou aventuras, são as histórias do cotidiano. Aquelas que vivemos no caminho para a vendinha do bairro, na rotina, nas manias e nos encontros de família em que o assunto é falar dos parentes distantes ou que sempre dão uma desculpa para não comparecerem aqueles encontros.

Fico imaginando nas histórias seculares que a árvore da minha rua deve saber sobre as conversas das pessoas todas as tardes embaixo dela. Faz tantos anos que ela está ali apenas nos ouvindo, sem nunca ter sido questionada sobre as suas verdadeiras histórias.

Também fico me questionando sobre as diversas coisas que acontecem embaixo de uma árvore: menino brincando de carrinho, mulheres fofocando, casais namorando, velhinhas fazendo crochê, um desconhecido se amparando do sol, uma criança puxando uma pipa presa na copa e tantas outras cenas do cotidiano que as árvores devem guardar dentro de si para construírem histórias para os nossos netos no amanhã.

Devemos ensinar às nossas crianças a ouvirem as árvores. Muitas delas estão cheias de histórias para nos contar.

Estão quase explodindo com tantas histórias. Elas são verdadeiras fábricas de histórias e sabem quase tudo que se passa próximo delas porque o vento nunca deixa de passar por elas e sempre que passa deixa um pouco de si e leva um pouco delas para compartilhar com outras árvores histórias que os homens nunca ouviram, mas que entre si elas escutam.

As crianças que aprendem a ouvir as árvores passam a ser mais felizes e sabem ser gratas à natureza. Não! Não é loucura parar um instante e encostar o ouvido no tronco de uma árvore para ouvi-la contar uma rápida história. Você vai se sentir bem, muito bem mesmo. Eu já vivi essa experiência várias vezes e confesso que é um momento eterno. Parece que nunca vai se acabar aquele instante com o ouvido colado no tronco da árvore.

Muitas têm a voz grossa outras têm a voz fina, cada uma do seu jeito. Tem algumas que roncam quando estão falando conosco, parecem que sem querer elas adormecem. Mas, logo acordam e voltam para o mesmo ponto da história. As árvores são bem engraçadas e não há melhor contador de histórias no mundo do que elas. Experimente ouvir a história dos seus ancestrais através de uma delas.

Talvez depois de ouvir a sua história você sinta que não alcançou muita coisa e desanime, mas pense e lembre que o lugar ocupado ainda exige muitas lutas. Há ainda muitas barreiras e conflitos para vencermos. Não desista de ouvir a sua árvore. Estamos avançando e chegaremos aonde desejamos. As nossas histórias não são nada fáceis. Elas nos fazem lembrar do quanto precisamos ser fortes e corajosos todos os dias para enfrentarmos os desafios e as intempéries de um mundo cheio de incompreensões.

Você tem construído degraus e sua história também será contada por aqueles que virão depois de você.

Ser ancestral para os povos africanos e afrodescendentes é viver o sentido de coletividade.

Existimos porque o outro existe. E a morte para nós não é um fim já que a vida brota a cada nascimento e mantém a nossa árvore de pé. Assim, de ancestral em ancestral caminhamos por esta terra.

Não devemos desistir nunca das nossas histórias e de ouvirmos as nossas árvores. Sempre que pudermos pedir um conselho também é bom. Elas são amigas e gostam de cuidar de nós com carinho. Ficam tristes quando não nos cuidamos. Quando damos mais atenção ao outro do que a nós próprios. Quando apesar de tantas vivências e experiências ainda assim não aprendemos a nos conhecer por inteiro.

Ouça a história dos seus ancestrais e conheça um pouco das suas raízes. Ademais, entrar em contato com a nossa ancestralidade é, antes de tudo, uma estratégia de resistência e um resgate necessário para compreendermos quem somos, de onde viemos e para onde queremos e precisamos caminhar. A árvore da sua calçada pode lhe contar muita coisa interessante que você precisa saber.

