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Ateísta por opção

Sou ateu por acreditar que este mundo terrivelmente triste,
somente será belo quando a humanidade, sem nenhuma culpa
ou medo do “pecado”, assumir sua responsabilidade histórica com
a vida enquanto agente social materializado in loco e não entregar
nosso destino nas mãos de um ser onipresente que deve fazer
por nós aquilo que nossa covardia nos impede de fazer.

 

Antes de prosseguir, deixo claro meu respeito as nossas idiossincrasias. Sou ateu convicto e praticante. Tenho motivos racionais para, feita a depuração, ter conseguido superar lenda cultural-histórica-milenar criada pelo homo sapiens objetivando aliená-lo materialmente, espiritualmente e socialmente. Sou ateu por ser adulto, militante social e, sobretudo, historiador.

Penso que a ideia subjetiva de existir um ser onipresente, onipotente, onisciente é uma construção ideológica a – científica, consciente, radical, danosa, construída e sustentada tradicionalmente pelo homem e dissociada da realidade material objetiva.

Uma ideologia parida pelo fracasso da humanidade em compreender sua própria responsabilidade histórica enquanto agente social materializado nas formas de sociedades existentes em antanho e contemporânea.

Um instrumento acomodativo das forças sociais negador da nossa responsabilidade com o devir histórico. Limitador da ação prática individual e coletiva. Haxixe ilusório impositivo pela ideologia secular teocrática de obediência servil do homo sapiens a um ente superior que ama a humanidade, mas insiste em mantê-la na dor, sofrimento, tristeza, miséria carnal e espiritual.

Alimenta-se da aceitação passiva e inquestionável do dogma teocrático. Assassina violentamente o pensamento crítico. Ideologia criminosa. Tanto que obriga o senso comum a acreditar e defender, de forma ignorante e infantil, a parição de mulher virgem e a existência de uma cobra falante.

Nega que o homem tem o dever e a obrigação de lutar pela sua liberdade plena, individual e coletiva. Orienta-o a submissão e rendição em vida. Lança-o num mundo culposo cercado de pecados podadores do prazer humano. Impõe libertação somente a partir da aceitação da culpabilidade e conseqüente penitência corretora do “pecado” cometido.

É uma ideologia Intolerante e, sobretudo, ignorante. Não argumenta. Reproduz ipsis litteris o conteúdo existente no best seller orientador considerado sagrado. A humanidade só será plenamente feliz através da revelação.

A Revelação só é possível após desmaterialização terrena. No julgamento final ele, o onipresente decidirá se determinado ser viverá num paraíso sem injustiças sociais ou não. Para passar a eternidade ouvindo monótonos seres angelicais tocando harpas irritantes deve ter, em vida, agido de acordo com os lendários ensinamentos divinos.

Do contrário, se confrontar a ordem social vigente, se desenvolveu racionalidade crítica, se questionar dogmas eclesiásticos e, sobretudo, for ativista social praticante e ateu sofrerá ad infinitum no inferno.

Sou ateu por acreditar que tal construção ideológica ininteligível mata o homem em vida. Sou ateu por ter convicção de que o homem, somente ele, livre de ideias infantis e ingênuas, através da ação prática pode construir um mundo mais feliz, livre, pleno, fraterno, justo, solidário, coletivo, respeitoso, sem miséria, tristeza ou dor nesta vida e não além-vida.

Sou ateu por ser lutador libertário. Sou ateu por acreditar que o opressor não é invisível e está materializado entre nós. Somente nos oprime por encontrar entre os oprimidos defensores da sua política opressora.

Sou ateu por acreditar que o libertário também não é invisível e não dependemos dele para viver a vida na sua plenitude.

Sou ateu por ter consciência que a única forma de melhorar a minha qualidade de vida e de meus semelhantes é combatendo ativamente as políticas dos opressores (banqueiros, latifundiários, grandes empresários) e suas ramificações atuantes (empreiteiros, mineradores, madeireiros, indústria da pesca predatória, petrolífera…) porque são destruidoras do planeta e das esperanças do povo.

Sou ateu por acreditar que este mundo terrivelmente triste, somente será belo quando a humanidade, sem nenhuma culpa ou medo do “pecado”, assumir sua responsabilidade histórica com a vida enquanto agente social materializado in loco e não entregar nosso destino nas mãos de um ser onipresente que deve fazer por nós aquilo que nossa covardia nos impede de fazer.

 

“Não é seu papel julgar as pessoas. Só teremos paz no mundo quando aprendermos a respeitar as convicções dos outros. A cada um será dado conforme seus atos, não conforme suas crenças”. (jovem Guilherme Oss, em vídeo Ateísmo e liberdade de crença).

 

Os jornalistas fofos e Lula

O fofo citará todos os grandes líderes,
para concluir ao final que Lula é Lula e
que não se brinca com a História.
Lula não poderia, segundo o fofo,
tentar se comparar a um Getúlio.

 

Aguardem os escritos fofos dos jornalistas fofos, se Lula for mesmo preso. Os jornalistas fofos gostam de fazer firulas com o passado para trazer suas reflexões para o presente. O fofo adora líderes de massa, mas só os da Wikipédia.

O fofo é um exagerado e, para erguer sua tese, vai citar os grandões, Zapata, Mandela, Luther King e até Sandino. Se estiver num dia inspirado, é capaz até que cite Lênin. O fofo não teme citar líderes históricos do povo, porque ele os folcloriza como se fossem curiosidades.

E aí ele vai dizer: mas com Lula não é bem assim. Lula não é um Simon Bolívar, tampouco um Perón e muito menos Jesus Cristo. O jornalista fofo, nas suas muitas variações, adora citar Jesus Cristo.

O fofo citará todos eles, para concluir ao final que Lula é Lula e que não se brinca com a História. Lula não poderia, segundo o fofo, tentar se comparar a um Getúlio.

