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Sobre idiotas e monstros: a necessidade de regulação das redes sociais

Há que se estabelecer um regramento mínimo no meio digital que iniba a proliferação da desinformação e do extremismo político-religioso, sob pena de termos que não apenas tolerar os tais “idiotas”, mas sermos governados por eles.

 

A internet deu voz a uma legião de idiotas, já dizia o escritor e filósofo italiano Umberto Eco quando as redes sociais começaram a ganhar protagonismo. O que Eco, falecido em 2016, contudo, não considerou é que esses idiotas votam, se elegem e atualmente governam países ou se ensaiam para voltar a governar.

Essencialmente, sempre discordei dessa afirmação do escritor italiano por considerá-la um preconceito elitista, pois como ocorre de tempos em tempos – foi assim com o livro impresso, depois com o jornal, o rádio e a televisão – as massas encontram nesses meios uma oportunidade de dar visibilidade às suas pautas e questões. A democratização dos meios de comunicação é um fato e uma ocasião única para aqueles que raramente têm voz e vez.

Outro intelectual italiano – Gramsci – já dizia que a transição entre uma nova ordem que ainda não nasceu e um velho mundo que ainda não saiu de cena normalmente é uma época dominada por monstros. Foi assim na transição do mundo que antecedeu à I Guerra Mundial para o mundo que veio após a II Grande Guerra, quando, no intervalo entre essas duas conflagrações, o fascismo floresceu na Europa e no Leste Asiático. Não por acaso período em que o rádio, como meio de comunicação de massa, foi protagonista.

As redes sociais inauguraram a comunicação digital no século XXI e, por ser um fenômeno relativamente recente – as primeiras redes de alcance mundial surgiram a partir de 2004 –, não se encontram devidamente regulamentadas, apresentando-se como um vasto campo de possibilidades para serem exploradas, especialmente pelo marketing político e empresarial.

É nesse terreno sem lei onde nascem e prosperam os monstros, sustentados pelas massas cujo gosto, de regra, inclina-se para o mexerico, o escândalo, o grotesco e a mentira – os idiotas, de que falava Humberto Eco. Terreno onde o fundamentalismo religioso e a extrema direita atuam sem qualquer controle.

Movidos por projetos de poder distintos, mas muito próximos, extremistas usam da estratégia de aliciamento que passa por retroalimentar essas massas com matérias e pautas alinhadas com o seu gosto, gerando engajamento – para usar um termo do jargão das redes. 

Com pautas negacionistas e anticientíficas, no plano cultural e reacionárias, no plano dos costumes, eles suscitam a chamada guerra cultural ou guerra santa, ao acusarem os avanços nessas áreas como uma conspiração da esquerda para dominar o mundo – na Europa do final do século XIX era o sionismo, levando ao que depois vimos o que ocorreu durante a II Grande Guerra com os judeus. Hoje é o globalismo, o esquerdismo, o comunismo, o gaysismo, os destruidores dos costumes e da família.

A intolerância e o ódio ao outro instauram-se como práticas comuns no meio virtual, quando não descambam para o meio físico.

As instituições são descredibilizadas por não atenderem mais aos anseios populares, especialmente àquelas ligadas à essência da democracia, como as eleições livres, o voto popular, os partidos políticos e a política como forma de mediação dos conflitos, naturalizando a ideia de que toda forma de acesso ao poder é válida, inclusive pelo emprego da força.

O que foram os ataques ao Capitólio, nos EUA, em 06/01/2021 e às sedes dos três poderes, em Brasília, em 08/01/2023 senão manifestações desse pensamento?

Como dito, contudo, essa é uma época de transição, quando ainda não aprendemos como lidar com a revolução que as redes sociais trouxeram na comunicação de massa e com o protagonismo que elas ganharam em detrimento das mídias tradicionais. Urge, no entanto, que aprendamos e aprendamos rápido, estabelecendo regras para esse meio, dado a ameaça que a sua hegemonia, sem controle, vem representando para a democracia em todo o mundo.

É inegável, no entanto, que é preciso preservar o que a democratização dos meios de comunicação proporcionada pelas redes sociais trouxe de bom, na medida em que elas representam uma alternativa à mídia tradicional, à forma de realização do debate público e de organização dos movimentos populares, os quais hoje já não dependem mais da institucionalidade de um partido político, de um sindicato ou de outras formas tradicionais para se organizarem, evidenciando uma outra característica desse meio: a ausência de institucionalidade. O que agrada ao público, por não requerer qualquer forma de mediação para que ele se manifeste e se sinta acolhido. Acolhido, aliás, por quem não o menospreza, como fazia Humberto Eco, ao considerá-lo idiota, pois é esse “idiota” hoje que sustenta a ascensão da extrema direita e do fundamentalismo religioso que ameaçam às instituições e a democracia em todo mundo.

Há, pois, que se abolir esse preconceito e estabelecer um regramento mínimo no meio digital que iniba a proliferação da desinformação e do extremismo político-religioso, sob pena de termos que não apenas tolerar os tais “idiotas”, mas sermos governados por eles. 

Autor: Júlio Perez. Também escreveu e publicou no site “Eu e os da minha geração”:https://www.neipies.com/eu-e-os-da-minha-geracao/

Edição: A. R.

Em dúvida quanto à intenção do outro, devo agir como se ele fosse mau ou bom?

strong black man

Procuro decidir com base nas probabilidades e não nas possibilidades. Por exemplo: é possível que eu, digamos, iniciando uma viagem, possa sofrer um acidente de carro, mas não é provável que isso aconteça. Posso, então, viajar.

Estou num apartamento em reformas, em um andar muito alto de um prédio ainda inacabado de uma grande cidade. Fim de tarde. Os trabalhadores foram embora.

De repente, me vejo sozinho, na sala da frente, com um homem muito musculoso que ri sadicamente para mim e bate lenta e repetidamente na palma da mão esquerda um cano grosso de ferro, que segura com firmeza com a mão direita. Um frio corre pela minha espinha. Vou morrer, é óbvio. Não sou páreo para ele.

É tão forte e seguro de sua força que, sempre rindo, faz um sinal com a cabeça indicando, no chão, um cano semelhante. Quer me matar numa luta, suponho. Abaixo-me para pegar o cano e penso: minha única chance é bater primeiro.

No mesmo movimento de erguer o corpo com toda a força, movo os dois braços segurando o cano e atinjo sua cabeça. Ele cai.

Batem na porta. E agora? O que fazer?

Ergo o corpo morto. É tão leve quanto um balão. Levo-o à sacada e jogo-o num terreno baldio que descubro existir ao lado do prédio.

Aflito, pergunto-me se devo me apresentar à polícia ou aguardar, na expectativa de que não me descubram. Sei que tudo depende da explicação convincente que eu conseguir criar.

Esse sonho, na verdade pesadelo tipo Stephen King, me trouxe culpa: será que ele me mataria ou apenas estava a mostrar algum defeito no cano que segurava e no que estava no chão? Porém, havia indícios de que se tratava de alguém perigoso: sorriso sádico, mutismo, músculos à vista, aparecer de surpresa.

O busílis da questão: se deduzi certo, agi certo, minha única chance de sobreviver estava na atitude de atacar primeiro. Mas, se deduzi errado, matei, no sonho, um operário da construção civil, no final da tarde de uma grande cidade, quando estava a mostrar canos defeituosos.

O pesadelo — felizmente foi pesadelo, nada mais que pesadelo — me colocou frente a esta questão: se estamos em dúvida quanto à intenção do outro, devemos agir como se ele fosse mau ou como se ele fosse bom?

Procuro decidir com base nas probabilidades e não nas possibilidades. Por exemplo: é possível que eu, digamos, iniciando uma viagem, possa sofrer um acidente de carro, mas não é provável que isso aconteça. Posso, então, viajar.

No sonho era possível, mas não provável que eu fosse atacado. O problema é que eventos possíveis, mesmo não prováveis, podem ocorrer. E, no caso, decidindo pelas probabilidades, se enganado, estaria morto. Seria este o caso de uma exceção em que a decisão tem de se basear nas possibilidades e não nas probabilidades?

Como tenho a tendência meio errada de imaginar que a intenção dos outros é sempre boa, não faria o que fiz no pesadelo.

Autor: Jorge Alberto Salton. Também escreveu e publicou no site “Fui me transformando em gaúcho, precisava”: www.neipies.com/fui-me-transformando-em-gaucho-precisava/

Edição: A. R.

