Início Site Página 18

Eu e O NACIONAL

O jornal O NACIONAL, de Passo Fundo, RS, completou, nessa quinta-feira, 19 de junho de 2025, 100 anos de circulação no formato impresso.

Dessa trajetória, me considero no direito de reivindicar 30%. Seja como assinante ou como colunista, como ambos, na verdade, tenho participado, ativamente, nos últimos 30 anos da “vida” deste jornal.

Admito, como marco inicial da minha relação com O NACIONAL, a data de 21 de outubro de 1995. Foi numa edição de final de semana, Ano 71, Nº 19.857, que junto com a nova proposta de previsão de tempo e clima para Passo Fundo e região, na página 4, circulou aquela que considero a minha primeira coluna assinada em O NACIONAL, sob o título “Os prognósticos de tempo e de clima” (há contribuições avulsas anteriores).

Entenda-se que eram tempos de serviços precários de Internet no Brasil. A proposta de um modelo inovador de previsão de tempo e clima para Passo Fundo e região exigia atualização diária e consulta, via FTP, aos resultados de previsões numéricas do Serviço Meteorológico dos EUA, as únicas disponíveis, naquele momento, para 5 dias de antecedência.

Em 1995, havia edições de O NACIONAL nas segundas-feiras. E foi assim que, para contornar a dificuldade de atualizar nos domingos as previsões, em escala diária, para as segundas-feiras, que, no espaço ocupado pelas previsões, passamos a assinar, semanalmente, uma coluna sobre meteorologia, clima e agricultura. Essa história é contada com maior riqueza de detalhes na edição especial do Centenário de O NACIONAL.

As colunas tinham de ser escritas na redação de O NACIONAL, que na época ficava na Avenida 7 de Setembro, no moderno sistema informatizado composto por PCs da marca Itautec e no software Carta Certa, que hoje fazem parte de museus de tecnologia da área de informática. Invariavelmente, naqueles idos tempos, as edições fechavam tarde da noite.

Não era fácil, nesse início, conseguir concentração e escrever as colunas em um ambiente, onde, além de um aparelho de televisão, que ficava sempre ligado, no volume máximo, havia uma fumaceira infernal. Quase todos fumavam na redação, menos eu. Algo impensável, nos tempos atuais. E, para arrebatar, em meio dos gritos da Fátima Trombini (in memoriam) aloprando a redação para que as matérias fossem baixadas logo. Além da presença do Luiz Carlos Schneider, sempre concentrado no fechamento das tradicionais páginas Fontes em OFF.

Invariavelmente, quando chegava a casa, pelo cheiro de cigarro, por imposição da mulher, as roupas iam direto para a máquina de lavar. E, para conturbar um pouco mais o ambiente, em algumas férias, surgia, na redação, um adolescente metido a engraçadinho, que tinha predileção por atazanar o Schneider, uma vez que neto do patriarca da família Castro e filho do fundador de O Pasquim, o jornalista Tarso de Castro. Esse piá, anos mais tarde, viria se tornar no consagrado ator do grupo Porta dos Fundos, que atende pelo nome de João Vicente de Castro.

No começo eu escrevia apenas sobre temas afetos à meteorologia e à agricultura. Essas colunas acabariam sendo reunidas na série de livros Meteorologia: Fatos & Mitos (1997), Meteorologia: Fatos & Mitos – 2 (2000) e Meteorologia: Fatos & Mitos – 3 (2003), cujo primeiro, com edição de 3000 exemplares, esgotou rapidamente. Os demais saíram com 2000 e 1500 exemplares, estando também esgotados.

Coordenei diversos cadernos especiais de O NACIONAL, sobre trigo e agricultura, sempre escrevendo na redação e acompanhando de perto a diagramação, com destaque para TRIGO NO MERCOSUL, que circulou como encarte na edição de 30 de abril de 1997. Esse encarte foi o assunto do Grande Expediente da Câmara dos Deputados, em 21 de maio de 1997, que teve como orador o então deputado Airton Dipp. A coletânea desses artigos foi publicada em formato livro (316 páginas), pela Embrapa, em 1999, levando a minha assinatura e a da saudosa jornalista Maria de Fátima Trombini, como organizadores.

À medida que o tempo passou, fui deixando de lado os temas exclusivamente técnicos e comecei a tratar de assuntos diversos. A maioria deles ligados à popularização da ciência e à literatura, especialmente com foco na produção dos escritores locais. Houve épocas que assinei duas e até três colunas semanais.

Esses artigos acabariam, em 2001, me levando a ingressar na Academia Passo-Fundense de Letras e a ser distinguido como Patrono da 23ª Feira do Livro de Passo Fundo, em 2009. Também, seriam coligidos nos livros Cientistas no Divã (2007), Galileu é meu pesadelo (2009), A ciência como ela é… (2011) e Ah! Essa estranha instituição chamada ciência (2021).

A minha presença na redação de O NACIONAL, aos poucos, com o avanço da Internet, foi rareando e as colunas começaram a ser escritas em qualquer local que estivesse e enviadas por e-mail. Atualmente, pelo WhatsApp. Há quem diga que na redação hoje reina um silêncio quase sepulcral. Fátima não deixou seguidores. E não há qualquer resquício de fumaça de cigarro no ar. Sempre tive apoio e tratamento especial da direção e do pessoal da redação de O NACIONAL. A todos a minha gratidão!

Prezado Múcio de Castro Filho e equipe, passando pelo pessoal da redação, área administrava, comercial até as oficinas de impressão e montagem do jornal, fiquem certos que nada que não tenha relevância dura 100 anos. Nossos respeitos ao O NACIONAL e que venham outros 100 anos!

Múcio de Castro Filho, recebendo da Câmara Municipal de Vereadores de Passo Fundo, Placa de Honra ao Mérito pelos 100 anos do Jornal O Nacional.

Créditos fotos: Redes sociais de O NACIONAL/ Prefeitura Municipal de Passo Fundo.

Autor: Gilberto Cunha. Também escreveu e publicou no site “Enchente no RS: um ano depois”: www.neipies.com/enchente-no-rs-um-ano-depois/

Edição: A. R.

O que vou falar para os meus pais agora que eu soube que o meu irmão é gay?

“Então falou Pedro, dizendo: reconheço por verdade que Deus não faz acepção de pessoas;” ¹

Era uma sexta-feira de outono quando saíamos da escola, assim como andávamos todos os dias, juntos, direto pra casa; o meu irmão e eu.

Naquele dia o vento era mais forte, parecia, soprando determinado e sem se importar com os cabelos de todos os que saiam da escola para suas mesas de almoço: em suas mesmas casas, em seus mesmos caminhos.

Bem que notei algo diferente; no vento e no olhar do Juvenil.  Desse modo eu o chamava porque além de ser mais novo, era obrigado a ouvir os meus conselhos, todos os dias. Os bons e os nem tanto.

_ O que foi agora meu irmão?  Tem cinco minutos!  Havia respeito entre a gente, mas muita zoeira, igualmente.  É que a convivência vai dobrando a intimidade e o limite que demarca nossas opções e escolhas vai desaparecendo, aos poucos.

_Bispo, é o seguinte: (é que ele me chamava de bispo, porque a última palavra tinha de ser a minha) – eu preciso contar uma coisa que vai ser uma bomba, falou.

Como nos anos 70 os bispos tinham uma influência espantosa em suas comunidades, ele achava que eu deveria ser padre e, depois, bispo.  _Pra mandar em todo mundo, falava. Ora, vejam!  O tempo coloca todos os solidéus em seu lugar.

Não fui ao seminário, por um triz e nem tenho amigos bispos, embora os admire.

_ O tempo está passando Juvenil, jogue pra fora!

_ Sabe o que é, eu não sou como você.

_ Claro, respondi!  – nem poderia, somos dois.  Cada qual com o seu igual.

_ É que os meus iguais são diferentes dos seus.

_ Vai falando, Juve, eu vou ouvindo…

_É que você vai me odiar, ou, o nosso pai vai me odiar, ou, a nossa tia vai odiar.  Sei não, mas um ódio sempre sobra pra quem resolve ser autêntico.

