A mala, que a princípio teria apenas utilidade, passa a necessitar de estética.
Por estética, transformamos casas em lares, camas em aconchego,
mesas em ceia, roupas em moda, cidades em centros urbanos.
Pela estética o útil serve-nos do belo e a existência pinta-se de vida.

 

O que seria uma boa mala? Resposta masculina: uma boa mala deve ser grande, forte, capaz de guardar e proteger muitas roupas. Deve ter uma alça fácil de pegar, reforços. Para terminar, uma boa mala deve ser barata. Nenhum homem gostaria de gastar muito numa mala. Para carregar as roupas, serve qualquer sacola de supermercado.

As mulheres têm o dom de transformar coisas úteis e simples, em belas e complexas.

A mala, que a princípio teria apenas utilidade, passa a necessitar de estética.

Minha mulher me ensina que uma mala precisa de beleza e costuras bem-acabadas. Forro, várias entradas para a separação das roupas segundo fios e texturas, por cores e turnos de uso. Um espaço para meias, cuecas e calcinhas, perfumes…

Uma mulher revela pequenas importâncias. Cor e forma, rodinhas de silicone, costuras bem-acabadas e zíperes com dupla abertura. Detalhes fundamentais das malas boas.

De mala leve, sua viagem será muito mais alegre e feliz porque a felicidade não é uma coisa grande e pesada. A felicidade é um monte de coisinhas que nos tornam mais próximos uns dos outros, mais companheiros, satisfeitos com aquilo que temos e, sobretudo, com aquilo que somos”. (Rosane Rupolo Mendes, 09/02/2017)

 

Duas semanas pesquisando os preços, analisando cores e tamanhos, tecidos, costuras, bolsos e alças. Por fim, a compra que eu pensara finda em cinco minutos, apesar de toda a pesquisa, gastou-me cinco horas de uma tarde. Além do tempo, a mala consumiu dinheiro equivalente ao pacote da viagem.

O sentido estético não é apenas feminino, é inerente ao ser humano como os detalhes das malas, embora nas mulheres, por motivos óbvios, adquiriu ênfase próprio. Até minha mãe, simples cabocla e camponesa, almejava a beleza em seus feitos.

Intuitivamente criava formas geométricas com o milho, a beterraba, o tomate, a couve e a cenoura. Sobre as gastas tábuas de grápia da mesa, dispunha as comidas e cores, os pratos e a toalha, em paisagem única.

O que era apenas para encher a barriga, ultrapassava a função e utilidade. Entre o chiqueiro e a estrebaria, a beleza também desfilava na roça. Embora analfabeta, além da cultura do milho e das favas, ensinava-nos outra.

Por estética, transformamos as casas em lares, as camas em aconchego, as mesas em ceia, as roupas em moda, as cidades em centros urbanos.

Pela estética o útil serve-nos do belo e a existência pinta-se de vida.

Pelo gosto estético nos apaixonamos pela fada e não pela bruxa, damos corte e não tosa ao cabelo, as aberturas passam a ser janelas, os bancos viram poltronas. Por estética o agarramento torna-se abraço e a mordida beijo.

A estética transmuta o animal humano em pessoa, o pedreiro em arquiteto, a costureira em estilista, o anunciante em publicitário, a lei em Direito, a religião em espiritualidade, o narrador em escritor, o professor em mestre, o asceta em santo, o barulho em música, a pedra em mármore, a estrada em caminho, o sexo em amor, um lingote de ferro acorda numa manhã feito escultura.

 

Em outro artigo, o autor fala também da importância da arte: “Falta sensibilidade nas escolas porque falta arte. E quando a arte está presente, é mais como conteúdo, não como fruição. Com pouca arte, há pouco humanismo nas escolas, há pouco afeto, há pouca ternura”.

Escolas desencantadas

 

A estética invadiu a disposição das frutas no supermercado, as impressoras e os computadores, as fábricas e os tambos.

Pela estética sumiu a palidez dos cadáveres, os cemitérios tornam-se jardins de paz.

Graças à estética, descobri, ao lavar as mãos para digitar esta crônica no notebook, (recomendação do manual) que o sabonete aqui do hotel, em tons de azul, combina com as toalhas e os azulejos, com o tapete e as cortinas e, pasmem, com os tons da polêmica mala, motivo de discórdia da viagem.