Novo bispo missionário em Santa Cruz do Sul, RS

Com carinho e muita alegria, publicamos esta entrevista exclusiva ao site do novo bispo da Diocese de Santa Cruz do Sul, RS, Itacir Brassiani. Conhecemos e reconhecemos sua trajetória religiosa na Congregação Missionários da Sagrada Família e desejamos que, passada sua perplexidade inicial (como afirmou em entrevista à Rede Vida de Televisão) agora possa viver um intenso e bom período de doação, entrega e serviço à Igreja, atuando como bispo em Santa Cruz do Sul, RS.

Conheça um pouco mais de Itacir Brassiani, por ele mesmo.

Conte-nos um pouco da sua história de vida.

Nasci no dia 28 de dezembro de 1959 no povoado de São José do Herval, município de Soledade/RS, o segundo de três filhos de Segundo Brassiani e Gema Vêscovi Brassiani. Fui batizado no dia 10 de janeiro de 1960 na Paróquia Nossa Senhora do Rosário (São José do Herval), até hoje animada pelos Freis Capuchinhos. No mesmo ano, fui crismado, conforme costume daquele tempo, aproveitando a visita do bispo. Na época, a paróquia pertencia à recém-criada diocese de Santa Cruz do Sul. Meus pais eram pequenos agricultores e diaristas. Minha mãe teve 1 ano de escola, e meu pai nunca frequentou os bancos escolares. Mas ambos aprenderam a ler e a escrever.

Em meados de 1962 migrei com a família para Anchieta/SC, em busca de melhores condições de vida. Lá minha família dedicou-se à agricultura. Ali cresci, frequentei os primeiros anos de escola, e participei da Comunidade Nossa Senhora do Caravágio. Fiz minha primeira comunhão aos 6 anos de idade, tendo minha mãe como catequista. Em 1970 passei a estudar na Escola Básica Professor Osni Paulino da Silva, na sede do município. Em 1975 iniciei a ensino médio no Colégio Cenecista Pe. José de Anchieta, obtendo, em 1977, o título de Técnico em Contabilidade.

Em julho de 1976, com 16 anos de idade e frequentando o segundo ano do curso técnico em contabilidade, deixei a roça e mudei-me para a cidade, começando a trabalhar como balconista numa empresa varejista. Um ano depois, na mesma empresa, passei a trabalhar como auxiliar de contabilidade. Nesse período, participei do grupo de jovens da paróquia Santa Lúcia (Juventude Unida a Serviço da Amizade). No ano seguinte, integrei a organização regional da juventude (Liga de Jovens do Oeste Catarinense).

Como surgiu a vontade de servir a Deus, pela vida consagrada?

No final do ano de 1978, participei de dois eventos que mudaram o rumo da minha vida. O primeiro, foi o TLC (Treinamento de Lideranças Cristãs), que me colocou frente a frente com a superficialidade da minha fé e com as incoerências daquela fase da minha vida. O segundo, foi a ordenação presbiteral do Pe. Loacir Luiz Luvizon msf, que suscitou em mim um turbilhão de questionamentos sobre meu projeto de vida e minha vocação. Busquei orientação vocacional e comecei a atuar como catequista de crisma. No início de 1979 busquei ajuda do Serviço de Animação Vocacional dos Missionários da Sagrada Família, que atuavam em Anchieta desde os primórdios, decidi deixar meu trabalho e iniciar a caminhada de formação para a vida consagrada e ministerial.

Em fevereiro de 1980 ingressei no aspirantado e, depois, no postulantado dos Missionários da Sagrada Família junto ao Escolasticado São José (Passo Fundo/RS). De 1980 a 1982 frequentei o curso de licenciatura em Filosofia na Universidade de Passo Fundo. Em 1983 fiz o ano de noviciado canônico em Caibi/SC. Emiti os primeiros votos, tornando-me Missionário da Sagrada Família no dia 29 de janeiro de 1984. Uma semana depois, iniciei o curso de Teologia no recém-criado Instituto Missioneiro de Teologia (Santo Ângelo/RS), residindo com os colegas e o formador em uma casinha de madeira no Bairro Braga. Fui ordenado presbítero em minha paróquia de origem, por Dom José Gomes, Bispo Diocesano de Chapecó, no dia 21 de fevereiro de 1987, ainda durante o 4º ano de teologia.

Nos meses seguintes, ainda em 1987, concluí o curso de teologia, e atuei como formador do Juniorado e Vigário paroquial da Paróquia Sagrada Família (Santo Ângelo/RS). Em 1988 e 1989 prossegui na missão de formador e vigário, e comecei a lecionar Introdução à Teologia e Pneumatologia e Graça no Instituto Missioneiro de Teologia, no qual fui o primeiro aluno a ser ordenado presbítero. Em 1990 e 1991, a pedido da Província e do Instituto Missioneiro de Teologia, fiz o curso de especialização em Teologia Dogmática no Centro de Estudos Superiores da Companhia de Jesus (Belo Horizonte), obtendo o título de Mestre, em maio de 1992. Durante esse período, fiz parte da equipe da Pastoral de Rua da Arquidiocese de Belo Horizonte e desenvolvi trabalhos na Paróquia Rainha da Paz (Bairro JK, Contagem).

O que gostaria de destacar do seu trabalho como religioso e sacerdote, ao longo de 40 anos?

Nesta caminhada de 40 anos como religioso e 37 anos como padre, atuei em vários campos e regiões. Nos primeiros anos, duas experiências me marcaram profundamente: a atuação nas comunidades dos bairros periféricos de Santo Ângelo, de 1984 a 1989; o trabalho com os moradores de rua, em Belo Horizonte, em 1990 e 1991. Os anos em que estive à frente dos trabalhos paroquiais (paróquia Sagrada Família e Paróquia Santo Antônio, ambas em Santo Ângelo) também foram importantes no sentido de ensaiar caminhos novos para a organização paroquial.

Também foram significativos os desafios de coordenar os Missionários da Sagrada Família da Província Brasil Meridional (RS, SC, RJ, GO, AM) e, posteriormente, da América Latina (Argentina, Bolívia, Brasil, Chile e Moçambique), missão que se estendeu por 15 anos. Não menos desafiadora foi a missão de seis anos como vice-superior geral da Congregação, quando vivi em Roma e tive oportunidade de acompanhar os trabalhos dos Missionários em mais de 20 países. Mais exigente e complexa, mas igualmente enriquecedora, foi a missão como formador dos seminaristas, em três diferentes períodos (1987-1989; 1997-1998; 2014-2017).

Como encara agora o desafio de servir a Deus como Bispo da Igreja Católica?

Depois de mais de 20 anos nos serviços de animação e coordenação, alimento um intenso desejo – que é também uma necessidade – de voltar ao trabalho na base eclesial. Alimentava a disponibilidade para servir à missão em Moçambique, mas o pedido da Igreja está me levando a Santa Cruz do Sul, como futuro bispo diocesano. Essa mudança de ministério é o primeiro grande desafio, pois nunca me imaginei atuando fora dos quadros e prioridades dos Missionários da Sagrada Família.

Veja também matéria e entrevista: https://youtu.be/FErnwAl0ZbA?t=96

Iniciar uma missão diferente, numa posição diferente, numa diocese da qual ainda não conheço absolutamente nada, com um clero e com comunidades sobre as quais não sei nada certamente vai exigir uma profunda humildade: deixar-me conduzir, aprender com os outros, pedir licença para entrar numa Igreja que ainda não é a minha. Além disso, os desafios que interpelam hoje toda a Igreja: confirmar o trabalho generoso de tantos padres, diáconos e lideranças leigas; dinamizar um processo sinodal baseado na comunhão, na participação e na missão; assegurar a equidade das mulheres nos espaços e serviços de animação; aprofundar a consciência sobre a responsabilidade coletiva em relação ao cuidado da “casa comum”; abrir os olhos e o coração dos cristãos para a necessidade de combater as injustiças a desigualdade social e econômica.

Como avalia o momento histórico que passa a Igreja Católica, sob a liderança do Papa Francisco?

