O frio que não suportamos nos outros

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O frio que não suportamos ver os outros sofrerem é sinal da existência de nossa reserva técnica de humanidade. Só é solidário quem é verdadeiramente humano.

O poeta Manuel Bandeira viu uma realidade que o inquietou. Dono de uma poesia crítica, em linguagem simples, cotidiana e profunda, escreveu.

“Vi ontem um bicho/ na imundície do pátio / catando comida entre os detritos. / Quando achava alguma coisa, / não examinava nem cheirava: / Engolia com voracidade. / O bicho não era um cão, / não era um gato, / não era um rato. / O bicho, meu Deus, era um homem.”

A denúncia poética foi registrada por Bandeira ainda em 27 de dezembro de 1947. Ocorre que ele não apenas enxergou o fato. Ele o viu. E há uma diferença fundamental nisso, pois enxergar é aptidão biológica, enquanto que ver é uma atitude política, ética, sensível.

Por esses dias também vi um homem deitado na calçada. Fazia frio, com previsão de esfriar mais. Todos passavam, mas ninguém se importava com ele. Estavam ocupados com seus afazeres.

Eis que uma mulher o viu, se comoveu, mas, ao mesmo tempo, sentiu medo. Quem será? Por que estará aí desse jeito? O que fazer? Ou nada fazer como todos, revestindo-se de frieza? As inquietações se acumulavam. São elas que podem nos levar à ação primeira e mais fundamental, qual seja:  aproximar-se de quem consideramos como próximo não apenas por proximidade física, mas por vínculo humano.

Os moradores e moradoras em situação de rua são nossos próximos. Eles não só sentem frio e fome. Também sentem solidão, tristeza, abandono. Enquanto comia um pão e tomava o café que lhe foi oferecido, o homem da calçada disse-me que ali estava porque tinha perdido o amor à vida e se sentia só.

O que fazer para não perder o amor à vida? O que é possível ser feito para recuperar a vontade de viver e conviver? Como agir em relação a si e aos outros sobre questões como essas? As perguntas que emergem de realidades sofridas não requerem respostas apenas teóricas. Elas nos convocam para ações concretas.  

O frio que não suportamos ver os outros sofrerem é sinal da existência de nossa reserva técnica de humanidade. Só é solidário quem é verdadeiramente humano. Não há como ser profundamente solidário sem colocar-se no lugar do outro, daquele que necessita, sem preconceitos e sem juízos condenatórios.

Por outro lado, há um frio que pode estar em nós, mesmo no contexto do aquecimento global. Um frio de outra natureza: da indiferença, da insensibilidade diante da dor, da fome, dos problemas dos outros. Essa frieza humana só pode ser combatida com acolhida, empatia e amor fraterno.

As campanhas por doação de agasalhos na cidade, no estado e por outros estados onde faz frio estão em pleno andamento. São muito necessárias. E nos fazem pensar sobre a importância da solidariedade. Mas, não só. Também da reflexão mais ampla.

Saber agir diante das mudanças climáticas e diante das permanências das desigualdades, da fome, do frio, da perda do sentido da vida, dos sofrimentos ocasionados pelas mais diferentes situações é um dos grandes desafios do nosso tempo. Não vamos permitir que o frio do clima se instale em nossas mentalidades, em nossos comportamentos e relacionamentos.

De acordo com o Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População da Situação de Rua da UFMG, o Brasil possui cerca de 388 mil pessoas vivendo em situação de rua.

Os dados são obtidos a partir da atualização do CadÚnico, instrumento do governo federal e que é utilizado por todas as cidades brasileiras para o registro dessas populações e o acesso às políticas sociais. Os números são sempre imprecisos, dada a inexistência de um censo da população em situação de rua e também pela mobilidade e alteração contínua das pessoas nessa condição.

Para além dos casos particulares e do número total, bem como das causas que levam muitas pessoas a viverem em situações de rua, existem diversas atitudes possíveis e importantes. A primeira é despir-se de preconceitos. Associar a isso a promoção da cidadania, o fortalecimento de políticas públicas de acolhida, escuta ativa, assistência social, psicológica, espiritual, de saúde física e mental. Também o apoio e a contribuição às pessoas e instituições que já vêm realizando esse trabalho. Orientar a buscar ajuda nos Centros de Referência Especializado de Assistência Social (CRAS) e nas unidades públicas de atendimento como os albergues e Centro POP.

Permanecer na rua não é crime. Afinal, a rua é de todos; a cidade é pública. Porém, a falta de opção de não permanecer na rua é que deve nos fazer refletir e agir enquanto humanos e cidadãos.

Tudo o que pudermos fazer além da indiferença já é importante. Mas, o mais importante é ver e não apenas enxergar. Dar uma palavra de encorajamento antes que uma de apedrejamento. Estender a mão antes que virar as costas. Em tudo, a sensibilidade, o calor humano e a solidariedade ainda são a melhor medida para enfrentar as friezas da vida!

Autor: Dirceu Benincá. Professor da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e do mestrado em Ciências e Sustentabilidade da Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB). Autor do livro “Terra Sem Males dos Males da Terra”. Também escreveu e publicou no site “Emergências climáticas e migrações forçadas”: www.neipies.com/emergencias-climaticas-e-migracoes-forcadas/

Edição: A. R.

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