Esta história-poema, com cheiro de infância e costurada em ternura, encantará as avós e os netos de todas as idades. Um livro para ser lido com os olhos, as mãos e a memória. O livro pode ser lido por alunos do terceiro ao sétimo ano, mas não há uma faixa restrita. Permite o trabalho com resgate familiar, memórias, artesanato, culinária, jogos. Com mediação adequada, pode-se trabalhar com qualquer faixa etária. Acesse e adquira com desconto esta obra: https://www.physaliseditora.com/product-page/minha-av%C3%B3-tecia-o-mundo

Finalizo com os versos do poeta português Fernando Pessoa que nos diz “Sejamos simples e calmos, / Como os regatos e as árvores, / E Deus amar-nos-á fazendo de nós / Belos como as árvores e os regatos, / E dar-nos-á verdor na sua primavera, / E um rio aonde ir ter quando acabemos!…”.

Sim, sejamos calmos e cuidemos de manter os nossos espíritos sempre serenos para que possamos assim ouvir o que as árvores têm para nos contar das histórias dos nossos ancestrais até os dias de hoje. Se nós queremos ser ouvidos, as árvores também querem. Ouçamos as árvores com alegria.

Autora: Rosângela Trajano

Edição: Alexsandro Rosset

Ansiedade, depressão e desesperança entre os distúrbios que mais acometem os educadores, aponta pesquisa

O estudo revelou que as novas formas de trabalhar, impostas pela necessidade de distanciamento social, geraram isolamento e solidão. Essa realidade ganhou um novo elemento com o retorno ao trabalho presencial. Os conflitos se intensificaram por múltiplos fatores.

Ansiedade, depressão e desesperança estão entre os distúrbios que acometem os professores. A constatação faz parte do estudo “Novas formas de trabalhar, novos modos de adoecer”, realizado com 714 trabalhadores da educação, divulgado no fim de 2021. A psicóloga Luciane Kozicz, que trabalha na área de saúde do Sindicato dos Professores no Distrito Federal (Sinpro-DF), apresentou este e outros resultados nesta terça-feira (26), dentro da programação do Coletivo de Saúde da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação.

A pesquisa teve como objetivo central conhecer os impactos do trabalho remoto na saúde emocional nos trabalhadores em educação. Problemas nas cordas vocais, distúrbios osteomusculares, lesão por esforço repetitivo e doenças do aparelho respiratório foram os danos físicos mais notificados.

Nos danos psicológicos, destacam-se o estresse crônico, ansiedade, depressão e síndrome de Burnout. Os danos sociais que se sobressaíram relacionam-se a sobrecarga, hiperatividade, solidão por ausência do coletivo e assédio moral.

Para Luciene, medicar é um fracasso para educar, pois reforça o pensamento mágico. “Receitas visam corrigir problemas, adequando os sujeitos”, alerta. “Ao invés de diagnóstico e medicações para melhorar o desempenho e anestesiar a alma, precisamos repensar o ambiente”, completa.

O relatório do estudo constatou que as instituições transferiram ao trabalhador novas responsabilidades: cada profissional deve exercer o seu talento particular, com esforço singular, dentro da sua casa, em tempo estendido. “Mais uma forma perversa que ataca o trabalho, inovando as formas de exploração e impondo ideologias dessubjetivantes.”

Os questionários aplicados levaram em consideração preocupações com a Covid-19, conhecimento e segurança em relação à pandemia, condições ambientais, tecnológicas e suporte para realização do trabalho em tempos pandêmicos.

O estudo revelou que as novas formas de trabalhar, impostas pela necessidade de distanciamento social, geraram isolamento e solidão. Essa realidade ganhou um novo elemento com o retorno ao trabalho presencial. Os conflitos se intensificaram por múltiplos fatores. “Esse contexto reforça a tese de que as relações laborais precisam ser pauta prioritária nas escolas”, avalia o relatório.

Segundo a Secretária de Saúde dos Trabalhadores e Trabalhadoras em Educação, Francisca Seixas, é preciso destacar a situação dos aposentados. De acordo com ela, o que mais tem adoecido a categoria é a questão do confisco. “Nossos aposentados ganham R$ 3 mil e passaram a contribuir com 14% com a previdência: um verdadeiro confisco! Isso tem adoecido e piorado as condições de vida dos nossos aposentados”, avaliou.