A Igreja Católica vive um momento histórico crítico e cheio de possibilidades. Ela não pode cair na armadilha de competir com outras denominações pela “posse” de fiéis, mas centrar todas as suas forças no anúncio do Evangelho do Reino de Deus, com a humildade de quem sabe que propõe algo esperando uma adesão livre e adulta, mas também como quem tem a convicção de que é algo que contribui decisivamente com o progresso e o bem-estar das pessoas e da humanidade inteira.

Papa Francisco tem exercido uma liderança corajosa nesse processo, chamando-nos a sair dos espaços fechados, a dialogar e cooperar com as demais denominações cristãs, a curar feridas causadas pelos próprios membros da hierarquia, a tratar com severidade as práticas abusivas na área do poder, da sexualidade e da consciência.

Qual a mensagem aos amigos, aos coirmãos da tua Congregação e aos leitores do site?

Aos leitores do site: Vocês que lutam pela paz e pela justiça, pela emancipação dos homens e mulheres e pela humanização das relações, não estão fora da Igreja nem longe de Jesus Cristo e seu Evangelho, mas são parte integrante da grande caravana dos homens e mulheres de boa vontade, daqueles humanos seres dos quais Jesus Cristo se orgulha de chamar de irmãos e irmãs.

Aos cristãos católicos: Vivam e testemunhem a alegria do Evangelho, a impagável felicidade de ser povo de Deus, de ser semente de uma nova humanidade. Ousem propor o Evangelho de Jesus e chamar à comunidade de fé, fazendo dela uma escola na qual aprendemos a ser irmãos e irmãs sem fronteira. Cresçam na convicção de que, seguindo Jesus Cristo, ninguém perde ou sacrifica nada de verdadeiramente importante, e recebe gratuitamente tudo o que necessita para ser gente.

Aos coirmãos Missionários da Sagrada Família: Sentirei saudades do espírito missionário, da convivência cotidiana, das buscas feitas lado a lado, do desejo de coerência e criatividade, das tensões e discussões acaloradas. Quero continuar crescendo e amadurecendo em sabedoria, graça e testemunho. Com a graça de Deus, continuaremos próximos e com a possibilidade e o desejo de encontros frequentes. E peço a Deus que me conceda a graça de, mesmo que depois dos 75 anos, estar com vocês em alguma missão de fronteira.

Entrevista à Rede Rede Vida de Televisão: https://www.facebook.com/joao.ebertz.14/videos/466402499461826

Fotos: divulgação/arquivo pessoal

Edição: A. R.

Valentina

Muito próxima à janela do ônibus, balançava suas pernas que ainda não alcançavam o chão, olhava pra fora e via os pinheiros colossais para a sua idade, na grandiosidade de uma cidade que jamais parou de crescer e que a recebera tão nova e com tantas amarguras. Mas suas copas não eram tão distantes a ponto de Valentina não poder alcançá-las.

As fotos de lindos pinheirais mal saíam do celular de Valentina, e, em sua mente, vieram à tona, a razão de tantos crescerem no seu pátio: 42 deles, lindos, enviados a pouco a um amigo curioso, em uma manhã insuspeita, linda, igualmente. E um fragmento do filme de sua infância ressurgiu em segundos, nas duas mulheres sentadas lado a lado no mesmo ônibus e que comentavam entre si:

-Como pode uma menina tão pequena andar por aí sozinha?

Bem, assim é que foi.

Valentina não tinha opção para o luxo de andar acompanhada. Desde os seus 8 anos, sua rotina fora ameaçada pela solidão, ao dia e, pela incerteza, à noite.  Se bem que a sua Mãe chegaria tarde, muito tarde, altas horas, após dois empregos, estafada e com muito pouco tempo para dormir.  Mas chegava!

Valentina corria ao seu encontro para contar as novas do dia, ou as mesmas; o que se passou com sua irmã, sua avó, como foi o seu almoço, que ela mesma fizera e como foram as compras, em que ela mesma comprara.

Quem roubou a sua idade e a sua infância, esqueceu de roubar a sua fala e esperteza. Qual Mãe que não queria ouvir uma sequência de novidades, após ficar fora pelo dia e confiar a uma menininha, sua casa, sua outra filha e ainda a sua mãe?

Que Maria, a santa, mantinha essa mãe em pé, em sua força para continuar? Porque assim que o sol nascesse, novamente, Valentina, sua irmã de algumas semanas, sua avó, todas nesta casa, neste pedaço escuro de incertezas, ficariam novamente a sós. E pelo resto do dia!

Sua mãe partia cedo, pois o caminho era longo. Seis quilômetros e mais 800 metros a separavam de um ponto solitário de ônibus. E logo embarcada, veria o sol nascer de sua janela, pensando, decerto, como se poderia tocar em frente com a sua nova protetora da casa:  uma menina de 8 anos incompletos, agora destinada a cuidar da irmã, da avó, da casa, dos seus sonhos mal desenhados e ainda, e em que lugar deste seu pequeno lar seria o melhor para se sentar e chorar.

Mas Valentina trocou seu choro pela força, crendo que anjos cercavam sua casa, vale lembrar.

Seu Pai falecera a pouco tempo. Nele estava assentada sua força e futuro.  A morte de seu maior amparo ocorreu poucas semanas após o nascimento de sua irmã. E o seu mundo ruiu!

E lá se foi Valentina… para assumir o papel de Mãe, agora mãe de fato de uma criança de dias apenas, com todos os cuidados a cuidar, e ver sua infância destruída pela grandeza infeliz de ser ‘mãe’ precoce.

Sua Avó, igualmente, estava em sua relação de cuidados diários.  Mas nem se levantava pelo dia, pois muito não poderia fazer sendo cega.

E lá se foi Valentina… a perder novamente seus dias de descoberta, em seus anos mais preciosos; agora, em seu novo papel de filha, que zelava pelo bem e asseio de sua vó.

Que capricho de destino esse, que a escolheu para cuidar de todos os que a cercavam, menos de si mesma?

Mas precisava mais:  lavar a roupas de todos, ir ao mercado, ir à escola, sim, porque mesmo em sua infância desprovida de alegria, era preciso disfarçar e tentar ainda ser criança. Para seus colegas, falava como por consolo, que em sua casa, dava banho a uma boneca de verdade…

E as duas senhoras bem-vestidas, passeando em uma tarde de abril, quando os primeiros ventos frios sopravam pelas avenidas de uma Curitiba dos anos 70, quando o frio era mais frio, claro, não imaginavam que de pequena mesmo, nesta menina, nem o seu nome levava jeito.

Talvez ambas fossem servir-se de chá em uma cafeteria do centro, passear e sorver as primeiras impressões do outono, em uma rua qualquer, próxima à XV, quando ainda era possível se andar em paz. Bem arrumadas, com meias cor da pele, casacos para uma virada de tempo mal-humorada pelo final do dia, contrastavam com o vestidinho da menina em suas pernas miúdas de fora, em um sapatinho branco de andar somente aos domingos, alvos, combinando com a alvura de seu rosto, formando um conjunto que mais lembrava uma santinha.  Mas era uma santa a Valentina!  Uma dessas, destinada a brilhar, que resistirá a tudo e que jamais desistirá. Sentiu-se santa ela, escolhida, única!

Com seu dinheiro contado, amassado em uma das mãos, e o carnê de pagamentos em outra, ela trazia o compromisso em ir ao centro da cidade e pagar a sua prestação, retornar neste ônibus de assentos gelados e janelas emperradas, e, somente depois de desembarcar, topar com sua realidade em que fora golpeada pelo destino de outros, assumindo a conta de tudo.

Muito próxima à janela do ônibus, balançava suas pernas que ainda não alcançavam o chão, olhava pra fora e via os pinheiros colossais para a sua idade, a grandiosidade de uma cidade que jamais parou de crescer e que a recebera tão nova e com tantas amarguras. As suas copas não eram tão distantes a ponto de Valentina não poder alcançá-las. E seguindo pelas ruas já traçadas da cidade, o ônibus cumpria a sua rota de beleza sem igual, para uma menina que mal despertara para a vida e que não tinha tempo para entender por que fora desta forma escolhida.

Carros, pessoas, nuvens, casas e jardins, ruas e avenidas a vencer, aos olhos de Valentina não sobrava tempo para ver que o céu de abril formava uma concha de porcelana no horizonte. E logo anoiteceria.

