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Ainda resta a esperança, segundo J. Shukla

Um planeta com problemas e Shukla também. O seu protagonismo na ciência da mudança do clima e a sua postura pública em defesa da causa despertaram a ira dos negacionistas e desencadeou-se uma devassa nos seus financiamentos de pesquisa em busca de alguma malversação no uso dos recursos, especialmente oriundos de fundos públicos.

Jagadish Shukla, o laureado climatologista indiano, radicado nos Estados Unidos da América, lançou, recentemente, o seu livro de memórias, “A billion butterflies – A life in climate and chaos theory”. Mas além da história pessoal do autor, a obra contempla a narrativa de quem acompanhou de perto as descobertas que revolucionaram as previsões de tempo e clima no mundo, nas suas mais diferentes escalas, desde os prognósticos meteorológicos para o dia a dia, passando pelas variações climáticas sazonais e intrasazonais até as projeções de mudança do clima global.

Shukla que, atualmente, é professor emérito da George Mason University, no estado da Virgínia, embora, aos 80 anos, com aposentaria anunciada para 2025, usa como prólogo do livro a sua experiência como docente da disciplina básica sobre aquecimento global, Clima 101, que ministra naquela instituição.

Destaca que, todos os anos, inicia as aulas com a mesma pergunta, em que pede para levantar a mão quem se atrever a responder por que, à noite, esfria? Muitas mãos são levantadas. Ele escolhe, aleatoriamente, alguém para dar a resposta. Invariavelmente, com a concordância da maioria dos estudantes, a resposta tem sido essa: “porque o sol se põe e a Terra não recebe o seu calor”. Que tal? A resposta lhe parece correta? Você responderia dessa forma ou daria o seu aval? Lamento pela desilusão, não que esteja errada, mas é apenas parcialmente certa.

A resposta ideal seria a que possibilitasse entender o que é clima e o que pode causar a sua mudança.

Não se deve ignorar que a Terra, assim como qualquer objeto sujeito às leis da Física, está constantemente perdendo energia. Durante o dia, o Sol contrabalança essa perda de energia aquecendo a superfície do planeta com os seus raios solares (a atmosfera se aquece de baixo para cima). À noite, a Terra continua perdendo energia, mas não há a compensação do Sol. Anualmente, a Terra perde ao redor de 122.000 trilhões e Watts de energia para o espaço. Uma quantidade equivalente recebe do Sol. É o balanço entre essa entrada e saída de energia que determina o clima da Terra, que, ao longo dos últimos 10 mil anos, configurou uma temperatura média, na superfície do planeta, ao redor de 14,0 ºC. Todavia, nos últimos 150 anos, com a elevação da concentração dos gases de efeito estufa na atmosfera, a entrada de energia do Sol continua inalterada, porém a saída de energia para o espaço diminuiu, fazendo com que a temperatura média da Terra subisse para 15,0 ºC. Isso, expresso de forma simples, pela mudança positiva do balanço entre a entrada de radiação de ondas curtas (Sol) e a saída de radiação de ondas longas (Terra) é o que se chama de mudança do clima ou aquecimento global.

O professor Shukla admite que, no início chegou a relutar em aceitar a tese do aquecimento global. Mas abraçaria a causa do IPCC, integrando-se ao grupo de trabalho que trata da ciência física da mudança do clima, tendo se destacado como figura de proa do 4º Relatório do IPPC, de 2007, que seria agraciado, junto com Al Gore, com o Prêmio Nobel da Paz daquele ano. Foi esse relatório que estabeleceu que o aquecimento global era real, que era causado, principalmente, pela atividade humana e que o planeta estava com problemas. Desde então, relatório após relatório, o IPCC continua dizendo a mesma coisa.

Um planeta com problemas e Shukla também. O seu protagonismo na ciência da mudança do clima e a sua postura pública em defesa da causa despertaram a ira dos negacionistas e desencadeou-se uma devassa nos seus financiamentos de pesquisa em busca de alguma malversação no uso dos recursos, especialmente oriundos de fundos públicos. O processo foi, definitivamente, arquivado em 2017. Pagou um preço alto por defender a integridade da ciência do clima.

Inquestionavelmente, o aquecimento de 1,0 ºC na atmosfera pode representar a retenção de 7% mais de umidade no ar, antes de condensar, explicando a causa de se tornarem mais frequentes e devastadores os alagamentos por chuvas intensas no mundo (inclusive por aqui). As temperaturas dos oceanos podem ter impactos dramáticos no clima de locais distantes no mundo. Esse é o caso, por exemplo, de El Niño e La Niña, perturbando, a partir do Oceano Pacífico, o clima no sul do Brasil.

A esperança do Professor Jagadish Shukla reside no fato de que, das três coisas necessárias para manejar e mitigar a mudança do clima global, duas delas estão a nossa disposição.

A primeira: precisamos entender a ciência do clima. Isso é fato dominado. A segunda: necessitamos de tecnologias para diminuir a emissão dos gases e efeito estufa para a atmosfera. Indiscutivelmente, com a transição energética para energias limpas e a economia verde, avançamos muito. O que nos falta? Talvez vontade para abraçar a causa da ciência e da tecnologia, diminuído a voz ruidosa dos negacionistas de ocasião. A ação, segundo Shukla, é o melhor antídoto para a ansiedade climática que ora assola muitas pessoas no mundo.

Não é sem razão que Jagadish Shukla dedica o livro às netas Natasha, Aastha e Aarushi, na esperança que elas irão se adaptar e florescer no clima futuro que vamos lhes deixar como herança. Para elas e para as futuras gerações.

Autor: Gilberto Cunha. Também escreveu e publicou no site “Charlie Browm e Snoopy discutem o acordo de Paris”: www.neipies.com/charlie-brown-e-snoopy-discutem-o-acordo-de-paris/

Edição: A. R.

Adultização: quando a infância é encurtada e a punição é antecipada

Trazer esse tema para esta coluna é, portanto, uma forma de unir práticas pedagógicas ao compromisso social da educação: fomentar o debate, provocar questionamentos e valorizar produções intelectuais como esse artigo do Contessa que contribuem para um olhar mais humano e justo sobre nossas crianças e adolescentes.

Nos últimos dias, alguns de meus alunos manifestaram interesse em discutir o fenômeno da adultização em nossas aulas de redação. A inquietação deles diante de uma realidade que encurta a infância, antecipa responsabilidades e reforça desigualdades sociais só confirmou a importância do meu compromisso, enquanto professora, de trazer temas atuais e desafiadores para o ambiente escolar. Em um mundo onde crianças e adolescentes são cada vez mais cobrados a amadurecer sem receber as garantias básicas que merecem, este debate se torna urgente.

Coincidentemente, recebi o artigo escrito por um amigo e colega com quem já tive o prazer de trabalhar em um projeto de Júri Simulado Dr Mateus Contessa de Almeida, advogado criminalista o qual traduz com clareza e profundidade a complexidade deste fenômeno. Foi nesse contexto pedagógico que decidi trazer para esta coluna o artigo que considero extremamente relevante. “Adultização, entre a punição célere e a proteção postergada”.

Para além do universo acadêmico, esse texto é um convite à reflexão coletiva: pais, educadores e sociedade precisam repensar o olhar que lançam sobre a juventude. Em minhas aulas, busco não apenas preparar os estudantes para exames e vestibulares, mas também incentivá-los a ler criticamente o mundo, formando cidadãos conscientes e engajados.

