Mais de 80% das pessoas apoia a prefeitura no seu
ato insano de quebra do próprio liberalismo,
querendo internar viciados à força.
Todo o desejo dessas pessoas é realizar o que
já realizaram em seus locais privados, que foi o de
retirar o problema da vista, e não resolvê-lo.

 

Mais de 50% dos usuários de drogas que agora estão espalhados pelas novas cracolândias de São Paulo, ainda possuem relacionamento com os seus familiares. Todavia, não podem mais voltar para casa. O consumo exige permanência no local da chegada das drogas, tamanha é a necessidade pela qual o corpo drogado reclama. Além disso, em casa, se tornam inconvenientes o suficiente para que algum membro da família se sinta realmente incomodado.

Ação na Cracolândia foi ‘desastrosa’, avaliam especialistas.

 

As drogas atuais, especialmente o crack, quebra com o pacto contemporâneo do individualismo caracteristicamente moderno, que foi construído a duras penas pelas “egotécnicas”, para citar aqui um termo especial de Peter Sloterdijk. (Ver: “O apartamento”, capítulo do Para ler Sloterdijk, editora Via Verita).

Ler e escrever, vida em célula (ou cela) monacal, advento do espelho, vida no apartamento single contemporâneo que, enfim, vem equipado com recursos para recriação artificial de nosso duplo interior, nossa capacidade de sermos dois-em-um; eis aí no percurso desses elementos toda a história das egotécnicas. Assim criamos um ego e junto dele a imagem de nós mesmos que acreditamos ser o que somos. Estão nisso os elementos e práticas que nos deram um “eu”, e também subterfúgios para que pudéssemos pensar que ganhamos um ego.

No caso dos subterfúgios temos, principalmente hoje, eletrodomésticos, TV e Internet, para recriar falsamente relações sociais. Com isso podemos acreditar que temos um eu reflexivo, o que seria um eu completo.

No mundo atual, de império das normas liberais e de sua inflação, todos deveríamos ter um apartamento single, onde, solitários, sem relações sociais, pudéssemos recriar, ainda que falsamente, a interioridade que requer o dois-em-um para que alguém possa de fato ser um “eu”. Essa interioridade depende de relações. Se não as temos mais, então, o aparato do apartamento single deve nos dar elementos que nos faça acreditar que as temos.

Ora, a droga nos expulsa dessa célula ou cela monacal e, portanto, nos devolve ao “fora”, nos joga para longe do apartamento single que, mal ou bem, nos promete um útero, onde um dia estivemos junto da companheira placenta. A droga nos tira o quarto privado, o nosso apartamento single reproduzido na casa.

É por conta da quebra desse pacto forjado a partir do resultado das egotécnicas, que a droga gera suas “cracolândias” e, então, começa a fazer o poder público se mobilizar. A droga não é um curtir a si mesmo como a masturbação. Ela não é uma egotécnica, embora tenha êxito exatamente porque promete ser uma, ou mais ainda, promete ser a melhor. Promessa não só falsa, mas errada mesmo, pois causa exatamente o contrário.

Não devolve às pessoas a condição de dois-em-um autêntico, nem forja o falso dois-em-um do rapaz no apartamento single se masturbando diante da Internet ou conversando com a TV ou se autopoliciando na frente do espelho ou falando com seu liquidificador. E também a droga de nossos tempos não nos conduz, ao nos jogar para fora do lar, a nenhuma “casa do ópio”. O século XIX acabou.

O poder público que temos e o povo que temos são os mesmos que criaram a quebra das egotécnicas, jogando os jovens na rua. Somos os mesmos. Então, uma vez evocando o poder público, vamos apenas reproduzir o que já produzimos, que foi a quebra das egotécnicas.

Por isso que mais de 80% das pessoas apoia a prefeitura no seu ato insano de quebra do próprio liberalismo, negando Locke, e querendo internar viciados à força.

Todo o desejo dessas pessoas é realizar o que já realizaram em seus locais privados, que foi o de retirar o problema da vista, e não resolvê-lo.

O quadro aqui está pintado por Quino, criador da Mafalda. Uma de suas tirinhas mostra Mafalda e uma coleguinha vendo um pobre na rua. Mafalda acha que o poder público deveria cuidar daquele pobre, enquanto que a coleguinha da Mafalda, rainha da futilidade e de posições conservadoras, opina dizendo que não era necessário tanto, que bastava que se tirasse o pobre da vista. Ou seja, o pobre, o mendigo, o drogado de rua atrapalha as vitrinas. É realmente isso que importa.

A frase “a prefeitura deveria mesmo tirar o drogado da rua, contra a vontade dele, e interná-lo” quer dizer, para muitos paulistanos que a expressam, o seguinte: “que se tire essas pessoas da minha vista”.

 

Publicado originalmente aqui