_ Tá me deixando nervoso Juve!  Atire pra fora!

_ Eu esperei tantos meses, talvez anos, mas resolvi ter uma conversa mais crua com você.  Não tenho muitos amigos, vai, e em você confio. Vamos lá!  Vou falar, já que é uma péssima notícia pra você e todos nós e que se ferre o mundo; eu não aguento mais!

Eu não me enquadro, não sigo a lista de vocês, não sou do seu time…Sou gay!

_ Como é que é?  Tá de brincadeira Juve!

_ Não estou não e quer saber, nem pra casa almoçar eu vou. 

Paramos em uma esquina por uns minutos e eu o olhava com certo ar de deboche, esperando mais uma de suas gargalhadas: espalhafatosas, alegres, incontidas.

Mas o riso não veio.  Ficamos parados no tempo, congelados, como que empurrando o frio mais pra dentro de nossas almas.

Em alguns minutos e o seu rosto lindo e sempre meigo, foi transformado como que em um altar de água e sangue. Não veio o riso e, em seu lugar, o que surgiu foi o rosto mais desesperado que pude contemplar.

Nossos livros caíram no chão.  Sentamo-nos ao lado de uma escada, que não se tinha ideia pra onde subia.  Ele chorando baixinho, como que vertendo um estoque de lágrimas estocadas há anos. Eu, culpado, por não perceber a sua metamorfose no tempo.

_ Não sou como você, eu sinto muito – falava baixinho.  Não gosto das brincadeiras de vocês, não gosto de suas piadas, não tenho interesse em beijar a quem vocês tanto desejam. Eu, simplesmente, não consigo ser igual, mesmo que nesses anos todos tenha tentado.  Mas agora não aguento mais.

_ Caramba, que soco!  – falei. 

_Tá vendo, eu não me expresso dessa forma, eu simplesmente não consigo.  Escolho as palavras, amo as palavras e procuro as melhores. Não dou apelido a ninguém, não debocho de ninguém, em nenhum momento.  Até pra caminhar eu me sinto diferente.

Mas não sou diferente em nada, pode me despir e ver.  Não estou doente também, não tenho qualquer doença contagiosa. O único contágio que sofro é o da não aceitação.

Eu me sinto exposto o tempo todo, e, andando pela rua, tenho a impressão que as pessoas veem os meus ossos. Todos os olhares me seguem, como setas que penetram em mim; como se eu pertencesse a um mundo desclassificado.

Onde eu errei?  Será que fui escolhido para a rejeição, propositalmente?

Quanto desprezo vou ter que enfrentar para ter um espaço que se chama meu?

_ Ele tinha razão, então!   A notícia se espalhou e as águas se dividiram.  Os que ficaram junto a nós dois, com sua compreensão e tolerância. Os que permaneceram amigos e apoiaram as decisões do intrépido Juvenil, lindo e cheio de sabedoria e coragem. Quanta gratidão!

Mas havia os que o julgaram com censura e preconceito, em seu andar mais delicado, em suas mãos gesticulando ao vento, vendendo a segurança de quem não precisa ser igual pra ser; simplesmente, ser o que se deve ser.

Muitos se afastaram, outros acusaram minha mãe e a sua pretensa proteção ao ‘menor’, como também o chamavam. A maioria sumiu!

Que pena! As ressalvas pela vida dos outros são meros espelhos, pelos quais relutamos em reconhecer…

Mas voltando ao dia da sua confissão intempestiva, há um fato a registrar.

Mesmo na hora sagrada do almoço, para uma família italiana, conservadora, tudo poderia acontecer, entre pratos que batiam à mesa e garfadas, sem medida, pelos comensais.  Todas as ofensas sempre estiveram liberadas à mesa, as críticas e a falta de piedade com os vizinhos.  Tudo podia; menos faltar o almoço.

Então, antes de bater à porta de casa para entrar, pois era o ritual que meu pai impunha, fomos até o porão da casa, em silêncio e abrimos um armário secreto:  viramos dois copos de uma cachaça intragável, que o nosso pai tomava todo o dia.  Combinamos o seguinte: caso eles não aceitassem, pai e mãe, eu diria que também era gay e que guardamos segredo nesses meses e anos até, mas, agora estávamos prontos pra sair de casa.

O Juve me abraçou como alguém partindo pra guerra. Pedi pra me ensinar a ver o mundo pelo seu olhar, pra que eu o seguisse em suas escolhas.  Eu o imitaria para salvá-lo em sua liberdade e para salvar a mim, de minhas próprias crenças amadurecidas na pocilga dos prejulgamentos, por tudo o que não me trouxesse a segurança do que fora cimentado na minha mente em anos… Nesta areia movediça a que chamamos de padrão social. Bem!

Nossos olhos avermelharam e ficamos um agarrado ao outro; até para não cair.  Subimos a escada da cozinha trôpegos, mas cheios de confiança e, eu, fora de mim, com toda a revolta silenciosa que arrastava com aquela família, beirava uma explosão. Abri a porta com uma força de quem entrou para brigar e apanhar.

_ Sentem vocês dois aí porque hoje não tem almoço!  – gritei.

Meu pai, mais censor que amigo, já puxou a cinta na mão, para enfrentar, em seguida, a maior força que um ser humano pode extravasar quando não tem mais nada a perder: a sua verdade!

E gritei forte com os dois, como alguém que se oferece para perder muito, propondo uma regra incomum e ser expulso, a seguir.

_ Sentem-se porque hoje é o dia da libertação!

Enquanto minha Mãe segurava o meu pai pela camisa, dono exclusivo da verdade na casa, dei um puxão no Juve para dentro da cozinha e ele, olhando para o chão, ficou escondido atrás de mim.

_ Quero falar pra vocês, de uma vez por todas e que fique bem claro nesta casa:  meu irmão é gay.

Houve um silêncio soturno e um olhar entre os quatro, como os olhares que anteveem trevas pelos céus. Todos olhando-se por segundos, maquinando um julgamento e uma acusação pronta para ser disparada na direção do outro.

_ Eu já sabia, disse minha Mãe! – quebrando a hora.

Um alívio colossal! Damos uma gargalhada impulsiva que até a vizinhança estranhou.

_ Já o meu pai se levantou e saiu sem almoço.  Fugindo de todos. Pode-se imaginar o que beberia pela tarde.

Foi o dia mais triste, nesta casa de papel e, igualmente, o dia mais alegre de nossas vidas.  Ganhamos um irmão por inteiro, vendemos o armário de sua solidão nesses tempos todos, em seu isolamento que passou ao nosso lado, mas que nem por isso deixou de sorrir um dia sequer.

Meus pais se separaram em seguida.

Eu me casei e por causa dos outonos de nossas vidas, onde sempre procuramos por frios que nos empurrem à proteção, mudei de cidade, tive filhos e netos.

Igualmente, casou-se ele, teve filhos lindos, todos iniciados na música; meu sonho desde a infância. Construiu uma família magnífica e exemplar, em todos os sentidos que um exemplo possa inspirar, onde o amor sempre se impõe sobre o seu gênero.

Meu irmão cuidou do meu pai até a sua partida.  Foram grandes amigos, conta ele, mas somente pelo final dos dias. No fim da vida, sempre há perdão disponível.

Faria tudo por ele, novamente.

Os anos 90 chegaram e minha mãe confessou, um dia qualquer, que na ocasião mentiu. Outro susto!

_Nem imaginava o que seria a palavra gay, falou. Mas o fez por medo e para proteger seus filhos, pra que o seu ‘tutor’ soubesse que ela os acompanhava, tendo em vista que a ela havia delegado, falsamente, a nossa educação. Disse ainda que chorou a noite inteira, mas que sentia um orgulho imenso; pelo retorno à alegria de meu irmão e pela minha coragem; seja lá onde eu a tivesse pedido emprestado.

Os três, que passamos por tantos silêncios juntos, ainda amamos um ao outro em profusão…

Há uma tensão nas manhãs de outono, que podem trazer declarações de amor inesperadas e que sobre as quais não há como esquecer em suas sutilezas; por que não são manhãs de inverno, ainda. Nem de verão.

