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Destruição de uma arma popular

Você já pensou como os trabalhadores e trabalhadoras se organizarão em defesa de seus direitos sem sindicatos? Ou com sindicatos frágeis, sem estrutura e sem dinheiro para organizarem as lutas e movimentos?

 

Nos últimos dias ouço falar muito sobre a lei que institui o fim da obrigatoriedade com o imposto sindical, inclusive vejo pessoas se posicionando a favor e outras contra nas redes sociais. Assim, senti-me desafiado a escrever a cerca desse tema que envolve a organização da sociedade. Isso implica em entender a luta de classes travada há muitos anos.

Para que minha escrita torne-se entendível me disponho a fazer um retrospecto histórico para que muitas pessoas, inclusive você que agora está lendo o meu texto, possam se dar conta que isso vai além do que apenas livrar o trabalhador do desconto. E começo com algumas perguntas: Você sabe o que é luta de classes? Você se enxerga de qual lado, daqueles que criaram a lei ou do lado daquele que com suor encara um dia de trabalho e pouco é valorizado?

Primeiramente, necessário entender que houve uma classe que só conquistou o direito de viver dignamente com batalhas e muito sangue e é dessa classe, que com clareza, eu me vejo inserido. Essa luta inicia aqui nessa terra, baseando-se nos anos de 1500, em que todos os indígenas viam a terra como sendo parte dela, para ilustrar trago a famosa frase por eles cultuada: “Somos da terra e ela é parte de nós”.

Um dos mais importantes manifestos ecológicos, a Carta do índio Seatle ao presidente americano que desejava comprar terras indígenas.

Com a chegada dos portugueses essa filosofia de vida cai por terra. A terra que era para todos passa a representar um triunfo por parte dos europeus. Com isso, havia uma necessidade de escravizá-los e isso perdura por muitos anos até que um dia a classe mais fraca, o índio, percebeu que necessitava se organizar para se defender. Surge então, a primeira organização social em busca de direito, Confederações dos Tamoios.

Sempre há em jogo um capital, que por consequência, representa o poder entre duas classes. Uma que suga e a outra que é sugada. E por isso, passamos por várias organizações sociais, a maioria delas com a terra representando o triunfo para o poder, porque esse de define com quem tem mais ou àquele que domina mais.

A Cabanada luta sangrenta e desumana, porém o povo do Pará não baixou a cabeça. A Balaiada que ocorreu no Maranhão contra o recrutamento do exército. Tivemos a histórica escravização dos negros que demanda luta até hoje, mas historicamente a organização que se rebelou contra essa desumana opressão foi o Zumbi dos Palmares e seu povo. Tivemos no Nordeste muitas lutas de classe e por terra, porém uma que merece destaque é Canudos. Nas décadas de 70, 80 e 90 tivemos um levante de lutas populares sociais que teve como fomento a igreja católica, na famosa organização das Comunidades Eclesiais de Bases (CEBs), tendo como luta travada em torno da divisão da terra dignamente e dos direitos fundamentais do cidadão. Com isso, nasce o MST (Movimento dos trabalhadores Sem Terra).

Nesse momento histórico a luta se estabelece contra o poder instituído e governamental. Nesse período, há que se dizer que os sindicatos dos trabalhadores tornam-se evidentes e fortes nessa época, tornando a principal arma contra os opressores.

Para entendermos um pouco esses movimentos, organizações sociais sempre pra se fortalecerem com os poderosos demandavam de ajuda, no caso a contribuição. E a ideia de quem está numa ponta do iceberg é destruir tudo o que tem possibilidade de dar poder a classe trabalhadora.

A contribuição sindical deixar de ser obrigatória é a destruição de um poder que os trabalhadores tinham e tem para que os direitos dos cidadãos pela educação, saúde, segurança e agricultura de subsistência sejam garantidos.

Com a lei impedindo que se arrecade, os sindicatos ficarão enfraquecidos e, por consequência, a classe trabalhadora não pressiona para que o governo preze pela classe que mais necessita. Por outro lado, fica fácil para o governo garantir os grandes investimentos para as empresas privadas, na grande maioria, aquelas que os elegeram e ajudam a se manter no poder esmagando a grande massa que depende do suporte do Estado. Com isso, as questões básicas e sociais do cidadão que paga o imposto ficam de lado, com a desculpa que não há dinheiro. Exemplo claro que estamos vivenciando no país e no estado.

Atitude vergonhosa! Não podemos ser ingênuos. Organizar um movimento de luta de garantias sociais custa dinheiro, por exemplo, levar os sindicalizados até a capital e garantir alimentos, hospedagem. Ou vocês que já, por vezes, hospedaram-se no CPERS acham que para manter isso tudo não depende de dinheiro? Sem contribuição sindical tira-se o poder de luta de qualquer sindicato. E aí, meus amigos, fácil os governos pintarem e bordarem com o dinheiro público.

 

Conheça e acompanhe o trabalho do combativo sindicato dos professores estaduais do Rio Grande do Sul, CPERS.

http://cpers.com.br/

É claro que o discurso usado não é esse, porque senão você encararia diferente. O discurso vendido e comprado, infelizmente, por muitos trabalhadores é que, torna-se absurdo obrigar que o trabalhador contribua “com esses sindicatos”.

Trago para compartilhar com vocês um texto maravilhoso que resume o que eu quero expressar sentimentalmente aqui. Esse texto chama-se O Povo de Eça de Queiroz:

 

 

O povo

“Há no mundo uma raça de homens com instintos sagrados e luminosos, com divinas bondades do coração, com uma inteligência serena e lúcida, com dedicações profundas, cheias de amor pelo trabalho e de adoração pelo bem, que sofrem, que se lamentam em vão. Estes homens são o POVO.

Estes homens estão sob o peso de calor e de sol, transidos pelas chuvas, roídos de frio, descalços, mal nutridos, lavram a terra, revolvem-na, gastam a sua vida, a sua força, para criar o pão, o alimento de todos. Estes são o POVO, e são os que nos ALIMENTAM.

Estes homens vivem nas fábricas, pálidos, doentes, sem família, sem doces noites, sem um olhar amigo que os console, sem ter o repouso do corpo e a expansão da alma, e fabricam o linho, o pano, a seda, os estofos. Estes homens são o POVO, e são os que nos VESTEM.

Estes homens vivem debaixo das minas, sem o sol e as doçuras consoladoras da Natureza, respiram mal, comendo pouco, sempre na véspera da morte, rotos, sujos, curvados, e extraem o metal, o minério, o cobre, o ferro, e toda a matéria das indústrias. Estes homens são o POVO, e são os que nos ENRIQUECEM.

Estes homens, nos tempos de lutas e crises, tomam as velhas armas da Pátria, e vão, dormindo mal, como machas terríveis, à neve, à chuva, ao frio, nos calores pesados, combater e morrer longe dos filhos e das mães, sem ventura, esquecidos, para que nós conservemos o nosso descanso opulento. Estes homens são o POVO, e são os que nos DEFENDEM.