De volta ao seu banco no ônibus, com um sorriso curto de satisfação pela parcela paga, mais um dever cumprido para sua casa, Valentina tinha a certeza de que estes dias não o seriam para sempre. Os pinheirais pelo caminho pareciam encorajá-la, um a um, em seus tamanhos variados, imponentes.  Chegou a contar: eram 42 deles. Pensou em chamá-los por testemunhas, para que não a abandonassem.  Na verdade, chamara. Pois quais deles, com tantos galhos, poderia deixar de abraçá-la nessas tardes gélidas em seu encalço, onde havia tantos motivos para não continuar?

E falava baixinho;

-Um dia, meus amores, vocês estarão todos no meu quintal.

Autor: Nelceu A. Zanatta. Também escreveu e publicou no site “Pedro pequeno e sua caminhada de fé: uma história fascinante em livro”:  https://www.neipies.com/pedrinho-pequeno-e-sua-caminhada-em-busca-de-fe-uma-historia-fascinante-em-livro/

Edição: A. R.

 Em defesa da Filosofia no Ambiente Escolar

A presença dos princípios neoliberais ocorrida nas últimas duas décadas fez com que a educação para o pensar perdesse sua força e cedesse espaço para outras formas instrumentais de organizar o trabalho escolar. Por conta disso, temos o retorno de um neotecnicismo que está mais preocupado em formatar jovens e crianças do que promover o pensamento crítico, criativo e cuidadoso.

O termo filosofia, em nossos dias, é concebido como sendo um conceito extremamente amplo e polissêmico. Fala-se que tal empresa possui tal “filosofia”; que fulano tem uma excelente “filosofia” de trabalho; que a cultura X tem uma “filosofia” de vida formidável; que o novo gerente, ao assumir a empresa Y, implantou uma “filosofia” radical; ou de que a “filosofia” da escola Z visa a tais e tais princípios. Se observarmos todos esses conceitos, parece que “filosofia” tem a ver com uma concepção e, pois, com um “saber de direção que Gramsci (1987, p.11-12) chama de “filosofia espontânea”, “senso comum”, ou “concepção de mundo”. Maura Iglésias (1996, p.11-16), no texto “O que é filosofia e para que serve”, além desse primeiro sentido, destaca outros dois, a saber, a filosofia oriental e a filosofia como disciplina acadêmica.

Se o simples conceito de filosofia provoca essa ampla possibilidade de interpretações e reflexões, o que dizer do ensino de filosofia? A filosofia é possível de ser ensinada? Que conteúdos são próprios da filosofia? Há um tempo e um espaço para a filosofia? Ela precisa ser tratada como disciplina na formação de nossos alunos? É possível ensinar filosofia para as crianças? Ao implantar filosofia nas escolas, não estaríamos comprometendo a própria identidade da filosofia? Como deve ser a formação do professor de filosofia? Kant teria razão quando afirmou que não se ensina filosofia, ensina-se a filosofar? Não pretendemos tratar neste texto todas essas questões. Apenas intencionamos abordar algumas reflexões em torno do ensino da filosofia, num cenário marcado por formas de vida declaradamente mercantis que dão pouco espaço para o pensamento filosófico.

Quando se fala em ensino de filosofia, imediatamente surgem três questões: ensinar o quê? Ensinar para quê? Como ensinar?

Tais perguntas refletem um “espírito” pragmatista‑utilitário presente em nossa época. Uma civilização marcada pela mentalidade técnico-instrumental dificilmente consegue perceber a. importância da filosofia no mundo de hoje. Nossa sociedade e nossa cultura costumam considerar que alguma coisa só tem o direito de existir se tiver alguma finalidade prática, muito visível e de utilidade imediata.

Existem muitos preconceitos com relação à filosofia. É lugar-comum ouvirmos expressões de todo tipo que evidenciam uma certa ignorância ou até um determindado tipo de medo da filosofia: “a filosofia é a ciência pela qual ou sem a qual continua tudo igual” proclama quem nunca leu algo sobre filosofia; “a filosofia é um saber especulativo inútil, que em nada contribui com a ciência e o conhecimento” exclamam os infectados pela mentalidade mercantil que tomou conta da vida; “a filosofia é própria dos esquerdista/comunistas que querem dominar ideologicamente a sociedade”, esbravejam os defensores da extrema direita que se sentem ameaçados pelos seus opositores que lutam pelos direitos humanos; “a filosofia não produz desenvolvimento econômico e provoca crises na organização da sociedade”, sentenciam os donos do poder e da riqueza.

Grande parte dos alunos universitários, ao ingressarem na universidade, são portadores desses preconceitos com relação à filosofia. Os poucos que tiveram experiência no ensino médio vêem a filosofiacom desprezo e a maioria deles são incapazes de captar a preciosa contribuição que ela pode dar para um pensar melhor e, por consequência, para um agir responsável, cuidadoso e prudente. Karl Jaspers (1975, p. 139), em seu livro Introdução ao pensamento filosófico, define com propriedade a situação em que se encontra a filosofia: “A filosofia se vê rodeada de inimigos, a maioria dos quais não tem consciência dessa condição. […] Ela é considerada perigosa. Se eu a compreendesse, teria de alterar minha vida.  Adquiriria outro estado de espírito, veria as coisas a uma claridade insólita, teria de rever meus juízos. Melhor é não pensar filosoficamente”.

Grande parte dessa situação em que se encontra a filosofia deve‑se à maneira como as pessoas têm acesso a ela, pela maneira como é ensinada nas escolas, ou por nunca terem acessado de forma consistente conteúdos filosóficos na sua trajetória de vida. No que diz respeito ao seu ensino, poderíamos distinguir duas posições de como ela pode ser compreendida: como resposta ou produto e como pergunta ou processo.

A filosofia como resposta ou produto é identificada com a aquisição de um saber pronto, assimilado de maneira memorística e retórica: os alunos são induzidos à memorização de conceitos e doutrinas escritas pelos pensadores ao longo do tempo. A erudição filosófica é assumida como um fim em si mesmo. Encarado dessa forma, o ensino de filosofia se reduz à mera aquisição de um produto pronto e inquestionável. Talvez por isso os alunos tenham dificuldade de compreender a importância da filosofia. Infelizmente, é dessa maneira que a filosofia é compreendida pela maioria das pessoas. Trata‑se de um saber acadêmico, formal, que não abre espaços para uma dimensão construtiva e crítica.

Já a filosofia como pergunta ou processo, sem negar ou contestar a validade da postura anterior, ressalta outro ângulo; trabalha com a perspectiva de “aprender a pensar”. Tal perspectiva é entendido não como a capacitação lógica, como domínio do uso de um instrumentoque ordena o pensamento, mas como o desenvolvimento da capacidade de questionar, de rejeitar como dado inequívoco e evidência o que se apresenta de modo imediato, que convence de forma fácil o senso comum e justifica grande parte dos pensamentos vulgares. Tal abordagem da filosofia apresenta‑a como uma disciplina que coloca o ato de filosofar, de questionar e de retomar questões esquecidas, ou dadas como resolvidas, acima da própria filosofia como teoria. O importante não é conhecer as respostas que outros deram, mas tentar alcançar, através da questão posta por eles, uma nova resposta, a qual, por sua vez, abrirá o caminho a novas questões.

É nesse sentido que a tentativa pioneira de Lipman constitui um marco referencial e diferencial no que se refere ao ensino da filosofia. No início da década de 1970, após ter ensinado por longos anos introdução à lógica a estudantes universitários, Lipman começou a se preocupar com o valor de tal curso, ou seja, qual seria o possível beneficio que seus alunos obteriam ao estudar regras para determinar a validade dos silogismos ou ao aprender a construir orações contrapositivas. Eles, realmente, raciocinavam melhor como resultado do estudo da lógica? Não estariam seus hábitos linguísticos e psicológicos já tão firmemente estabelecidos que qualquer tipo de prática ou instrução no raciocínio chegaria tarde demais? Tais indagações levaram Lipman a pensar, hipoteticamente, que o problema não estava propriamente na universidade, mas na educação básica que esses alunos haviam tido. Ele constatou que era possível ajudar as crianças a pensar com maior habilidade. Foi nesse contexto que nasceu o programa de filosofia para crianças que se espalhou pelo mundo todo, inclusive no Brasil, constituindo um importante referencial e um projeto “revolucionário” que buscavarepensar a educação.

