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Decepção pronominal

Este é o primeiros texto de Roseméri Lorenz, mestre e doutora em Letras pela UPF- RS. Ela assume que o mesmo é uma brincadeira da professora de português com a própria língua e com as nomenclaturas gramaticais. Bem-vinda ao site e ao time de Convidados: https://www.neipies.com/autores_convidados/

– O que somos eu e você? – um dia perguntei.

– Pronomes! – respondeu-me, com a insensibilidade de um sujeito inexistente.

– Pronomes! – repeti.

A classificação atingiu-me como um objeto direto em meu peito.

EU, pronome pessoal do caso reto. No caso, reto demais. Talvez seja justamente esse o problema.

VOCÊ, pronome de tratamento. Sim, tratamento de deferência. Pelo menos foi desse modo que sempre a tratei: com respeito, consideração, quase idolatria. O pronome VOCÊ provém de VOSSA MERCÊ, forma de tratamento originalmente aplicada a reis e depois estendida a poderosos, que faziam questão de serem assim chamados por seus criados e subalternos, a fim de afagar suas naturais vaidades.  Entretanto, sendo a expressão um tanto longa e de difícil pronúncia nas enfadonhas repetições diárias foi, aos poucos, reduzindo-se para VOSMECÊ, VOSSANCÊ até chegar ao VOCÊ. Fechando esse parêntese etimológico, confesso que, em antiquada vassalagem (servidão até) por diversas vezes, sonhei em dizer-lhe:

– Vossa Mercê me dá a honra dessa contradança?

– Em que século você vive? – certamente indagaria, entre risos e cabeça em abano.

Nunca cheguei à informalidade, à proximidade, à intimidade de um TU.

EU e TU: NÓS tão sonhado (e até orado).

Mal sabia EU que em NÓS cabe bem mais que EU e TU. Assim, chegou ELE, um sujeito indeterminado que, sem constrangimentos, instalou-se entre as duas pessoas de meu imaginário discurso. E foi assim que uma não-pessoa, como o bem definiu Benveniste, conseguiu frustrar minhas pretensões “linguisticamorosas”.

“EU fui literalmente atropelado por ELE”. Quer exemplo mais perfeito de agente da passiva? Sim, ELE tornou-se termo essencial, rebaixando-me a sujeito passivo, um mero termo integrante de minha própria oração não atendida.

TU e ELE em NÓS se ataram. ELE ficou conTIgo, com tudo. EU, contudo, sem TI, sem nada.

Autora: Roseméri Lorenz, mestre e doutora em Letras pela UPF- RS. Atua como professora de Língua Portuguesa e Literatura nos ensinos médio e superior. E-mail: rosemerilorenz1@gmail.com

O cemitério das almas fracassadas

No cemitério das almas fracassadas impera um silêncio, literalmente, sepulcral. Imponentes mausoléus e tumbas com lápides apócrifas, em meio a alamedas acolhedoras, compõem o retrato de uma erma paisagem. Afinal, para que servem os nomes e as duas datas simbólicas de pessoas fracassadas? Quem quer saber delas? Por que fracassaram?

Se, para muitos, essas são respostas que, aparentemente, não interessam; esse não parece ser o caso de Nassim Nicholas Taleb. O famoso matemático libanês (do Levante), consultor financeiro bem-sucedido e escritor de bestsellers, que, em estudos sobre probabilidade e incerteza, dedicou especial atenção ao que ele rotulou de lógica do Cisne Negro, que, não raro, no caso dos Cisnes Negros negativos, condicionam fracassos no mundo dos negócios ou na vida pessoal. É sobre isso que ele tratou no livro “A lógica do Cisne Negro – O impacto do altamente improvável”, de 2007, segunda edição 2010.

Na acepção de Taleb, um evento Cisne Negro é aquele que reúne raridade, impacto extremo e previsibilidade retrospectiva (mas não prospectiva). Entenda-se que, por simetria, um evento altamente esperado, mas que não ocorre, também é um Cisne Negro. Ou seja, a ocorrência do altamente improvável é equivalente a não ocorrência do altamente provável. E por que Taleb optou por Cisne Negro para definir esse tipo de evento? Além de soar poético, simplesmente, justificou ele, até a descoberta da Austrália, as pessoas do Velho Mundo estavam convencidas de que todos os cisnes eram brancos. Essa crença que caiu por terra, quando os colonizadores europeus avistaram o primeiro cisne negro.

A questão central do livro de Taleb é a fragilidade do nosso conhecimento. Resumindo, os Cisnes Negros são eventos quase impossíveis de serem antecipados, mas, que, por inesperados, podem causar impactos enormes.

Os Cisnes Negros vicejam porque, quase sempre, estamos à mercê do inesperado. Focamos no que sabemos e deixamos de lado o que NÃO sabemos. Razão pela qual, a lógica do Cisne Negro é uma boa metáfora, engendrada por Taleb. Desperdiçamos muita atenção às minúcias, em vez de focar no relevante. Pela lógica do Cisne Negro de Taleb, o que NÃO sabemos é muito mais importante do que aquilo que sabemos. Por isso, devemos dar maior atenção ao anticonhecimento ou aquilo que não sabemos.

Ao estilo da antibiblioteca, conceito cunhado por Umberto Eco, ao realçar que uma biblioteca pessoal deve contemplar a maior quantidade possível de livros não lidos, que tratam de coisas que o dono não sabe. Para Eco, na sua biblioteca, os livros lidos eram menos valiosos do que os livros não lidos. Insistimos em reafirmar o nosso conhecimento e não a nossa ignorância. E, assim, ao levar a sério em demasia as coisas que sabemos, somos incapazes de compreender a probabilidade de surpresas, desconsiderando, quase sempre, a possibilidade de excepcionalidades.

No cemitério dos fracassados, ainda que sob lápides apócrifas, repousam pessoas que, comparadas a outras bem-sucedidas, no mundo dos negócios, compartilharam características como formação/habilidade em gestão, empreendedorismo, disposição para correr riscos, cultuadores de redes de relacionamento, otimismo, etc., denotando que, estão naquele Campo Santo, e tudo leva a crer, por mera obra do acaso.

Até pode ser, mas CEOs desastrados, alheios ao inesperado ou acostumados a obter sucesso correndo riscos, sem qualquer preocupação com estratégias de hedging (cobertura de risco), em meio a crises econômicas, podem dar causa à ruina de muitas empresas. Sobre esses, os ghost writers não escreverão livros contando as suas histórias de insucessos. Idem no mausoléu dos adoradores de Giacomo Casanova, o lendário sedutor e pretenso intelectual, cuja sorte, de fazer inveja, para escapar de situações comprometedoras e perigosas, pela chegada inadvertida de um marido traído, travestido de Cisne Negro, pode ter faltado e selado o destino de muitos que descansam naquele jazigo.

