Em uma sociedade regida por uma lógica utilitarista, o valor do indivíduo é frequentemente associado à sua capacidade de produção, o que marginaliza aqueles que, por questões biológicas ou de saúde, deixam de atender a essas expectativas.
Queridos leitores,
É sempre uma alegria imensa usar este espaço para compartilhar não apenas reflexões literárias, mas também talentos que florescem dentro da minha sala de aula. Recentemente, propus aos meus alunos a leitura da obra O Burrinho Pedrês, de Guimarães Rosa, como ponto de partida para a produção de textos dissertativo-argumentativos nos moldes do ENEM e da UFRGS.
A única fonte de repertório autorizada por mim foi o próprio livro, e, a partir dele, cada estudante precisou construir sua argumentação. Entre tantas produções inspiradoras, uma, em especial, tocou-me profundamente.
O autor do texto que apresento hoje – Bernardo Borrin Bulik – demonstrou uma sensibilidade rara: fez comparações e analogias entre a narrativa de Rosa e a realidade contemporânea com uma naturalidade que poucos conseguem. O que mais me impressionou, no entanto, foi a coragem intelectual de relacionar os conflitos e silenciamentos presentes na obra a uma crítica contundente a uma sociedade que valoriza apenas o que é funcional — uma visão ousada e extremamente pertinente.
O dia em que ele leu o texto ficará marcado na minha memória. A sala estava cheia, o grupo de alunos apresentando seus respectivos trabalhos. Quando ele começou a ler, sua voz serena contrastou com a força das ideias. Aos poucos, o ambiente foi mudando: as conversas paralelas cessaram, os olhares se voltaram para ele, e um silêncio respeitoso tomou conta do espaço. Eu o observava atentamente, e cada frase carregava mais do que uma simples apresentação de trabalho escolar — havia ali uma consciência crítica rara, uma maturidade que ultrapassava as fronteiras da idade. Em determinado trecho, quando ele traçou um paralelo entre o isolamento social do burrinho e a marginalização de trabalhadores invisíveis no nosso país, senti um nó na garganta.
Lembrei imediatamente das notícias recentes sobre idosos abandonados, trabalhadores explorados e comunidades inteiras esquecidas pelo poder público. Aquelas linhas, escritas por Bulik, ressoavam como uma denúncia viva.
Esse jovem vem se destacando cada vez mais no universo literário dissertativo argumentativo, construindo textos maravilhosos, ricos em repertório e senso crítico. E, confesso, cada vez que leio suas palavras, consigo identificar nelas pequenas sementes lançadas nas minhas aulas — conselhos, dicas de estruturação e reflexões que hoje florescem em sua escrita, a exemplo disso, o uso de mesóclise entre outras dicas que passei para a turma toda.
No fim da leitura, o silêncio permaneceu por alguns segundos, como se todos precisassem respirar e inclusive eu, para absorver o que haviam acabado de ouvir. Eu, emocionada, apenas consegui agradecer e dizer que aquele texto era muito mais do que uma tarefa: era um convite à reflexão e à empatia.
E para encerrar, trago uma palavra sábia do próprio Guimarães Rosa, que ressoa como um convite para olhar além da superfície: “Não é nas pintas da vaca que se mede o leite e a espuma!” Assim como nessa expressão popular rosiana, não devemos avaliar um texto — ou um talento — apenas por sua aparência externa, mas pela profundidade, a sensibilidade, a coragem crítica que nele se encontra.
O texto do Bulik foi justamente isso: uma prova viva de que o valor está no que pulsa por trás das palavras, na coragem de trazer analogias, sensibilidade e crítica social a partir de O Burrinho Pedrês. Sonho com leitores que passeiem por essa leitura com o mesmo sentimento que me tomou naquele dia de aula — contemplando, emocionando-se, percebendo o valor que pulsa em cada texto que nasce do olhar atento e do pensar ousado. Afinal, como Rosa e sua cultura popular nos lembram, a essência é o que realmente conta — e é ela que emocionou e me encheu de orgulho.
Segue o texto do estudante Bernardo Borrin Bulik.

