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Quem tem medo de um amor adolescente? Estudar agora. Amar somente depois?

“Ainda é cedo amor, mal começaste a conhecer a vida…” (¹)

Quem tem coragem para falar aos adolescentes que ouçam o seu coração, que estejam prontos para amar assim que um olhar bater em seus olhos, assim que aquele frio tomar seu estômago… E que amem sem parar, sempre que uma chama arder em seus pés, sem queimar…

Eu não tenho!

Sempre aconselhei minhas filhas para estudar primeiro.

_ Vocês têm uma vida inteira pra namorar, dançar e namorar intensamente, viajar e namorar, mais ainda… Casar.  Agora, aproveitem e estudem!

Foi o que eu falei.

E foi um exemplo que não dei.  Segui meu colega Joaquim. Vamos lá:

_Era apenas uma tarde de abril, anunciando um frio que se avizinhava, em nuvens apressadas que corriam sem rumo sobre o céu, como vitrais quebrados enlouquecidos – foi o que ele me falou.

Sentindo que o relato era de um coração aquecido, perguntei qual fagulha tinha queimado seus pés? Conversa de um colega sóbrio é que não era.  Então, foi me contando… Isso porque para se entorpecer de amor não se consideram os anos.

_ Sabe, não há motivos em nosso mundo dos 16 para virmos à escola, enfrentarmos tanto tédio, senão por esperar vê-la subir as escadas…

Eu a via caminhando, falava ele, e ela não andava; seus pés eram de uma leveza que não vemos aqui. Parecia flutuar na calçada, com passos alternados de uma mulher feita, em passos de menina e anjo. Seu andar perfeito para um mundo desajeitado.

Seus pés pareciam ser feitos de neblina, tão leves e rápidos que mal poderia acompanhá-los. Muitas vezes a segui, para sentir sua respiração e ouvir suas batidas; para saber se o seu coração era mesmo humano.

Quando a Val caminhava em minha direção, meu mundo era destruído em segundos e o meu bocado de ar para respirar me era proibido. Ofegante e sem rumo, perdia as contas de matemática, ao saber que seu andar imaculado era tão desconcertante. Meu mundo era um moinho e o seu cabelo obedecia somente aos ventos.

Terminada a aula, falou o meu amigo, novamente meu desespero em tê-la ao meu lado, em minha última chance do dia.  Um ritual de espera em cinco horas, para poder andarmos juntos, dividir um pedaço de calçada e uns poucos passos. As pedras nos veriam novamente, todas elas, acostumadas que estavam a nos ver tão próximos…Tão distantes, igualmente.

Mesmo que o meu amor tivesse asas, não conseguia acompanhá-la.

Em alguns metros estávamos nos despedindo. Ela feliz, sem saber de todo amor que a acompanhava. Depois dos nossos tchaus dos 16 anos, mergulhava em um dia frio e cinzento pelas tardes de abril, inúteis, esperando a próxima manhã e então voltarmos juntos à escola; ela para aprender história e química, eu, para aprender a olhar em seu rosto e escolher a mais linda palavra que poderia lançar.

Enfim, mais uma vez, mais um dia, deixava a minha amada e desconhecida Val em sua casa, voltava às pedras da mesma calçada e falava a elas:  _amanhã, novamente, veremos um ao outro.

Dia após dia, em tardes que se atropelavam pela pressa das manhãs, em noites de tantas esperas, voltávamos no dia seguinte à escola, onde ela aprendia, com esmero, fórmulas incríveis de química, mas onde nunca me ensinou a dissolver uma fórmula de paixão qualquer, que fumegava sem fim em minha alma. Ela aprendia, entre tantas lições, a construção de uma vida de saber, enquanto eu sempre alimentava um tempo de sabor e entre tantas disciplinas decoradas, em meio a provas, notas e reprovações, na mesma escola e em suas escadas, eu só aprendi amar.

_ Meu colega e amigo Joaquim! Que lindo! Parei tudo pra ouvir.

Bem, é isso! Saudades do Joaquim! Saudades de todas as escolas onde passei, aprendi, amei…

Ao final de todas as contas, de uma existência, provavelmente, é nesta explosão inesperada de sentimentos, sem hora marcada, sem controle, sem idade ou futuro, que boa parte dos jovens deste mundo construiu sua vida.

A partir da escola, mesmo.  Nossa amada escola!!!

Independentemente…Se viver o amor sobre os bancos escolares não preserva o coração para além das provas, sempre se aprende poesia, entre o calor de uma paixão escaldante imatura e um intervalo vazio entre as aulas. Mas uma paixão adolescente pode dar sentido a todas as matérias e todas as suas manhãs.

_ Embora, meu colega Joaquim, o mundo seja um moinho…

1 O mundo é um moinho. Cartola

Autor: Nelceu A. Zanatta. Também escreveu e publicou no site “Você quer que eu empilhe troféus? Já pensou em conquistá-los comigo”? www.neipies.com/voce-quer-que-eu-empilhe-trofeus-ja-pensou-em-conquista-los-comigo/

Edição: A. R.

UPF: conhecimento para o desenvolvimento

Em um contexto em que muitas instituições de ensino priorizam o lucro em detrimento da qualidade, a UPF trilha um caminho diferente.

Como universidade comunitária, instituição tem profundas raízes no norte do RS enquanto constrói pontes com o mundo por meio da ciência, inovação e formação de pessoas

A Universidade de Passo Fundo (UPF) completou, neste mês de junho, 57 anos de atuação e segue firme no seu compromisso de conectar o desenvolvimento regional ao cenário global. Como universidade comunitária, a UPF tem profundas raízes no Norte do Rio Grande do Sul, uma das regiões que mais prosperam no Brasil. Ao mesmo tempo, constrói pontes com o mundo por meio da ciência, da inovação, da internacionalização e da formação de pessoas.