As nossas limitações epistêmicas, acrescidas de arrogância e preconceitos, ao nos impedir de discernir que ausência de evidências de risco não é a mesma coisa que evidências de ausência de risco, nos fazem vítimas preferidas dos Cisnes Negros.

Autor: Gilberto Cunha. Também escreveu e publicou no site “Astério, o cego”: www.neipies.com/asterio-o-cego/

Edição: A. R.

O Caso da Vovó Gertrudes   

Vó Gertrudes não olhava para cima. O mundo dela era pra baixo, isto é, muito mais para o inferno do que para o céu. Ela parecia ser O Menino do Dedo Verde, de Maurice Druon, pois onde tocava com a bengala nascia uma nova e linda flor.

 

Escondidinha na janela do sótão, movida pela curiosidade e pela comiseração, a garota Roselinda observava a rotina de uma vovó solitária. Não sabia o nome. Então nominou-a Vovó Gertrudes. Pouco sabia sobre a idosa. É que ela não falava e não acolhia ninguém. No entanto, tinha a companhia dos passarinhos e de um gato sem rabo.

Vovó Gertrudes saia de casa uma vez por dia. Buscava sua comida no asilo próximo de sua modesta cabaninha, que tinha uma porta, uma janela e uma chaminé. À frente uma hortinha de temperos, chás e flores. Curvada e com uma velha bengala de madeira, lá passava grande parte do dia. Parecia a letra U invertida.

Vó Gertrudes não olhava para cima. O mundo dela era pra baixo, isto é, muito mais para o inferno do que para o céu.   Ela parecia ser O Menino do Dedo Verde, de Maurice Druon, pois onde tocava com a bengala nascia uma nova e linda flor. 

A garota Roselinda, observando os movimentos da Vovó, perguntava à mãe:

– Até quando assim desse jeito!? Tão sozinha, franzina e tão plantadeira de flores?!

– Há pessoas especiais de todo tipo, filha!

Quando havia forte ameaça de temporal, Vovó Gertrudes ouvia as saracuras, os grilos e os sabiás. Dependendo dos sinais de temporal, Vó Gertrudes, bem devagarinho, recolhia alguns ramos bentos para jogá-los com sal grosso, para dentro na boca do forno. E, logo a chaminé largava uma fumacinha branca com aquele cheiro típico, que diziam ser do céu. E a fúria da natureza logo se aquietava.

E assim, enquanto Roselinda ia ficando mocinha, observava os ciclos da lua, os movimentos da Terra, o crescimento das plantas, o voo dos pássaros e a formação das nuvens.  Via que a Vó Gertrudes ficava cada vez mais lenta, fraca e curva.

– Parece que a Vó vai sumindo aos poucos, dizia para sua mãe.

– A vida é assim mesma, Fofa! A gente vem ao mundo, vive e vai desaparecendo, tipo a Vó Gertrudes.

– Olha Mãe, há tantas coisas mudando: cidades, ruas, carros, computadores, celulares e pessoas. Será que não tem um jeito de a gente não morrer?

– Fofa! Acabei de ler o livro HOMO DEUS: Uma breve história do amanhã, do Yuval Noah Harari. A obra trata sobre a possibilidade de as ciências irem prolongando a vida da gente assim aos pouquinhos. Aliás, hoje, com o avanço da Medicina e dos fármacos, a vida média dos homens e das mulheres avançou muito! No teu caso, o que importa é que tens muita vida pela frente! Basta vivê-la intensamente e com qualidade. Aliás, noutro dia ouvi, na Rádio Emplastro Vaporup, a frase:

Carpe Diem e Carpe Nox.  Quer dizer aproveita o dia e a noite.

– Ih, Mãe, Vó Gertrudes acaba de cair sobre a bengala. Chama a ambulância, por favor!

Três homens a depositaram sobre uma maca, levando-a ao hospital.  Passada uma hora, a Rádio Emplastro Vaporup anunciou que a Vó Gertrudes tinha falecido de morte natural. Então a mãe e a filha Roselinda oraram pela alma daquela Vó. Algumas lágrimas de sentimento testemunharam o fato.  

– Morte e vida, minha filha!  

– Mãe, eu não quero morrer desse jeito, assim tão repente, sozinha e franzina! A história lembra a sina da Macabea, aquela do livro A Hora da Estrela, de Clarice Lispector.  Parece que a arte imita a vida!

– É, pois é, Fofa!

Autor: Eládio V. Weschenfelder. Também escreveu e publicou no site “Rios do céu e da terra”: www.neipies.com/rios-do-ceu-e-da-terra/

Edição: A. R.

O Menino sem rosto da Rua 59

Resenha do novo livro de Nelceu Alberto Zanatta, O Menino Sem Rosto, que provoca a reflexão sobre a importância de contar e ouvir histórias, desde cedo, para a formação de uma consciência que realmente enxerga, além dos olhos.

Quando Davi entrou no pátio foi assustador.  Estava na porta que dá para os fundos da casa; e sei lá em que casa estávamos.

Mas Davi não subiu a escada e parou junto ao seu canto, em seu primeiro degrau. Tentei sair correndo pela outra porta, achando se tratar de um presságio.  Pedi para sair pelos fundos, por onde todas as pessoas sem rumo saem um dia, mas não tive teve como não olhar. Como não estava a sós, falei a ela:

_Vamos embora daqui pois alguém chegou à porta.

_Mas é só um menino, não deve ter muito a querer.  Damos uma fruta qualquer e ele se irá, ouvi.  O que pode querer um menino em um pátio esquecido de uma casa abandonada?

Então resolvi ficar e o observei de longe, com a eterna desconfiança de um adulto frente a uma criança.

Por que será que os adultos desconfiam?  Eles sabem mentir muito bem, mas crianças ainda não aprenderam. Fica desigual este encontro.

_Não tenha medo de mim senhor, sou apenas um menino, falou. Quanta sabedoria para um garotinho, pensei? 

_O que posso fazer mal, falou. Deve haver uma criança dentro de você, e caso não me aceitares, posso ficar amigo dela somente. Teremos todo o tempo, de todos os dias e anos para que você possa me aceitar.  Por enquanto, posso ir falando com seu menino oculto.

_Como pode falar estas coisas? Alguém ensinou a você tais palavras?

Minha voz sumiu, minha boca secou, minhas pernas e braços, já não as sentia. Mais próximo a mim do que eu mesmo, Davi deu um passo decisivo para que eu não entrasse em desespero.  E, então, aproximou-se, fazendo um pedido.

