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Pé-direito, pé-esquerdo e o andar do Brasil

Começar o texto falando do pé direito me faria uma pessoa de direita? Dizer que não, me faria uma pessoa de esquerda? Há colorados que são de direita!

A primeira coisa que me vem em mente quando falamos de pé-direito é a altura do piso até o teto. Isso porque eu sou arquiteta e realmente utilizo mais este pé do que o outro, em citações de fala. Não me pergunte o porquê desse nome, porque eu não faço ideia.

Mas, começar o texto falando do pé direito me faria uma pessoa de direita? Dizer que não, me faria uma pessoa de esquerda? Há colorados que são de direita!

No dia a dia, eu uso bastante, os pés. Os dois, assim, juntos. Não juntos como se fosse uma mola saltando.

O andar é uma poética da vida: quando o da direita vai, a esquerda dá suporte. E o contrário também se aplica. Tente você dar uma de Saci e andar só com um pé um dia inteiro. Dois pés no chão representam essa coesão de que o Brasil precisa e que aparentemente não tem.

E aí, me conta nos comentários: você também está com medo de levar uma chinelada de Havaínas no período eleitoral?

Autora: Ana P. Scheffer. Também escreveu e publicou no site “sobre se permitir deixar ir o que já partiu”: www.neipies.com/sobre-se-permitir-deixar-ir-o-que-ja-partiu/

Edição: A. R.

Para quê Escola de turno integral?

4 horas diárias de estudos das disciplinas científicas são suficientes para o seu aprendizado. O que o turno integral pode e deve agregar é um enriquecimento através do contato com aprendizagens de natureza social e cultural, com outra turma de colegas.

Estou chegando de volta de Tiradentes nas Minas Gerais, porque lá participei do Fórum do Amanhã, socializando o que aprendi sobre a escola de turno integral, quando festejamos os 84 anos da amiga e grande pensadora Bárbara Freitag.

Foto: Arquivo pessoal

A primeira aprendizagem é de que as escolas de turno integral não foram organizadas por que seria mais adequado ampliar as horas de estudo das disciplinas escolares – matemática, línguas, história, geografia, ciências, etc… Elas foram instituídas por uma nobre razão social -ocupar-se dos filhos das mulheres que ingressaram no mundo dos trabalhos fora de casa. Essa razão é efetivamente muitíssimo importante e necessária.

Quatro horas por dia estudando matemática, línguas… São absolutamente suficientes para que os alunos se enriqueçam com o belíssimo patrimônio científico que nos legaram nossos antepassados e o que vem sendo produzido nos dias atuais.

Mas, esses conhecimentos se enriquecerão se os aprendentes tiverem oportunidade de desfrutarem de outras atividades como esportes, artes visuais, línguas estrangeiras, aprendizagens musicais, etc, etc… como proporcionam a seus filhos, as famílias de classes médias e altas, no turno inverso ao qual frequentam seus descendentes, das escolas, principalmente particulares.

Assim o turno integral faz duplamente sentido para escolas públicas: primeiro porque se ocupa dos filhos, enquanto as mães trabalham fora de casa e em segundo lugar se na escola de turno integral o segundo turno tiver natureza cultural, inclusive não mais com os mesmos colegas, isto é, na mesma turma do período de estudos acadêmicos.

Fiz por duas vezes em Paris estágio no Instituto Pedagógico Nacional e participei de pesquisas sobre os rendimentos escolares de alunos que iam para a França vindos de países sem turno integral.

O resultado de tais pesquisas é que esses alunos não tinham nenhuma dificuldade em acompanhar seus colegas franceses que vinham já frequentando a escola em turno integral. Portanto, reforça a afirmação de que 4 horas diárias de estudos das disciplinas científicas são suficientes para o seu aprendizado. O que o turno integral pode e deve agregar é um enriquecimento através do contato com aprendizagens de natureza social e cultural, com outra turma de colegas.

Como Secretária de Educação de Porto Alegre proporcionamos tais atividades alternativas num total de 500, nas mais de 20 escolas municipais. Uma delas, particularmente, propiciou uma experiência espetacular de uma turma de alunos conhecerem Paris. Porque nela também se oportunizava o domínio da língua francesa.

Essa é uma história sobre a qual está por sair o livro intitulado: O Sonho Modula a Vida. Ele estará disponível em 24 de abril de 2026, quando festejarei meus 90 anos.

Autora: Esther Pillar Grossi (postado em rede social em 03/12/2025). Também publicamos no site a reflexão “A não aprendizagem – violência instituída”: www.neipies.com/a-nao-aprendizagem-violencia-instituida/

Edição: A. R.

As três perguntas

Liev Tolstói (1828/1910) é um aclamado escritor russo e com obras consagradas na literatura mundial como Guerra e Paz, Ana Karenina e a Morte de Ivan Ilicht, além de outras e de mais algumas dezenas de contos. É sobre o seu conto “Três perguntas” – 1908 – que quero abordar para que você faça a sua reflexão.

Na obra, um nobre imperador divulga em seu reino que pagará um prêmio muito alto a quem responder, com sabedoria, perguntas que lhe inquietam:

1.“Qual a melhor forma de se fazer cada uma das coisas?

2. Quais pessoas são as mais importantes de se trabalhar junto?

3. Qual a coisa mais importante e ser feita em todos os momentos?”. 

Em busca da recompensa, muitos súditos apresentaram-se avidamente teorizando sobre suas opiniões à cerca das respostas, todavia, nenhuma satisfazia ao imperador, o que o levou a aventurar-se numa jornada ao alto de uma montanha em busca de um eremita que poderia lhe esclarecer. E a narrativa segue com a beleza literária de Tolstói.

Passados 117 anos da publicação do conto, outros escritores fizeram variações e interpretações do tema que continua muito atual, e, para muitos, ainda sem respostas. Lendo a obra “O milagre da atenção plena” do monge vietnamita Thich Nhat Hanh, encontrei um fechamento muito interessante ao conto.

Ele escreve: 

“Lembre-se que só existe um único momento importante, que é o agora. O momento presente é o único momento sobre o qual temos o domínio. A pessoa mais importante é sempre aquela com quem você está, aquela que está diante de você (…) A busca mais importante é fazer feliz a pessoa que está do seu lado, pois só isso é a busca da vida.”

Creio que, se o monge estivesse em frente ao Imperador e lhe apresentasse estas respostas, o teria satisfeito.

Quantas coisas deixamos para depois, procrastinando, por preguiça ou por falta de organização para tomarmos uma atitude? Não podemos esquecer de que nosso futuro será reflexo daquilo que fizermos hoje, e, que nosso passado, nada mais é do que resultado do que fora feito em algum momento chamado (na ocasião) presente. E o que dizer daquelas situações em que estamos apenas de “corpo presente” em uma reunião, palestra, diálogo, sem valorizamos e darmos a atenção a quem está à nossa frente?

