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Um fenômeno intitulado “FINAL DO ANO”

A Guernica, Pablo Picasso

Ele geralmente aparece em meados de novembro, e gradualmente, vai transformando uma atmosfera pacata em um buraco negro. Os dias passam a ser mais longos para o pessoal do hemisfério sul, mas, a impressão que temos é a de que eles encurtam. Você começa a notar que as pessoas estão com pressa, sem um motivo aparente. E quando você percebe, se percebe, está com pressa também.

Há uma tentativa de fazermos tudo o que não fizemos no ano todo (e às vezes, na vida inteira) em menos de um mês. É a época do ano em que a solidariedade predomina no ar e começamos a utilizar o nosso frasco, com prazo de validade super perecível, de amor e compaixão.

O nosso inconsciente ainda não desistiu do comercial “chester Perdigão”, da família perfeita reunida, na Ceia de natal. Mas, quando as celebrações acontecem, a realidade sempre faz a gente quebrar a cara. Além de encontrar aquele parente infeliz, uma espécie de uma luzinha queimada no pinheirinho de natal, encontramos uvas passas no arroz!

No Brasil, o Papai-noel sofre, pois, ainda não passou pelo movimento antropofágico e continua utilizando as roupas de inverno.

É a época do ano em que os Santos removem os ouvidos, uma tentativa eficiente de não receber as promessas que nós mesmos sabemos que não somos capazes de cumprir. Mas, a gente promete, com a esperança de que alguém deve ganhar na Mega-Sena. Falando nisso, você já fez a sua aposta?

– Para começar o ano frustrado por não ter ficado milionário? –

As previsões astrológicas começam a nos animar e um ano maravilhoso há de chegar (com a margem de erro de uma pandemia). A gente resolve tirar férias, mas a cabeça fica no trabalho, e quando voltamos ao trabalho, a nossa cabeça resolve ficar nas férias.

E o ano termina [1] e começa outra vez!

Notas de Rodapé: [1] E então, esse fenômeno se dissipa, com previsões de retorno no final do ano que vem, graças aos ventos desanimados que empurram a maré do saco cheio. Em Janeiro, o buraco negro passa a ser preenchido pela nossa rotina, que também engole a nossa expectativa de mudanças e é digerida pelos nossos bons e velhos maus hábitos.

Autora: Ana P. Scheffer

… Sempre no cio

As estratégias para o enfrentamento do fascismo não contam unicamente com recursos centrados no discurso argumentativo, precisarão de estratégias de mobilização de afetos.

Ainda que aquele que dirigiu sua instalação no aparelho de Estado e que colaborou para que se expressasse com força na sociedade brasileira viva seus últimos e penosos dias de presidência, se o fascismo está “sempre no cio”, cabe muito mais do que celebrar esta derrota eleitoral e política estando desafiados a imediatamente construirmos caminhos de resistência permanente e de ação sistemática para uma vez mais derrotá-lo e reduzi-lo à convivência com os “cães de sua laia”, ao mínimo possível deles, neste ano em que é também do centenário da triste memória da Marcha sobre Roma (28 Out 2022) e no qual o povo brasileiro imprime um revés significativo ao fascismo à brasileira.

Não é momento de acreditar que tudo está resolvido. A extrema direita saiu fortalecida das eleições, o Congresso abrigará muitos de seus representantes mais ativos nos últimos anos e o agora já praticamente ex-mandatário também estará em ação (com qual legitimidade e força, ainda a ver).

A frase que é o epílogo da peça “A resistível ascensão de Arturo Ui”, de Bertolt Brecht: “A cadela do fascismo está sempre no cio”, faz lembrar que as práticas fascistas, as antigas e as atuais, patrocinadas pela extrema direita, não cessam e dificilmente serão eliminadas completamente. Ademais, bastaria que sejam criadas condições e retornam com força, particularmente em momentos de profunda crise e de falta de perspectivas coletivas fica como possibilidade para “salvar” o capitalismo, quando a democracia já não lhe favorece.

No mundo todo, estamos num momento no qual estas características estão presentes, com variações e forças nos mais diversos lugares, inclusive no Brasil.

A frase de Brecht lembra, todavia, que o modo do fascismo é antinatural, visto que o cio é uma realidade temporária na vida das cadelas, por volta de duas vezes ao ano. Seria, portanto, cíclico. Ao dizer que “está sempre” nesta condição de disponibilidade para acasalamento, alerta que o fascismo é um artifício fabricado como forma de organização e ação.

Sua presença, ainda que permaneça à espreita para retornar a cada tempo, não está sempre protagonista. E mais, se permanecer vigente como disponibilidade efetiva é porque estão criadas condições não naturalmente disponíveis para tal. Seria o caso de um “fascismo eterno”, ainda que nem sempre vigente em termos hegemônicos? E se assim o é, também haveria de ser a ação contra ele: precisará estar permanentemente vigilante e em resistência organizada.

O segundo aspecto presente na frase de Brecht é que o fascismo é comparado ao “cio”, um momento próprio no qual a cadela está disponível e desejosa de acasalamento. A comparação metafórica remete para o fascismo como uma experiência erótica, do campo do desejo, mais do que uma posição estritamente sócio-política e sustentada em bases racionais. Tem sim uma racionalidade, talvez uma das expressões mais perversas dela, mas não só. A dimensão erótica é, desde há muito, conhecida como importante para a vida social e política. Já está bastante documentada e estudada.

As estratégias para o enfrentamento do fascismo não contam unicamente com recursos centrados no discurso argumentativo, precisarão de estratégias de mobilização de afetos. Há uma subjetividade moldada ao fascismo e modelada pelo fascismo, uma subjetividade fascista, que passa pela “personalidade autoritária”, mas não só, também pelo lugar paradoxal da “ilusão” na vida em sociedade.

E entender isso não significa reduzir a abordagem do fascismo a uma questão estritamente individualista ou moralista. Requer que se tenha em conta estas dimensões, sem as quais a crítica ao fascismo poderá chegar à boas explicações, mas ainda insuficientes.    

