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Nós e nossas dificuldades

São difíceis de suportar os rótulos, as cobranças impossíveis de realizar.
Ninguém quer ser desatento, desorganizado, incapaz de acabar tarefas,
ficar “no mundo da lua”, pensar em fazer uma coisa e não lembrar o quê,
voltar mil vezes pra recolher o que esqueceu.

 

Debatemo-nos com dificuldades pessoais, que podem nos acompanhar desde que nascemos.

Somos gente que, ao longo da vida, se descobre com dislexia, ansiedade, hiperatividade, melancolia, desânimo, o que provoca situações de dificuldades as mais variadas.

 

Somos quem podemos ser, Humberto Gessinger.

Hoje as crianças contam com professores atentos e capacitados para detectar dificuldades e encaminhar adequadamente cada problema para seu tratamento. Isto era impossível há cinquenta anos na maioria dos casos. As pessoas eram condenadas a carregar seus transtornos pela vida afora, tentando transpor barreiras invisíveis causadoras de muito sofrimento e incompreensão.

Vou ilustrar a introdução com meu caso pessoal. Tive ao longo da vida a noção de que a matemática não servia para mim, por não conseguir pensar com clareza, mesmo nas questões mais simples. Com o tempo contentei-me com o fato de me sair bem na área das letras e no estudo das ciências humanas.

Eu ignorava que, ao longo da vida, o raciocínio lógico e exato está sempre presente e as dificuldades foram se acumulando, agravados com o avançar dos anos. As frações contidas nas receitas de bolo me fizeram esperta no assunto, anos depois de me tornar cozinheira.

Dos sessenta anos em diante passei a ter crises de ansiedade bem frequentes, provocadas pela confusão gerada pelas muitas atividades em várias áreas. Minha atuação confusa passou a ser um problema, por que a associei à possibilidade de estar senil, ou demente.

Senti um pavor enorme com a possibilidade de entrar em um processo irreversível de Alzheimer. Muito receosa procurei ajuda médica, que me encaminhou para testes psicológicos especializados e capazes de detectar perdas cognitivas e de memória.

Após algumas sessões, chegou-se a conclusão de que não estou em um processo senil, mas que tenho Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Olha só! E eu nunca soube disso. E nem podia, por que o transtorno só é conhecido há pouco tempo. Tudo explicado, tudo perdoado a mim mesma por odiar matemática e física.

Agora respeito minha quase piração por não me organizar, por trocar tudo de lugar com frequência e por começar muitos livros e não conseguir terminar nenhum.

Banner viver e conviver. 

 

Além do tratamento médico, estou desenvolvendo estratégias para conviver com a agitação e falta de foco. Minha amiga Marciele enviou-me um estudo sobre Biblioterapia e, a partir dele, resolvi usar a literatura – minha paixão – como lenitivo.

Sento-me confortavelmente, não penso em nada além do livro que escolho e mergulho nele até o fim. Saboreio cada frase e cada palavra como gotinhas milagrosas. Já abati uma torre começada aos fragmentos e estou feliz com a façanha.

Estou muito mais tranquila, menos com o fato de não suportar reuniões. Vou ter que trabalhar de alguma forma, por que a cadeira que uso em reuniões me parece coberta de pregos.

Espero ajudar pessoas a encontrar explicação para os perrengues tão comuns à condição humana, sempre imperfeita, sempre incompleta, sempre em busca do autoconhecimento tão necessário para a saúde mental.

Espero que as crianças com problemas de aprendizagem sejam acolhidas e olhadas com carinho, para que cresçam confiantes em suas capacidades e com prontidão para aprender. São difíceis de suportar os rótulos, as cobranças impossíveis de realizar. Ninguém quer ser desatento, desorganizado, incapaz de acabar tarefas, ficar “no mundo da lua”, pensar em fazer uma coisa e não lembrar o quê, voltar mil vezes pra recolher o que esqueceu.

 

A natureza humana e o comportamento

As referências predominantes do comportamento humano se apresentam como se fossem naturais, no entanto, são uma construção social. A natureza humana é explicada por necessidades como o cuidado, o afeto, o companheirismo, o contato íntimo, a necessidade de ser amado, respeitado, visto, aceito e recebido.

A natureza é o único fundamento sólido para a compreensão das ciências, de acordo com David Hume (1711-1776). A sua obra, “Tratado da natureza humana” influenciou o positivismo de Augusto Comte, o pensamento de John Stuart Mill e Immanuel Kant, entre outros.

