Voto biófilo…Brasil retomou sua potencialidade primária…

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“Bom mesmo é ter sexto sentido Sair distraído, espalhar bem-querer” Chico César. Deus me proteja (2015).

O povo brasileiro é mesmo incrível. Não aceitou a resposta necrófila, vitoriosa no primeiro turno. Mobilizou-se e mobilizou o voto biófilo, que venceu no segundo turno. Escrevemos aqui:[1] “quem sabe, com o que ainda resta de “potencialidade primária” biófila, com a coragem que é exigida pela vida (é isso que ela nos pede), construiremos “políticas de amizade” com amplos espaços de “amizade política”, de cultivo do respeito, de acolhimento e cuidado das alteridades, de proteção sem performance, “aprendendo a ser capaz de ficar alegre a mais, no meio da alegria, e inda mais alegre ainda no meio da tristeza”, abrindo novas veredas no grande sertão brasileiro.

Ainda há tempo…” e deu tempo… Claro que é preciso seguir alerta, pois ainda há muitos necrófilos por aí. E, como bem alertou Theodor Adorno, a barbárie está sempre à espreita. Sem cochilar, nos ocuparemos de trazer elementos para ajudar a construir sentidos para o vivido e o a viver.

Erich Fromm, em “O Coração do Homem” (1965, p. 48-65) é a quem continuamos tendo como subsídio. Agora para entender a dimensão biófila, aquela que nasce do que ele chama de “potencialidade primária” dos/as humanos/as. Ela é oposta à orientação necrófila. Sua essência “é o amor à vida”.

O amor à vida é um modo de ser que se manifesta nos processos corporais, nas emoções, nos pensamentos, nos gestos de uma pessoa e, também, em dinâmicas sociais. Esta é a tendência principal da vida: “integrar-se e unir-se”, para “fundir-se com entidades diferentes e opostas” e “crescer de forma estrutural”.

O biófilo é atraído pela vida: “ama a aventura de viver mais do que a certeza” e “desfruta a vida e todas as suas manifestações”. Ainda que tenha um “desenvolvimento estruturado”, a vida não está sujeita a controle e à previsão rigorosa, vai se se fazendo e sendo feita, e esta é sua maior força. ]

Um biófilo se orienta por uma “ética biófila”, cujo princípio é: é bom “tudo o que serve à vida”. Seu esforço moral é movido “por sua atração pela vida e alegria”, resultando que não vive o remorso e a culpa. Afinal, a finalidade do humano é “ser atraído por tudo o que estiver vivo e afastar-se de tudo o que estiver morto ou for mecânico”.

A ética biófila contrasta com a “não-ética”, típica da orientação necrófila. Mas estas duas possibilidades são conflitantes e estão em disputa por constituírem a “contradição mais fundamental existente no homem. Mas, considerando que a meta fundamental é preservar a vida, o seu contrário é uma distorção, uma psicopatologia.

O “instinto de vida constitui a potencialidade primária do homem” (o instinto de morte é uma “potencialidade secundária”). Mas, ela precisa de “condições adequadas” para se afirmar. Assim que, a biofilia pode ser potencializada, cultivada, enquanto seu oposto pode ser afastado, contido, tratado. Tudo isso em processo pessoal e social e há condições específicas para que a biofilia seja desenvolvida.

As condições pessoais específicas para o desenvolvimento da biofilia são o carinho, o contato afetuoso com outros, a liberdade e a ausência de ameaças, o ensino (pelo exemplo e por admoestações) dos princípios que conduzem à harmonia e a força interior, guia pela “arte de viver”, a influência estimulante de outros e de resposta a ela e um modo de vida que seja verdadeiramente interessante. O oposto fomentaria o desenvolvimento da necrofilia: crescer entre pessoas que amam a morte, a falta de estímulo, a frieza, as condições que tornam a vida rotineira e carente de interesse e a ordem mecânica entre as pessoas.