As cadelas, assim como todos os animais, são seres com dignidade, aquela própria a seu modo de ser animal, e talvez não merecessem ser, nem metaforicamente, tratadas como portadoras do fascismo. Por isso, com a devida vênia, as cadelas nos ensinam, a nós humanos, que enfrentar o fascismo exige construir estratégias de denúncia sim, das práticas machistas, misóginas, patriarcais, racistas, lgbtiap+fógicas, normalistas, enfim, todas as práticas desumanizadoras, patrocinadas por ele.

Mas exige ir muito mais além e identificar as raízes que levam à sua adesão e que, certamente, entre elas está não aceitar que aqueles/as humanos/as, sempre tidos por “quase humanos” ou até “não-humanos” permaneçam não sendo incluídos na humanidade, num supremacismo escondido numa versão distorcida dos “melhores” que faz da aristocracia e da plutocracia o modelo de convivência (não compatível com a democracia popular).

Esta raiz está sempre junto com outra que é a que o capitalismo soube e segue sabendo valorizar demais, que é a concentração cada vez maior da riqueza pela expropriação dos bens comuns (os da natureza e os da sociedade).

A acumulação privada “pelos melhores”, aqueles “que merecem”, justifica que a desigualdade e a exclusão sejam aceitáveis e legítimas. Mais, que toda iniciativa de promoção da igualdade, da justiça social, da equidade… sejam vistas como ataques à ordem “natural” e exijam reações fortes, se necessário violentas, para mantê-la.

O ódio aos pobres (aporofobia), o ódio de classe, o ódio ao/à outro/a, é necessário, para enfrentar e eliminar o “inimigo maior” (o comunismo, o socialismo, os demônios…). Mas, retornando a Brecht, assim como o fascismo, ele não é natural. É intencionalmente produzido para guardar os “privilégios” e impedir o avanço do “todos/as”.

Querer um mundo no qual o fascismo, ainda que em cio, esteja controlado pela convivência social e por orientação política, requer reafirmar o “todos/as”, próprio de um universalismo de novo tipo, um pluriversalismo, no qual a diversidade da condição humana, que reconhece a cada singularidade como humanidade e a humanidade com presença em cada singularidade, sem que qualquer tipo de restrição moral, racial, sexual, geracional… se interponha como determinação condicionante para o exercício da vida em sociedade, a vida em comum.

Assim que, recolocar na agenda a igualdade e a não-discriminação como tarefa primeira da ação social e política é fundamental para enfrentar o fascismo.

Junto com elas, o compromisso para que sua realização seja dada em bases democráticas com a mais ampla participação direta, dado que direitos não se realizam nem por representação e nem por procuração. Isso não significa desconsiderar que vivemos em sociedades cada vez mais massificadas nas quais as práticas de reciprocidade podem já não ser suficientes. Por isso, a reconstrução dos espaços de participação direta exige que novas formas de proximidade sejam implementadas, sem o que, a indiferença e a apatia se alimentarão e alimentarão o fascismo.

Mascaro, em Crítica ao Fascismo, lembra que “[…] a maior parte das críticas ao fascismo, ao não alcançar a materialidade de suas causas, contribui para sustentar as condições de possibilidade e reafirmação de tal existência” (2022, p. 13). Alerta para as críticas liberais e as moralistas, insuficientes, nesse sentido.

Compreender o fascismo e enfrentá-lo requer identificar as bases de sua estreita relação com a reprodução do capitalismo, daí que reformas morais ou institucionais para seu enfrentamento sempre ficarão muito aquém do que é necessário para tal. Mas, elas não poderão ser dispensadas, ainda que precisem fazer parte de uma agenda de transformações muito profundas e radicais da vida em comum.

O desafio de fazer a crítica radical por “alcançar a materialidade de suas causas” é o que se coloca com principal agenda para os/as que acreditam que este não é um combate pontal, simplório ou circunstancial… pelo contrário, acreditam que fazê-lo é somar esforços para avançar na transformação profunda da realidade social, econômica, cultural e política.

Esta crítica é obra do discurso e da elaboração teórica, mas terá que ser também ação concreta e que chegue aos cotidianos dos mais pobres, sobretudo daqueles/as que seguem “engambelados” por falsas promessas.

Autor: Paulo César Carbonari

Compreender o sentido do Natal

Ao invés de alimentar o espírito comercial do Natal que muitas vezes aumenta o endividamento das famílias, deveríamos conceber o Natal como oportunidade de vida nova, marcada pelo bem querer, pela amizade autêntica, pelo convívio familiar fraterno, pelo senso de justiça, pela honestidade que constrói relações de confiabilidade.

Final de dezembro é marcado por duas grandes festas com intervalo de uma semana: Natal e Ano Novo. Em quase todos os lugares do mundo estas festas são celebradas de diversas formas: presentes, ceias especiais, árvore de Natal, fogos de Ano Novo, viagens, férias, encontros familiares, propósito renovados, programações especiais, corrida as lojas, promoções especiais são algumas das manifestações destas duas grandes festas que marcam o final de ano.

Mas o que esperar do novo ano? O que de fato celebramos no Natal? O que significa desejar “Feliz Natal” e “Feliz Ano Novo”? Será que ainda compreendemos o sentido destas festas? O que estamos ensinando as novas gerações sobre Natal e Ano Novo?

 Natal significa nascimento, renovação, vida nova. Os evangelhos de Mateus e Lucas descrevem os acontecimentos que marcaram o nascimento de Jesus em Belém, como sinal de esperança e de boa nova. De uma festa cristã, instituída pelo Papa Julio I no ano de 350 para marcar o nascimento de Jesus, tornou-se uma festa universal celebrada todos os anos.

Como não poderia deixar de ser, em tempos de globalização e de uma vida movida pelo comércio, o Natal de tornou um grande acontecimento comercial: as lojas mobilizam suas vendas, pois é a grande oportunidade de melhorar os lucros; os comerciais focalizam os holofotes para “o bom velhinho” que deve presentear a todos; as famílias correm as lojas para comprar seus presentes, porque afinal de conta “Natal é presentear quem se ama”. E assim se construiu uma cultura natalina que pouco lembra do sentido original do Natal.