Estes homens formam as equipagens dos navios, são lenhadores, guardadores de gado, servos mal retribuídos e desprezados. Estes homens, são os que nos SERVEM. O POVO

“Há no mundo uma raça de homens com instintos sagrados e luminosos, com divinas bondades do coração, com uma inteligência serena e lúcida, com dedicações profundas, cheias de amor pelo trabalho e de adoração pelo bem, que sofrem, que se lamentam em vão. Estes homens são o POVO.

Estes homens estão sob o peso de calor e de sol, transidos pelas chuvas, roídos de frio, descalços, mal nutridos, lavram a terra, revolvem-na, gastam a sua vida, a sua força, para criar o pão, o alimento de todos. Estes são o POVO, e são os que nos ALIMENTAM.

Estes homens vivem nas fábricas, pálidos, doentes, sem família, sem doces noites, sem um olhar amigo que os console, sem ter o repouso do corpo e a expansão da alma, e fabricam o linho, o pano, a seda, os estofos. Estes homens são o POVO, e são os que nos VESTEM.

Estes homens vivem debaixo das minas, sem o sol e as doçuras consoladoras da Natureza, respiram mal, comendo pouco, sempre na véspera da morte, rotos, sujos, curvados, e extraem o metal, o minério, o cobre, o ferro, e toda a matéria das indústrias. Estes homens são o POVO, e são os que nos ENRIQUECEM.

Estes homens, nos tempos de lutas e crises, tomam as velhas armas da Pátria, e vão, dormindo mal, como machas terríveis, à neve, à chuva, ao frio, nos calores pesados, combater e morrer longe dos filhos e das mães, sem ventura, esquecidos, para que nós conservemos o nosso descanso opulento. Estes homens são o POVO, e são os que nos DEFENDEM.

Estes homens formam as equipagens dos navios, são lenhadores, guardadores de gado, servos mal retribuídos e desprezados. Estes homens, são os que nos SERVEM.

E o mundo oficial, opulento, soberano, o que faz a estes homens que o vestem, que o alimentam, que o enriquecem, que o defendem, que o servem? Primeiro, despreza-os; não pensa neles, trata-os como se fossem bois; deixa-lhes apenas uma pequena porção dos seus trabalhos dolorosos, não lhes melhora a sorte, cerca-os de obstáculos e de dificuldades, forma-lhes em redor uma servidão que os prende e uma miséria que os esmaga, não lhes dá proteção; e, terrível coisa, não os instrui, deixa-lhes morrer a alma. É por isso que os que têm coração e alma, e amam a JUSTIÇA, devem lutar e combater PELO POVO.

E ainda que não sejam escutados, têm na amizade dele uma consolação suprema.”

Eça de Queirós (1845-1900)

Descubro e aprendo que sabedoria política e reconhecimento de classe não estão nos diplomas acumulados. Descobri isso com meu pai dias atrás. pois qual minha surpresa, ao chegar na casa do meu pai há poucos dias atrás, (há que se dizer que meu pai não sabe ler), disse-me: – “Pois é, então agora ficou do jeito que “eles” queriam, vão acabar com a organização social, pois para fazer pressão aos grandes na briga da fatia que toca aos pobres, ficou difícil. Agora, os governos que gostam de tirar direitos e massacrar o povo, ficou moleza”. Meu pai se referia ao fim da obrigatoriedade à contribuição sindical.

Ao ouvir isso de meu pai, fiquei por um lado encantado porque veio isso da boca do meu pai, porém, me dei conta, no exato momento, de que consciência política e reconhecimento de classe não vem de canudos (diplomas), tão pouco vem de pessoas que sabem ler, porque não foi o que ouvi de muitos meus colegas professores “letrados”.

Portanto, nem tudo o que sai da boca de quem faz e vota as leis é o que meramente devemos comprar, pois no caso do fim da contribuição sindical é mais um engodo desses governos neoliberais e opressores como temos hoje. Na verdade, é uma destruição da arma do povo que amedronta os que querem que a classe trabalhadora sustente as mordomias e as riquezas da minoria.

O Natal é da família

Que é o Natal? É a ternura do passado,
o valor do presente e a esperança do futuro.
É o desejo mais sincero de que cada xícara se encha com bênçãos ricas
e eternas, e de que cada caminho nos leve à paz. (Agnes Pharo)

 

A festa de Natal permite que revivamos os dramas, as alegrias, os encontros e os desencontros familiares. As festas natalinas e de final de ano são um convite para celebrar a mágica dos nascimentos e renascimentos de nossas vidas.

Quantas de nossas famílias, hoje, buscam um novo sentido e uma oportunidade para renovar os laços que as mantém ou as constituem? Quantos lares esperam que a celebração de mais um Natal harmonize as suas relações e renove as esperanças de que a vida pode ser melhor? Quantos filhos, pais e mães não desejariam renovar suas vidas, reinventando os seus papéis e as suas responsabilidades? Quantas coisas, num só Natal, em um único dia do ano.

Os filhos crescem, formam suas próprias famílias e, muitas vezes, deixam que a vida os afaste de seus pais velhinhos que acabam ficando em segundo plano. Veja esta mensagem com uma surpreendente história que envolve uma pessoa idosa e seus filhos.

Vivemos num tempo em que a afirmação exagerada de nossas individualidades gera vazios existenciais muito grandes, levando à depressão, desgosto e desilusões. Não valorizamos como deveríamos a memória, a coletividade e a convivência.

Conta hoje sermos livres: sem vínculos com nada e com ninguém. Será que vale a pena acreditar nisso? Existe outro caminho?

As famílias são cobradas por uma responsabilidade que nem sempre sozinhas conseguem arcar. As relações na família, como na sociedade, estão fragilizadas, exigindo de cada um e cada uma de nós um maior zelo, cuidado e proteção de uns para com os outros. Por isso mesmo que as nossas famílias serão melhores na medida em que investirem mais tempo, mais amor e mais energia nas suas relações.

A experiência das famílias é sempre comunitária, de compartilhamento de sabores e dissabores.

As famílias estão desafiadas a fortalecer as relações de convivência por todos os que as compõem.

História de Natal contada por Benício Rios.

O Natal, com sua energia e inspiração, pode ser uma grande oportunidade de reconciliação das famílias. A família não é uma ideia e nem uma fórmula para a gente oferecer como solução para os problemas do ser humano e da humanidade, mas ainda revela-se o mais completo “porto seguro” e lugar de intensa convivência e humanização.

A família é a maior referência para a vida pessoal e comunitária, portanto, lugar para a realização de nossa felicidade.

O amor é a mais revolucionária das armas que a humanidade já construiu para gerar seres humanos livres, solidários, abertos, comprometidos com a permanente defesa e promoção da vida.

O amor precisa ser reinventado, assim como as formas como convivemos e nos promovemos gente/ser humano. Promovamos, neste Natal, as famílias como o melhor lugar para nos fazermos gente. Acreditemos na magia que só o amor é capaz de mudar. O Natal, esta festa cristã, pode comprometer o nosso coração, a nossa alma e as nossas energias para uma vida na dignidade.