Trazer esse tema para esta coluna é, portanto, uma forma de unir práticas pedagógicas ao compromisso social da educação: fomentar o debate, provocar questionamentos e valorizar produções intelectuais como esse artigo do Contessa que contribuem para um olhar mais humano e justo sobre nossas crianças e adolescentes.

Boa leitura a todos! (Deise Bressan)

Segue texto de Mateus Contessa de Almeida.

Adultização, entre a punição célere e a proteção postergada

A discussão levantada pelo vídeo do Felca sobre a chamada “adultização” poderia ser descartada como mera crítica cultural ou sátira social. No entanto, ela toca em uma chaga que o Direito brasileiro insiste em não tratar com a profundidade necessária: a tendência de transformar complexidades sociais em fórmulas simplistas, geralmente orientadas por um “moralismo de ocasião”.

A questão é clara: até que ponto a sociedade – e, por reflexo, o Direito – tem sido cúmplice de um processo de deslocamento etário, no qual a infância é encurtada e a adolescência esmagada pela imposição de padrões adultos, sem que o Estado saiba lidar com isso senão por via repressiva?

Não se trata de mera retórica. O fenômeno da adultização revela o quanto o ordenamento jurídico brasileiro ainda opera sob a lógica da contradição: enquanto a Constituição Federal proclama, no art. 227, a prioridade absoluta da proteção integral da criança e do adolescente, a práxis legislativa e judiciária parece constantemente tensionada por discursos que ora enxergam o menor como “sujeito de direitos”, ora como “miniatura de adulto” a ser punido, controlado ou moralmente corrigido.

É nesse vácuo que prosperam propostas legislativas infladas de populismo penal, como a redução da maioridade, sempre embaladas pela roupagem do “combate à criminalidade”, mas alimentadas por uma cegueira seletiva: não é o adolescente de classe média que se deseja criminalizar, mas sim o jovem periférico, negro, já marcado pelo estigma desde o nascimento.

Aqui reside a provocação: ao se indignar com a adultização, a sociedade esquece que ela própria é o motor desse processo. É nos programas televisivos, nas redes sociais e até na publicidade infantil que se promove a antecipação de papéis adultos, sexualizando corpos, estimulando consumos precoces e impondo responsabilidades emocionais para as quais não há estrutura psíquica consolidada.

O Direito, nesse cenário, atua como cúmplice silencioso. Não regula de forma eficaz o mercado que lucra com a erotização ou adultização da infância, mas é célere em propor punições mais severas quando esse mesmo jovem, moldado pelo ambiente hostil, transgride e comete atos infracionais.

A hipocrisia, portanto, não está apenas em ignorar a contradição; está em vestir a toga do “protetor” enquanto se legitima um sistema que fabrica culpados antes mesmo de permitir a vivência plena da infância e da adolescência.

Quando falamos em adultização, falamos de uma sociedade que exige maturidade precoce para o trabalho informal, mas nega direitos fundamentais; que tolera a exploração da imagem de crianças em contextos publicitários, mas criminaliza qualquer desvio de conduta juvenil; que cobra responsabilidades penais, mas não oferece garantias mínimas de cidadania, e que clama por justiça e proteção de valores no discurso, mas na prática abandona jovens à própria sorte, para lidarem com seus problemas… como adultos.

Eis, portanto, aqui a contradição máxima: o Direito infantiliza quando convém, mas adultiza quando quer punir.

O vídeo do influenciador Felca expõe, de forma ácida e incômoda, aquilo que deveria ser tratado com seriedade nas casas legislativas: a incapacidade de o Direito lidar com as ambiguidades da infância contemporânea sem cair no moralismo ou no populismo penal. Talvez o ponto seja esse: mais do que discutir a adultização como fenômeno social, é preciso reconhecer que ela se tornou instrumento de um projeto político de controle, que instrumentaliza a juventude marginalizada para reafirmar o punitivismo.

Se o Direito pretende ser mais do que um mecanismo de contenção, precisa abandonar a retórica protetiva que não protege, e enfrentar o desconforto da contradição. De nada adianta proclamar direitos fundamentais em textos normativos, enquanto se alimenta um sistema jurídico que, em vez de preservar a infância, encurta-a por conveniência política e ideológica.

A provocação que deixo para o leitor é a seguinte: não estaria a adultização, mais do que um fenômeno cultural, se consolidando como estratégia jurídica de legitimação do controle social sobre corpos juvenis, sobretudo os mais vulneráveis?

(Autor: Mateus Contessa de Almeida)

Autora da Coluna: Deise Bressan. Também escreveu e publicou no site “Aposta alta quando o que parece certo desafia o que é legal”: www.neipies.com/aposta-alta-quando-o-que-parece-certo-desafia-o-que-e-legal/

Edição: A. R.

A Cultura Gaúcha como síntese de união e força social

Cada geração tem sua querência nesse processo: os pequenos herdam, os jovens reinventam, os adultos consolidam e os velhos ensinam. É nesse ciclo, tal como o mate que nunca deve ser deixado morrer na cuia, que se sustenta a perenidade da tradição.

Defender a cultura gaúcha é, acima de tudo, defender a essência da identidade humana forjada no Rio Grande do Sul. Não se trata apenas de preservar o chimarrão, a pilcha, a gaita ou a dança do fandango; trata-se de reconhecer que cada toque de gaita-ponto, cada roda de mate repassada de mão em mão, carrega em si o símbolo maior da convivência entre povos, da resistência da memória e da afirmação de uma dignidade coletiva. O galpão, seja de estância ou de CTG, é muito mais do que um espaço físico: é o santuário da hospitalidade, o palco onde se reúnem histórias, saberes e afetos.

Ao mesmo tempo em que se evoca o pingo campeiro domado no laço, o churrasco de fogo de chão e a palavra franca do mateador, evoca-se também a presença do índigena que ensinou a cultivar, do negro que, com suor e luta, moldou as bases do trabalho, e do europeu que trouxe na bagagem sonhos e esperança.

O Rio Grande se fez na mescla: entre lanças e guitarras, entre a milonga e o batuque, entre a fé católica e os ritos ancestrais. Nessa fusão de raças e costumes ergue-se o verdadeiro rancho humano, que não distingue a origem de cada tijolo, mas valoriza a fortaleza da construção.

Ao defender a cultura gaúcha, não se está apartando o campo da cidade. Muito pelo contrário: está-se erguendo uma ponte sólida entre o trabalho rude da estância e o dinamismo urbano. O carreteiro que alimenta a roda é o mesmo espírito que anima a partilha da refeição na cidade; a roda de mate que congrega peões sob a sombra do cinamomo é a mesma simbologia de união que pode reunir jovens em praças e escolas. O folclore, longe de ser relíquia do passado, é ferramenta viva de coesão social, capaz de unir gerações, renovar valores e projetar a sociedade para o futuro.

Não há, portanto, cultura gaúcha sem crianças que aprendam a ensilhar, sem jovens que dancem a chula, sem adultos que mantenham o fogo aceso do galpão, e sem idosos que transmitam a memória oral. Cada geração tem sua querência nesse processo: os pequenos herdam, os jovens reinventam, os adultos consolidam e os velhos ensinam. É nesse ciclo, tal como o mate que nunca deve ser deixado morrer na cuia, que se sustenta a perenidade da tradição.

Assim, defender o Rio Grande em sua cultura é afirmar que a união entre os povos e digo, todos os povos desta querência, europeus, asiáticos, africanos, latinos, ciganos e nosso povo originário a diversidade que enriquece e o respeito às origens são o melhor instrumento de progresso. A tradição não é prisão, mas raiz; não é limitação, mas força que sustenta a árvore de uma sociedade justa e solidária.

