VOTO NECRÓFILO: ainda há tempo… de retomar a potencialidade primária…

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“Deus nos proteja da maldade de gente boa e da bondade da pessoa ruim”. Chico César. Deus me proteja (2015)

As comemorações dos vitoriosos no resultado do primeiro turno das eleições brasileiras fizeram lembrar o “Viva la muerte!”, pronunciamento do general Millán Astray na Universidade de Salamanca (1936). O filósofo Miguel Unamuno, que à época era o reitor, o classificou como “necrófilo” e “insensato”. Trataremos de refletir sobre o necrófilo. Deixamos o insensato para outro momento, ocasião em que Agostinho, o Santo, talvez possa nos ajudar, visto que chamou de insensato àquele que não acredita em Deus. Por ora, um pelo outro: um necrófilo dificilmente poderia ser “temente a Deus”.

Erich Fromm, em “O Coração do Homem” (1965, p. 42-44), fez uma “descrição da pessoa necrófila” que, segundo ele, segue a exemplos: Hitler, Eichmann e Stalin – se escrevesse agora acrescentaria os “Bolsonaros”. Ele entende que a necrofilia é um “modo de vida”, mais do que uma ação transitória. Em geral, o necrófilo se faz passar por construtor, salvador, protetor, bom pai, um líder que eleva a nação, razão pela qual, por um bom tempo pode haver complacência com ele.

Uma pessoa com orientação necrófila, segundo Fromm, “é atraída e fascinada por tudo o que não é vivo, tudo o que é morto”. Os necrófilos “moram no passado, nunca no futuro”; aliás, eles odeiam e temem o futuro, orientando-se ao passado, no qual fixam seu “desejo de certeza e segurança”, e alimentam a lembrança de emoções tidas no passado ou que acreditam tê-las tido. Outra característica é que “são frios, distantes, devotos da ‘lei e da ordem’” [mais da ordem do que da lei, sem problemas em sacrificar a segunda pela primeira, e nisso consiste a justiça], com valores que “são exatamente o inverso dos [valores] que ligamos à vida normal”. Têm atitude favorável em relação à força, como uma capacidade ou desejo de matar: o necrófilo “ama a força”, sua maior façanha não é gerar vida, mas destruí-la.

O necrófilo “ama tudo o que não cresce, tudo o que é mecânico”. Tem o “desejo de transformar o orgânico em inorgânico”: atua para fazer coisas as pessoas (“sentimentos e pensamento vivos são transformados em coisas”), das quais quer se apropriar. Ele reforça a “memória em vez de experiência”, o “ter, em vez de ser”, “gosta de controle”. Ele “teme profundamente a vida”, visto que ela é “desordenada e incontrolável”. O necrófilo se deixa atrair “pela escuridão e pela noite”, por tudo o que o aparta da vida e se dirige contra ela. Ele é como que um “fascinado pela destruição”.

A necrofilia não é somente um traço pessoal e subjetivo. Ela também é própria de sociedades.

Há “condições sociais” para o desenvolvimento da necrofilia que estão no espírito da “sociedade industrial contemporânea”. Isto porque, nas sociedades contemporâneas há centros gigantescos nos quais os humanos são tratados “como objetos, em suas propriedades comuns, nas regras estatísticas do comportamento coletivo, não nos indivíduos vivos […] os homens são administrados como se fossem coisas […] são transformados em coisas e obedecem às leis das coisas” (p. 62). A manipulação dos gostos em vista do consumo ao máximo e em direções previsíveis, a uniformização do caráter e a seleção dos medíocres são expressões do “burocraticamente organizado e centralizado” (p. 63). Isto faz surgir o homem da organização, o homem autômato, o homo consumens, o homo mechanicus, um homem artefato. As características da orientação necrófila “existem em todas as sociedades industriais modernas, independentemente de suas respectivas estruturas políticas” (p. 65).