O fofo fará volteios, induzirá muita gente ao choro, porque ele dará a entender que está arrasado com o drama de Lula, e no fim fará o arremate. Que Lula se submeta ao seu martírio, como todos os líderes de massa, porque assim caminha a humanidade (os fofos gostam dessa frase).

O fofo revelará, ao final do texto, que está triste, porque gostava muito de Lula e que sempre votou no PT, e que foi comunista na infância, mas que agora a situação é outra. A justiça é para todos, dirá o fofo, citando uma frase original de seu ídolo Sergio Moro.

O fofo irá comover meio mundo com sua ladainha, mas não conseguirá aplacar as inquietações da própria consciência.

Os jornalistas fofos sabem o que são e que papel cumprem no jornalismo.

Em outro artigo publicado no site, Moisés Mendes fala dos seus colegas jornalistas assim: “Jornalista incomodado com a crítica, por achar que isso o fragiliza, não pode ser jornalista. Jornalista que se nega a aceitar a avaliação do trabalho da imprensa é um corporativista. É alguém que, sob o pretexto de não incomodar colegas, se omite em relação ao exame da própria atividade.

O jornalismo que ataca e mia quando é atacado

 

Cristiane B., 44 anos, corrupta e degenerada

Grande maioria dos nossos políticos (as) eleitos,
em todas as esferas de poder (Planalto, Congresso, Palácios,
Assembleias, Prefeituras e Câmaras de Vereadores) se autoproclamam
seres diferentes, superiores e intocáveis. Não são como os demais
membros da sociedade brasileira. Não é á toa que
transformaram a corrupção em algo banal.

 

O escárnio da deputada federal Cristiane Brasil [PTB], indicada ao Ministério do Trabalho pelo seu degenerado pai e bancado, ao menos até o momento, pelo corrupto governo Temer, é um fiel retrato do covil congressual brasileiro. No mínimo uns 70% dos congressistas são do naipe da eventual futura Ministra. Mas nem todos escancaram sua essência como ela fez no vídeo.

O surpreendente não está localizado na perfidez do vídeo. Grande maioria dos nossos políticos (as) eleitos, em todas as esferas de poder (Planalto, Congresso, Palácios, Assembleias, Prefeituras e Câmaras de Vereadores) se autoproclamam seres diferentes, superiores e intocáveis. Não são como os demais membros da sociedade brasileira. Não é á toa que transformaram a corrupção em algo banal.

O fato da deputada federal Cristiane Brasil elaborar um vídeo com forma e conteúdo Dionisíaco em sua defesa não é, definitivamente, determinante para nossa indignação coletiva. Não foram, segundo eles (as), eleitos para respeitar a vontade do eleitorado.

 

Líder do governo Temer Darcísio Perondi diz que é impensável e impraticável um juiz decidir sobre quem o governo quer nomear ou não como seu ministro. Confira na reportagem.

Veja mais.

 

O importante à corja política encastelada na praça dos três podres poderes é garantir seus interesses, privilégios e manter sua extravagante luxúria. Para eles [as] o povo é só um detalhe.

Enquanto nossos governantes e representantes parlamentares, de cima a baixo, não nos respeitarem, temos o direito de defender a desobediência civil. Não reconhecemos aquele canalha como presidente, não reconhecemos aquele congresso de mafiosos como nossos representantes e não reconheceremos a Cristiane B. como ministra. Este motivo é determinante para nossa indignação coletiva.

A beleza dos versos de Maiakovsky, encharcado de dor e esperança, no poema em homenagem à perda, meses antes, de seu amigo Serguei Iessienin, cabe como uma luva a realidade política brasileira: “Por enquanto, há escória de sobra. O tempo é escasso, mãos à obra. Primeiro, é preciso transformar a vida, para cantá-la em seguida. Para o júbilo o planeta está imaturo. É preciso arrancar alegria ao futuro”.

E iremos arrancar, organizados, mobilizados e na luta, com as nossas mãos, alegria ao nosso futuro. Fora Temer e sua corja de ministros. Fora aquela pacotilha congressual. Vamos à luta!

Democracia, uma escolha civilizatória?

Afinal, ainda não respondemos as perguntas: o que somos?
Por que somos? Nosso produto atual é o caos, a dúvida sacralizada
e a confusão derivada. O espírito democrático e as soluções
democráticas passam por uma elevada responsabilidade e
maturidade psicológica para atuar e equalizar a realidade da
existência humana, como hóspedes responsáveis
sobre este planeta.

 

Tenho me perguntado muitas vezes sobre o impacto do termo democracia na minha psicologia em contínua humanização.

A primeira abertura semântica emotiva que acontece em mim é ambigüidade, superficialidade. No raso dos primeiros pensamentos me vem a primeira associação, não vem como confirmação, mas como questionamento: Somos todos iguais?

A democracia como entendida pelo senso comum é verdadeira em significado e sentido? Ou, devido a nossa imaturidade psicológica e moral usamos o termo para substituir a responsabilidade de construir a diversidade única em cada um de nós com autonomia e desejamos democracia compensatória?

“Somos todos iguais”, sim! Somos humanos em primeira instância e isso nos iguala, somos vida desejada pela vida também em primeira instância. Mas, desse ponto em diante vem o comprometimento, a responsabilidade existencial, significa que cada um de nós, na medida que faz existência consciente, se diferencia. Quando fazemos a existência como história, nos diferenciamos. E isso é belo e bom!

 

Música Diversidade – Lenine.

Onde está o ponto de conflito filosófico psicológico desse aparente contraditório: ser igual como humanos e ser diversos responsáveis no auto-pôr-se existencial na construção da democracia real?

A natureza não conhece a democracia, como diz Antonio Meneghetti: “A vida não pensa, a vida faz”, e, nesse fazer dispõe projetos únicos, sementes de toda espécie, em coerência absoluta em si e por si. A vida quando faz não pergunta se é justo, é proporção pura a si mesma.

A vida não ama mais a um ou a outro, a vida faz o belo de cada ser pelo belo proporcional de si e em si, ali cada um de nós é o que é, perfeito. Ponto e basta, dispõe o potencial seminal de um real ou do real para que floresça, aconteça e faça história em conformidade com a própria semente que é.

