Bernard Charlot: uma luz em tempos de barbárie

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As suas palavras são certeiras e convidativas que dispensam comentários. Que Charlot continue sendo uma luz em tempos de barbárie.

Foi com um sentimento de perda que nesta semana recebemos a notícia do falecimento de Bernard Charlot (1944-2025). Perdes um amigo, uma referência intelectual de primeira grandeza, um pesquisador ímpar para o campo da educação e das áreas afins, um pensador entusiasmado pela vida, pelo conhecimento, pela luta em prol de um mundo mais digno solidário, inclusivo e menos desigual. Tive a oportunidade de escutar Charlot em diversas ocasiões. Em todas delas, sempre a lucidez, uma fala firme e consistente, um olhar sensível sobre as problemáticas da educação e do conhecimento.

Conheço os escritos de Charlot de longa data. Ainda no período da graduação, por orientação do professor Jaime Giolo, li pela primeira vez Mistificação Pedagógica (Charlot, 2013). Depois assisti sua conferência em um evento promovido pela UPF, passei a gostar ainda mais dos seus textos.

Descobri a potência do seu pensamento nos textos que compõe sua teoria sobre a relação com o Saber: Da relação com o saber e às Práticas Educativas (Charlot, 2002), Relação com o saber, formação de professores e Globalização (Charlot, 2005), Os jovens e o saber: perspectivas mundiais (Charlot, 2001), Da relação com o saber: elementos para uma teoria (Charlot, 2008), dentre outros. Mais recentemente Educação ou Barbárie? uma escolha para a educação contemporânea (2020). Foi este último livro que me ganhou por completo e é dele que tiro a ideia expressada no título de que Charlot representa uma luz em tempos de barbárie. Na sequência, retomo os apontamentos do prefácio (Fávero, 2023) da coletânea A obra de Bernad Charlot por seus intérpretes (Cavalcanti; Rego, 2023).

Bernard Charlot certamente é um dos grandes intelectuais contemporâneos que nos ajuda a pensar não somente a pedagogia em suas múltiplas faces, mas a pesquisa em e na educação, a sala de aula, a mistificação pedagógica, as estruturas sociais, os sujeitos da educação, as práticas e desafios docentes, a relação com o saber, a globalização, a sociologia da educação, a etnografia da escola, o fracasso escolar, a violência na escola, a exclusão escolar, as contradições do trabalho docente, as antropologias do discurso pedagógico e tantos outros temas e problemas que perpassam seus inúmeros escritos publicados em artigos, capítulos de livros, entrevistas, livros autorais, relatórios, vídeos, sites e tantos veículos de informação.

Conforme nos relata Giolo (2011) numa valiosa síntese publicada num dos volumes da Coleção Pedagogia Contemporânea, das editoras Segmento e Vozes, dedicado a analisar as diversas matrizes da sociologia da educação, Charlot é parisiense de nascimento (nasceu em 15 de setembro de 1944), graduado em Filosofia em 1967, período em que realizou pesquisas no campo da epistemologia, sob a orientação de Georges Canguilhem e obteve seu título de doutorado pela Universidade de Paris 10 com a tese “Sobre a relação com o Saber” em 1985. Em 1969, como alternativa à prestação do serviço militar, Charlot optou por realizar um trabalho docente na Universidade de Túnis, na Tunísia. Giolo (2011) menciona que, segundo depoimento dado por Charlot numa entrevista na Revista Espaço Pedagógico da Universidade de Passo Fundo (vol. 10, n. 2, 2003, jul.-dez.), a sala de aula foi seu grande desafio intelectual.

Quando chegou na Universidade de Túnis e deparou-se com uma turma de alunos que já eram professores, sentiu o chão abrir-se diante de seus pés. Em suas palavras: “Nunca tinha ensinado. Nunca tinha estudado pedagogia”. A constatação deste problema transformou-se rapidamente numa mobilização em direção à pesquisa educacional, resultando num processo intenso de estudo compartilhado com os próprios alunos, relacionando elementos teóricos com as experiências dos seus estudantes. Desse processo de confrontação entre teoria e prática, Charlot constatou “um nó difícil de desatar (nó ainda presente para quem educa e aprende): a defasagem entre o discurso pedagógico e a realidade social” (Giolo, 2011, p. 31).