 

Qual o problema de prever o comportamento humano? Por que é impossível aplicar certos modelos científicos em pesquisas sobre comportamento?

O autor da “Crítica da Razão Pura”, afirmou que foi despertado do “sono dogmático” pelo pensamento de Hume, especialmente o da “crítica da causalidade”. A partir do momento em que passamos a existir como um feto, estamos sujeitos a um ambiente e a qualquer informação que chegue até nós, através da circulação dos nutrientes e das emoções de quem está nos gerando.

O comportamento mantém relações com a mente humana, que possui a faculdade de reproduzir e combinar as ideias de diversos modos entre si e com as experiências concretas.  A cópia é um princípio que não se aplica às ideias complexas, visto que as mesmas são formadas pela relação entre diversas ideias e pela imaginação.

A imaginação, por sua vez, transpõe, aumentando ou diminuindo os dados que são obtidos através da experiência dos sentidos. A capacidade humana de imaginar e de criar realidades transcendem o concreto, é influenciada e influencia a experiência.

O comportamento patológico, no qual se incluem a maioria das doenças que conhecemos, entre as quais, as cardíacas, o câncer, o reumatismo, as doenças auto imunes em geral, assim como distúrbios mentais e vícios, podem ter uma predisposição derivada de um componente genético.

No entanto, é importante perceber o papel dos genes e ter consciência que eles, por si só, não determinam o que somos, pois predisposição não é o mesmo que predeterminação.

Aquilo que os genes nos conferem, são formas diferentes de reagir ao ambiente, por isso, não podemos analisar a biologia, a genética e o comportamento, fora do contexto social, que é resultado das relações entre o ser humano e a natureza.

Portanto, numa sociedade baseada na competição, na exploração implacável de um ser humano por outro, no ato de lucrar com as necessidades alheias e na criação de problemas com o propósito de obter lucro, as referências para o comportamento devem sair das sombras, pois tem suas origens ideologicamente ofuscadas.

Só temos 1 planeta, dependemos dele para viver, mas não respeitamos os limites ambientais.

Dito em outras palavras, as referências predominantes do comportamento humano se apresentam como se fossem naturais, no entanto são uma construção social.  Em outro modo de evidenciar as referências para o comportamento, a natureza humana é explicada por necessidades, nas quais se incluem, o cuidado, o afeto, o companheirismo, o contato íntimo, a necessidade de ser amado, respeitado, visto, aceito e recebido.

 

Jornalista brasileira na África: maior conquista é a transformação pessoal

Victória Holzbach, jovem jornalista de 26 anos, revela-se, com intensidade e alegria em dois vídeos produzidos sobre a sua atuação na África.

Aos 11 meses de convivência e atuando como missionária leiga em Moçambique, a jornalista revela a África como ela é. Neste vídeo, fala de sua experiência como missionária em solo africano. A convivência com o povo moçambicano, durante quase um ano, faz a jornalista reconhecer seu crescimento como pessoa e como cidadã do mundo.

Victória destaca que o trabalho cotidiano de cada moçambicano é regado pelo sonho e pela crença de um país melhor. A esperança é o grande ânimo deste povo, num contexto de mudanças rápidas, cheio de inovações e estranhezas de uma África cheia de novidades e diferenças.

Mais recentemente, depois de um pouco mais de um ano de missão, revela, em entrevista à UPF TV que o jornalismo ficou em segundo ou terceiro plano, e que a realidade concreta das pessoas com as quais atua exige outras habilidades e intervenções. Revela, ainda, como é grande a sua transformação pessoal. Revela ainda que é preciso agir numa relação diferente do colonizador: é preciso respeitar o ritmo e o tempo do povo africano.

Victória Holzbach é colaboradora Convidada do site e já publicou 6 interessantes reflexões.

Em seu primeiro texto já escrevia: “Missão é serviço. E servir com amor. “Que a minha loucura seja perdoada, porque metade de mim é amor e a outra metade também.” Veja mais no link abaixo.

https://www.neipies.com/author/holzbach/

Abençoada e iluminada seja, em sua missão!

Fraternidade: o caminho para a paz

Ter a fraternidade como fundamento para a paz é,
também, um grande questionamento e uma denúncia
à visão e ao modelo de (in)segurança pública baseada
no controle das sociedades por meio de armas e repressão.