A descrição, senão em seu todo, em grande parte cabe a um dos candidatos à presidência: o Flávio, e, diria, a boa parte daqueles e daquela que votam nele e que pensam como ele, particularmente os que são de ultradireita, bolsonaristas. Boa parte de seus eleitores são complacentes com tudo o que fizeram (ele e seu pai) e com o que deixaram de fazer. Mesmo que com uma carga imensa de hipocrisia e cinismo (o da pior espécie), se somam a negacionismos de todo tipo em lógicas rasteiras. Sua posição e sua ação fazem a necrofilia se transmutar em necropolítica. Senão, vejamos!

Bolsonaristas defendem que as mães solo não têm outro caminho a fazer que não seja trabalhar e “abandonar” seus filhos aos “cuidados” de uma creche paga com “voucher”. Querem que elas e todas as trabalhadoras e trabalhadores trabalhem com “liberdade”, o máximo de horas (sem qualquer limite ou proteção trabalhista).

Fora o “estado paternalista”, nada de responsabilidade empresarial. Voltar a uma jornada diária de 10 a 12 horas, como no século XIX, o que já é realidade de muitos CEOs de MEI, é o mínimo. Mas isso não é problema, é sinal de exercício da liberdade no mais algo grau, é sinal de que não ter patrão é tudo, que empreender por si e para si é a saída, para todos. Mesmo que boa parte desta gente que pensa assim, não quer isso para si, pois adora ter seus dias de descanso, ter INSS para um momento de necessidade, recolher para se aposentar… O que não quer é que isso seja possível para todas e todos, particularmente para aqueles que, por serem “vagabundos” e “pobres”, vivem se locupletando com programas sociais paternalistas (contém alta carga irônica!) – devem ficar muito chateados ao ouvir que Flávio vai manter o Bolsa Família e até seguir pagando para quem estiver “empregado”.

Gente deste tipo não acha importante ter universidade pública, institutos federais, nem mesmo programas educacionais que facilitem cursos universitários, com Prouni e outros. Muitos deles até já usaram destes recursos, mas dizem que, se o fizeram, foi por seu mérito, nem que para isso tenham que ter burlado informações fiscais. Outros fizeram universidade pública e até intercâmbios internacionais, mas “também por mérito”, não foi porque houve uma política pública que abriu e manteve esta possibilidade. Xingam o “estado paternalista”, mas quando é para outros, quando for para seu próprio benefício, é mérito.

Entre eles, os piores são os que se vangloriam de sua própria ignorância “terraplanista” e acham que estudar é coisa para preguiçosos… não têm por que fazer faculdade, tem mesmo é que começar a trabalhar cedo, o mais cedo possível. Estes são os mais brutais, seja porque desde sua brutalidade querem brutalizar a todos os outros e não reconhecem o elementar: a humanidade é sempre processo de aprendizagem… hipocritamente, apesar de brutos, fazem descendência… Mas, acham que seus filhos aprenderão melhor em casa (homeschooling), para evitar que sejam “doutrinados” por “professores/as esquerdistas”: acreditam que “educação vem de berço”…

O voto bolsonarista acredita que a melhor saída para resolver os problemas comuns é eliminar (não só deixar morrer) a quem atrapalha e produz os problemas, os desafetos, isso como ação pessoal e política. Se no pessoal, cidadãos e cidadãs ainda se contém em fazê-lo, é porque não foram eliminados os “freios penais” para tal. Mas, isso se resolve na política: eleger um presidente que autorize a matar, tornaria a quem viesse a fazê-lo não um assassino, mas um eleito chamado a ser justiceiro.

Algumas imagens, entre muitas outras, são emblemáticas desta posição: o menino armado e a deputada catarinense comemorando com um relho pelas ruas. Sem explicações dóceis e sem os que dizem serem exceções… são o desejo profundo, desejos “necrófilos”.

Eleitores necrófilos não são desavisados – uns poucos até podem ser – são é mesmo convictos de que a “boa política” é aquela que é capaz de destruir a política, destruindo agentes políticos que sejam opositores, dos quais tenham discordância. No fundo, querem converter a lei em imposição da ordem orientada pela força. Não querem a “força do direito” e sim o “direito da força”.