No dizer de Lipman (1990, p.19), “há muito se desconfiava que a Filosofia carregava dentro de si tesouros pedagógicos de grande generosidade e de que esses tesouros poderiam, algum dia, seguir o método Socrático e dar sua valiosa contribuição para a Educação”.

Restava saber de que maneira tais tesouros poderiam ser colocados a serviço das crianças. Certamente, não poderia ser da maneira que costumeiramente era feito, pois a própria história se encarregara de demonstrar que tais esforços eram inúteis. Isso levou Lipman a criar uma história para crianças. Não uma história do tipo em que os adultos, que sabem tudo, benevolamente, explicam aos pequenos ignorantes as diferenças entre pensar bem e pensar mal­. Deveria ser algo que os pequenos descobrissem por si mesmos, com pouca ajuda dos adultos. As crianças da história deveriam formar, de alguma maneira, uma pequena comunidade de pesquisa, na qual cada uma participasse, pelo menos em alguma medida, na busca cooperativa e na descoberta de modos mais efetivos de pensar. Para isso, “a Filosofia precisava sacrificar a terminologia hermética e transformar‑se em um romance filosófico, um trabalho de ficção constituído de diálogos em que as ideias filosóficas estariam espalhadas profusamente em cada página” (Lipman, 1990, p.22).

Inicialmente, Lipman acreditava que tal “história” seria um livro que as crianças pudessem encontrar por si mesmas quando fossem a uma biblioteca ou que algum parente lhes desse de presente para ler e discutir. Entretanto, aos poucos, foi constatando que era preciso filosofia para crianças tanto na escola quanto em casa. Por isso, valendo‑se dos estudos de Piaget, Lipman realizou uma experiência de campo com dois grupos de crianças selecionadas por acaso. Cada grupo tinha cerca de quinze crianças, que tinham duas aulas por semana durante nove semanas, tendo sido cada um deles submetido a um pré‑teste e pós‑teste. No fim do período experimental, a pontuação do grupo de controle em raciocínio lógico permaneceu imutável, ao passo que a do grupo experimental tinha dado um salto de vinte e sete meses. Posteriormente, em 1975, o experimento foi ampliado para duzentas crianças. Desse experimento a melhora na leitura foi substancial e surpreendente. As provas experimentais de melhora acadêmica convenceram Lipman de que as escolas poderiam aceitar tal iniciativa como um programa de habilidades de pensamento e de raciocínio, ao mesmo tempo em que as crianças, dentro da sala de aula, lhe dariam uma entusiasmada acolhida.

A partir da tentativa pioneirade Lipman, muitos educadores, preocupados em desenvolver a qualidade do pensamento das crianças, têm percebido que a filosofia é uma opção educacional estimulante e confiável. O mesmo acontece com aqueles que estão envolvidos com programas de humanidades para as séries iniciais do ensino fundamental. A filosofia oferece às crianças e jovens a oportunidade de discutirem conceitos, tal como o de verdade, que existem em todas as outras disciplinas, mas que não são abertamente examinados por nenhuma delas. A filosofia oferece um fórum no qual as crianças e jovens podem descobrir, por si mesmas, a relevância, para suas vidas, dos ideais que norteiam a vida de todas as pessoas.

É frequente ouvirmos dos professores universitários e, mesmo, do ensino médio, “reclamações” de que seus alunos apenas memorizam os conteúdos pelos quais serão testados e não aprendem a pensar uma disciplina. Essa noção sobre o pensar uma disciplina é bastante ardilosa.

A maioria dos professores pressupõem que certas habilidades elementares sejam dominadas por seus alunos, quando,na verdade, isso raramente acontece. Sempre que investigamos, empregamos uma variedade de habilidades cognitivas, as quais podem ser extremamente elementares, como fazer distinções e conexões, ou extremamente complexas, como a descrição e a explicação, que são composições intrincadas de habilidades mais simples usadas de uma maneira coordenada.

Na visão de Lipman, o cerne do problema da educação contemporânea deve‑se à deficiência nas habilidades elementares e, por conseqüência, das habilidades mais complexas. É comum, por exemplo, os professores de álgebra se sentirem aborrecidos quando descobrem, a cada ano, que seus alunos não possuem as habilidades necessárias para resolver problemas algébricos elementares, para não falar da incapacidade de “pensar algebricamente”. Assim, surgem os questionamentos: quem deveria ensinar tais habilidades? Se os professores de álgebra ou de qualqueroutra disciplina tivessem de ensinar tais habilidades, não correriam o risco de descuidar sua própria disciplina? Por outro lado, se tais alunos não estiverem de posse de tais habilidades, conseguirão ter êxito nas disciplinas que exigem o domínio necessário de certas habilidades? Qual é a solução? Continuaremos com a velha postura de ficar criticando os sistemas educacionais sem dar condições objetivas para enfrentar a problemática?

A proposta de Filosofia para Crianças (também chamado de Projeto de Educação para o Pensar) de Lipman ganhou visibilidade nos anos 1980 e espalhou-se pelo mundo. No Brasil chegou em 1985, espalhou-se em todas as regiões brasileiras e possibilitou que em milhares de sala de aula a filosofia se torna-se algo vivo, apaixonante e promissor para o aprimoramento das habilidades de pensamento.

A forte presença dos princípios neoliberais ocorrida nas últimas duas décadas fez com que o projeto de educação para o pensar perdesse sua força e cedesse espaço para outras formas instrumentais de organizar o trabalho escolar. Por conta disso, temos o retorno de um neotecnicismo que está mais preocupado em formatar jovens e crianças do que promover o pensamento crítico, criativo e cuidadoso.

Para os que desejarem aprofundar sobre o Ensino de Filosofia, indico a coletânea Um olhar sobre o Ensino de Filosofia (Altair Alberto Fávero, Jaime José Rauber e Walter Omar Kohan – orgs), publicado em 2002 pela Editora Unijuí. Segue o link do PDF do livro para os que se intessarem:

https://www.researchgate.net/publication/356987044_Um_olhar_sobre_o_ensino_de_Filosofia

Referências bibliográficas

IGLÉSIAS, Maura. O que é filosofia e para que serve. In: RESENDE, Antonio (Org.). Curso de filosofia.São Paulo: Zahar, 1996, pp.11-16.

FÁVERO, Altair Alberto; RAUBER, Jaime José; KOHAN, Walter Omar (orgs.). Um olhar sobre o Ensino de Filosofia. Ijuí: Unijuí, 2002.

JASPERS, Karl. Introdução ao pensamento filosófico.São Paulo: Cultrix, 1975.

LIPMAN, Matthew. A filosofia vai à escola.São Paulo: Summus, 1990.

LIPMAN, Matthew. O pensar na educação. Petrópolis: Vozes, 1995.

Autor: Altair Alberto Fávero. Com a edição desta publicação, completa 70 textos publicados no site. Conheça os demais textos, acessando link do autor: https://www.neipies.com/author/altair/

Edição: A. R.

Grito pela educação CMP e Pré-Congresso dos professores municipais de Passo Fundo

O CMP Sindicato, entidade representativa dos professores municipais de Passo Fundo, realizou na quarta-feira, 19 de junho, às 18h30min, o Pré-Congresso para o magistério municipal.

O evento contou com a presença de professores filiados das escolas de educação infantil, ensino fundamental e aposentados, que realizaram inscrição prévia para a participação no encontro.

Neste ano, o Congresso dos Professores Municipais chega a 9ª edição, com data marcada para acontecer em 29 de agosto. Mas, antes disso, o CMP realiza essas atividades prévias para introduzir o tema.

Abrindo os trabalhos da noite, Geniane Dutra, dirigente do CMP, salientou que o pré-congresso é uma oportunidade de os colegas discutirem e se inteirarem dos assuntos que serão tratados durante o Congresso dos Professores Municipais. Também destacou o papel do Sindicato e de como vêm sendo tratadas as demandas com as escolas. Foi exibido um vídeo com um resgate fotográfico das ações de 41 anos do Sindicato junto aos professores, em momentos de manifestos, atividades esportivas e culturais, jogos e encontros diversos.

Reafirmando a luta e a defesa pela educação, também foi apresentado no pré-congresso o “Grito Pela Educação”, movimento do CMP Sindicato que abre espaço para a discussão do descaso com a educação pública por parte dos governantes. Os professores que participaram do evento ganharam a camiseta que foi confeccionada com o tema do movimento.

