A violência como ideologia e estratégia política

Até quando beberemos, com o café da manhã ou com a cerveja do fim de tarde, a ideologia que atribui à violência e à morte o poder de promover paz e segurança?

Sei que falar ou escrever com as vísceras é perigoso. A comoção pode distorcer o olhar e levar à perda da objetividade. Pode também conduzir a agredir a dignidade dos outros. Mas eu assumo esse risco, e confesso: Não consigo abordar com conceitos comedidos e esterilizados a mal dita “Operação Contenção” e o monte de cadáveres que ela produziu.

Escrevo com a força das vísceras porque ainda me resta um pouco da humanidade que herdei dos meus ancestrais e a levo em minhas células peregrinas; porque recuso-me a embebedar-me de indiferença; e porque me inspiro em Jesus de Nazaré, cujas entranhas se remoíam diante do sofrimento dos pobres e da violência ou descaso dos opressores.

Por mais que queiram me convencer do contrário, o que ocorreu nos complexos da Penha e do Alemão não foi uma operação em vista da segurança da população, mas um massacre deliberado, inclusive como estratégia política. As vítimas não constam no mandado de prisão e dezenas de mortos não tinham passagem pelo crime. Isso não é prova suficiente?

Até quando beberemos, com o café da manhã ou com a cerveja do fim de tarde, a ideologia que atribui à violência e à morte o poder de promover paz e segurança?

A morte é estéril, não gera vida, apenas reproduz a morte. Por isso, tenho pena da morte, tão desejada, idolatrada e praticada, mesmo à revelia da lei e até como estratégia política.

A desolação torna-se insuportável quando, para coroar com ouro podre o vírus da indiferença e a banalidade da violência, deputados dedicam um minuto de aplauso às mortes contabilizadas, e o governador canta hinos que dão a entender que ele agiu inspirado e sustentado por Deus. Pobre Jesus Cristo, ele mesmo vítima da pena de morte…

Que ninguém recorra às Escrituras para afirmar que os criminosos devem pagar com a própria vida a morte que provocaram. Caim matou Abel, e, mesmo numa cultura que legalizava a vingança, Deus o protege para que não seja morto (cf. Gn 4,15). E Jesus, olhando para os agentes da violência que o assassinavam para “defender a segurança de Israel”, pede ao Pai que os perdoe, porque não sabem o que fazem (cf. Lc 23,34).

Autor: Dom Itacir Brassiani msf. Bispo de Santa Cruz do Sul. Também escreveu e publicou no site “Conviver como irmãos ou perecer como loucos”: www.neipies.com/conviver-como-irmaos-ou-perecer-como-loucos/

Edição: A. R.

Concurso da Logomarca Fórum de Prevenção ao álcool e tabaco premia estudante de escola pública

Essa conquista é motivo de orgulho para toda a comunidade escolar da EMEF Guaracy Barroso Marinho, que acredita no poder da educação e da criatividade como instrumentos de mudança.

Estudante Victor André da Silva Martins, da EMEF Guaracy Barroso Marinho, escola da rede municipal de Passo Fundo, conquistou o 1º lugar no Concurso da Logomarca do Fórum de Prevenção ao Álcool e Tabaco, competindo com diversos estudantes de escolas de Passo Fundo.

A arte, criada à mão, foi escolhida para representar oficialmente o Fórum de Prevenção ao Álcool e Tabaco, tornando-se símbolo de conscientização e transformação.

Essa conquista é motivo de orgulho para toda a comunidade escolar, que acredita no poder da educação e da criatividade como instrumentos de mudança.

Convidamos a diretora da EMEF Guaracy Barroso Marinho, Maria Lima, para expressar a alegria pelo reconhecimento feito ao estudante Victor André da Silva Martins.

“A EMEF Guaracy Barroso Marinho tem a satisfação de compartilhar importante conquista: o aluno Victor André obteve o 1º lugar no concurso de criação da logomarca do Fórum de Prevenção ao Álcool e Tabaco.

O resultado é fruto do talento e da dedicação de Victor, bem como do acompanhamento atento e comprometido da coordenadora Briane Schimitt e da orientadora educacional Solange Gusso Hiller, que estiveram presentes em todo o processo de desenvolvimento do trabalho.