Essa atuação trouxe para a Instituição um reconhecimento nacional e internacional. A UPF alcançou o conceito máximo na avaliação do MEC, indicador que atesta a qualidade da gestão, da infraestrutura, do corpo docente e dos processos acadêmicos.

Segundo o Ranking Universitário da Folha (RUF), a Universidade desponta como a melhor universidade do Norte do Estado e entre as 12 melhores universidades privadas e comunitárias do Brasil. Já no ranking internacional Times Higher Education World University Rankings, está entre as 25 melhores do país em qualidade de pesquisa.

Mas a Universidade vai além dos rankings. Já formou 100 mil profissionais e, hoje, tem mais de 10 mil estudantes oriundos de mais de 150 municípios do Brasil e do exterior.

Com responsabilidade social e visão de futuro, a UPF mantém o foco na formação presencial, qualificada e conectada com as transformações locais e globais.

Com os olhos voltados para a sustentabilidade e para o futuro, estão sendo investidos quase R$ 20 milhões em infraestrutura de ensino, pesquisa e inovação em áreas estratégicas, voltados ao fortalecimento dos setores produtivos e sociais. Exemplos disso são o Passo Fundo Valley, o Laboratório de Protótipos, o Centro Regional de Criatividade e os investimentos em tecnologia para a cadeia leiteira.

Essas iniciativas somam-se a uma estrutura multicampi, com cerca de 300 laboratórios, 180 salas de ensino prático, 130 clínicas de atendimento e uma fazenda experimental de 270 hectares. Além do UPF Parque, único parque científico e tecnológico da região, que conecta pesquisa com empresas e startups.

Estudantes e professores da UPF participam de intercâmbios e pesquisas em dezenas de países e três de seus pesquisadores estão entre os 2% mais citados do mundo, segundo o banco global Elsevier. Outro exemplo da capacidade de conexão global é o projeto da Usina Escola de Amônia e Hidrogênio Verde, uma das primeiras do país, desenvolvida em parceria com o TecnoAgro e empresas internacionais. São R$ 50 milhões investidos no desenvolvimento de tecnologia limpa, com impacto na economia e na formação de profissionais qualificados.

A presença da UPF na sua comunidade também se traduz em parcerias transformadoras. Estamos comprometidos com a inclusão, o acesso ao conhecimento e a qualificação profissional. Os projetos sociais e ações de extensão beneficiam mais de 180 mil pessoas.

A UPF representa um projeto de desenvolvimento sustentável, baseado no conhecimento e na integração com a comunidade. Esse é o reflexo de uma universidade que cresce com a sua região, que conecta as necessidades da sociedade com a ciência e a tecnologia, aproxima o local do global. Prepara cidadãos para um mundo em transformação. Fortalece ciclos de desenvolvimento com inovação e responsabilidade.

Autora: Bernadete Maria Dalmolin, doutora em Saúde Pública pela Universidade de São Paulo (USP) e reitora da Universidade de Passo Fundo (UPF) desde 2018.

Créditos fotos: Rede social UPF/Divulgação

Edição: A. R.

De vez em quando no horizonte de André da Rocha

Se alguém ousar indagar, qual o principal legado deixado pelo Professor Aino Jacques? Eu não hesitaria responder: foi um mestre de escol que, acima dos conteúdos acadêmicos, primou pelo ensinamento de valores. E o livro Gado de Osso, do qual eu tive o privilégio de assinar o breve prólogo, é a prova cabal dessa afirmação.

“Os anos que vivi em Curitiba, Porto Alegre, Estados Unidos e Inglaterra são ilusórios, sempre estive (e estarei) em André da Rocha”. Eis a melhor síntese que encontrei para descrever o novo livro de memórias, Gado de Osso, do Professor Aino Victor Avila Jacques. E se esses versos não tivessem sido escritos por Jorge Luis Borges, há pouco mais de 100 anos, quando da sua volta para a Argentina, depois de ter passado temporada de quase uma década na Europa, sendo partes do poema Arrabal (…los años que he vivido en Europa son ilusorios,Yo estaba siempre (y estaré) en Buenos Aires), que integra o seu primeiro livro, Fervor de Buenos Aires, eles até poderiam ser reivindicados, por Aino Jacques, como autorais.

Gado de Osso é uma espécie de tributo aos valores que o Professor Aino Jacques tem cultuado com esmero ao longo da vida. Sobressaem-se o respeito à ancestralidade, a fraternidade no convívio familiar, a gratidão como premissa do reconhecimento por tudo que os outros fizeram e fazem por ele, a educação como base do desenvolvimento, a paixão pelo ensino e pesquisa, o respeito pelos colegas e estudantes que tiveram a graça de contar com a sua orientação ou o privilégio de assistir as suas aulas, a exploração econômica responsável do ambiente natural, a crença no associativismo, que procura praticar por meio de vivências nos Clubes de Integração e Trocas de Experiências (CITES), e a louvação à cultura, ao destacar o insigne professor e escritor Mozart Pereira Soares, in memoriam, autor, entre outras obras, de Alecrim e Manjerona (romance histórico que tem como pano de fundo a Revolução Federalista, de 1893, e a Revolução de 1923) como o homem mais culto que conheceu na vida.

André da Rocha é onipresente na vida e nos afetos de Aino Jacques.