 

A fraternidade é uma dimensão essencial do ser humano. A consciência desta dimensão leva-nos a ver e tratar cada pessoa como uma verdadeira irmã e um verdadeiro irmão (as manas e os manos, como dizem os jovens da periferia). Sem essa consciência, torna-se impossível a construção de uma sociedade justa e de uma paz duradoura.

A Campanha da Fraternidade 2018 tem como lema “Vós sois todos irmãos” (Mt 23,8b). Esse é um chamado para a construção de “uma civilização fundada sobre a dignidade igual de todos os seres humanos, sem qualquer discriminação”, como afirma o Papa Francisco. Somente essa consciência de irmandade torna possível a superação da violência, o tema proposto pela CNBB para esta Campanha.

A proposta é a superação da violência. Tema: “Fraternidade e superação da violência”. Lema: Vós sois todos irmãos (Mateus 23,8).

A fraternidade deve marcar todos os aspectos da nossa vida: a economia, a sociedade, a política, a cultura, o desenvolvimento.

Ter a fraternidade como fundamento para a paz é, também, um grande questionamento e uma denúncia à visão e ao modelo de (in)segurança pública baseada no controle das sociedades por meio de armas e repressão (como as propostas de redução da maioridade penal, por exemplo). Justificam-se, assim, até mesmo a violência policial e a tortura, onde chama a atenção a realidade de muitos jovens, a maioria negros das periferias, assassinados todos os dias, naquilo que se chama de extermínio de jovens.

Em vez da garantia de direitos duramente conquistados, defendem-se apenas a segurança individual, a defesa da propriedadee asegurança nacional. Como consequência, viveria em paz apenas uma minoria, através da força da polícia e de segurança privada, justificando intervenções violentas nas periferias de nossas cidades.

O lema da CF 2018, “vós sois todos irmãos” foi extraído do evangelho de Mateus, no qual Jesus repreende os fariseus e mestres da lei por suas práticas incoerentes com seus discursos. Da mesma forma que no tempo de Jesus, hoje muitos cristãos valorizam uma sociedade hierarquizada, onde são privilegiados os ditos cidadãos de bem. Jesus, então, propõe um novo modelo, comunitário e fraterno. Somente assim se supera a violência e se constrói a paz.

 

Bispos falam sobre Campanha da Fraternidade 2018

Nesse sentido a CNBB, ao propor a cada ano a Campanha da Fraternidade, quer que olhemos os problemas não como um desvio de conduta ou da má índole de qualquer pessoa. É necessária uma visão mais abrangente, estrutural e sistêmica dos problemas.

O Brasil tem uma dívida social histórica com suas populações mais carentes e com grupos marginalizados dos processos de desenvolvimento econômico, que exigem um posicionamento e ação organizada para o resgate da cidadania.

Ver, julgar e agir sobre temas do contexto social em que vivemos é colocar-se diante das grandes interrogações sobre o sentido da nossa existência e sobre o nosso modo humano de viver neste mundo.

Nesse sentido que a CNBB propõe as Campanhas da Fraternidade, ou seja, diante de situações de desrespeito e agressão à vida, busca e aponta alternativas, através da ação social de todos os envolvidos. Isso implica entrar num autêntico diálogo que procure sanar efetivamente as raízes profundas, e não apenas a aparência dos males do nosso mundo.

A superação da violência é nosso sonho e nosso propósito. E esse sonho só está distante de nós se não dermos os primeiros passos, pois, como disse o poeta Jorge Rebelo, “não basta que seja pura e justa a nossa causa. É necessário que a pureza e a justiça existam dentro de nós”! O passo seguinte é deixá-la transbordar, ou mesmo semeá-la por todos os caminhos e jornadas do novo ano.

A arte sempre está entre o valor e o reconhecimento

A arte desperta, em todo mundo, grande fascinação.
Entre o valor de uma obra e o reconhecimento, estão os artistas,
aqueles que emprestam suas almas para transformar
a dureza da vida em encantamento, colocando
humanidades-em-movimento
.

 

Com a arte, o artista ganha mais do que dinheiro, ainda que não seja o suficiente para dar-lhe sossego financeiro.

Dias atrás, enquanto finalizava a tela “Marjorie Ferry visita Van Gogh”, da série “Visitando os Clássicos”, surpreendi uma jovem debruçada no parapeito da janela do estúdio, observando o trabalho que se encontrava no cavalete. Tomei o cuidado para não distraí-la da observação. Era de estatura baixa, pescoço alongado (lembrando as figuras de Modigliani), rosto miúdo e simpático, olhar muito vivo, cheio de expectativas, abundante de vida.