_Eu não o vejo senhor, apenas o sinto.  Não vejo nada, aliás, apenas ouço. Depois eu penso, depois eu falo.  O que aprendi foi ouvir, ouvir e ouvir.  E depois repetir.  O que eu falo é porque antes de mim, alguém falou.  Mas agora eu cansei! Preciso falar as minhas próprias palavras.

E o Davi se aproximou e pediu:

_Conte uma história pra mim?

Paralisado que estava, com os nervos contorcidos por tantas perguntas a responder, por não ter como não olhar, como não ver, apenas respondi;

_ o que você tem Davi?

É que o Davi não tinha rosto.

A sua cabeça a minha frente, como a de uma escultura que, com os anos, foi perdendo seus traços, o seu rosto era compacto e de uma forma só.  Como um homem que nunca sorriu, nada se via em sua face.

_Mas o que você faz aqui? Nesta casa abandonada?

_É que eu estava andando pela rua e vinha me batendo pelas casas quando ouvi vozes.  E fui entrando aos poucos.  Mas, mas, se esta casa está abandonada porque você mora nela?

_Bom, em não moro aqui e estava somente de passagem, respondi.  É que nós gostamos muito de coisas abandonadas, gostamos demais de coisas sem uso, sem valor algum e vamos nos agarrando a elas como que quem precisa de coisas velhas para manter as novas.

_Não entendi muito bem.  Eu não sei o que é uma coisa nova ou uma coisa velha.  Eu vivo a cada dia sem esperar que eu acorde amanhã. Como eu não vejo, não sei o que é velho e o que é novo.  Mas você pode me contar uma história?  Qualquer delas.  A minha Mãe, quando partiu, disse que eu era para ouvir muito, depois, ler muito, e que depois que eu fizesse tudo isso, aos poucos, começaria a ver.

_E quando a sua Mãe partiu?

_Agora.

Quando eu entrei neste portão ela seguiu. Ela me falou:  filho, entre por este portão porque eu vou seguir em frente.  Mas não sei o que é em frente. Acho que ela não vai muito longe porque nem sabe o que é seguir em frente. Ela não enxerga mais.

Fiquei no meio do caminho, sem avançar em minha fuga, sem atender o seu pedido, sem saber que a saída para o desconhecido, muitas vezes, é apenas ficar.

_Só queria uma história, senhor! Continuava ele.

_Não tenha medo senhor, porque não faria mal a ninguém.  Nem correr eu posso.  Aprendi a sentir cheiros e ver somente vultos a minha frente.  Que mal eu faria?

Tudo o que eu preciso é ouvir uma história.  Porque se eu ouvir eu vou enxergar.   Foi o que minha Mãe falava. Mas ela mesma nunca ouviu qualquer história.  Então não sabia contar.

Cansada de não enxergar, começou a andar e andar até bater neste portão. E eu junto.  Quando ela tropeçava, eu também tropeçava.

E estou andando a dias, sempre seguindo o cheiro de uma mata aqui próxima.  Quando sinto que estou me afastando volto aos poucos para a sua beirada.

_E eu finalmente entendi que mesmo próximo ao lugar em que queremos andar, ali mesmo poderemos nos perder.

_Ouvir! Minha Mãe falava, também é uma forma de enxergar.  Ouça muito meu filho, pois assim você poderá ver um dia.

Então eu saí de casa com este seu lembrete:  ouvir muito, com muita atenção e assim vou começando a ver.

_Mas e a sua Mãe, perguntei!

_Há, a minha Mãe eu a perdi pelo caminho.  Porque ela não enxergava também.  Então nós cansamos um do outro.  Eu até lembro que a sua voz foi se distanciando aos poucos, como que levada pelo vento e, aos poucos, fomos nos perdendo um ao outro.

Ela estará sempre comigo!  Mas cansamos de não ver nada.  Cansamos de ter um ao outro somente pela nossa voz, pois esbarrávamos dentro de casa, o tempo todo, ao dormir e ao acordar.  Um dia, acordei e resolvi partir.  Pois para quem não enxerga, tanto faz ficar ou partir pois na escuridão não há amanhecer.  Somente anoitecer.

_Mas pense bem.  Há muitos rostos por aí.  Você consegue ver alguns agora?

_Se você me contar uma história, acho que sim.

 Pelo menos um pouco. 

Tomei Davi em meus braços e contei a ele uma velha história.   …havia um Reino onde o Rei e sua corte proibiu livros e a sua leitura.  À noite, seus soldados passeavam pela cidade para roubar rostos…E a Vila sem livros, parecia sem vida, com a cor desbotada das cores sem vida dos sonhos que não querem ser revelados…  Assim, estes rostos apenas tinham um corpo que os levava a caminhar, dormir ou acordar, mas sem vida alguma.  Que diferença para o mundo fazem eles?

Aos poucos, Davi abria seus olhos e como um milagre em tempo real, seu véu de pele como que se descobria de seu rosto.

_Há, tem uma luz dentro de cada um.  Já nasce com a pessoa.  É uma luz muito intensa, brilha muito, mas quando o tempo vai passando ela se apaga aos poucos. Ouvindo, lendo, renascemos à luz.

_Olha aquele homem caminhando!  Há algo que brilhe em seu rosto?  Nada, não?  Pois é. Você quer tanto um rosto, mas pode se tornar como ele; sem luz alguma para emitir, sem nenhum raio para alcançar os outros, sem nada a brilhar e sem nada a refletir. Ele caminha para um grande buraco na rua, que, mais dia menos dia, vai engolir seu corpo e o seu rosto.

_Mas eu prefiro qualquer rosto a nenhum, respondeu o menino.

Você me falou que ajudaria e eu não vou mais sair do seu lado, porque a sua voz está me levando para algum lugar. 

_Eu não vou mais abandoná-lo até porque se eu não ajudar você sou eu quem perderá aos poucos o seu rosto.

Até porque nosso rosto é um rastro que Deus deixou sobre a Terra, qualquer coisa que o lembre, um pequeno fiapo divino que nos fala em como seria Deus, de fato.  Nele podemos encontrar as suas digitais. Porque não há rosto igual entre milhões. Mesmo assim, um mundo inteiro está caminhando agora em direção ao nada, porque de seus olhares, nada há o que esperar.

_Quando você tiver o seu rosto, você entenderá o que eu falo; ver uma criança sorrir é de Deus.  Não é daqui.  Ver uma pessoa sorrindo, ver um rosto feliz, nada é daqui.  Só pode ser de outro mundo.  E, ao ouvir muitas histórias, você aprenderá a olhar, certamente.