O gaúcho, de bombacha ou roupa atual, no campo ou na cidade, sabe que sua maior herança é a de cultivar a fraternidade. E, enquanto houver um galpão aceso pela chama da hospitalidade, haverá futuro para a cultura gaúcha e para o povo que nela se reconhece.

A cultura gaúcha, quando compreendida em toda a sua riqueza, transcende o caráter meramente tradicionalista e se afirma como ferramenta de inclusão social e valorização da diversidade. O galpão, que historicamente foi lugar de encontro e partilha, hoje também pode ser compreendido como espaço democrático, no qual mulheres, crianças, jovens e idosos encontram voz e reconhecimento. Se no passado a lida campeira muitas vezes relegava papéis restritos, hoje a tradição se reinventa para acolher e afirmar a presença feminina, seja na declamação, no canto, na dança ou na liderança de movimentos culturais. Ao abrir-se para todos, a cultura gaúcha reafirma-se como patrimônio humano, e não apenas de um segmento.

Além disso, o fortalecimento da cadeia produtiva da cultura e do turismo regional é caminho fértil para garantir dignidade a trabalhadores do campo e da cidade. A indumentária, a música, o artesanato, a culinária e as manifestações artísticas de raiz compõem um circuito que gera renda, movimenta economias locais e aproxima visitantes da autenticidade da vida gaúcha. O turista que se encanta com a chama do fogo de chão ou com o bailado de uma invernada artística não consome apenas um espetáculo: ele vivencia a memória viva de um povo, perpetuando-a. Assim, a tradição se torna também motor de desenvolvimento sustentável.

Defender a cultura gaúcha, portanto, é defender um projeto de sociedade que não exclui, mas integra.

A criança que aprende a sapatear uma chula, a jovem que encontra no CTG espaço para liderança, o idoso que narra causos de campanha, a mulher que reivindica seu lugar de protagonismo na tradição — todos são parte do mesmo laço de inclusão. A cultura, quando partilhada, transforma-se em escudo contra desigualdades e em ponte para a cidadania.

Assim, mais do que preservar usos e costumes, é preciso compreender a cultura gaúcha como instrumento de justiça social, de valorização da pluralidade étnica e de respeito a todas as classes. Essa tradição que nasceu do cruzamento de povos e lutas deve, agora, seguir como farol que ilumina a construção de um Rio Grande e de um Brasil mais humano, fraterno e unido. Pois é no compasso da milonga e no calor do mate partilhado que se revela a maior lição gaúcha: a de que a cultura é sempre mais forte quando pertence a todos.

Autor: Alexandre da Rosa Vieira. Conselho Estadual de Cultura do Rio Grande do Sul. Também escreveu e publicou no site “Uma escola que ensine a subir escadas”: www.neipies.com/uma-escola-que-ensine-a-subir-escadas/

Edição: A. R.

Encontro marcado

Qual o dia em que me acabarei? /Lenta ou subitamente? / Consciente ou não de estar passando?

Agora que já sou um homem maduro

– quarenta anos acho que são suficientes –

posso me perguntar

sem qualquer reserva ou pudor:

como será minha morte?

Qual o dia em que me acabarei?

Lenta ou subitamente?

Consciente ou não

de estar passando?

É que às vezes

sinto uns tremores no peito

e então me acorre:

é agora!

é a vez!

É inevitável

pois esses momentos

são acompanhados de

ansiosa expectação.

Afinal da morte

ninguém pôde nos dizer

com exatidão.

o que acontece no momento

o que há do lado de lá.

Só especulação.

Então

ser vivente que sou

curioso e investigativo

encaro esse momento

– para além do lamento –

como mais uma oportunidade

de aprendizado

ainda que derradeiro.

Apenas espero estar inteiro

para poder observá-lo.

Não quero uma morte

rápida e violenta

dessas que dizemos:

– Coitado, nem sentiu nada!

Quero uma passagem lenta e gradual

sabendo calmamente

que vou morrer.

Porque me intriga

esse apagar

das luzes.

O que há

por trás do picadeiro.

O que tem nos bastidores

que a vida passamos

ouvindo

sem saber ao certo o que eram

os sons vindos de lá.

Como um quarto escuro da casa

ignorado e desconhecido

e que por mais que o tenhamos

temido

um dia

teremos de o devassar.

Pois ao homem

não foi dado

poder dizer:

– Não, obrigado, acho que vou ficar.

Sempre em frente

e inexoravelemente

tenhamos vivido

felizes

ou tristes

sido bons

ou ruins

um dia nossa hora

vai chegar.

Autor: Júlio Perez. Também escreveu e publicou no site “Ser poeta”: www.neipies.com/ser-poeta/

Edição: A. R.

Das dores nascem pérolas

Não é incomum que, ao analisarmos retrospectivamente nossas dores, nos fixamos apenas naquilo que doeu, deixando de lado o aprendizado, como se fosse vergonhoso levar joias do sofrimento.

(Por Juraciara Vieira Cardoso)

A metáfora da ostra feliz que não faz pérolas nos desafia a considerar nossa busca desenfreada por uma espécie de felicidade que não existe.

Rubem Alves, na minha opinião, um dos maiores pensadores brasileiros, escreveu um conto chamado Ostra Feliz não Faz Pérola, no qual explora como o sofrimento pode ser um catalisador em nossas vidas. Por meio da metáfora da ostra, que transforma um grão de areia inconveniente em uma pérola, o autor nos convida a refletir sobre o papel das adversidades na construção de quem somos: aquilo que era um elemento intruso e incômodo, para a ostra, se transforma em algo de valor inestimável.

Já adianto que não farei apologia ao sofrimento, ao contrário, não vou romantizar a dor, quero apenas defender que o sofrimento nunca é algo que desejamos, mas que ele pode ser um fator de transformação em nossas vidas. Muitas vezes, na dor, quando nos recolhemos para dentro de nós, é que temos as melhores oportunidades de aprender mais sobre aquilo que somos e o que nos é essencial. Talvez, por isso, precisamos nos reconciliar com nosso sofrimento, perdoando os imperdoáveis, vendo neles duros mestres, mas portadores de grandes lições.

E o caminho para isto pode ser abraçarmos as dores, ressignificarmos o passado e compreendermos que só somos quem somos hoje em razão de todas as coisas boas e ruins que nos aconteceram. Se temos orgulho de quem somos, portanto, devemos creditar parte disso ao sofrimento que determinadas pessoas ou situações nos causaram e que nos tornaram mais fortes, mais corajosos ou simplesmente, mais capazes de compreender o mundo que nos circunda.

Não é incomum que, ao analisarmos retrospectivamente nossas dores, nos fixamos apenas naquilo que doeu, deixando de lado o aprendizado, como se fosse vergonhoso levar joias do sofrimento. Pensado desse modo, o passado é apenas fonte de dor, mas, se concebido como a prova da nossa capacidade de superação, provavelmente chegaremos à conclusão de que somos também resultado das nossas experiências dolorosas, por piores que elas tenham sido.

Assista também: https://youtu.be/NdWDkw_0KOo?t=20

Aceitar isso não é tarefa fácil, pois precisaremos voltar às memórias dolorosas e nos questionarmos sobre cada uma das lições que elas nos trouxeram, e como nos auxiliaram a nos tornarmos pessoas melhores. É muito provável que cheguemos à conclusão de que foram exatamente aquelas experiências dolorosas as que mais nos ensinaram e, nesse sentido, é provável que até sejamos gratos a elas.

Se pensarmos nas ostras, que viram pérolas em razão do atrito com algum elemento externo, voltaremos ao nosso passado com contida alegria, pois o elemento externo – a dor – machuca, mas também extrai de nós o melhor que podemos ser.