Mesmo situada em um bairro distante do centro da cidade, a escola desenvolve diversos projetos que valorizam o protagonismo estudantil e incentivam a participação das famílias nas ações escolares.

A EMEF Guaracy Barroso Marinho acredita em uma educação que promove o desenvolvimento integral dos alunos, em suas dimensões intelectual, social, emocional e cidadã, contribuindo para a formação de sujeitos críticos e participativos.

Essa conquista representa o compromisso da escola com uma educação pública de qualidade e reafirma a crença no potencial de seus estudantes”.

Convidamos estudante ganhador do prêmio para nos falar sobre a importância do seu trabalho de desenhar.

“Estou muito feliz pelo reconhecimento e por poder representar a Escola Guaracy neste prêmio.

Comecei a desenhar observando os desenhos dos meus irmãos. Com a professora dos anos iniciais Beatriz Farezin, recebi incentivos e dicas para desenhar melhor.

O desenho que fiz para este Concurso surgiu de duas ideias: uma de um senhor entregue aos vícios e outro de um jovem triste e desolado pela difícil convivência e situação do pai.

Ao fundo, tem um quadro com o rosto da mãe rasgado. Representa uma família destruída pelos vícios do álcool e tabagismo.

Espero que este meu desenho ajude na conscientização dos problemas que surgem a partir do álcool e do tabaco, em todas as idades.

Desejo que meu trabalho de desenhar seja reconhecido, pois pretendo continuar com este tipo de arte.

Com o celular que ganhei no prêmio, agora tenho mais memória e recursos. Certamente, facilitará minha vida de estudante e no futuro do meu trabalho”.

Acesse rede social de Victor André da Silva Martins:

https://www.instagram.com/victorandre02811?igsh=MWt6Z2JzN3VmZzgyag==

Edição: A. R.

Do Bandinho de Letras à graduação em Psicologia: acadêmico conta sobre a sua trajetória na UPF

Luís Gustavo Dalchiavon Pies convive na Universidade desde criança, quando começou a sua formação.

Mais do que um local para estudar e produzir conhecimento, a Universidade de Passo Fundo (UPF) é, para muitos, um lugar onde é possível vivenciar momentos bons e importantes da vida. Esse é o significado da Instituição para o acadêmico do 6º semestre do curso de Psicologia, Luís Gustavo Dalchiavon Pies, de 20 anos, o qual, desde a infância, mantém um forte vínculo com a UPF realizando a sua formação como pessoa e profissional.

A trajetória do estudante na UPF iniciou aos 6 anos de idade, quando ele integrou o projeto Bandinho de Letras.

Luís Gustavo, com 11 anos, em apresentação junto com Bandinho de Letras. Coordenação: Eládio Vilmar Weschenfelder

Na adolescência, então aluno do Integrado UPF, Luís Gustavo cresceu, aprendeu e conheceu pessoas que se tornaram importantes e especiais. Atualmente, como acadêmico de Psicologia, além de se desenvolver profissionalmente nas aulas, o jovem atua como bolsista Fapergs do professor Dr. Altair Alberto Fávero, com atividades conectadas ao Grupo de Educação e Pesquisa em Ensino Superior (GEPES). Além disso, sua carreira acadêmica deve permitir que, no próximo ano, o futuro psicólogo faça um intercâmbio na Universidade Udelar, no Uruguai.

Para Luís Gustavo, a Universidade é um lar. “A UPF é o local em que eu passei a minha infância como membro do Bandinho. Onde eu conheço todos os prédios com a palma da minha mão, conheci muitas das pessoas mais especiais da minha vida, dentre amigos, professores e trabalhadores. É um ambiente que oportuniza o aprendizado e o conhecimento, onde eu cresci (e continuo, todos os dias, crescendo) como pessoa, estudante, e futuro psicólogo”, conta.