O Natal em família não é uma festa de ocasião, mas uma oportunidade para as famílias revisarem as suas relações, projetos e perspectivas. Aproveitemos o Natal para nos humanizar. Humanizar é nosso maior trabalho e desafio como ser humano. Viver sozinho e só não vale a pena! Que o Natal tenha a força para nos inspirar para a vida que se faz sempre solidária.

Vídeo emocionante sobre o Natal.

Um curso de religiões de matriz africana: por muitos caminhos

Abordar as religiões de matriz em um curso de extensão significa
trazer para o território da universidade os sujeitos que constroem essas tradições religiosas. Nosso objetivo era valorizar os saberes tradicionais das religiões de matriz africana, desfazendo noções discriminatórias e racistas, a partir da troca de saberes entre as comunidades acadêmica, passo fundense e o povo de santo.

 

O final do ano se aproxima e é hora traçar as perspectivas para o próximo. Para isto, proliferam-se orientações ritualistas das mais diversas tradições religiosas para essa transição. Contudo, neste período nenhuma outra religião é mais lembrada que as de matriz africana.

Ialorixás e babalorixás são chamados para programas de televisão para previsões do ano, segundo o orixá regente do ano. Não são raras as vezes observar pessoas pulando as 7 ondas na praia. O que faz com que a relação com as religiões de matriz africana fique restrita somente a estes dias? Ou, em outras palavras, por que os rituais destas religiões não estão presentes em outros períodos do ano? Qualquer resposta à essa pergunta é complexa. Contudo, uma possível pode estar no racismo presente na sociedade brasileira.

No ano de 2016, pelo projeto de extensão UPF e Movimentos Sociais: desafio das relações étnico-raciais, coordenei o curso de extensão em saberes tradicionais: religiões de matriz africana. O curso foi ministrado por mim, pela Ialorixá Carmem Holanda (de uma tradição do candomblé), Baba Akinele (do batuque), com auxilio do Laboratório de Estudo das Crenças (LEC/PPGH) representado pela professora Gizele Zanotto e o estudante extensionista Jeferson Sabino e com o apoio das seguintes entidades: Associação Cultural das Mulheres Negras, Comissão de Direitos Humanos de Passo Fundo, Coordenadoria de Promoção da Igualdade Racial, Sociedade Beneficente e Cultural Ilê Asé Alafim Oba Aganjú Jetioká (Carazinho), Egbé Asé Akinele, Associações dos Remanescentes dos Quilombos da Arvinha e Mormaça (Sertão), IFSUL, Grupo Alforria/Confraria de São Miguel.

A Universidade, pelo seu methier acadêmico, com muros quase intransponíveis, estabelece uma relação de distanciamento com as religiões de matriz africana. Estas, em alguma medida, na maioria das vezes, são concebidas como objetos de nossos projetos acadêmicos. Mas, este não era nossa abordagem.

Abordar as religiões de matriz em um curso de extensão significa trazer para o território da universidade os sujeitos que constroem essas tradições religiosas. Nosso objetivo era valorizar os saberes tradicionais das religiões de matriz africana, desfazendo noções discriminatórias e racistas, a partir da troca de saberes entre as comunidades acadêmica, passo fundense e o povo de santo.

No curso de extensão compreendemos saberes tradicionais como aqueles construídos a partir de uma identidade própria, história partilhada, memória e um território, que lhes permite desenvolver relações próprias e diferenciadas com a natureza, tanto no plano simbólico quanto no campo das técnicas e modos de fazer e produzir, distintas daquelas existentes nas sociedades urbano-industriais (Cunha, 2007).

As religiões de matriz africana estão baseadas em saberes construídos a partir de tradições orais que ancestrais, orientados por valores simbólicos que fogem à lógica burocrático-racional. Cada ialorixá traz consigo o saber acumulado, através de experiências transmitidas do passado, durante o contato social do grupo – nas instituições familiares, religiosas, educativas.

Esses saberes tradicionais africanos tomaram conta da UPF, em dez encontros temáticos que contemplavam a diversidade das religiões de matriz africana, culinária e orixás, linguagens e atabaques, natureza e cura, intolerância religiosa, que culminaram na formatura. Contudo, alguns encontros foram realizados no ile Igbè Asè Akinele como forma de ir ao encontro dos territórios destas tradições. O curso tinha como participantes estudantes da UPF e professores da UPF e da rede pública de ensino, das áreas do direito, jornalismo, publicidade e propaganda, serviço social, educação, história, psicologia, que estavam dispostos a colocar as lentes da matriz africana. A sala de aula, como templo de produção do conhecimento, com folhas de árvore dispostas ao chão fora transformada simbolicamente num terreiro.

É importante que a universidade contribua, não na visibilidade destas religiões, mas na construção de uma outra perspectiva sobre elas. As religiões de matriz africana, em muitas vezes, na sociedade brasileira, são classificadas como categoria de acusação. Neste sentido, as universidades têm um papel fundamental ao combater concepções discriminatórias e racistas. Porém, este posicionamento não pode ficar somente no plano téorico, ele necessita ser publicizado.

A formatura do curso de saberes tradicionais foi um momento importante no qual a universidade reconheceu os saberes produzidos por essas tradições religiosas. São saberes orientados por parentescos entre pessoas e divindades que constróem vidas, por mãos calejadas, que no soar dos atabaques, informam uma orixalidade, por corpos, construidos ritualmente, que ao transgredir tempo e espaço, nos ressignificam no axó e que merecem respeito e reconhecimento.

Portanto, as religiões de matriz africana devem ocupar os espaços da sociedade. Eles podem nos ensinar a reestabelece nossos vínculos com a natureza, com os nossos ancestrais, com o nosso corpo. São saberes recheados de afeto, tão raros em nossa sociedade, que não podem ficar restritos ao final do ano de forma tão caricata.

Referências bibliográficas

CORREA, Norton Figueirado. O batuque do Rio Grande do Sul: antropologia de uma religião afro-rio-grandense. São Luis: Cultura e Arte, 2006.

CUNHA, Manuela Carneiro da. Relações e dissensões entre saberes tradicionais e saber científico. REVISTA USP, São Paulo, n.75, p. 76-84, setembro/novembro 2007, Disponivel em http://www.revistas.usp.br/revusp/article/view/13623/15441.

PRANDI, Reginaldo. O CANDOMBLÉ E O TEMPO Concepções de tempo, saber e autoridade da África para as religiões afro-brasileiras. RBCS Vol. 16 nº 47 outubro/2001. Disponível em http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-69092001000300003.

Documentários

Atlântico Negro – Na Rota dos Orixás. Disponível aqui.

A Tradição do Bará do Mercado – Documentário Completo – Porto Alegre/RS. Disponível aqui.

 

Crédito foto: Ingra Costa e Silva
Autor: Frederico Santos dos Santos
Coordenador do Curso de Especialização em Ciências Sociais – 2ª Edição
Professor do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais
Universidade de Passo Fundo

Excesso entre partilha e conflito

Dinheiro também é importante, sem ele não teríamos atualmente nem o chimarrão, e muito menos talvez o cachorro. Sem contar na comida. Mas não deixe ele se tornar o centro e o fim de tudo. Na falta de comida, ainda conseguimos encontrar alguém que reparta a sua. No excesso de dinheiro, há mais partilha ou mais conflito?

