A vida não é medida só pelos anos que alcançamos, mas principalmente pela intensidade com que vivemos.
A morte não é uma hipótese, uma condição ou uma possibilidade. Ela é uma certeza. Disso, todos sabemos. E sabemos também que ela está permanentemente acontecendo em nós, nos outros e em todos os seres vivos. Dela ninguém foge. Nós, humanos, e a natureza como um todo, estamos em constante mutação. Morremos um pouco por dia até o dia em que morremos completamente. Mas, enquanto vivemos, alimentamos de diferentes modos o desejo, a esperança e a certeza que advém pela fé, de uma vida eterna, em paz e feliz na esfera divina.
Aproximando-se do dia de finados, estava com essas reflexões em giro pela minha cabeça. Foi ao tempo em que me dirigia para cortar o cabelo. Chegou a minha vez. Sentei na cadeira e, de repente, o barbeiro formulou a seguinte questão: “Sabe por que Jesus morreu de braços abertos”? Achei interessante a coincidência com o assunto que eu vinha refletindo. Sem demorar muito, ele veio com a sugestiva explicação: “Foi para nos ensinar que ninguém deve viver de braços cruzados”. Aí pensei: Se for para morrer, então que seja de braços abertos; assim como deve ser o jeito de viver!
Viver de braços cruzados é uma atitude que pode demonstrar omissão, indiferença diante do sofrimento dos outros, acomodação e falta de compromisso com a vida, com a solidariedade, com a justiça social e o bem comum. Viver de braços abertos é adotar uma postura de receptividade, acolhimento e otimismo diante das pessoas e dos desafios do mundo. Quem vive dessa maneira, descobre que uma vida plena é aquela capaz de se colocar no lugar do outro para sentir as suas dores e alegrias. Significa estar pronto para abraçar o próximo em suas necessidades. Se a vida for vivida assim, a morte também vale a pena.

A vida não é medida só pelos anos que alcançamos, mas principalmente pela intensidade com que vivemos. Aceitar a finitude é a maior libertação possível; é um convite a viver sem armaduras, sem medo e com entrega total. Por que ficar de braços cruzados, temendo o fim, se podemos transformar cada dia da vida em uma celebração? De braços abertos, recebemos a vida com todas as suas surpresas, alegres e tristes. É um posicionamento de vulnerabilidade, sim, mas é nessa abertura que a vida nos toca verdadeiramente.
Às vezes, viver dói.
E dói profundamente porque a existência é um atrito constante entre o que desejamos e a realidade, muitas vezes cruel, que nos impõe perdas, frustrações e a consciência da nossa limitação e dos dias que vão se consumindo. Essa dor não é um erro do percurso, mas um componente intrínseco de estar vivo, manifestando-se no peito que aperta. É desdobramento das despedidas necessárias e da exaustão de tentar, diariamente, equilibrar a nossa luz interior com trevas que nos acompanham.
A vida é, em grande parte, a arte de gerir a própria finitude com remédios que, muitas vezes, tem um efeito breve. Contudo, seu objetivo maior consiste em cultivar a esperança na semente que transcende, aquela que se transforma e triunfa sobre a morte. A existência humana se alterna entre a beleza e a dor, entre a esperança e o temor. Mas, não podemos permitir que ela seja tomada pelo medo total, porquanto a vida deixa de ser uma graça para ser um pesadelo. É por isso que a sabedoria popular nos convida ao bem viver consigo, com os outros, com o universo e com Deus.
Em que consiste, de fato, a plenitude dessa vida?
Viver plenamente significa abraçar a existência de forma consciente, cultivando sonhos, alimentando esperanças, expressando gratidão e equilíbrio emocional, mesmo diante de dificuldades, traumas e desafios. Não se trata de ignorar os problemas, mas sim de estar presente, nutrir relacionamentos, cuidar da saúde e agir alinhados aos valores éticos e humanos para encontrar significado nas pequenas coisas.
Viver plenamente requer esforço diário para superar a cultura do ódio, da intolerância, da prepotência e da violência, substituindo-as pela prática constante da empatia, da escuta ativa, do diálogo, do afeto, do respeito, da compaixão e do amor fraterno.
Morrer de braços abertos é chegar ao fim da existência sem arrependimentos, com a sensação de ter vivido plenamente. É ter amado, lutado, sorrido, servido e se permitido ser vulnerável, sabendo que tudo o que construímos é a única eternidade que nos pertence. Portanto, que o medo da morte não nos impeça de viver. Que possamos, hoje e sempre, caminhar com o peito escancarado, prontos para a vida e, quando chegar a hora, prontos para o adeus, abraçando o incerto com a serenidade de quem soube aproveitar o presente.
Autor: Dirceu Benincá. Professor da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e do mestrado em Ciências e Sustentabilidade da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). Autor do livro “Terra Sem Males dos Males da Terra”. Também escreveu e publicou no site “O frio que não suportamos nos outros”: www.neipies.com/o-frio-que-nao-suportamos-nos-outros/
Edição: A. R.











