O fenômeno da segurança perpassa inúmeras áreas
como o direito, a sociologia, a psicologia etc.
Por isto uma intervenção adequada não se poderia
ater a apenas um recorte teórico ou de uma especialidade,
mas deveria partir do seu histórico, da sua situação atual
e de suas projeções.

 

 A temática das Políticas Públicas está se tornando – e o dizemos com alegria – um dos temas mais recorrentes e pesquisados pela Psicologia, principalmente pela Psicologia Social: políticas públicas para a saúde, políticas públicas para a educação, políticas públicas na área da assistência social, políticas públicas na comunicação.

Poucos são os estudos que se arriscam a discutir políticas públicas na área da segurança social. E isso apesar de a questão da segurança ser se não a primeira, certamente uma das principais a ser mencionada em pesquisas quando se pergunta às pessoas quais os principais problemas por elas enfrentas. É só conferir as pesquisas.

Pois bem: eis um estudo que se arrisca nesse pedregoso caminho. Foi escolhida a cidade de Passo Fundo, pois, ao se examinarem os locais de maior risco em relação à segurança, essa cidade se colocou entre as primeiras. Foram então dirigidos àquela cidade vários projetos do PRONASCI, do Governo Federal da época.

Mas o que investigar? Após muito refletir, pensou-se em examinar os diferentes projetos ali instalados e investigar dois pontos a partir dos participantes e das pessoas a quem eses projetos eram dirigidos: os limites de tais programas e as possibilidades de  implementar e ampliar essas políticas públicas. Tentou-se verificar como a população sentiu esses projetos e o quanto eles responderam às sérias questões da segurança.       

Duas aproximações teóricas orientaram tanto a metodologia, como a interpretação das informações: de uma parte o enfoque da teoria da complexidade e, de outra parte, a perspectiva da transdisciplinaridade. E ambos os enfoques foram iluminados sob a luz da perspectiva crítica.

Trata-se da construção de uma proposta para a ressignificação do modelo cartesiano positivista, focado num conhecimento que legitimava dualidades e dicotomias entre sujeito e objeto e entre razão e emoção.

A construção do conhecimento na perspectiva da tradição crítica está comprometida com a metodologia transdisciplinar, que visa o estabelecimento de relações entre as áreas, a partir dos problemas humanos, que não cabem em uma especialidade.

O ponto de partida deixa de ser uma realidade isolada, vista apenas a partir de uma área do conhecimento. O fenômeno da segurança perpassa inúmeras áreas como o direito, a sociologia, a psicologia etc. Por isto uma intervenção adequada não se poderia ater a apenas um recorte teórico ou de uma especialidade, mas deveria partir do seu histórico, da sua situação atual e de suas projeções.

O espaço empírico da investigação se concentrou no Pronasci, onde se encontram conceitos e práticas relacionadas à segurança pública. Trata-se de um programa que teve abrangência nacional, focado em regiões metropolitanas com maiores índices de violência e menores índices de assistência no conjunto das políticas públicas de segurança.

O Pronasci tem como proposta a atuação nas raízes socioculturais da violência e da criminalidade, além da articulação das ações de segurança com políticas sociais por meio da integração da União, dos Estados e dos Municípios. Estabelece um foco de atuação territorial em que devem atuar os agentes comunitários de mediação, Mulheres da Paz, beneficiários do Projeto de Proteção de Jovens em Território Vulnerável (Protejo) e policiais comunitários.

O PRONASCI tem entre suas diretrizes a participação, visando à cidadania e à emancipação dos sujeitos envolvidos com as situações que demandam segurança e justiça.

 

Mulheres da Paz em Passo Fundo: dados e experiência em Passo Fundo.
“A construção de uma cultura se faz mediando conflitos e construindo cidadania”.

Como foi dito acima, o problema que orientou a construção deste estudo está centrado na investigação dos limites e das possibilidades do Pronasci no que se refere à emancipação dos sujeitos, a partir dos diferentes projetos que o constituem.

As informações dos sujeitos que se envolveram na execução dos projetos foram agrupadas em nove categorias principais e a análise interpretativa das informações extraídas da pesquisa procurou identificar os limites e as possibilidades dos diferentes projetos na busca de maior segurança social.

Cremos que os resultados das investigações discutidas no presente livro podem se configurar como alternativas de superação da fragmentação entre os diferentes projetos que tratam das políticas de segurança e podem fazer nascer, iluminar e orientar outras iniciativas tão urgentes e cruciais dentro desse complexo tema das políticas públicas de segurança.

 

“Segurança pública e psicologia:
bases para uma inversão epistemológica da intervenção”,
autor Israel Kujawa
Confira mais, aqui.

Mesmo que não se tenha conseguido ir muito adiante, ao menos se tentou uma caminhada. Certamente outros estudos poderão se inspirar nas investigações realizadas que vão servir de base para futuras investigações.

* Apresentação do livro “Segurança Pública e Psicologia: bases para uma inversão epistemológica da intervenção” de Israel Kujawa, por Pedrinho A. Guareschi, professor UFRGS.