Assim, o passado deixa de ser apenas um lugar de tristeza e arrependimento, para se transformar também em um local de aprendizado. Alcançada essa compreensão, dor e tristeza são percebidos – como de fato o são – partes da vida, cada uma com suas lições.

De alguma maneira, nossas sociedades modernas instagramáveis criaram um modelo de felicidade que está diretamente relacionado à ausência de dificuldade, como se houvesse alguém que de fato pudesse existir assim. Somos inundados cotidianamente com conteúdo retratando vidas e famílias perfeitas, o que na prática é irreal, mas, de algum modo, internalizamos. Nunca somos lembrados sobre as lições que a dor pode nos ensinar, ela é propositalmente ignorada, pois, como sabemos, a maioria de nós não é um bom consumidor quando triste.

Talvez, a resposta seja a de que a felicidade possível se relacione com a habilidade de ressignificar o passado doloroso, reconhecendo nele a contribuição para que nos tornássemos a pessoa que somos hoje. Se conseguirmos, passaremos a ser gratos por cada incômodo, pois foram o combustível da nossa transformação. Assim elaborado, ao invés de lamentar as dores, as assumimos como parte da história que nos trouxe até aqui.

FONTE: https://www.em.com.br/colunistas/vitalidade/2024/12/7012416-das-dores-nascem-perolas.html

Autora: Juraciara Vieira Cardoso

Edição: A. R.

Mas por que esta menina saiu do meu lado para se afundar nas drogas?

Foi um recado tão simples que ela me passou! Mas não respondi.

A Tati era uma pessoa maravilhosa!

Os anos eram os 90 e nos conhecemos em início de carreira, os dois, trabalhando na mesma Empresa, ela vendendo, eu, ainda um pretenso chefe.

Não durou muito e ela se mudou para São Paulo. Saí da Empresa, igualmente, em seguida, e tomei o rumo da aventura.  Quando somos mais jovens usamos uma régua mais curta e o que está longe não nos interessa muito; o que está por explodir, sim. Com os anos, todavia, um novo currículo enviado pode ser uma aventura temerária.

O mundo capotou e nos anos seguintes, na empresa seguinte, com matriz em São Paulo, lá fui eu transferido para a metrópole.  Antes, subia e descia pelo Paraná todas as semanas, sempre em busca de vendas. Por que será que se vende tanto?  Ou, é porque se compra demais!

Após idas e vindas, nestas buraqueiras a que chamamos de estradas, todas as semanas, finalmente, fui acomodado na capital. Mesa e ternos a postos, rotinas previamente demarcadas e metas a cumprir, construía aos poucos um time, uma equipe, que seria a minha família temporária; em uma cidade de tantas gentes e tão grande solidão.

E quem apareceu para se juntar ao ‘team’?  A Tati, sim, pela segunda vez fomos testados como parceiros de vendas e negócios, confissões e esperanças, pouco comuns no mundo corporativo, em contraste com o ambiente devorador que se instala em quase todas as empresas, nas quais as pessoas se empurram, simultaneamente, aos pilares que elevam ao pódio, ou, umas contra outras, ao precipício.

O tempo foi passando, como sempre.  Ahh! O tempo!  Sem que se perceba suas intenções, vive a devorar os nossos dias e num deles, aliás, no tumulto do turbilhão comercial, recebi uma mensagem ao final da tarde:  – estou perdida. Preciso de ajuda. Era ela.

Ahh, se eu pudesse resgatar aquela mensagem no ‘cel’!  Na época, as mensagens estavam começando a ganhar forma.  Muito curtas ainda para celulares enormes. Não levei a sério pois achei ser uma brincadeira de fim de tarde. A Tati era assim mesma:  leve, solta, feliz, transparente, brincalhona, amiga… E cheia de probleminhas que carregava logo atrás de seu sorriso magnético.

Mas não foi para brincar! Muito tempo depois, soube, era o apelo sincero de uma Tati perdida à beira de um penhasco, que, de fato, deixou-se cair. E caiu feio!

Com o seu namorado, consumiu o que pode e encontrou um caminho curto e luminoso, para várias viagens sem volta. Drogas em excesso, extorquia de sua vida o que estava ao seu alcance; crack, o que dispunha. Perdeu a confiança, perdeu quase todos os elos com a sua família, e, finalmente, conheceu a rua, literalmente.  Vivendo sobre calçadas de uma São Paulo garoenta, no limite do que supõe ser uma pessoa ferida e abandonada, ali mesmo e já quase de saída, com o último recurso humano em que se pensa ser amor, teve mais dois filhos.

Já tinha uma, a mais velha, menina, linda, inteligente e independente.  Puxava a mãe.

Quando eu soube da sua história ela já estava de volta. Não tive como não ruborizar a alma ao saber que, sem mim, eu, falsamente servindo como referência de um chefe amigo, fui ausente. Assistindo a sua frágil recuperação, deparei com uma gigante enfraquecida, que retornava ao mesmo mercado de vendas, de ganhos e perdas, como são todas as vendas de fato.

Não me cobrou nada, entretanto, não exigiu nada, nem lembrava de seu chamado no celular, naquele fim de tarde… Apenas me falou:  – estou limpa, tem um tempo que estou limpa.

Nossa reaproximação nunca mais foi a mesma?  Foi muito melhor! Durante anos e anos fizemos parceria com nossos clientes e produtos; ela cada vez mais livre, eu, cada vez mais culpado. De alguma forma, poderia ter falado, alertado, ajudado. Não o fiz.

Com o seu namorado preso e ainda ameaçada de perder seus filhos, com conexões débeis e desacreditada pela família e mais alguns, um dia me ligou e disse que estava pensando em fazer Psicologia.

Um bicho a Tati!  

Estudou, insistiu, trabalhou e terminou o curso, lendo autores e livros que jamais imaginaria.  Com o diploma ainda fresquinho, junto a sua amiga, comprou uma casa para abrigar dependentes, inclusive os que foram largados pelas suas famílias; estes de quem se ouve falar ‘que ninguém aguenta mais’.  Mas a Tati era assim mesma: sem religião alguma, crendo fielmente em Deus, sempre se derramava em empatia, como que tentando evitar que outros caíssem na tentação de explosões em prazer a custo baixo, fortes e fugazes, como somente as drogas nos ofertam; independentemente do tipo de alucinógenos que nos viciam.

Lembrei dessa história pela semana, quando uma mulher da Vila aqui próxima, enviou uma mensagem dizendo que, finalmente, fez um acordo com a Companhia de energia e teve a luz da sua casa religada.

Poderia ter acertado a sua conta, que nem deveria ser alta, decerto.  Um simples pedido e eu pagaria.  Ou, quem sabe esta senhora, que vivia na escuridão com duas filhas, já não tinha enviado alguns recados… Mas eu não os ouvi.

Pedidos de socorro nos chegam todos os dias. Em sua maioria, despercebidos. Muitos chamados desesperados chegam a nós com sorrisos contidos; em olhos marejados. Mas quando não se está disposto a ouvir ou ajudar, nem os explícitos nos comovem.

É certo que muitos já se humilharam esperando ajuda, em um grito mudo, a beira do despenhadeiro, contando com um abraço, e, quiçá, um pouco de dinheiro para pagar a luz ou coisa que o valha. Importa a percepção: quando se quer ajudar, o olhar firme em nosso amigo, enroscado em problemas de tamanhos variados, já deveria ser o suficiente. Geralmente não é!

Quem já pediu ajuda e não levou nada? 