Ela também destacou a situação dos readaptados, que estão nessas condições porque existe uma questão de saúde a ser tratada, que pode ser mental ou física. “Precisamos valorizar esses profissionais; é necessário trabalhar com o tratamento, mas, principalmente, com a prevenção”, concluiu.

De acordo com os resultados apresentados pelo estudo, um conjunto de situações tornou o trabalhador passivo e desorientado, com destaque para: ambiguidade de papéis; informações inadequadas ou confusas sobre como o trabalho deve ser realizado; trabalho excessivo em que o indivíduo tem que estar disponível em múltiplas plataformas/canais (sala de aula virtual, Whatsapp, e-mail, telefone, Zoom/Meet, presencial etc.); falta de capacitação ou suporte para o indivíduo adquirir as habilidades necessárias para executar a tarefa; subutilização de habilidades ou tarefas monótonas repetitivas; estruturas administrativas autoritárias que não incluem trabalhadores na solução de problemas e tomada de decisão; falta de reconhecimento sobre o desempenho do trabalhador; cultura organizacional que não abre espaços para o diálogo e são caracterizadas pela performance, promovendo competição e hostilidade; e eterna insatisfação da gestão em relação ao que é criado, executado ou proposto.

Para além dos processos de escuta, a recomendação final do documento elenca a ocupação dos espaços de fala para além das fronteiras conhecidas, principalmente, com os que estão em desacordo com ideias já apresentadas; rever processos possíveis de execução entre o planejado e o que será executado, acompanhando a implantação; elencar as carências nas organizações do trabalho; estabelecer estruturas mínimas de tecnologia e definir cursos necessários.

“O espaço de discussão é necessário para a humanização da categoria e diminuição das patologias. O fato de poder compartilhar suas inseguranças e medos faz com que ansiedades diminuam”, conclui o relatório.

FONTE: https://cpers.com.br/ansiedade-depressao-e-desesperanca-estao-entre-os-disturbios-que-mais-acometem-os-educadores-aponta-pesquisa/

 Autor: CPERS Sindicato

Edição: Alexsandro Rosset

O diabo é cristão, Exu não!

Quero deixar claro que, como cristão, seguidor de Jesus de Nazaré, não preciso abonar os elementos de uma religião para poder respeitá-la. E para tal, esforço-me para compreender sua cosmovisão, sua mitologia, e, por conseguinte, suas práticas.

Sim, o diabo é cristão. Não estou dizendo que ele se converteu. Ele segue sendo o pai da mentira, nosso adversário. Então, o que quero dizer com isso? Refiro-me ao diabo como conceito e não como entidade. O conceito de um ser que seja a personificação do mal não é encontrado em qualquer outra tradição religiosa além da cristã. Portanto, dizer que uma entidade cultuada em uma religião de matriz africana é o diabo não passa de um grande equívoco, para não dizer, racismo.

Jamais vemos Jesus se referindo a Zeus ou a Júpiter como diabo. Tampouco vemos os profetas do Antigo Testamento afirmando que Baal ou qualquer outro deus cananeu era o diabo. Portanto, não me parece justo que identifiquemos o diabo em entidades do candomblé ou da umbanda.

Então, de onde vem a ideia de que a entidade conhecida como Exu seja o próprio coisa-ruim?

Ela surgiu ainda antes que a escravidão foi instituída no Brasil, durante a colonização europeia da África no século XVI. Devido ao jeito irreverente, brincalhão, provocador, astucioso e sensual, como é representado nos cultos africanos, os colonizadores o identificaram com a figura de Satanás. Entretanto, deve-se ressaltar que na teologia yorubá, a figura de Exu não se opõe a Deus, tampouco é considerada uma personificação do mal.

Nas religiões de matriz africana não existem demônios, diabos, entidades que sejam exclusivamente ruins como ocorre no cristianismo, religião na qual há anjos que se rebelaram contra Deus e se tornaram maus. Na teologia yorubá (de onde surgiram o candomblé e a umbanda), cada uma das entidades (Orixás) apresenta natureza ambígua, isto é, possui aspectos tanto positivos quanto negativos, semelhante aos próprios seres humanos.