No retorno à França em 1973, ao assumir a disciplina de psicopedagogia na École Normale, onde ocupou-se com a formação de professores especializados em alunos em situação de fracasso escolar, Charlot constatou o mesmo problema encontrado no trabalho realizado na Universidade de Túnis, o qual se misturava com outros problemas tais como “o fracasso escolar e a dominação de classe” (Giolo, 2011, p.32). O estudo dessa problemática leva Charlot a publicar diversos artigos no início da década de 1970, e se dedicar, de forma mais sistemática, ao trabalho de produção do livro Mistificação pedagógica: realidades sociais e processos ideológicos na teoria da educação (Charlot, 2013). Esta importante obra, traduzida para o português em 1979, se soma a outros estudiosos franceses da época (George Snyders, Pierre Bourdieu, Roger Establet, Christian Baudelot, dentre outros), os quais realizam uma ampla e radical análise crítica do pensamento pedagógico e da função do aparelho escolar.

Conforme ressalta Giolo (2011, p. 34, Mistificação pedagógica “procura mostrar como o discurso pedagógico é mistificador na medida em que, ao falar de tudo sobre a educação esconde que sua referência fundamental é o mundo social e, especialmente, o mundo do trabalho”.

O livro, em largos traços, mostra que a educação é política e, portanto, não é neutra, pois é um ato político que se efetiva, na interpretação de Giolo (2011), em quatro sentidos:

a) “transmite modelos sociais que são diferentes para cada grupo social”;

b) “forma a personalidade com base em normas e valores presentes na própria estrutura social”;

c) “difunde ideais políticas com as quais a classe dominante consegue fazer passar como legítimos os seus ideais de vida social”;

d) “a educação é encargo da escola que é, como tantas outras, uma instituição social que se move no campo das regras gerais da sociedade” (Giolo, 2011, p.34).

A mistificação pedagógica consiste justamente na redução do social ao individual, ou seja, no processo de retirar os estudantes das contradições e conflitos do cotidiano e inseri-los num ambiente cultural, abstrato, puramente abstrato, protegido do mundo. Trata-se, portanto, para usar uma expressão de Jean Chateau, de um “desvio educativo” que consiste em dar as costas ao mundo, para depois, melhor servi-lo, ou seja, “o indivíduo é a realidade fundante da vida social” (Giolo, 2011, p.34).

Com propostas para uma pedagogia social, Charlot contrapõe-se ao “desvio educativo”, pois para ele é fundamental que ocorra uma mediação entre o mundo real da criança e o mundo social, ou seja, a cultura é antes de tudo uma prática de socialização e formação da personalidade social das novas gerações.

Nesse sentido, a luta coletiva na escola deve ser contra a lógica de funcionamento da estrutura social para evitar o fracasso escolar programado que se materializa quando as classes populares são mantidas num nível muito baixo de apropriação da cultura e do conhecimento historicamente elaborado. Isso não significa que não possa haver êxitos paradoxais ou fracassos paradoxais, pois “o sujeito é um ser de desejo e como tal interpreta o mundo, busca um sentido, age” (GIOLO, 2011, p.37). É este desejo e sentido que produz “mobilização”, esforço, envolvimento e atitude na realização de toda e qualquer atividade. Conforme ressalta Giolo (2009, p.20), Charlot prefere o conceito de “mobilização” ao conceito de “motivação”, pois o primeiro “tem a ver com uma atitude interna do sujeito, assentada em expectativas próprias e em desejos”, enquanto que “motivação define-se, preferencialmente, como uma ação externa”.

A “teoria da relação com o saber”, segundo a interpretação de Giolo (2011, p. 40) é “a menina dos olhos de Charlot” da qual é possível definir alguns elementos importantes:

1) “o ser humano nasce inacabado e, portanto, aprender é uma atividade central da espécie humana”, ou seja, o ser humano não nasce pronto, mas traz consigo potencialidades múltiplas que podem ser desenvolvidas por meio da educação;

2) “a humanidade não é uma essência individual”, mas é resultante de processos históricos e culturais elaborados pela humanidade e que a educação possibilita a apropriação do patrimônio humano da espécie (humanização), pelo ingresso numa cultura (socialização) e pela construção do eu (singularização);

3) “a relação com o saber é sempre, também, uma relação com o mundo, com os outros e consigo mesmo”, ou seja, a relação com o saber não se limita a uma dimensão cognitiva, pois é também incorpora elementos dos contextos, das convivências e das experiências singulares e/ou coletivas;

4) “há várias formas de aprender”, também chamadas de “figuras do aprender”, tendo em vista que o resultado deste processo se traduz em saberes, conceitos, enunciados, comportamentos, atitudes, ações e práticas;

5) “aprendem-se na escola coisas que não podem ser aprendidas em outros lugares”, e por isso a escola é importante e fundamental principalmente para as camadas menos favorecidas que pode significar profundas e radicais transformações das subjetividades;

6) “a transformação da escola passa por superar o desafio de criar as condições para que os alunos”, de modo espacial das classes menos favorecidas, daqueles que não teriam condições de ter acesso ao saber historicamente elaborado se não fosse a escola pública; estes, na maioria das vezes, operam com uma lógica distinta da lógica da escola, e por isso é necessário oportunizar condições para que “construam uma relação com o saber escolar de forma a se mobilizarem para aprender”.