A história desse município não se dissocia da história da família Jacques. Nas páginas do livro Gado de Osso, a liderança incontestável do Coronel Firmino Vieira Jacques, fazendeiro e político, que, em 1912, introduziu a raça Devon e outras melhorias para a produção de gado na região de André da Rocha. O churrasco com carne maturada em varais, que dava a tônica dos puxirões na Fazenda do Prata, de propriedade do Coronel Firmino, foi uma inovação para a época. E cujo filho, Antonio Jacques, comerciante e fazendeiro, pai de Aino Jacques, anos mais tarde, se converteria em figura de proa na criação do município de André da Rocha.

Aino Jacques, deliberadamente, optou, na vida, por privilegiar afetos. A geografia e a história de André da Rocha, em Gado de Osso, ganharam contornos a partir das memórias afetivas do autor. Aino escreveu esse livro mais com sentimento de poeta do que usando técnicas de historiador. O tempo e o espaço dos Jacques em André da Rocha estão postos.

O que Aino Jacques buscou (e conseguiu) foi, por meio de abstrações, unir fatos da história local e familiar, ao valer-se dos sentimentos e das emoções que o nutriram ao longo da vida. E, assim, por reconhecer e mostrar os feitos do passado, que estão integrados e se confundem com o presente, alcançou, a partir da sua história pessoal de vida, projetar os compromissos que são necessários para assegurar o futuro de André da Rocha. Não foi sem razão que ele, em 8 de dezembro de 2021, recebeu o título de Cidadão Emérito de André da Rocha. Tatiana, filha, e João Vitor, neto, sintam-se orgulhosos!

Talvez, na visão de alguns, Aino Jaques tenha abraçado Utopias. Quando, por exemplo, levou adiante a bandeira do avô, o Coronel Firmino, transformando-se em defensor e propagandista da raça Devon. Ou quando se colocou, radicalmente, contrário à queimada como prática de renovação de pastagens nos campos nativos.

Suas propostas de alternativas de manejo, depois muita pesquisa, o tempo se encarregaria de mostrar que estavam certas. E mais, ao abrir mão de obter maior lucratividade na atividade rural, uma vez que transformou a sua propriedade familiar, o Sítio do Pinheirinho, em André da Rocha, em um laboratório a céu aberto daquilo que pregava sobre manejo de campos nativos e em local de visitação obrigatória para estudantes e demais interessados no assunto.

Se alguém ousar indagar, qual o principal legado deixado pelo Professor Aino Jacques? Eu não hesitaria responder: foi um mestre de escol que, acima dos conteúdos acadêmicos, primou pelo ensinamento de valores. E o livro Gado de Osso, do qual eu tive o privilégio de assinar o breve prólogo, é a prova cabal dessa afirmação.

Nada mais adequado, para fechar esse texto em sintonia com o título, que rememorar os antológicos versos de Humberto Gabbi Zanatta musicados por Luiz Carlos Borges: “Tropa de osso quem não teve quando piá/ Ou não foi piá, ou não viveu como nós outros?/ (…)”.

Foto do Prof. Aino Jacques, em Passo Fundo, confraternizando com ex-alunos.

Fotos: arquivo pessoal do autor.

Autor: Gilberto Cunha. Também escreveu e publicou no site “Charlie Brown e  Snoopy discutem o acordo de Paris”: www.neipies.com/charlie-brown-e-snoopy-discutem-o-acordo-de-paris/

Edição: A. R.

Jovens que inspiram: redação do Colégio Tiradentes representa a 7ª CRE no Concurso Jovem Senador 2025

É com profunda alegria e orgulho que compartilho com os leitores desta coluna a brilhante conquista da aluna Eduarda Martinelli Lucietto, do Colégio Tiradentes, cuja redação foi selecionada para representar a 7ª Coordenadoria Regional de Educação do Rio Grande do Sul no Concurso Jovem Senador 2025.

O tema proposto — “Emergência climática: pense no futuro, aja no presente” — foi abordado por Martinelli com rara sensibilidade, maturidade argumentativa e um repertório cultural que merece destaque. A estudante incorporou com maestria clássicos da literatura brasileira, como “Vidas Secas” de Graciliano Ramos e o conto “Sarapalha” de João Guimarães Rosa, estabelecendo conexões ricas entre a arte literária e os desafios ambientais enfrentados pela humanidade. Sua reflexão crítica, aliada ao domínio da linguagem e à empatia social, resultou em um texto inspirador e impactante.

Como professora de redação da Martinelli, não posso deixar de expressar minha admiração e orgulho. Em sala de aula, ela sempre se mostra uma aluna comprometida, criativa e profundamente interessada nos temas que propomos. Participa com entusiasmo dos debates, se aprofunda nas leituras e entrega produções que vão além do esperado, revelando não só talento, mas também dedicação e responsabilidade.

Sua conquista representa não apenas o nosso colégio e a nossa coordenadoria, mas também o poder transformador da educação e da juventude que pensa, questiona e age. Parabéns, Martinelli por ser uma voz promissora e inspiradora — e por encher nossa escola de orgulho.

Segue redação da autora.

Emergência Climática: pense no futuro, aja no presente!

“O advento da Revolução Industrial ampliou gradativamente a exploração dos recursos naturais em todo o mundo, culminando em sérios problemas ambientais que colocam em risco diversas formas de vida do planeta.  Paralelamente, no Brasil atual, emergências climáticas, como ondas de calor extremo, inundações, secas e tempestades, têm obtido impactos significativos na saúde humana. Com efeito, é imprescindível compreender os principais desafios relacionados a essa problemática: a relação entre a tecnicização e seus impactos ambientais e o agravamento e transmissão de doenças.