Do primeiro respiro em diante, nasce a grande responsabilidade humana de autoprodução de si próprio. Na medida em que avançamos na autoprodução de nós próprios, a vida acontece desse ou daquele modo, personaliza, nos tornamos pessoas. No erro a dor, na realização a glória.

Essa autoprodução que faz história responsável em cada pessoa parece tão difícil ao ser humano que a certo ponto beira a algo trágico.

No âmago desta autoprodução o humano deveria experimentar vitória, aquela que escorre reforçando a ação com prazer e inteligência e o coloca no seu mais ser com sentido de realização. Por ser existencial, o erro não é de natureza, é um erro técnico conduzido pelas ficções fantasiosas sobre a vida e sobre nós próprios.

Desta dificuldade, a certa medida trágica, o humano enquanto existente, impedido por qualquer circunstância de chegar a pleno, faz do erro o modelo de civilização, faz da dificuldade o modelo de autoprodução também no social, perdido no caos das oportunidades perdidas ou negadas, na preguiça moral de ser virtuoso, constrói o caos e se torna um desordenado da natureza, passa a destruí-la ou subvertê-la até que não se reconheça mais, desumaniza.

Cada um de nós conhece a psicologia desordenada que comporta a infelicidade, a injustiça, o medo, a inveja, a dor, a mágoa, o revide, o estresse, a dúvida neurótica, etc.

Desordenada porque sentimos que não deveria estar ali, sentimos como se fosse fora da ordem do ser realizado.

A sociedade, e não poderia ser diferente, é o espelho do indivíduo desordenado da ordem do ser, esquizofrênico existencial, quando remói suas culpas, num giro asfixiante da realidade maculada pela preguiça de autoproduzir a pleno a si próprio na técnica eficiente da própria função psicológica.

A todos nós foi dado a intencionalidade dos heróis, sim, nosso ser é heróico. Somos heróis rumo à vitória, mas nesse heroísmo atuado sempre experimentamos a saga de prometeu e o fogo dos deuses.

Se, persistimos e somos sérios, ao final vencemos e recolhemos o fogo como vitória humana e humanizada na inteligência da vida. Se, erramos e somos preguiçosos, todos os dias nosso fígado será destruído e precisará regenerar-se do princípio, de dor em dor, até humanizar-se no fogo dos deuses, a liberdade.

O que faz o humano com esta trágica saga tantas vezes mal conduzida da sua humanidade?

Projeta na construção social toda a sua tragédia pessoal como se modelo de natureza fosse. Na realidade projeta e reproduz o modelo distorcido da semente inicial que não soube levar a termo. A criatura contra o Criador, contra a sua natureza, sem ao menos ter a mínima noção de como ela seja verdadeiramente, projeta na sociedade e constrói mundos especulares de deflexão distorcida do real que verdadeiramente é.

O modelo da sua deformada psicologia pessoal se somatiza no social, comporta os mesmos erros psicotécnicos de percurso que o tornaram tão reativo e fora do bem que é. Comete erros psicotécnicos como resultado, também, quando constrói o social; receita perfeita adulterada, comida ruim.

Aquilo que o humano experimentou como impedimento e não se responsabilizou em solucionar em si, se transforma na distorção de sentido de tudo aquilo que é seu infinito possível, vira o impossível almejado, atua ficção no bem e no mal.

Com tudo adulterado e exacerbado no negativo semântico dos verbos ser e fazer, paralisa a civilização em resistência ao outro, na mesma proporção da resistência que tem ao bem de si próprio; se eu não posso, o outro também não pode.

Da contradição nasce o outro como “inimigo meu”, o sabotador. Insemina o mal em tudo que possa romper esse circuito vicioso. Trabalha contra a natureza em revide a uma injustiça que pensa ter sofrido, briga com Deus, antes de rever a si próprio. Nunca se responsabiliza por resolvê-la com honestidade intelectual. Aceita que é débil e promove a debilidade de modo exemplar no ambiente que habita. Nunca rompe a fronteira da preguiça e do medo para rever a si próprio desde o princípio para reestabelecer o critério de natureza que lhe permite conformidade e reciprocidade no todo, como humano cosmoteândrico.

Quando o termo democracia foi criado tinha um significado, uma forma e uma aplicação, mas na sua máxima visava o bem comum. De lá para cá, com a humanidade cada vez mais esvaziada do bem comum, na lógica do “O homem é o lobo do homem” e essa é a única natureza sobre a qual ele aceita discorrer e confirmar atualmente, a vida social entra na lógica da política do lobo, vem a democracia moderna.

Democracia como exigência política, econômica, sanitária, etc. como escopo aparente ao bem comum, que pretende abarcar todos os problemas que afligem a comunidade humana, perfeita em tese, imperfeita e corroída por uma psicologia muito distanciada da sanidade ao bem comum, mesclada de toda sorte de desonestidades e imaturidades de humanos não responsabilizados diante de si próprios e nem diante da própria cultura humanística que trazem como semente em sentido psicológico espiritual.

Não conseguimos ainda fazer passagem da democracia biológica para a democracia psíquica de elevada racionalidade ontológica sobre o bem que somos. Afinal ainda não respondemos as perguntas: o que somos? Por que somos? Nosso produto atual é o caos, a dúvida sacralizada e a confusão derivada.

A humanidade segue em busca da democracia material, da igualdade de oportunidades como modelo, da crítica sobre aqueles que honestamente enfrentam suas ambições e se dispõe como líderes no seu ser e fazer mais porque chegaram ao mais, da injustiça como bandeira deformada da incompetência frente às proporções e soluções que precisam ser tomadas.

A democracia virou cabo de guerra econômica, política, social no vazio de interesses comuns, virou uma distorção de princípio onde os mais espertos agem como piratas do bem público em ambições fora de propósito. Essa é uma democracia territorial de psicologia duvidosa, uma democracia conduzida e concebida por modelos psicológicos que não contemplam a maturidade e nem a sanidade das relações humanas.

