Drogas legais no Brasil: o caso do açúcar

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Se continuarmos a dar sentido a nossa vida pela boca que não para, terminaremos destruindo com o único “templo” mais importante de cada ser, ou seja, o seu próprio corpo. Essa geração sonha com cirurgias plásticas para poder conquistar rapidamente o corpo idealizado pelo mundo fictício da moda e da propaganda.

O açúcar é uma droga? O que consideramos alimento? Um debate necessário….
Lembro quando era criança e minha avó adoçava o Nescau. Na minha casa, eu tinha pouco acesso ao açúcar refinado, era hábito da minha mãe nos ensinar a sentir o sabor natural dos alimentos. Quando minha avó adoçava o Nescau, eu sentia o quanto aquela substância aparentemente realçava o sabor das coisas.

Descobri que o açúcar transformava um simples chá em um melado excelente (que nos períodos de férias de verão, se transformava em ótimos picolés, bastando encher as formas de gelo com este melado de chá e colocar pequenas colheres de metal em cada quadradinho). Sem falar no café frio que eu descobria em uma pequena garrafa térmica vermelha, que poderia ser transformado em outro tipo de melado, que de tão saboroso, podia ser tomado de colherinha (e passava a curtir uma tarde de alta ansiedade por causa da cafeína, sem nem saber direito os efeitos). Logo depois vieram as balas de menta e os chicletes Ping-Pong. Gastava todos os centavos que ganhava em doces.

Na minha infância, míseros cinco reais, compravam: caixa de bombom, refrigerante e salgadinho. E ainda sobravam moedas para comprar balas e chicletes. Em outras palavras, posso afirmar: Sou um viciado em açúcar. Um vício tão forte, que ainda hoje me sinto desconfortável quando não tenho chocolate na dispensa ou vai chegar o final de semana, e não tenho reserva estratégica de chocolates em casa. Assustador, né? Quantos leitores são como eu? O ponto que desejo discutir é: Qual a diferença do vício em drogas ao vício em alimentos? Qual deles causa mais danos a saúde? Qual deles causa mais mortalidade?

Muitos dizem que o açúcar é energia e, por isso, é alimento. Mas ninguém diz os problemas resultantes do seu uso indiscriminado. Somos uma geração que consumimos gordura, sal e carboidratos em uma louca abundância, e claro, açúcar. Levei anos para diminuir o consumo exagerado desta última substância. Mas é cada vez mais difícil comer sem que tenha altos níveis de açúcar e sal já inserido na fórmula dos alimentos.

E o que vejo hoje em relação aos alimentos consumidos pela próxima geração? Vejo crianças cada vez mais expostas ao consumo abusivo de tudo o que não é alimento (São embutidos de sal, amido de milho frito, com conservantes, imitações de sabores, muito, mas muito açúcar). No meu tempo (nasci em 1983), tomar refrigerante, consumir sorvete e biscoitos era luxo reservado a dias e datas específicas. Hoje? Bom, hoje esses artigos são comprados em grande quantidade e considerados “alimentos” para as crianças. Estão todos os dias na geladeira e nos armários das casas.

Essa geração leva para escola “lanches” que antes eram considerados sobremesa ou literalmente “bobagens”. Acredito que as crianças tenham atualmente mais acesso a doces açucarados e industrializados do que acesso a frutas e legumes, sendo os últimos mais caros e de difícil acesso. Qual o problema disso? Aparentemente nenhum, já que o argumento dos pais é que “Meu filho gosta, né?”; “é gostoso e ele merece” ou mesmo “ele chora se não ganha”.

Não quero entrar aqui numa discussão sobre educação infantil, mas precisamos urgentemente discutir a alimentação de nossa geração, mas principalmente da próxima. As crianças estão trocando o leite materno por refrigerantes…

A obesidade infantil é algo tão absurdo que presenciamos diariamente o momento em que os pais dão Coca-Cola na mamadeira das crianças e nem paramos para pensar no absurdo que isso representa. No passado, temos relatos de pais que davam cachaça diluída em água na mamadeira dos filhos homens, já que beber era coisa de macho (Como foi a história do jogador Garrincha e sua absurda iniciação no álcool que o tornou um dependente químico). E quantos alimentos, doces e brinquedos incentivam as crianças a repetirem o hábito de vício dos adultos?