As condições sociais para o desenvolvimento da biofilia coincidem com as condições que fomentam as tendências que promovem o desenvolvimento do indivíduo. Acrescentam-se a elas a importância de situações de abundância contra a escassez, tanto econômica quanto psicológica, a abolição da injustiça, situação na qual uma classe social explora a outra e lhe impõe condições que lhe impeçam de acessa uma vida digna e de participar da experiência básica do viver e a liberdade como “liberdade para” criar e construir, admirar e aventurar-se. Em resumo, “o amor à vida se desenvolverá mais numa sociedade onde houver: segurança, no sentido das condições materiais básicas para uma vida digna não estarem ameaçadas; justiça, no sentido de ninguém poder ser um fim para os objetivos de outrem; e liberdade, no sentido de cada homem ter a possibilidade de ser um membro ativo e responsável na sociedade”.

Na prática, a promoção da biofilia exige enfrentar condições sociais nas quais as pessoas são tratadas “como objetos […] os homens são administrados como se fossem coisas […] são transformados em coisas e obedecem às leis das coisas” disponíveis ao consumo uniformizado e mimético, transformadas em homem autômato, o homo consumens, o homo mechanicus, um homem artefato. Promover a biofilia exigiria, ao contrário, superar este modo de ser em rebanho, automatizado, mecanizado, os modos que coisificam e destroem a humanidade, em vista de promover a autenticidade, a singularidade, a integração participativa, pois os/as humanos/as “não se destinam a ser uma coisa”. Essa violência coisificadora é que desumaniza e fomenta a necrofilia.

Sociedades e personalidades fascistas não foram educadas para promover a vida, mesmo que até mimetizem comportamentos carinhosos e cuidadosos. Se os tiverem, serão por motivos interesseiros e voltados a alimentar seu próprio narcisismo individualista e egoísta. Acreditam que o altruísmo é destrutivo e confundem amor-próprio com amor de si. O “modo do senhorio” é, na verdade, uma subjugação ao que há de mais miserável na experiência humana.

Tudo isso serve de alerta para a possibilidade de desumanização. Aquilo que Paulo Freire dizia que seria o fruto da “educação bancária”. A possibilidade de “ser mais”, como vocação humana à humanização, a ser promovida pela educação libertadora, está sempre em risco. A vocação humana biófila mobiliza e encontra na educação libertadora alimento e apoio. Aprender a amar e a promover o amor à vida e a tudo o que humaniza o humano é o “sexto sentido” capaz de espalhar bem-querer.

A alegria no rosto de adolescentes e jovens, idosos e idosas, trabalhadores e trabalhadoras, de pessoas com deficiência, de milhões de brasileiras e brasileiros com o resultado do segundo turno das eleições presidenciais brasileiras é o retrato do sentido biófilo de viver a experiência democrática. “Viva a vida” foi o grito que se espalhou nas belíssimas manifestações e nas comemorações nas ruas e nas redes. Que siga sendo este o grito mais forte e aquele que retumbe nos corações no próximo período…

Seguimos acreditando que a mesma força que foi capaz de tocar a potencialidade primária de milhões que mudaram seu voto e que possibilitaram o resultado, seja capaz de fortalecer a luta contra todas as práticas necrófilas e necropolíticas. A sociedade brasileira precisará muito delas, afinal, ainda há muito de morte a ser enfrentado nas ruas, nas redes, no parlamento ultradireita e em governos estaduais de mesma orientação.

Autor: Paulo César Carbonari. Doutor em filosofia (Unisinos), professor no Mestrado Profissional em Direitos Humanos da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), membro da coordenação nacional do Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH Brasil), vice-presidente da Federação Internacional de Direitos Humanos (FIDH). Também escreveu e publicou no site “Voto necrófilo: ainda há tempo de retomar a potencialidade primária”: https://www.neipies.com/voto-necrofilo-ainda-ha-tempo-de-retomar-a-potencialidade-primaria/

[1] Publicado em https://www.neipies.com/voto-necrofilo-ainda-ha-tempo-de-retomar-a-potencialidade-primaria/ em 18/10/2026.

Para ver na fonte: FROMM, Erich. O coração do homem. Seu gênio para o bem e para o mal. Trad. Octávio Alves Velho. Rio de Janeiro: Zahar, 1965.


 Edição: A. R.

1 COMENTÁRIO

  1. Por Paulo César Carbonari:
    “Ainda há tempo…” e deu tempo… Claro que é preciso seguir alerta, pois ainda há muitos necrófilos por aí. E, como bem alertou Theodor Adorno, a barbárie está sempre à espreita. Sem cochilar, nos ocuparemos de trazer elementos para ajudar a construir sentidos para o vivido e o a viver”.

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