Quero deixar claro que, como cristão, seguidor de Jesus de Nazaré, não preciso abonar os elementos de uma religião para poder respeitá-la. E para tal, esforço-me para compreender sua cosmovisão, sua mitologia, e, por conseguinte, suas práticas.

Sem conhecimento, qualquer conceito que se tenha não passa de preconceito.

Cresci numa denominação neopentecostal onde cenas de exorcismo eram rotineiras. Protagonizei muitas delas. Em nome de Jesus, expulsei espíritos malignos que se identificavam como “exus”. A julgar pelas feições dos incorporados, pela entonação da voz, pelas mãos em forma de garras, não me restava dúvida: aquilo só poderia ser o coisa-ruim. Desvencilhar-me desta ideia foi um dos maiores desafios que enfrentei nesses trinta e cinco anos de ministério pastoral.

Algumas pessoas me ajudaram a entender melhor o fenômeno, dentre elas, dois amigos psicólogos junguianos, ambos candomblecistas. Um deles frequenta nossa comunidade, ao lado de sua esposa, também psicóloga, membro de nossa congregação. O outro foi padrinho de casamento da minha esposa.

Em ambos os amigos, encontrei uma ética que não tenho encontrado em muitos dos que se dizem seguidores de Cristo. Foi com eles que aprendi que muito do que se pratica em nome dos Orixás não faz jus à rica tradição vinda do continente africano, sendo, portanto, uma deturpação da mesma. Algo análogo ao que acontece em muitas igrejas evangélicas que há muito deixaram os ensinamento de Jesus, substituindo-os por crendices e charlatanismo.

Não me vejo em condição de criticar a religião alheia. Mas não faço vista grossa às idiossincrasias de minha própria religião.

Antes de julgar as manifestações que meu preconceito considera bizarras, olho para dentro do meu próprio perímetro religioso e verifico que há fenômenos atribuídos ao Espírito Santo que não passariam pelo crio de meu senso estético se não fosse o meu temor em cometer o pecado imperdoável (a tal blasfêmia contra o Espírito Santo).

Já ouvi profecias em que Deus supostamente falava através do “vaso” algo de tipo: “Eu não sei onde é que estou com a cabeça que não te fulmino agora mesmo!” Você conseguiria imaginar tais palavras nos lábios de Jesus?

Ora, se o diabo se faz passar por “anjo de luz”, por que cargas d’água não se faria passar por Exu ou por qualquer outra entidade com o objetivo de acirrar ainda mais o clima de guerra santa entre crentes e fiéis de religiões de matriz africana? Se ele é o pai da mentira, conforme diz Jesus, por que daríamos crédito a qualquer coisa que ele dissesse?

Por que pastores insistem em entrevistar esses diabos em seus cultos midiáticos? Sem contar que muitas destas manifestações não passam de histeria ou encenação de quem almeja algum tipo de atenção especial.

Quero propor aqui um teste para avaliar o quanto somos preconceituosos.

Seguem abaixo duas histórias, uma extraída da Bíblia e outra da tradição oral do povo yorubá.

HISTÓRIA 01:

“Exu havia feito uma espada de dois gumes, de quarenta e cinco centímetros de comprimento, e a tinha amarrado na coxa direita, debaixo da roupa. Ele entregou o tributo a Awujale, Obá de Oió, homem muito gordo. Em seguida, Exu mandou embora os carregadores. Junto aos santos que estão perto de Ijebu, ele voltou e disse: “Tenho uma mensagem secreta para ti, ó Obá”. O Obá respondeu: “Calado! ” E todos os seus auxiliares saíram de sua presença. Exu aproximou-se do Obá, que estava sentado sozinho na sala superior do palácio de verão, e repetiu: “Tenho uma mensagem de Olorum, para ti”. Quando o Obá se levantou do trono, Exu estendeu a mão esquerda, apanhou a espada de sua coxa direita e cravou-a na barriga do Obá. Até o cabo penetrou com a lâmina; e, como não tirou a espada, a gordura se fechou sobre ela. Então Exu saiu para o pórtico, depois de fechar e trancar as portas da sala atrás de si. Depois que ele saiu, vieram os servos e encontraram trancadas as portas da sala superior, e disseram: “Ele deve estar fazendo suas necessidades em seu cômodo privativo”. Cansaram-se de esperar, e como ele não abria a porta da sala, pegaram a chave e a abriram. E lá estava o seu senhor, caído no chão, morto! Enquanto esperavam, Exu escapou. Passou pelos santos e fugiu para Seirá.”