 

Defenda a Democracia. Ela é civilizatória, ela é progressista, ela é pacificadora, ela é de todos e para todos!

A democracia verdadeira deve nascer no coração do ser humano que se responsabiliza por fazer a sua parte segundo a sua natureza e segundo a autoprodução virtuosa de si próprio.

A democracia não pode ser feita por pessoas que não levaram a sério a construção de si próprias e projetam suas deficiências e desonestidades na sociedade como forma de alienação e corrupção de si no bem comum. Aqui, estou falando de virtudes democráticas, e não de currículo acadêmico ou bancário para exercer o “poder democrático” nos tantos jogos e tantos tabuleiros pré impostados na ambição distorcida daqueles que esqueceram o que é bem comum e só democratizam a perda aos outros, na subversão do verdadeiro espírito democrático.

O espírito democrático e as soluções democráticas passam por uma elevada responsabilidade e maturidade psicológica para atuar e equalizar a realidade da existência humana, como hóspedes responsáveis sobre este planeta.

Sim, somos hóspedes desse planeta maravilhoso e devemos honrá-lo, honrando a nós próprios. Se a ideologia favorável passa pelo conceito e pela palavra democracia, ótimo. O fato é que não importa a palavra de ordem e de passagem, importa o espírito humano que ela encarna e atua.

Ética e Ecologia desafios do século XXI de Leonardo Boff. Um vídeo de Adriana Miranda.

Afinar o conceito de democracia para escolhê-lo como guia virtuoso é, para mim, uma questão emergente e ineliminável, porque se aprendermos o espírito que ela encarna para o bem comum, gradativamente nos tornaremos verdadeiramente democráticos. Não precisaremos mais do termo como bandeira, teremos o termo como coragem, como uma força que vem do coração que pulsa pela realização da humanidade no um que nos diferencia e nos iguala no bem comum.

Antes do sistema se tornar democrático, precisamos nós, sermos democráticos, no mais alto patamar da nossa responsabilidade humana, humanizando-nos ao bem comum!

A única rebeldia cabível na democracia é aquela de tornar ao belo, sim, porque somos capazes de autoprodução do belo e do bem de nós próprios, como projetos espirituais perfeitos da vida que não é democrática, mas, nos projetou como democracia possível no bem comum do espírito humano, humanizado e prometeico.

Os poderes da fé e da oração operam milagres

Talvez aí resida o verdadeiro milagre:
conectar-se com Deus.
Estar com ele para que ele esteja com a gente.
Viver com ele para que ele viva com a gente.
Conversar com ele para que ele converse com a gente.

 

 

Quando chegamos aos quarenta anos, elaboramos ideias mais consistentes que passam a nos orientar na vida adulta. Estas ideias são os conceitos que vamos sedimentando acerca da existência, do sentido da vida e do sentido do mundo. Aconteceu comigo quando me deparei com a palavra e o conceito “milagre”.

Sou um homem de fé, cristão, educado na doutrina Católica Apostólica Romana. Tenho conhecimentos de várias e muitas tradições religiosas e também de filosofias como ateísmo e agnosticismo porque sou professor de Ensino Religioso em escolas públicas. Estes conhecimentos nunca abalaram a minha fé, mas, antes, pelo contrário, confirmaram ainda mais minhas crenças. Nunca acreditei cegamente em milagres, mas sempre achei que poderiam existir entre a gente, a partir da fé de cada pessoa.

Um dia, ao ouvir uma homilia de um religioso, num canal de televisão, descobri o conhecimento que precisava para um amplo entendimento de milagre.

O religioso dizia: “se você tem algum problema, alguma situação difícil na qual esteja passando, creia em Deus. Não peça a solução para o seu problema, mas tenha fé. Não queira impor a Deus a sua vontade. Deus sabe o que se passa contigo e, se você tiver fé, ele saberá te ajudar naquilo que você precisa. Este é o verdadeiro milagre”.

Desde então, passei a me “perturbar” com o assunto e por isso decidi escrever, em forma de reflexão.

Vejo que a maioria dos cristãos acredita nos milagres, assim como eu. No entanto, tem uma ideia de milagre diferente desta que relatei acima.

A maioria dos cristãos acredita no poder mágico e extraordinário que vem do poder de Deus sobre a nossa frágil condição humana. Nesta perspectiva, o milagre sempre é um fenômeno externo à vida da gente. A gente pede, implora e se Deus não atende, a gente xinga, a gente esbraveja Deus porque Ele não nos atendeu. Parece que o milagre é só de Deus e a gente fica na passividade de ser apenas seu beneficiário. Isso, talvez, explique porque há tanta gente que está brigada com Deus.

Eu mudei meu conceito de milagre, a partir da fala do religioso. Passei a entender que milagres existem todos os dias, para aqueles que têm fé. Para aqueles que acreditam no poder de sua fé, sem a exigência de ser atendido naquilo que eles imaginam ser a solução dos seus problemas.

 

Oração para ter força e coragem.

Mahatma Gandhi, líder religioso hinduísta, em texto “Poder da Oração” afirma que ele simplesmente orava, mas um dia percebeu que se tornara um homem de fé. Percebeu que nada seria sem a força de Deus que agia nele. Disse ainda que orar ou rezar, não é pedir, mas sim, estar com Deus.

Talvez aí resida o verdadeiro milagre: conectar-se com Deus. Estar com ele para que ele esteja com a gente. Viver com ele para que ele viva com a gente. Conversar com ele para que ele converse com a gente.

Não tem problema a gente mudar de ideia. “O mais triste é não ter ideias para mudar”, como dizia Barão do Itararé. Antes tarde que mais tarde, sejamos capazes de rever os conceitos fundantes de nossa vida e de nossa existência. Cada dia é uma oportunidade para a gente se revelar a Deus e de Deus se revelar para a gente. Os milagres existem para quem tem fé!