Por fim, posso ser feliz dedicando-me ao mundo sem, no entanto, saber sobre como está meu filho na escola, quem são os amigos com quem está saindo ou conversando na internet? Quando parei para valorizar minha companheira (o) – ou meus familiares – por estar muito mais voltado ao trabalho ou a estranhos?

Bem, ante a atualidade das três perguntas, deixo ao amigo leitor o exercício de retomar a leitura e, após uma reflexão, analisar se, de fato, receberia a recompensa do imperador por tê-las respondido à altura. Caso afirmativo, parabéns, agora, que tal aproveitar o novo ano e começar por colocá-las em prática? 

Feliz 2026!

Autor: César Augusto de Oliveira -psicólogo. Também escreveu e publicou no site “A tua presença é importante”: www.neipies.com/a-tua-presenca-e-importante/

Edição: A. R.

“Tire as sandálias dos teus pés”

Quando Deus manda Moisés tirar as sandálias, o gesto é profundamente simbólico. É como se dissesse: toda a experiência que você acumulou no Egito não será suficiente para esta nova etapa.

“Tire as sandálias dos teus pés”, foi o que Moisés ouviu da voz que falava do meio da sarça ardente. Mas não se tratava de um boicote a uma marca de sandálias por causa de uma propaganda. Tampouco de uma cruzada moral contra um comercial que, diga-se de passagem, fala justamente de não acreditar na sorte, de dizer não à superstição, de entrar o ano com os dois pés e não apenas com o direito. Em momento algum se falou em “pé esquerdo”.

Ainda assim, a dissonância cognitiva de alguns os impede de enxergar o óbvio.

Resultado: mais um Natal polarizado. Enquanto isso, as filas em frente às lojas da tal marca seguem aumentando. Há até quem queira presentear o tio bolsonarista com um par de Havaianas, não por afeto, mas por pura implicância. Eis o espírito natalino em sua versão caricata.

Quando Deus manda Moisés tirar as sandálias, o gesto é profundamente simbólico. É como se dissesse: toda a experiência que você acumulou no Egito não será suficiente para esta nova etapa.

Ali, Moisés precisaria desaprender. Precisaria abdicar de certezas, de preconceitos, de presunções. Tirar as sandálias era desarmar-se. Era tornar-se vulnerável. Era pisar, descalço, no chão santo da subjetividade, onde não cabem respostas prontas nem ideologias travestidas de fé.

É exatamente disso que o povo brasileiro precisa agora.

Leia também: www.neipies.com/carta-a-humanidade-brasileira-por-um-tempo-de-escuta-beleza-e-reconciliacao/

Menos certezas baratas. Menos cruzadas morais. Menos idolatria política. Mais silêncio. Mais escuta. Mais humanidade.

Boicote o boicote. Você é maior do que isso. Ou melhor, nós somos melhores que isso.

Não caia nessa polarização idiotizante que insiste em reduzir o mundo à lógica empobrecedora do “nós contra eles”.

Vamos dar uma chinelada nessa bobageira toda e sair ao encontro dos nossos de pés descalços.

E aqui, claro, o sentido é metafórico.

Ou, como disse Paulo, com muita sabedoria:

“Calçados com o evangelho da paz.”

P.S. A propósito, por que, ao invés de jogar as havaianas boas no lixo, vocês não doam para alguém que necessite?

Autor: Hermes C. Fernandes. Também escreveu e publicou no site “Quer apostar?”: www.neipies.com/quer-apostar/

Edição: A. R.

Vai ser gauche na vida

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Os fenômenos climáticos são notícias de final do ano, e há gente que os negue. Feminicídios aumentaram em dezembro no Brasil, e há gente defendendo a submissão das mulheres. A história é muito gauche.

A partida de Luís Fernando Veríssimo me faz refletir sobre o papel dos intelectuais de esquerda para manter o mundo saudável. Poesia e humor não se fazem do outro lado. A direita tem muito ódio e é ranzinza. Falta-lhe poesia e bom humor. 

Porque, você sabe, ser de esquerda hoje em dia é como ser um hippie nos anos 60. Todo mundo quer ser, mas ninguém sabe exatamente o que isso significa. E isso é muito complexo para uma descrever numa crônica.

 Não sei se eu sou de esquerda. Sou mais um cara que gosta de questionar as coisas, de duvidar da autoridade, de rir da seriedade com que as pessoas tomam a vida. E, sim, eu acho que a desigualdade social é um problema, que a educação e a saúde são direitos fundamentais, e que a política deveria ser mais transparente e honesta.

Honestidade, aliás, é uma dimensão ética, que pode estar à direita ou à esquerda. Como o autoritarismo e totalitarismo, que também não têm ideologia.

Mas, isso me torna um intelectual de esquerda? Não sei. Os direitos humanos foram uma luta do capitalismo, para se proteger a si mesmo da falência. Os direitos trabalhistas também. São o que possibilita que os operários suportem vender suas horas de vida.

Assim entendo o trabalho. Como vida vendida para se ter dinheiro para melhorar o resto de tempo que nos sobra fora do trabalho. Quando sobra.

Talvez eu seja apenas um cara que gosta de pensar e escrever sobre as coisas que o incomodam. E, se isso é ser de esquerda, então eu sou. Mas, se ser de esquerda significa ter todas as respostas certas e saber exatamente o que fazer para mudar o mundo, então eu não sou.

Como escreveu Drummond:

“Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.”

Estradas tortuosas nos mantêm atentos ao caminho. Gente muito reta é muito burra ou muito chata.

Se eu fosse de direita seria mais fácil terminar esta crônica, porque ela tem muitas ideias prontas. “Bandido bom é bandinho morto”, “se está preso é porque fez alguma coisa”, “direitos humanos é o esterco da vagabundagem”, por exemplo.

Estamos em tempo de festas de final de ano e os presos de direita querem passar com a família, coisa que nunca quiseram para os outros criminosos.

A direita se ofendeu porque uma atriz fez uma propaganda para a gente começar o novo ano com os dois pés no chão, coisa aliás, muito razoável. Ter os dois pés no chão é como se enfrenta o mundo real, ou seriam quatro? Ou viramos sacis? Ou com nenhum, como os artistas que vivem enganando a força de gravidade, ou morando na Lua.

Os fenômenos climáticos são notícias de final do ano, e há gente que os negue. Feminicídios aumentaram em dezembro no Brasil, e há gente defendendo a submissão das mulheres. A história é muito gauche.