HISTÓRIA 02:

Certo homem, lavrador, que precisava de chuvas para irrigar seus campos secos ofereceu um sacrifício a Elohim. No entanto, preparou-o de forma displicente. Elohim enviou chuva em abundância, fazendo com que a água jorrasse incessantemente, inundando e destruindo toda a plantação. Logo após, o lavrador ofereceu um novo sacrifício, mas desta vez, de maneira zelosa. Agradando-se Elohim, fez cessar a chuva.”

Você saberia identificar qual história é extraída das Escrituras e qual é da tradição oral yorubá?

A julgar pelos nomes usados, a primeira teria vindo a tradição yorubá e a segunda de algum texto do Antigo Testamento, certo?

Na verdade é exatamente o inverso. Apenas troquei os nomes. A primeira é extraída do livro de Juízes. Em vez de Exu, lê-se Eúde (Juízes 3:16-26). A segunda é da tradição yorubá. Em vez de Elohim, lê-se Exu.

Assim como as entidades veneradas nos cultos africanos, Yaweh, a divindade hebreia também chamada de Elohim no Antigo Testamento, pedia sacrifícios de animais. Em Gênesis 8:20 lemos que o Yaweh se agradou do cheiro suave do sacrifício oferecido por Noé e em razão disso, decidiu nunca mais destruir os seres vivos como o fez no dilúvio.

Repare, a percepção que os antigos hebreus tinham de Deus não difere muito da percepção que a cultura yorubá tem de suas divindades. Atribuir características claramente humanas à divindade é chamado pelos teólogos de Antropomorfismo. Dentre essas características está a ambiguidade. No Antigo Testamento, Deus é bom, mas também vingativo. Deus cria, mas também destrói. Deus é misericordioso, mas também justo e santo.

Jesus veio corrigir nossa percepção acerca da divindade, introduzindo o conceito de paternidade divina. O Deus de Jesus é Pai de todos os seres vivos. Quando dois de Seus discípulos sugeriram que se pedisse a Deus para enviar fogo do céu para destruir os samaritanos que se negavam a recebê-los em sua aldeia, eles tomaram como referência o profeta Elias que havia pedido fogo do céu para consumir os profetas de Baal. Sabe qual foi a resposta de Jesus a este inusitado pedido? “Vós não sabeis de que espírito sois. Porque o Filho do homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las” (Lucas 9:55,56).

E que tal as passagens abaixo?

“Então subiu dali a Betel; e, subindo ele pelo caminho, uns meninos saíram da cidade, e zombavam dele, e diziam-lhe: Sobe, calvo; sobe, calvo! E, virando-se ele para trás, os viu, e os amaldiçoou no nome do Senhor; então duas ursas saíram do bosque, e despedaçaram quarenta e dois daqueles meninos.” 2 Reis 2:23,24

O personagem em questão é ninguém menos que o profeta Eliseu, o sucessor de Elias. Nada vingativo o profeta, não? Você consegue enxergar nesta atitude algo que se assemelhe a Jesus? Absolutamente, não! Com Jesus a gente aprende a perdoar.

A mesma característica vingativa encontrada em Eliseu pode ser vista no mito yorubá de Exu, como na vez em que ele levou dois amigos camponeses a uma luta de morte. De acordo com esse mito, Exu, furioso, por não ser louvado pelos camponeses pôs-se no caminho dos dois, na divisa das duas roças, tendo um a sua direita e outro a esquerda. Exu utilizou-se de um boné de um lado branco e do outro vermelho, de forma que cada camponês via apenas uma cor. A verdade sobre a cor do boné do estrangeiro, Exu, provoca discussão entre os amigos e acaba na morte de ambos a golpes de enxada.