Nestes dias nublados, congelantes, onde as pessoas se protegem com os cachecóis mais lindos, convém lembrar que contra julgamentos e condenações precipitadas, nunca e nem ninguém haverá de encontrar conforto.

Referências:

  • Atos 10:34

Ver também Deuteronômio 10:17, Romanos 2:11 e Tiago 2:9

(Versão de João Ferreira de Almeida, revista e atualizada)

Autor: Nelceu A. Zanatta. Também escreveu e publicou no site “Quais são os limites de nossa empatia”?: www.neipies.com/quais-os-limites-da-nossa-empatia-sentir-o-desamparo-do-outro-ou-viver-a-sua-dor/

Edição: A. R.

Projeto valoriza terreiros de religiões de matriz africana no RS com exposição fotográfica itinerante

“Memória, Orgulho e Identidade” fez sua estréia em Passo Fundo no dia 17 de junho com visitação gratuita

No último dia 17 de junho, será inaugurada no Museu de Artes Visuais Ruth Schneider (MAVRS), na Universidade de Passo Fundo (UPF), a exposição fotográfica “Memória, Orgulho e Identidade”. O projeto, financiado pelo Governo do Estado do Rio Grande do Sul via Pró-cultura e com recursos da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB) propõe uma imersão visual e estética nos terreiros de religiões afro-brasileiras presentes no interior gaúcho.

A proposta nasceu com o objetivo de valorizar, visibilizar e documentar a presença ancestral e cultural das religiões de matriz africana fora dos grandes centros, com ênfase em Passo Fundo e região norte do estado.

As 31 fotografias, captadas em seis casas religiosas nas cidades de Passo Fundo e Carazinho, retratam os espaços, os rituais e as lideranças espirituais que resistem ao racismo estrutural e à intolerância religiosa com persistência.

“A exposição é uma forma de valorizarmos a ancestralidade e reafirmarmos a liberdade religiosa como um direito fundamental. Ao trazer para o espaço museológico as imagens e as histórias das religiões de matriz africana, convidamos o público a refletir sobre o respeito às diferenças e o combate ao preconceito. É também um chamado para que os museus assumam seu papel como lugares de escuta, diversidade e reconhecimento das vozes historicamente silenciadas” afirma Patrícia Vivian, curadora da exposição.

O fotógrafo responsável pelos ensaios é Diogo Zanatta, repórter documental com ampla atuação nacional e reconhecimento internacional. Para ele, participar deste projeto foi uma vivência transformadora: “Mesmo já tendo documentado outras práticas religiosas, essa foi a primeira vez em que entrei de verdade nesses espaços, com escuta e cuidado. Mais do que captar imagens, era preciso entender o lugar, a fé e o simbolismo de cada gesto. Em muitos momentos, eu deixei de fotografar para simplesmente observar e aprender. A fotografia aqui não era só registro, era uma forma de comunicar, de tocar o outro, de romper com preconceitos — inclusive os nossos. Foi um dos maiores projetos que participei, e meu desejo é que as pessoas enxerguem essas imagens com respeito, como pontes para conhecer e valorizar as religiões de matriz africana.”

Leia entrevista de Diogo Zanatta ao site: www.neipies.com/uma-cidade-sob-um-olhar-fotografico/

Segundo dados do IBGE, cerca de 1,48% da população gaúcha se declara de religiões de matriz africana, número superior ao de estados como Rio de Janeiro e Bahia. Ainda assim, o preconceito persiste: só em 2024, foram mais de 3.800 denúncias de violação à liberdade religiosa no Brasil, com a maioria das vítimas sendo pessoas negras e praticantes de religiões de matriz africana.

Com esse cenário como pano de fundo, o projeto ganha importância não apenas pela beleza estética de suas imagens, mas por ser um gesto político de reconhecimento e promoção da educação. Após sua estreia em Passo Fundo, a exposição circulará por outras cidades do estado: Marau, Erechim, Carazinho e Palmeira das Missões já estão confirmadas na itinerância.

Além das fotos, o projeto também inclui o lançamento de um livreto educativo e conteúdos audiovisuais nas redes sociais. O material será disponibilizado ao público com o objetivo de ampliar o alcance da ação, promover debates e fortalecer o combate à intolerância religiosa no estado.

SITE: https://memoriaorgulhoidentidade.com/

INSTAGRAM: https://www.instagram.com/exposicaomoi/

O biólogo Alexandre Vieira, participante do projeto “Memória, Orgulho e Identidade”, posa em um espaço sagrado de sua religião em Passo Fundo — local que já foi alvo de vandalismo religioso. Foto: Diogo Zanatta.

Momento de celebração em  terreiro de Passo Fundo. Foto: Diogo Zanatta.

Pai Ramon Endges realiza cuidado ritual diante do altar de sua casa religiosa, em Passo Fundo. Vestido de branco — cor associada à paz e à purificação. Foto: Diogo Zanatta.

Mãe Carmem Holanda, referência na defesa das religiões de matriz africana em Carazinho. Além de sua liderança espiritual, atua como educadora e desenvolve um trabalho comunitário fundamental com crianças em situação de vulnerabilidade nos bairros periféricos da cidade. Foto: Diogo Zanatta.

Leia também matéria do site: www.neipies.com/nem-bahia-nem-rio-rs-e-o-estado-com-mais-adeptos-da-umbanda-e-do-candomble-numero-de-fieis-triplicou-em-dez-anos/

Autor: Anthony Buqui. Também escreveu e publicou no site “Tecnologia está gradualmente se integrando ao ser humano”: www.neipies.com/tecnologia-esta-gradualmente-se-integrando-ao-ser-vivo/

Edição: A. R.

Uma viagem conduzida por uma guia à Índia

Estudamos a cultura indiana e as religiões que se originaram por lá como o Hinduísmo e o Budismo em aulas de Ensino Religioso com estudantes das séries finais do Ensino Fundamental e do Ensino Médio. Assistimos, com certo interesse, reportagens produzidas por meios de comunicação sobre a história deste país, de seus habitantes e de seu imenso rio Sagrado: o Rio Ganges.

Aos poucos, depois de palestras, leituras e estudos estamos aprendendo e valorizando aspectos da cultura particulares daquele lugar. Nutrimos, talvez um dia, desejos de uma viagem para a incrível Índia, justamente por seus aspectos particulares e diferenciados.

Conhecemos pessoas do nosso convívio e de nossas relações que já fizeram a incrível experiência de visitar e conhecer este tão emblemático país, seja por suas grandes e controversas diferenças, seja pela justificação dos aspectos culturais e religiosos lá vivenciados.

Convidamos Nelci Zorzi, enfermeira obstetra e doula, que fez parte de uma viagem conduzida por Vanessa Shakti. Em matéria similar, construímos publicação sobre experiência de viagem familiar com Marilise Brockstedt Lech, já publicado no site, link: https://www.neipies.com/incrivel-india-por-que-visita-la-e-conhece-la/

Qual foi sua motivação para fazer uma viagem para Índia?

Sempre tive um desejo pessoal de visitar, de viajar para essa Terra Sagrada chamada Índia. A escolha para visitar a Índia sempre foi um grande desejo, um chamado espiritual, uma guia para dentro do coração, algo quase que inexplicável.

Uma visita para entender a grandiosidade da Índia tão diversa, assim como nosso mundo interno, para entender a multiplicidade de Índias e seres. Conhecer paisagens, diversidades culturais, religiosas e espirituais, mas, principalmente, querer fazer uma viagem onde o movimento é interno, onde se busca autoconhecimento, curas, respostas e foco no propósito de Vida.

A Índia é uma terra sagrada, rica espiritualmente, um país milenar. Pisar neste solo sagrado foi um retorno para casa, acessar uma profunda onda de transformação, conexão com a minha mais pura e verdadeira essência.

Que aspectos culturais e religiosos chamaram a sua a atenção?

Na Índia existem muitas culturas, muitas religiões, pilares espirituais de um país com uma história milenar. A riqueza nesse aspecto é tão maravilhosa e rica.

No entanto, pode-se ficar confuso em meio a tantas informações se não formos com um foco específico de viagem. Meu foco foi ver a Índia cheia de vida, sacralidade e portas abertas para a transformação.