Psicologia como forma de ajudar

A escolha da Psicologia no Ensino Superior se deu, principalmente, por querer ajudar as pessoas. O acadêmico relata que sempre gostou de acolher o próximo, estando ao lado e escutando. “Nos dias de hoje, o ato da escuta torna-se cada vez mais importante, em um mundo tão acelerado em que, muitas vezes, muitos querem falar, mas poucos querem escutar o outro e apoiar. Na pandemia, quando estava conversando com amigos, após confortá-los depois de uma situação difícil, um deles me disse que eu teria talento para a Psicologia, e após isso, refleti que estudar a área e compreender as melhores formas de acolher, auxiliar e estar presente para alguém seria um excelente caminho para poder entender e ajudar as outras pessoas da melhor maneira possível”, comenta Luís Gustavo.

Já no 6º semestre do curso, o estudante destaca que a Psicologia da UPF oportuniza um ensino único, com um olhar ético voltado para os seres humanos como indivíduos únicos, sendo um curso humanizado e dinâmico.

“Contamos com um grupo incrível de professores, que tornam o processo de aprendizagem algo dinâmico, agradável e completo, nos proporcionando uma excelente formação teórica e prática. Dentro do curso, os estágios básicos e as atividades práticas, como visitas técnicas, viagens acadêmicas e desenvolvimento de oficinas, nos possibilitam aprender e executar ações práticas desde muito cedo no curso, o que nos permite refletir sobre com quais áreas da Psicologia mais nos identificamos e que gostaríamos de trabalhar no futuro”, compartilha Luís Gustavo, ao complementar que o seu objetivo como profissional é estar do lado das pessoas e tornar o dia delas melhor de algum jeito.

Acadêmico escreveu artigo sobre importância da Psicologia: www.neipies.com/por-que-a-psicologia-e-tao-importante-na-atualidade/

UPF além da graduação

Além de ser acadêmico, Luís Gustavo realiza outras atividades na Universidade que enriquecem a sua formação, como bolsista do GEPES. “Participo assiduamente dos encontros do GEPES e faço o desenvolvimento de escritas para o site sobre as atuações dos membros do Grupo e sobre o ‘V Curso de Extensão GEPES/PPGEdu: Currículo e Formação de Professores’. Ainda, marco presença em reuniões juntamente com o professor Altair e os demais bolsistas. Ademais, desenvolvo resenhas acadêmicas”, disse.

Estudante resenhou entrevista de Dr. Altair Fávero, coordenador do GEPES-UPF:www.neipies.com/coordenador-do-gepes-upf-entrevistado-sobre-o-papel-da-universidade-formacao-de-professores-e-15-anos-do-gepes-ppgedu-upf/

Explorando cada vez mais a sua experiência na Universidade, o estudante deve realizar um intercâmbio por meio do Programa de Intercâmbio Acadêmico Institucional (Piac) da UPF em 2026, no qual foi pré-selecionado neste semestre. A sua nominação já foi feita para a universidade de destino, e ele está à espera da carta de aceite da Universidade Udelar e da devolutiva aprovada do seu plano de estudos. “A princípio, o intercâmbio será realizado entre fevereiro e julho de 2026, e busco estudar e aprofundar meu conhecimento sobre muitos aspectos da Psicologia no Uruguai, principalmente os mais voltados para a Psicologia Social, que considero minha área favorita dentro do meu curso. Tenho muito orgulho em levar o nome da UPF juntamente comigo nessa jornada, e espero que realizar esse intercâmbio com a Universidade seja uma experiência inesquecível e muito enriquecedora para minha formação pessoal, acadêmica e profissional”, deseja Luís Gustavo.

Seja no Bandinho de Letras, no Integrado ou curso de Psicologia, as memórias do futuro psicólogo com a UPF existem desde muito cedo. “Dentro dos meus 7 anos como membro do Bandinho, me conectei com a UPF, com suas lindas paisagens, com os incontáveis livros presentes nas bibliotecas, com as salas e auditórios em que fazíamos nossas declamações de poesias. Por ter essa conexão tão grande, quando chegou a hora de pensar em onde eu realizaria minha faculdade, nunca tive dúvidas sobre o local, pois a decisão já estava tomada no meu coração. Na Psicologia, esse vínculo se fortaleceu. Estudo em um curso incrível, conheci muitos professores, estudantes e diferentes indivíduos que, atualmente, são parte não só da minha trajetória de vida, mas também da minha identidade”, finaliza.