O debate principal do Pré-Congresso foi marcado pela fala da professora e vereadora de Passo Fundo, Regina Costa Dos Santos. Ela tratou do assunto que em breve será abordado no IX Congresso, “Poder e democracia na educação”. Regina discutiu os desafios da profissão docente, assim como as necessidades e perspectivas do ensino municipal.

Ao término, professoras do Núcleo de Aposentadas do CMP apresentaram um manifesto sobre a situação da aposentadoria e perdas no magistério de Passo Fundo. Enfatizaram questões como a diminuição do salário em comparação ao aumento de gastos na aposentadoria, entre outros prejuízos como a perda da incorporação das gratificações e do vale-alimentação.

GRITO PELA EDUCAÇÃO

Durante o Pré-Congresso, também foi lançado o Grito pela educação. Esta iniciativa visa articular um conjunto de ações e atividades em defesa da escola pública de qualidade. Essas ações compreendem denúncias que lesam os professores e professoras municipais em seus direitos, mateadas, paródias, outdoor, locuções em rádios, debates sobre educação e eleições municipais, dentre outras.

Segue Editorial Grito pela educação.

Independente da forma ou regime de governo em voga no Brasil, salvo raríssimos momentos, uma máxima sempre se apresenta em nossa história: o descaso com a educação pública por parte dos nossos governantes. Isso nos leva à conclusão de que Darcy Ribeiro estava correto ao afirmar que “a crise da educação no Brasil não é uma crise; é projeto”.

Essa realidade se reflete em todos os níveis administrativos, sendo observada nos estados e municípios de nossa federação, e, infelizmente, em Passo Fundo não é diferente. Em nossa cidade, os administradores se orgulham em divulgar na imprensa local os números do crescimento econômico. Ano após ano, segundo eles, nossa economia se destaca em nível estadual e nacional, apresentando números expressivos e ganhando os mais variados tipos de prêmios. Entretanto, a realidade da educação pública – no chão da escola – não se altera. Ou quando isso acontece, a mudança é para pior.

Passo Fundo conta com um orçamento que ultrapassa a casa dos bilhões de reais, e tem a obrigatoriedade legal de investir 35% em educação. Tais números mostram que dinheiro não é o problema, mas quais são as prioridades? É notável a distopia de nossos administradores, que se preocupam demasiadamente com projetos que visam apenas o engajamento nas redes sociais, mesmo que não tenham sentido na vida dos alunos.

O descaso perpassa a educação infantil e o ensino fundamental, atingindo milhares de alunos, familiares e docentes. Citamos como exemplo: falta de vagas na etapa creche, encerramento do turno integral em nossa rede, falta de monitores para os alunos incluídos, problemas de estrutura nas escolas, falta de vagas para promoção das professoras da educação infantil, repasse inferior do índice de reajuste do piso nacional do magistério, dentre outros. Parece contraditório uma cidade tão pujante economicamente, que envia anualmente grupos de estudantes e familiares, jornalistas e outros agregados para o exterior, não solucionar os problemas básicos da educação. Isso ocorre pela visão distorcida do que deve ser considerado prioridade.

Como consequência, temos poucos avanços nos índices educacionais de nossos alunos e um gigantesco estímulo para o “apagão docente” que vivemos. Nossos professores nunca adoeceram tanto, jamais tivemos tantos pedidos de exoneração no magistério municipal. Os cursos de licenciatura não encontram mais alunos, muitos acabam por encerrar suas atividades. Tanto descaso não pode continuar!

Almejamos uma educação pública de qualidade, laica, inclusiva e democrática, que promova o pensamento crítico e a autonomia dos alunos. Do mesmo modo, queremos que nossas escolas sejam espaços privilegiados, em que o conhecimento científico e a cultura estejam ao alcance de todos. Que a profissão docente seja verdadeiramente reconhecida, valorizada e respeitada.

Para que isso seja realidade, não apenas uma utopia, necessitamos de ações. Esse é o objetivo do “Grito pela Educação”, que surge com o intuito de denunciar esse contexto, mas também de propor iniciativas. Precisamos urgentemente inverter a lógica que tem resultado na crise da educação.

Fotos: Comunicação CMP.

Autor: CMP- Sindicato

Professores de Ensino Religioso: com orgulho e por opção

Participamos deste curso na condição de Ministrante da temática Ensino Religioso no Ensino Médio: perspectiva de metodologias de trabalho/desafios do trabalho docente como professor do Ensino Religioso e habilidades específicas do Ensino Religioso no Ensino Médio.

A CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), Regional Sul II –Setor Ensino Religioso e a UFN (Universidade Franciscana) de Santa Maria, RS, realizam, durante 2024, Curso de extensão e capacitação profissional: Formação docente para o Ensino Religioso.

O Curso é ofertado na modalidade de Educação a Distância, com aulas on-line ao vivo por meio de plataforma de videoconferência. É direcionado a professores dos níveis de ensino fundamental e médio de escolas municipais, estaduais ou privadas, que desejam enriquecer sua prática pedagógica e contribuir para a formação integral dos estudantes por meio do Ensino Religioso.

Este curso é especialmente voltado para: a) professores que atualmente lecionam a disciplina de Ensino Religioso, independentemente de sua formação prévia e que buscam aprimorar ou atualizar seus conhecimentos na área; b) professores que atualmente lecionam disciplinas de sua área de formação, mas possuem interesse em lecionar a disciplina de Ensino Religioso na Educação Básica. Tem 380 professores e/ou professoras inscritos.

Para Moema Muricy, “o curso de Ensino Religioso do Setor Ensino Religioso  da Pastoral da Educação-CNBB Sul 03 em parceria com a UFN de Santa Maria tem sido um oportunidade feliz de formação, não só para os professores (as) do RS, mas de outros Estados. Está tendo excelente avaliação pelos alunos(as). Já está sendo projetado um curso de Especialização para o próximo ano com valores acessíveis aos participantes. Além desse Curso, estamos organizando lives sobre o tema Ecologia Integral, como importante reflexão na educação”.

Destacamos mais esta iniciativa de formação permanente de professores e professoras que, em sua maioria, não tem preparação específica para atuar em sala de aula com o componente curricular Ensino Religioso.

As temáticas do curso são bem diversificadas, aprofundando temas como a Legislação (BNCC e Referencial Curricular Gaúcho do Ensino Fundamental e Médio), Crianças e seu desenvolvimento, Linguagem simbólica da literatura e Ensino Religioso, Práticas pedagógicas do Ensino Religioso e Ensino Religioso e fraternidade social, bem como conhecimento de algumas tradições religiosas.

Participamos deste curso na condição de Ministrante da temática Ensino Religioso no Ensino Médio: perspectiva de metodologias de trabalho/desafios do trabalho docente como professor do Ensino Religioso e habilidades específicas do Ensino Religioso no Ensino Médio.

Foram duas aulas on-line, de duração de uma hora cada.

Nestas duas aulas, reforçamos a importância dos professores de Ensino Religioso buscarem condições para o exercício de sua docência: formação continuada e continuidade do seu trabalho na rede de ensino para acumular experiências e conhecimentos. Tratamos, também, da importância dos professores trabalharem o Ensino Religioso com orgulho e por opção.

Com a experiência de sala de aula, por cerca de 20 anos com o componente curricular Ensino Religioso, trouxemos também experiências, pequenas histórias e os desafios de trabalhar de forma coerente o ensino religioso na perspectiva do diálogo inter-religioso.

Seguem links das aulas para quem desejar conhecer o nosso trabalho junto a este importante Curso de Formação docente para o Ensino Religioso.


Aula 09:
https://youtu.be/jSrhTN6R5Rw?t=632

Aula 10: https://youtu.be/9vlmcGGkNmQ?t=341

Segue, também, link de matéria sobre o Ensino Religioso no Referencial Curricular Gaúcho do Ensino Médio: https://www.neipies.com/ensino-religioso-no-referencial-curricular-gaucho-do-ensino-medio/

Autor: Nei Alberto Pies, professor, escritor e editor do site.

O mundo muda quando eu mudo….