Nossas guias nos conduziram com sabedoria, silêncio e amorosidade para olharmos para essa Terra Sagrada como peregrinas. Não fomos com intuito de turismo apenas, e, sim, de peregrinação para que pudéssemos olhar e perceber um lugar Sagrado. Que pudéssemos absorver toda essa cultura, ancestralidade milenar como códigos luminosos que ficassem escritos em nossas almas.

Muitos locais como Templos de Meditação, Asharams, escolas de músicas indianas, rituais, o rio Ganges, também chamado de Mãe GANGA, Escolas de artes, restaurantes com culinária local, as ruas da Índia, a simplicidade e a alegria do povo, a culinária, o cheiro…. isso tudo me levou a mergulhos profundos, visões. Tudo isso é também uma forma de honrar e agradecer este povo indiano.

Alguns locais visitados nesta viagem que destacamos:

1 – RISHIKESH – Um local, uma cidade que aquece o coração, onde os olhos e o coração silenciam, onde a meditação, o silencio e a entoação de Mantras estão em todo local. Muitos mochileiros, peregrinos, buscadores, muitas escolas da formação de Yoga, com uma atmosfera lindamente banhada pelo RIO GANGES, mãe GANGA aos pés dos Himalaias, Rituais de cantos, orações, mantras e banhos acontecem nas margens e no interior do rio.  Aqui a Ganga flui linda e bela, cristalina, próxima a nascente. Nesse local realizamos o ritual do banhar-se em suas águas e sentar as margens ficar admirando um fluir divino das águas, quase inexplicável em palavras. Uma mãe em forma de Rio, cura, silencia, transforma, somente vivendo para entender. 

2 – TEMPLO TUSHITA – MEDITATION CENTER, na cidade em Dharamshala, Himachal. Um Centro Budista de meditação, estudo e retiros, local no meio da natureza, de paz, harmonia, silêncio, entre as montanhas, num local mais remoto do Vilarejo.

3- GOLDEM TEMPLE

O Templo Dourado em Amritsar é uma lição sobre senso de comunidade. Visitar o Templo Dourado da religião Sikh na Índia é uma experiência incrível para qualquer viajante. No Templo Dourado em Amritsar encontra-se a maior cozinha comunitária do mundo, só por isso já valeria uma visita.

Mas tudo fica ainda mais interessante quando você entende quem são os Sikhs, o que é o Sikhismo e o que o Templo Dourado representa para a comunidade. Todods os templos Sikhs são centros comunitários e dentre os vários aspectos possuem um exemplar do livro sagrado, sala de orações e uma cozinha comunitária (Langar).

Quem são os Sikhs?

O Sikhs são seguidores do Sikhismo, uma religião monoteísta fundada há mais de 500 anos na região de Punjab, norte da Índia, pelo Guru Nanak nascido em 1469. Dentre as principais crenças estão a fé num Deus único e sem forma e nos ensinamentos dos dez gurus sagrados. Todos estes ensinamentos foram transcritos para o Sri Guru Granth Sahib, o livro sagrado dos Sikhs.

4 – NORBULIKGA – CENTRO DE ARTE E CULTURA TIBETANA

Um Templo cheio de arte e cultura, onde se mantém os ensinamentos Tibetanos. Um local lindo, com arquitetura impecável, em meio ao verde e águas em movimento, belíssimo. Uma visita que guardaremos no coração!

Lá você observará a tecelagem, tingimento, pintura e confecção de tecidos e roupas. Artesanato, esculturas, fundição, enfim é um completo centro de preservação da arte e cultura tibetana!!

5 – TEMPLO DE DALAI LAMA

Dalai Lama, nome que significa “Oceano de Sabedoria”. Um espaço sagrado simples e harmônico, onde orações e devoção ao budismo se somam em cada espaço no meio da natureza das montanhas.

Em 1959, após o fracasso de uma rebelião nacionalista contra o governo chinês, Dalai Lama, junto com um grupo de líderes tibetanos e com seus seguidores, a convite do governo indiano, exila-se na Índia e aí instala provisoriamente o governo tibetano, nas montanhas de Mussoorie na cidade indiana de Dharamshala. Ali entendemos e pudemos vivenciar as regras do Bem-estar de acordo com o BUDISMO.

 6 – LODI GARDEN, que é um parque urbano, com Mausoléus antigos ícones da arquitetura indiana do século XV. Situado em meio ao agito de Nova Deli, na Índia. Espalhado por 90 hectares contém o túmulo de Mohammed Shah, o túmulo de Sikandar Lodi, o Shisha Gumbad e o Bara Gumbad, obras arquitetônicas fantásticas.

Seu espaço interno é maravilhoso, espaço verde, cheio de árvores, flores, gramas onde muitos praticam yoga, e uma vasta quantidade de aves, esquilos e muitas espécies lindas da flora e fauna local!

7- Um local que encanta: O TAJ MAHAL (em hindi: ताज महल) é um mausoléu situado em Agra, na Índia, sendo o mais conhecido dos monumentos do país. Encontra-se classificado pela UNESCO como Patrimônio da Humanidade. Foi anunciado em 2007 como uma das sete maravilhas do mundo moderno.

A obra foi feita entre 1632 e 1653, com a força de cerca de 20 mil homens, trazidos de várias cidades do Oriente, para trabalhar no suntuoso monumento de mármore branco que o imperador Shah Jahan mandou construir em memória de sua esposa favorita, Aryumand Banu Begam, a quem chamava de Mumtaz Mahal (“A joia do palácio”). Ela morreu após dar à luz o 14º filho, tendo o Taj Mahal sido construído sobre seu túmulo, junto ao rio Yamuna.

Assim, o Taj Mahal é também conhecido como a maior prova de amor do mundo, contendo inscrições retiradas do Alcorão. É incrustado com pedras semipreciosas, tais como o lápis-lazúli entre outras. A sua cúpula é costurada com fios de ouro. O edifício é flanqueado por duas mesquitas e cercado por quatro minaretes. Supõe-se que o imperador pretendesse fazer uma réplica do Taj Mahal original na outra margem do rio, em mármore preto, mas acabou morto antes do início das obras por um de seus filhos.

8 – Outro local que enche os olhos e inunda o coração de emoção – FORTE VERMELHO, Em Nova Dehli, ÍNDIA

Este complexo grande e com muros vermelhos apresenta um longo período da história e da arte da Índia a partir do reinado dos imperadores mogóis no país.

O Forte Vermelho, em Nova Délhi, tem esse nome por causa das enormes paredes de arenito vermelho, que ficam a 33 metros (110 pés) de altura em algumas partes. Os muros foram construídos para manter invasores afastados durante o reinado do imperador mogol da Índia Shah Jahan, no século XVII. Shah Jahan também ficou famoso por fundar o Taj Mahal. Hoje, o Forte Vermelho é um destino turístico popular, atraindo milhares de visitantes todos os anos.

Quais as diferenças sociais e culturais mais evidentes e perceptíveis em território indiano?

Ao iniciarmos a viagem na chegada a Índia, na capital Dheli, nas ruas desta grande capital, já se observam as diferenças e desigualdades sociais.

 A desigualdade social é um problema grave na Índia, onde uma pequena elite controla grande parte da riqueza do país. Isso leva à exclusão social e econômica de muitos cidadãos indianos. Observa-se ao andarmos pelas ruas, também ao pisarmos na Índia, neste solo sagrado.

Assim, o Taj Mahal é também conhecido como a maior prova de amor do mundo, contendo inscrições retiradas do Alcorão. É incrustado com pedras semipreciosas, tais como o lápis-lazúli entre outras. A sua cúpula é costurada com fios de ouro. O edifício é flanqueado por duas mesquitas e cercado por quatro minaretes. Supõe-se que o imperador pretendesse fazer uma réplica do Taj Mahal original na outra margem do rio, em mármore preto, mas acabou morto antes do início das obras por um de seus filhos. meu olhar não foi discriminatório e sim pensando nas transformações internas dessa peregrinação que fizemos e nos preparamos para tal.

Através de guias locais também foi informado que muitos indianos vivem abaixo da linha da pobreza e que o governo estuda junto a outros órgãos e ONGS maneiras de estabilizar este quadro social, que conta também com questões culturais fortes que acabam influenciando drasticamente em algumas ações.