 _ Perdão Tati!  Torci muito por você nesses anos. E espero que as nossas conversas, intermináveis, tenham compensado aquela mensagem recebida, indiferente, ao fim de uma tarde limpa em uma cidade suja.

A ‘Tatibitati’ continua maravilhosa!  Até mudou de país.  Recentemente, despachou um namorado, continuou com um sorriso implacável, ainda vai escrever um livro e não sente a mínima falta dos que não apostaram na sua subida. E vive cercada de netos.

Subiu do poço com baldes de água nas mãos.  Sempre pronta para ajudar.  Viva a empatia!

Saudades sem fim, Tati!

Autor: Nelceu A. Zanatta. Também escreveu e publicou no site “Pode o amor morrer de tanto amar”?: www.neipies.com/pode-o-amor-morrer-de-tanto-amar-conheca-rita-pawlosky/

Edição: A. R.

Desabafo de professora repercute nas redes sociais

Que as professoras do passado saibam que não estão esquecidas. Que as de hoje saibam que não estão sozinhas. Simples Assim!

“Hoje, um menino de 7 anos me disse que eu não servia para nada.”

Assim começou meu último dia como professora primária em uma escola pública.

Sem ironia. Sem raiva. Apenas uma voz indiferente, como se estivesse comentando sobre o tempo.

— Você não sabe fazer TikToks. Minha mãe diz que pessoas velhas como você já deveriam se aposentar.

Eu sorri. Aprendi a não levar para o lado pessoal. Mas mesmo assim… algo dentro de mim quebrou um pouco mais.

Meu nome é professora Helena.

Ensinei o 1º ano em uma cidadezinha nos arredores de Belo Horizonte por 36 anos.

Hoje, arrumei minha sala pela última vez.

Quando comecei, no fim dos anos 80, ensinar era um chamado. Um laço sagrado.

As pessoas confiavam em nós. Até nos admiravam. Não ganhávamos muito, mas havia respeito. E isso valia mais do que qualquer salário.

Os pais levavam bolo de fubá nas reuniões. As crianças faziam cartões de aniversário cheios de erros de português e corações tortos.

E quando alguém lia sua primeira frase em voz alta…Era uma alegria que nenhum dinheiro podia pagar.

Mas alguma coisa mudou.

Devagar. Silenciosamente. Ano após ano.

Até que um dia, olhei para minha sala e não reconheci mais o trabalho que tanto amei. Não é só por causa de tablets e lousas digitais – embora também seja.

É o cansaço. A falta de respeito. A solidão.

Antes, eu passava as tardes recortando maçãs de papel para enfeitar as paredes.

Agora, passo preenchendo relatórios em um aplicativo de comportamento, caso algum pai resolva me processar.

Já gritaram comigo na frente de toda a turma. Não alunos — pais.

Um deles me disse:

— A senhora não sabe lidar com criança. Vi um vídeo no celular do meu filho.

Ele tinha me filmado enquanto eu tentava acalmar outro aluno em crise.

Ninguém perguntou como eu estava. Ninguém quis saber que eu estava funcionando à base de chiclete, café e pura força de vontade.

As crianças também mudaram. E a culpa não é delas. Vivem num mundo acelerado, barulhento, desconectado.

Chegam à escola sem dormir, viciadas em telas e emocionalmente despreparadas. Alguns vêm com raiva. Outros, com medo.

Muitos não sabem segurar um lápis, esperar a vez ou dizer “por favor”. E esperam que a gente dê conta de tudo.

Seis horas por dia. Sem assistentes. Com 28 alunos. E um orçamento que não dá nem pra bolo de aniversário.

Lembro de quando minha sala era um abrigo. Tínhamos um cantinho da leitura com almofadas coloridas.

Cantávamos toda manhã. Aprendíamos a ser gentis antes de aprender a somar.

E agora?

Agora me pedem para focar em “metas de aprendizagem”, “métricas”, “resultados mensuráveis”.

Meu valor se mede pela forma como uma criança de 6 anos preenche bolinhas em uma prova padronizada de março.

Uma vez, um supervisor me disse:

— Você é muito “afetiva”. Nosso município quer resultados.

Como se conectar com crianças fosse um defeito.

Mas eu continuei.

Porque sempre existiram momentos. Pequenos. Sagrados.

Uma criança que cochichou pra mim:

— Você parece minha vó. Queria morar com você.

Outra que deixou um bilhete na minha mesa:

— Aqui me sinto seguro.

Ou aquele menino tímido que finalmente me olhou nos olhos e disse:

— Li sozinho.

Agarrei esses momentos como se fossem boias salva-vidas. Porque eles me lembravam que, mesmo quando o mundo gritava o contrário, eu ainda estava fazendo algo que importava.

Mas este último ano… me quebrou. A violência aumentou.

Um aluno jogou uma cadeira pela sala. Outro me ameaçou:

— Vou levar uma coisa de casa amanhã.

E tudo porque pedi para ele sentar.

O telefone da escola virou linha direta de emergência. A coordenadora pediu demissão em outubro. Em novembro, não havia mais professores substitutos.

A exaustão virou uma névoa densa e constante.

E eu?

Comecei a me sentir invisível. Substituível. Como uma máquina velha em um mundo digital que já não acredita no toque humano.

Arrumei minha sala hoje.

Arranquei desenhos desbotados das paredes – alguns de décadas atrás. Encontrei uma caixa de cartinhas de uma turma de 1995.

Uma delas dizia:

— Obrigado por gostar de mim mesmo quando fui bagunceiro.

Chorei ao ler.

Porque, naquela época, ser professora significava alguma coisa.

Hoje, parece uma profissão pela qual a gente precisa pedir desculpa.

Não houve festa. Nem discurso.

Só um aperto de mão do novo diretor, que me chamou de “senhora” e checou o celular no meio da despedida.

Esqueci minha caixa de adesivos. Minha cadeira de balanço. Minha paciência.

Mas levei comigo a lembrança de cada criança que um dia me olhou com encanto, com confiança ou com alívio. Isso é meu. Ninguém pode me tirar.

Não sei o que vem agora.

Talvez eu seja voluntária na biblioteca da cidade. Talvez eu aprenda a fazer pão caseiro.

Ou talvez eu apenas me sente na varanda com um chá quente, lembrando de um tempo que era mais gentil.

Porque sinto falta. Sinto falta de quando ser professora era ser aliada, não alvo.

Quando escola e família caminhavam juntas. Quando educar era cultivar, não apenas medir desempenho.

Se você já foi professor ou professora, você entende. A gente não fez isso pelas férias.

Fizemos pelo menino que aprendeu a amarrar os cadarços.

Pela menina que finalmente sorriu depois de semanas em silêncio. Pelos que precisavam de nós de um jeito que nenhuma prova consegue mensurar.

Fizemos por amor. Por esperança. Por acreditar que ainda dava para mudar o mundo.

Então, se um dia você encontrar uma professora – de ontem ou de hoje – agradeça.

Não com uma xícara. Nem com uma maçã. Com sua voz. Seus olhos. Seu respeito.

Porque num mundo que corre depressa demais, elas ficaram. Num sistema que desmoronou, elas resistiram.

E numa sociedade que as esqueceu, elas se lembraram de cada criança.

Que as professoras do passado saibam que não estão esquecidas. Que as de hoje saibam que não estão sozinhas.

Simples Assim!

Autora: Ruth Toledo

(Reproduzido de: Chico – Cartas de Paz e Consolação)

Edição: A. R.