_Será que os rostos que não sorriem é porque ouviram as histórias erradas, perguntou?

Continua…

(Resenha do novo livro de Nelceu Alberto Zanatta, O Menino Sem Rosto, que provoca a reflexão sobre a importância de contar e ouvir histórias, desde cedo, para a formação de uma consciência que realmente enxerga, além dos olhos.)

Autor: Nelceu Zanatta. Também escreveu e publicou no site “Pedrinho pequeno e sua caminhada em busca de fé”: www.neipies.com/pedrinho-pequeno-e-sua-caminhada-em-busca-de-fe-uma-historia-fascinante-em-livro/

Edição: A. R.

JG: um grande comunicador e amigo do povo

O radialista JG, da rádio Uirapuru de Passo Fundo, fez sua passagem aos 69 anos, neste último dia 26 de agosto de 2024. José S. P. Gomes tornou-se uma marca da comunicação, especialmente pelos microfones da Rádio Uirapuru. Trabalhou também na Rádio Passo Fundo.

Natural da fronteira, chegou à cidade de Passo Fundo nos anos 80 e construiu uma bela história de vida pessoal e profissional nestas plagas. Foram 40 anos junto aos microfones da mesma rádio, a Rádio Uirapuru.

Acompanhamos há mais de 30 anos a trajetória deste querido radialista.  Queremos, por meio desta matéria, render nossa singela homenagem.

Convidamos Saul Spinelli, presidente da Câmara Municipal de Vereadores de Passo Fundo e Régis Leonardo, comunicador da Rádio Uirapuru e colega de trabalho de JG para a escrita de uma mensagem em homenagem a este grande comunicador e amigo do povo de Passo Fundo, RS.

JG, a voz do povo nas ondas da rádio

Meu pai disse uma vez que viver é nos acostumar com as despedidas de quem amamos.

Confesso que tive dificuldade de escrever sobre a passagem do JG. Dificuldades de mais uma vez ter este sentimento de que foi cedo demais e que tinha mais para viver, curtir a família e dar boas risadas.

JG era único e, por isso, especial, e na sua despedida reuniram-se amigos, colegas, autoridades e não podia faltar o povo. Mulheres e homens com os olhos cheios de lágrimas e visivelmente tristes pela partida daquele que, do seu jeito, falava as coisas que o povo queria que falasse.

Eu tenho um misto de tristeza e gratidão. JG fez muito por mim e acreditou sempre na minha boa vontade de lutar pela comunidade, inclusive no dia que, junto com companheiros da Vila, deitei no asfalto pedindo quebra-molas. Me ajudou quando me elogiou na Rádio, mas também quando me chamou a atenção. J era o J, um ser humano intenso nas suas qualidades e fraquezas, assim como todos somos.

Agora se reúne com Julio, Altair, seu Bruno, Dr. Fragomeni e tantos colegas e amigos que nos últimos 50 anos alegraram nossas vidas com a paixão que é o rádio.

Gratidão JG, gratidão pela tua vida!

(Saul Spinelli, jornalista e presidente da Câmara de Vereadores de Passo Fundo)

***

Gratidão, Jota!

A partida do José Sirdon Pointevin Gomes, ou simplesmente JG, deixou uma marca de tristeza profunda as pessoas, que assim como eu, tiveram o privilégio de  conviver com ele durante sua vida. Além do excelente profissional, comunicador da mais alta qualidade, JG consolidou laços de amizade por onde passou. Tinha uma forma de se comunicar com as pessoas, mesmo fora do microfone, que cativava e conquistava.

Era uma presença ativa na minha vida desde a infância. Lembro que formava uma grande equipe de renomados radialistas nos primeiros anos da Rádio Uirapuru, com meu pai Júlio Rosa, Dirne Terezinha, Altair Colussi, Flávio Ferlin, Antonio Missel, Julio Pacheco, entre outros profissionais que consolidaram a Rádio como a de maior audiência da cidade na época.

Convivi minha infância nos corredores Uirapuru e tinha uma admiração especial pelo JG. Posso afirmar que teve grande influência na decisão de me ternar um radialista também. Era algo que parecia natural, afinal, convivi com meu pai e irmãos nos meios de comunicação, mas não foi fácil.

 O tempo passou e depois de alguns anos nos reencontramos aqui na Uirapuru. Eu operador de som no início de carreira e o JG comunicador renomado. Aprendi muito nos 5 anos que trabalhei diariamente com ele, período em que apresentou o extinto programa “Seu Pedido é Um Sucesso”, nas tardes da Uirapuru. Foram anos de muito aprendizado, de conversas e conselhos. JG foi importante demais na minha formação como ser humano e profissional. E assim foi com outros tantos colegas.

 Tudo o que conquistou foi com muita garra, dedicação, e competência. Estar na prateleira dos maiores comunicadores do RS é mérito do seu esforço e luta. Mesmo nos dias mais difíceis de sua enfermidade, encontrou força e entusiasmo. Não vi o Jota triste e desanimado em nenhum momento da minha vida.

 Me incentivou, demonstrou o caminho e me ajudava todos os dias a seguir meu trabalho quando tive que substituí-lo no programa Repórter do Povo, que é o de maior audiência de Passo Fundo. “Vai lá Réginho, tu tem capacidade!”, me disse nos momentos em que nem eu acreditava que era possível.

 Sua presença física ficará na saudade, mas seu carinho, ensinamentos e o homem íntegro que foi nessa passagem pela terra, estão eternizados nos meus sentimentos. Gratidão, Jota!

(Régis Leonardo, comunicador da Rádio Uirapuru, Passo Fundo, RS)

Fotos: Divulgação/ rede social

Edição: A. R.

Canto torto

Esse canto torto de pássaro me toca mais do que qualquer máquina. Mas como explicar isso a quem não ouve, a quem talvez nunca tenha ouvido? A voz dos educadores, uníssona, ecoa no deserto para ouvidos surdos: “Tragam-nos livros, por favor!”

Nesta semana, no Congresso dos professores municipais do CMP SINDICATO, ouvi novamente o velho clamor dos professores, ignorado por nossos governantes. Apesar de alguns projetos bem-intencionados, os recursos continuam a ser desperdiçados em tecnologia, enquanto as verdadeiras necessidades da educação permanecem negligenciadas.

Vivemos uma era de entusiasmo digital, onde as novas tecnologias são vistas como a solução para todos os desafios pedagógicos. Computadores, salas makers e outras inovações são amplamente celebrados, mas os educadores, sem desmerecer essas ferramentas, voltam seu olhar para um horizonte mais humanista.