Em tempos incertos, de crise ambiental, política, econômica, institucional e ética que tomou conta do Brasil, o Natal poderia se tornar a oportunidade de renovarmos nosso modo de vida, nossas condutas, nosso modo de nos relacionarmos, nossa percepção sobre as coisas.

Ao invés de alimentar o espírito comercial do Natal que muitas vezes aumenta o endividamento das famílias, deveríamos conceber o Natal como oportunidade de vida nova, marcada pelo bem querer, pela amizade autêntica, pelo convívio familiar fraterno, pelo senso de justiça, pela honestidade que constrói relações de confiabilidade.

Talvez seja o momento de ensinarmos as novas gerações que o Natal não se resume a dar presentes, enfeitar as vitrines das lojas para atrair consumidores, encher as casas com luzes ou preparar uma farta ceia.

Precisamos ensinar as novas gerações que o Natal é um momento de vivência interna de transformação que possibilita sermos melhores, mais autênticos, mais fraternos, mais tolerantes, mais amigos, mais honestos, mais solidários. Mas como o melhor ensinamento é o próprio exemplo, então não basta ensinar as novas gerações o sentido do Natal, pois precisamos testemunhar pelas nossas atitudes o Natal como renovação, esperança, vida nova. Assim, talvez, possamos compreender que a vida não se resume a ganhar dinheiro e a viver dia após dia nossa pobre existência de consumidores.

A vida é oportunidade de deixarmos nossa contribuição ao mundo, de ensinarmos aos outros que é possível construir um mundo melhor se vivermos coletivamente pautados pelo senso de justiça, do amor, da esperança e do bem querer. Talvez este seja um dos principais sentidos do Natal e é por isso que o Jesus Menino não nasceu em berço de ouro num palácio, junto aos poderosos, mas optou em nascer numa gruta fria de Belém, junto aos humildes.

O Natal pode nos ajudar a compreender que vida nova ou renovada não se materializa na troca de carro, na compra de presentes ou na ostentação dos enfeites natalinos.

A Boa Nova do nascimento de Jesus acontece quando somos capazes de sermos melhores seres humanos, quando adquirimos um senso de coletividade, quando somos capazes de compreender que nosso estar no mundo é finito, inacabado e limitado, não importando nossa condição social, nossa cor da pele, nossa crença religiosa ou nossa opção política.

O Natal de Jesus pode nos ajudar a compreender e a ensinar nossas crianças que fazer parte do mundo é responsabilizar-se por ele, para que possamos ter um lugar saudável e digno de viver para todos. Nesse sentido o Natal se torna pedagógico, formativo, educacional.

Como sabiamente nos diz Hannah Arendt, “a educação é o ponto em decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele e, com tal gesto, salvá-lo da ruína que seria inevitável não fosse a renovação e a vinda dos novos e dos jovens”.

O nascimento dos novos que chegam são sempre sinal de renovação de esperança, de continuidade da espécie.

Ainda segundo Arendt, “a educação é, também, onde decidimos se amamos nossas crianças o bastante para não expulsá-las do nosso mundo e abandoná-las a seus próprios recursos”. Por isso Natal, significa também acolhida, responsabilidade, compartilhamento. “Renovar um mundo comum”, capaz de ser morada para todos, e não só para aqueles que se apossaram da riqueza e do poder, talvez seja o maior ensinamento do Natal e por isso precisa ser celebrado todos os anos.

Desejo a todos e todas um FELIZ NATAL!

Autor: Dr. Altair Alberto Fávero

Familiares que brigaram devido à política devem se reunir no Natal?

Temos, necessariamente, visões destoantes em variadas coisas. Em contrapartida, não é difícil encontrarmos pontos em comum. Há desejo de superar o conflito e recompor a relação? Se não há, melhor manter distância, pois um encontro cara a cara aumentará ainda mais a ruptura.

Dependendo, sim; dependendo, não.

Há desejo de superar o conflito e recompor a relação? Se não há, melhor manter distância, pois um encontro cara a cara aumentará ainda mais a ruptura.

Mas não basta desejar recompor a relação, é necessário observar se os rompidos são capazes de ouvir, de calar, de encontrar pontos em comum, de se colocar no lugar do outro.

Reconheço que ouvir não é tarefa fácil. Prova é que livros foram escritos a respeito. A começar pela obra “como ouvir”, de plutarco (46-120 d.c.), escrita no ano 100 d.c. sim, há mais de mil e novecentos anos!

Calar também não é fácil. Em 1771, um livro foi escrito por Dinouart com o sugestivo título “a arte de calar”. Diz ele que, contra a febre de falar e falar (em política, por exemplo), é necessário que se cultive o “tempo do silêncio”. O silêncio pode ser mais que um simples silêncio. Pode ser uma maneira de fazer alguma coisa boa aos seus familiares e amigos.

Se a pessoa se considera capaz de ouvir e de calar, poderá observar outra qualidade muito útil para se ter um bom encontro. Refiro-me aos pontos em comum.

É fato que há pessoas que vivem procurando um ponto de discórdia em todas as suas relações. E encontram. Afinal, somos seres que fazemos trajetórias únicas, diferentes das dos demais.

Temos, necessariamente, visões destoantes em variadas coisas. Em contrapartida, não é difícil encontrarmos pontos em comum. Afinal, somos todos exemplares da mesma espécie viva. Basta querer. E nem a diferença de idade impede.

Meu avô e eu, por exemplo, conversávamos quase todos os dias na área envidraçada de sua casa. Assunto: viagens. As minhas, imaginárias. As dele, reais: inclusive, morara em paris no início do século XX.

O tema nos unia tanto que só acidente com passarinho nos calava. De vez em quando, algum pardal distraído chocava-se contra a vidraça. Interrompíamos nossa fala para reanimá-lo. Tínhamos exatos setenta anos de diferença e, mesmo assim, nossos encontros eram estimulantes para nós dois porque compartilhávamos um ponto em comum.

Colocar-se no lugar do outro e “andar em imaginação com as suas sandálias” é tarefa possível.

Eu sempre digo que o voto, por exemplo, tem a ver com a história de vida da pessoa. Colocando-me no lugar dela, na sua trajetória, consigo entender as suas razões, mesmo não concordando com elas.