Os aspectos rapidamente apresentados de forma resumida abstraídos dos distintos escritos de Charlot, indicam os desafios contemporâneos da educação.

Dito em forma de perguntas: qual o sentido do aluno ir para a escola? Qual o sentido de estuar? Como equalizar e valorizar a atividade do aluno e ao mesmo tempo transmitir o patrimônio cultural acumulado? É possível mobilizar os estudantes para o saber? Os saberes disponibilizados pela escola, fazem sentido na vida dos alunos das classes menos favorecidas? A escola deve submeter-se a lógica do mercado que exige dela a qualificação de quadros para atender os interesses do capital produtivo? São questões importantes, complexas e cruciais que Charlot se debruçou como pesquisador e que lhes possibilitaram, além da construção de reflexões potentes, indicativos oportunos para pensar nossas práticas.

Tem razão Giolo (2011, p.42) quando diz que Charlot “fez do ofício de pesquisador o meio privilegiado de contribuir com a atividade prática de ensinar e aprender e também com a atividade política transformadora”. Em seus escritos encontramos inspiração e subsídios para promover “as lutas do povo, dos trabalhadores, dos movimentos sociais, dos movimentos ecológicos, dos movimentos em favor dos direitos humanos, das minorias, dos humildes”. Sua singularidade, expressa nas distintas publicações, revela um pesquisador que acredita que a humanidade pode caminhar na direção de um outro mundo, mas que para isso são necessárias “inteligências capazes de compreender as contradições que constituem o próprio metabolismo das relações sociais” (Giolo, 2011, p.42).

Um aspecto que chama atenção nas pesquisas e escritos de Charlot, conforme bem ressalta Giolo (2011), é sua postura epistemológica e sua sensibilidade social exigida também para seus investigadores. Tal postura implica em fazer uma leitura positiva da realidade como sendo uma condição essencial para quem se engaja em equipes de pesquisa por ele coordenadas. Isso significa olhar e inquirir a realidade com a intenção de explica-la, a partir do que ela é e não por aquilo que ela não é.

Não se consegue explicar uma determinada realidade, ou mesmo a situação dos alunos, a partir de suas carências, daquilo que lhes falta. Deve-se entender o que está acontecendo, o que se está vivendo, qual a lógica inerente aos acontecimentos, quais as relações com contexto, com os outros atores, com o entorno. Isso possibilita compreender a realidade e encontrar caminhos que produzam mobilização. É esse olhar positivo sobre a realidade que possibilita avançar nas investigações no sentido de construir modelos suficientemente claros, simples e viáveis para que se realize um trabalho investigativo nos distintos campos de ação.

A vitalidade de Charlot também é algo a ser ressaltado e celebrado. No dia 15 de setembro deste ano (2022) completou 78 anos e continua com uma jovialidade de pensamento, pesquisa e escrita de causar inveja.

Um dos seus últimos livros que tive a alegria e a satisfação de ler, intitulado Educação ou barbárie? Uma escolha para a sociedade contemporânea, Charlot (2020) discute com maestria diversos aspectos que envolvem a educação contemporânea tais como: a questão antropológica no discurso pedagógico, a qualidade da educação e o problema da transparência e do controle, a questão da neurociência e a neuroeducação, as tecnologias digitais e a cibercultura, o discurso transhumanista e a serventia da pedagogia num cenário habitado por robôs, o desafio de pensar a humanidade do homem e a educação de um ponto de vista antropológico. Trata-se de uma obra de tirar o fôlego e que se torna imprescindível para todos aqueles que estão dispostos a se envolver de forma comprometida com a pesquisa em educação e a arte de educar.