Durante o congresso, o professor Jaime Giolo, Doutor em História e Filosofia da Educação pela USP, ecoou novamente essa voz que conhecemos tão bem. Uma voz que, ao contrário da dos governantes, sugere outros caminhos.

E quais seriam esses caminhos? Eu poderia dissertar árdua e longamente sobre isso, mas não quero cansar o leitor. Prefiro recorrer às metáforas, que tanto encantam na literatura.

A voz dos educadores, uníssona, ecoa no deserto para ouvidos surdos: “Tragam-nos livros, por favor!”

Livros coloridos, cheios de ilustrações. Livros engraçados, melancólicos. Para crianças e jovens. Livros de terror, de aventuras impossíveis. Romances doces, cheios de beijos. Travessos, que falem de infância, adolescência e suas tormentas. Livros sobre o corpo, sobre a sexualidade. Livros para viajar e para levar em viagens. Livros para meninos, meninas, avós. Livros para todos.

E bibliotecas — uma em cada escola, quem sabe? Para abrigar esses livros e, simbolicamente, resguardar nossas almas. Bibliotecas com almofadas tão coloridas quanto as próprias histórias, onde as crianças possam deitar e rolar, e as professoras também, se quiserem. Estantes de madeira, pufes, tapetes. Mesas de leitura e luminárias que, ao iluminarem as páginas, acendam na mente dos leitores as chamas da literatura.

E já que estamos a pedir, que haja também uma professora — ou, quem sabe, uma bibliotecária — dedicada a esse espaço. Alguém que organize o acervo, promova a leitura.

Pode ser aquela professora cansada, quase se aposentando. Não importa, desde que cuide dos livros com carinho.

Eu poderia escrever um texto técnico, menos poético, explicando por que estamos exaustos de tanta evolução disfarçada de tecnologia. Mas seria tão óbvio que só o governo não vê.

Prefiro o caminho sinuoso. A vida não é reta, e eu também não.

Reto é o pensamento de quem nos governa, guiado por um algoritmo opaco que me assusta.

Enquanto isso, de forma poética e torta, as professoras continuam a clamar, como pássaros cujo canto, ao insinuar-se, revela mais do que qualquer palavra direta.

Esse canto torto de pássaro me toca mais do que qualquer máquina. Mas como explicar isso a quem não ouve, a quem talvez nunca tenha ouvido? Não se pode dissecar um pássaro sem matá-lo.

Resta ao pássaro seguir cantando.

E aos que não escutam, seguir não escutando.

Imagens do Evento IX Congresso dos Professores Municipais de Passo Fundo.

Fotos: CMP SINDICATO/ Divulgação/ Arquivo pessoal

Autor: Aleixo da Rosa. Também escreveu e publicou no site “O curioso caso dos alunos que preferiram os livros”:  www.neipies.com/o-curioso-caso-dos-alunos-que-preferiram-os-livros/

Edição: A. R.

Quando a cultura do tédio toma conta da vida

O excesso de consumo, a barbárie que se materializa de diversas maneiras, o empobrecimento cultural que tomou conta de nossos educandários, a ostentação de futilidades, dentre outras tantas manifestações, são apenas alguns dos traços da cultura do tédio e da violência da positividade que se instaurou nas nossas vidas.

Não faltam estudos que tentam compreender a cultura do nosso tempo. Cada um, grosso modo, procura traçar características gerais ou específicas que possam esclarecer o modo de se comportar ou de viver de uma determinada geração e, dentre os comportamentos, as manifestações de violência. Para tanto, os estudiosos, inicialmente, utilizam metáforas, não conceitos, para caracterizar as descrições dos fenômenos que estão analisando.

O trabalho com metáforas possibilita uma compreensão criativa e simbólica daquilo que estamos lidando. A título de exemplo, poderíamos falar da metáfora de “mal-estar”, de Sigmund Freud, ou do “império do efêmero”, do pensador contemporâneo Gilles Lipovetsky, “medo líquido”, do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, ou, ainda, “violência da negatividade” e violência da positividade, do filósofo coreano Byung-Chul Han.

Em um estudo publicado com o título Formação ética: do tédio ao respeito de si¸ o professor e pesquisador do Instituto de Psicologia da USP, Yves de La Taille, faz uma excelente análise de nosso tempo a partir da expressão “cultura do tédio”. Na compreensão de La Taille (2009, p. 15), a cultura do tédio se traduz em uma “vida pequena”, porque é uma vida sem sentido, sem aprendizagem, sem conhecimento, sem criação, sem projeto, sem fluxo, sem energia, sem potência. La Taille (2009, p. 16) se associa ao grande escritor francês do século XIX, Alfred de Vigny, quando dizia que o tédio é “[…] a grande doença da vida.” Mas o que significa vida no tédio? Em que situações experimentamos o tédio? Por que nosso tempo pode ser caracterizado como cultura do tédio? De que forma a cultura do tédio se traduz na “violência da positividade”?

Há uma relação muito próxima e íntima entre o tédio e o tempo. Tempo no tédio é tempo longo, tempo que não passa, tempo que se alonga além da expectativa. Alguém entediado tem a sensação de que os ponteiros do relógio não passam, que o momento é fatigante, que o dia seguinte ou o próximo mês precisam chegar rápidos, na ilusória esperança de que serão melhores que o momento presente. Para La Taille (2009, p. 16), experimentamos o tédio “[…] quando não temos nada para fazer, ou quando estamos fazendo algo que, para nós, carece de significação.” Penso que seja exatamente em decorrência dessa “carência de significação” que nosso tempo pode ser caracterizado como a “cultura do tédio”. Isso pode soar contraditório, pois, diante de tantos entretenimentos disponíveis, de tantas atividades para nos ocupar, como alguém pode não ter o que fazer?

O problema não reside na falta de ocupação e, sim, na falta de sentido.

“Quem diz minha vida é um tédio”, esclarece La Taille (2009, p. 17), “[…] está afirmando que ela é morna, insípida, vazia, insuportável, longa demais.” Para evitar esse tipo de sensação, muitos buscam ocupar freneticamente seu tempo: lotam sua agenda de atividades, fazem questão de ostentar a plena ocupação de seu tempo, vão às academias, falam ao celular sobre qualquer coisa, verificam incansavelmente seus e-mails a todo instante, navegam exageradamente na internet durante horas, deixam a televisão ligada o tempo todo na esperança de encontrar uma novidade com que possam se distrair. Na avaliação de La Taille (2009, p. 17), “[…] engana-se momentaneamente o tédio, mas não se o vence, e o tempo acaba voltando a parecer melancolicamente longo porque a vida permanece pequena.” Trata-se da presença implacável da “[…] violência da positividade”, caracterizada pelo filósofo coreano Byung-Chul Han (2016) e brevemente apresentada na introdução deste ensaio.