De súbito descobriu minha presença. Demonstrou surpresa. Sorriu de forma tímida, arreganhando de forma divertida o lábio superior.

– Estou admirando – disse, desviando o olhar em direção à tela. – Muito bonita! Quero ser artista também.

– Que bom – retruquei, admirado com sua espontaneidade.

-Quem é a mulher da tela?

Contei-lhe rapidamente a génese do trabalho. Ela ouviu-me atentamente, olhar transbordando vivacidade.

-Que legal! – disse após minha rápida análise.

– Eu passo todos os dias por aqui – comentou. – E quando não tem ninguém eu paro e observo o ambiente, as telas, o cavalete… Tudo chama minha atenção. Alegra meu dia.

Ao referir-se à alegria que se lhe tomava o espírito seu olhar marejou. Disfarçou olhando para os pés, ajeitando rebelde mecha de cabelo.

Fui tomado pela emoção. A jovem, com seu depoimento, referia-se ao valor da arte que extrapola a atividade de transformá-la em objeto de comercialização. Reportava-se, de maneira singela e ingênua à capacidade que ela, a arte, tem de encantar, de alimentar a alma, transformando-a num pássaro de velozes asas, levando-o em direção à catártica liberdade de ver e sentir.

– Muito obrigada! – disse ela sorrindo um tanto sem jeito. E foi-se, deixando a janela vazia, como figura feminina se libertando de uma moldura.

Sentei-me, olhando a tela que acabara de pintar. Havia nela qualquer coisa de diferente. Era como se o olhar da jovem a tivesse encantado e transformado.

Visitando os Clássicos No universo de Tamara de Lempicka “Marjorie
Ferry visita Van Gogh” Acrílica s/tela 80×80

 

Normal?

Muitas situações cotidianas passaram a ser consideradas normais.
Mas será que são normais? Onde foi que nos perdemos?
Como iremos nos encontrar?

 

Normal. Segundo o dicionário, aquilo que é conforme a norma, regular, usual, que é comum, natural, aceitável.

Gostaria de saber quando foi que passamos a considerar normal que pessoas morassem na rua. Em que momento tornou-se usual ter medo de sair de casa, medo de voltar, medo de deixar nossos filhos caminhar sozinhos até a esquina?

A gente não devia, mas se acostuma (Marina Colassanti).

Desde quando é normal que crianças sejam maltratadas, mulheres agredidas, idosos abandonados?

Como foi que passamos a aceitar como natural que jovens andem sujos pelas ruas, mais mortos que vivos, sem rumo e sem perspectivas? Quando passou a ser comum tanta gente pedindo esmolas nas sinaleiras, tantas camas improvisadas pelas calçadas? Desde quando é natural que as pessoas gritem no trânsito, ofendam-se nas redes sociais, sejam violentas com colegas de escola ou de trabalho?

Como podemos considerar aceitável que pessoas próximas a nós espalhem fotos e vídeos íntimos de gente que nem conhecem, ou que conhecem bem demais? Como pode ser comum a indigência, a barbárie, a deterioração da vida humana, a desconsideração total com sentimentos e necessidades dos outros?

Como é possível que tenhamos sentimentos profundos de compaixão com pequenos animais e não consigamos ter empatia por seres iguais a nós, que cruzam nosso caminho todos os dias?

Podemos dizer que não é da nossa conta, que não fizemos mal a ninguém e não criamos essa situação. Mas não se trata da guerra na Síria, das crianças na África. São nossos vizinhos, são as pessoas que conhecemos, pessoas que nasceram no mesmo bairro, na mesma cidade, que compartilham conosco o espaço, a história, a realidade.

Como é possível conviver lado a lado com a miséria, com a violência, como se estivéssemos em outro mundo?

Está claro que não criamos essas situações, mas é impossível não sermos afetados por elas, mesmo que seja na forma de medo e tristeza. Enquanto culpamos o governo, os políticos, a crise, o capitalismo, ou alguma outra entidade abstrata da qual nos excluímos, seguimos adiante ignorando o que nos cerca. Onde foi que nos perdemos? Como iremos nos encontrar?

O que é ser normal?