Autor: Pablo Morenno. Também escreveu e publicou no site “O maior desejo do mundo”: www.neipies.com/o-maior-desejo-do-mundo/

Edição: A. R.

Terra Sem Males dos Males da Terra

Este é o título do livro recentemente publicado por Dirceu Benincá. Terra Sem Males dos Males da Terra pretende ser uma reflexão sobre a dinâmica de construção e reconstrução permanente desta utopia que nos conecta com outros mundos sonhados.

A publicação busca colocar em sintonia a cosmovisão judaica sobre o paraíso (Gn 1 e 2) – o qual foi perdido, mas pode ser reconfigurado –, com a proposta do Reino de Deus, apresentada por Jesus de Nazaré. Igualmente, estabelece uma aproximação com o mito Guarani da Terra Sem Males (Yvy Marã E’Ỹ) e com o paradigma do Bem-viver, este nutrido pelos povos indígenas da região dos Andes.

A obra incorpora uma releitura de alguns aspectos da prática de Jesus em seu tempo histórico. Defende que a sua ação não se reduz ao plano social, econômico, político e cultural, mas passa necessariamente por essas instâncias. Sua proposta é o Reino de Deus, que se realiza no curso da história e a transcende. É realidade que se faz no aqui e agora, embora não de modo pronto e pleno. É gratuidade divina e compromisso humano. Um projeto com força para transformar o mundo, romper com todos os tipos de opressão, exclusão, injustiça e outras maldades.

Na introdução do livro Terra Sem Males dos Males da Terra, Benincá afirma: “Os tempos andam estranhos. Os ventos da globalização fragmentada e da modernidade líquida e vaporosa sopram sem cessar. Em confronto com a vida humana, estraçalham muitos sonhos e utopias. Trazem nuvens de instabilidade na economia, na política, na cultura e na religião. Ora produzem tempestades e inundações, outras vezes tornam o chão ressecado. Aridez de justiça social, de paz e democracia. Estiagem também feita de indiferença e individualismo. A empatia e a cooperação parecem ter-se encolhido, reduzindo as condições da possibilidade de uma nova sociedade”.

E prossegue: “ Seguimos intensamente conectados à internet e inebriados pelas redes sociais; tontos de informações e pisoteados pela velocidade de acontecimentos catastróficos. A terra treme de vergonha das injustiças, da cultura do ódio, da intolerância étnico-racial, religiosa e política. O terrorismo e a guerra explodem aqui e acolá. Pandemia, eventos climáticos extremos, aumento de doenças mentais, degradação do solo, das águas doces e dos mares, extinção da biodiversidade, etc. São diferentes expressões de uma mesma crise civilizatória. Pessoas e grupos vulneráveis sempre sofrem mais do que os demais. E a sociedade em geral passa a achar normal o repetitivo, só pelo fato de se repetir. Esqueceu-se do poeta alemão Bertolt Brecht (1898 – 1956) que advertiu: ‘Pedimos, por favor, não achem natural o que muito se repete!’”

O autor ainda acrescenta: “Além de proporcionar reflexões instigantes em torno de três visões de mundo com suas respectivas culturas, modos de crer, viver e almejar o futuro, o livro instiga para ações coletivas e inadiáveis do nosso tempo. Entre elas, a promoção da justiça socioeconômica e socioambiental, da democracia, da paz, do amor fraterno e da sustentabilidade planetária. Em comum, os sonhos da Terra Sem Males, do Reino de Deus e do Bem-Viver não se desmancham no ar e nem se deixam consumir pelo capitalismo ultraneoliberal. Permanecem como grandes ideais, carregados de mística, inquietações e desafios para o nosso agir na história e no mundo”.

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Dirceu Benincá é graduado em Filosofia e Teologia; especialista em Comunicação Social; mestre e doutor em Ciências Sociais, com pós-doutorado em Educação. Professor na Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e no Mestrado em Ciências e Sustentabilidade da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB).

Autor de diversos livros, capítulos de livros e artigos científicos. Entre os livros, citam-se: Em tempos de ebulição: leituras instáveis. Curitiba: CRV, 2023; Agroecologia e Educação do Campo: construindo novas territorialidades (Org.). Curitiba: CRV, 2023; Universidade e suas fronteiras (Org.). São Paulo: Outras Expressões, 2011; Energia & cidadania: a luta dos atingidos por barragens. São Paulo: Cortez, 2011; Em tempos de de travessia: leituras do cotidiano. Passo Fundo: Ifibe, 2007; CEBs: nos trilhos da inclusão libertadora (em coautoria com Antonio Alves de Almeida). São Paulo: Paulus, 2006; Reciclando a (des)ordem do progresso. ARCAN – uma alternativa socioambiental. Passo Fundo: Ifibe: 2006.

Interessados na obra podem fazer pedido por e-mail: dirceuben@gmail.com

Dirceu Benincá também é Convidado do site. Leia também seus 29 textos já publicados:https://

www.neipies.com/author/dirceu_beninca/

Edição: A. R.

Testemunhos de um jovem casal de catequistas

Testemunhamos a dedicação e compromisso atuante de um jovem casal de catequistas da Paróquia Santo Antônio, Bairro Petrópolis, Passo Fundo, RS ao longo dos últimos quatro anos. Resolvemos entrevista-los para que possam comunicar a sua experiência como catequistas e nos ensinar sobre esta nobre missão que assumiram junto à Igreja Católica.

Ser catequista é cumprir um ministério dentro da Igreja Católica, Apostólica e Romana. Para além dos conhecimentos específicos da fé cristã católica, os catequistas dedicam-se ao anúncio da Palavra de Deus e à formação inicial na fé de crianças, adolescentes e jovens na sua caminhada e amadurecimento espiritual.

Papa Francisco instituiu oficialmente o ministério do catequista em 2021, recordando que são “homens e mulheres chamados a expressar sua competência no serviço da transmissão da fé, que se desenvolve através de diferentes etapas e modalidades”.

Anuar Battisti, Arcebispo Emérito de Maringá (PR), afirma que “ser catequista exige um coração apaixonado por Deus e pelo próximo. O catequista é alguém que acolhe, escuta, acompanha e orienta. Ele se torna presença amiga e referência de fé para crianças, jovens e adultos que buscam aprofundar a vida cristã. Sua missão é particularmente importante em um tempo marcado pela indiferença religiosa, pelo relativismo e pelas crises de sentido que atingem tantas famílias”.

Atualmente, catequistas enfrentam desafios grandes como a falta de tempo das famílias, a competição com as tecnologias digitais, como também, muitas vezes, a desvalorização do próprio ministério. Catequistas devem ser criativos, perseverantes e cheios de esperança, para anunciar Cristo de forma fiel e atraente.