Sua percepção sobre religiosidade, mística e cultura de não-violência (ensinamentos de Mahatma Gandhi) junto ao povo indiano.

Eu acredito que em todos os locais que visitei junto ao grupo de peregrinação ao qual fiz parte, via e sentia os ensinamentos deste grande líder espiritual, na simplicidade das pessoas, na amorosidade, no sorriso, na alegria e no silenciar, no meditar, estar presente.  Também no respeito ao animal sagrado que é VACA, um Deus sagrado, e em uma imensidão de Deuses e Deusas, na entoação de MANTRAS em todos os locais, casas, templos sagrados, comércio nas ruas, na partilha entre todos os povos. Vê-se o amor e a partilha do alimento em todos os espaços, especialmente nas classes menos favorecidas.

Obtive muitos ensinamentos com grandes mestres, rituais religiosos, budistas, devoção a cada gesto e, o principal: aquietar a mente através da meditação, silêncio e entoação de mantras.

O que a Índia tem a nos ensinar?

Eu diria que como peregrina e turista, mas principalmente como turista, o aprendizado que levo que é um chamado, um resgate da alma, um reencontro consigo mesmo, uma viagem interior. 

“A diferença entre o Turista e o Peregrin é que este torna sagrado os lugares que visita, traz para dentro de si a força e a mística transformadora daquela natureza, se permitindo visitar lugares inusitados dentro de si mesmo e com a consciência desperta abre-se para dar passos em direção a verdadeira natureza do ser” (Jean Yves Leloup)

O povo, os aromas de incensos, perfumes, alimentos, temperos, culinária, entoação de mantras em todos os locais, orações, cantos, meditações, louvores, em todos os locais nos fazem olhar pra vida com outro olhar: olhar do silêncio, do despertar, do amor e respeito ao próximo.

Sim muitos problemas sociais se observam, mas o olhar do peregrino vai além disso.

Por que recomendaria uma viagem para Índia?

Índia: um país milenar, de história, culturas, aromas, magias, povo que encanta.

Por ser tão belo compartilhar rituais tão ancestrais, milenares e curativos. Por ser uma terra Sagrada, que tanto nos ensina.

Conheça também matéria do site para Templo Budista de Três Coroas, RS, realizada com estudantes do Ensino Fundamental de uma escola da rede municipal de Passo Fundo, no ano de 2019: www.neipies.com/viagem-de-conhecimentos-templo-budista-tres-coroas-rs/

Edição: A. R.

Incrível Índia. Por que visitá-la e conhecê-la?

Em 2012, embarquei com minha família para uma das jornadas mais marcantes da nossa vida: uma viagem à Índia, esse país de contrastes intensos, cores vibrantes e espiritualidade pulsante. Mais que um destino turístico, a Índia se revelou uma escola viva, onde aprendemos com os templos, com os olhares, com os cheiros e sabores — e, acima de tudo, com o povo.

A diversidade indiana é imensurável. Com 28 estados e sete territórios federais, o país abriga mais de 1,2 bilhão de pessoas (à época), reunindo línguas, religiões, castas e tradições milenares. Em meio a essa vastidão, percorremos o famoso Triângulo Dourado: Delhi, Agra e Jaipur — três cidades que concentravam história, arquitetura monumental e encontros surpreendentes.

Com alegria e prazer, respondi a perguntas elaboradas por Nei Alberto Pies, editor deste site, revivendo os momentos bons desta viagem e ressignificando esta tão genuína experiência desta viagem familiar.

Qual foi a motivação pessoal para fazer uma viagem para a Índia?

A viagem à Índia nasceu da curiosidade e do espírito de aventura da família. A ideia não era apenas fazer turismo, mas aprender sobre novas culturas. A Índia foi escolhida como destino por sua riqueza espiritual, cultural e histórica. É uma verdadeira escola viva, um mergulho na diversidade que nos permitiu viver momentos que foram além do convencional.

Que aspectos culturais e religiosos chamaram a minha atenção?

A convivência entre diferentes religiões nos chamou muito a atenção. Mas o mais marcante foi a espiritualidade expressa por meio das imagens de deuses como Ganesha e Shiva, presentes por toda parte.

Visitamos os Templos de Lótus e Birla — ambos muito belos e frequentados —, bem como a mesquita Jama Masjid. A presença simbólica (e literal) de ratos nos templos e de vacas nas ruas também impressiona: são idolatrados e circulam livremente. Quando avistados, são comemorados, pois significam proteção espiritual.

As “Quatro Leis da Espiritualidade da Índia” tornaram-se, para nós, uma filosofia de vida após essa vivência. São elas:

1. A pessoa que vem é a pessoa certa.

2. Aconteceu a única coisa que poderia ter acontecido.

3. Toda vez que você iniciar é o momento certo.

4. Quando algo termina, termina.

Quais diferenças sociais e culturais mais evidentes foram perceptíveis em território indiano?

As diferenças mais perceptíveis foram a permanência do sistema de castas — mesmo oficialmente abolido — e a profunda desigualdade social, visível na convivência entre a grandiosidade dos palácios e a precariedade das ruas, com tuc-tucs (pequenos táxis) com 10 pessoas dentro, e motos com 4 pessoas sem capacete, só para exemplificar. O contraste entre a riqueza espiritual e a pobreza material é espantoso.

O mais impressionante é que, mesmo diante da superpopulação, do saneamento precário e da infraestrutura deficiente, os indianos não demonstram sofrimento: aparentam estar em paz.

Minha percepção sobre religiosidade, mística e cultura de não violência (ensinamentos de Mahatma Gandhi) junto ao povo indiano.

A religiosidade e a mística estão intrinsecamente presentes no cotidiano indiano — Deus está em tudo. Há um profundo respeito por todas as formas de fé. A frase de Gandhi citada no relato — “Felicidade é quando o que você pensa, o que você diz e o que você faz estão em harmonia” — resume bem o espírito do povo: uma busca constante por integridade espiritual.

A cultura da não violência, embora desafiada pelas desigualdades, ainda ecoa nos gestos gentis, na paciência diante do caos urbano e na reverência à vida — inclusive dos animais nas ruas. Muitos macacos caminham livremente pelos mercados, inclusive sobre as frutas. Aliás, onde há macacos, acredita-se que o deus Hanuman está presente, protegendo a todos.

O que a Índia tem a nos ensinar?

A Índia nos ensina a enxergar beleza no caos e espiritualidade nas pequenas coisas do cotidiano. Ensina a respeitar as diferenças e a valorizar o essencial — para eles, a sobrevivência. Muitas vezes, parece que ter o que comer e uma boa roda de conversa, agachados sobre os joelhos, ao redor de uma fogueira (mesmo no verão), já basta.

Por que recomendaria uma viagem à Índia?

Recomendo a Índia porque ela não é apenas um destino — é um portal para dentro de nós mesmos. Viajar para lá é confrontar crenças, expandir horizontes e experimentar a humildade diante da grandiosidade da vida. É uma experiência transformadora, que toca a alma e permanece viva muito tempo após o retorno.

Quem vai à Índia volta diferente — mais sensível, mais sábio, mais humano. E, claro, estupefato com as belezas dos monumentos centenários, como o Taj Mahal — com seu interior adornado por mosaicos de pedras preciosas no chão e nas paredes —, o Castelo de Agra e a cidade rosa, Jaipur.

E eu, que sou apaixonada por pavões, me esbaldei (risos)! Ele é a ave símbolo do país e, além de encontrarmos exemplares soltos por diversos lugares, sua imagem serve de adorno em muitos espaços visitados.

Acesse também matéria sobre outra visita à Índia, em forma de entrevista, publicada no site:

Link: https://www.neipies.com/uma-viagem-conduzida-por-uma-guia-a-india/

Autora: Marilise Brockstedt Lech.  Também escreveu e publicou no site “Egito: um mergulho no berço da civilização: www.neipies.com/egito-um-mergulho-no-berco-da-civilizacao/

Edição: A. R.

Prisão mata. Não cura!

