Falar do golpe não é apenas falar do passado

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Repercutimos nossa fala como Coordenador da Comissão de Direitos Humanos de Passo Fundo junto à Tribuna Popular da Câmara de Vereadores, neste último dia 08/04/2025

Senhor Presidente, Luiz Valendorf, Senhoras Vereadoras, Senhores Vereadores, Companheiros e companheiras presentes, minha saudação e agradecimento pelo espaço de fala em especial à Vereadora Eva Valéria, pelo encaminhamento do pedido.

Falo hoje nesta tribuna na condição de Coordenador da Comissão de Direitos Humanos de Passo Fundo — CDHPF —, entidade comprometida com a memória, com a verdade e com a democracia, princípios que orientam sua atuação desde sua fundação, em 1984.

Estamos aqui ao lado de importantes entidades: a Associação Juízas e Juízes para a Democracia (AJD), a Rede Nacional de Advogados e Advogadas Populares (RENAP), o Coletivo Amigos da Democracia, o Curso de História e a Pós-Graduação em História da UPF e o Instituto Histórico de Passo Fundo.

Na semana passada, entre os dias 31 de março e 1º de abril, lembramos um dos períodos mais sombrios da história brasileira: o golpe militar de 1964, que completou 62 anos.

Mas falar do golpe não é apenas falar do passado. É falar do presente — e do futuro que queremos construir.

No seminário realizado na UPF, pesquisadores (dentre eles cito os Professores Doutores Diego Baccin e Alessandro) foram claros: o golpe de 1964 não foi um acidente, nem uma revolução.

Fotos: Divulgação

Foi um projeto político que rompeu a ordem democrática para conter avanços sociais e preservar interesses econômicos e de poder.

E a repressão teve alvo: a classe trabalhadora. Sindicatos foram fechados. Lideranças foram perseguidas e greves foram proibidas.

Foi um golpe contra a democracia — e contra o povo trabalhador. E esse debate precisa ser trazido para o nosso território.

Passo Fundo não foi espectadora dessa história. Foi parte dela. Aqui houve prisões, perseguições políticas e repressão. Aqui trabalhadores, estudantes e vereadores foram perseguidos — e mandatos foram cassados.

Ou seja: a ditadura não foi algo distante. Ela aconteceu aqui. E isso nos leva a uma pergunta fundamental:

Que memória queremos preservar como cidade?

Porque a memória não é neutra. Memória é escolha política.

Hoje, em Passo Fundo, ainda existe um monumento que celebra a chamada “Revolução de 1964”. Mas sabemos que não houve revolução.

Houve golpe. Houve repressão. Houve violação de direitos humanos.

E manter essa narrativa sem questionamento no espaço público é perpetuar uma versão distorcida da história.

Mas não estamos aqui apenas para denunciar. Estamos aqui para propor.

Protocolamos junto à Presidência desta Casa um requerimento construído coletivamente, com propostas concretas para o município.

Propomos:

  • O fortalecimento da educação em direitos humanos nas escolas municipais, porque sem educação não há consciência — e sem consciência não há democracia.
  • A revisão de homenagens públicas ligadas à ditadura, como a Travessa Marechal Costa e Silva, porque o espaço público não deve homenagear violadores de direitos.
  • A identificação dos locais de repressão em Passo Fundo, para que a memória seja visível — e para que nunca mais se repita.
  • A criação de um Memorial da Democracia e da Resistência na Praça Tochetto, não para apagar a história, mas para dialogar com ela.
  • A criação de uma Comissão Municipal da Verdade, porque a verdade é um direito da sociedade.
  • E a realização de uma audiência pública nesta Casa, porque a memória se constrói coletivamente.

Senhoras e Senhores Vereadores,

Este não é apenas um debate sobre o passado. É sobre o tipo de sociedade que queremos ser.

Uma sociedade que esquece — ou uma sociedade que aprende? Uma sociedade que relativiza a violência — ou que afirma, com firmeza: nunca mais?

A democracia exige memória. Exige coragem. Exige compromisso.

Finalizo dizendo:

Se hoje posso ocupar esta tribuna, é porque muitos antes de nós foram silenciados. Foram perseguidos. Foram presos. Foram torturados. Que honremos essa história com ação. Com memória. E com compromisso com a democracia.

Leia também matéria produzida pela TV Câmara de Passo Fundo: https://camarapf.rs.gov.br/noticia/view/10166/tribuna-popular-destaca-memoria-historica-e-defesa-dos-direitos-humanos-em-passo-fundo

Fotos: Michele Sautner / Divulgação Comunicação Digital CMPF

Autor: Esio Salvetti. Também escreveu e publicou no site “A civilização se afogará no próprio lixo”: https://www.neipies.com/a-civilizacao-se-afogara-no-proprio-lixo/

Edição: A. R.

1 COMENTÁRIO

  1. Finalizo dizendo:

    Se hoje posso ocupar esta tribuna, é porque muitos antes de nós foram silenciados. Foram perseguidos. Foram presos. Foram torturados. Que honremos essa história com ação. Com memória. E com compromisso com a democracia. (Autor Ésio Salvetti)

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