A derrota do pensamento

O pensamento diplomado, o pensamento que busca
a verdade através da leitura e do conhecimento de
diversas fontes, o saber ancestral, baseado nas experiências vividas
estão sendo derrotados pelo saber imediato e sem relação com nada.
Falta-nos o discernimento crítico da realidade e dos conhecimentos.

 

Há alguns anos, tive a oportunidade de ler o livro A derrota do pensamento, do filósofo francês Alan Finkielkraut, e relembro essa leitura apenas para justificar o título deste artigo.

É inegável que, com o advento da internet e das redes sociais, se popularizaram a escrita e a possibilidade de emitir opinião sobre os mais variados temas. Isso é bom! Porém o que refiro como derrota do pensamento é o nivelamento de todas as pessoas (ou quase todas), pois há muito de exclusão social e digital na abordagem dos temas.

 

Idiotização da mídia e manipulação – Fora da Caixa.

Decidi escrever este texto a partir de alguns daqueles debates que a gente acaba fazendo no Facebook com amigos e familiares – no meu caso, como graduado em Teologia, querendo fundamentar com argumentos alguns temas de religião. A conclusão é que de pouco valeram aqueles anos de estudo de Teologia. Assim, como de pouco adianta minha graduação em Filosofia, especialização em Bioética ou mestrado em Comunicação Social.

Para não encerrar o exemplo em mim mesmo, quero ampliar essa ideia da derrota do pensamento. Num dos debates sobre religião, um interlocutor amigo do Facebook fala da perseguição aos cristãos na Bolívia e Venezuela.

Daí eu me pergunto: o que sabemos nós, brasileiros e brasileiras, sobre esses países, se o que recebemos é um bombardeio de informações falsas e negativas dessas nações pela grande mídia?

Sempre tive como referência em assuntos internacionais o professor Paulo Visentini, autor de diversos livros e profundo conhecedor de geopolítica e de como se relacionam os países, seja na América Latina, Oriente Médio ou qualquer parte do mundo. Mas qual é a diferença da opinião do professor Visentini para a opinião do meu interlocutor do Facebook?

Outro interlocutor, estudante de Filosofia nos primeiros semestres, com a finalidade de se tornar padre da Igreja Católica Romana, autodenominando-se conservador de direita, achou-se no direito de apontar os erros do Papa Francisco na condução da Igreja. Não importa que Jorge Bergoglio tenha feito tantas faculdades, que tenha vivido as mais diversas situações como argentino, arcebispo, cardeal e, agora, talvez como a liderança mais respeitada em todo o mundo. Só importa o desejo de se manifestar, mesmo que sem argumentos.

Não é apenas o pensamento diplomado que está sendo derrotado. Trata-se também do pensamento de quem busca a verdade através da leitura e do conhecimento de diversas fontes, e se trata do saber ancestral e baseado nas experiências vividas, que não pode ser desprezado pelo saber imediato e sem relação com nada, além da própria impressão da realidade, influenciada pelos meios de (des)informação que hoje dispomos.

Esperamos que o passo seguinte a essa avalanche de opiniões nas redes sociais seja o do discernimento crítico do que dizemos, curtimos e compartilhamos.

 

A forte ideologia de consumo, incutida na gente todos os dias, também nos faz relativizar demais as informações e os conhecimentos com os quais lidamos? Vídeo “Compro, logo existo”?

 

Ideologia – eu quero uma pra viver!

Em época de liberdade sexual e religiosa, onde as pessoas
podem assumir suas escolhas e crenças, deparar-se com
discursos velhos e hipócritas soa estranho e preocupante.
Doutrinação nunca foi nem nunca será uma
forma de convencer alguém do que é bom.

 

A última semana do ano de 2017 foi marcada por uma postagem leviana e que preocupa. Dois vereadores de nossa cidade Passo Fundo gravaram um vídeo que me soou absurdo. Eles criticam de forma categórica a “ideologia” de gênero aprovada no PME – Plano Municipal de Educação de Passo Fundo por meio do PL 5146/2015.

Não sei qual o papel de ambos nesta construção do PME.

Segundo os parlamentares, a ideologia de gênero é a moda do momento (mas ela é discutida há mais de 20 anos), uma pretensão das escolas, uma imposição e tem como objetivo destruir a família e manipular a mente das pessoas.

As crianças seriam então doutrinadas nesta “ideologia do mal”. Meu Deus. Em que mundo eles vivem?

 

“Ao relacionar a ‘ideologia de gênero’ como sendo ‘ideologia do mau’ a casos de pedofilia, os vereadores ofendem aos mais de 1,2 mil professores municipais e subestimam a inteligência das pessoas. O discurso só é aplaudido ou compartilhado por quem desconhece a profundidade do tema e se deixa levar por fanatismos religiosos. É de lamentar que o ano Legislativo, tão produtivo em Passo Fundo, encerre com um debate retrógado, sem significado para a educação”.
( Zulmara Colussi, em O Nacional, 28 de dezembro de 2017)
Mais informações, aqui.

Na realidade os discursos tem, antes, um viés eleitoreiro e de doutrinação religiosa do que uma real preocupação com a educação municipal, que sofre outros tantos graves problemas que deveriam ser prioridade na pauta de um vereador.

Não pude deixar de mais uma vez expor minha opinião, uma vez que este é aberto às opiniões e indignações.

A tão criticada “ideologia de gênero” apenas compreende que ninguém nasce homem ou mulher, mas que cada indivíduo deve construir sua própria identidade, isto é, seu gênero, ao longo da sua vida. É apenas uma forma de dizer que muito além de quereremos direitos e oportunidades iguais para homens e mulheres (que ainda estamos longe de conseguir), buscamos a compreensão de que não deve haver divisão do mundo entre homens e mulheres, pois somos sim todos iguais, independente do sexo. A questão é não haver diferença de sexos.

Nossas diferenças são apenas genitais e não deveriam importar culturalmente.