A realidade das prisões brasileiras exige uma reflexão profunda sobre a função do sistema penal e o compromisso do Estado com os direitos humanos. A negligência com a saúde dos detentos não apenas viola a Constituição, mas também perpetua ciclos de sofrimento e exclusão.

A Ausência de Saúde no Cárcere Brasileiro

O sistema prisional brasileiro, ao invés de promover a reabilitação e garantir os direitos fundamentais, tem se mostrado um ambiente de adoecimento físico e mental. A precariedade das condições de saúde nas prisões é alarmante e evidencia a negligência do Estado em assegurar a dignidade humana aos encarcerados.

Adoecimento Sistêmico nas Prisões

Dados do Ministério da Saúde revelam que pessoas privadas de liberdade têm um risco 26 vezes maior de contrair tuberculose em comparação à população geral. Em 2023, foram registrados 7.718 novos casos da doença entre os detentos, representando 9,1% do total nacional .Serviços e Informações do Brasil

Além da tuberculose, outras doenças infecciosas como hepatites, HIV e sífilis são prevalentes nas prisões. O sistema penitenciário contabilizou 26.478 detentos diagnosticados com essas infecções, evidenciando a vulnerabilidade sanitária do ambiente carcerário .Metrópoles

Saúde Mental: Um Grito Silencioso

O encarceramento impacta profundamente a saúde mental dos detentos. Estudos indicam que aproximadamente 11,2% dos homens e 25,5% das mulheres presas apresentam transtornos mentais graves. A falta de atendimento adequado agrava essas condições, levando a consequências trágicas. SciELO BrasilCampus Virtual Fiocruz

Em 2023, o suicídio foi a segunda principal causa de morte nas prisões brasileiras, correspondendo a 10,8% dos óbitos registrados. A taxa de suicídios entre detentos é quatro vezes maior do que na população geral, refletindo a desesperança e o abandono vivenciados no cárcere .vieirariosadvogados.com.br+1Pastoral Carcerária (CNBB)+1

Mulheres Encarceradas: Invisibilidade e Negligência

As mulheres privadas de liberdade enfrentam desafios específicos e frequentemente negligenciados. Relatos apontam para o uso excessivo de medicações psicotrópicas como forma de controle emocional, sem acompanhamento terapêutico adequado. Dialnet

Gestantes encarceradas sofrem com a falta de acesso a pré-natal e cuidados obstétricos, resultando em partos dentro das unidades prisionais sem a devida assistência médica. Crianças nascidas nesse contexto enfrentam condições insalubres e ausência de acompanhamento pediátrico adequado.

Infraestrutura Precária e Falta de Profissionais

A ausência de Unidades Básicas de Saúde (UBS) nas prisões compromete o atendimento médico regular. Médicos generalistas muitas vezes precisam atender casos especializados, como ginecologia e ortopedia, sem a formação adequada.

A falta de materiais de limpeza e higiene pessoal contribui para a proliferação de doenças de pele, como sarna, e respiratórias, agravando o quadro de saúde dos detentos.

Negligência Estatal e Violações de Direitos

A demora na realização de procedimentos médicos, como cirurgias, pode levar anos, mesmo em casos de urgência. A negativa de monitoramento eletrônico para detentos com doenças graves impede um acompanhamento digno e humanizado.

A escassez de dentistas nas unidades prisionais transforma dores de dente em punições adicionais, refletindo a desumanização do sistema. A falta de medicamentos essenciais agrava ainda mais o sofrimento dos encarcerados.

Conclusão: Um Chamado à vida  

A realidade das prisões brasileiras exige uma reflexão profunda sobre a função do sistema penal e o compromisso do Estado com os direitos humanos. A negligência com a saúde dos detentos não apenas viola a Constituição, mas também perpetua ciclos de sofrimento e exclusão.

Como nos ensina a Palavra de Deus:

“Lembrem-se dos que estão na prisão, como se aprisionados com eles; dos que estão sendo maltratados, como se vocês mesmos estivessem sofrendo.” (Hebreus 13:3)

Que possamos, como sociedade, estender nossa empatia e agir em prol da dignidade e saúde de todos, inclusive daqueles que estão privados de liberdade.

Sugestão de leitura: Cartas de liberdades: obra que reflete existência e encarceramento: www.neipies.com/cartas-de-liberdades-obra-que-reflete-existencia-e-encarceramento/

Autora: Vera Dalzotto. Também escreveu e publicou no site “Educação ou prisão?: o futuro que queremos construir”: www.neipies.com/educacao-ou-prisao-o-futuro-que-escolhemos-construir/

Edição: A. R.

A meritocracia capitalista

Embora o discurso da meritocracia seja falso, é um discurso massivamente aceito pela população e usado para justificar a abusiva concentração de renda no Brasil (e pelo mundo afora), fazendo com que o Brasil esteja entre os países mais desiguais do planeta, com meia dúzia de super-ricos e milhões de pobres.

   A palavra meritocracia se origina de mérito + cracia, seria o governo do mérito. Já o mérito está relacionado a merecimento, aptidão ou destaque no grupo social, com alguma habilidade diferenciada como por exemplo para a música ou futebol.

Nesse sentido, a meritocracia é usada para justificar o exercício da liderança social, ou do governo, pelas pessoas que em tese possuem mais méritos, pessoas que seriam as mais habilidosas ou competentes.

E o capitalismo, o que seria? Numa definição resumida, seria o uso do capital ou governo dos capitalistas. Se pensamos no uso do capital (recursos materiais, financeiros, humanos …), poderíamos concluir que toda e qualquer sociedade usa capital, independente da denominação política que se atribua. Tanto faz se é capitalismo, socialismo, comunismo ou neoliberalismo, todos usam capital.

Nos resta entender o capitalismo como o governo dos capitalistas, daqueles que são donos do capital privado, os ricos ou super-ricos (capital privado, porque também existe o capital público). E por que uma sociedade deveria ser governada pelos super-ricos capitalistas? Qual a explicação internalizada e aceita pelas pessoas como justificativa para a legitimidade do governo dos super-ricos?

Nos governos comandados pela religião, a explicação ou justificativa é a de que os papas, pastores, padres ou bispos são representantes de Deus na terra. Na época dos reis e nobres, a justificativa era a hereditariedade – filho de nobre nascia nobre.

E hoje, qual é a explicação para as pessoas aceitarem o governo dos super-ricos capitalistas? É a meritocracia. Os super-ricos usam a meritocracia como justificativa para afirmar que são ricos porque possuem mais méritos que o restante da população. Ao mesmo tempo, o discurso da meritocracia serve para colocar a culpa da pobreza nos próprios pobres – são pobres porque possuem menos méritos ou porque não se esforçaram o suficiente.

Está correto esse discurso meritocrático?

Pensemos por exemplo na herança. Por hipótese, se você tivesse nascido filho do Roberto Marinho (Rede Globo) ou do Sílvio Santos (SBT), quantos “méritos” a mais você teria neste momento? Será que você se esforçou menos do que os filhos(as) dos donos da Globo/SBT para que eles tenham mais “méritos” (capital/patrimônio) do que você?

Provavelmente você se esforçou mais e possui bem menos “méritos capitalistas” do que eles. Fácil de entender … ou não? Alguns se referem a essa situação falando em “igualdade de oportunidades” ou “o ponto de partida importa”.

Em algumas ocasiões a justificativa meritocrática é verdadeira, como por exemplo no futebol do Pelé ou do Messi. No entanto, não condiz com a verdade o discurso meritocrático que afirma que os super-ricos como regra são ricos por possuírem mais méritos (mais esforço/habilidades), e que os pobres são pobres porque possuem menos méritos (não se esforçam ou não possuem habilidades).

Não é por meritocracia, é por nascer em família rica, passando “os méritos capitalistas” de geração em geração. Filho de rico nasce rico … igual à idade média, onde filho de nobre nascia nobre. É um mito afirmar que basta ser o suficientemente esforçado e competente para chegar a ter o mesmo capital do Elon Musk ou Jorge Paulo Lemann (envolvido no escândalo da Lojas Americanas).