 

Era uma tarde de dezembro. O sol estava forte, mas o vento trazia consigo uma brisa fresca. Acabara de comer uma fatia de melancia, deixada pelo namorido em cima da mesa da cozinha. Logo após, coloquei uma roupa velha para então começar a realizar os serviços que me esperavam.

Da sala ao banheiro vem em minha mente a imagem de meu namorido trajado em vestimentas de guerra, com armas em punho, pronto a sair de casa para algum combate, a princípio inexistente. Não pode haver sensação pior.

As notícias que haviam chegado pelo celular tinham proporcionado tal pensamento: “O exército brasileiro convocava reservistas em situação de disponibilidade”.

Acredito que o objetivo de tal convocação não tenha ligação nenhuma com o meu pensamento, contudo não pude deixar associá-las aos últimos acontecimentos internacionais, em que EUA e Coreia do Norte “provocam-se” simultaneamente em testes com bombas, entre outros.

A possibilidade de um confronto talvez, ou de uma simples troca de farpas, já poderia estar mobilizando os setores ligados a estes assuntos no Brasil. Mas acima disso, me fez lembrar os horrores do passado.

Filhos, Namorados, Irmãos, Tios, Primos, Maridos, tirados de suas casas e enviados a milhares de quilômetros de distância para lutar por algo que em algumas vezes nem sequer acreditavam ou então eram levados a acreditar.

Não estou assim redimindo o motivo da guerra contra os alemães na Segunda Guerra Mundial, porém analisando o que se fez com essa vitória no futuro, e de certa forma criticando os rumos tomados mundialmente em diversas questões, principalmente as do capital e de utilização dos resquícios de guerra.

Imaginar que não terei mais aquela fatia de melancia deixada em cima da mesa, ou então aquele beijo antes de partir para o trabalho, deixou-me preocupada. Ao mesmo tempo, penso em tantas outras pessoas que perderam essas sutilezas e os pequenos prazeres diários da vida, durante os mais diversos confrontos por esse mundo.

No nosso futuro é incabível que ainda tenhamos conflitos, e com a maior tranquilidade na utilização e demonstração do poderio bélico e militar dos países. É claro que há muitas disputas rolando em vários âmbitos, e acerca de muitos assuntos, porém não utilizar a conversa para resolvê-las parece-me insensato e de certa forma estúpida, em mundo que construiu e desenvolveu as mais variadas tecnologias.

Até mesmo no meio rural de muitas das regiões do nosso Brasil, que até os anos 2000 era chamado de atrasado, resolve-se os problemas na base do diálogo. É claro, onde se quer manter a dita ordem e um mero respeito a qualquer custo, ainda utilizam dos massacres, da escravidão, do preconceito, entre tantas outras formas de submissão da população a determinadas vontades e desejos.

Os muitos motivos que levaram as guerras anteriores, já foram praticamente perdoados, e discutidos nos tribunais de justiça de todo mundo. O que nos resta é refletir o que buscamos para a nossa sociedade nestas próximas décadas. Não somente refletir, mas conversar com o vizinho, o amigo, e cada um em sua singela residência colocar o que acredita em prática, sendo ele o bem ou o mal.

Espero que estejas a praticar o bem, e a querer o bem. Isso envolve aquele chimarrão no fim da tarde com os teus pais e filhos, naquela hora em que tiraste de tua cabeça o que não lhe deixa feliz, como ter que bater uma meta de produtividade para ter um dinheiro a mais no fim do mês.

Osvaldir e Carlos Magrão – Roda de Chimarrão

Que estejas levando teu cachorro passear e curtindo o sol se pôr entre as árvores, do que olhando e ouvindo as necessidades que o teu chefe te coloca, porque isso vai ser importante para a lucratividade da empresa.

Dinheiro também é importante, sem ele não teríamos atualmente nem o chimarrão, e muito menos talvez o cachorro. Sem contar na comida. Mas não deixe ele se tornar o centro e o fim de tudo. Na falta de comida, ainda conseguimos encontrar alguém que reparta a sua. No excesso de dinheiro, há mais partilha ou mais conflito?

Seja um agente de sua mudança. Inspire-se!

Morar na França para estudar

Apresentamos nossa última entrevista de 2017 com o professor Jandir Pauli, que fez a experiência de muitos professores e estudantes que complementam seus estudos em países fora do Brasil. A experiência do professor Jandir Pauli serve como inspiração para o desejo de quem também estudar ou complementar seus estudos em países como a França.

 

O que te levou a conhecer e morar na França?

Posso dizer que viver na França foi um projeto de longo prazo. Meu interesse para conhecer e viver neste país iniciou nas primeiras aulas de história no ensino fundamental e médio e seguiu durante os debates acadêmicos nos cursos de Filosofia e Sociologia. Mas esse projeto somente se mostrou viável recentemente. Após uma série de tratativas, fui aceito pela Université Paris IV – Sorbonne, para realização de um estágio doutoral de sete meses. Recentemente voltei a residir no país durante mais 6 meses para realização do pós-doutorado, também na Sorbonne, e sempre que possível volto à Paris para atividades de pesquisa com meu orientador Prof. Philippe Steiner.

 

Como foram os preparativos para morar no país?

Para poder morar em Paris foram necessárias três ações importantes: a primeira foi aprender o idioma, já que para ser aceito eu deveria comprovar proficiência no teste oferecido pela Aliança Francesa. Fiz um curso durante um ano em Passo Fundo e mais dois meses em Porto Alegre, onde realizei a prova.

A segunda ação foi aprovar meu projeto de pesquisa na CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal Superior) para obter uma bolsa de estudos. Qualquer pessoa que pretende morar em Paris precisa considerar que o custo de vida na cidade é bastante elevado… Mas deu certo! O projeto foi aprovado e eu pude contar com uma bolsa de estudos durante todo o período do estágio doutoral e também no pós-doutorado.

A terceira ação foi conseguir a liberação das atividades de docente na Faculdade Meridional IMED. Felizmente esta foi a parte mais fácil, dado que a instituição conta com um programa de apoio para realização de intercâmbios no exterior.

Conhecendo o idioma, com bolsa de estudos e liberação das atividades profissionais, tudo começou a se ajustar e três meses após eu já morava na Cité Universitaire de Paris. Um parque que reúne casas de estudantes de pelo menos 40 países, concentradas em um campus confortável e com uma vida acadêmica efervescente.

Minha primeira vivência em Paris foi em 2010. Cheguei no outono e a cidade estava exuberante. Clima agradável, chão coberto com as folhas douradas dos plátanos, um transporte coletivo incrivelmente eficiente. Posso dizer que a adaptação foi fácil. Logo que cheguei iniciaram as atividades acadêmicas e a agenda de estudos foi dando a lógica da minha permanência. Também pudera, meu espaço de estudos era a Maison de La Recherche, situada na área central, próximo à catedral de Notre Dame, Jardin du Luxembourg, Phanteon e vários outros importantes pontos turísticos.

 

Do que você mais gostou na França?