 

 

O Mito das Verdades

 O conhecimento é o suporte mais importante na
construção de conceitos e na desconstrução de preconceitos.
A publicação de conhecimentos da tradição africana deseja
contribuir para a afirmação de diferentes verdades,
como contraponto à verdade absoluta.

 

A cosmovisão africana, assim como outras culturas que vieram depois, encontrava nos mitos, explicações para tudo e todas as situações. Nesse momento em que diferentes visões de mundo e percepções de vida se chocam na busca pela hegemonia, penso ser oportuno trazer este mito da cultura Yorubá. 

“O Ayê (a terra) e o Orum (espaço sagrado) eram separados por um grande espelho, por meio do qual Olodumàré (o ser supremo) acompanhava todos os acontecimentos do mundo, que eram refletidos nesse espelho, mostrando assim, apenas uma verdade sobre o cosmos.

Ewá (divindade feminina do panteão africano) filha de Olodumàré, era responsável por pilar todo o alimento do mundo em um grande pilão. Seu pai a recomendou que tivesse cuidado para não bater com a mão do pilão no grande espelho.

Um dia, Ewá realizava sua tarefa muito feliz, cantando e dançando, quando então o acidente aconteceu. Ewá, assustada, chorando muito, foi contar ao pai o que havia acontecido, com medo da sua reação. Para sua surpresa, Olodumàré, com serenidade, acariciou seu Ori (cabeça) e disse:

– Minha filha, quebraste o espelho? Que bom!

A partir de agora não teremos mais uma única verdade, mas incontáveis verdades. E todas elas trarão o crescimento da humanidade e a preservação do mundo.

Acabaste de individualizar a humanidade e agora cada indivíduo precisará ouvir e entender a verdade do outro, para se compreenderem como seres coletivos.

Ewá secou suas lágrimas e seguiu feliz pilando todo o alimento do mundo.”

É preciso sensibilidade para reconhecer o óbvio e é óbvio que no ambiente escolar, que é um espaço de transformação, as diferenças são mais visíveis. Somente a sensibilidade, um olhar mais atento e uma capacidade de percepção ampliada, fará com que educadores conscientes preparem-se para atuar no desmonte da tese da verdade absoluta.

A educação é o caminho. Caminhemos!

O que há de moralmente errado em ser homossexual?

Se os parceiros estão de acordo e um não obriga, ameaça,
causa dano e não usa o outro somente como meio, mas como fim em si mesmo,
onde está o erro? Se a decisão é livre e consentida, onde o mal?
Se o amor liberta e não escraviza, onde o mal? Na forma do amor?
No princípio do amor cristão que diz: ame o próximo como a ti mesmo,
por acaso, há alguma menção de restrição nas formas de amor?

 

 

Não é prudente emocionalizar a conversa sobre a cura gay, defendida por conservadores religiosos e criticada por libertários que sustentam, estes, a impossibilidade de cura, já que só há cura onde há doença curável. E esse não seria o caso.

Meu filho é gay, como lidar? Monja Coen, Zen Budismo.

Um pouco de luz da razão pode amainar os ânimos. Parece-me que a questão é de pressupostos não compartilhados e, nesse caso, já que é impossível um assumir o paradigma do outro, como defende Thomas Kuhn, então, tudo o que podemos almejar é a tolerância entre as duas comunidades: conservadores e libertários.

O grupo conservador parte do pressuposto de fé e de crença e o grupo libertário, ou progressista, como queiram, parte do pressuposto da ciência.

Ambos os pressupostos são respeitáveis. Mas, podem ser duas pontes paralelas ao infinito, se um não escutar e tentar compreender o que o outro tem a dizer.

Escutar e compreender não significa aceitar o argumento do outro, mas pode significar, no mínimo, convivência civilizada com o outro, sem diminui-lo ou demonizá-lo. Penso que seja o máximo que se possa alcançar nesse campo de batalha.

 Mas, se mudarmos a conversa e passarmos da fé e da ciência para a filosofia moral, ou à ética, então, quem sabe, poderemos almejar algum progresso e acordo no que é essencial.

A ética levanta a seguinte questão: o que há de errado em ser homossexual? E se não há nada de errado, porque então insistir em querer que os que são, mudem e deixem de ser?