Testemunhamos a dedicação e compromisso atuante de um jovem casal de catequistas da Paróquia Santo Antônio, Bairro Petrópolis, Passo Fundo, RS ao longo dos últimos quatro anos. Resolvemos entrevista-los para que possam comunicar a sua experiência como catequistas e nos ensinar sobre esta nobre missão que assumiram junto à Igreja Católica.

Segue entrevista de Guilherme Varela Gomes e Luana Patrícia Valandro, Catequistas da Paróquia Santo Antônio e membros da Coordenação do Cursilho Jovem da Arquidiocese de Passo Fundo.

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Como, quando e porque resolveram ser catequistas?

Nós nos sentimos chamados no final de 2020 a servir. Estávamos um pouco afastados das atividades da Igreja e comunidade e vimos na catequese uma oportunidade de reencontro.

O que mais os desafia na missão de educar crianças, adolescentes e jovens na fé cristã?

Cremos que um grande desafio é, justamente, manter a atenção da criançada ao longo do encontro. Então, isso exigiu que tivéssemos criatividade para pensar e agir fora da caixa, sem perder o foco nos conteúdos importantes. Procurados ensinar com leveza, humor e fé.

O que mais os realiza na missão de educar crianças, adolescentes e jovens na fé cristã?

O que nos realizou nessa missão foi ter a oportunidade de fazer com as crianças entendessem o seu papel no mundo à igreja. Eles são atores da mudança e transformação. Por isso, ao ver a evolução deles, seu autoconhecimento e a vontade fazerem a diferença, foi fantástico.

Como percebem a fé e a espiritualidade das crianças, adolescentes e jovens atualmente?

 A fé deles foi se construindo ao longo da caminhada. Mas nos surpreendeu muito, quando fazíamos questionamentos sobres a origem do universo, aborto, ressurreição, vida eterna, milagres. Todas elas acreditavam no Deus que professamos. Isso é um alento, pois, certamente, irão continuar na caminhada cristão e serão jovens e adultos diferenciados para a sociedade.

Nas suas percepções, qual é a importância da catequese na vida das crianças, adolescentes e jovens e na vida das famílias destes?

A catequese é ponto fundamental. Embora seja um período curto, ela ajuda no crescimento e conhecimento espiritual e, nisso, a família tem importância central, pois é em casa que a fé dever ser praticada. A catequese sempre faz esse convite.

Em quatro anos de caminhada, preparando crianças e adolescentes para a Eucaristia bem como para a Confirmação (Crisma), o que destacariam nas suas vivências de transmissão da fé?

Destacaríamos que pudemos partilhar grande parte a juventude deles e mostrar o Cristo, amigo e salvador, para eles e ver que eles entendem que Jesus está sempre próximo, deu sentido todo especial para continuar nessa missão de evangelizar pela catequese.

Qual é a metodologia que utilizaram para manter as crianças e adolescentes na disposição pelo aprendizado da fé cristã?

Nós tínhamos um material como guia, então seguimos essas orientações, porém, usamos do diálogo, da contação de histórias, comparações, humor, músicas, atividade práticas. Fizemos isso para que manter a atenção e ter certeza de eles compreendem tudo. Cremos que conseguimos atingir tal objetivo. Um ponto, muito forte que usamos, foi fazer com eles sempre refletissem sobre si mesmos.

Qual é a importância da formação mensal que os catequistas desta paróquia recebem mensalmente?

A formação continuada é importante. Quem não estuda, não se aprimora, fica parado no tempo. A Luana e eu também somos do Cursilhos Jovem, isso nos instiga a sempre estar buscando o estudo, em especial as orientações do Catecismo e documentos da Igreja.

O que mais gostariam de destacar?

Não é nada fácil ser catequista. Mas é uma missão memorável, pois temos a oportunidade de fazer com as crianças não sejam meros repetidores, mas que sejam verdadeiros atores da construção do Reino de Deus e de um mundo melhor.

Fotos: Arquivo pessoal de Luana Patrícia Valandro.

Edição: A. R.

Essência do Lírio da Paz: promover paz

Repercutimos importante matéria, assinada por Fabiano Costa, publicada pelo Jornal Tribuna de Jundiaí. Nessa época de final e início de ano, possibilidades de renovação de ares e ambientes. Lírio-da-paz purifica ambientes e promove equilíbrio espiritual. Descubra como essa planta pode elevar a energia da sua casa.

Entenda o significado espiritual do lírio-da-paz e como ele equilibra a energia

“Em meio à rotina acelerada e aos espaços cada vez mais carregados de estímulos, o lírio-da-paz surge como um verdadeiro refúgio visual e energético. Muito além de sua aparência serena e sofisticada, essa planta tem uma simbologia profunda que atravessa culturas e crenças. Quem cultiva um lírio-da-paz em casa sente, ainda que inconscientemente, um sopro de equilíbrio e bem-estar no ambiente. E não é por acaso: a planta está ligada diretamente à ideia de purificação, paz interior e proteção espiritual.

O lírio-da-paz e seu significado espiritual

A presença do lírio-da-paz em um espaço não é apenas decorativa. Essa planta está fortemente associada à harmonia espiritual e emocional, sendo frequentemente usada em práticas de feng shui, terapias energéticas e até rituais religiosos. Seu nome já entrega parte da sua essência: promover paz.

Em várias tradições, o lírio-da-paz simboliza a purificação da alma, sendo um elo entre o mundo físico e o espiritual. Suas flores brancas e folhas brilhantes evocam pureza, luz e cura. Muitas pessoas relatam sentir alívio emocional ao entrar em contato com a planta, especialmente em ambientes que estavam pesados ou carregados emocionalmente.

Purificação de ambientes com lírio-da-paz

Mais do que bonito, o lírio-da-paz atua como um verdadeiro purificador natural. Estudos da NASA apontam que ele está entre as plantas com maior capacidade de filtrar poluentes do ar, como formaldeído e benzeno. Essa limpeza física reflete no plano energético.

Ambientes com lírio-da-paz tendem a parecer mais leves, frescos e tranquilos. Por isso, é comum encontrar essa planta em consultórios terapêuticos, quartos e locais de meditação. Ela não apenas filtra toxinas, como também absorve vibrações negativas, funcionando como um escudo sutil contra energias densas.

Onde posicionar o lírio-da-paz para maximizar sua energia

Se a intenção é potencializar os benefícios espirituais e energéticos do lírio-da-paz, o posicionamento é fundamental. No feng shui, por exemplo, a planta deve ser colocada em áreas onde há necessidade de equilíbrio emocional ou cura.