Os perigos da recompensa na educação

Para que serve a educação e a formação humana? “Para educar humanos por humanos para uma humanidade melhor” (Mikhail Epstein)

Esta coluna se propõe a contribuir e ampliar a reflexão sobre o Programa de Reconhecimento da Educação Gaúcha, lançado pelo governo estadual em 13 de agosto, que ainda deve ser regulamentado e implementado a partir deste ano. A iniciativa, que não é novidade nem no âmbito internacional nem nacional, está gerando repercussões de diversas ordens.

Iniciamos retomando o que a nossa Constituição Federal de 1988, no Art. 205, estabelece como diretriz para a educação:

“A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”, e acrescenta, no Art. 206, que o “ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: igualdade de condições para o acesso e permanência na escola”, entre outros.

Programa do Estado

O Programa de Reconhecimento estabelece reconhecimento e recompensa a profissionais da educação e estudantes pelo desempenho e frequência. Nosso propósito é destacar alguns questionamentos e dúvidas sobre o modelo de reconhecimento – baseado apenas no pagamento de valores em dinheiro – para professores, gestores e estudantes participarem dos exames e atingirem as metas.

Para profissionais da educação:

  • 14º salário para gestores, professores e demais servidores, por resultados no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb);
  • Bonificação pela frequência escolar (Bônus 2025): gestores escolares serão valorizados de acordo com a frequência dos estudantes (75%). A premiação será proporcional aos resultados de cada escola.

Para estudantes:

  • Premiação por desempenho no Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Rio Grande do Sul (Saers): alunos do 5º e 9º ano do Ensino Fundamental e da 3ª série do Ensino Médio das escolas que fazem o Saeb. Os melhores colocados por turma no Saers receberão: 1º lugar: R$ 3.000; 2º lugar: R$ 2.000; 3º lugar: R$ 1.000.
  • Premiação por participação no Saeb: sorteio de um aluno por turma – R$ 2.000, condicionado à participação no Simulado e à presença mínima de 80% da turma.
  • Premiação por desempenho no Simulado Saeb (8 a 18 de setembro): alunos do 5º e 9º ano do Ensino Fundamental e da 3ª série do Ensino Médio receberão: 1º lugar: R$ 2.000; 2º lugar: R$ 1.000; 3º lugar: R$ 500. Haverá sorteio de um aluno por turma – R$ 1.000, condicionado à participação no Simulado e à presença mínima de 80% da turma.

O Saeb é aplicado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep/MEC). A avaliação tem como objetivo medir a qualidade do ensino oferecido nas escolas públicas e privadas de todo o país, por meio do desempenho dos estudantes em provas padronizadas.

Para o governador do Estado, “o objetivo não é reconhecer apenas quem alcançar 100% das metas, mas também valorizar todos que demonstrarem evolução nos resultados. Se a escola avançar, mesmo sem atingir a meta final, esse esforço será recompensado de forma proporcional. Queremos estimular a melhoria contínua, tanto no desempenho nas avaliações quanto na ampliação da frequência dos estudantes, porque cada passo à frente é fundamental para fortalecer a educação gaúcha”.

O CPERS-Sindicato, entidade representativa dos professores do RS, reagiu imediatamente e repudiou a lógica meritocrática anunciada pelo governo. Em nota, afirmou:
“Não é admissível remuneração diferenciada, como se sucesso ou insucesso fossem resultado apenas de qualidades e ações individuais. Meritocracia é competição em vez de cooperação; é a negação do reconhecimento da classe; é individualizar aquilo que se conquista coletiva e socialmente.”

Segundo a entidade, a política desconsidera a realidade das escolas e impõe aos professores e funcionários uma pressão desmedida, ignorando que a melhoria da educação exige investimentos estruturais, condições dignas de trabalho, redução da sobrecarga e apoio efetivo no ensino-aprendizagem — e não premiações pontuais e seletivas.

Interrogações pedagógicas

É pedagógico pagar e premiar para estudar e aprender? Incentivar os estudantes somente com dinheiro na aprendizagem é uma boa estratégia? Mercantilizar os processos, as relações e os resultados de aprendizagem contribuem para a formação de pessoas sociais, colaborativas e solidárias?

A premiação não reforça a cultura da competição e da rejeição do adversário (colega)? Como medir o esforço e o desempenho de estudantes em condições sociais, econômicas, culturais e tecnológicas tão desiguais? Como avaliar o desenvolvimento e a aprendizagem de estudantes com deficiência?

A premiação acirra a competição entre os estudantes “nós e eles”, ou seja, entre os que aprendem e os que não aprendem, entre os inteligentes e não inteligentes?  A arrogância e o ressentimento não emergem com a meritocracia potencializando a discórdia social?

A formação educacional não deveria equipar os estudantes somente para o mundo do trabalho, mas também preparar pessoas para que sejam seres humanos moralmente reflexivos e cidadãos democráticos efetivos, capazes de viver e deliberar sobre a vida e o bem comum? A severa pressão para desempenhar, realizar, alcançar o sucesso é uma das principais causas dos níveis exagerados de sofrimento emocional entre pessoas jovens, inclusive de famílias bastadas

Há recompensas que podem ser perigosas para as escolas e para os estudantes. Segundo os educadores António Nóvoa e Yara Cristina Alvim, aprender e estudar em comum é a melhor forma de promover uma vida em comum, uma sociedade convivial. Para isso, precisamos de uma educação pública que nos permita ir além do espaço que já habitamos, e chegar mais longe. Não há educação sem o desejo de poder ser outro alguém.

Premiar a Meritocracia

Há uma vasta e importante literatura sobre as premiações, lógicas de gestão empresarial e de valorização meritocrática no mundo do trabalho e na educação. Os EUA já praticaram há várias décadas e diversos estudos já produziram avaliações que revelaram seus limites pedagógicos, metas não atingidas e baixa eficácia no desenvolvimento e desempenho dos estudantes.

No Brasil, desde a década 1990, estas propostas de avaliações de desempenho e reconhecimentos aos segmentos escolares tem sido adotada e praticada por várias redes estaduais, municipais e instituições de ensino, tanto de educação básica como superior. Estados como Ceará, Minas Gerais, Espírito Santo e Alagoas, entre outros, bem como mais recentemente São Paulo e Paraná estão estabelecendo programas e metas na lógica mercantil e empresarial em instituições de ensino.

O Estado do RS decide adotar a estratégia de “reconhecer” esforços após vários anos que a educação da rede estadual apresenta indicadores altos de reprovação, abandono, diminuição de matriculas (ensino médio, EPT, EJA) e muita insatisfação dos professores, especialmente quanto a desvalorização da carreira docente no estado.

Visão de especialistas

Muitos especialistas em educação e infância, entretanto, criticam estes mecanismos e programas de premiação, sejam no âmbito familiar ou em redes de ensino. Para eles, vincular a ideia de dinheiro e afazeres domésticos e escolares pode passar mensagens perversas para as crianças e adolescentes, gerando uma inversão de valores.

“Se toda vez que uma criança tirar 10 ela ganhar determinada quantia, o que era fim, ou seja, aprender, se desenvolver cognitivamente e socialmente, acaba se tornando apenas um meio para outra finalidade – conseguir dinheiro”, explica Yves de La Taille, pesquisador e estudioso do desenvolvimento moral e professor do Instituto de Psicologia da USP.

Além disso, essa visão pode levar a criança ou o adolescente a crer que o dinheiro é a mediação de tudo e que as únicas coisas que valem a pena ser feitas são aquelas que são pagas. “Ficam de lado valores como a moral, a justiça, a solidariedade, que deveriam ser coisas importantes por si só, mas passam a ser caminhos para conseguir dinheiro. Por isso, acho muito perigoso esse “neoliberalismo” familiar e escolar, explica La Taille.