Um dos aspectos que mais chamou-me à atenção é a dimensão cosmopolita da cidade. Isto ficava evidente não somente pela quantidade de colegas estrangeiros na universidade, mas pela atenção aos ideais republicanos da liberdade, igualdade e fraternidade. Aos poucos foi possível descobrir a cidade para além dos a monumentos e pontos turísticos clássicos.

 “Esta foi a melhor parte: aprender a cultura do país, especialmente suas festas, comidas típicas, música e estilo de vida. Os franceses se orgulham não somente da sua tradição na política, filosofia, arte e ciências. Prezam por uma alimentação saudável e adoram discutir as questões da cidade nos cafés e brasseries”.

Claro que é preciso considerar que a cultura do interior da França é sensivelmente diferente da cultura parisiense. Não pude conhecer todo país, mas mesmo em cidades de porte médio ou grande como Grenoble, Marseille ou Boudeaux, há uma preocupação em manter o modo de vida francês. Por exemplo, é impressionante observar como eles se preocupam com a alimentação. O tempo dedicado às refeições é em torno de uma hora, a qualidade dos alimentos é superior e nota-se um prazer em ser gourmand (comilão). E mesmo assim, a obesidade está longe de ser problema de saúde pública…

Paris, embora preserve grande parte das características do interior, parece estar mais preocupada com a cultura universal. Seja pelos mais de 200 museus ou pelas incontáveis exposições, feiras e atividades culturais. As universidades atraem estudantes do mundo todo e há uma evidente valorização do pluralismo e da diversidade.

E como toda grande metrópole, Paris vive problemas que se colocam como grandes desafios. A poluição urbana atingiu níveis alarmantes e está exigindo reações de vanguarda. Além disto, a emergência do terrorismo, o recente fluxo migratório global e relação difícil com as ex-colônias na África representam uma séria ameaça.

Mesmo com este cenário, percebe-se nos franceses um otimismo com o futuro. Séculos de história forjados na superação de grandes dificuldades influenciam um comportamento confiante.

Esta entrevista foi publicada na revista impressa Contato Vip, assinada por Camila Docena.

A revista Contato VIP foi fundada em abril de 1993, circulando mensal e ininterruptamente até hoje. Sua sede está localizada na cidade de Carazinho, mas sua circulação se dá em toda a região do planalto médio e região noroeste do Rio Grande do Sul, através de assinaturas, venda em bancas e divulgação dirigida.

Além da edição mensal que aborda temas atuais, com ênfase em sociedade, moda e saúde, a revista Contato VIP publica edições especiais segmentadas, tendo entre os títulos Medicina & Saúde, Casa & Decoração e Eventos & Gastronomia.

Conheça mais aqui.

Política, uma grandeza pátria!

 

A política é a grande estrada
para a mudança, não a mídia,
o judiciário ou o mercado.

 

Temos grandes brasileiros na política, precisamos cada vez mais dar voz a esses e não votar mais nos outros. Dar dignidade e honra aqueles que nos representam no bem comum, é urgente!

Eu gosto de política, a boa política.  Penso ser a política a maior expressão de interesse e inteligência de um povo. Em minhas veias não corre nenhum desejo de destruí-la, mas de aperfeiçoá-la, aprendê-la, respeitá-la, porque pela politica e pelos políticos que nos representam, quando válidos, vocacionados e bons, posso me sentir representada pela voz e pela atuação parlamentar.

Um povo que induzido ou deliberadamente decidido à preguiça política, é um povo pobre e desvalido que, ao invés de ajudar a política a ser o que deve ser, tenta desqualificá-la e destruí-la por puro desinteresse e preguiça de pensá-la, consumá-la em projetos resolutórios, é um povo estúpido.

É um povo autofágico, que auto sabota o próprio bem e se consome em ignorância, superficialidade e demagogia, é um povo fadado a sempre ser dependente, colonizado e paralisado na inteligência capaz de evolução e autonomia.

O ex-presidente e atual senador do Uruguai José Mujica​ recebeu, na semana passada, o título de doutor Honoris Causa da Universidade Federal do Pampa (Unipampa). Ele esteve em Santana do Livramento, na fronteira com o Uruguai, para receber a homenagem. Mujica é uma grande referência para entendermos a verdadeira política.

Não participar seriamente, agir como torcida organizada cega, não ser disponível a verificar cada projeto, cada ação na coerência de vantagem ao povo e a nação é a desgraça de uma pátria.

Aqueles que só sabem generalizar, todos os políticos são iguais, etc, etc, são na verdade grandes convictos e preguiçosos que depois obrigam a todos a pagar as mazelas dos políticos torpes.

O Brasil, neste momento insólito, é uma grande oportunidade para conhecer sobre política, conhecer quem representa a soberania do voto e da nação.

Não, não são todos iguais.

Temos os que nos representam de fato e os que não nos representam, porém para fazer esse julgamento temos que tirar a trave do nosso próprio olho e saber exatamente a quem e por quem fazemos política.

A política do vômito emocional, JUDICIALIZADA, por quanto possa aliviar as tensões provisoriamente, quando estamos raivosos, não é solução para os complexos problemas que a vida em sociedade trás. Solução mesmo é compreendê-los, aceitá-los e trabalhar nas soluções compartilhadas, nas escolhas de representatividades pensadas e levadas a sério, é fazer funcionar colaborando com ideias e qualificando na ação todo e qualquer projeto que venha a melhorar a vida individual e social.

 

No Brasil, no atual momento histórico, orquestra-se uma forma de não fazer política, impondo a racionalidade burocrática e jurídica como fórmula para superar supostas imperfeições e imparcialidades da verdadeira política.
Veja mais aqui.

Temos grandes brasileiros na política, precisamos cada vez mais dar voz a esses e não votar mais nos outros. Dar dignidade e honra aqueles que nos representam no bem comum, é urgente!

A política é a grande estrada para a mudança, não a mídia, o judiciário ou o mercado. A política deve ser feita tanto na inteligência do mercado como na inteligência do bem social, a justiça é o ordenamento de função constitucional, somente isso, e comete grandes atrocidades quando criminaliza projetos claramente benéficos ao povo. Quem não é capaz a isso, não é capaz a política.

Nada, nem ninguém, me fará ter vergonha de ser política, não de carreira, não tenho essa pretensão, mas por interesse verdadeiro no destino do Brasil e do povo brasileiro. A consciência do papel e do valor da política em todo e qualquer gesto que faça a diferença no final resulta em vitória inteligente de um povo.

A saída para os problemas brasileiros é pela política, que se traduz na cidadania ativa das pessoas e no poder de organização dos coletivos que se dispõem a ajudar a dar rumos de uma nação. Passa também pelo fortalecimento dos partidos que, historicamente, estiveram em defesa dos interesses da classe trabalhadora.

Saída para os problemas brasileiros é pela política

Pelo amor a política que faz tudo mudar eu faço e farei tudo que estiver ao meu alcance para que humanamente tenhamos uma vida mais prospera e fértil na consciência de ser uma cidadã ao bem comum. Sou política e a expectativa do bem comum é que me faz pensar e agir também politicamente! Não me envergonho; me orgulho!

Eu me importo SIM!

O que esperam das mulheres?