Quarto: ajuda a melhorar a qualidade do sono e acalma a mente antes de dormir.
Sala de estar: harmoniza as interações familiares e suaviza o ambiente.
Entrada da casa: atua como uma espécie de filtro energético, impedindo que energias negativas entrem.
Banheiro: ajuda a transmutar a energia de um espaço geralmente negligenciado do ponto de vista energético.

Evite colocá-lo em locais com sol direto, pois a planta prefere luz difusa e ambientes úmidos, o que também favorece seu papel espiritual.

Um aliado em momentos difíceis

Muita gente recorre ao lírio-da-paz como símbolo de consolo em situações de luto, estresse ou perda. Não é à toa que é uma das plantas mais presenteadas em momentos delicados. A simbologia da flor branca representa o recomeço, a serenidade diante da dor e a esperança de cura.

Espiritualmente, essa planta é considerada um canal de transmutação. Ela “absorve” as cargas emocionais do ambiente e, silenciosamente, colabora para restaurar a estabilidade mental. Ter um lírio-da-paz por perto em fases de turbulência pode ser uma forma natural de retomar o equilíbrio interior.

Conexão com os chakras e práticas energéticas

O lírio-da-paz também é associado ao chakra cardíaco (Anahata), responsável pelo amor, compaixão e cura emocional. Meditar próximo à planta ou simplesmente estar perto dela pode ajudar a desbloquear esse centro energético, promovendo sensações de leveza, perdão e reconexão consigo mesmo.

Alguns terapeutas holísticos usam o lírio-da-paz em sessões de reiki ou alinhamento energético, posicionando-o estrategicamente na sala ou orientando o paciente a manter uma planta em casa para prolongar os efeitos da sessão.

LEIA TAMBÉM: Respeite as flores: www.neipies.com/respeite-as-flores/

Como cuidar do lírio-da-paz e manter sua energia elevada

Cuidar do lírio-da-paz é uma forma de nutrir a energia que ele oferece. A planta precisa de:

  • Luz indireta (ambientes iluminados, mas sem sol direto)
  • Rega moderada (duas vezes por semana, dependendo da umidade)
  • Solo levemente úmido, mas nunca encharcado
  • Limpeza regular das folhas para evitar acúmulo de poeira

Além disso, sempre que possível, mentalize intenções positivas ao cuidar da planta. Essa troca simbólica fortalece a conexão entre você e o lírio-da-paz, aumentando ainda mais seu poder de atuação energética.

Mesmo que você não siga nenhuma linha espiritual específica, é difícil ignorar a sensação de paz que o lírio-da-paz transmite. Sua presença transforma o ambiente e inspira calma em meio ao caos cotidiano. E talvez, só isso já seja uma forma poderosa de espiritualidade”.

Autor: Fabiano Costa.FONTE:O significado espiritual do lírio-da-paz: purifique e equilibre seu lar

Edição: A. R.

Qual o limite para suportarmos a tragédia do feminicídio em nossas cidades?

Ninguém está cuidando das mulheres! Tanto que são mortas, quantas, mesmo com medidas Judiciais ‘protetivas’.

Tainara Souza Santos não irá passar este Natal em casa. Quem cuidará de suas filhas? (1)

Grande mulher, esta Tainara!  Insistiu em viver. Perdeu suas pernas, todavia, em um preço que pagou por discutir com um monstro, fantasiado de homem, que a arrastou sob seu carro, em São Paulo, por um quilômetro; segundo a imprensa. Como ficou presa sob o veículo, sofreu amputação de suas pernas. Nem pensar nisso, queremos, sendo arrastadas e queimando em um asfalto quente, dilaceradas por um verdugo que a rastejava sob a sua biga.  Quem de nós pode imaginar tamanha dor?

Ser atropelada, impensável! Arrastada, inconcebível!

Ela não fará parte das quatro mulheres que são mortas todos os dias, neste Brasil cristão.  Viverá sem suas pernas, a Tainara, e poderá nos trazer mais luz nesta escuridão medieval em que nos encontramos. Pelo menos nessa estatística não fará parte; para surpresa de seu algoz macabro.

Caso você esteja lendo este artigo antes da meia-noite, saiba que neste dia que termina, 4 mulheres foram mortas no país. Foi a sua média em 2024, pelo menos. Aguardem novos números para este ano.

Mas e as tentativas de homicídio?  No mesmo ano, 13.870.  Em 97% dos casos, as agressões acorreram em suas residências. Leia novamente a frase, por favor! Dê um google rápido…

Mortes variadas, claro. Tiros, facadas, agressões de toda a sorte.  Lê-se nos depoimentos de especialistas, que antes da violência física vem a verbal.  Nisso todos somos mestres em saber:  o tapa, o empurrão, o olho inchado pela brutalidade do agressor; tudo é precedido por desacato e ameaça.  Mas as coisas vão sendo levadas adiante, que por fatores variados, não fazem as mesmas mulheres revidarem.  Ou, revidam e perdem.

O seu próprio lar é transformado no pior lugar do mundo para se manter vivas!

Suporta-se muito nesta geração; de casamentos infelizes, o que não é de se espantar, ao isolamento da mulher quando o seu parceiro não a quer no trabalho fora, por exemplo. Da solidão imposta… À solidão autoritária, de um para o outro, sobretudo, quando mulheres não tem a quem recorrer e moram longe de seus familiares, ao ciúme doentio, de uma personalidade insegura, a que se transformaram os machos do ocidente.  – se não for comigo não vai com ninguém. Já ouviram isso?

O tiro fatal, a facada mortal, começou muito antes, pois é um processo contínuo de fúria, seja pela indiferença do que uma mulher vive e produz, em seus dias de abandono na sua própria casa, seja pelas ofensas silenciosas que vão se acumulando pelas paredes, quando não há uma porta para fugir de um relacionamento intoxicado e doentio. 

As mulheres perdoam muito.  Parece ser de sua natureza essa sensibilidade de perdoar e seguir em frente. 

_ Um empurrão não é nada, um grito ou um tapa… E muitas engolem.

_ Pior é sair e não ter para onde ir… Com filhos. Ouvi dia desses. É de ouvir e vomitar!

Então o agressor encontra conforto nas circunstâncias emocionais que envolvem a mulher e fica à vontade, para prosseguir a sua rotina de brutalidade, emitindo sinais, sempre abusivos, acompanhados pela relativização de uma mulher cansada, mas que não tem opções ou amparo para cair fora.

Ninguém está cuidando das mulheres! Tanto que são mortas, quantas, mesmo com medidas Judiciais ‘protetivas’.

Nem seria o caso de terem de ser cuidadas.  Bastasse a sã consciência de uma sociedade equilibrada, o que não é o caso, para entender que não há crime contra mulheres ou homens; há contra a humanidade.

