A lenda da jaboticaba

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O homem branco pouco escreveu sobre a origem da jabuticaba, mas os indígenas, que não usavam a escrita, foram recontando a história e assim nasceu a Lenda da Jaboticaba!

(Por Otávio Reichert, da Academia Santo-angelense de Letras)

Num tempo pouco distante, esta árvore não produzia frutos e servia apenas como sombra e lenha para o fogo, assim disseram os ancestrais da tribo Tupi. Isto até a índia Jaci retornar da mata trazendo nos braços um menino com as perninhas atrofiadas e curtas, porém de corpo robusto. Por sua aparência deram-lhe o nome de “Jabô”.

Os anciões da tribo determinaram que, conforme a tradição indígena, ele seria sacrificado por ter nascido com deformações físicas. Mãe Jaci implorou pela vida do seu único filho, e como ela já estava com mais de quarenta anos, o pedido foi aceito. Também porque o pai dele, português imigrante, se comprometeu a cuidar de Jabô.

Jabô não aprendeu a caminhar. E a partir dos dois anos a mãe passou a deixá-lo numa rede feita com fibras de buriti, onde uma ponta ficava atada no telheiro central e a outra num galho de árvore. Deste modo, ele ficava na sombra da ocara ouvindo o cantar dos pássaros e vendo tudo a seu redor.

Mãe Jaci percebeu que ele tinha deficiência visual e demonstrava tristeza no olhar. Vez ou outra alguns amiguinhos vinham brincar com ele; no mais, vivia solitário. Foi então que Jabô começou a conversar com a árvore, sem saber que ela entendia tudo.

Como a rede estava fixada num galho além do tronco daquela árvore, quando ele se embalava para o lado conseguia se abraçar nela, e chorando falava da vontade de correr como os demais e apanhar frutas no pomar. Com muita pena de Jabô, a árvore fez um pedido a deus Tupã, que atendeu o seu pedido.

O pajé curandeiro foi o primeiro a perceber os brotos que saíam dos troncos e galhos, principalmente onde Jabô tocava nela, inclusive rente ao chão ou próximo da rede. Eles ficaram maravilhados ao verem nascer frutinhas verdes, as quais, após seis trocas de Lua, começaram a ficar reluzentes e escuras. Mal sabiam que a árvore fez isso para Jabô melhor enxergá-las quando amadurecidas.

Depois de comer as doces frutas mais próximas, Jabô foi subindo pelo tronco para alcançar as mais altas, e desse jeito desenvolveu forças nos braços e pernas, inclusive firmando os pés. Antes mais rechonchudo, foi perdendo peso e por vezes assustava sua mãe ao encontrá-lo no alto dos galhos colhendo as jaboticabas, nome que deram em homenagem a Jabô. Sendo o pai dele lusitano, no mesmo sotaque aos demais portugueses falava “jabuticaba”.

Muitos já me perguntaram o nome da aldeia e onde Jabô viveu. Nem eu mesmo sei ao certo, pois sua linda história me foi contada num sonho da madrugada. Soube que as sementes daquela jaboticaba foram se espalhando, também levadas pelos pássaros para lugares distantes. Após o milagre outras tribos replantavam suas sementes, e assim foi se espalhando além da região Sudeste, indo de Sul a Norte do Brasil, e no passar dos séculos a jabuticabeira conquistou quase toda a América do Sul.

O homem branco pouco escreveu sobre a origem da jabuticaba, mas os indígenas, que não usavam a escrita, foram recontando a história e assim nasceu a Lenda da Jaboticaba!

Glossário:

Ocara: – espécie de telheiro, geralmente construído com um tronco central.

Troca de lua a cada sete dias. Período de maturação= 45 dias

“ïapotï’= “botão” e “kaba”= gordura.

Autor: Otavio Reichert. Poeta e declamador, palestrante cultural (ênfase Cultura gaúcha). Licenciado em Letras (Português-Inglês) pela URI Santo Ângelo. Membro da Academia Santo-angelense de Letras – ASLE, cadeira nº 12. Presidente em 2018/20. Vice-presidente 2022/24.

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