As mulheres não são propriedade de legisladores, nem de religiões,
nem de instituições, nem de maridos e companheiros, mas são sagradas em sua dignidade.
Há que pedir licença, há que amar, há que respeitar de uma vez por todas aquelas
que trazem em si a sabedoria do mundo.

 

Acostumei-me à ideia de que todos sabem o que convém a nós mulheres. Fui uma criança educada em colégio de freiras, devota católica e filha exemplar em um lar alemão. É pouco?

Conheci a opinião dos homens desde cedo por ter sido uma criança “escutadora” e atenta a comportamentos e às hierarquias socialmente construídas. Acostumei-me a mulheres “culpadas” por tudo, principalmente pela condição de serem mulheres.

Ouvi vezes demais durante a infância, que as meninas são culpadas pelos pecados dos meninos, que o futuro feminino depende do seu comportamento recatado e que obedecer é pressuposto para a felicidade. E obedeci a tudo considerando os deslizes e pecadinhos infantis como falhas morais imperdoáveis. Nem as confissões obrigatórias foram capazes de deixar minha alma “branca como a neve”. Um massacre do qual os meninos passaram batido.

A trajetória da mulher, mesmo que não se perceba, é marcada pelo autoritarismo com que ela é tratada. Tenho observado a luta travada pelas feministas, entre as quais me incluo, por respeito ao seu corpo. Inclui-se nessa luta o direito por decidir sem que seu corpo seja invadido como se fosse uma coisa parecida com terra de ninguém.

O ativismo feminino é transformador. No ocidente do século XX, as mulheres conquistaram o direito de votar, de estudar, de trabalhar ao lado dos homens, de conquistar um lugar em todas as instâncias sociais e políticas, tendo hoje todos os seus direitos assegurados. Há ainda resquícios machistas, que tolhem os plenos direitos que elas conquistaram com tanto fervor.

Ativismo, uma necessidade! – Sueli Ghelen Frosi

Os partos são, em grande medida, a materialização de que temos donos, muitos donos. Submetem parturientes a procedimentos sem que elas façam parte das decisões.  Cortam períneos, úteros, usam fórceps, permitem trabalhos de parto intermináveis, cujo resultado é muita dor, sangramentos, crianças machucadas e a sensação de que o corpo deve aceitar toda sorte de escolhas que raramente são compartilhadas.

As mulheres estão à mercê de quem quiser invadi-las. Estupros e assassinatos acontecem todos os dias, deixando rastros de traumas, gravidezes, doenças, sangue e infelicidade. Cantadas, gracinhas, piadinhas, alfinetadas e perguntas indiscretas são alguns ingredientes que acompanham a trajetória feminina aviltando a dignidade ainda longe de ser consagrada.

Todo dia, de uma forma tão frequente, acabamos naturalizando todo tipo de barbaridade que a sociedade nos submete. E aí, você ia querer ser mulher numa sociedade como esta?

Todo mundo quer ser mulher?

As discussões sobre aborto são surreais, chegando-se às raias de negar atendimento digno a mulheres vítimas de estupro. Àquelas cuja gravidez é inviável é imputada a pecha de assassina de incapaz, ao invés de merecer acolhimento e compaixão. Cabe às mulheres tomar em suas mãos as decisões que dizem respeito ao seu corpo, pressuposto mais do que civilizatório.

As mulheres não são propriedade de legisladores, nem de religiões, nem de instituições, nem de maridos e companheiros, mas são sagradas em sua dignidade. Há que pedir licença, há que amar, há que respeitar de uma vez por todas aquelas que trazem em si a sabedoria do mundo.

Os corpos femininos já encharcaram o mundo com seu sangue e com suas lágrimas. Sejam bem-vindos os homens feministas, que de tão maravilhosos, são muito mais homens do que seus pares movidos pela prepotência machista.

 

O que nos faz humanos?

O homem, diz Heidegger, é criador de mundos. Eu concordo com ele. A pergunta que fica no ar é: em que mundo você vive?

 

Tenho prazer em pensar perguntas sem respostas que sejam definitivas. É a mania dos filósofos, perguntar, lá onde o senso comum não vê problema algum.

Os teólogos também fazem perguntas essenciais, mas eles sempre são socorridos pelo além, pela revelação que vem de fora. O filósofo não. O filósofo está no limite da razão. No máximo pode ter intuições e inspirações humanas, demasiadas humanas, mas nunca divinas. O que lhe é limite é, contudo, sua grandeza.

Falar a partir do não absoluto é libertador, pois é com menos pretensão e responsabilidade nas costas.

Paulo Freire deixou explícita a sua consciência de que todo conhecimento é inacabado, no sentido de que é um processo que se desenvolve continuamente.

Pensar livremente, eis a primeira tentativa de dizer o que nos faz humanos, que remete a uma segunda. Errar também nos faz humanos.

Os animais não humanos não erram. Os animais não humanos são perfeitos e estão mais próximos de Deus do que dos humanos. Os humanos não, os humanos, erramos. Erramos episteme e moralmente. Erramos na emissão de opiniões e erramos quando pretendemos conhecer, inclusive cientificamente.

O que faz o avanço da ciência não é o conhecer comprovado, mas o erro e a falseabilidade que torna todo conhecimento, sempre provisório. Erramos moralmente. E como erramos moralmente! E é humano que assim seja.

Os que se acham bons são, a bem da verdade, risíveis. Eu rio dos que se dizem do “bem”, “nós do bem” etc. São dignos de pena os que se dizem “do bem”. Falta-lhe humildade, que é o que nos faz, verdadeiramente, humanos, pois viemos do “húmus”.

Rir é outra coisa que nos torna humanos. O humano é o único animal que ri. Rir nos faz humanos, porque rir é uma faculdade do espírito. O animal não humano não ri. Ele é perfeito. Nada lhe falta e nada há de sobra nele. Em nós não.

No humano o espírito nos torna livres, mas a liberdade instaura em nós a falha, o erro, o tropeço. E no tropeço, o riso. O palhaço é o que erra e no erro nós rimos. O palhaço está aí para nos recordar que somos humanos, falhos e contra a lógica. O riso é o tropeço na lógica.

O riso é também a nossa salvação. O bom humor nos salva. Humanos sérios demais, os executivos do mercado, ou os pragmáticos sisudos, são, sobretudo, inumanos. Eles se acham, mas são uns robôs…

Rir é a salvação. Rir, inclusive, dos que desferrem golpes querendo tirar o nosso bom humor… Imagine alguém querendo se enforcar. Se no ato de dar um chute na escada, para que o peso livre do corpo pressione a corda e o nó o sufoque, se nesse ato ele conseguir rir do que está fazendo, então, estará salvo…! Rir é o princípio da vida. Não leve a vida tão a sério, ria!

