“O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”. (Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas)
Não é novidade para quem me conhece e comigo convive — seja no cotidiano, seja pelas notícias que velozmente correm através da fibra ótica — que tenho vivido triste e alegre nestes últimos meses. Talvez as duas coisas ao mesmo tempo.
E se a tristeza tem suas razões, a alegria também tem nome e sobrenomes, rostinho bochechudo, olhar singular, corpo em pleno desenvolvimento, um pouco mais de um ano e meio de vida. Ela me chega através de um menino de um ano e sete meses, de riso fácil e emoção à flor da pele. Uma presença que pede colo, oferece carinho e distribui abraços capazes de alcançar o que há de mais precioso em um homem: a paternagem.
Talvez esse meu filho me leve ao meu próprio eu infantil e, desde lá, queira me devolver o sorriso. A vida é tão melhor perto dessas crianças: a que fui e a que agora me solicita com uma palavra tão pequena e um significado tão imenso: — Pai. Três letras, de uma extensão muito maior.
Mas, a vida também exige seus enfrentamentos. Quando nos atravessa de verdade, pede autoconhecimento e uma grande dose de coragem para o encontro mais difícil que podemos realizar: aquele autêntico face a face consigo mesmos, com nossas convicções, nossos medos, nossos fantasmas, nossas escolhas e os sentidos que nos movem.
Foi justamente nesse território entre o que sou, o que tenho sido e aquilo que ainda desejo ser que a vida me apresentou um improvável orientador: um viandante que se apresentou como morador de rua. Não sei seu nome. Talvez nem venha a saber.
Ele estava junto aos contêineres onde depositamos o lixo — ou, numa tentativa contemporânea de suavizar a palavra, os resíduos. Procurava ali aquilo que pudesse lhe garantir a sobrevivência daquele momento. E, entre uma olhada e outra, acabou encontrando também uma maneira de remexer em algo muito mais profundo: minhas próprias certezas.
Cumprimentou-me como se já me conhecesse. Falou do bairro, elogiou as pessoas que ali vivem, contou que limpa a calçada de um vizinho em troca de algum auxílio e, com simplicidade, ofereceu-me seus serviços.
Eu o escutei, interagi e agradeci. Disse que, se pudesse, o chamaria para realizar algumas tarefas no pátio e no terreno dos fundos da casa onde resido.
Mediante minha queixa econômica antes de retornar aos meus afazeres, ele me disse:
— Eu acredito em você. Não está fácil para ninguém, mas dias melhores virão.
A frase veio como um soco no estômago. Não pela dureza, mas pela força inesperada da esperança que carregava. Aquele homem, que buscava sua sobrevivência entre aquilo que descartamos, acabava de me oferecer algo que eu estava quase esquecendo que existia: fé na possibilidade de que as coisas possam ser diferentes.
Atravessei a rua e voltei à minha tarefa.
Separava a grama da erva daninha.
Mas, de algum modo, já não separava apenas plantas. Tentava distinguir, dentro de mim, aquilo que alimenta daquilo que sufoca; o que permanece daquilo que precisa ser arrancado; o danoso dos sentimentos das belezas que ainda insistem em renascer.

Depois, fiz mudas de folhagens e as plantei em troncos secos e já em decomposição que acompanham a calçada por onde acesso a porta de entrada de minha casa.
Enquanto minhas mãos preparavam a terra, ouvi meu orientador continuar remexendo os contêineres, acompanhado por músicas de cunho social. Uma delas dizia algo sobre um homem que morreu numa cruz.
E eu permaneci ali, entre a terra, os troncos secos, as pequenas folhagens e aquela voz distante, tentando compreender o significado mais profundo daquele acontecimento que, de algum modo, havia tocado minha alma.
Talvez a vida estivesse me ensinando sem precisar explicar.
O homem procurava vida entre os resíduos.
Eu plantava vida sobre aquilo que estava morrendo.
Ele me oferecia esperança.
Eu reproduzia folhagens verdes e resistentes.
Talvez não seja preciso destruir tudo para recomeçar. Às vezes, basta encontrar uma pequena muda, uma palavra, um encontro, um gesto, uma música, uma criança que nos chama de pai. E observemos bem! Há tanta beleza escondida em meio ao lixo que acumulamos dentro de nós. Há sentimentos que enterramos, lembranças que evitamos, culpas que carregamos, medos que alimentamos e sonhos esquecidos em algum canto da existência.
Mas há também sementes. Há sempre alguma.
Talvez seja por isso que o autoconhecimento sempre é processo desconfortável e doloroso: olhar para dentro não significa encontrar apenas aquilo que gostaríamos de encontrar. É preciso mexer no que apodreceu, reconhecer, separar, limpar e cultivar.
Renunciar a essa tarefa talvez seja uma das formas mais silenciosas de covardia.
Não sei onde aquele homem está.
Não sei se voltarei a encontrá-lo.
Talvez ele jamais saiba que, naquele dia, enquanto procurava alguma coisa entre os resíduos, deixou comigo algo que não estava dentro de nenhum contêiner: esperança.
E talvez também nunca saiba que, depois de ouvi-lo, plantei vida sobre madeira morta.
Ele, procurando algo que o ajudasse a atravessar mais um dia.
Eu, procurando compreender como atravessar os meus.
Ele remexendo os contêineres.
Eu remexendo a mim mesmo.
E, entre nós, uma certeza pequena, verde e resistente começando a nascer: a vida continuará esquentando e esfriando, apertando e afrouxando, sossegando e desinquietando. Talvez seja isso que ela queira da gente: coragem para continuar plantando. Mesmo em troncos secos. Mesmo depois da dor. Mesmo quando ainda não sabemos exatamente o que está nascendo e como se dará a colheita amanhã.
Porque, às vezes, a vida nos ensina sua maior lição nos lugares mais improváveis: há coisas que precisam morrer para que outras possam nascer.
E há encontros que duram apenas alguns minutos, mas permanecem dentro de nós por muito tempo.
Aquele homem eu não sei quem é. Mas sei o que deixou. Uma frase. Uma esperança. E algumas folhagens verdes e resistentes crescendo sobre troncos que, até então, eu julgava destinados apenas à decomposição.
Talvez seja essa a coragem de que fala Rosa.
A coragem de olhar para o que somos, reconhecer aquilo que precisa ser arrancado e, sobretudo, continuar plantando. Porque felizmente há um menino de um ano e sete meses me esperando em algum lugar da casa, talvez com os braços estendidos e uma palavra de três letras capaz de reorganizar a bagunça de meu mundo: — Pai!
Autor: Marciano Pereira. Também escreveu e publicou no site “Desconectados, em rede”: www.neipies.com/desconectados-em-rede/
Edição: A. R.











A coragem de olhar para o que somos, reconhecer aquilo que precisa ser arrancado e, sobretudo, continuar plantando. Porque felizmente há um menino de um ano e sete meses me esperando em algum lugar da casa, talvez com os braços estendidos e uma palavra de três letras capaz de reorganizar a bagunça de meu mundo: — Pai!
Autor: Marciano Pereira.