Essa simples palavra confunde as pessoas e confundiu nossos políticos, uma vez que eu sua compreensão falar em ideologia de gênero nas escolas seria uma forma de incentivar a homossexualidade e pior ainda, fizeram uma relação grave com abuso e exploração sexual infantil e esclarecem que a ideologia é uma imposição.

O Plano Municipal de Educação teve ampla discussão com participação de nossos educadores. Professores que compreendem o que falta no currículo escolar.

Professor dirigente do CMP Sindicato diz que Plano Municipal de Educação é fruto de uma discussão iniciada há mais de 10 anos e que proposta dos vereadores é desonesta e leviana.
Veja mais aqui.

É muito mais prejudicial para uma criança ver televisão aberta por horas, sem compreender realmente o que estão vendo, sem nenhum tipo de filtro, sem ter respeito por sua condição social. A escola é o espaço para o debate e a ideologia de gênero cumpre este papel. Simples assim.

Não vamos criar resistência aos termos que não conhecemos e não vamos acreditar em oportunismo.

Família é onde tem amor. Família é onde existem pessoas que se amam, independente do gênero. Porque ser do bem mesmo é ser alguém que compreende que somos iguais.

Você sabe o que é ideologia de gênero? Veja este vídeo bem esclarecedor.

Os pobres que o jornalismo não vê

O jornalismo deve ir às periferias e ver os dramas
de um mundo de carências e misérias que a imprensa
pós-golpe afastou dos nossos olhos.
Esta ainda é uma tarefa dos jornalistas.

 

O jornalismo ainda está devendo reportagens que desmascarem os índices médios de inflação e mostrem a realidade dos pobres depois do golpe.

É preciso ir ao mundo que desconhece a inflação baixa do jaburu-da-mala e a recuperação da economia propagandeada pelo Jornal Nacional.

O Brasil da classe média ignora a realidade de quem ganha salário mínimo ou um pouco mais e paga R$ 150 por dois botijões de gás, que vai pagar 30% mais pela luz, que enfrenta o aumento semanal da gasolina (tem seu carrinho ou se vira de moto) e que não enxerga a tal retomada do emprego.

Os índices da inflação que não levam em conta a vida desse povo, mas o custo de vida de uma classe média, também empobrecida, não conseguem dar conta dessa realidade.

Os repórteres devem ir a campo para contar como sobrevivem os que almejaram ascender socialmente, durante os governos de Lula e Dilma (e muitos conseguiram), e que agora enfrentam retrocessos devastadores.

Mas é preciso ir além dos números e das estatísticas. Os dados sobre o custo de vida real, que se contrapõem a uma inflação média enganosa e às besteiras ditas pelo jaburu-da-mala, servem de esclarecimento pela metade.

O sentido maior da compaixão para com os pobres: não os defendemos por serem bons ou anjos, mas porque são parte de uma sociedade desigual que não sabe lidar com eles.

Pobreza e compaixão

É preciso mais. O jornalismo deve ir às periferias e ver os dramas de um mundo de carências e misérias que a imprensa pós-golpe afastou dos nossos olhos. Esta ainda é uma tarefa dos jornalistas.

 

“Todo profissional deve defender os interesses intrínsecos ao seu ofício. Os jornalistas, assim como os professores, trabalham com temas de interesse geral, a educação e a informação. Por isso mesmo, precisam toda hora justificar o seu trabalho e legitimar a função social do seu trabalho. Os jornalistas, em especial, lutam pela qualidade da informação, apresentando slogans como este: “Sem jornalista não tem informação”. (Nei Alberto Pies)

https://www.sul21.com.br/jornal/jornalismo-e-seus-interesses-por-nei-alberto-pies/

Sobre arte e a arte do viver

O reinado do medo vai tecendo suas teias, aprisionando cada vez mais nossas vidas, roubando-nos o que nos resta de criatividade, isto é, o natural dom para driblar nossas necessidades com criatividade, não apenas para sobreviver à obscuridade, mas para levar encantamento à alma, órfã de imaginação que revoluciona os sentidos maios sublimes, ensejando epifanias.

 

Disse a mim mesmo que não voltaria a tocar no assunto sobre a necessidade de arte numa contemporaneidade que dá mostras de nela não depositar quase ou nenhum interesse. Até porque gastar suas forças na tentativa de sobreviver ao caos reinante?

Que o mundo está em escombros, não há dúvida. Que aguardamos o ressurgimento da Fênix para nos tirar do atoleiro, também não há estranhamento.

É o reinado do medo tecendo suas teias, aprisionando cada vez mais nossas vidas, roubando-nos o que nos resta de criatividade, isto é, o natural dom para driblar nossas necessidades com criatividade, não apenas para sobreviver à obscuridade, mas para levar encantamento à alma, órfã de imaginação que revoluciona os sentidos maios sublimes, ensejando epifanias.

O que leva, mais uma vez, à ponderação de que não é só de pão que vivemos, mas de poesia, como disse brilhantemente William Carlos Williams “não é fácil encontrar novidades em poemas, mas homens morrem miseravelmente todos os dias por falta do que neles existe”.

Assim, a pretexto de sobrevivência, vamos sepultando-nos a conta gotas sobre o som de infindáveis réquiens, cada vez mais aturdidos, satisfazendo os sentidos comezinhos. E o sistema reinante, com inefáveis pendores diabólicos, dita o que tem de ser consumido para que nos sintamos na trilha certa, coerente com os demais, em passos militares rumo ao matadouro.

A verdade que precisa ser dita que tal comportamento é a opção pelo mais barato, pois no dizer de Jung “quase não há exceções à regra de que uma pessoa deve pagar caro pelo divino dom do fogo criativo”.

Entre um celular que faz tudo, inclusive pensar pelo usuário, e as labaredas da liberdade criativa opta-se pela geringonça tecnológica, que nos escraviza em vez de libertar.