Ocorre que não é assim! A partir de um simples assédio a caminho do trabalho, do preconceito que ainda há contra as que dirigem seus carros, de sua remuneração abaixo do que recebem os homens, pela mesma função exercida, há uma lista interminável de provocações e afrontas, que fazem da mulher, hoje, milhares de anos após Adão, o Ser mais vulnerável em nossa cadeia de afetos mal construídos.

O que vemos e ouvimos? Para despertos, as mulheres vêm sendo subjugadas desde o mito de Eva. Foi por ela que a maçã se tornou o motivo de tentação para um homem ‘puro’ e que, somente por ela, ele perdeu a sua divindade. Ou virgindade! Sim, a mulher é o motivo das tentações e dos embaraços pelos quais os homens sofrem.  Está escrito lá, e como está escrito sempre tem algum ensinamento que pode ser desvirtuado. Para mentes obtusas, vale o escrito! 

Para libertas, Eva foi construída sobre uma narrativa que, sem o seu contexto analisado, servirá para todo o tipo de interpretações. De beleza à violência.

Contardo Callegaris lança luz sobre esta diminuição história das mulheres, como que vindo ao mundo para trazer o mal. 

_ “Construímos uma civilização há mais de três mil anos sobre o ódio às mulheres. Os textos cristãos e gregos já colocavam a mulher como representante do mal. Demonizando-as. – É aquela a quem o demônio fala. Ela está no centro do mal e nos persegue. O ódio está no coração da nossa cultura. E a misoginia está no coração da sociedade!”(2)

Daí que não nos causa tanto espanto assim, neste feminicídio diário, que pode ser resultado de um conceito acomodado pelo inconsciente coletivo, de que a mulher é a causadora dos males que nós, homens, fracos e inseguros, somos subjugados pela sua força e beleza: a força feminina. Quanta indiferença a nossa e quanta estupidez!

Haverá uma mudança na mesa de Natal na casa de Tainara, a quem dedico este artigo. Provavelmente, estará em uma cadeira de rodas. O que não impedirá, claro, que suas filhas subam em seu colo e recebam sabe-se lá quantos abraços.

O seu assassino, porque o nome deveria ser este, uma vez que acelerou para matá-la, passará o Natal na prisão.  Mas, não se admirem se por pouco tempo mais. Leiam e saibam sobre muitos assassinos de mulheres, por esses dias, saíram caminhando pela porta da frente de delegacias.

Se não há flagrante, a injustiça triunfa!

Hoje, sexta, dia 19, vimos um monte de dinheiro dentro de um saco de lixo; mais de 400 mil na posse de um Senador. Ele não deve estar preocupado com o feminicídio no país, certamente. Nem seus colegas.

As igrejas também não estão muito. No caso da Católica, o Padre Júlio cancelado, já estará de bom tamanho. De resto, não vemos pastores ou bispos indignados, gritando contra esses massacres. 

Mas vimos as próprias mulheres procurando se defender, em uma grande passeata, dia desses.  Uns poucos homens em seu meio. Quem sabe!

Mas, e às filhas da Tainara! Como explicar a elas que esta é a civilização em que vivem? O que pensam de todos nós? Quanta vergonha em lhes falar como somos de fato!

Até quando?  

Referências:

  1. O Estado de S. Paulo, em 07 de dezembro de 2025 (Redação)
  2. Contardo Callegaris. ‘Por que a misoginia não é um acidente. Acesse: https://www.instagram.com/reels/DR0Mz-MDtjK/

Autor: Nelceu A. Zanatta. Também escreveu e publicou no site “O santo mel de cada dia”: www.neipies.com/o-santo-mel-de-cada-dia/

Edição: A. R.

A pedagogia inspiradora da práxis benincaniana

No apagar das luzes de 2025, quero aproveitar o espaço desta coluna para mais uma vez homenagear um outro grande mestre, que fez toda a diferença na minha vida pessoal e profissional: professor Elli Benincá.

Fui seu aluno, orientando, monitor, bolsista voluntário, amigo, colega e admirador. Os anos que convivi com ele representam pra mim memórias vivas, lembranças fraternas e experiências pessoais e profissionais que me constituíram como professor-pesquisador, e que me acompanham no modo de ser docente, orientador, estudioso das questões filosóficas e dos dilemas educacionais.

Elli Benincá, na sua simplicidade acolhedora e na sua capacidade de mobilizar pessoas e instituições, nos ensinou com maestria e coragem que precisamos ousar sem perder a humildade de aprender com os outros e se coloca a serviço de um bem maior na construção de processos pedagógicos de formação cooperativa em prol de uma sociedade mais justa, digna e fraterna. Na feliz expressão de Lucídio Bianchetti, no Elli existe uma práxis benincaniana que nos inspira e que o torna um clássico regional e com o tempo se tornará um clássico cosmopolita.

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Foi oportuna a iniciativa dos colegas do PPPGEdu, liderados por Claudio Dalbosco, de constituir um grupo de amigos de Elli Benincá (colegas próximos, familiares de Elli, ex-alunos ligados ao Itepa e a UPF, dentre outros). Com isso instaurou-se um movimento de tornar vivo seu pensamento, por meio de estudos, criação de um site e de um selo editorial, a organização de um memorial dos seus textos, a realização de eventos em torno de sua obra e principalmente a produção acadêmica.

Junto com Lucídio Bianchetti, organizamos em 2024-2025 a coletânea Práxis dialógica benincaniana: memórias e experiências formativas (Fávero; Bianchetti, 2025) publicado em outubro deste ano pela editora da UPF. Na sequência faço uso de alguns recortes da apresentação da coletânea com o objetivo de divulgar este belo trabalho que será lançado no dia 20 de março de 2026 no auditório do PPGEdu precedido de uma conferência do amigo Lucídio Bianchetti para todos os interessados.

Com professor Lucídio Bianchetti e professora Maria Isabel da Cunha.

Por meio de depoimentos, relatos de experiências e reflexões, o conjunto de autores/as que compõe os capítulos da coletânea visam contribuir para ressaltar o quanto a vida e a obra do Elli continuam repercutindo, influenciando, desafiando as novas gerações que estão se formando e dedicando-se ao quefazer educacional e de engajamento social. Pesquisas empíricas, adensamento teórico-metodológico, atuações engajadas, relatos e reflexões evidenciam o poder heurístico da práxis dialógica benincaniana.