Primeiramente, um importante aspecto transformador originado pelo período de industrialização, com impactos no meio ambiente, foi a modificação na interação entre o ser humano e a natureza. Como consequência, ao longo dos séculos XX e XXI, foram observados sérios níveis de contaminação da água, do solo e do ar, provenientes de indústrias. Nesse sentido, a obra “Vidas Secas”, escrita por Graciliano Ramos, retrata a história de uma família de retirantes que buscam fugir da miséria e da seca instauradas na região do Nordeste. Desse modo, análogo a isso, o livro pode ser comparado a atual realidade brasileira, visto que estiagens severas e intensas têm se tornado mais frequentes e devastadoras no Brasil.

Ademais, a deterioração ambiental e a redução da biodiversidade, intensificadas pelas alterações climáticas, são capazes de piorar problemas respiratórios e cardiovasculares e elevar a ocorrência de doenças propagadas por agentes transmissores. Nesse contexto, o conto “Sarapalha”, desenvolvido por Guimarães Rosa, aborda as duras condições de vida do sertão, onde a malária é uma constante ameaça à saúde dos personagens. Logo, a seca, que agrava a escassez de recursos, cria um ambiente propício para a proliferação do mosquito disseminador da patologia. Dessa forma, assim como na obra, a realidade brasileira é marcada por desigualdades ambientais, onde as populações mais vulneráveis sofrem com as consequências derivadas de urgências ecológicas.

Portanto, os riscos associados às diversas formas de vida do planeta precisam ser revertidos.  Outrossim, é essencial a cooperação entre profissionais de saúde pública, veterinários e ecologistas a fim de criar políticas que reconheçam a interdependência entre saúde humana, animal e ambiental. Além disso, torna-se papel do Ministério do Meio Ambiente, órgão responsável pela política nacional dos ecossistemas, substituir a energia fóssil pela solar e eólica — que, além de limpas e renováveis, tiveram seu custo de produção significativamente reduzido nos últimos dez anos. Em suma, soluções existem, mas é preciso pensar no futuro e agir agora”.

Autora: estudante Eduarda Martinelli Lucietto

Autora: Deise Bressan. Também escreveu e publicou no site “Desafios para a valorização da herança africana no Brasil”: www.neipies.com/desafios-para-a-valorizacao-da-heranca-africana-no-brasil/

Edição: A. R.

Tempos sombrios

Não fossem as canções, as películas, a crônica, muito de nossa História já teria sumido. Escrever, cantar, fotografar, filmar é tarefa que vai além do escritor, cantor, fotógrafo e cineasta.

Tivemos a maior enchente de todos os tempos em maio de 2024. A cidade restou abalada. As pessoas sofreram perdas. Foram-se bens e memórias. A volta foi um amargo regresso. Depressão, tristeza, desorientação campeiam em nossa alma.

Estamos finalizando junho de 2025 com mais e mais chuvas, alagamentos, obras prometidas e não realizadas. Faz um ano e a cidade começa a alagar.

1.346.000 habitantes em Porto Alegre. 100 mil unidades de habitação, comércio e serviços fechados, para alugar, vender ou nada consta. Mas 60 mil pessoas precisam de moradia.

Fomos a cidade de melhor qualidade de vida. Não somos mais. A Carris foi vendida a troco de nada. E os ônibus atrasam.

Faz frio, pessoas dormem nas gélidas calçadas. CPIs na Câmara. Aquela que analisou as mortes na Pousada Garoa terminou quando fazia 14 meses: só um culpado, o dono. Tiro pela culatra. Os onze mortos estão no silêncio das suas covas.

Vendo as festas juninas pelo país, a festa de Parintins, e nossas se resumindo a festinhas em colégios, alguma pipoca ou quentão aqui ou acolá. Fotografo a pobreza que vem crescendo. Claro que nós vamos ter o nosso 20 de setembro logo ali com carreteiros e churrascadas. Para poucos, é claro.

Convenhamos: somos ou estamos ficando mais tristes.

Mais tristes ao ver as cenas de matanças de Gaza, bombardeios na Ucrânia. Israel joga bombas em Gaza, no Irã, Trump faz seu ensaio com bombas. Tudo se soma às nossas desgraças.

Tomo meu cafezinho e vejo o Globo Rural falar do Mali, do algodão plantado com a assistência da nossa Embrapa. Dá-me algum alento. Sou lembrado, por outro lado, por um malinês, que seu tataravô foi escravo no Brasil, na produção do café. Ainda dói.

Cá fico pensando em músicas, lembrei-me de escutar a Cantata Santa Maria de Iquique. Encontro a gravação do grupo Quilapayún. Hoje, Iquique, Chile, é uma bela cidade que ainda quero conhecer. Quem saberá por lá do massacre de mineiros em 1907. Não deve ter mais sinais dos mais de 3.600 massacrados pelas armas ao comando de um General.

Acabo de ler o livro “João Cândido – Sonho e Castigo”, de Mário Pepo e me doem na alma as mais de cem chibatadas nos pobres marinheiros negros, corpos lacerados.

Números têm almas, sentem a dor, não podem ser esquecidos.

Por que tanta maldade?

Volto para minha Porto Alegre tão fria, gélida, chuvosa de junho: sem solução das comportas que podem não segurar as águas do Guaíba violento e lamacento, trazendo as desgraças de um ano atrás.

300.000 velhos/as na cidade. Onde estão? Nas periferias ficam a implorar medicamentos, nas Emergências esperando cuidados. Nada no site da Prefeitura nem do governo estadual. Foi assim há um ano. Soa em meus ouvidos uma idosa dizendo: “Perdi tudo, e agora?”