Portanto, vale a pena realizar um jantar de natal com a família se esses quesitos forem preenchidos. Repito-os: ouvir, calar, ponto em comum, colocar-se no lugar do outro.

Caso contrário, é mais inteligente não se reunir. E que cada um passe o Natal do jeito que julgar melhor. Até mesmo sozinho pode ser bom.

Enfim, são modestas sugestões a todos que estão tendo a paciência e a bondade de ler as crônicas que escrevo e publico, sempre às quintas-feiras.

Um abração,

Boas festas,

Autor: Jorge Alberto Salton

Difíceis Tempos de Democracia

Quando dou comida aos pobres, me chamam de santo. Quando pergunto por que eles são pobres, chamam-me de comunista. (Dom Helder Câmara)

Durante governos do PT, vivenciei episódios com pessoas de minha convivência social, os quais suscitaram insultos, xingamentos e destilação de ódio. Porém, até hoje, mantenho relações de convivência distantes com elas.

Esta onda de radicalização das posições e posturas acentuou-se, por boa parte da população brasileira, desde que o PT foi criado e, principalmente, quando demonstrou capilaridade eleitoral governando o país, fortalecendo na política e na gestão pública os benefícios e direitos sociais.

O governo de Bolsonaro, que acaba mudo e melancólico, contribuiu à afirmação da estupidez e da ignorância como virtudes, em todos os recantos deste país. Ou, pelo menos, tornou mais visível esta percepção. Seguiu uma lógica de refinamento e afirmação da violência, alardeada por um Capitão desta empreitada, em que adversários da política e das ideologias passaram a ser tratados como inimigos a serem duramente combatidos.

Nesta ótica, é preciso fazer esforços para compreender que há razões mais profundas, inclusive anteriores ao governo Bolsonaro, que permitem entender o contexto atual de “iminente ruptura” em que o Brasil foi colocado. É o que se tentará fazer, considerando os episódios que serão relatados a seguir.

O primeiro episódio ocorreu há duas décadas. Ocorreu num jantar, numa discussão com um jovem médico, que trabalhava no setor de estatística de um hospital.

Era tempo de Natal. A conversa envolveu a realidade social da população, num momento em que o Brasil passava a implantar programas de combate à fome e promoção da cidadania.

O médico dizia, exaltado, que “pobre é pobre porque quer”. Que a sociedade dá a todos as condições de vida e trabalho e que muitos não querem ou não desejam trabalhar, porque são vagabundos. Na sua concepção, é a classe média que sustenta e paga os impostos deste país, mas a mesma não é reconhecida e, como sempre, sacrificada. Disse, sem provas, que teria como atestar a situação dos pobres a que se referia.

Contrariando sua tese, argumentou-se sobre a importância dos benefícios sociais, pela inclusão dos desassistidos na economia, pela questão humanitária de permitir que milhões de brasileiros e brasileiras pudessem usufruir mais de uma refeição por dia. Em vão!

No calor da discussão, lhe disse: “eu não entendo esta sua raiva e ódio pelo simples fato de você saber que irmãos e irmãs tem um pouco mais de dignidade a partir de um prato de comida. Você está perdendo humanidade com esta sua raiva e ódio aos pobres”.

A janta e a conversa acabaram por aí. Reinou silêncio!

O segundo episódio, ocorreu numa revenda de carros. Foi muito tenso e agressivo, num momento de um cafezinho. Ao me avistar, o dono da loja, protagonizou uma sucessão de horrores e insultos. Minha presença representava um desconforto, uma agressão tamanha que ele perdeu o controle da situação. Por quê? Ele sabia dos meus posicionamentos à esquerda e da minha defesa aos mais pobres. Gritou, ofendeu, humilhou e chegou a cuspir, perdendo o controle de sua raiva e de suas emoções. Não restou outra alternativa senão minha sutil retirada.

Tempos depois, percebi que episódios similares continuaram replicados, geometricamente.

O terceiro episódio ocorreu numa visita que fiz a um gerente de uma concessionária de carros. O setor automobilístico vivia um verdadeiro “boom” no país. Na ocasião, eu precisava de apoio para um curso de qualificação profissional: uma visita técnica e prática para Curso de Revenda de Peças automotivas. Era um tempo em que o Governo Federal e a Prefeitura Municipal executavam um programa de qualificação profissional dirigido aos jovens.

Depois da minha apresentação, quando o gerente percebeu que se tratava de política social, pediu-me um tempo para ouvi-lo. Aceitei. De repente, vociferou contra Programa de nome “Menor Aprendiz”, dizendo que empresários sempre são os crucificados, pois precisam entrar com contrapartidas e que os governos só exploram quem trabalha e paga impostos. Concluiu que era um absurdo contratar jovens aprendizes, para fins de ajudar e promover o governo.

Contrariado, dei-lhe razão aos argumentos. Ousei perguntar-lhe sobre a possibilidade de liberar um funcionário para explicar aos jovens, em visita in loco, sobre o funcionamento prático de uma loja de peças automotivas. Ao que ele disse “Sim”.

Pela terceira vez, pude sentir a fúria de quem não tem sensibilidade pelos mais empobrecidos, pois só veem seus próprios interesses.

Depois dos breves relatos, seguem questões que desejamos destacar. Primeiramente, sobre silenciamento. Pergunto: quantos brasileiros e brasileiras foram silenciados ao longo das últimas décadas pelo fato de defenderem a dignidade humana e mais e melhores oportunidades de vida? Enquanto eram silenciados, crescia o ímpeto de os aniquilar, de negar a sua existência, mesmo quando a realidade continuava a revelar a negação dos direitos da maioria da população brasileira.

Com Bolsonaro, ampliaram-se as formas de silenciamento e criou-se maior legitimidade pública para enfrentamentos fora dos padrões civilizatórios, inclusive com sinalização ao uso da violência e das armas.

“O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”.  (Martin Luther King)

Queremos refletir também sobre o quanto a negação dos direitos sociais neste país se constitui como algo naturalizado.

Considerando-se os episódios relatados acima, é facilmente perceptível do quanto são indicativos do quanto o atendimento à justiça social incomoda à elite brasileira.