“Hoje, com sinceridade, eu acordei com uma vontade de cuidar de mim/ me levar para um passeio sem pisar o pé no freio, sem pensar no fim/ Arrumar minhas gavetas, botar tinta na caneta do meu coração/ escrever um: Eu me amo cada vez que a voz do mundo me disser que não”. (Canção Mundança, Elmo Oliveira)

Inicio esta reflexão com estes versos retirados da música Mundança, de autoria de Elmo Oliveira e interpretada pelo pernambucano Flávio Leandro, num forró que contagia e já no primeiro acorde faz-nos bater o pé em cumplicidade com o belo casamento entre ritmo e poesia. Quantas vezes percebo, em algumas pessoas nas sessões de psicoterapia, uma baixa autoestima que se reflete sob aspectos de desânimo, desmotivações e, por vezes, levando-as a quadros depressivos…

Cabem algumas perguntas: cuidam de si? Permitem-se viver com alguma leveza? Amam-se ante as adversidades? Provavelmente não, e, não raro, vivem a vida dos outros.

Foi aí que esta música (amor à primeira vista) me pegou, no refrão: “Quando eu mudo, o mundo muda, cai na minha dança, se eu mexo no meu mundo, o resto se balança”. Dá vontade de providenciar numa zabumba para tentar, nestas ocasiões, por meio da musicoterapia, aprender um novo jeito de dançar a dança da vida, a da mudança, aquela que nos pede renovação/atualização. Já dizia o Maluco Beleza de sua preferência em ser uma metamorfose ambulante, e, mais ao sul, há décadas Luluzeamos: “Tudo muda o tempo todo no mundo”, e o que fazemos? É neste tema que reside um forte conceito da sabedoria oriental e também preconizado no budismo, o da impermanência, o de que nada é eterno.

Se não somos os mesmos de ontem, por que cristalizamos em repetições numa maneira de ser?  Por que insistir em mudar o outro, o ambiente de trabalho ou o de família na ilusão de que isso será melhor?  Por que não mudamos a nós mesmos? Arrisco-me a dizer: muitas das vezes ficamos mais preocupados com a opinião dos outros, com o que pensam ou irão dizer de nós do que propriamente conosco mesmos.

No livro “Antes de partir, os cinco principais arrependimentos que as pessoas têm antes de morrer” a enfermeira australiana Bronnie Ware apresenta um relato de dezenas de pacientes terminais com suas percepções sobre o que poderiam ter feito de diferente em suas vidas, e, diante do pouco tempo que restavam-lhes, a afirmativa que mais foi dita é a de que o que realmente importa é viver a própria vida.

Não precisamos esperar um momento futuro (que nunca saberemos quando será) para provocarmos as mudanças que entendemos necessárias. É sabido que viver em sociedade implica, muitas vezes, na renúncia ao próprio desejo, mas não pode ser assim o tempo todo, a vida toda. Cuide-se, viva com leveza, não leve nada muito à sério, ame-se e (ainda sobre a música) queira, como o autor, o direito de ter o desejo de se tratar melhor, de “animar esta pessoa que andou vagando à toa, mas que mora em mim”.

Quer ajuda? Sessões de psicoterapia são uma forma de cuidar de ti, de te levar a um passeio sem pisar o pé no freio, pois, sem censuras e sem julgamentos somos autênticos, encontrando segurança e tranquilidade para sermos nós mesmos.      

More em paz em seu coração, habite-se, este lugar é teu!

Autor: César A R de Oliveira. Escreveu e publicou no site “O que dizem seus stories?”: https://www.neipies.com/o-que-dizem-seus-stories/ Psicólogo – whats app (54) 99981 6455 Tem um blog: https://homemnapsicologia.com.br/

Edição: A. R.

Operação Cruzeiro do Sul   

O Senhor ordenou a Noé que construísse uma arca na qual sua família e “tudo o que vive, de toda carne fossem salvos do Dilúvio, Suas águas destruíram os iníquos e todas as criaturas que viviam na terra, exceto as que estavam na Arca. (Gênesis 6:19)

Sensibilizados pela campanha de ajuda aos flagelados pelas enchentes no Estado do Rio Grande do Sul, quatro membros da Academia Passo-Fundense de Letras e mais alguns amigos dirigiram-se até a cidade de Cruzeiro do Sul/RS para fins de levar donativos aos desabrigados e prestar-lhes solidariedade. A cidade e seu interior foram as mais penalizadas pela força das águas do rio Taquari.  Foi num sábado de junho/2024 de intenso sol radiante, exatamente uma semana depois da grande inundação que atingiu, principalmente as cidades de Roca Sales, Muçum, Encantado, Arroio do Meio, Lajeado, Estrela, Cruzeiro do Sul e Venâncio Aires.  

Começamos a sentir os efeitos dos temporais no caminho de descida da serra de Pouso Novo devido aos deslizamentos das encostas sobre a pista da BR 386, também nomeada como rodovia Leonel de Moura Brizola. Enfrentamos algumas paradas por meia pista, solavancos, pequenas cachoeiras, pedras, lama e água na pista até a chegada na ponte curva do rio Fão. Dali em diante, o cenário era uma verdadeira terra arrasada: desmoronamentos das margens dos afluentes do rio Taquari, árvores arrancadas pelas raízes, restos de casa dos agricultores, casas de veraneio, lavouras varridas, crostas das terras levadas, pedras e lajes no meio do caminho, roupas e colchões, sofás nos galhos das árvores das margens dos rios, cujas águas apressadas pediram apenas passagem, inclusive ao longo das duas margens.

Chegando na cidade de Cruzeiro do Sul, deparamo-nos com mais de 50% da cidade arrasada, especialmente nas margens curvas e nas partes mais planas e baixas. As águas passaram fortes e rápidas, tomando conta das residências, lojas, escolas, ruas e praças, deixando no caminho muita lama, restos de tudo, inclusive animais mortos e algumas vítimas humanas até então não encontradas. O lixo e o pó escuro marcavam presença em toda parte. Tudo era tão real, dando a impressão de que um Tsunami tinha passado em direção ao lago Guaíba e ao mar.

E depois veio a bonança. Agora, passada uma semana, ali estava o rio Taquari em seu leito normal. Damo-nos conta de que os rios têm três estados: rio em tempo de seca, rio em tempo normal e rio em tempo de enchente.  Em tempo de seca parece desidratado, fraco e de pouca vida. O rio em tempo normal é saudável, piscoso, navegável e tranquilo. Por fim, o rio em tempo de enchente é agressivo, violento, intolerável com tudo o que estiver a sua frente e as suas margens próximas. Desde crianças aprendemos que há de se recuar das fúrias destruidoras das águas e do fogo. Com elas não se brinca, ensina um provérbio.    

Nossa caravana, constituída por 7 pessoas em 3 camionetes lotadas de donativos, especialmente livros, material didático, roupas e cobertores foi gentilmente recebida, no Centro de Acolhimento, pelo Tenente Pedro, aposentado da Brigada Militar, o qual nos guiou para outros locais onde estavam os desabrigados, bem como para os principais pontos onde as águas causaram danos irreversíveis no município de Cruzeiro do Sul. Os donativos de ordem escolar, como livros infantojuvenis e material didático, ficaram por conta da diretora e professores de uma escola municipal seriamente danificada, pois de tudo só restaram as paredes e o telhado.  Sabíamos que os cenários seriam fora do imaginário comum. Porém, a realidade trágica encontrada parecia um pós-guerra sem o uso de armas. Além estavam, diante dos nossos olhos, os sinais da fúria da natureza. Uma escola, longe e no alto, no meio do caminho de um afluente, parecia um prédio mal-assombrado. Sem portas e janelas. Nada de cadeiras, mesas e escrivaninhas e biblioteca.      

As pessoas atingidas pela fúria do rio Taquari, pareciam, ao mesmo tempo tristes e esperançosas, dizendo que logo tudo isso iria passar que tudo ficaria bem novamente, pois tudo é impermanente. Recuperariam as casas, as coisas perdidas e a alegria por estarem num lugar onde criaram raízes, seus filhos e donde tiraram seus sustentos. E nos perguntaram:

– Sair dali e ir aonde? A culpa é de quem, nos perguntavam.  Respostas não tínhamos a dar. Só ouvimos.  

Almoçamos com um grupo de professores junto à Secretaria Municipal de Educação.  Há um restaurante panorâmico onde se visualiza a cidade de Cruzeiro do Sul, o rio Taquari e as cidades de Lajeado e Estrela.  Vista que deve ser linda à noite e em dias de boa visibilidade. Sentamo-nos em uma das mesas do restaurante vazio. Alguns haviam trazido um lanchinho de casa. Outros aceitaram marmitas prontas a serem distribuídas, mas que haviam sobrado. Nelas havia arroz, feijão, maça e carne de panela. Tudo estava bem temperado e gostoso. A quentinha dava para duas pessoas.  Serviram-me também uma garrafa com água mineral. Tudo era produto de doação e do trabalho de muitos voluntários. E assim matamos a fome do meio-dia. A solidariedade nos marcou profundamente.  