Leia mais: www.neipies.com/sobre-o-envelhecer/

Queria estar escrevendo outra crônica, talvez os “Caminhos da boa mesa”, a chegada dos 150 anos do Chalé da Praça XV, as feirinhas de livros e saraus, o Prêmio Açorianos de Literatura. Mas não, visão, ouvidos, cabeça me são tomados por coisas tristes, porque não se pode fugir da tristeza, como sempre temos que abraçar a alegria, quando ela desponta.

Para encerrar, escrevi na semana uma resenha, ou melhor, apontei alguns elementos do melhor livro que li neste ano: “A Hora dos Predadores”, de Giuliano de Empoli, no qual nos diz “como autocratas e magnatas digitais estão levando o mundo à beira de um colapso orquestrado”.

Não fossem as canções, as películas, a crônica, muito de nossa História já teria sumido.

Escrever, cantar, fotografar, filmar é tarefa que vai além do escritor, cantor, fotógrafo e cineasta.

Façamos nossa tarefa na tristeza ou na alegria.

No momento, os tempos são sombrios.

Autor: Adeli Sell. Professor, escritor e bacharel em Direito. Também escreveu e publicou no site “Sobre o envelhecer”: www.neipies.com/sobre-o-envelhecer/

Edição: A. R.

Sua família encontra prazer em estar juntos?

Não há alegria maior na vida do que rir com as pessoas que você ama. Aproveite enquanto seus filhos estão em casa, saudáveis e enquanto todos ainda estão juntos.

Junho de 2025. Você já parou para pensar se os encontros em família na sua casa são realmente prazerosos? Não me refiro apenas à presença física, mas à qualidade desses momentos.

Quando sua família se reúne, as pessoas gostam de estar sob o mesmo teto? As refeições são agradáveis, cheias de conversas e risadas? Há espaço para brincadeiras, jogos de tabuleiro ou cartas? Vocês cozinham algo juntos ou assistem a um filme em conjunto? E para quem tem filhos, as refeições conseguem ser um momento de prazer?

Quantas vezes vocês conseguem se sentar à mesa, todos juntos, compartilhando o que aconteceu no dia de cada um, apoiando-se nas dificuldades ou até mesmo “pegando ranço” daquele colega de escola que incomoda seu filho?

Pode parecer clichê, mas acredite: se você não dedicar tempo à sua família hoje — seus filhos, sua esposa ou marido — amanhã pode ser tarde demais. Seu lugar pode já ter sido preenchido ou, o que é pior, você pode nem fazer mais falta.

Não há alegria maior na vida do que rir com as pessoas que você ama. Aproveite enquanto seus filhos estão em casa, saudáveis e enquanto todos ainda estão juntos.

O tempo é extremamente relativo e, na vastidão do cosmos, a vida dura apenas um piscar de olhos. Que tal começar hoje a criar memórias verdadeiramente prazerosas com sua família?

A família não é um produto para a gente oferecer como solução para os reais problemas do ser humano e da humanidade. Se ainda acreditamos nela como um “porto seguro”, como referência para a vida pessoal e comunitária, precisamos investir nosso melhor tempo e nossas melhores energias para que ela possa cumprir com esta expectativa que temos dela. (Nei Alberto Pies) Leia mais: www.neipies.com/familia-se-esta-moda-pega/

Autora: Daiane Panosso. Neuropsicopedagoga e Professora. Esta é a sua segunda coluna publicada no site. Bem-vinda, novamente!

Edição: A. R.

CONER-RS orienta sobre Ensino Religioso Escolar

O Ensino Religioso na escola pública

Informações importantes para a sua oferta na educação básica

O Ensino Religioso hoje:

* Assumido como parte integrante da formação básica do educando

* Inserido no Projeto Pedagógico da Escola.

* Indispensável para a formação integral do ser humano.

*Importante para a prática consciente da cidadania

*Inserido nos horários regulares das Escolas Públicas de Ensino Fundamental e, no Rio Grande do Sul, também de Ensino Médio (Lei 9.475/97 e art. 209 da Constituição Estadual de 1989 e Parecer CEB/CNE 16/98).

*Objeto de Estudo = FENÔMENO RELIGIOSO, manifestado nas diferentes denominações religiosas (Religiões e Igrejas)

E o professor de Ensino Religioso: Quem é?

* Pessoa qualificada, com formação na Área de Conhecimento do Ensino Religioso.

* Não é evangelizador = é EDUCADOR

*Trabalha com Área de Conhecimento (Resolução 04/2010 e Resolução 07/2010, CEB/CNE);

*Com conhecimento das religiões e suas diferentes denominações, simbologias, teologias, ritos, ética…

* Precisa sentir-se chamado a ser, no conjunto dos educadores da escola, construtor de ética e de cidadania.

E os conteúdos: Como devem ser?

 *Partir das Unidades Temáticas propostas pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC)- Identidades e Alteridades- Manifestações Religiosas- Crenças religiosas e filosofias de vida

 * Privilegiam atitudes éticas, a prática da cidadania e da solidariedade, a alteridade e o respeito ao diferente.

* Não é catequese: precisa dar uma visão histórica e religiosa da tradição dos povos e da humanidade, de modo a gerar informação, conhecimento e entendimento a respeito das diferenças.

* Fortaleçam laços de afetividade e companheirismo, partindo do significado de que ser diferente pode ser sinal de crescimento.

Que metodologia e recursos são utilizados no Ensino Religioso?

  1. Metodologia

Conhecer

Compreender

Respeitar

(Por etapas interdependentes) e (Informar produzindo conhecimento e abertura)

  • Recursos

MPB

Jogos e brincadeiras

Textos reflexivos

Visitas de conhecimento

Dramatizações

 (Usar a criatividade)

E a formação do professor de Ensino Religioso: Quem promove?