Alguém poderia dizer que esse tipo de análise é exagerada e pouco evidente. Num mundo bombardeado de “felicidade” prometida em cada comercial de televisão, diante de tantas possibilidades de lazer e de consumo, como alguém poderia caracterizar a contemporaneidade como tempo de melancolia ou cultura do tédio? Sentir tédio não seria visto como fraqueza de caráter? Sentir-se infeliz diante de tantas possibilidades não seria visto como incompetência social? Como alguém pode se sentir entediado diante da velocidade estonteante a que somos submetidos todos os dias?

Todos esses questionamentos são legítimos e certamente devem ser considerados. No entanto, é preciso tomar cuidado para não simplificar a leitura dos acontecimentos que diariamente vivenciamos. Identificar a presença da cultura do tédio implica vasculhar o que caracteriza a identidade do homem contemporâneo e de que forma ele sucumbe à “violência da positividade”.

Em sua obra O mal-estar da pós-modernidade, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1998) alerta para as dimensões da incerteza da identidade de palimpsesto que configura o homem pós-moderno. “O mundo pós-moderno”, diz Bauman (1998, p. 32), “[…] está se preparando para a vida sob uma condição de incerteza que é permanente e irredutível.” No que consiste essa incerteza? Quais os fatores que a possibilitam? De que maneira contribui para a instalação da cultura do tédio?

Na análise de Bauman (1998, p. 33-36), muitos fatores poderiam ser indicados como provocadores da incerteza: “[…] a nova desordem do mundo”, provocada pelo fim das divisões bem definidas que marcaram a política dos blocos de poder do século XX; “[…] a desregulamentação universal”, oportunizada pela liberdade concedida ao capital e às finanças à custa de todas as outras liberdades; “[…] o esfacelamento das redes de segurança do estado de bem-estar”, que acabou gerando a desigualdade, a qual não consegue mais se autorregular e se autocorrigir; “[…] a pragmática consumista”, que reduz o outro um mero potencial cliente capaz de adquirir um determinado produto; “a indeterminação e maleabilidade do mundo”, produzida pela persuasão eficaz dos meios de comunicação. Nesse mundo de incerteza, reforça Bauman (1998, p. 36), “[…] tudo pode acontecer e tudo pode ser feito, mas nada pode ser feito uma vez por todas – e o que quer que aconteça chega sem se anunciar e vai-se embora sem aviso.”

A identidade, neste mundo de incerteza, diz Bauman (1998, p. 36), em vez de ser construída de forma gradual e paciente, é feita por “[…] uma série de ‘novos começos’, que se experimentam com formas instantaneamente agrupadas, mas facilmente demolidas, pintadas umas sobre as outras: uma identidade de palimpsesto.” Nesse tipo de identidade, esquecer é mais importante que memorizar; é mais importante que aprender; é condição para realizar contínuas e promissoras adaptações de novas pessoas ou coisas.

Na identidade de palimpsesto, diz Bauman (1998, p. 36-37), “[…] a própria memória é como uma fita de vídeo, sempre pronta a ser apagada a fim de receber novas imagens, e alardeando uma garantia para toda a vida exclusivamente graças a essa admirável perícia de uma incessante auto-obliteração.” Por isso, nessa autoeternizante incerteza, “[…] nenhum emprego é garantido, nenhuma posição é inteiramente segura, nenhuma perícia é de utilidade duradoura, […] carreiras consideradas sedutoras muito frequentemente se revelam vias suicidas.” (Bauman, 1998, p. 35). Como construir projetos pessoais de vida num mundo marcado por essa autoeternizante incerteza? Como pensar sobre o que se fará amanhã se o que caracteriza o tempo presente é “uma série de novos começos”? De que forma saber quem se é, se a cada instante somos forçados a novas adaptações, que obrigam a “esquecer” grande parte daquilo que somos ou sabemos?

La Taille (2009, p. 38) dá um destaque especial ao significado do esquecer como condição para esse processo de contínua adaptação: “[…] esquecer é não dar valor, não se fixar em valores”. Quando valoramos algo, estão presentes duas formas de mediação: a mediação cognitiva e a mediação afetiva. A mediação cognitiva é responsável por perceber e conceber o mundo, ao passo que a mediação afetiva é que nos leva a “apegarmos” ao mundo, ou seja, a nos interessarmos por ele. Sendo os valores investimentos afetivos, ou seja, “[…] mediação afetiva entre o sujeito e o meio natural e social”, quando prevalece o império da incerteza, esquecer torna-se indispensável para “desvalorizar” aquilo a que por um tempo tivemos de nos apegar para lhe dar importância. “Viveríamos, por conseguinte”, diz La Taille (2009, p. 39), “[…] não em um mundo sem valores, pois a afetividade está inevitavelmente presente e atuante, mas sim em um mundo sem valores estáveis, em um mundo de valores que se equivalem e que se revezam.”

Neste mundo sem valores estáveis tudo se torna passageiro, trivial, frívolo, efêmero. Pratica-se o “[…] achatamento de valores” e nega-se a hierarquia de valores, pois é malvista a pessoa que “ousa” dizer que certas expressões culturais são melhores do que outras, ou que algumas carecem de valor. “Assim”, ressalta La Taille (2009, p. 41), “[…] o refletido, o belo, o raro, o pensamento, construções laboriosos da mente humana, acabam se equivalendo ao espontâneo, ao feio, ao clichê, ao trivial, àquilo, portanto, que não nasce com a intenção de perfeição, mas sim de arroubos momentâneos e efêmeros.”

Alguém poderia dizer que deveríamos evitar a hierarquia de valores, pois na história das civilizações, e mesmo no passado recente, o fato de algumas culturas serem consideradas superiores a outras resultou em processos de genocídios, perseguição, barbárie e eliminação de certas culturas. Como não lembrar dos genocídios realizadas pelos europeus quando aportaram na América? Seria insensato apagar da memória a história da escravidão que marcou os processos de colonização da América e da África. As barbáries praticadas no século XX tiveram como pressuposto a hierarquia de valores: a título de exemplo, poderíamos citar as crueldades executadas pelo nazismo em prol da superioridade da “raça ariana”, ou as atrocidades praticadas pelos comunistas em nome de “[…] um ideal de organização social”.