A grandiosidade de Charlot fez com que em vida pudesse receber muitas homenagens. Dentre elas destaco a coletânea A obra de Bernard Charlot por seus intérpretes (Cavalcanti; Rego, 2023), publicada pela editora CRV/Curitiba e que tive a honra de prefaciar. A coletânea vem celebrou, naquele momento a vitalidade de Charlot. Os distintos capítulos que compõe a obra, o texto e o registro fotográfico de Dilson Cavalcanti sobre a cerimônia de outorga do título Doutor Honoris Causa concedido pela Universidade Federal de Pernambuco (Universidade Federal de Pernambuco), as reflexões sobre os desafios da educação na contemporaneidade tratados na entrevista concedida à Teresa Cristina Rego e Lucia Emília Nuevo Barreto Bruno (FEUSP- SP),a discussão sobre a escola do direito à diferença e do direito à semelhança elaborada por José Carlos Libâneo (Pontifícia Universidade Católica de Goiás), a análise de César Nunes (Universidade Estadual de Campinas) sobre a contribuição de Charlot para a formação do pensamento crítico dialético, as considerações de Maria Amália Santoro Franco (Universidade Católica de Santos) acerca das epistemologias da pedagogia crítica, o exame da genealogia acadêmica de Charlot escrito por Betânia Leite Ramalho (Universidade Federal do Rio Grande do Norte), as reflexões registradas por Valeida Anahí Cápua Charlot (Universidade Federal de Sergipe) sobre o que chamou de contos e encontros da relação com o saber, o texto escrito por Christine Delory-Mamberger (Université Sorbonne Paris Nord – França) sobre o mundo da escola, relação com o conhecimento e figuras do eu, as ponderações sobre o aprendente, a aprendizagem e a inclusão social elaboradas por Georgios Stamelos (Universidade de Patras Grécia), as contribuições de Charlot para os estudos sobre o aprender, capítulo escrito por Soledad Varcellino (Universidad Nacional de Rio Negro – Argentina) e, por fim, uma entrevista com o próprio Charlot sobre a relação com o saber e outras questões realizada por Adriana Marrero (Universidad da República Uruguaia – Uruguai) são capítulos densos, elucidativos, provocativos que certamente auxiliarão leitores e leitoras no trabalho de aproximação ao pensamento e aos escritos deste grande mestre e exemplo para muitos de nós.

Finalizo este escrito com último parágrafo de Educação ou Barbárie que nos dá a dimensão deste grande pensador que nos deixa de seu convívio presencial, mas que se faz presente na formação de muitas gerações:

“Ocupar o mundo com humanidade e se ocupar dele, com todas as formas de solidariedade que esse conceito implica. Esse deve ser, em minha opinião, o princípio básico de uma educação contemporânea. Trata-se de educação, e educação ao humano. Aprender é necessário, mas não suficiente. Pode-se ter aprendido muitas coisas e alimentar as fogueiras da Santa Inquisição, fabricar a bomba de Hiroshima, deixar imigrantes afogarem-se no Mar Mediterrâneo ou aderir a essas outras formas de barbárie que nos propõem o pós-humanismo. Educar é educar o humano. A barbárie, sejam quais forem suas formas, incluindo muito modernas, pensa fora do humano. Educação ou Barbárie, hoje é preciso escolher” (Charlot, 2020, p.304).

As palavras são tão certeiras e convidativas que dispensam comentários. Que Charlot continue sendo uma luz em tempos de barbárie.

ASSISTA TAMBÉM:

Referências:

CAVALCANTI, Dilson; REGO, Teresa Cristina. A obra de Bernard Charlot por seus intérpretes. Curitiba: CRV, 2023.

CHARLOT, Bernard. Da relação com o saber às práticas educativas. São Paulo: Cortez, 2002.

CHARLOT, Bernard. Da relação com o saber: elementos para uma teoria. Porto Alegre: Artmed, 2008.

CHARLOT, Bernard. Relação com o saber, formação de professores e globalização: questões para a educação hoje. Porto Alegre: Artmed, 2005.

CHARLOT, Bernard. A mistificação pedagógica: realidades sociais e processos ideológicos na teoria da educação. São Paulo: Cortez, 2013.

CHARLOT, Bernard. Educação ou barbárie: uma escolha para a sociedade contemporânea. São Paulo: Cortez, 2020.

FÁVERO, Altair Alberto. Prefácio. In: CAVALCANTI, Dilson; REGO, Teresa Cristina. A obra de Bernard Charlot por seus intérpretes. Curitiba: CRV, 2023, p.13-19.

GIOLO, Jaime. Bernard Charlot: educação mobilizadora. In: REGO, Teresa (Org.). Educação, Escola e Desigualdade. Coleção Pedagogia Contemporânea. São Paulo Vozes e Segmento, 2011.

NUSSBAUM, Martha. Sem fins lucrativos: por que a democracia das humanidades. São Paulo: Martins Fontes, 2015.

Autor: Altair Fávero. Também escreveu e publicou no site “Razões e desafios para não desistir da docência”: www.neipies.com/razoes-e-desafios-para-nao-desistir-da-docencia/

Edição: A. R.

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