* Em primeira instância, cabe às Instituições de Ensino Superior – IES, formarem o profissional para essa área do conhecimento, de acordo com as diretrizes para a formação de docentes para a educação básica do CNE e MEC, especialmente a Resolução CNE/CP nº 5/2018 (Licenciatura em Ciências da Religião)

Ensino Religioso no Ensino Médio

O Estado do RS tem no currículo das Escolas públicas do Ensino Médio Gaúcho a oferta do Componente Curricular Ensino Religioso.

O RCG afirma o reconhecimento das diferentes religiosidades na formação histórica e cultural dos diferentes povos de toda humanidade e na afirmação de valores que promovam o respeito, a alteridade, a ética e a convivência pacífica como pilares de uma sociedade justa e equilibrada, superando os fundamentalismos dogmáticos que reforçam os anátemas.

Saiba mais em: www.neipies.com/ensino-religioso-no-referencial-curricular-gaucho-do-ensino-medio/

E o CONER/RS. O que é?

*Conselho do Ensino Religioso do Estado do Rio Grande do Sul.

* Instituição de direito privado, de natureza associativa (Art. 1º Estatuto do CONER/RS)

* Entidade Civil que congrega as diferentes denominações religiosas (Lei 9.475/97 e Parecer CEED/RS 754/2001)

* No RS, deve ser observada a Res. CEED/RS 256/2000, que estabelece a formação necessária para o profissional dessa disciplina e Parecer CEED/RS n.º 157/2012.

* Assessoria aos Sistemas de Ensino na definição de conteúdos e forma de habilitação e ingresso de professores de Ensino Religioso.

*Com capilaridade estadual por meio de suas Seccionais.

CONER/RS – Quais são as Denominações Religiosas Filiadas?

* Centro Budista Chagdud Gompa Brasil

* Confissão Israelita

* Convenção das Igrejas Evangélicas e Pastores das Assembleias de Deus no Estado do Rio Grande do Sul

* Federação Espírita do Rio Grande do Sul • Igreja Adventista do Sétimo Dia

* Igreja Católica Apostólica Romana

* Igreja Episcopal Anglicana do Brasil

* Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil

* Igreja Evangélica Luterana do Brasil

 * Igreja Metodista

* Sociedade Beneficente Muçulmana de Passo Fundo

Assessores de Ensino Religioso na SEDUC, CRE e SMED: Quem são?

* São os Técnicos dos diferentes Sistemas de Ensino.

* Devem promover a formação continuada dos profissionais, em nome dos Sistemas, realizando parcerias com IES, assessorados pelo CONER/RS e seccionais.

* Animar a caminhada dos professores de Ensino Religioso, assessorando sua ação pedagógica, orientando o planejamento, a prática e a avaliação no processo.

Rede municipal de Passo Fundo, ainda em 2020, também construiu documento orientando seus professores e professoras para as boas práticas do Ensino Religioso. Acesse: www.neipies.com/passo-fundo-orienta-rede-municipal-no-ensino-religioso/

Professor José Adilson Santos Antunes é reconduzido à Presidência do CONER/RS representando a CNBB Sul 3. A 27ª Assembleia Geral Ordinária do Conselho de Ensino Religioso do Estado do Rio Grande do Sul marcou a eleição da nova diretoria para o próximo triênio, que se estende de 2024 a 2027.

Antunes esteve em Passo Fundo, RS, representando o CONER_RS, em Seminário Ensino Religioso: estudos e diálogos, com a presença de professores e professoras das redes públicas e privadas, realizado pela Pastoral da Educação, Arquidiocese de Passo Fundo e com apoio da Seccional Coner de Passo Fundo.

José Adilson Antunes e membros Seccional Coner Passo Fundo.

José Adilson e editor do site

Registro com organizadores do evento.

Fontes de consulta:

* JUNQUEIRA, S.; OLENIKI, M.; ORTIZ, F. (Org). Caderno Pedagógico para o Ensino Religioso: manifestações religiosas. Petrópolis: Vozes, 2023.

* JUNQUEIRA, S.; OLENIKI, M.; ORTIZ, F. (Org). Caderno Pedagógico para o Ensino Religioso: crenças e filosofias. Petrópolis: Vozes, 2023

* JUNQUEIRA, S.; OLENIKI, M.; ORTIZ, F. (Org). Caderno Pedagógico para o Ensino Religioso: identidades e alteridades. Petrópolis: Vozes, 2023.

* JUNQUEIRA, S.; OLENIKI, M.; ORTIZ, F. (Org). Caderno Pedagógico para o Ensino Religioso: a cultura religiosa no ensino médio. Petrópolis: Vozes, 2024.

* ESTATUTO do Conselho do Ensino Religioso do Estado do Rio Grande do Sul CONER/RS. Porto Alegre: 2017.

* LDBEN, Lei 9.394/96, art. 33, com redação dada pela Lei 9.475/97.

* CNE/CEB. Resoluções 04/2010 e 07/2010

* CNE/CP. Resolução 5/2018

* RIO Grande do Sul. Constituição Estadual de 1989

* CEED/RS. Resolução 256/2000

* CEED/RS. Parecer 745/2001

* CEED/RS, Parecer 157/2012.

FONTE: https://conerrs.wixsite.com/coner

Edição: A. R.

Steve Cutts: arte reflexiva sobre comportamentos humanos na cultura atual

Descobrimos que Steve Cutts é um artista independente de Londres. Cutts especializou-se em arte, ilustração e animação.

Steve Cutts tem animações mundialmente conhecidas e reconhecidas por refletirem os impactos sobre a forma de organização utilizada pelo ser humano na atualidade e ao longo de seu percurso histórico.

Descobrimos também que o artista utiliza-se de um tom provocador, ácido e farto de críticas sobre o comportamento humano em suas ilustrações e animações.