O que mais nos define como humanos? O pensamento? Mas animais também pensam. A linguagem? Mas animais não humanos também se comunicam. A sociabilidade e a politicidade? Mas animais também convivem e organizam a convivência. A moral e a religião? Os animais são até melhores do que nós na empatia, na ajuda e amor ao próximo… Religião? Haverá melhor religião do que fazer o que tem que ser feito? E os animais fazem com, perfeição, tudo o que fazem. Não seria isso um ato religioso de religamento com o ser primordial? Observe o voo de um pássaro ou a corrida de um leopardo, perfeição! Os animais são religiosos, sem hipocrisia…

O que nos define essencialmente? Não há resposta que seja definitiva para essa pergunta. Heidegger fala “no abert”, na condição de criadores de si e de mundos. A pedra não tem mundo, o animal é pobre de mundo.

O homem, diz Heidegger, é criador de mundos. Eu concordo com ele. A pergunta que fica no ar é: em que mundo você vive? O mundo em que vivemos é criação e responsabilidade nossa. Se não há satisfação nele, revolta-se! Se há satisfação, então desfrute. Ambos com moderação…!

O que nos faz humanos: Mário Sérgio Cortella, Monja Coen e Pepe Mujica.

 

Carta aberta pelo fortalecimento do Ensino Religioso inter-religioso em Passo Fundo, RS

 

O ensino religioso é parte da formação integral de todo e qualquer ser humano, deve ser ministrado de forma a respeitar os diferentes conhecimentos das diferentes tradições religiosas. Desta maneira, contribui para a humanização, que leva à construção de uma sociedade mais justa e solidária, contrapondo-se às tendências tecnocratas na educação.

 

Os professores da rede municipal de Ensino de Passo Fundo (concursados para a disciplina do Ensino Religioso e outros que entendem que o Ensino Religioso deve respeitar e considerar as diferentes manifestações religiosas) manifestam, por esta Carta, posição sobre o tema.

O acesso ao Ensino Religioso não proselitista (que não promova nenhuma religião em detrimento de outras) é um direito de cidadania dos estudantes, conforme preconiza a Lei 9475, de 22 de julho de 1997.

Os estudantes do ensino fundamental têm o direito de um ensino religioso que contemple a diversidade dos conhecimentos e das crenças, pois desta forma, nossas escolas promovem o diálogo, o respeito e a tolerância, tão urgentes e necessários para os dias atuais. Não se trata de abordagem de nenhuma crença específica, mas do estudo dos diferentes conhecimentos das tradições religiosas e mesmo das correntes de pensamento que consideram a inexistência da fé (ateísmo e agnosticismo).

As religiões tem como princípios comuns e universais a ordem do planeta e o respeito à vida. Devem buscar saídas com novos métodos e estratégias que respondam às necessidades de vivência e convivência pelo amor fraterno, honestidade, humildade, compaixão, cordialidade… e, tudo o que beneficia a vida plena, pois a vida é sagrada, é dom de Deus.

A violência, o desrespeito, a transgressão de normas e limites, desde as pequenas coisas do cotidiano até a corrupção, o roubo, a mentira, a delinquência, a intolerância religiosa, os crimes diversos, a crueldade, a droga, o sucesso a qualquer preço e tudo que disto decorre, está fazendo com que todos se questionem sobre o futuro de nossas crianças e adolescentes.

O Ensino Religioso, componente curricular obrigatório, tratado como área de conhecimento, reflete a relação do ser humano com o Transcendente, contribui para a superação da violência a partir do diálogo entre as diferentes tradições religiosas que buscam resgatar e preservar a vida.

O ensino religioso é parte da formação integral de todo e qualquer ser humano, deve ser ministrado de forma a respeitar os diferentes conhecimentos das diferentes tradições religiosas. Desta maneira, contribui para a humanização, que leva à construção de uma sociedade mais justa e solidária, contrapondo-se às tendências tecnocratas na educação. Deve ser fortalecido em todos os educandários deste município através de diferentes estratégias:

promoção do respeito, do diálogo e da tolerância para que a religião  nunca seja motivo de conflito, de discórdia e de opressão;

retomada da formação permanente e qualificada de todos os professores e professoras que atuam nesta área do conhecimento (concursados ou não);

respeito, consideração e valorização da Seccional do CONER Passo Fundo, entidade que congrega diferentes religiões para subsidiar o Ensino Religioso no paradigma do Diálogo inter-religioso.

 

Passo Fundo, dezembro de 2017.

 

 

Entidades religiosas ligadas ao CONER (Conselho do Ensino Religioso) Secccional Passo Fundo apoiam esta iniciativa e destacam o papel do ensino religioso inter-religioso.

 

Conselho do Ensino Religioso – Seccional Passo Fundo – RS

A preocupação de vocês com o Ensino Religioso como área de conhecimento é legítima. O Ordenamento do Sistema de Ensino deve ter, para com ele, o mesmo cuidado que destinada às outras disciplinas do currículo.

Os municípios têm a responsabilidade de responder ao que a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional determina.

Embora o estado brasileiro seja laico isso não tem qualquer implicação que possa justificar seu não oferecimento como elemento fundamental para a formação da cidadania.

O caráter do ERE não insere proselitismo, doutrina ou catequese, desta ou daquela religião. Entretanto, traz na sua essência, o respeito à diversidade religiosa e as formas, pelas quais, expressam sua fé.

Neste particular, as tradições religiosas, seus ethos, suas doutrinas, ritos, textos sagrados, são elementos históricos importantes para que o ser humano possa fazer sua caminhada pedagógica em direção ao transcendente como forma de se tornar um verdadeiro cidadão do mundo pelo exercício da moral e da ética.

A educação, portanto, não pode relegar o ERE a um plano rasteiro, sob pena de entrar em confronto com a lei e desrespeitar a natureza da contribuição religiosa para a formação do caráter da pessoa humana.

Nem o País, estados e municípios podem tratar o ERE com indiferença. É obrigação legal destes entes federados oferecê-lo conforme determina a LDBEN. Formação acadêmica, concurso público e formação permanente é exigência do Plano Nacional de Educação.

 As igrejas que fazem parte do Conselho do Ensino Religioso, não poderiam de forma alguma, deixar de apoiar a CARTA ABERTA PELO FORTALECIMENTO DO ENSINO RELIGIOSO INTER-RELIGIOSO EM PASSO FUNDO – RS, expressando seu apoio e sua solidariedade aos anseios dos colegas professores municipais, que compreenderam ser o estudo da religião, um meio para a construção do amor, da solidariedade, justiça e fraternidade.

A cidadania nunca se completará sem um caminho que a leve ao transcendente. Cobrar que o Estado Brasileiro cumpra esta responsabilidade legal, é parte importante da estratégia daqueles que buscam fazer educação com seriedade, vocação, fé, compromisso como Deus, com o ser humano e com o planeta terra.

 

                                  Passo Fundo, 04 de dezembro de 2017.
                    Coordenador do Conselho de Ensino Religioso Seccional Passo Fundo – RS
          Rev. Francisco Paulo leal Machado

 

Créditos foto: Ingra Costa e Silva (IV Congresso dos Professores Municipais de Passo Fundo, 23 de agosto de 2017).

O Jurista Ives Gandra e a noção errada do que são “minorias”

Ele mostra a mentalidade pela qual se fazem necessárias leis de proteção de minorias: as leis são para protegerem as minorias de serem criminalizadas, exatamente como ele, Ives Gandra, faz em sua frase.