Embora o discurso da meritocracia seja falso nesse contexto, é um discurso massivamente aceito pela população e usado para justificar a abusiva concentração de renda no Brasil (e pelo mundo afora), fazendo com que o Brasil esteja entre os países mais desiguais do planeta, com meia dúzia de super-ricos e milhões de pobres.   

Para entender melhor e poder tirar suas próprias conclusões, segue sugestão do livro A tirania do mérito (Civilização Brasileira), do escritor estadunidense Michael Sandel.

Sugestão de leitura: Racionalidade neoliberal e a cilada da meritocracia: www.neipies.com/a-racionalidade-neoliberal-e-a-cilada-da-meritocracia/

FONTE: https://aterraeredonda.com.br/a-meritocracia-capitalista/

Autor: João Carlos Loebens. Doutor em economia e auditor-fiscal da Receita Estadual do Rio Grande do Sul. Autor estreia sua primeira coluna no site. Bem-vindo!

Edição: A. R.

Nova Política de EAD para Ensino Superior

No Brasil não basta um novo marco legal. Temos legislações educacionais avançadas que não são implementadas. É preciso fiscalização para que seja cumprido e punição exemplar para os infratores.

Após postergações e cobranças, o Ministério da Educação (MEC), finalmente, publicou três novos atos regulatórios sobre a oferta de educação a distância por Instituições de Ensino Superior (IES) em cursos de graduação. Os atos são: o Decreto nº 12.456 e as Portarias do MEC nº 378 e nº 381, todas publicadas dia 19 de maio de 2025.

Esta nova legislação altera o Decreto de nº 9.057/2017, publicado há oito atrás, conforme abordamos na época neste Jornal Extra Classe[1] e que caracterizamos como uma legislação irresponsável assinada pelo então Presidente Michel Temer e o Ministro da Educação José Mendonça Bezerra Filho.

Neste período de 2017-2015, o Brasil, sem experiência histórica e sem critérios acadêmicos, consolidou-se como o maior ofertante de EAD no mundo.

Nas últimas duas décadas, perpassando a fase da pandemia, as regulações por decretos presidenciais em cada ciclo de governos diferentes, foram usadas como “porteiras abertas” para uma expansão descontrolada da mercantilização da educação superior, do empresariamento do ensino, que, no presente momento, detém 80% das matrículas, comprometendo a qualidade da formação dos egressos, cujas consequências são ainda incalculáveis para o futuro destas gerações e do país.

As consequências do modelo e seus impactos na qualidade no ensino e aprendizagem geraram, na sociedade brasileira, um clamor e relativo consenso da necessidade de revogar a legislação de EAD vigente e estabelecer um novo marco regulatório e uma nova política para o ensino à distância no país.  Obviamente, os representantes do capital e os mercadores da educação espernearam, até porque, as medidas tomadas irão afetar seus resultados financeiros, que sempre foram seu objetivo supremo.

Destaques da nova política de EAD:

– Os cursos de graduação poderão ter três formatos: Cursos Presenciais, Semi Presencial ou Cursos A Distância;

– Os processos de processos de ensino e aprendizagem poderão ser realizados por Atividade Presencial; Atividade Síncrona; Atividade Síncrona Mediada e Atividade Assíncrona;

– Obrigatoriedade de ensino exclusivamente presencial para os cursos de Medicina, Direito, Odontologia, Enfermagem e Psicologia;

– Os cursos de graduação presencial deverão ofertar, no mínimo, 70% (setenta por cento) de sua carga horária total por meio de atividades presenciais;

– Os cursos semipresenciais podem ser ofertados com pelo menos 30% (trinta porcento) de atividades presenciais e 20% (vinte porcento) de atividades presenciais ou síncronas mediadas, os cursos de bacharelado, licenciatura e tecnologia das seguintes áreas: Educação e Ciências Naturais, Matemática e Estatística;

– Os cursos de graduação a distância deverão ofertar, no mínimo: 10% da carga horária total do curso por meio de atividades presenciais e, 10% da carga horária total do curso em atividades presenciais ou síncronas mediadas;

– O credenciamento para a oferta de cursos de graduação nos formatos de sua oferta será realizado por meio de processo regulatório e precisa constar nos Planos de Desenvolvimento Institucional (PDIs);

– É obrigatória a utilização das terminologias presencial, semipresencial e a distância para identificar o formato de oferta dos cursos de graduação em contratos educacionais, regulamentos e atos normativos internos e nas páginas dos cursos nos sítios eletrônicos das Instituições de Educação Superior;

– O corpo docente das Instituições de Educação Superior (IES), que atue nas unidades curriculares ofertadas de forma parcial ou integral em educação a distância, será responsável pelo planejamento, pela efetivação, pelo acompanhamento e pela avaliação dos processos de ensino e aprendizagem;

– Este corpo docente poderá ser composto pelas seguintes categorias: coordenador de curso; professor regente e professor conteudista;

– O corpo docente poderá ser auxiliado por mediadores pedagógicos, com formação acadêmica compatível, que exercerão atividade educacional de mediação pedagógica em processos de ensino e aprendizagem;

– As Instituições de Educação Superior deverão aplicar avaliações de aprendizagem presenciais, em suas sedes, nos campi fora das sedes e nos Polos EaD, em todas as suas unidades curriculares ofertadas de forma parcial ou integral em educação a distância;

– Os estudantes que se matricularam nos cursos de que trata o caput, até a alteração do seu status para “em extinção”, terão direito à conclusão do curso no formato de oferta previsto no ato de matrícula;

– É responsabilidade da IES assegurar a continuidade da oferta do curso no formato EaD, até dois anos após o prazo de integralização, previsto no projeto pedagógico do curso, de forma a viabilizar a conclusão pelos estudantes matriculados.

Repercussões de entidades e especialistas

Para o Ministro da Educação Camilo Santana, a EAD ocupa uma posição central no sistema de educação superior no Brasil e merece uma atenção maior do poder público. “Acreditamos que a EAD pode proporcionar ao estudante uma experiência tão rica quanto a dos demais cursos, desde que haja um efetivo compromisso de todos com o processo de ensino e aprendizagem”, defende Santana.  

“O foco é o estudante e a valorização dos professores: a garantia de infraestrutura nos polos, a qualificação do corpo docente, a valorização da interação e a mediação para uma formação rica e integral, independentemente da distância física”, afirma o ministro.  

O Conselho Consultivo para o Aperfeiçoamento dos Processos de Regulação e Supervisão da Educação Superior (CC-Pares) composto por instituições públicas, comunitárias e privadas, da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes), do Conselho Nacional das Instituições da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e  Tecnológica (Conif), Associação Brasileira das Instituições Comunitárias de Educação Superior-ABRUC, Conselho de Reitores das Universidades Brasileiras (CRUB), da União Nacional dos Estudantes (UNE), entre outros, apoiaram o novo o novo marco regulatório.

Em seu Manifesto coletivo estas entidades educacionais expressam que a bandeira da regulamentação da educação privada foi um dos destaques da Conferência Nacional de Educação (CONAE) e está incorporada no documento aprovado por essa conferência. O Fórum Nacional de Educação (FNE), fortalecendo essa bandeira, aprovou a constituição de dois grupos de trabalho: um para a regulamentação da educação privada e outro para a Educação a Distância.

Nosso entendimento inicial, pois novos atos regulatórios do MEC e do CNE (Conselho Nacional de Educação) serão exarados na sequência, aponta que este novo decreto nº 12.456/2025 é um avanço necessário e importante se comparado com a regulação irresponsável de 2017. Esta nova regulação estabelece uma política de EAD equilibrada e comprometida com uma efetiva aprendizagem dos estudantes, reforçando o espaço e o papel do corpo docente, exigindo das IES maior responsabilidade e qualidade social do ensino superior.

Porém, há ainda espaço para avançar e aprimorar esta regulação nos próximos atos tanto do MEC e do CNE, especialmente no que tange aos processos avaliativos das IES, dos Cursos e dos Estudantes (ENADE). É preciso que estes processos avaliativos sejam, também, presenciais, mais rigorosos na busca de um desempenho melhor, proibindo a oferta de cursos com conceitos 01 e 02 identificados nestas avaliações de cada IES.