Ambíguo como a própria natureza humana, encontramos na figura de Exu tanto qualidades, quanto vicissitudes.

Ele é vingativo, mas também se revela humilde com relação aos demais orixás, razão pela qual “o mais novo dos orixás, o que era saudado em último lugar, passou a ser o primeiro a receber os cumprimentos. O mais novo foi feito o mais velho. Exu é o mais velho, é o decano dos orixás.” Estas palavras encontram eco nas célebres palavras de Jesus: “Pois há últimos que serão primeiros, e primeiros que serão últimos” (Lucas 13:30).

Dado à sua condição humana ambígua, personagens bíblicos como Eliseu, Elias, Davi e Moisés revelam traços de caráter completamente opostos aos de Jesus, mas também expressam algumas das características mais marcantes encontradas n’Ele.

Tais personagens nos servem de referências e lembretes de nossa própria ambiguidade, porém, o padrão que devemos seguir é Cristo em quem não há mudança, nem sombra de variação. É disso que fala o episódio bíblico conhecido como Transfiguração. De repente, Moisés e Elias aparecem conversando com Jesus no monte, e os discípulos ouvem do céu uma voz que diz: “Este é o meu Filho amado, a Ele ouvi” (Lucas 9:35).

E quanto ao diabo? Ele seria a antítese de Cristo. Se Cristo é a luz, o diabo é a sombra. Se Cristo é o caminho, o diabo é a cancela. Todavia, ele não é tudo o que muitos crentes acreditam que seja. Ele não é e jamais foi páreo para Deus. Ele não é o rei do inferno. Ele não é rei de nada. Se fosse tão somente uma entidade qualquer, não haveria tanto com que nos preocupar. Mas ele é um arquétipo arraigado no inconsciente coletivo. O mal não está fora de nós, mas impregnado em nossa própria natureza.

Como no filme “O Diabo de Cada Dia”, o mal se faz presente nos lugares mais inusitados, mesmo numa típica cidade interiorana do cinturão bíblico dos EUA. Ao enxerga-lo meramente como uma entidade que se opõe a Deus, nós o transformamos na desculpa perfeita para os nossos erros, no bode expiatório por excelência dos que não assumem a responsabilidade por suas atitudes.

Independentemente do credo que professemos, o mal nos acompanha, seja latente ou patente. Como disse Paulo, o apóstolo, “eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem algum” (Romanos 7:18). Preferimos, entretanto, ignorar isso, atribuindo o mal ao outro, ao diferente, à sua crença, às entidades que venera.

Se há quem recorra a Exu para fazer o mal, também há quem recorra a Deus em busca de vingança. O despacho numa encruzilhada não é muito diferente do sacrifício de subir a um monte no afã de convencer a Deus a destruir seus inimigos.

Como seguidor de Jesus, desejo que meus amigos candomblecistas e umbandistas conheçam sua mensagem e se deixem conquistar por Seu amor incondicional. Mas não alcançarei tal objetivo enquanto não aprender a dialogar, a construir pontes e, sobretudo, a respeitar suas crenças e valores.

Definitivamente, o problema somos nós. Daí a insistência de Cristo, dos profetas e apóstolos, a que nos convertamos e façamos o bem, motivados exclusivamente por amor. Para tal, temos que admitir nossa sombra e buscarmos a iluminação de nossa consciência.

Os povos africanos criaram um complexo sistema de crenças que explica e justifica tudo; e esse tudo, está o tempo todo na vida dos africanos; e essa relação cotidiana com o sagrado, é o que chamamos de espiritualidade e que nada tem a ver com religiosidade ou religião. Esse é um outro conceito, um outro entendimento. (Ipácio Carolino Pinto) Leia mais: https://www.neipies.com/conhecendo-religioes-de-matriz-africana-testemunho-de-um-religioso-iniciado/

Autor: Hermes C. Fernandes

Edição: Alexsandro Rosset


Jornal Viva Bem- 20 anos

O jornal Viva Bem é um periódico mensal com matérias relacionadas à saúde, comportamento e qualidade de vida e de distribuição gratuita, na cidade de Passo Fundo. Aborda temas atuais e cotidianos de maneira descontraída, incluindo dicas de beleza, curiosidades, receitas e astrologia, além de artigos de profissionais das mais diferentes áreas.