Recomendamos, para fins pedagógicos e reflexivos, 3 Curtas que podem servir muito às aulas de professores de Ensino Religioso, Filosofia, História e Geografia, da Área de Conhecimento de Ciências Humanas.

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Curta “Man”, publicado em 2012. Mostra o poder do ser humano na destruição devastadora do Planeta, seguindo uma visão linear de mundo e de progresso.

Link: https://youtu.be/WfGMYdalClU?t=68

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Curta “A Brief Disagreement”, publicado em 2022. Mostra a importante evolução das tecnologias de guerra e disputa por territórios, ao longo da história. No entanto, mostra o ser humano sendo o mesmo, na sua forma mais primitiva de sempre querer dominar os outros.

Link: https://youtu.be/9x7FGbW3IVc?t=114

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Curta “Happiness”, publicado em 2017. Na forma de sátira social, o autor questiona o modelo de felicidade que nos é prometido, a partir da ideologia da felicidade e dos méritos individuais. Uma felicidade às custas da infelicidade alheia. Será possível? Quais são os custos desta promessa?

Link: https://youtu.be/e9dZQelULDk?t=5

Há também outros interessantes “Curtas” em seu canal no yotube de Steve Cutts. Siga, acompanhe e desfrute das obras críticas deste artista ilustrador e animador conhecido mundialmente.

Autor: Nei Alberto Pies. Também escreveu e publicou no site “Anotações filosóficas: uma ideia que pode morrer”: www.neipies.com/anotacoes-filosoficas-uma-ideia-que-pode-morrer/

Edição: A. R.

Explosão de conflitos nas escolas: o que está por trás dos ataques recentes?

Números e estatísticas recentes no Brasil demonstram aumento expressivo de agressões e violência na escola, o que preocupa especialistas, gestores educacionais e, por óbvio, os próprios professores e professoras.

Desejamos, com esta publicação, desafiar os gestores educacionais, em especial das escolas públicas, para que aprofundem junto às comunidades escolares a discussão e os entendimentos sobre as razões da violência estar tomando tanto espaço na sociedade e no ambiente escolar. Que busquem alternativas mais coerentes, consistentes e permanentes, articulando-se com outros atores da sociedade para o real enfrentamento dos conflitos e da violência, como um todo.

A escola não é uma ilha e nem uma redoma que possa imaginar-se livre e protegida do ambiente social onde a violência, as armas e a falta de diálogo imperam e impõem-se vertiginosamente.

Repercutimos interessante pesquisa feita sobre esta temática através de Pesquisa FAPESP, apresentada também em vídeo. Sugerimos que esta pesquisa seja conhecida e debatida como um ponto de partida, antes mesmo de proposições de atividades ou projetos que busquem o enfrentamento da violência e um ambiente de cultura de paz.

Assista/ link: https://youtu.be/XjZ3jUu02hg?t=2

Acreditamos que, dada a complexidade da violência no meio social, a escola precisa participar da discussão e do entendimento dos fenômenos da violência social e cotidiana, pois a partir do entendimento ampliado desta temática, ela pode vir a ser um lugar privilegiado de enfrentamento da violência e de proposição de alternativas de convivência na perspectiva de uma cultura de paz. 

Claro que a escola não é a tábua de salvação, mas sem ela, a sociedade não avançará em recursos e meios de enfrentamento da violência, como um todo.

O que ocorre, geralmente, são iniciativas que entidades ou instituições propõem para as escolas sem elas terem participado efetivamente da decisão e da construção das mesmas. Aí, por óbvio, sem os devidos entendimentos e sem as necessárias parcerias e distribuição de responsabilidades, esta se vê isolada, enfrentando de forma dramática, situações de violência geradas no tecido social e que afetam diretamente o ambiente e as relações sociais escolares.

Acreditamos, muito, no papel preponderante do conhecimento para a construção da humanização. Os conhecimentos críticos e reflexivos, sobretudo, são capazes de nos transformar em pessoas melhores e mais humanizadas.

Assista/link: https://youtu.be/Il_XyDpcsgY?t=90

Por outro lado, preocupamo-nos também com a falta de valorização da profissão docente e pelo verdadeiro massacre burocrático a que diferentes redes de ensino submetem seus professores e professoras, tirando-lhes a essência da profissão. Este massacre burocrático também representa uma imposição agressiva e violenta ao trabalho do professor. Detalhamos, com mais eloquência e profundidade esta temática em vídeo que segue.

Assista/link: https://youtu.be/4nhdIZW-jxw?t=382

Autor: Nei Alberto Pies. Também escreveu e publicou no site “Minha tolerância não alimenta a sua estupidez”:www.neipies.com/minha-tolerancia-nao-alimente-sua-estupidez/

Edição: A. R.

Os gastos tributários

Nos gastos tributários, também denominados renúncias, incentivos ou benefícios fiscais, o governo autoriza os empresários a se apropriarem de parte ou do total de impostos pagos pelos consumidores.

O mercado está pressionando o governo por corte de gastos. Afinal, quais gastos devem ser cortados?

Podemos agrupar os gastos públicos em três grandes grupos: gastos primários, gastos tributários e gastos com juros. Quais desses gastos devem ser cortados?

Os gastos primários referem-se à Saúde (SUS), Educação (universidades, escolas), Previdência, Benefícios Sociais (Seguro-desemprego), construção e manutenção de estradas, dentre outros, representando os serviços públicos mais usados e necessários para a população de menor renda.

Os gastos tributários referem-se aos recursos públicos, na forma de impostos, que o governo autoriza a ficarem com os empresários. Na prática, os empresários cobram os impostos dos consumidores e repassam ao governo.

