É urgente recuperar a cultura do diálogo. Escutar e falar com respeito são atitudes que reconhecem a dignidade do outro e contribuem para a construção de uma sociedade democrática, fraterna e aberta ao aprendizado mútuo.
Em um contexto social marcado por polarizações e pela dificuldade de ouvir opiniões divergentes, o diálogo torna-se uma estratégia indispensável para a convivência humana. Tanto a experiência sinodal da Igreja Católica quanto a teoria da ação comunicativa de Jürgen Habermas, expoente da segunda geração da Escola de Frankfurt, falecido recentemente destacam a importância da escuta e da palavra pronunciada como meios para a construção de consensos e para o fortalecimento das relações humanas.
Sabe-se da importância do diálogo como meio que facilita a convivência humana e o entendimento para administração das instituições com diferentes objetivos.
Neste sentido, filósofos e pedagogos, com destaque a Jürgen Habermas, centraram suas teorias em torno do agir comunicativo, alicerçado na palavra como meio de gerenciamento da convivência humana e de tomadas de decisões concernentes a um bem maior.
Antecedendo aos tantos estudiosos que se debruçaram sobre o papel do diálogo, Sócrates, considerado o pai da pedagogia ocidental, é também reconhecido como um dos grandes mestres do diálogo. Ao longo de sua vida, dedicou-se a esta temática atribuindo ao diálogo três importantes dimensões: escuta, pergunta e resposta. Nestas três dimensões encontramos o núcleo de uma pedagogia crítica e formadora.
Por isso, continua atual a necessidade de nos perguntarmos: O que significa perguntar? E o que significa responder? O entrelaçamento entre escuta, pergunta e resposta dá vida ao diálogo, tornando possível a comunicação educativa entre pais e filhos, professores e alunos e, em síntese, entre todos os seres humanos.

A palavra diálogo tem origem na língua grega: diá, que significa através de ou por intermédio de, e logos, que significa palavra ou discurso. Então, diálogo significa caminho da palavra ou através da palavra. O uso da palavra implica a pronúncia e a abertura ao interlocutor, com equilíbrio entre as duas ações.
A comunicação acontece pela capacidade humana de exercitar a fala inteligível ou compreensível e a escuta atenta do que o interlocutor tem a dizer. Todavia, em alguns momentos e dependendo da situação, o peso pode estar em uma ou outra dimensão, mas nunca de forma muito desequilibrada.
Nesta linha de pensamento está em vigor um processo da Igreja Católica denominado “Sínodo da Igreja Católica” que sugere o diálogo como fonte de entendimento entre sujeitos e do anúncio do Evangelho de Jesus Cristo. Neste processo, dá-se grande ênfase à necessidade da escuta como recurso metodológico. Ou seja, afirma-se a urgência do diálogo fundamentado na escuta, sua pedra angular
Vivemos tempos de negação do diálogo ou de vigência da opção pelo “não diálogo” como estratégia de relacionamento humano. No caso, ganha força somente a pronúncia de uma só via, “exercitando a capacidade” de não ouvir o outro ou de não se interessar pela manifestação ou opinião do outro.
A via do não diálogo que se dissemina na sociedade. Configura-se na renúncia à atenção e à possível transformação que ela pode trazer. Está disseminada nas relações intersubjetivas e pode estar nas diferentes instituições sociais.
É uma estratégia de conduta humana pelas supostas vantagens aferidas. A atitude de não diálogo, de apenas falar e não escutar o outro, especialmente quando ele sugere um pensamento diferente expresso via pronúncia, permite que o sujeito sustente e garanta a sua opinião e a tenha como verdadeira e única. Continuará expressando a sua pretensão de verdade desconhecendo os interlocutores e suas pretensões.
O caminho da palavra, neste caso, reduz-se a uma só via, a daquele que se manifesta. Tem como consequência um grande empobrecimento na relação, especialmente porque o diálogo, a troca de palavras é também um caminho de troca de experiências e saberes. Não ouvindo o outro, a pessoa priva-se da possibilidade de acessar um saber diferente, porque sente-se ameaçada por este outro saber.
Pe. Elli Benincá, defensor do diálogo nos processos educativos, assegura a importância da liberdade de pronunciar-se e da humildade de escutar. Compreende que a essência do diálogo está na atitude de pronunciar-se e acolher a fala do outro. O pronunciar-se da pessoa revela o seu ser. A pronúncia sem que a pessoa dê oportunidade para o outro manifestar-se revela um ser fechado à interação e ao crescimento proporcionado pela troca de saberes.
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A proposta sinodal da Igreja aproxima-se da compreensão de Habermas ao valorizar a participação, a fala e, sobretudo, a escuta como meios para a construção de consensos e busca compartilhada da verdade.
Habermas, afirma e reafirma em sua vasta obra, que pela comunicação se dá a interação dos sujeitos dialogantes, capazes de falar e agir. Eles estabelecem relações interpessoais com o objetivo de alcançar uma compreensão consensual sobre a situação em que vivem. Neste processo ambos apresentam pretensões de verdade sobre os fatos da vida, todavia abertos ao convencimento sobre a pretensão do outro.
O sujeito compreende: “posso convencer ou ser convencido” pelo processo dialogal e vai pesar o melhor argumento em vista do bem maior.
A recusa em ouvir o outro impede que o sujeito acesse o caminho do crescimento que vem do diálogo, que se instala pela escuta e por pronúncias racionais. Infelizmente, a sociedade está marcada pela opção de não dialogar ou apenas pronunciar-se, sem dar atenção ao outro, rejeitando-lhe o direito de manifestar-se. Esta opção empobrece a sociedade e os relacionamentos humanos prendendo os envolvidos em um caminho aparentemente seguro, porém limitado e frágil, o caminho da ignorância relacional.
Diante desse cenário, é urgente recuperar a cultura do diálogo. Escutar e falar com respeito são atitudes que reconhecem a dignidade do outro e contribuem para a construção de uma sociedade democrática, fraterna e aberta ao aprendizado mútuo.
Assim, é imperioso que possamos retomar a esteira do diálogo que se viabiliza pelo vaivém da escuta e da palavra respeitosa, fortalecendo, assim, os relacionamentos humanos, contributos para a construção de uma sociedade mais saudável.
Autor: Pe. Ari Antonio dos Reis. Professor da Itepa Faculdades. Também escreveu e publicou no site “A cultura do encontro”: www.neipies.com/a-cultura-do-encontro/
Miguel Arcanjo Tibola
Acadêmico do curso de Bacharelado em Teologia
Edição: A. R.