 Para a superação deste dilema social, será preciso muita educação e engajamento social para que a concretude da justiça social não seja considerada mera bondade dos governantes, mas um direito e uma garantia do Estado para a sua população.

Nossa realidade social brasileira é cruel e pouco inclusiva. Desejamos que o Brasil seja um lugar de vivência e reconhecimento dos direitos humanos e sociais.

Mudanças serão necessárias

Será necessário mudar estruturas do Estado e mentalidade das pessoas para vejamos os milhões de brasileiros e brasileiras como a maior riqueza desta nação! Resgatar cidadania e políticas públicas, a partir da participação e envolvimento direto dos cidadãos e cidadãs. Envolver toda a sociedade para que políticas sociais cheguem a quem verdadeiramente mais precisa. Afirmar e promover uma sociedade que seja capaz de entender o verdadeiro sentido de direitos humanos e sociais.

Se quisermos democracia, de fato e de direito, precisamos traduzi-la em cidadania plena e real; direitos não podem continuar sendo apenas letras da Constituição.

Por fim, imprescindível lutarmos com mais esperança, resistência, juízo e solidariedade para ajudar o Brasil a mudar, com mais consistência, o seu próprio olhar sobre suas gentes.

“Assim nascem os direitos humanos: como afirmação de que os/as humanos/as de quem se fala que têm direitos são todos/as. Daí porque, falar de direitos humanos é, acima de tudo, não pactuar com quem aceita a possibilidade de algum/a humano/a não caber entre os/as humanos/as”. (Paulo César Carbonari) Leia mais: https://www.neipies.com/fragilidade-dos-direitos-humanos/

Autor: Nei Alberto Pies

Formaturas de estudantes do Ensino Fundamental e seus significados

Formaturas de adolescentes do ensino fundamental são oportunidades para revelar saberes que humanizam a vida de estudantes e professores e anunciar o protagonismo que poderá mudar a vida dos mesmos.

“Prezada diretora. Prezados docentes, discentes, familiares, amigos, e meus amados e inesquecíveis afilhados.

Há coisas na vida que não se repetem. São sempre como se fosse a primeira vez. Ser paraninfo de uma turma como a de vocês é uma delas. A alegria profunda que senti quando fui convidado é um momento único. Gostaria de dizer a vocês nesta hora algumas coisas que talvez possam ajudá-los a viver uma vida boa, uma vida de sonhos, uma vida feliz.

Uma das grandes, senão a maior característica da juventude, é a curiosidade intelectual que impulsiona vocês a descobrirem-se a si mesmos e ao mundo à sua volta.

Imagem Daniel Almeida

Nesta etapa da vida estudantil, devem-se observar as profissões mais promissoras, mas, para que sua escolha seja definitiva, a orientação de todos nós, os chatos… pais, mestres e direção é preponderante, embora todos devamos ter a compreensão necessária e a paciência madura de também ouvi-los em seus anseios e sonhos…

Se há uma coisa legal da idade de vocês é o sonhar.

Se há uma coisa que gosto em mim é sempre me perguntar “o que vou ser quando crescer?” Nunca deixem de fazer isso, de pensar no futuro, de sonhar.

Eu e meus colegas aqui presentes, passamos com vocês bom período de trabalho e de vida. Foram anos seguidos, ou seja, quase um terço da vida de vocês, bastante tempo.

Quero aproveitar e dizer, então, que assim como o marceneiro pisa em cima de serragens e o vidraceiro trabalha com pedaços de vidro, o educador mexe com as almas. É assim que eu e todos os outros professores desta escola sempre enxergamos vocês. Nunca como um número ou como um dado estatístico, mas sim como uma alma a quem se deve tratar com respeito, mostrando um caminho para que vocês possam fazer as escolhas certas, pois viver corretamente implica em ter atitudes consequentes no que se refere ao individual, ao familiar, ao comunitário e ao universo.

Quatro anos juntos me permitem dizer hoje que conheço um pouco de cada um de vocês; alguns com mais propriedade.

Há entre vocês alguns menos curiosos pelo conhecimento. Outros, muito curiosos por novos e constantes desafios diante dos quais nos esforçamos sempre para colocá-los em todas as áreas do conhecimento.

Levo comigo muitas lembranças de trabalho, de contos, de piadas, de alguns momentos alegres e algumas broncas, pero no muchas. Tenho certeza que todos deixam no Ensino Fundamental uma marca.

Algumas, verdadeiras pegadas, porém, todos uma grande lembrança. Acima de tudo, tenho a certeza que a chama do amor e amizade tocou cada alma aqui presente. Alguns de vocês ainda não perceberam isso ao certo, mas sei que um dia perceberão que ela arde dentro de seus corações.

Queridos afilhados, vocês acabaram uma importante etapa da vida escolar e novos caminhos virão pela frente. Mas lembrem-se do seguinte: vocês deverão zelar pelo bom nome de cada um de vocês e ter a coragem de assumir novos desafios.

Trilhem por seus próprios caminhos, almejem o topo e arrisquem, acreditem e invistam nos seus sonhos e nunca deixem de ser felizes.

A história do fazendeiro, do capataz e do cavalo machucado

Conta-se que um fazendeiro, que lutava com muita dificuldade, possuía alguns cavalos em sua fazenda.

Um dia, o capataz lhe trouxe a notícia de que um de seus cavalos havia caído em um poço muito fundo e seria difícil tirar o animal de lá. Avaliando a situação o fazendeiro chamou o capataz e ordenou que sacrificasse o animal soterrando-o ali mesmo. O capataz e seus auxiliares começaram a jogar terra, no entanto, a medida que a terra caía sobre seu dorso, o cavalo se sacudia e a derrubava no chão e pisava sobre ela.

Logo, os homens perceberam que o animal não se deixava soterrar, mas, ao contrário, estava subindo à medida que a terra caía, até que, finalmente conseguiu sair. Está terra pode ser uma crítica para você, não despreze, então quanto mais terra jogarem em você lembre-se que estão fazendo você subir.

