Depois de um ano de missão em Moçambique,
África, vivo na prática a experiência de descobrir que alegria
não vem embalada e etiquetada. Faz bem sentir o sabor
de cada dia e saber que as maiores fontes de felicidade
são de graça e correm pro teu colo quando te enxergam.

 

A missão é doar a vida pelos outros. Este é, sem dúvida, um conceito impressionante de generosidade e amor gratuito. Quem não quer ganhar um Nobel da Paz com uma história comovente de sacrifício da própria vida na construção de um mundo melhor?

Acontece que, depois de um ano, sou obrigada a discordar desseclichê de sacrifíciopara constatar com conhecimento de causa: é muito mais vida que se ganha do que se dá.

Desde setembro do último ano, tenho aprendido que a verdadeira experiência de missão não é uma doação. Quando você doa, deixa de ter aquilo que deu. No meu caso, não canso de ganhar os inúmeros presentes que este tempo é capaz de oferecer.

Hoje, tenho consciência que cada um deles é, na verdade, um pedaço de vida que se soma com aquela que trouxe comigo – e imagino, sinceramente, que deva ser esse o autêntico significado de vida abundante.

 

Sentir o coração bater mais forte

Quando cheguei na missão, há um ano, segurar uma criança no colo era uma coisa fofa de se fazer. Elas passavam pelos meus braços e deixavam a alegria que só um sorriso desses pequenos é capaz de deixar. Entretanto, para mim, ainda não tinham nome, história, identidade.

No início, toda nossa comunicação se resumia em olhares e toques na minha pele branca e no meu cabelo amarelo.

Meu português era difícil para eles, tanto quanto o macua deles pra mim. Logo nos aproximamos e percebi que, mesmo estando no 5º ou 6º ano da escola, e mesmo o português sendo a língua oficial de Moçambique, não conheciam o alfabeto ou os números e todo o português deles se resumia em “bom dia”, independente da hora que fosse.

Depois de um tempo, já podia chamá-las pelo nome, conhecer seus pais, mães e irmãos e, a partir disso, já não fazia sentido para mim simplesmente fechar o portão quando não conseguíamos nos comunicar.

Logo sonhamos e concretizamos um espaço para alfabetização e reforço escolar desses pequenos. Em três meses, reformamos um espaço, formamos voluntários, compramos materiais e as aulas iniciaram.

Um dos maiores desafios foi descobrir o que fazer com as crianças de 3 a 6 anos, que estavam na rua, mas ainda não iam a escola. Eu pensava: “Se os de 12 não conhecem o alfabeto, o que a gente faz com os de 3 anos?!”

Depois de quatro aulas, estava sentada na sala da minha casa insatisfeita pela necessidade de fechar uma contabilidade mensal e um coro das vozes desses pequenos inundou meu coração e meus olhos:

— “A, B, C, D”.

Foi assim vez que tive certeza que não seria tão feliz em qualquer outro lugar do mundo.

Espaço de alfabetização e reforço escolar das crianças na missão em Moçambique, África. As crianças demonstram um potencial extraordinário de aprendizagem, em bem pouco tempo de atividades.

Depois de um ano de missão, vivo na prática a experiência de descobrir que alegria não vem embalada e etiquetada. Faz bem sentir o sabor de cada dia esaber queas maiores fontes de felicidade são de graça e correm pro teu colo quando te enxergam.