Para os que conviveram com Elli Benincá, a coletânea (de acesso gratuito pelo site da editora da UPF ou no link que se encontra no final do texto)  torna-se uma forma de rememorar os ensinamentos e vivências deste grande mestre que soube como poucos articular, de forma coerente e produtiva, um intenso exercício intelectual com uma prática pedagógica/pastoral engajada e comprometida; para aqueles/as que não tiveram o privilégio de conhece-lo ou de desfrutar de sua convivência, por meio dos textos que compõe a coletânea poderão apreender e testemunhar seu legado na direção de torná-lo um clássico regional que soube articular teoria e prática em sua atividade intelectual e nas suas ações pedagógica. 

O primeiro texto resulta de depoimento/entrevista que Eldon Henrique Mühl nos concedeu, especialmente para esta coletânea. Ao invés de seguirmos o roteiro tradicional de entrevistas, com perguntas e respostas, enviamos um roteiro de questões que foram abordadas pelo prof. Eldon. Em seu depoimento, o entrevistado aborda aspectos relacionados à sua formação e sua atuação profissional por mais de 45 anos na UPF. A maior parte do depoimento, contudo, é dedicada a questões relacionadas à sua formação e atuação profissional em estreita convivência com Elli Benincá.

No texto Experiência na formação de pedagogia curso de férias na UPF – o legado de Elli Benincá no modo de fazer a docência, Sueli Salva reflete sobre a oportunidade formativa que transformou radicalmente seu percurso de vida intelectual, cultural e pessoal. A autora resgata e reflete sobre seu ingresso no Curso de Férias, na Faed/UPF, a partir do ano de 1981. Destaca as aprendizagens decorrentes da presença do Padre e Professor Elli Benincá, na sua atuação no ensino, na pesquisa e na extensão, bem como no exercício constante de escrita, seja de forma mais espontânea em momentos de registros de eventos, fatos, acontecimentos, vivências, seja como exercício de pensamento. São narrativas de experiência e de existência possíveis, construídas por uma mulher professora, decorrente da formação e influência do Mestre Elli Benincá. 

Em Lembranças do curso de Pedagogia em Regime de Férias da UPF: narrativas como experiência de reflexão/autoformação, Neusa M. Roveda Stimamiglio aborda o curso de Pedagogia – Séries Iniciais da UPF, na década de 1980, considerando que este foi um divisor de águas em sua vida pessoal e profissional, possibilitando-lhe uma reflexão ampla sobre os aspectos sociopolíticos e econômico-culturais envolvidos na Educação.

 Dentro deste projeto coletivo que registra as variadas experiências e trajetórias de profissionais que estiveram em contato com o Professor Elli Benincá, nos mais diversos espaços de formação e atuação, rememora as lembranças do Curso, focando particularmente a presença, influência e práxis dialógica benincaniana, que denotam a contribuição do Elli na sua vida pessoal e profissional e na sua condição de pesquisadora. Reforça também a importância do resgate da memória e de seu registro, por meio da escrita, como processo de reflexão e autoformação.

Com professor Angelo e Padre Elli.

Com Lições benincanianas ancoradas na práxis dialógica: Um antídoto à pedagogia da constrição, Lucídio Bianchetti destaca dois aspectos constitutivos da práxis dialógica benincaniana: a sala de aula como um espaço sagrado e a escrita como estratégia qualificada para a instauração dessa práxis. Particularmente este último aspecto ganha uma importante dimensão em um momento em que predominam escritas telegráficas, superficiais, fugazes, via meios digitais, constituindo-se em uma “pedagogia da constrição”, em flagrante oposição à pedagogia proposta e exercitada pelo Elli. O texto resulta de sua intervenção no Seminário organizado pelo Núcleo de Pesquisas em Filosofia e Educação (NUPEFE) do PPGEdu/UPF/RS, em 30 de abril de 2021, como parte de atividade voltada ao resgate da “Herança pastoral e pedagógica” do Elli Benincá. Na retomada do texto foi mantido o tom coloquial, de exposição e foram agregadas algumas notas e referências.

Angela Trombini Scartezini com o texto: A memória de aula como exercício formativo e práxis pedagógica, resultante de sua dissertação de mestrado, parte do pressuposto de que existe uma grande diferença entre aprender e estudar, reflete sobre os exercícios formativos da práxis dialógica benincaniana enquanto forma de vida, tendo a figura do mestre/professor entendido como um estudioso entre estudantes.

A questão central está em pensar como podemos reivindicar novamente a escrita da memória como exercício autoformativo e fonte de pesquisa em um contexto dominado pelo discurso da aprendizagem com predomínio da tecnologia. A pesquisa realizada indicou que os exercícios formativos da práxis dialógica benincaniana – a escuta, o diálogo e a escrita da memória de aula – tornam-se um importante antídoto formativo e pedagógico, constituindo-se em um permanente desafio a ser enfrentado na educação, uma vez que os fatores mobilizadores da ação pedagógica e o destino da educação na sociedade atual estão em jogo.

No ensaio Palavra, diálogo e formação humana: por uma pedagogia da humildade dialógica, Claudio Almir Dalbosco, Elaine Hanel, Elcio Alcione Cordeiro e Rodinei Balbinot se desafiam a realizar “uma viagem através da palavra”, colocando-se a caminho com alguns viajantes já experimentados, quais sejam, Agostinho (354 – 430), Fiori (1914 – 1985), Freire (1921 – 1997) e Benincá (1936 – 2020), tendo por norte investigativo a seguinte indagação: Que caminhos para a formação humana essa viagem nos fará ver em uma paisagem já agredida pela mercantilização (financeirização) da educação e acidentada pelo retorno da barbárie disfarçada de civilização? A hipótese dos autores é que esses clássicos viajam juntos, através da palavra, e que o que se experimenta durante o percurso, num processo paciente do movimento dialético da escuta-pergunta-resposta-pergunta, é uma pedagogia da humildade dialógica.

Dario Fiorentini, com seu texto Reverberações da Pedagogia Benincaniana na problematização e investigação colaborativa entre universidade & escola explicita contribuições e reverberações da pedagogia benincaniana em sua trajetória profissional e científica, tendo como foco central de estudo o professor, seu trabalho e sua aprendizagem profissional em comunidades investigativas e colaborativas entre universidade e escola. Isso é feito por meio da análise narrativa de experiências de aprendizagem, de investigação e de teorização do próprio autor em dialógico com alguns estudos internacionais que se aproximam da práxis benincaniana. Pretende, assim, contribuir para o debate e a compreensão da episteme e da metodologia da práxis benincaniana, ampliando e agregando outras possibilidades de exploração, significação e investigação acerca da formação do professor e de sua prática docente sob uma perspectiva crítica e emancipatória.

No texto A Práxis dialógica benincaniana: da teoria e da prática pedagógica, Jerônimo Sartori ressalta que a práxis na perspectiva benincaniana fundamenta-se na ação educativa dialógica, a qual se estabelece na relação entre a teoria e a prática pedagógica.