Nos gastos tributários, também denominados renúncias, incentivos ou benefícios fiscais, o governo autoriza os empresários a se apropriarem de parte ou do total de impostos pagos pelos consumidores. Dessa forma, esses gastos públicos também poderiam ser denominados Bolsa empresário, e representam um serviço público mais usado por parcela da população com renda elevada.

Os gastos com juros são os valores pagos pelo governo a título de juros da dívida pública, valores que o governo toma emprestado do mercado, das pessoas que tem dinheiro sobrando para emprestar ou aplicar em títulos da dívida. Os pagamentos de juros concentram-se em parcela da população com renda muito elevada. Essa parcela de pessoas com rendas elevadas são, na prática, o tal mercado.

Qual desses gastos deve ser cortado? Ou a pressão do mercado é por corte nos três tipos gastos?

Embora tenhamos o novo arcabouço fiscal, a pressão pelo corte de gastos se origina na Emenda Constitucional 95/2016, denominada de Teto de Gastos, que na verdade resulta em corte de gastos.

Por que a Emenda Constitucional não foi denominada “corte de gastos”? teto é um nome mais “aceitável” que corte, mas o nome teto acabou por esconder o corte naquele momento. Nesse sentido, em vez de denominar a Emenda Constitucional pelo nome de teto de gastos, o mais indicado seria denominá-la de corte de gastos, como está ocorrendo agora.

Na Emenda Constitucional do teto de gastos, que na verdade é corte de gastos, quais dos três grupos de gastos citados acima (gastos primários, gastos tributários e gastos de juros) foram incluídos no teto/corte?

O normal é ninguém se fazer essa pergunta, porque parece ser uma pergunta absurda, descabida. É óbvio que (todos) os gastos estão no teto/corte! deveria ser óbvio, mas não é. Somente os gastos primários foram incluídos no teto/corte, justamente os gastos públicos mais utilizados e necessários para população de baixa renda.

Os detentores de rendas elevadas mantiveram os gastos tributários (Bolsa Empresário) e gastos com juros intocados. E quanto representam esses gastos públicos por ano com essa parcela da população com renda elevada?

Valor dos gastos tributários: em função da pressão do mercado pelo corte de gastos (gastos primários, óbvio), em sentido contrário ao programa de governo apresentado antes das eleições, o Ministério da Fazenda divulgou, pela primeira vez, o valor do Bolsa Empresário previsto para 2024: R$ 546 bilhões (gastos tributários, renúncias, incentivos ou benefícios fiscais). Escolho o termo Bolsa Empresário em conformidade ao termo Bolsa Família. Outra alternativa seria alterar o nome do Bolsa Família para Benefício Família, em conformidade ao termo Benefício Fiscal.

Já os gastos com juros em 2023 foram de R$ 614 bilhões, valor superior aos gastos em saúde, educação e assistência social somados.

Dessa forma, somando os gastos do governo com o Bolsa Empresário (R$ 546 bi) mais os gastos com juros (R$ 614 bi), chegamos a R$ 1,1 trilhão de reais por ano.

A expectativa do mercado é de um corte de gastos em torno de R$ 50 bilhões por ano. Se o corte de gastos exigido pelo mercado não fosse aplicado às despesas primárias e fosse aplicado ao Bolsa Empresário e aos gastos com juros, parece que seria mais fácil atingir o objetivo.

Além do Bolsa Empresário e do pagamento de juros, caberia levar em consideração o valor do desvio privado de recursos públicos (sonegação). Considerando que o consumidor paga o imposto no ato da compra, no caixa da empresa há recursos públicos (impostos). Se esse imposto existente no caixa da empresa não é recolhido ao Estado, constitui um desvio de recursos públicos, denominado de sonegação (maiores detalhes no artigo “Corrupção pública versus corrupção privada”).

O sonegômetro estima o valor do desvio privado de impostos em aproximadamente R$ 600 bilhões por ano, desvios que também se concentram em parcela da sociedade com renda elevada, em benefício próprio obviamente.

Resumindo: Bolsa Empresário (renúncia fiscal) no valor de R$ 546 bilhões; juros da dívida no valor de R$ 614 bilhões e sonegação (desvio privado de recursos públicos) no valor de R$ 600 bilhões, totalizando aproximadamente R$ 1 trilhão e 700 bilhões por ano de recursos públicos. Esse enorme valor é apropriado por uma pequena parcela de pessoas com renda elevada, normalmente denominada elite econômica, e que na prática é o tal mercado. Como dinheiro é poder, também podem ser denominados pelo termo oligarcas.

A ciranda é essa: no Bolsa Empresário se apropriam de R$ 546 bi, e no desvio privado de recursos públicos (sonegação) se apropriam de outros R$ 600 bi. Emprestam parte ao governo (que renunciou à essa receita), e se apropriam de mais R$ 614 bi na forma de juros pagos pelo ente público, com impostos pagos pelos demais. Ciranda fácil e prejudicial ao país.

Os R$ 50 bilhões de corte de gastos públicos, em vez de serem cortados das despesas primárias que afetam milhões de pessoas de renda menor, poderiam ser cortados dos R$ 1.700 bilhões de reais (R$ 1,7 trilhão) que são apropriados anualmente pela parcela da sociedade de renda elevada, o próprio mercado.

Com esse nível de concentração de renda, fica difícil, para não dizer impossível, o Brasil crescer.

Autor: João Carlos Loebens, mestre em administração pela Unisinos e auditor-fiscal da Receita Estadual do Rio Grande do Sul. Também escreveu e publicou no site “A meritocracia capitalista”: www.neipies.com/a-meritocracia-capitalista/

Edição: A. R.

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