Do ponto de vista moral, errado é sinônimo de mau e certo é sinônimo de bom. Se uma criança me ler, eu diria para ela: errado é o que é feio, ponto. Voltando e subindo um degrau. Bom e mau, moralmente falando, são absolutos relativos à circunstâncias e a contextos. Não há absolutos puros e nem há relativismos puros, moralmente falando. E onde há, pode crer que paradoxos acontecerão. Essa é uma conversa para especialistas e como tal, chata. Conversa chata já há demais, não pretendo endossar a fileira…

O que não seria chato na pergunta: a homossexualidade carrega em si algum mal? Ou, para me repetir: o que há de moralmente errado em ser homossexual? Vou direto ao ponto e faço o meu juízo: nada.

Por que não há nada de errado? Estamos, agora, no âmbito da razão. Do juízo, nada, para a razão do juízo, isto é, por que não há nada? Para isso, é preciso encontrar algum critério. E o meu critério é Kantiano.

Kant apresenta um critério moral que diz: “age de tal forma que a máxima de tua ação possa ser universalizável”. Isto é, age de tal forma que todos igualmente possam desejar e fazer o mesmo, sem prejuízo a ninguém.

Segundo esse princípio alguém poderia objetar e dizer que a homossexualidade não pode ser universalizável pois, se todos fossem, haveria um problema de reprodução da espécie. Se você pensa assim, caro/a leitor/a saiba que esse argumento, hoje, está amplamente refutado. A ciência genética resolveu esse problema, o que deve deixar um conservador um pouco desconfortável.

Mas há um outro argumento de Kant que me parece ainda mais irrefutável, no sentido de que não há nada de errado na homossexualidade. O segundo argumento de Kant diz: “Age de tal maneira que uses a humanidade, tanto na tua pessoa como na pessoa de qualquer outro, sempre e simultaneamente como fim e nunca, simplesmente como meio”.

Pergunto: se os parceiros estão de acordo e um não obriga, ameaça, causa dano e não usa o outro somente como meio, mas como fim em si mesmo, onde está o erro? Se a decisão é livre e consentida, onde o mal? Se o amor liberta e não escraviza, onde o mal? Na forma do amor? No princípio do amor cristão que diz: ame o próximo como a ti mesmo, por acaso, há alguma menção de restrição nas formas de amor?

E tem mais. Se duas pessoas que se amam não causam mal uma a outra, por que cargas d’ água causaria mal a mim que estou de fora da relação? Se eu gosto de chocolate 85% cacau, vou me incomodar e exigir que quem gosta de chocolate ao leite deixe de gostar? A comparação não é fora de propósito.

Não há nada de imoral na homossexualidade. A questão é de gosto e de estética. E não é de escolha, pois eu não escolho gostar de chocolate de cacau 85%, a natureza me impõe, e eu adoro…!

 Santo Agostinho dizia: ama e faz o que quiseres. Eu suponho que Agostinho quis dizer que quem ama só faz uma coisa: o bem. O amor é a cura!

Homossexualidade – Com Dráuzio Varella.

 

Por que professoras são encantadoras?

Por que as professoras tornam-se encantadoras?
Acho que porque elas sabem as singularidades das crianças,
suas ânsias e desejos para tornar o mundo melhor.

 

Há professoras encantadoras espalhadas pelo Brasil afora!

Há aquelas que gostam de abraçar seus alunos, de cuidar deles, de brincar com eles e de ensinar com zelo. Há aquelas que pacientemente ensinam o a-bê-cê sentadas no chão, porque não há carteiras nas salas de aulas.

Há professoras em todos os formatos, formas e medidas. Há professoras que se tornam imortais pelos seus feitos.

O que é ser professora hoje?

Mas de qual professora mesmo quero falar para vocês? Refiro-me a professora de filosofia que compra mamão e melancia para as suas lagartixas se alimentarem. Achei lindo o seu gesto! Ela cuida de lagartixas!

Num mundo onde não temos tempo para mais nada, a professora preocupa-se em dá alimento para duas lagartixas.

Como tornar-se uma professora encantadora? Não precisa criar lagartixas atrás do guarda-roupa, basta olhar para os seus alunos com o carinho de uma fada e o merecimento de um príncipe ou princesa.

As crianças necessitam de amor, e isso é tudo!

O amor que é doado sem cobranças, o amor que vem das profundezas do nosso ser e desabrocha num belo desenho feito pelo aluno pequenino ainda ou pela tarefa de casa que veio toda rabiscada porque ele ainda não sabe escrever, mas esforçou-se para fazer. A criança necessita de amor.