À tarde, guiados gentilmente pelo Tenente Pedro, a caravana rumou às margens do rio Taquari. O cenário deu-nos a impressão de estarmos sozinhos no silêncio de um cemitério de casas, árvores, lixo de todas as espécies, além do cheiro nauseabundo. Estávamos na rua beira rio onde outrora havia comércio, casas de moradia e de veraneio. Que silêncio perturbador! Alguns ex-moradores indicaram onde estiveram suas ex-residências. Nada, além de um piso de banheiro, um muro, ou um teimoso toco. Tudo tão pouco e nada! Lembrei-me da frase inicial do romance Grande Sertão: Veredas, do Guimarães Rosa:

– Nonada!

Na cidade de Cruzeiro do Sul, constituída por descendentes com fortes marcas da colonização alemã, perguntei ao um idoso que circulava pela área:

– O que será feito do que restou? A resposta foi:

– Sei lá! Talvez um parque florestal, um memorial, um aterramento…

Saindo dali, fomos ao Centro de Acolhimento, onde já tínhamos passado. Contaríamos histórias às crianças. Havia uma meia dúzia. Todos com idade em torno de 5 anos. Não havia coordenação. Mesmo assim, conseguimos juntá-las num pequeno círculo ao chão.

Enquanto nos esforçávamos para obtermos a atenção das crianças, duas ficaram bem atentas ao que lhes era narrado. Outras subiram nas costas, outras no colo da contadeira, outro puxava a barba e o cabelo do narrador. Eu, que estava de pé a mostrar livros para crianças, ganhei uma boa mordida na barriga da perna. O menino só não me tirou um naco de carne, pois era muito dura: exatos 70 anos. Mancando, tive que resgatar um Livro de Animação que uma criança havia selecionado, pois julgou que o teria ganho de presente. Estava com seus avós.

Finalizada a sessão de contação de histórias, vi uma colega buscando se livrar de um menino que não saia do seu colo. Essa foi nossa primeira sessão de contação de histórias no Centro de Acolhimento. É mais uma boa história para se escrever e contar nessa vida de professor. Tão simples!  Elas estão em todos os lugares.   

Depois nos dirigimos a outros dois Centros de Acolhimento.  Ambos em clubes cedidos pelas comunidades do interior.  Por ser sábado e se desestressarem, muitos tinham saído para visitar amigos e familiares. Enfim, saíram daqueles ambientes improvisados, sem privacidade e com muita gente desconhecida. No entanto, lá permaneceram alguns casais de idosos, adoentados, sem parentescos. Um outro morador de rua. Tudo muito tétrico!

Nos últimos Centros de Acolhimento das pessoas desabrigadas pelas enchentes também buscamos contar histórias às crianças. Em um deles, em paralelo, havia um torneio de futebol e um grupo de voluntários distribuindo pipocas feitas na hora. Ao final restaram duas ou três crianças para ouvir nossas histórias, pois pipocas feitas na hora, se consome no agora. E para lá se foram as crianças.

Era chegada a hora do retorno da caravana a Passo Fundo, pois o caminho era longo e perigoso na Serra de Pouso Novo.  Estava quase finalizada a Operação Cruzeiro do Sul por conta de uma pequena equipe de confrades e confreiras da Academia Passo-Fundense de Letras. Em nome dos demais, ela exerceu a legítima solidariedade em favor das pessoas atingidas pelas enchentes da serra e da metade sul do RS/2024.

Avaliando a Operação Cruzeiro do Sul, no retorno, discutimos as reais causas das reiteradas enchentes no RS. Há certeza de que as secas, as enchentes, as micro explosões climáticas, os incêndios, os tornados, os tufões, dentre outras tragédias da natureza, são consequências humanas do aquecimento global verificado em vários países – efeito estufa – consequências, da queima dos combustíveis fósseis.  Seria uma simples conversa entre o motorista e o caroneiro no caminho de volta a Passo Fundo. Parece-nos que o Aquecimento Global também é um caminho que tem volta.  Bastam atitudes urgentes de caráter pessoal e universal para combatê-lo.

FOTOS: Divulgação/ arquivo pessoal

Autor: Eládio V. Weschenfelder. Também escreveu e publicou no site “Rios do céu e da terra”: www.neipies.com/rios-do-ceu-e-da-terra/                                                                   

Edição: A. R.

Caminhos da reconstrução

“Sei que nada será como antes, amanhã”

Neste momento em que nós do Rio Grande do Sul vivemos o luto dos infortúnios das enchentes de maio de 24, num dia de Santo Antônio e do Bará, não tem como não se lembrar da canção de Milton Nascimento e Lô Borges:

“nada será como antes, amanhã”.

Nem poderá, pois, a História quando se repete será uma farsa.

A farsa tem que acabar. Arrozeiros não podem se achar donos de baixios que trancam o desaguamento natural da Lagoa dos Patos para o mar.

A farsa não pode persistir. Não se pode ter um Estado com tantos microclimas, imensidões de águas, planícies, planaltos e montanhas para plantar soja e eucaliptos torto a direito.

Não se poderá tolerar um parlamento como o nosso que abaixa a crista para o governador e aprove passar a tesoura nas leis ambientais, como na capital deixa ao deus dará os licenciamentos.

Não se pode deixar que a fúria imobiliária na capital derrube árvores, detone pedreiras no meio de edifícios, construindo arranha-céus, espigões à moda Camboriú, como se aqui fosse Dubai.

Aqui precisamos voltar a ter matas ciliares, recompor as nascentes, proibir que se tire a última gota de água dos arroios para suprir a ganância dos fazendeiros com o seu gotejamento de plantações.

Chegou a hora dos Planos Diretores, com a participação de técnicos e da sociedade civil, para tirar as pessoas de áreas de risco sem jogá-las às periferias sem estrutura.

Não bastasse o drama que vivemos com casas destruídas, com a perda de tudo dentro delas, das memórias que se foram nas águas sujas e turbulentas da enchente, vem os arrozeiros chantagear o governo, para tirar seus lucros à custa do consumidor já tão castigado.

Não podemos aceitar que os defensores do Estado Mínimo com a Federação das Indústrias e da Federação da Agricultura venham pedir bilhões ao governo federal, quando este está presente desde o início no Estado, sendo que Lula criou um Ministério Extraordinário.

Os primeiros recursos que caíram na conta do povo foram os 5.100 reais dados do governo federal

O Pronampe ainda é insuficiente, e a burocracia dos bancos é uma vergonha nacional.

O pagamento como subsídio de dois salários mínimos pelo Governo Federal a cada empregado é uma resposta aos pequenos empresários que pediam três.

O governo federal vai comprar casas, construir outra tantas.

Já o governo local e estadual quer “casas provisórias” com custos que se igualam às permanentes.

O governo do Estado traz um Secretário bolsonarista para “reconstrução do Estado”, e o governo de Porto Alegre chama a empresa Alvarez e Marsal, cuja história é tramar gentrificação e privatização.

Nós da oposição aos governos do Estado e de Porto Alegre, irmanados com os propósitos do governo do Presidente Lula, lutaremos pelo povo, contra as iniquidades dos mandatários locais.

Vamos mover montanhas para termos um meio ambiente equilibrado e socialmente justo.

Proporemos políticas de incentivo à pequena agricultura agroecológica, com existência digna ao produtor rural.

Combateremos o desmatamento, o uso de venenos nas lavouras, denunciando todo e qualquer ataque ao ambiente natural.

Vamos buscar junto aos órgãos federais incentivos à cultura, ao esporte e ao turismo. Já louvando o ato da Ministra da Cultura em apoio ao Rio Grande do Sul.

Queremos um Outra Amanhã, que nada será como antes!

Autor: Adeli Sell, professor, escritor, bacharel em Direito e vereador do PT em Porto Alegre. Também escreveu e publicou no site “60 anos de golpe e eles não mudam!”: https://www.neipies.com/60-anos-do-golpe-e-eles-nao-mudam/

Edição: A. R.

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