Para Cássia D’Aquino, especialista em Educação Financeira, dar prêmios conforme o desempenho escolar é outro erro grave. Quando se diz a uma criança que ela vai receber dinheiro se tirar tal nota, o que se está dizendo é que só interessa o resultado e não o processo. “Se ela vai colar, burlar as regras para atingir o objetivo não interessa desde que apareça com a melhor nota”, explica Cássia. Não existe presente maior, ela diz, para uma criança do que receber um abraço apertado ou dar orgulho aos pais. “É isso que ela deseja, que seu desempenho seja celebrado e não recompensado.”

Dentro desse panorama, a escola não deve replicar as práticas adotadas pela família como as mesadas e semanadas ou de empresas que distribuem bônus. Seu papel é ser mais um espaço para a discussão do assunto. “A escola pode mostrar como a economia está presente no nosso cotidiano, promovendo discussões que mostrem que a vida é cheia de escolhas, inclusive em relação ao dinheiro, e que eles devem escolher o mais pertinente aos seus objetivos e que sejam também capazes de arcar com as consequências dessa escolha”, afirma Cássia

Educação para além da polarização

Encontrar um caminho para além da política polarizada do nosso tempo exige levar em consideração o mérito. Entretanto, a meritocracia de hoje endureceu, tornando-se uma aristocracia hereditária. É o que diz Michael Sandel, respeitado filósofo de Harvard. Em sua obra A Tirania do Mérito:  O que aconteceu com bem comum, ele faz uma análise reveladora da perversa injustiça de nossa sociedade, movida por míope e desonesta crença na noção de mérito. Oferece uma crítica profunda da meritocracia que deteriorou nosso espírito de comunidade e respeito mútuo.

Ao longo das últimas décadas a ideia do “merecimento” tornou-se o cerne do discurso público-privado. Dois aspectos precisam de nossa plena atenção: responsabilidade pessoal que tem acompanhado tentativas de dominar no Estado do bem-estar social e transferir os riscos e responsabilidades dos governos e empresas para os indivíduos e, a retórica da ascensão, a promessa de que as pessoas que trabalham e estudam duro e seguem as regras merecem ascender até onde seus talentos os levarem. Será?

Será que os méritos são somente individuais? A sociedade que estamos inseridos, as instituições que nos cuidam e educam (família, escolas, educadores, centros de cultura, meios de comunicação, etc) e as pessoas que estão conosco em todos os momentos da vida não são corresponsáveis pelas nossas aprendizagens, desenvolvimentos, talentos e conquistas? Eu não sou resultado de minhas relações, condições, circunstâncias, experiencias e convivências?

O comportamento humano é, também, o tema principal da obra O Animal Social, de Elliot e Joshua Aronson. Ao discutirem questões da atualidade, como preconceitos, cultura da violência e os efeitos da comunicação de massa, passando por temas como atração pessoal, bullying, política, propaganda, ética e polarização (relação “nós” e “eles”) revelam os padrões e as motivações que levam os seres humanos a agir de determinada forma.

Os estudos revelam que quando professores aplicaram dinâmicas competitivas em sala de aula, aqueles que erram quando são chamados, ou aqueles que levantam a mão para competir, tendem a se ressentir daqueles que acertam. Os estudantes bem-sucedidos, por sua vez, costumam menosprezar os estudantes que não acertam; consideram-nos estúpidos e pouco interessantes. Estes processos desestimulam a camaradagem e a compreensão e, tendem a criar inimizades.

Territórios da educação

Os territórios escolares e acadêmicos não podem serem transformados em espaços e relações de concorrência, disputa, ganhadores e perdedores, bem-sucedidos e malsucedidos, nós-e-eles, talentosos e improdutivos.  A comunidade escolar e acadêmica é espaço público, coletivo e de aprendizagens colaborativas, juntos, em grupos de estudo e de pesquisa, de convivência saudável e feliz.

Pois, as aprendizagens mais significativas e progressos do desenvolvimento humano dos estudantes não é quantificável nem expresso em notas, metas ou estatísticas. Expressam-se nas relações humanas e na convivência com os outros, todos os outros, independente de qualquer talento, classe social ou gênero humano.

FONTE: Os perigos da recompensa na educação

Autor: Gabriel Grabowski, professor e pesquisador. Também escreveu e publicou no site “Juventudes interrompidas e a falta de proteção à vida”: www.neipies.com/juventudes-interrompidas-e-a-falta-de-protecao-a-vida/

Edição: A. R.

Quando a cozinha se apaga em casa…

“Uma cozinha une a família.”

Você já pensou que cozinhar não é apenas uma tarefa doméstica, mas um elo que mantém o sistema familiar unido?

Na década de 1980, quando o hábito de cozinhar em casa diminuiu nos Estados Unidos e a tendência de pedir comida de fora aumentou, alguns economistas alertaram:

“Se o governo assumir o cuidado das crianças e dos idosos, e as empresas privadas também passarem a cuidar da preparação das refeições, a estrutura familiar vai enfraquecer.”

Naquele tempo, poucas pessoas deram atenção a essas palavras. Mas então, o que aconteceu?

Em 1971, 71% dos lares americanos tinham marido, esposa e filhos vivendo juntos. Hoje, restam apenas 20% desse tipo de família.

E o restante?

Foram para casas de repouso, apartamentos solitários ou vidas desconectadas…

   •   15% das mulheres vivem sozinhas

   •   12% dos homens estão sozinhos dentro de famílias

   •   41% das crianças nascem fora do casamento

   •   Taxa de divórcio: 50% no primeiro casamento, 67% no segundo, 74% no terceiro

Isso não é acaso — é o custo social de fechar a cozinha.

A comida caseira não é apenas nutrição — é amor, conexão e conforto.

Quando as famílias se sentam juntas para comer:

   •   Os corações se aproximam;

   •   As crianças aprendem com os mais velhos;

   •   Os relacionamentos se suavizam e se tornam calorosos.

Mas quando cada um come sozinho, com seu próprio aparelho… as casas viram pousadas, e as famílias se tornam tão formais quanto amigos de redes sociais.

Outro problema da comida de fora:

   •   Óleos de baixa qualidade;

   •   Sabores artificiais;

   •   Vício em fast food;

   •   Pouca comida, de má qualidade, a preço alto.

O resultado? Obesidade, diabetes, doenças cardíacas e pressão alta ainda na juventude!

Hoje, empresas nos dizem o que comer, e as farmacêuticas fazem negócios com a promessa de “nos manter saudáveis.”

Nossos avós levavam comida feita em casa até quando viajavam.

Hoje, achamos “mais fácil” pedir de fora mesmo estando em casa.

Ainda há tempo!

Acenda a cozinha, não apenas o fogão… reavive os relacionamentos, o amor, a segurança, a cultura e a saúde.

“Uma cozinha une a família.”

Autor: Nelceu Zanatta. Também escreveu e publicou no site “O fim da empatia é o fim da civilização”: www.neipies.com/o-fim-da-empatia-e-o-fim-da-civilizacao/

Edição: A. R.

A fábula “O lobo mau e os três porquinhos”

Nós educadores, pais e demais adultos, temos que refletir sobre o dano que pode ser provocado no desenvolvimento físico, emocional, psicológico, social e espiritual do infante e adolescente que permanece fixado por longo tempo nas telas digitais, já comprovado cientificamente, e oferecer opções mais saudáveis, como a audição, leitura ou visualização de uma boa história, entre outras.