Já estou me alongando demais. Se alguém chegou até aqui foi por pura coragem – e por sentir-se, igualmente, desconfortável neste mundo de aparências, que alimenta Narciso com coisas absolutamente inúteis. Duke Ellington disse “só interessa o que tem swing”. Você sabe o que tem swing?

O patriarcado não está na cabeça das feministas

A política educacional pode dialogar com a cultura familiar e fazer
uma crítica à cultura do estupro. Porque ao falar contra a
discriminação de gênero, vamos falar que homens e mulheres podem
respeitar o outro. O estupro é o desrespeito absoluto.

 

A noção vigente de masculinidade é associada à violência, e por isso é importante combater pela raiz a chamada cultura do estupro — é o que defende Lia Zanotta Machado. No final dos anos 90, a professora titular de Antropologia da Universidade de Brasília (UnB), especialista em violência e direitos das mulheres, participou de um estudo que até hoje é referência: integrante do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Mulher (NEPeM/UnB), ela e outras pesquisadoras entrevistaram encarcerados por sentença de estupro, com o objetivo de entender o imaginário deles a respeito do crime. A pesquisa concluiu que o estupro somente era considerado crime pelos que o cometeram quando violava as relações de família e de posse dos homens sobre as “suas” mulheres — esposas, filhas, irmãs —, aquelas que eles consideravam “honestas”. Todas as outras mulheres eram vistas como disponíveis. “Ao se defenderem, quando acusados, esses homens afirmaram que as mulheres provocam, seduzem e consentem, ou estão em lugares e horas onde ‘mulheres de família’ não deveriam estar”, explicou. Na entrevista que concedeu à Radis, Lia analisa as origens da cultura do estupro — a desigualdade entre homens e mulheres — e joga luz sobre esse crime que se apresenta em diferentes formatos na nossa sociedade.

O que é a cultura do estupro? 

A chamada cultura do estupro vem de uma história de longa duração, presente nos códigos penais e civis, que estabeleciam concretamente a desigualdade de direitos entre homens e mulheres. No período colonial, basicamente o chefe de família tinha o poder de posse sobre as mulheres e os filhos, como se fossem escravos ou servos. Isso marcou o masculino. Já não está mais na nossa Constituição, desde 1988, que fala de igualdade de gênero, mas a legitimidade da ideia de posse e da desigualdade persistem. No Brasil Colônia, estupro era só contra uma mulher virgem. Isso ainda está na nossa memória. Estupro seria contra mulher virgem, “honesta”, fiel, casada. Assim, existe a ideia de que, contra todas as outras mulheres, elas é que teriam provocado. A legislação muda, mas até há pouco tempo o estupro era um crime contra os costumes, não contra a dignidade da pessoa. Ainda vigora a ideia de que, quando as mulheres dizem não, elas na verdade estão dizendo sim. Porque “caberia” a elas dizer não, mas na verdade elas “querem”. Então você nega a palavra da mulher, você não dá valor ao corpo da mulher, à pessoa… Tudo é objeto de posse do homem.

A origem da cultura de estupro é o patriarcado? 

O patriarcado é um fato, e existiu legalmente. Não é só uma memória das pessoas, da cultura do homem machista. O que eu insisto é que a cultura do estupro está sediada na memória dos nossos códigos penais e civis. O patriarcado não está na cabeça das feministas. Ele foi inscrito e legitimado, legalizado nos códigos civis e penais da história do Brasil durante a Colônia, o Império e a República. A igualdade de gênero só aparece em 1988 com a Constituição. A desigualdade diminui ao longo do tempo, mas se mantém na república, no Código Civil, dando direitos desiguais à mulher.

O discurso dos estupradores sentenciados reflete essa cultura? 

Eu lembro que na nossa pesquisa, um homem que cometeu estupro dizia: “ah, ela estava na rua, à noite, esperando o ônibus, eu parei, e pensei uma mulher que está na rua a essa hora aqui eu posso pegar”. E “pegou”. E depois passou um carro, com o irmão dela, que viu e foi salvar a mulher. Aí ele disse para mim o seguinte: “Nunca pensei que essa mulher tivesse um irmão”. Se ele soubesse que essa mulher de alguma forma era “de alguém”, ele não teria estuprado. Os homens que estupram essas mulheres, que eles consideram “disponíveis”, vão para casa dormir e no dia seguinte trabalhar. Eles nem acham que isso é crime.

E quanto ao estupro coletivo?  

Há vários casos de estupros feitos por quatro, cinco homens… Esse estupro indica que se quer mostrar para outros homens o quanto se é viril. Existe uma espetacularização. Não é feito só para ter a posse. Na criminalidade organizada, os jovens têm que se mostrar corajosos, têm que estar prontos para matar ou morrer, portanto eles põem o revólver para cima para mostrar… “ninguém olha no meu olho, e eu posso ter todas as mulheres”. Há grupos de traficantes que estupram as mulheres do grupo rival para mostrar poder, por exemplo. É um pouco o que acontece no estupro em guerras, como na Bósnia, e também entre gangues. Apareceram casos também na minha pesquisa de pessoas que contrataram terceiros para estuprar a mulher do inimigo. O estupro virou cada vez mais uma demonstração da macheza e da virilidade aos olhos dos outros homens. Neste caso de estupro coletivo [da jovem no Rio de Janeiro], a maneira como ele foi exposto nas redes sociais pelos próprios executores, sem acreditar que alguém poderia se sensibilizar e ser contrário ao ato, mostra isso.

Quais as repercussões desse tipo de comportamento para a saúde e a segurança das mulheres?

Muitas mulheres têm dificuldade de contar a sua história de estupro.  Outras falam muito para tentar “exorcizar” o que aconteceu. Elas entram em depressão. É um sofrimento absolutamente incrível. Qualquer pessoa que já foi assaltada sabe que a gente sente uma impotência. Imagine o que é a impotência diante de alguém que penetra o seu corpo, segura e controla fisicamente, e que destitui a sua condição de pessoa? O que você fala não importa, o que seu corpo quer não importa. É um trabalho enorme de recuperação. A atenção que essas mulheres vítimas necessitam é total, porque você pode contrair aids, DSTs, pode ter laceração genital e do períneo, infecção, engravidar… E é uma das coisas mais terríveis em termos de trauma psíquico.