Sem falar nas crianças que fumam as “bitucas” dos cinzeiros quando os pais saem do recinto, pois é tão lindo fumar de forma elegante na frente dos filhos, não é verdade? Ou mesmo os filhos que podem beber a espuma da cerveja dos pais, quando os últimos estão bêbados e sorridentes. Mas e o açúcar? Ele é uma droga? Indicaria que os leitores pesquisassem na internet o quanto o consumo de açúcar diminui a atividade cerebral, alguns estudos inclusive comparam os efeitos ao consumo de cocaína. No mínimo, essa comparação nos faz refletir.

Ou seja, permitir que crianças antes dos 6 meses de idade comam biscoitos recheados até enjoar, que tomem suco de “néctar” aos litros (que nada mais são que chá de cascas com corante e muito açúcar, ou seja, não são sucos e muito menos são naturais), é um comportamento absurdo, pois já estimula a dependência química destas substâncias. Sobre esse assunto, indico um dos melhores documentários produzidos no Brasil sobre alimentação e propaganda para o público infantil, chamado: “Muito Além do Peso”, que está disponível no Youtube.

Se o açúcar e a gordura deveriam ser considerados drogas? Sim, sem dúvida. Mas o objetivo de incluí-los nesta categoria não tem o objetivo de reprimir e proibir, mas incluir numa categoria que informa sobre os perigos do consumo desta substância. Vejam os argumentos que utilizamos para os problemas das drogas ilícitas: Viciam, destroem a nossa saúde, nos levam a morte e acabam com nosso senso social de existência, a sua utilização em excesso é destruidor do organismo. Mas ainda assim, os teimosos dirão: Mas tudo que é utilizado em excesso faz mal. Hum… então me diga o quanto podemos usar de açúcar? Tentem tirar por apenas uma semana o açúcar refinado da sua alimentação e logo descobrirão que quase tudo que é industrializado possui açúcar refinado e que se realmente conseguirem, sentirão uma terrível abstinência.

Aprendi com minha mãe uma lição muito importante sobre qualquer substância química: “você consegue controlar seu uso quando está bem e feliz. Porém, basta ficar triste ou deprimido que você se “afunda no consumo”. Nos momentos de dor e tristeza, quando perde o equilíbrio de vida, o tão falado “controle” vai para o espaço e você literalmente mergulha no seu vício. E as pesquisas mostram que o consumo de doses de açúcar, café, álcool e cigarro estão profundamente relacionados ao estado emocional dos dependentes. Isso é a mais pura verdade. Dito isso, meu vício no açúcar não terá fim, serei sempre um dependente em recuperação. O ponto é: eu desejo isso aos meus filhos? Eu desejo isso ao futuro das crianças? Não!

Hoje procuro suprir sua falta com frutas doces e com alimentos açucarados naturalmente (açaí, damasco, passas de uva e mel). Mas vejo que o processo não é nada fácil. Mas eu não fui estimulado desde criança a consumir tudo e da forma que eu desejava. E por isso eu sei, que quando a próxima geração tem liberdade e falta de mediação no consumo abusivo desta substância, seus filhos, irmãos e neto talvez não tenham a mesma sorte que eu tive. Talvez o problema da obesidade no Brasil, problema que não para de crescer, se transforme em poucos anos em um processo irreversível. Se não discutirmos essas substâncias como drogas teremos crianças e famílias inteiras viciadas que comem açúcar na busca de aliviar seus problemas e angústias, encurtando suas vidas…

Se continuarmos a dar sentido a nossa vida pela boca que não para, terminaremos destruindo com o único “templo” mais importante de cada ser, ou seja, o seu próprio corpo. Essa geração sonha com cirurgias plásticas para poder conquistar rapidamente o corpo idealizado pelo mundo fictício da moda e da propaganda. E na tristeza, não esqueça, abra a felicidade que é vendida em lata…..e veja o seu filho bêbado de sono com as explosões de glicose em seu sangue, com dificuldade para caminhar e fazer atividades simples, afinal, gordura, sal e açúcar são “coisas que eles gostam”.