Olhem para seu futuro

Sonho e desejo a cada um de vocês o maior sucesso no Ensino Médio mas, em especial, na vida. Que sejam mulheres e homens valorosos e bondosos para que seus pais, de sangue e de afeto aqui presentes, e todos a sua volta, possam ficar sempre orgulhosos pela contribuição que cada um de vocês fará, com certeza, no lugar onde se encontrar. Uma carreira de sucesso é feita de sucessivos recomeços. Vocês não estão terminando, vocês vão recomeçar.

Meus queridos afilhados: não se esqueçam de serem felizes. Lembrem-se que a felicidade tem mais a ver com atitudes do que com circunstâncias. Voem alto, mergulhem fundo, encontrem o próprio caminho.

Não tenham medo de tentar, de recomeçar, de insistir. O maior naufrágio é não partir.

Um grande navegador disse: eu me despeço de vocês. Vão em paz. Sejam bons, justos, afetuosos e tolerantes. Com gentileza e bom humor. O mundo os acolherá.

Como sempre disse, bom final de semana e levem junto o juízo.

Muito obrigado e, novamente, o maior sucesso para vocês!”

Esta reflexão é de um dos professores da rede municipal de Passo Fundo, rede de ensino que tem um conjunto de professores e professoras comprometidos com a educação de qualidade social. Esta publicação é um reconhecimento a todos estes profissionais que se dedicam com amor, responsabilidade e profissionalismo à educação das atuais e futuras gerações.

*Primeira versão publicada no site em 20/12/2016: https://www.neipies.com/um-grande-discurso-numa-grande-formatura-de-adolescentes-numa-escola-de-ensino-fundamental/

 Autor: Altenor Mezzavila, professor de língua portuguesa da rede municipal de Passo Fundo.

50 mensagens de Final de Ano

Costumo dizer que a mesma receita de bolo repetida exaustivamente dará dezenas de resultados iguais. Uma alteração de ingredientes, de temperatura ou de tempo de assado fará bolos melhores ou piores. E o que vamos fazer em termos de novidades para o próximo ano?

Antes de escrever, dei uma lida nos seis textos por mim postados nos meses de dezembro dos últimos anos para certificar-me de que não seria repetitivo. Fui bem, até então foram mensagens diferenciadas. Todavia, e para este ano? Tive a incrível ideia de“dar um Google” e acabei por encontrar pacotes prontos de mensagens e temas natalinos; sugestões do tipo Como desejar Boas Festas de forma diferente; o que escrever em cartões de Natal; mensagens motivacionais; que tipo de legenda por em fotos…” etc.

Em uma estética de qualidade questionável, a sociedade vai ditando comportamentos, inventando modas, definindo o que é cool ou demodé (tanto quanto esta palavra em desuso) e muitos vão seguindo.

Chegamos ao ponto de digital influencer virar profissão desejada, sinônimo de carreira, de oportunidade e de popularidade, além de quem mais se destacar nisso poder ganhar muito dinheiro. Modismo?

Mas como fugir dessa massividade ou da normose – a doença do normal – onde o diferente carrega a marca de estar errado? Sugiro uma maneira: criando. 

Nos dias de hoje, é tão popular o Ctr + C do copiar e colar que alunos entregam trabalhos idênticos, profissionais têm suas ideias apropriadas indevidamente por outros, vereadores apresentam projetos de lei (copiados) de outros municípios e agindo com naturalidade como se fossem os legítimos autores. 

Devemos ser capazes de criar, pois, assim como a luz que resplandece sobre as trevas permite que se ilumine o horizonte, criar coloca-nos frente à perspectiva de crescimento, seja da ordem moral ou intelectual. 

O que vamos criar para o próximo ano?

Será que vamos repetir fórmulas batidas de promessas que em sua maioria sabemos de antemão que não as cumpriremos? Ou jogaremos na Mega-sena da virada deixando a possibilidade de uma grande mudança ao fator sorte (e sonho) em tentar ficar milionário em uma única chance entre mais de 50 milhões?

Soa clichê, mas só uma atitude nova pode trazer um resultado diferente. Costumo dizer que a mesma receita de bolo repetida exaustivamente dará dezenas de resultados iguais. Uma alteração de ingredientes, de temperatura ou de tempo de assado fará bolos melhores ou piores. E o que vamos fazer em termos de novidades para o próximo ano?

De acordo com o dicionário, a palavra criar pode significar: gerar do nada, formar, imaginar, elaborar, inventar, fundar, causar, originar… há uma lista de definições para este verbo capaz de transformar nossas vidas para melhor, basta que tenhamos atitudes.

Obviamente, boas ideias devem ser levadas adiante, o importante é que sejam transformadas em atitudes, somente assim nossa caminhada poderá ficar plena de sentidos.

Então crie, copie (com responsabilidade), mas viva: exista!

Boas Festas !!!

Autor: César Augusto de Oliveira – psicólogo

O que nos educa é a diferença

A escola e a universidade são o contrário da nossa casa. Em casa, estamos entre iguais; na escola, entre diferentes. E o que nos educa é a diferença. Em casa, estamos no ambiente privado; na escola, num ambiente público. Em casa, estamos num ambiente que é nosso; na escola, num ambiente que é de muitos.

Há acontecimentos, alguns até de alta repercussão, que causam pouco impacto em nossas vidas. Porém, com outros acontecimentos, deveríamos aprender mais e nos preocuparmos com seus impactos na sociedade que queremos construir.

Algumas análises e evidências nos indicam que, com a pandemia, pouco aprendemos, apesar de seus impactos sociais, econômicos, humanos e educacionais. O processo eleitoral brasileiro pautado por polarizações, intolerâncias e violências indica que, também, não estamos tirando as aprendizagens possíveis e necessárias.

Continuamos concebendo adversários como inimigos e os diferentes com preconceitos sociais, políticos e étnicos. O que pensa diferente sobre a pandemia ou sobre o processo político eleitoral é considerado inimigo e precisa ser combatido.

Estes posicionamentos atingiram não somente a convivência social, mas, inclusive as famílias, escolas e universidades. As manifestações preconceituosas ocorridas em instituições de ensino, entre outras, indicam a necessidade de nos reeducarmos para uma vida compartilhada, com liberdade, cidadania e democracia. Ou produziremos a barbárie que imaginamos combater.