Qual a sua avaliação do discurso dos estupradores? 

Não são monstros nem doentes… Eu lembro de um [estuprador entrevistado na pesquisa] que dizia que tinha visões…. Mas ele tinha consciência do que fazia. Ele tentava colocar essa questão do desejo dele. O estupro não é uma questão apenas sexual, é questão de humilhação, de humilhar o outro, de mostrar que é poderoso. E ele é um ato, não é toda a vida deste homem. Existem serials [estupradores em série] que se organizam para estuprar, mas a maioria deles não se organiza para tal, eles estupram e ao mesmo tempo têm uma vida cotidiana, seja ela de criminoso ou de trabalhador, e têm pessoas por quem eles têm afeto.

E em relação ao estupro feito por pessoa conhecida da mulher?

Também existe a cultura do estupro familiar. Que diz o seguinte: as ´minhas´ mulheres não podem ser estupradas por ninguém, mas como eu sou tio de uma menina, padrinho, amigo da mãe, e como eu ajudo essa família, eu ´tenho´ direito a ter relação com essa menina, com essa mulher, com essa cunhada. Aí é um estupro que mistura afeto e posse. É uma ideia de uma extensão da posse que o pai e o marido têm sobre as mulheres. Há na nossa pesquisa, um caso que apareceu em jornais, de um homem que tinha relações com as suas enteadas. Ele dizia que fazia isso porque a mulher dele não era mais “capaz” de fazer sexo com ele, então, se ela não tinha, as filhas “tinham” que ter.

Como combater a cultura do estupro? O aumento de penas resolve o problema?

Eu não sou favorável ao aumento da pena. É preciso que haja punição, sim, mas quanto maior a pena para o crime, mais os juízes e promotores tendem a aderir à ideia de que não foi um estupro. Essas são as conclusões derivadas da pesquisa que realizo atualmente. A grande questão é o que fazer com esses homens na prisão, para que isso não se repita, e que tipo de fiscalização existe para que ele não saia em uma condicional sem acompanhamento. Os juízes e os promotores têm que ser mais atentos, porque eles tendem ainda a pensar que, se o denunciado é alguém conhecido da vítima, e se ela estava envolvida inicialmente, então, houve consentimento, como se ela não tivesse direito de dizer não a qualquer momento. Como no caso de uma mulher que tem um namorado e ele a chama para ir a um motel. Ela diz não, mas ele diz “ah, vamos lá, mas só para conversar”. Se depois ela diz “eu fui estuprada”, o juiz diz, “não, não foi estupro, porque você entrou no motel”. Na verdade, a ideia do consentimento é que você pode desistir a qualquer hora. Mas, se há um namoro [o juiz ou o promotor podem entender que] não tem estupro. Ou que a continuidade do processo é “difícil de provar” e que pode provocar sofrimento à vítima. Mesmo com toda a nossa cultura, denunciar um namorado que a estuprou… Apesar de haver a Lei Maria da Penha, no Brasil de um modo geral não se ouve o que a mulher diz. É tão difícil denunciar. É preciso que sejam levadas adiante essas denúncias. A mulher só denuncia quando está absolutamente certa de que foi estupro, pois na nossa cultura, é a ela que se atribui a vergonha. Mesmo quando o denunciado é desconhecido da mulher, em geral há a tendência de delegados, promotores e juízes muitas vezes entenderem que a mulher provocou ou seduziu, quer pelas roupas, quer por estar em espaços noturnos ou isolados.

E o que pode ser feito?

Existe algo que pode ser feito no interior das próprias famílias. Os principais lugares de formação e educação que nós temos no Brasil, por um lado são as relações familiares, e por outro a formação escolar. Nas famílias, especialmente nas classes populares — em comunidades com mando do tráfico ou das milícias — o valor da virilidade às vezes é levado a qualquer custo. Nas classes mais altas, você também tem uma transmissão de valores masculinos em que a sensibilidade de um homem é vista como “negativa”, feminilizada. Então a virilidade é ensinada “contra” as mulheres. Controlar as mulheres e desafiar os outros homens. Essa é a virilidade ensinada. A grande novidade é que nós já temos a ideia da igualdade, de que homens e mulheres podem ter sensibilidade e serem respeitosos, que é possível o cuidado tanto dos homens para as mulheres quanto das mulheres para os homens. A cultura da sensibilidade, do respeito e da cidadania. Essa cultura arcaica de que os homens devem controlar as mulheres e responder a qualquer desafio dos outros homens por meio da violência física e verbal tem que terminar, tem que ser enfrentada. Isso implica uma formação psicológica.

Como pensar esta questão em termos de política social?

A política educacional pode dialogar com a cultura familiar e fazer uma crítica à cultura do estupro. Porque ao falar contra a discriminação de gênero, vamos falar que homens e mulheres podem respeitar o outro. O estupro é o desrespeito absoluto. Todas as campanhas contra a discriminação de gênero que vinham sendo feitas estão sob, digamos, interdição do Congresso Nacional. Porque no Plano Nacional de Educação, enviado pelo Executivo então vigente, estava registrada a necessidade de lutar contra a discriminação de gênero, sexual, racial e religiosa. Mas o Congresso retirou a discriminação de gênero do texto. Considero a retirada da palavra gênero do Plano Nacional de Educação inconstitucional, já que a Constituição diz que não pode haver discriminação sexual. Como sexo e gênero estão interrelacionados, não poderia ter sido tirada a palavra gênero. Isso depende de uma interpretação jurídica, é claro, mas em termos sociais é um desastre. As políticas públicas educacionais precisam expandir com urgência a ideia de cidadania com igualdade de sexo e de gênero: sem discriminação, sem violência e sem estupro. (E.B.)
Fonte: Revista Radis
Autora: Elisa Batalha

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