Na minha infância tive professoras que tornaram-se encantadoras. Aquelas que pegaram na minha mão para me ensinar a cobrir as letrinhas e aprender a ler, aquelas que me ensinaram a desenhar e elogiaram os meus mais feios rabiscos e aquelas que elogiaram o meu trabalho escolar malfeito, mas que era o tudo que eu podia oferecer como uma menininha de seis anos apenas.

Pedagogia do olhar de Rubem Alves.

Há professoras que tornam-se encantadoras por guardarem nas suas mochilas os desenhos dos seus alunos ou algo que faça lembrar deles quando distantes. Recordo-me que uma professora amiga trazia na bolsa o exercício de matemática de um aluno seu só para lembrar dele no fim de semana quando não o via. Que encanto!

Por que as professoras tornam-se encantadoras? Acho que porque elas sabem as singularidades das crianças, suas ânsias e desejos para tornar o mundo melhor.

A professora que compra mamão e melancia para as suas lagartixas fez-me lembrar de uma outra que contava as moedas para comprar pipocas para os seus alunos.

Parece um pouco tolice o que escrevo aqui, porém em se tratando de um mundo individualista, de ideias rápidas, de falta de amor ao próximo, de valorização dos super-salários, as professoras que destacam-se como encantadoras pelas suas lutas de dias melhores são as mais amadas pelos seus alunos.

Como é bom ser amado num mundo onde os laços afetivos estão cada vez mais frágeis.

Existe encanto na professora que cria lagartixas, assim como existe encanto na professora que ensina aos seus alunos a protegerem o meio ambiente e não maltratarem os animaizinhos. Ela é apenas uma professora que compra mamão e melancia para duas lagartixas e daí? Daí que ela sabe valorizar o amor e os seres vivos. As lagartixas sofrem danos por parte de muitas pessoas que as desprezam ou por medo ou por perversidade, cortando os seus rabos ou matando-as com pedradas.

Ainda penso que há professoras que encantam-se quando morrem de tão maravilhosas que são! As professoras que andam quilômetros até chegar à escola para dar aula aos seus aluninhos, as professoras que compram o giz para escrever no quadro-negro, as professoras que contribuem com o bem-estar das criancinhas que chegam na escola com febre ou falta de ar.

Oração do professor e da professora – Gabriel Chalita.

 Há professoras encantadoras que abrem janelas em salas de aulas cheias de paredes quentes e sem cor. E há aquelas que põem flores na mesa só para perfumar a sala de aula.

As professoras encantadoras são geradas em salas de aulas muitas vezes de cidadezinhas que nem constam no mapa do Brasil. E é para essas professoras que deixo o meu pequeno texto de hoje, porque comprar mamão e melancia para uma lagartixa é o mesmo que comprar anéis à terra.

Viva as professoras que se encantam pelas estradas de barro do nosso Brasil brasileiro que é um gênio em criar professoras encantadoras.

Eu creio na força do professor e da professora.

 

Destaques Protagonistas da Educação

Assumimos compromisso com a educação, promovendo os sujeitos que atuam nela.

A educação se faz com gente, e gente precisa de reconhecimento!

Todos somos sujeitos da educação. Na medida em que nos envolvemos com o conhecimento comprometido com a humanização, contribuímos para tornar cada ser humano, e todos os seres humanos, um pouco melhores. O conhecimento faz sentido quando ele potencializa as atitudes e os sentimentos humanos, tornando-nos mais livres, mais encorajados para viver, mais solidários e mais comprometidos com a felicidade da gente e de todo mundo.

Queremos destacar o esforço, a criatividade e a ousadia de quem faz a educação acontecer: pais, alunos, professores e professoras, diretores de escolas, coordenadores e coordenadoras, individualmente, ou no seu conjunto. Queremos também destacar as iniciativas pedagógicas que deram resultados interessantes em cada contexto escolar.

Além da ousadia e da paixão de ensinar, em tempos tão difíceis como o nosso, queremos sempre destacar o profissionalismo e o compromisso ético que todos assumimos quando decidimos atuar na educação.

Queremos indicar caminhos e referências pedagógicas, longe de fórmulas mágicas ou falsos malabarismos educacionais.

Acreditamos que aqueles que fazem a educação é que deveriam ser os verdadeiros protagonistas de sua promoção. Outros profissionais podem e devem colaborar com a educação, mas não devem ser os porta-vozes dela.

 

Nei Alberto Pies,
editor do site

 

 

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