Mantenham essa criança viva e alimentada dentro de vocês,
pois, essa criança aceita desafios, não tem julgamentos prévios ou preconceitos e,
acima de tudo, possui a humildade e a alegria que devemos
celebrar cotidianamente para a harmonia planetária.

 

Inicio esse texto com a seguinte pergunta: “o que se pode esperar de uma criança da vila?” Essa pergunta se faz necessária porque nessa oportunidade íntima de me apresentar com maiores detalhes aos meus queridos leitores e colegas, aproveito para direcionar meu relato também à todas as crianças da vila, pessoas comuns e de origem humilde.

Atualmente sou professora com Ph.D. em universidades dos EUA (Universidade de Washington e Onondaga Community College) e palestrante de diversos cursos nos EUA, Canadá, México, Europa e Brasil. Na minha área profissional sou conhecida como Dr. Bodah, possuo mais de dez livros no Brasil (que podem ser acessados aqui) e quatro entre EUA e Europa.

Sou presidente do Thaines and Bodah Center for Education and development que possibilita intercâmbio entre estudantes, bem como oriento centenas de pesquisas na área da educação, ciências biológicas, ecologia, agricultura, genética e psicologia.

Contudo, tive origens humildes, nasci e me criei no interior do estado do Rio Grande do Sul, Brasil. Minha mãe foi professora (cujos pais agricultores nunca tiveram a chance de frequentar a escola) e meu pai, pedreiro.

Fui uma criança da vila, estudei a maior parte da minha vida em escolas públicas e, com muito esforço, tornei-me professora da rede municipal de Passo Fundo -RS. Uma vida muito corrida, lecionando em várias escolas. Em 2004, consegui uma bolsa para fazer Mestrado em Educação na UPF  sob orientação do Pe. Eli Benincá.

Em uma de nossas conversas, eu estava muito empolgada contando ao Pe. Eli sobre o que eu tinha feito com os estudantes num projeto de educação ambiental, que eles adoraram e as famílias estavam envolvidas e etc.

O Pe. Eli, com toda a sua serenidade, me disse que tudo era muito interessante, mas também me disse que se eu não registrasse essa experiência através da memória escrita, isso se perderia… Então, ele me desafiou a escrever meu primeiro livro: “Educação ambiental para as crianças e seus mestres”.

 

Pe. Elli foi ordenado sacerdote em 03 de julho de 1965 e atuou como coordenador de pastoral e formador dos seminaristas. Na área da educação, o professor e sacerdote assumiu em 1970 a direção do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas e, de 1974 a 1985, dirigiu a Faculdade de Educação da UPF. Mestre em Ciências da Religião e Doutor em Educação, Pe. Elli colaborou na elaboração dos estatutos da atual Itepa Faculdades, trabalhando também como seu primeiro diretor. Elli Benincá foi e é uma grande referênca para educadores da rede municipal e estadual da região norte do RS e que o conheceram, sobretudo, nas suas atividades docentes na UPF (Universidade de Passo Fundo, RS).

 

Na época, esse desafio parecia fora das minhas aptidões, mas aceitei pois, afinal, ele era meu orientador de mestrado… ninguém quer contrariar muito o seu orientador. O livro editado pela Berthier foi lançado na UPF e eu o carregava na bolsa. Minha vida continuou a mesma até uma noite de verão, entre escolas, em uma parada de ônibus. O ônibus estava atrasado, como de práxe durante o horário de pico. Não havia uma grande fila, apenas o usual. Crianças brincando na rua ainda, alguns casais de namorados e frequentadores assíduos de um bar perto da parada com suas vozes altas e embriagadas.

A maior parte de minha vida, até então foi na mesma cidade e isso me causava uma mistura de inquietude e ansiedade.

Olhei para o céu estrelado naquela noite clara e disse: “ai meu Deus… como eu gostaria de conhecer o mundo, se for pra ser…” Entrei no ônibus, que em seguida ficou novamente preso no congestionamente e por acaso uma placa anunciando cursos de idiomas me chamou a atenção. Resolvi descer do ônibus e ver como faria e quanto custaria para cursar inglês.

Ao chegar naquela escola, a secretária me explicou que não havia aulas naquela noite, mas por um acaso, uma professora chamada Daniela Mendonça acabara de chegar dos EUA, estava ali para buscar um material e talvez ela pudesse conversar comigo.

 

Como surgiu a oportunidade de conhecer o mundo, a partir dos EUA?

Quando a professora me recebeu, expliquei que eu queria aprender uma nova língua, cultura e talvez viajar. A professora me perguntou o que eu fazia, eu expliquei que dava aula de ciências para crianças de uma escola pública, que gostava de trabalhar com educação ambiental e mostrei o livro que Pe. Eli havia me desafiado a escrever.

A professora achou muito interessante, me comunicou que não haviam aulas no momento para o que eu queria, mas que poderia conversar novamente comigo sobre eu ir aos EUA para mostrar meu trabalho e dar aulas no Audubon Center of the North Woods para crianças americanas. Outro desafio que para muitos parecia irreal… Os detalhes, inquietudes e frustrações dessa minha jornada do Brasil aos EUA podem ser encontrados na minha última obra: “Ciência, Deus e Sucesso”.

Durante minhas palestras, várias pessoas incrédulas com as conquistas atuais como de ser professora com Ph.D. naturalizada nos EUA há mais de dez anos, olham para minha trajetória inicial, seja de ter sido uma criança da vila que estudou em escola pública, que não tinha fluência em inglês, que não era superdotada, enfim uma pessoa comum que se tornou professora da rede pública de uma escola brasileira. Muitas dessas pessoas pedem orientação de como conseguir o mesmo.

A resposta para esses pedidos sempre foi de que devemos estar atentos para oportunidades e focar no “estudo, persistência, resiliência, dedicação e paixão”. Contudo, ao longos dos últimos dez anos, quando a minha vida realmente deu uma guinada, eu consegui fazer uma análise de como eu atingi o sucesso atual. Alguns de meus colegas podem tentar entender isso como determinação, empreendedorismo, poder espiritual, sorte…

Na verdade, a mensagem que eu gostaria de deixar nesse momento aos meus leitores é apenas a mesma que recebi do Pe. Eli muitos anos atrás: registrem a sua prática… o registro escrito a faz imortal e destrói fronteiras. Claro que além disso, peço que não desistam de seus sonhos, tenham fé e, acima de tudo, não deixem de lado aquela criança que existe dentro de cada um de nós… Para concluir, reporto-me a minha pergunta inicial: “o que se pode esperar de uma criança da vila?”

 

Com o intuito de não perder contato com seus egressos e de mantê-los integrados ao cotidiano da Universidade de Passo Fundo (UPF) foi criada a Associação de Ex-alunos Sempre UPF. Assista aos depoimentos de pessoas que fazem parte dessa história: Elli Benincá.

 

Uma das possíveis respostas para essa pergunta é: “pode-se esperar o que essa criança quiser – o céu é o limite”.  Apenas, mantenham essa criança viva e alimentada dentro de vocês pois essa criança aceita desafios, não tem julgamentos prévios ou preconceitos e, acima de tudo, ela possui a humildade e a alegria que devemos celebrar cotidianamente para a harmonia planetária.