É preciso termos o discernimento de que a escola e a universidade são o contrário da nossa casa. Em casa, estamos entre iguais; na escola, entre diferentes. E o que nos educa é a diferença. Em casa, estamos no ambiente privado; na escola, num ambiente público. Em casa, estamos num ambiente que é nosso; na escola, num ambiente que é de muitos.  

A grande contribuição da escola é ser diferente da casa. Os professores diferentes dos pais.

Os colegas diferentes dos irmãos. Por essa razão, é tão importante a colaboração entre escolas e famílias, com funções diferentes, mas complementares na formação dos estudantes. A educação não serve para nos fecharmos no que já somos. Precisa servir para aprendermos a começar o que ainda não somos. 

A vida, acima de tudo, é condominial. Se a vida é o lugar onde vivemos juntos, o nosso planeta, o nosso país, a nossa cidade e a nossa escola é onde vivemos juntos. Escola, enquanto espaço comum, é um espaço de educação, convivência e de formação ética.

Aprender não é um ato individual ou privado, precisa dos outros. É na relação e na interdependência que se constrói a educação. Não aprendemos com nossa bolha, mas com a riqueza e pluralidade social que precisa estar expressa nas escolas e universidades, sejam públicas ou privadas.  

O ser humano é um ser social e gregário, é ser junto. A função socializadora da escola e da educação é ensinar a viver juntos. É formar para a cidadania, para fazer parte de coletividades, sociedades, culturas diversas, tribos, grupos sociais e profissionais.  

A educação deve formar pessoas e cidadãos éticos. Ética é uma relação com o outro, o alter, o diferente. Não basta empatia, pois nem sempre consigo me colocar no lugar do outro. Por isso é preciso formar pessoas com compaixão.  

Autor: Gabriel Grabowski  

 

Há bases bíblicas para se apoiar o feminismo?

Se depender de mim, farei coro com quem peita o sistema, esperançoso de que minhas filhas e netas viverão num mundo mais belo, bom e justo do que viveram suas avós. Se quiserem ser dondocas, que sejam. Pelo menos terão escolhido isso por conta própria e não por alguém lhes impor tal padrão.

Se dependesse de alguns, ainda estaríamos vivendo nos moldes da era vitoriana. É muito fácil pagar uma de defensor da família tradicional, paladino da moral e dos bons costumes, e com isso, detonar qualquer movimento social que não caiba nesta moldura. E é assim que se critica as feministas, como se estas fossem as principais responsáveis pela deterioração da família.

Já li e ouvi de alguns líderes religiosos que o número crescente de homossexuais se deve ao fato das mulheres terem deixado seus afazeres domésticos e o seu papel de mãe para se dedicarem a uma carreira profissional. Não precisa ser nenhum sociólogo ou psicólogo para perceber a desfaçatez desta alegação.

Creio, sem medo de errar, que as sementes que fizeram eclodir o movimento feminista podem ser encontradas ao longo das páginas da Bíblia Sagrada.

Nem a forte misoginia das culturas antigas conseguiu cimentar o solo onde estas “sementes de mostarda” foram deliberadamente depositadas. Daí encontrarmos figuras como Sara, a quem Deus ordenou que Abraão desse ouvidos. Rebeca, que não apenas participou ativamente da conspiração para transferir a bênção da primogenitura de Esaú para Jacó, como também foi quem recebeu o oráculo divino de que o maior serviria ao menor, e agiu para realizar a vontade divina, indo contra os padrões de sua época. Raquel que era pastora de ovelhas, atividade então restrita aos homens.

Débora, juíza em Israel, numa época em que os juízes governavam no lugar de monarcas. Poderíamos citar inúmeros exemplos (se veio atrás de versos bíblicos, perdeu seu tempo. Vou deixar para outra ocasião).

Ademais, ninguém valorizou mais as mulheres do que Jesus, a ponto de aceitá-las como discípulas, o que nem os filósofos gregos com toda a sua genialidade aceitaram.

Imagem JW.org

Mas gostaria de destacar uma mulher com a qual costumamos ser injustos: Vasti. Quando seu marido, rei Assuero, resolveu dar um banquete em seu palácio, Vasti, sua esposa, não deixou por menos, e promoveu também seu próprio banquete. Ao ser convocada para deixar tudo e atender a Assuero que pretendia ostentá-la diante dos convidados devido à sua exuberante beleza, Vasti simplesmente se negou a atender.

Vasti era uma mulher à frente de seu tempo, que não queria ser vista como um objeto decorativo, mas um ser humano portador de dignidade intrínseca, que sabia pensar por si, que tinha sentimentos, vontade própria, e como qualquer outra mulher, não merecia ser subestimada. Sentindo-se constrangido diante dos convidados, Assuero, orientado por seus conselheiros, resolveu destituí-la, deixando vago o seu trono.

Foi Ester, uma linda jovem judia que venceu o concurso de beleza que visava substituir a rainha rebelde. Quero crer que todos conheçam esta história, e os que porventura não a conhecerem, sugiro que pesquisem. É uma das mais lindas histórias de empoderamento feminino registradas nas Escrituras Sagradas.

Ester era bem mais do que um rostinho lindo, um corpo escultural. Graças a ela, seu povo não sofreu um verdadeiro genocídio. Foi sua atuação junto ao rei que impediu que um homem chamado Hamã lograsse êxito em seu intento de extinguir os judeus que viviam na Pérsia. Como o decreto já havia sido estabelecido, o rei não pôde revogá-lo. Mas deu aos judeus o direito de se defenderem do ataque opressor patrocinado pelo próprio estado.

Até hoje os judeus celebram o Purim, festa alusiva àquele episódio de sua história. Naquele dia, eles puderam se defender de um estado opressor, fazendo uso de qualquer recurso que estivesse às mãos, inclusive lanças e espadas. Mas jamais foram chamados de terroristas por isso.

Se pensarmos bem, a ousadia de Ester se deveu ao caminho deixado aberto por Vasti. Mesmo que discordemos de sua antecessora em sua petulância, que a enxerguemos como uma quase vilã (o que não é verdade!), sem ela, Ester não teria encontrado a mesma facilidade para fazer o que fez. Ester simplesmente rompeu com todos os protocolos, arriscou a própria pele para salvar o seu povo.

