Saudade é uma casa que continua acesa

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Para minha mãe Maria.

A casa ainda existe —

mas não do jeito que a gente lembra.

As paredes perderam o barulho,

e o riso virou eco.

Saudade é isso:

uma festa que terminou

mas ninguém teve coragem de apagar a luz.

Josué (O velho Guimarães) entenderia

esse jeito meio quieto de sofrer

sem fazer escândalo.

Porque não é dor que grita —

é ausência que se acomoda.

Lembro das mesas cheias,

das conversas atravessadas,

do caos organizado de estar junto.

Hoje, o silêncio tem mais espaço que os móveis.

E é curioso —

(ou cruel, depende do dia) —

como os momentos felizes

crescem depois que acabam.

Ficam maiores, mais bonitos, mais vivos —

como se a memória fosse uma artista exagerada.

E eu deixo.

Deixo porque preciso.

Deixo porque é o que resta.

Carrego essas cenas

como quem carrega um pouco de casa no bolso.

E às vezes — só às vezes —

a saudade não dói.

Ela só senta ao lado

e fica.

Como quem ainda pertence.

Para minha mãe Maria.

Autor: Claiton Manfro. Terapeuta e com vasta experiência em teatro. Estreia com esta poesia sua primeira publicação no site. Bem-vindo!

Edição: A. R.

3 COMENTÁRIOS

  1. Lindo!
    …como os momentos felizes crescem depois que acabam. Genial.
    O poema é todo lindo!

    Abs

  2. O autor Claiton Manfro é cientista político, terapeuta, pesquisador e diretor de teatro, produtor cultural e consultor em gestão.

  3. Claiton Manfro é amigo de longa data, com múltiplas trajetórias seja na educação popular, no teatro, na política e, mais recentemente, trabalhando com terapias. Tê-lo como Convidado no site é uma honra! Bem-vindo!

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