Era uma vez…

Mamãe porca se deu conta que seus três filhos porquinhos já estavam crescidos e não dependiam mais dela para sobreviver.  Ela, conversando com eles, explicou que agora eles estavam livres para construírem suas vidas sem ela.

Os três irmãos se chamavam:  Cícero, Heitor e Prático, saíram do lado da mãe para o mundo, mas, antes, ela lhes disse: “Tenham cuidado com o Lobo Mau, ele está sempre procurando algum porquinho para matar a sua fome”. O trio estava tão feliz com a liberdade que nem deram muita atenção ao último conselho da mãe.

Prático logo pensou em fazer sua casinha utilizando palha, pois era mais fácil de conseguir o material e simples de fazer, ficaria logo pronta e ele teria mais tempo para brincar e se divertir. Heitor escolheu fazer sua casinha de madeira, daria um pouco mais de trabalho, mas era mais firme e segura. E assim o fez.

Quando terminou de pregar a última tábua, Prático já lhes estava convidando para passearem e brincarem. Cícero decidiu fazer sua casinha de tijolos; levaria mais tempo, daria mais trabalho, teria que fazer o alicerce de pedra, colocar, depois, tijolinho por tijolinho, levantar as paredes, pôr o telhado, mas seria sua casa para toda a vida.

Prático e Heitor cansavam de ir buscar Cícero para passear e brincar, ele estava sempre muito ocupado, construindo sua casinha que, por sinal, estava ficando muito bonita, forte e aconchegante. Por mais que os manos insistissem ele não abandonava o trabalho. Depois de muito tempo, ela ficou pronta. Era grande, tinha lareira com fogão e chaminé. Nesse dia, ele prometeu aos irmãos que ele iria passear e brincar com eles. Mas na noite daquele dia, quando prático preparava seu lanche da noite, bateram fortemente na porta. Ele levou um susto e perguntou: – Quem está aí querendo entrar? E a resposta foi: – É o lobo, abra a porta! Prático respondeu, tremendo de medo: – Não vou abrir a porta, vá embora…O lobo respondeu: – Não precisa abrir. Vou assoprar e sua casinha de palha vai para os ares! E assim ele fez, deu dois sopros fortes e a casa se desmanchou. Prático, em meio a palhas voando, saiu correndo até a casa de Heitor que abriu a porta para ele entrar, enquanto ele contava o que estava acontecendo e trancarem a porta. Em seguida o lobo bate fortemente na porta, gritando: – Abra a porta que eu quero entrar. Heitor respondeu: – Não vou abrir, vá embora. O lobo respondeu: – Então eu vou assoprar. E assoprou tão forte que na terceira vez a casa de madeira se desmanchou. Os dois irmãos correram para a casa de Cícero que os acolheu e fechou a porta, trancando-a bem.  Disse aos manos que tremiam de medo: – Fiquem tranquilos porque a minha casa o lobo não consegue destruir, ela é bem forte. Logo o lobo bate à porta, gritando: – Abra que eu quero entrar e pegar os três juntos. Heitor respondeu – Não vou abrir, pode soprar à vontade.  Então Cícero, muito calmo, colocou uma panela grande com água para ferver pois o fogo já estava aceso na lareira.

O lobo, do lado de fora, assoprava, assoprava, assoprava e a casa nem se mexia. Depois de certo tempo ele já estava sem fôlego e resolveu deitar-se na grama para se recuperar. Olhando para cima do telhado viu a chaminé e logo pensou: – É por lá que eu vou entrar na casa e surpreender os três porquinhos. Dentro de casa, na lareira a água da panela já estava fervendo.  O lobo subiu pelo telhado até a chaminé e entrou, se espremendo de costas até seu rabo entrar dentro da água fervendo na panela. O lobo deu um urro e subiu ligeiro, saindo, até saltar do telhado e embrenhar-se na floresta que tinha na frente da casa de Cícero. Dizem que ele está correndo até hoje…

Os três porquinhos ficaram muito felizes porque o lobo foi embora. Cicero aproveitou a água que fervia, para fazer uma sopa gostosa para jantar com os manos num clima de muita alegria e convidou-os para morarem com ele na sua casinha de tijolos. Eles aceitaram o convite e viveram juntos com muito afeto.

Uma breve explicação!

Por que contar fábulas para as crianças da Educação Infantil e das séries iniciais do Ensino Fundamental?

A fábula é uma história imaginária na qual os animais assumem características humanas apontando as fraquezas dos homens e servindo de alerta contra tais fraquezas. Ela é uma forma literária que utiliza a linguagem simbólica para passar uma mensagem moral, reunindo o útil ao agradável. Geralmente conquista a aceitação espontânea entusiasta da criança e do adolescente pois reúne elementos úteis à vida da pessoa, são do seu conhecimento, têm significado, são compreendidos e assimilados. Vai ao encontro das expectativas do que gostamos, pensamos e sonhamos e o seu desfecho desperta a vontade de realizar o que a fábula está propondo.  O objetivo da boa fábula é introduzir na imaginação humana, através da inteligência emocional, a mensagem da verdade, do que é bom, útil e belo, de forma amena e prazerosa.

A história simples, pura, eloquente, adequada à faixa etária da criança, ajudará a criar imagens mais cristalinas, vivendo as fases e etapas de enobrecimento dos personagens em foco, criando quadros positivos que repercutirão mais tarde na sua vida física, emocional e espiritual, quando se imagina vivendo as aventuras dos personagens.  O petiz sente prazer, encanto, deslumbramento, ele tem facilidade em fantasiar o mundo que o rodeia. Este poder mágico do pensamento infantil é intuitivo, desenvolto, vivaz, exuberante. Nesta fase, para ele tudo tem amina (alma), vida, sentimento, tanto os objetos como todos os seres da natureza.

A boa narrativa é um estímulo que contribui para desenvolver as diversas dimensões da inteligência. A sequência dos fatos ocorridos na história ajuda a desenvolver a memória e o senso lógico e sua capacidade de raciocinar. Ativa a imaginação e a criatividade pois amplia as experiências já possuídas, além de enriquecer o vocabulário, pois a criança adquire novas formas de expressão da linguagem escrita e falada.

A fábula ajuda a educar as emoções básicas como o medo, a tristeza, a raiva, a alegria, a afetividade e desperta a curiosidade.

O Lobo Mau e os Três Porquinhos oferecem esta possibilidade de a criança perceber estas emoções nas peripécias que eles passam: a raiva do que o lobo fazia, o medo de enfrentar este desafio, a tristeza de ver sua propriedade destruída, a frustração, a possibilidade afetiva de encontrar apoio nos irmãos, a união entre os pares, a alegria de ver o lobo ir embora. O lobo representa o desafio a ser enfrentado no futuro, a floresta representa o mundo desconhecido para onde o lobo foi.  Ficaram unidos, pois o lobo poderia voltar…no meu entendimento ele ainda está fugindo daqueles três sapecas… já tenho escrita nova fabula da recuperação do lobo, ex mau. Aguardem!

Nós educadores, pais e demais adultos, temos que refletir sobre o dano que pode ser provocado no desenvolvimento físico, emocional, psicológico, social e espiritual do infante e adolescente que permanece fixado por longo tempo nas telas digitais, já comprovado cientificamente, e oferecer opções mais saudáveis, como a audição, leitura ou visualização de uma boa história, entre outras.

Autora: Gladis PedersenPedagoga, especialista em educação – gladispedersen@gmail.com Também escreveu e publicou no site “A arte de contar histórias”: www.neipies.com/a-magia-da-arte-de-contar-historias/

Edição: A. R.

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