Quando alguém que a criança ama fica longe

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As crianças sentem saudades de um jeito parecido com a dos adultos, sendo mais bonita, mais intensa e mais difícil de ser compreendida. A ausência causa dor, sofrimento, choro e, muitas vezes, medo de ficar sozinha para sempre, de nunca mais ver os pais, irmãos, avós, amiguinhos ou quem amam.

Para Aurora inspiração deste texto.

Acredito, caro leitor, que você já presenciou o temor de uma criança quando sabe que vai ficar longe de alguém que ama, ela começa a chorar se falam que não mais poderá ver ou sentir a presença daquela pessoa. A saudade das crianças possui uma forma própria de intensidade porque elas não compreendem ainda a maldade humana, elas não sabem o motivo por que são abandonadas, esquecidas ou trocadas por outras pessoas ou coisas que achamos melhores. Elas não nos culpam ou julgam.

Nos seus primeiros mundos elas simplesmente se perguntam onde estamos, quando iremos voltar e para onde fomos, quem nos levou para longe também aparece como pergunta.

Para acabar com a saudade as crianças tendem a perguntar a quem ficou, com insistência, quando voltaremos. Perguntam tanto sobre a pessoa que se foi que abusam e nos causam perturbação. Vão à porta de entrada da casa, abrem a porta, olham pela janela e ficam com o rostinho desapontado ao não ver a pessoa que estão sentindo falta chegar.

As horas vão se passando e a nossa ausência crescendo nas crianças. Muitas delas, têm tanto medo de ficar sem a nossa presença que à noite quando vamos colocá-las para dormir elas ficam nos perguntando se vamos trabalhar no dia seguinte, sonham com a nossa ausência do modo delas e não conseguem dormir direito pensando que fomos embora.

Uma ausência prolongada pode causar problemas gigantescos no espírito da criança, principalmente quando ela não consegue compreender o motivo e ninguém a conforta com carinho e cuidados explicando o que houve. A criança quer respostas sempre.

Uma cena tristonha é quando precisamos sair para algum lugar e a criança se agarra nas nossas pernas chorando, esperneando e pedindo para que a gente não vá, não a deixe sozinha mesmo que ela vá ficar acompanhada por um monte de gente, é da nossa presença que ela gosta e isso dói no coração. Neste momento, precisamos da ajuda de um outro alguém para confortar a criança que fica para trás enquanto necessitamos ir resolver alguma coisa na rua ou até mesmo trabalharmos.

Quem fica com a criança precisa oferecer cuidado, afeto, carinho e, principalmente, a segurança de uma companhia que ela pode contar mesmo sabendo que não vai preencher o vazio deixado por quem foi embora, mas passando a mensagem de que também podemos fazer tudo o que pudermos para ajudá-la.

Para amenizar a ausência de quem partiu, de quem precisa ficar ausente por um bom tempo, recomenda-se que a criança desenhe a pessoa que ama e está longe, brinque com seus bonecos e bonecas imaginando que é a pessoa amada e procure se distrair ao longo do tempo da ausência com atividades lúdicas e criativas que a faça esquecer da saudade.

Uma outra coisa bonita para amenizar a saudade na criança é dar para ela uma peça de roupa com o cheiro da pessoa ausente para que ela possa cheirar e sentir que não está sozinha, que logo aquele sofrimento vai passar, que logo o papai, a mamãe, os avós estarão de volta. Eles foram logo ali e voltarão em breve.

Na verdade, não devemos mentir para as crianças quanto a ausência de alguém.

Se a pessoa se foi para sempre pra longe e não poderá mais ver aquela criança, devemos aos poucos ir contando a verdade para ela. Com o tempo a criança vai conseguir substituir do coração aquele laço afetivo ausente, sem que isso signifique apagar do seu espírito a pessoa que partiu.

A criança costuma sentir tanto a ausência de alguém que ao ouvir um barulho no portão de casa, os passos de alguém na calçada ou uma voz parecida sorriem pensando que a pessoa amada chegou e poderá correr para os seus braços. Esses encontros depois de um dia inteiro distantes dos pais ou dos responsáveis devem ser grandiosos, cheios de afeto e cuidados.

Quando chegamos em casa depois de muito tempo distantes das nossas crianças, a primeira coisa que devemos fazer é abraçá-las, é fazer com que confiem em nós que sempre voltaremos, que a nossa ausência é temporal, que elas podem contar conosco ao longo do dia contemplando uma foto nossa ou conversando conosco através de aparelhos de telefone.