O autor ressalta que a práxis abordada tem suas raízes no trabalho de docente e de pesquisador de Benincá, que em sua trajetória no campo da educação empenhou esforços para entender qual a orientação teórica que embasa a prática pedagógica dos professores. A teoria benincaniana olhada a partir da escola e da sala de aula emerge de um ato político e ético, compromissado com a observação, o registro e a reflexão crítica acerca de práticas pedagógicas de professores e de seus posicionamentos teórico-metodológicos, bem como das concepções que se entrecruzam no ato de ensinar e de aprender, e dos modos de teorizar a própria prática. Ressalta o autor que a metodologia de estudos adotada e orientada por Benincá no grupo de pesquisa: Teoria e prática pedagógica, permitiu-lhe adentrar em diferentes possibilidades para produzir conhecimentos, tomando a sala de aula como “laboratório experimental” para a potencializar o diálogo em prol da teorização da própria prática pedagógica.

No texto A práxis dialógica benincaniana na construção do Projeto Político Pedagógico (PPP) na Escola Menino Jesus, Altair Alberto Fávero, Claudia Toldo Oudeste e Elci Favaretto tematizam e rememoram a presença da práxis dialógica benincaniana na construção do Projeto Político Pedagógico (1994/1995) na Escola Notre Dame Menino Jesus/Passo Fundo. O objetivo do texto é mostrar de que forma a assessoria realizada pelo professor Elli Benincá, na elaboração do referido Projeto, evidencia os princípios de uma práxis dialógica. Para a elaboração do texto, além dos escritos de Benincá, os autores utilizaram os registros dos integrantes da equipe pedagógica que participou do referido processo e as recordações dos participantes. Na percepção dos autores, nas ações de assessoria prestadas pelo professor Benincá, materializam-se os seguintes princípios dialógicos: escuta, registro, reflexão, estudo compartilhado, trabalho coletivo, tempo de convivência, sentimento de pertencimento, compromisso e confiança na potencialidade do grupo.

Partindo da questão: Por que eles (elas) não falam? Proposições pedagógicas no enfrentamento da cultura do silêncio Elisa Mainardi e de Eldon Henrique Mühl reexaminam uma experiência vivenciada em meados dos anos de 1990, por ocasião do acompanhamento de Elli Benincá a um projeto assessorado pelo Centro Regional de Educação (CRE) da UPF em uma instituição de assistência social, envolvendo gestores, funcionários e monitores que atendiam crianças e adolescentes no contraturno do período escolar. Isso ocorria em núcleos localizados em diversos bairros periféricos da cidade de Passo Fundo, com o intuito de promover a discussão e a elaboração do Plano Político Pedagógico, de forma participativa e colaborativa, tendo por referência os estudos de Benincá. A proposição do projeto foi uma iniciativa oriunda do estágio supervisionado do Curso de Pedagogia. Os autores buscam destacar algumas nuances do processo vivenciado, especialmente as contribuições de Elli Benincá na compreensão e reflexão acerca dos conflitos pedagógicos e encaminhamentos metodológicos adotados no decorrer deste processo.

Com o texto Docência e formação humana: sobre formar(-se) na práxis pedagógica, Elcio Cordeiro, Rudinei Balbinot e Altair Alberto Fávero analisam a docência universitária e todo o complexo de sujeitos como personagens vivas, formando-se humana e profissionalmente na busca do bem comum, indicando que a área da educação se amplia na trama da organização social e política.

Para os autores, é possível analisar a docência universitária como espaço de estudo e projetar nesta arquitetônica, vias que possibilitam, na práxis pedagógica, a metamorfose da educação universitária e a formação humana. Nesse sentido, trabalham com a hipótese de que a práxis pedagógica universitária, antes de ser uma ação de capacitação e treino profissional é um espaço-tempo de autorreflexão e autoformação, onde se forja tanto na vida como na profissão, em diálogo com a tradição. Refletir a própria prática é a virada de chave para um docente comprometido com o quefazer formativo e de que existem muitas maneiras de aperfeiçoar a práxis docente, uma delas, pode ser a práxis dialógica, como propõe o pedagogo, filósofo, teólogo e professor Elli Benincá.

Em Trajetórias formativas e aprendizagem docente: o transformador encontro entre professoras e um mestre, Flávia Eloisa Caimi e Rosane Rigo de Marco revisitam a trajetória de formação docente de um grupo de professoras da educação básica e do ensino superior que, no diálogo amoroso e rigoroso entre si e com o Professor Elli Benincá, tomaram o cotidiano escolar/acadêmico como ponto de partida da prática pedagógica, transitando por diferentes e necessários campos teóricos e metodológicos que lhes facultassem um olhar reflexivo e um fazer humanizador/transformador da docência.

O capítulo intitulado Pesquisar e formar-se colaborativamente: pistas para desenvolvimento de uma formação contínua, José Jackson Reis dos Santos e Lorita Maria Weschenfelder, refletem sobre a construção e o desenvolvimento de processos formacionais, tendo como principal referência a abordagem colaborativa, mobilizada, sobretudo, com base no pensamento de Elli Benincá (1936-2020) e Paulo Freire (1921-1997). Santos e Weschenfelder abordam a colaboração entendida como práxis pedagógica e argumentam a favor de uma formação contínua implicada com as realidades sociais e educacionais, numa perspectiva crítica e emancipatória. Convocam os(as) leitores(as) a um processo de reconstrução dos modos de pensar-fazer pesquisa científica, problematizando e situando caminhos outros na construção do conhecimento.

Que em 2026 e nas próximas décadas possamos avançar, com coragem e determinação, na continuidade do legado de Elli Benincá, este grande mestre inspirador que nos presenteou com uma forma peculiar de tratar a formação humanizadora por meio da pedagogia da práxis dialógica benincania. Reforço o convite do lançamento da obra no dia 20 de março de 2026, às 14 horas, de forma presencial e transmitido pelo canal do youtube   do Gepes, no auditório do PPGEdu da UPF.

Referências:

FÁVERO, Altair Alberto; BIANCHETTI, Lucídio. Práxis dialógica benincaniana: memórias e experiências formativas. Passo Fundo: Editora UPF, 2025. Link de acesso gratuito: https://www.researchgate.net/publication/395830499_Praxis_dialogica_benincaniana_memorias_e_experiencias_formativas

Autor: Altair Alberto Fáveroaltairfavero@gmail.com Curso de Filosofia, Mestrado e Doutorado da UPF. Também escreveu e publicou no site “Razões e desafios para não desistir da docência”: www.neipies.com/razoes-e-desafios-para-nao-desistir-da-docencia/

Edição: A. R.

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