Entretanto, é necessário tomar cuidado para não fazer generalizações apressadas, pois a ausência de hierarquização de valores é muito mais perversa e perigosa que a indicação de certos valores que servirão de indicadores para balizar nossos projetos de vida. Cabe aqui o alerta de La Taille (2009, p. 42) quando diz que “[…] se recusar hierarquia de valores é válido ou prudente em alguns casos, aplicar tal nivelamento para todos os elementos culturais é se privar de balizas para a construção do próprio sentido da vida.”

“Sentido da vida”, “projeto de vida” e busca da felicidade têm sido assuntos recorrentes em nosso tempo. Não que sejam temas completamente novos, pois, se vasculharmos a história do pensamento ocidental, certamente encontraremos inúmeros escritos que versam sobre o assunto.

Filósofos, místicos, poetas e escritores em geral não pouparam o verbo para abordar a felicidade em seus diversos ângulos. Em nosso tempo o assunto também se mostra com insistência de forma diversificada. Se consultarmos um site de busca na internet ou visitarmos uma livraria, certamente não faltarão indicações de muitos escritos sobre a felicidade. Poderíamos discorrer longamente sobre a qualidade técnica e intelectual de todo esse arsenal bibliográfico que está a nossa disposição. Assim como há bons livros que certamente nos ajudariam a discernir sobre o tema, há outros escritos de qualidade duvidosa, que possivelmente mais alienam do que “jogam luzes” para enfrentar a angustiante problemática.

Na avaliação de La Taille (2009, p. 67) são escritos “[…] cujos autores procuram inescrupulosamente ganhar dinheiro e fama a custa dos infelizes.” La Taille está se referindo, de modo específico, aos livros de “autoajuda”, que ajudam apenas a quem escreve, pois, “[…] se houvesse um livro de autoajuda que de fato ajudasse, não seria necessário publicar tantos”. De qualquer forma, não resta dúvida de que o problema da felicidade é uma preocupação contemporânea e de que, se tal interesse faz parte da agenda de hoje, certamente é porque vivemos “[…] em um clima de mal-estar existencial”. Mas o que caracteriza tal mal-estar? Quais são as evidências que possibilitam tal diagnóstico? Que relação existe entre este mal-estar e a cultura do tédio? E por que esse mal-estar poderia ser traduzido em “violência da positividade”?

Na análise de La Taille (2009, p. 67-68, grifo do autor), há dois indícios que retratam o estado insatisfatório com que levamos nossa vida: “[…] a alta incidência da depressão e a alta frequência de suicídios.” Não que esses indícios sejam uma característica exclusiva da contemporaneidade. Em outros tempos tais indícios tinham outros nomes (cansaço de viver, melancolia, tristeza, acídia, desespero, pessimismo, niilismo, náusea, desgosto) e representavam um estado existencial específico.

Apesar de o termo “depressão” ter sido utilizado desde o século XIX, é nos dias atuais que é “[…] mais empregado e muito presente!” Alguns dados destacados por La Taille (2009, p. 68-70) confirmam essa afirmação: conforme a Organização Mundial da Saúde (OMS), há 121 milhões de pessoas diagnosticadas como depressivas, e a depressão é considerada uma das principais causas mundiais de incapacidade para o trabalho; nos Estados Unidos, acredita-se que pelo menos 25 milhões de pessoas (10% da população) tomam ou tomaram algum tipo de antidepressivo; no Brasil, entre 2000 e 2002 houve um aumento de 48% no consumo de antidepressivos por parte de crianças.

Ainda, conforme a OMS, no ano 2000 houve 815 mil suicídios, contra 510 mil mortes ocasionadas por crimes e 310 mil por guerras. Conforme o estudo de dois respeitados sociólogos franceses (Cristian Baudelot e Roger Establet), no conjunto do Planeta o suicídio mata em torno de 100 pessoas por hora, e a taxa de suicídios entre jovens de 14 a 25 anos triplicou na segunda metade do século XX. Apesar de os estudos sociológicos sobre o suicídio e a depressão não explicarem tudo, pois há muitas variações que uma análise mais cuidadosa deveria verificar, La Taille (2009, p. 70) sentencia: “Uma coisa é certa: seja qual forem as diversas causas, tal ato de desespero quase sempre traduz o fato de que a vida perdeu o sentido. […] o suicídio é o infeliz final de um longo processo de perda do sentido.” Talvez poderíamos inferir que a presença da “violência da positividade” se traduz na forma como alguns dão cabo de sua própria vida, mas isso seria tema para um outro ensaio.

Na leitura de La Taille (2009, p. 71), com a qual concordo, há uma íntima ligação entre o estado insatisfatório que provoca a depressão e o suicídio e a cultura do tédio que se instaurou na cultura contemporânea. Em seu escrito Filosofia do tédio, o filósofo norueguês Lars Fr. H. Svendsen (2006) tipifica dois tipos de tédio: o tédio situacional ou superficial e o tédio existencial ou profundo. O primeiro diz respeito a situações passageiras que todos nós, em maior ou menor proporção, enfrentamos no dia a dia; o segundo, a uma maneira de “viver a vida” e está intimamente ligado “à perda de sentido”.

Isso nos faz lembrar uma consideração importante feita por Charles Taylor (1997, p. 33) em seu livro As fontes da construção do self, quando diz que “[…] o problema do sentido da vida está em nossa agenda, por mais que possamos zombar dessa expressão, quer na forma de uma perda ameaçada de sentido, quer porque o encontro do sentido para nossa vida é o objeto de uma busca.”

Segundo Taylor (1997, p. 34), o problema do sentido da vida não se colocava para os pré-modernos, pois eles tinham convicção de que havia um sentido da vida e o desafio se limitava a encontrar o caminho certo para a sua execução. De forma diferente, nós nos defrontamos com “a falta de sentido”, com o medo “[…] de um vazio aterrorizante, com uma espécie de vertigem, ou mesmo uma fratura do nosso mundo e do nosso corpo-espaço.” É a presença marcante da “violência da positividade” que se faz sentir no vazio existencial. É por isso que o medo do vazio, ou o tédio existencial, é decorrente da carência de sentido e “[…] encontrar um sentido para a vida depende de construir expressões significativas adequadas.” (Taylor, 1997, p. 33).

Vencer a cultura do tédio pode se apresentar como uma alternativa confiável para superar o conjunto de problemas que assolam nossa contemporaneidade, inclusive da violência escolar, da violência da positividade e das violências invisíveis que tomam conta do cotidiano.

O excesso de consumo, a barbárie que se materializa de diversas maneiras, o empobrecimento cultural que tomou conta de nossos educandários, a ostentação de futilidades, dentre outras tantas manifestações, são apenas alguns dos traços da cultura do tédio e da violência da positividade que se instaurou nas nossas vidas.

