O reinado do medo vai tecendo suas teias, aprisionando cada vez mais nossas vidas, roubando-nos o que nos resta de criatividade, isto é, o natural dom para driblar nossas necessidades com criatividade, não apenas para sobreviver à obscuridade, mas para levar encantamento à alma, órfã de imaginação que revoluciona os sentidos maios sublimes, ensejando epifanias.

 

Disse a mim mesmo que não voltaria a tocar no assunto sobre a necessidade de arte numa contemporaneidade que dá mostras de nela não depositar quase ou nenhum interesse. Até porque gastar suas forças na tentativa de sobreviver ao caos reinante?

Que o mundo está em escombros, não há dúvida. Que aguardamos o ressurgimento da Fênix para nos tirar do atoleiro, também não há estranhamento.

É o reinado do medo tecendo suas teias, aprisionando cada vez mais nossas vidas, roubando-nos o que nos resta de criatividade, isto é, o natural dom para driblar nossas necessidades com criatividade, não apenas para sobreviver à obscuridade, mas para levar encantamento à alma, órfã de imaginação que revoluciona os sentidos maios sublimes, ensejando epifanias.

O que leva, mais uma vez, à ponderação de que não é só de pão que vivemos, mas de poesia, como disse brilhantemente William Carlos Williams “não é fácil encontrar novidades em poemas, mas homens morrem miseravelmente todos os dias por falta do que neles existe”.

Assim, a pretexto de sobrevivência, vamos sepultando-nos a conta gotas sobre o som de infindáveis réquiens, cada vez mais aturdidos, satisfazendo os sentidos comezinhos. E o sistema reinante, com inefáveis pendores diabólicos, dita o que tem de ser consumido para que nos sintamos na trilha certa, coerente com os demais, em passos militares rumo ao matadouro.

A verdade que precisa ser dita que tal comportamento é a opção pelo mais barato, pois no dizer de Jung “quase não há exceções à regra de que uma pessoa deve pagar caro pelo divino dom do fogo criativo”.

Entre um celular que faz tudo, inclusive pensar pelo usuário, e as labaredas da liberdade criativa opta-se pela geringonça tecnológica, que nos escraviza em vez de libertar.

Já estou me alongando demais. Se alguém chegou até aqui foi por pura coragem – e por sentir-se, igualmente, desconfortável neste mundo de aparências, que alimenta Narciso com coisas absolutamente inúteis. Duke Ellington disse “só interessa o que tem swing”. Você sabe o que tem swing?