No Brasil não basta um novo marco legal. Temos legislações educacionais avançadas que não são implementadas. É preciso fiscalização para que seja cumprido e punição exemplar para os infratores.

O Art. 209 da Constituição Federal existe deste 1988 e estabelece que o ensino é livre à iniciativa privada, atendidas as seguintes condições:cumprimento das normas gerais da educação nacional e avaliação de qualidade pelo Poder Público. Educação e formação de qualidade são direitos dos brasileiros que não podem serem negligenciados por nenhuma esfera.    

Autor: Gabriel Grabowski. Também escreveu e publicou no site “Novos e velhos desafios da educação em 2025”: www.neipies.com/novos-e-velhos-desafios-da-educacao-em-2025/


[1] https://www.extraclasse.org.br/opiniao/colunistas/2017/06/novo-decreto-de-ead-flexibilizacao-irresponsavel/

Edição: A. R.

CULTURA NO RIO GRANDE DO SUL

PASSO FUNDO – CAPITAL NACIONAL DA LITERATURA

Repercutimos, nesta matéria, entrevista concedida por Nei Alberto Pies, editor do site, ao Jornal Brasil Popular, assinada por Adeli Sell (que também é Convidado deste site: https://www.neipies.com/author/adeli/). Nesta entrevista, Pies manifesta-se sobre as diversas atividades e iniciativas da cidade de Passo Fundo em prol da leitura e literatura local, regional e nacional na atualidade e em passado recente.

(Por Adeli Sell)

Conhecida como a “Capital Nacional da Literatura” devido à sua forte ligação com a leitura e a literatura, sendo sede de um dos maiores eventos literários da América Latina, a Jornada Nacional de Literatura.

A Lei nº 11.264 confere ao município o título foi sancionada em 2 de janeiro de 2006 pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva.

Tem uma população em torno de 215 mil habitantes, localizada no Planalto Central do Estado, dista 290 km da capital.

Região muito forte nos agronegócios, e conquistou este espaço na área da cultura.

Para saber mais, vamos falar com o professor Nei Alberto Pies que tem um site – www.neipies.com  – com uma verdadeira legião de leitores. É um sucesso e um fenômeno, porque publica textos mais densos, focando na filosofia, educação e espiritualidade.

P – Passo Fundo faz jus ao título de Capital da Literatura?

R – Nossa cidade tem um histórico e um trabalho de décadas em prol da leitura e da literatura, impactando dezenas de municípios desta grande região. Passo Fundo já mereceu este reconhecimento, mas hoje vivemos um momento de “adormecimento” desta pauta, embora ainda se mantenham vivas e atuantes pessoas e entidades que trabalham pela importância da Literatura. Temos na cidade uma Academia de Letras bem atuante, temos uma “Sociedade de Poetas Vivos” e temos grupos e entidades de teatro, música e, felizmente, ainda temos duas ou três boas livrarias abertas.

P – As jornadas continuam ou há problemas de financiamentos como outros eventos de tal grandeza?

R – Tivemos dificuldade de financiamento da Jornada de Literatura, também por ela ser um evento de uma grande magnitude e de altos custos. Por outro lado, a Jornada já tinha se distanciado um pouco da ideia inicial de ser parte de um movimento de leitura e literatura. Já acontecia apenas como evento literário. O seu cancelamento ocorreu em 2015. Houveram tentativas de retomar este evento já, reunindo novamente UPF, Prefeitura Municipal e financiadores, mas sem a magnitude de antes. Por ora, está “cancelada”.  Ainda em 2015, já manifestamos que cancelamento não era uma tragédia, mas exigia que todos priorizassem novamente projetos de leitura e literatura, estruturação de bibliotecas escolares, mais apoio e incentivo às livrarias locais, realização de mais eventos de promoção de leitura e literatura.

P – Vocês têm uma Academia de Letras local? Pode falar um pouco dela?

R – Temos a APLetras (Academia Passo-Fundense de Letras), uma entidade da sociedade civil que tem uma atividade cultural expressiva e de grande impacto na sociedade passofundense. Funciona regularmente, reunindo os 40 membros da Academia. Promove atividades culturais e de promoção de leitura e literatura aos sábados, abertas à comunidade. Faz eventos literários e de promoção de leitura junto a seu histórico e imponente prédio. É copromotora das últimas Feiras do Livro da cidade.

P – Quais outros eventos na área da cultura que poderiam ser destacados?

R –A Feira do Livro, Festival Internacional do Folclore, Festival Tio Mena três grandes atrações culturais de Passo Fundo. Passo Fundo sempre projetou-se com a realização de eventos nacionais e internacionais, nas diversas áreas de conhecimento. Inclusive, em Passo Fundo, realizou-se em 2025 o X Colóquio Nacional de Direitos Humanos, bem como já houve aqui a realização de Colóquios Nacionais e Internacionais de Educação Popular.

P – A Universidade de Passo Fundo tem uma projeção muito grande em algumas áreas. Qual a sua contribuição no caso da Cultura?

R: A UPF é uma universidade comunitária, historicamente sempre presente nos eventos e na formação humana e profissional de uma grande maioria da população desta grande região no entorno de Passo Fundo. Além de manter sua estrutura do Campus Central aberto à toda população, promove e apoia eventos de entidades que tratam as temáticas de educação, cultura e literatura. Foi sempre a promotora das Jornadas Nacionais de Literatura, junto com demais entidades promotoras. Mantém o curso de Letras, bastante identificado com práticas e leitura e literatura, formando profissionais desta área em toda região.

P – Qual o papel de destaque das mulheres na cena cultural local?

R – Temos na cidade uma cultura ainda bastante provinciana e machista, que ainda não permite a participação e o protagonismo mais ativa das mulheres nos espaços de poder. A luta e a resistência das mulheres permitiram que tenhamos uma mulher Reitora da UPF (Universidade de Passo Fundo), uma presidente da Academia Passo-Fundense de Letras, 04 mulheres vereadoras (depois de um período recente onde ficamos sem nenhuma representatividade feminina). Tivemos e temos diferentes protagonismos femininos na educação, área de saúde, comércio e serviços. No entanto, ainda temos pouco protagonismo em cargos de maior poder e representatividade na sociedade passofundense.

P – Fala um pouco do seu site, como surgiu, como se mantém, quem escreve, sua repercussão?

R – Nosso site tem 10 anos e é uma experiência colaborativa, que busca a humanização através dos conhecimentos críticos e reflexivos. Não competimos com o jornalismo, mas publicamos reflexões. Temos, desde o início, a participação de cerca de 80 pessoas que escrevem e publicam no site. Já ultrapassamos mais de 1200 publicações e temos quase 1 milhão e duzentos mil acessos. Surgiu para permitir espaço à escritores livres, preferencialmente professores, artistas ou estudantes, desvinculados de jornais, revistas ou impressos, mas que entendem a importância de também comunicar. Mantém-se atualmente com o idealismo e financiamento do seu idealizador, mas com amplo reconhecimento e repercussões junto a estudantes (ensino médio/universitário), professores e professoras, ativistas sociais da região de Passo Fundo e do Brasil. Pode-se afirmar que deve ser uma das únicas iniciativas no Brasil, feita de professores para professores, que busca de maneira artesanal e autoral, afirmar ideais de ser humano e sociedade na perspectiva crítica e libertadora, combatendo todos os tipos de alienação.

P – O que mais gostaria de destacar?

R – Gostaria de agradecer esta oportunidade de falar de Passo Fundo, cidade que adotei como minha, e de também situar as inúmeras e valiosas iniciativas que pessoas e entidades constroem para tornar a sociedade mais humanizada e mais justa a partir da leitura, da literatura, da arte e da cultura, de modo geral. Defendemos uma cidade e uma sociedade plural, onde a democracia e a justiça sejam pilares da vida em sociedade. Onde a vida e a dignidade humana possam ocorrer de maneira mais ampla, pois como já nos ensina a Música “Comida”, da Banda Titãs: “a gente não quer só comida/a gente quer bebida, diversão, balé/a gente não quer só comida/a gente quer a vida como a vida quer”.

FONTE: https://brasilpopular.com/passo-fundo-capital-nacional-da-literatura/

Edição: A. R.

Veja também