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TEMA: A desvalorização dos seres considerados “fracos” na sociedade contemporânea
TÍTULO: A Morte Social
A obra O Burrinho Pedrês ilustra a jornada de Sete-de-ouros, um velho burro que fora chamado para uma última jornada por não ser mais útil ao seu dono. Esse roteiro expõe a triste realidade da esfera social utilitarista brasileira, isto é, uma sociedade que somente valoriza aqueles que demonstram utilidade para seu funcionamento. Frente a esse contexto, denota-se uma subjetividade: Em que ponto um cidadão torna-se inútil? Em resposta, muitos consideram fatores cognitivos (como a perda de conhecimentos básicos) ou fatores etários (sejam limitações físicas, sejam mentais) como predisposição à inutilidade.
Sob esse viés, é injusto chamar outro ser humano de inútil, desabilitar uma pessoa que ignora suas próprias limitações para um bem maior, assim como Sete-de-ouros, ilustra a visão egocêntrica e apática do corpo social. Diante disso, tornou-se comum (não normal) vangloriar uma pessoa enquanto a mesma possui utilidade e desvalorizá-la quando perde tal, entretanto, essa objetificação humana é incoerente com os valores morais e éticos de uma sociedade estruturada.
À exemplo disso, ao final da obra, após o Burrinho ser descartado em sua última jornada, ele morre exausto, sem homenagem ou pesar. Isso mostra a crueldade do descarte humano, uma vez que se morresse quando “útil”, não seria em vão. Ademais, a leitura traz a passagem “Quem vai na frente bebe água limpa”, ou seja, a água suja fica somente para aqueles que são descartados pela crueldade humana, os últimos da fila já foram os primeiros, e deixá-los em último sem nenhum prestígio social, mesmo que tenham contribuído para o corpo como um todo, é injusto. Em suma, a capitalização da vida humana viabiliza a futilidade do “útil”, dando essa coroa somente aqueles que trazem resultados concretos ao meio.
Outrossim, muitos humanos são descartados por fatores que não cabem ao controle dos mesmos, como o envelhecimento ou deficiências. Em uma sociedade regida por uma lógica utilitarista, o valor do indivíduo é frequentemente associado à sua capacidade de produção, o que marginaliza aqueles que, por questões biológicas ou de saúde, deixam de atender a essas expectativas.
Paralelo a isso, na obra O Burrinho Pedrês, de João Guimarães Rosa, os personagens humanos tratam o burro Sete-de-ouros como um mero instrumento, e não como um ser digno de cuidado ou respeito. Essa frieza ilustra a desumanização que acompanha o etarismo — a ideia de que o velho não merece atenção, afeto ou empatia, mas apenas serve enquanto puder oferecer algo em troca. Assim, é configurado um ambiente de desrespeito e ignorância, pois, tal como no enredo, o protagonista estava submetido a uma função que ultrapassava seus limites físicos. Sua morte solitária e sem reconhecimento evidencia como a sociedade muitas vezes se mostra indiferente diante do sofrimento daqueles que já não se encaixam nos padrões de produtividade, perpetuando uma cultura de descarte e invisibilidade que precisa ser urgentemente superada.
Portanto, a narrativa de O Burrinho Pedrês transcende a simplicidade de uma fábula regionalista ao escancarar, em metáforas sutis, a lógica excludente de uma sociedade que hierarquiza vidas a partir de sua utilidade prática. O burro Sete-de-ouros, envelhecido e fadigado, representa todos aqueles que são desconsiderados pelo corpo social ao perderem seu vigor físico ou mental, sendo condenados à invisibilidade e ao esquecimento. Tal representação é um espelho da realidade de inúmeros idosos, pessoas com deficiência ou indivíduos fora dos padrões produtivos impostos.
Enquanto o prestígio humano continuar sendo medido pelo desempenho e pela eficiência, perpetuar-se-á uma estrutura moralmente falida, em que o fim da linha é marcado não pelo descanso merecido, mas pelo abandono silencioso. Desse modo, combater o etarismo e romper com a lógica do descarte é uma urgência ética de qualquer sociedade que se pretenda justa, solidária e verdadeiramente humana”.
Autora da Coluna: Deise Bressan. Também escreveu e publicou no site www.neipies.com/desafios-para-a-valorizacao-da-heranca-africana-no-brasil/
Edição: A. R.