Algumas crianças não conseguem expressar saudades com choros, desenhos ou coisa parecida. Elas simplesmente ficam mais quietinhas, recolhidas num cantinho da casa que mais gostam, pensando na pessoa ausente. Tendem a pegar em coisas que façam lembrar da pessoa que está longe e colocar em algum lugar só delas, tipo: um pente, um batom, um relógio.

Não devemos chantagear as crianças para que parem de chorar com a ausência de quem amam porque se continuarem chorando o lobo mau ou coisa parecida vai vir pegá-las. Isso nunca. Devemos, ao contrário, respeitar seus sentimentos. Quantos de nós não sentimos saudades também? Quantos de nós sentimos saudades que chegamos a chorar escondidos? Assim, ocorre também com as crianças.

Para as crianças é mais difícil ainda compreender e aceitar a nossa ausência.

Elas pensam mais ou menos assim: se as amamos por que ficamos longe delas todos os dias? Não sabem distinguir que precisamos trabalhar, estudar, temos obrigações e deveres no mundo adulto. As crianças não sabem ainda que precisamos ficar longe delas por algum tempo para resolvermos coisas que não podemos fazer em casa.

O mais complicado é quando precisamos sair para algum lugar e devemos contar para a criança que não podemos levá-la porque o lugar para onde vamos é coisa de gente grande. Que ela deve ficar em casa à nossa espera. Para a criança isso soa como várias perguntas, tipo: Por que eu tenho que ficar em casa? Por que eu não posso ir também? Por que o lugar não aceita crianças? Que lugar é este que não aceita crianças? São tantas as perguntas que as crianças se fazem que não daríamos conta de elencá-las aqui.

Para aliviar a sua saudade a criança tende a inventar histórias com a pessoa ausente. Essa pessoa se transforma numa heroína, num herói, num personagem que faz bem à criança, que a salva de conflitos e medos. Seu mundo imaginário vai longe para amenizar a dor da ausência de quem ama. Mas, cuidado, se a criança começa a inventar personagens malvadas ou com sentimentos tristonhos essa ausência pode estar lhe fazendo muito mal e devemos observar tudo ao seu redor. As crianças costumam apresentar os seus conflitos internos através do mundo imaginário, seja desenhando, brincando ou contando histórias para gente.

Ademais, devemos ser pacientes e buscarmos compreender a saudade das crianças. Nunca, nunca mesmo as castigarmos porque não querem comer, tomar banho ou fazer coisa nenhuma porque estão com saudades de alguém que foi embora da vida delas. Elas vão entender ao passar do tempo.

As crianças conseguem conviver com a ausência ao invés de simplesmente apagá-las dos seus pensamentos e corações seja com os seus brinquedos, brincadeiras ou coisas parecidas com isso quando recebem afeto e carinho. A ausência do pai ou da mãe que já não mora mais no mesmo lar não vai durar para sempre. A criança que recebe amor e tem laços familiares fortes logo preencherá este vazio. Ela ainda está em formação e não é como a gente que temos muitas dificuldades de esquecer alguém que amamos há anos.

Deixo você, querido leitor, com os versos do poema da nossa linda poetisa portuguesa Florbela Espanca e seu poema “Saudade” que nos diz “Quantas vezes, Amor, já te esqueci, // Para mais doidamente me lembrar // Mais doidamente me lembrar de ti! //

Claro que uma criança não tem nenhum sentimento de amor como os adultos, mas ela ama com a sua inocência e tenta esquecer alguém que se foi, mas doidamente, assim como quem brinca de chamar a lua, chama doidamente pela pessoa que o seu coraçãozinho ama. E assim pergunta, curiosa: “você vai trabalhar amanhã, mamãe?” À espera de ouvir a palavra mágica: “Não!” E dormir o seu soninho na certeza de que a mamãe vai passar o dia seguinte ao seu lado.

Sabemos bem o que é isso, querido leitor!

Autora: Rosângela Trajano. Também escreveu e publicou no site “Ofereça à sua criança uma infância que não precisará ser curada na vida adulta”: www.neipies.com/ofereca-a-sua-crianca-uma-infancia-que-nao-precisara-ser-curada-na-vida-adulta/

Edição: A. R.

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