Viva Bem nasce em abril de 2002, através de um projeto da Usina Comunicação para aproximar a empresa dos mais diversos segmentos e dar visibilidade aos nossos serviços. Sendo assim, surge o Viva Bem, voltado a preencher este espaço da área de saúde, com artigos de profissionais das mais diversas áreas e especialidades, sempre informando seu leitor com clareza e qualidade.

Conheçamos um pouco desta interessante história, construída a partir de nossa cidade Passo Fundo, através do seu Diretor Comercial e sócio proprietário Alexandre Necker.

SITE NEIPIES: Quais foram os objetivos da criação do Jornal Viva Bem?

Alexandre Necker: Do surgimento do Viva Bem até hoje os principais objetivos são informar com objetividade, trazer conhecimento ao leitor com artigos dos mais diversos profissionais de Passo Fundo e região, proporcionar aos nossos anunciantes e parceiros comerciais a possibilidade de ser visto por esse público consumidor (leitores e profissionais) e valorizar o nosso potencial nas mais diversas áreas da saúde e bem-estar.

SITE NEIPIES: Qual é o sentido da celebração dos 20 anos do Viva Bem?

Alexandre Necker: O principal sentido de celebrar os 20 anos do Viva Bem vem do imenso sentimento de gratidão, de alegria e realização que esta caminhada nos proporcionou. Acredito falar em nome de todos da família Viva Bem quando afirmo que o tempo passou muito rápido e que estes 20 anos iniciais foram um acúmulo de energia positiva para seguir em frente e fortalecer nossa marca no coração do público que acompanha e continuará acompanhando nosso jornal. Que venham os desafios dos próximos 20 anos.

SITE NEIPIES: Qual a relevância das muitas matérias publicadas até aqui? E a repercussão junto aos leitores?

Alexandre Necker: Sobre as matérias publicadas (e seus autores) são motivo de grande orgulho, pois nelas se encontram um dos grandes motivos do sucesso do jornal: artigos e matérias desenvolvidas por profissionais daqui, o que torna a informação mais próxima do leitor. E com relação a repercussão junto ao leitor do nosso conteúdo editorial ajuda muito na busca que todos têm em saber, conhecer, enfim, ajudar a formar opinião de qualidade.

SITE NEIPIES: Em um mundo cada vez mais digital, qual a importância de manter a edição impressa do Viva Bem?

Alexandre Necker: A era digital que vivemos também nos fez repensar todas as plataformas do Viva Bem, a edição impressa foi o começo de tudo e se mantém até hoje com uma aceitação grande junto aos nossos leitores. Creio que a sensação de ter o jornal em mãos ainda gera um bem-estar em muitos leitores o qual gosto de chamar de “prazer de ler” mas, isto não impediu de ampliar nossas possibilidades em outras plataformas: primeiro veio o site do jornal, depois as redes sociais (Instagram e Facebook) e a edição online é uma realidade no site e no whatsapp. Mas, particularmente, a edição impressa é nossa “queridinha”.

SITE NEIPIES: Que mensagem gostarias de deixar aos leitores e amigos.

Alexandre Necker: A mensagem que gostaríamos de passar é primeiramente dizer a todos OBRIGADO: leitores, anunciantes, colaboradores e à comunidade de uma forma geral. Seguiremos buscando informar com muita transparência, qualidade e eficiência que sempre foi nossa marca!

Somos, na escala dos seres vivos, os mais dependentes de todos. Saímos da barriga da mãe, caímos nos braços de uma família. Aos poucos vamos crescendo e nos integrando aos grupos sociais da escola, da vizinhança, dos amigos, dos colegas de trabalho. Cada fase de nossa vida exige que sejamos cuidados. Exige que saibamos cuidar da gente e dos outros. Somente juntos promovemos relações que nos integram à sociedade, pois temos, todos, necessidade de ser aceitos, queridos e promovidos. (Nei Alberto Pies) Leia mais: https://jornalvivabem.com.br/amizade-amor-e-afetos/

Edição: Alexsandro Rosset

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