 

Ives Gandra Martins: ‘Não sou nem negro, nem homossexual, nem índio, nem assaltante, nem guerrilheiro, nem invasor de terras. Como faço para viver no Brasil nos dias atuais?’
(Blog do jornal Estadão).

Essa frase não poderia jamais ser pronunciada por uma pessoa escolarizada, muito menos por um jurista. Para além do problema de perversidade moral, que já seria suficiente para invalidar para sempre a autoridade de qualquer um, ela contém um erro intelectual, um pecado primário de não compreensão do que é uma minoria. Os dois erros estão imbrincados um no outro, e se confirmam no texto e contexto da frase.

Ives Gandra não sabe o que é uma minoria. Ele imagina que minoria é um grupo de pessoas formadas aleatoriamente, ou por traços comuns que ele inventa. Ofensivamente ele agrupa minorias étnicas junto com o que nada tem a ver com minorias, que são “assaltantes”.

Ora, gays, índios e negros são postos na mesma fileira de assaltantes! Não é um simples erro ou descuido de linguagem. Desse modo, ele mostra a mentalidade pela qual se fazem necessárias as leis de proteção de minorias: as leis são para protegerem as minorias de serem criminalizadas, exatamente como ele, Ives Gandra, faz em sua frase. Além disso, ele coloca junto de minorias étnicas e de práticas identitárias – gays, negros e índios – os “invasores de terra”, que não são nem minoria e muito menos aprioristicamente criminosos. Trata-se aí de reconhecido movimento popular, com existência legal, o MST.

Mais uma vez a confusão mental de Ives Gandra torna-se evidente: minoria é uma coisa e assaltante é outra; e invasor de terras é uma terceira coisa. E guerrilheiro? De onde ele tirou isso? Onde ele está vendo guerrilheiro no Brasil? Ele está se referindo ao Zé Dirceu (num suposto passado?), aquele condenado do “mensalão” que ele mesmo, Ives Gandra, falou que havia sido “condenado sem provas”? Aliás, estranha fala aquela! Muito estranha! (o que ele queria? desafiar os juristas que condenaram Zé Dirceu?)

Caso eu fosse pertencente a qualquer grupo desses realmente minoritários – gays, negros e índios – eu não deixaria de interpelar o jurista nos termos da lei. Aliás, se houver denúncias suficientes, a Procuradoria do estado de São Paulo pode interpelá-lo. Não é possível que um professor de direito do Mackenzie, alguém que já foi até cotado para ministro do STF, exiba esse comportamento a la Waack.

Ele deveria ser o primeiro a conhecer as leis e, por causa disso, já saber de antemão o conceito sociológico de minoria, e saber também que o que falou é ofensivo.

“Minoria” não corresponde a um grupo de “menor número”. “Minoria” não é alguma coisa exterior ao conceito geral de Direitos Humanos. Essas coisas estão ligadas. Minoria sociológica se define por um tipo de “cultura própria”, pode ser por práticas étnicas, linguísticas, religiosas, sexuais etc.

A proteção das minorias se fez presente na democracia liberal principalmente após a Segunda Guerra Mundial, quando a confirmação de genocídios (judeus, negros, pessoas com problemas físicos, gays, ciganos etc.) por parte dos nazistas veio à tona no Tribunal de Nuremberg. Daí para diante, os Direitos Humanos passaram a se aliar à ideia de que o estado precisa ser policiado, pois ele pode destruir não só o indivíduo, mas todo um grupo de pessoas afinadas culturalmente. Daí para diante, a noção de minoria foi se aprimorando no âmbito da sociologia e do direito. Notou-se bem, então, minorias definidas interna e externamente, positiva e negativamente. As leis de proteção de minorias que, no Brasil, ao contrário do que diz Gandra, são bem poucas (homofobia no Brasil ainda não crime!), vieram a ser demandadas nas democracias liberais do mundo todo.

Uma minoria definida positivamente são a dos alemães no Brasil, ou dos japoneses. Há um reconhecimento de grupos culturais afinados com a cultura alemã e com a cultura japonesa, e o número de virtudes atribuídas a tais comunidades, no âmbito da conversação hegemônica no Brasil, é bem maior do que o número de asserções negativas. Mas não é o mesmo caso para negros ou indígenas. Também não é o mesmo caso para com gays.

Na situação de negros, gays e indígenas (em certo sentido há ainda “as mulheres”), o reconhecimento de que são minorias, para seus próprios membros, se faz por conta do impacto da linguagem pejorativa contra eles, ou mesmo a violência e a discriminação contra eles. O pertencente a tais minorias descobre-se como membro delas por decisão exterior e pejorativa. Nasce sujo para o mundo! A cultura o interpela para lhe dizer que ele não pertence a nenhuma cultura, mas sim ao que não é humano. O seu próprio corpo é o que denota isso, e ele só percebe seu próprio corpo, seu eu corporificado, por causa da existência do apontar ofensivamente do Outro.

Nesse segundo caso, a minoria, ao ser organizar, pode gerar comportamentos fascistas. Pode agir contra a cultura hegemônica de modo a reproduzir práticas xenófobas, aquelas que se fizeram sentir contra elas. Mas a minoria, não raro, logo faz brotar internamente lideranças que percebem esse erro, e se desvia do comportamento meramente magoado para, então, alcançar as práticas de orgulho próprio, de valorização, de combate inteligente ao preconceito etc. Os movimentos gay, negro e indígena no Brasil têm aprendido a agir assim. Mas, em termos de conquistas da lei, estão completamente distantes de terem as facilidades que Ives Gandra afirma que ele, branco-macho-rico-professor-jurista, também não tem.

Ou seja, no limite, Ives Gandra acha que não se está obedecendo a Constituição por tentarmos fazer leis de proteção de minorias ou de contrabalanço. Ele não entendeu ainda que a lei de filiação de nossa Constituição, internacionalmente, é a Carta de Direitos Humanos. Leis e vantagens para grupos que estão aquém da linha de partida da corrida social não são criação de vantagens, são possibilidades de igualdade perante a lei no final da corrida.

Poderíamos dizer que Ives Gandra não fez Sociologia I na faculdade, ou que quando fez a mentalidade conservadora era muito forte, mas o fato dele não ter reaprendido conceitos e, enfim, o fato dele não ter sensibilidade para as mudanças de vocabulário de nossas épocas, é muito significativo de uma mentalidade empedrada.

Uma pessoa assim está completamente desqualificada para a vida fora da companhia de Waack. Precisa procurar seus pares. Sua declaração não cabe. Nem do ponto de vista conceitual nem do ponto de vista da sensibilidade de um professor e jurista.

Doutor e mestre em Filosofia pela USP. Doutor e mestre em Filosofia da Educação pela PUC-SP. Bacharel em Filosofia pelo Mackenzie e Licenciado em Ed. Física pela UFSCar. Pós-doutor em Medicina Social na UERJ. Titular pela Unesp. Autor de mais de 40 livros e referência nacional e internacional em sua área, com colaboração na Folha de S. Paulo e Estadão. Professor ativo no exterior e no Brasil. Publica regularmente importantes reflexões em seu site: http://ghiraldelli.pro.br/

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