La Taille sugere que uma das formas de superar a cultura do tédio ocorre pela instauração da cultura do sentido. Isso será tema da próxima coluna.

Para os que desejarem ter acesso ampliado das reflexões deste texto, podem acessar o artigo “Violência da Positividade e Educação: da cultura do tédio à promoção da cultura do sentido”, publicado na qualificada Revista Roteiro da Unoec/Joaçaba/SC. Segue o link de acesso:

https://www.researchgate.net/publication/327334303_Violencia_da_positividade_e_educacao_da_cultura_do_tedio_a_promocao_da_cultura_do_sentido

Referências:

BAUMAN, Z. O mal-estar da pós-modernidade.Tradução Mauro Gama e Cláudia Martinelli Gama. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.

HAN, Byung-Chul. Topología de la violencia. Barcelona: Herder, 2016.

LA TAILLE, Y. de. Formação ética: do tédio ao respeito de si. Porto Alegre: Artmed, 2009.

SVENDSEN, Lars. Filosofia do Tédio. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2006.

TAYLOR, C. As fontes do self:a construção da identidade moderna. Tradução Adil Ubirajara Sobral e Dinah de Abreu Azevedo. São Paulo: Loyola, 1997.

Autor: Altair Alberto Fávero – altairfavero@gmail.comProfessor e Pesquisador do Mestrado e Doutorado em Educação (UPF. Escreveu e publicou no site “Educar para humanizar e resistir à racionalidade neoliberal”: www.neipies.com/educar-para-humanizar-e-resistir-a-racionalidade-neoliberal/

Edição: A. R.

As Olimpíadas e a importância da Educação Física escolar

Impedimos que nossos meninos e meninas, adolescentes descubram e desenvolvam seus talentos e aprendam o gosto da atividade física para seu prazer, tempo livre e saúde. Vem aí as paraolimpíadas e vamos ver brilhar quem conseguiu inclusão escolar e na sociedade!

Ninguém tem dúvidas de que o resultado numérico das medalhas nas Olimpíadas mostrando Estados Unidos e China na liderança corresponde ao poder econômico e político mundial, mas também da decisão política de valorizar o esporte desde a infância.

Mas as vitórias femininas brasileiras do ouro na Ginástica, no Judô e no Vôlei de Praia, nossa garra e desempenho nos esportes, coletivo ou individual, mostram a nossa potência. Em especial porque não conseguimos manter políticas continuadas de formação desde a infância na rede escolar, com estruturas descentralizadas de centros de esportes em cada modalidade, jogos escolares, campeonatos estudantis entre cidades, intercâmbios internacionais, bolsas de incentivo de atletas, professores e técnicos, etc.

Ao contrário, o básico da formação e descoberta da potencialidade de atletas de alto nível – a Educação Física Escolar – vem sendo desprestigiada e desvalorizada de todas as formas. Desde sua participação no currículo escolar às condições materiais para desenvolver as aulas e práticas nas escolas e ainda pela falta de professores e professoras.

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) estabelece que a Educação Física, integrada à proposta pedagógica da escola, é componente curricular obrigatório da Educação Básica. No entanto, a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) em vigor, permitiu que no Ensino Médio as escolas oferecessem o componente curricular da Educação Física como itinerário formativo à escolha dos alunos, assim como de outros componentes curriculares, com exceção da Língua Portuguesa e Matemática, que são os únicos obrigatórios.

Aqui no Rio Grande do Sul, no Ensino Fundamental são ofertados dois períodos por semana e, no Ensino Médio, apenas um. No ensino noturno, pasmem, a Educação Física é prevista à distância! 

Além da baixa oferta, o Monitoramento das necessidades de obras escolares na rede estadual e de recursos humanos da Comissão de Educação da Assembleia Legislativa, identifica em 2023 e em 2024, a grande precariedade das quadras esportivas, quando existem, demanda de coberturas e ginásios, de equipamentos e de professores com a Educação Física só ficando atrás da Matemática!

Na realidade, em grande medida, temos impedido nossos meninos e meninas, adolescentes e jovens de descobrirem e desenvolverem seus talentos e de aprenderem o gosto da atividade física para seu prazer, tempo livre e saúde. Vem aí as paraolimpíadas e vamos ver brilhar quem conseguiu inclusão escolar e na sociedade!

Autora: Sofia Cavedon. Também escreveu e publicou no site “Que se abram as bibliotecas”: www.neipies.com/que-se-abram-as-bibliotecas/

Edição: A. R.

De empreendedores e falhas

Empreendedorismo é o nome com que o mercado diz às pessoas “Olha como fazes, conserte-te sozinho, do Estado não espere nada”, é a farsa de uma atividade econômica autônoma que encoraja para uma economia individual de voo curto no final do qual a frustração espreita.

O empreendedorismo pegou como a varíola. Surpreende-se o número de pessoas que ‘tem’ um empreendedorismo que muitas vezes está ligado a comida de plástico, mas em versão ‘gourmet’.

Em outros casos, são pequenos trabalhos em crochê, brinquedos para animais de estimação, velas ou sabonetes artesanais; nos bairros menos favorecidos fazem pão e outros panificados. Há de tudo, mas tudo para uma economia que não resulta das necessidades de quem consome, mas das de quem empreende, pequeno detalhe.

São empreendimentos que, na maioria das vezes, se esgotam em um público de família e amigos que compram para dar uma mão e que rapidamente deixam de consumir.

A necessidade, juntamente com a ideia de que empreender é fácil, algo como uma espécie de vontade que dispensa a viabilidade real do empreendido, está na base da frustração de pessoas que querem “salvar-se” sem ter as ferramentas básicas de um negócio onde é preciso ter habilidades, conhecimentos e competências específicas e capacidade de se autorganizar, é preciso conhecer o mercado mesmo que este seja modesto.

Trate-se de uma ilusão, a de uma economia que coloca a tônica no esforço individual, que frustra a massa de empresários que quiseram mas não souberam.

Empreendedorismo é o nome com que o mercado diz às pessoas “Olha como fazes, conserte-te sozinho, do Estado não espere nada”, é a farsa de uma atividade econômica autônoma que encoraja para uma economia individual de voo curto no final do qual a frustração espreita.

Autor: Eduardo Corbo Zabatel. Ensayista, Psicólogo, Profesor de Historia, Magist en Ciencias Sociales. Mora em Buenos Ayres, Argentina. Também escreveu e publicou no site “Precisamos nos ocupar em desconstruir a estupidez”: www.neipies.com/temos-que-nos-ocupar-em-desconstruir-a-estupidez/

 Edição: A. R.

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