Defendem “redemocratizar” o Brasil, como anunciou o candidato por estes dias. Atenção: para a ultradireita, democracia é sinônimo de imposição da maioria, se necessário eliminando, destruindo, as minorias – num ataque frontal a um dos princípios básicos de uma democracia, que é exatamente a preservação das minorias e da minoria como possibilidade. Uma sociedade democrática é aquela na qual uma minoria num determinado momento pode se converter em maioria noutro. Uma sociedade na qual a minora é destruída, com ela se destrói a democracia, visto instalar-se simplesmente uma ditadura, a da maioria, uma “ditadura da maioria”. Ter maioria não é sinônimo de poder tudo ou de ter todo o poder.

Numa democracia, o poder está limitado pelo direito e, particularmente, pelos direitos humanos: ninguém, nem governo e nem cidadãos/ãs, está autorizado a violar os direitos; pelo contrário está obrigado a respeitá-los, promovê-los, protegê-los e, se forem violados, a reparar a quem sofreu a violação e implementar medidas para que novas violações não se repitam. Na Constituição de 1988 estas garantias são chamadas de “cláusulas pétreas” (inclusive a maioridade penal), não suscetíveis de serem mudadas, senão que por um novo processo constituinte. Entre estes direitos também está o direito de defender direitos: colocar defensores/as de direitos humanos em risco e impedir sua atuação é inaceitável numa democracia.

O “voto necrófilo”, ainda que muitos dos que o exercem não gostem, precisa de responsabilização: esta escolha tem consequências. Não pode alegar que a escolha esteja parcialmente informada ou que seu candidato não lhe entregou todo o segredo embutido no voto. Sua escolha gera resultados que não colaboram com o processo de democratização e de humanização.

Mas, claro que nem todos os eleitores do Flávio são “necrófilos”, stricto sensu. Àqueles que não são, pode-se ainda dar o benefício da dúvida e, mais do que isso, considerando que a “potencialidade primária” do ser humano é preservar a vida (a biofilia), ainda têm chance de corrigir a patologia que, segundo Fromm, distorce a humanidade dos humanos necrófilos. Avisados do risco necrófilo, ainda podem revisar e mudar de posição.

Por isso aqueles e aquelas que ainda guardam algo da “potencialidade primária”, aqueles e aquelas que se abstiveram, deixaram de escolher ou tenham escolhido algum que não esteja entre os dois atualmente em disputa, com todo o carinho e afeto, ainda que com muita dureza, sintam-se mobilizados desde sua força interior, aquela que guia à vida e à valorização da vida. Ainda têm chance de não sucumbir totalmente ao projeto de morte e da morte. Ainda há tempo de não serem coniventes e de escapar do “voto necrófilo” e, quem sabe com isso, barrar um governo que, por ser necrófilo, também será necropolítico.

Quem sabe, com o que ainda resta de “potencialidade primária” biófila, com a coragem que é exigida pela vida (é isso que ela nos pede), construiremos “políticas de amizade” com amplos espaços de “amizade política”, de cultivo do respeito, de acolhimento e cuidado das alteridades, de proteção sem performance, “aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e mais alegre ainda no meio da tristeza”, abrindo novas veredas no grande sertão brasileiro.

Ainda há tempo…

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Para ver na fonte: FROMM, Erich. O coração do homem. Seu gênio para o bem e para o mal. Trad. Octávio Alves Velho. Rio de Janeiro: Zahar, 1965.

Autor: Paulo César Carbonari, Doutor em filosofia (Unisinos), professor no Mestrado Profissional em Direitos Humanos da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), membro da coordenação nacional do Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH Brasil), vice-presidente da Federação Internacional de Direitos Humanos (FIDH). Também escreveu e publicou no site “Ainda estamos aqui”: www.neipies.com/ainda-estamos-aqui/

Edição: A. R.

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  1. “Deus nos proteja da maldade de gente boa e da bondade da pessoa ruim”. Chico César. Deus me proteja (2015)

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