Vejo hoje uma geração de mulheres desfrutando de direitos que foram conquistados lá trás graças ao atrevimento de muitas Vastis.

É fácil criticar aquela geração de mulheres que saiu às ruas fazendo fogueira com seus sutiãs. Mas se não fosse por elas, talvez ainda hoje as mulheres não usufruíssem do direito ao voto. A maioria teria que se contentar com os adjetivos de bela, recatada e do lar.

Em momento algum, flagramos Ester desdenhando de Vasti. Deveríamos, portanto, seguir seu exemplo, e valorizar quem lutou em muitos movimentos sociais, não apenas as feministas, para que vivêssemos numa sociedade mais justa e igualitária. Não fossem por esses, quiçá ainda convivêssemos com a vergonha da escravidão. Talvez não tivéssemos o Estatuto da Criança e do Adolescente, o Estatuto do Idoso, a Lei Maria da Penha, etc.

Eu, particularmente, acredito que ainda haja muita coisa para mudar até que tenhamos uma sociedade mais justa e equilibrada. Por isso, prefiro colocar-me ao lado dos que lutam por direitos, e não dos que preferem que tudo permaneça do jeito que sempre foi.

A única coisa que pretendo conservar é meu idealismo, sem o qual, corro o risco de ser cortejado pelo cinismo e pela hipocrisia.

Se depender de mim, farei coro com quem peita o sistema, esperançoso de que minhas filhas e netas viverão num mundo mais belo, bom e justo do que viveram suas avós. Se quiserem ser dondocas, que sejam. Pelo menos terão escolhido isso por conta própria e não por alguém lhes impor tal padrão.

P.S. O anjo que anunciou a Maria que seu ventre geraria o Filho de Deus, só se ausentou após ouvir dela a autorização: “Que se cumpra em mim a sua palavra”. Afinal, o ventre era dela! A Sulamita do livro de Cantares é outra que rompe paradigmas, saindo sozinha pelas ruas em busca do seu amado, sendo protagonista em uma história de amor na qual o homem (o “amado”) é o seu objeto de desejo!

Autor: Hermes C. Fernandes                              

O que mais te preocupa: o passado, o presente ou o futuro?

Depressão é o excesso de passado, o estresse é o excesso de presente e a ansiedade é o excesso de futuro.

A resposta para esta pergunta parece óbvia, provavelmente você esteja pensando que é o presente, certo? Porém, para a maioria das pessoas isto não é tão claro assim.

Algumas estimativas dizem que, no máximo, chegamos a dedicar 65% do nosso tempo para pensar no presente. O passado ocupa as mentes de muitas pessoas por boa parte do dia, da mesma forma, outras focam seus pensamentos e desejos no futuro. Parece que o mais difícil mesmo é viver o presente embora ele seja o único espaço de tempo que nós temos algum controle.

Por que nos ocupamos com o passado?

Em determinadas situações os sentimentos do passado nos atormentam. Isto geralmente ocorre quando passamos por algum trauma, seja a perda de pessoas queridas, separações, fracasso nos negócios, o que fizemos que não queríamos ter feito ou o que deixamos de fazer e que nos arrependemos.

Alguns transformam o passado numa âncora que não os deixa seguir em frente, outros tentam sepultá-lo. Estes transtornos fazem parte da vida, mas se eles se transformam em apatia, então precisam ser tratados.

Por que nos ocupamos com o futuro?

O futuro pode significar esperança ou ameaça. Geralmente sonhamos com um futuro melhor, fazemos planos de quando tal coisa acontecer, aí sim seremos mais felizes. Algumas pessoas esperam pela aposentadoria para fazer algo que gostam ou para mudar para o lugar dos seus sonhos. Outros fazem planos para quando terminarem de pagar a casa, quando não precisarem mais pagar a pensão, quando não tiverem mais que conviver com alguma coisa que lhe custa dinheiro, tempo ou lhe causa incômodo. A esperança de superar estes momentos move muitas pessoas. A felicidade ou a vida desejada certamente virá no futuro. Por outro lado, para quem valoriza as incertezas, o futuro pode ser preocupante. Surge o medo do desemprego, de não poder pagar as suas contas, de aparecer uma doença ou de acontecer algo de ruim para uma pessoa querida.

E o presente?

O presente parece que anda no piloto automático, ao acordarmos pela manhã, já sabemos o que teremos que fazer nas próximas 24 horas. Nosso cérebro desperta pensando em como evitar os momentos de estresse. O que fazer para não chegar atrasado? Como entregar a tarefa do dia? E aquela reunião chata que temos que participar? Tentamos inutilmente ter controle sobre o presente, mas ele sempre nos escapa e precisamos reorganizar os planos.

Não sei a autoria da frase que explica os excessos e que para mim faz muito sentido: “depressão é o excesso de passado, o estresse é o excesso de presente e a ansiedade é o excesso de futuro”.

Dependendo da fase da vida em que nos encontramos, poderão pesar mais os pensamentos do passado ou do futuro. O jovem sonha mais com o futuro do que o idoso, que ocupa seus pensamentos mais com o passado.

Gostei muito de uma análise atribuída a Santo Agostinho, que diz: “o passado é uma memória que trazemos para o presente, mas que não é exatamente como aconteceu. E o futuro é uma visão do que não foi vivido e que talvez nunca venha a existir”. E quanto ao aparente dilema entre investir no presente ou guardar para o futuro, podemos dizer que isto se resolve com a ideia de “nem tão formiga, nem tão cigarra”, ou seja, o equilíbrio entre poupar e se poupar.

Fazendo uma analogia com as navegações, diria que o passado é o porto de onde partimos e o futuro é onde queremos chegar, enquanto o presente é o navegar. Nos sentimos felizes quando chegamos ao destino desejado, mas a vida é movimento e ficar no porto por muito tempo é não aproveitar os ventos que sopram. Penso que a vida é algo semelhante ao navegar, o passado e o futuro são referências, mas só podemos desfrutar é do presente.

Desligue o complicômetro e carpe diem (aproveite o momento)!

Autor: Luis Felipe Nascimento

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