Aos 11 anos, Luís Gustavo Dalchiavon Pies também participava de entrevista à TV Câmara falando do Bandinho de Letras. Assista: https://youtu.be/CqbHMcrJp9Y?list=PLDwf2YrZZoEf7fvSxWk8vYC_WythDyY84&t=548

Vestibular de Verão 2026

Se você sonha em viver experiências semelhantes e de valor como as do Luís Gustavo, o seu lugar é na Universidade de Passo Fundo. As inscrições para o Vestibular de Verão seguem abertas até 16 de novembro. Saiba mais sobre os cursos ofertados e inscreva-se em upf.br/vestibular

FONTE: www.upf.br/noticia/do-bandinho-de-letras-a-graduacao-em-psicologia-academico-conta-sobre-a-sua-trajetoria-na-upf

Autoria: Comunicação UPF. Leia também neste site, matéria: UPF: conhecimento para o desenvolvimento: www.neipies.com/upf-conhecimento-para-o-desenvolvimento/

Edição: A. R.

APLetras e lançamento de livros na 37 Feira do Livro de Passo Fundo

Poesia, literatura infantil, obras populares e mais acadêmicas: os livros serão distribuídos à comunidade, fomentando a cultura e a leitura. Entre os títulos, destacamos “Flores Incultas” — o resgate do primeiro livro escrito em Passo Fundo — e “Poemas Livres das Gaiolas 2”, uma coletânea de poemas do público que frequentou a Feira do Livro de 2023.

O ser humano, por sua própria natureza, precisa de mais: buscamos sentido, significado, união e transcendência. Nessa procura pelo que há de mais humano em nós, a literatura ocupa um lugar de importante destaque.

​Iniciativas como a da Vereadora Eva Valéria Lorenzato são extremamente louváveis. Ela destinou uma emenda impositiva para a publicação de obras organizadas pela Academia Passo-Fundense de Letras – APLetras.

Graças a esse gesto, a APLetras estará lançando NOVE LIVROS nesta terça-feira (4), durante a programação da 37ª Feira do Livro de Passo Fundo!

​Poesia, literatura infantil, obras populares e mais acadêmicas: os livros serão distribuídos à comunidade, fomentando a cultura e a leitura. Entre os títulos, destacamos “Flores Incultas” — o resgate do primeiro livro escrito em Passo Fundo — e “Poemas Livres das Gaiolas 2”, uma coletânea de poemas do público que frequentou a Feira do Livro de 2023.

Leia também: www.neipies.com/o-livro-que-nenhum-passo-fundense-vivo-ate-entao-havia-lido/

​Para saber todos os detalhes desses lançamentos que celebram a literatura e a comunidade, assista ao LITERATURA LOCAL de hoje!

Link da entrevista: https://youtu.be/U6Wco8bj3YM?t=128

Autor: Aleixo da Rosa. Também escreveu e publicou no site “O curioso caso dos alunos que preferiram os livros”: www.neipies.com/o-curioso-caso-dos-alunos-que-preferiram-os-livros/

Edição: A. R.

Massacre como o ocorrido no Rio de Janeiro pode ser considerado parte de Política de Segurança Pública?

O que aconteceu no Rio na terça-feira, dia 28 de outubro de 2025, é inaceitável em uma democracia que vale a pena ser vivida. Empreender uma “verdadeira guerra” em território bem comum de cidadania é um ato que só produz morte e nunca poderá ser considerado uma política para garantir o direito fundamental de segurança pública.

O que passa na cabeça do governador Castro?

Bem, para quem até propôs um adicional para os policiais eliminar “criminoso” é revelador da afronta ao sentido mesmo de segurança pública numa democracia. Queremos direitos garantidos, mas não uma política que, sob justificativa de combate ao crime organizado, nega o devido processo legal na condenação e prefere o enfrentamento que acaba dando no que deu: muitos inocentes mortos por viver em periferia pobre, junto com criminosos que nunca poderão ser julgados por que eliminados. Aliás, se presos fossem, nossa política, que prefere o confronto, não garante a vida para quem é considerado criminoso, preso e julgado.

Ao governo do Estado do Rio parece que só conta eliminar os considerados bandidos, sem se importar com os muitos inocentes que podem ser fuzilados, só por ter que sobreviver em território “de risco”.  Sr. Governador, para onde eles podem ir senão aguentar a falta de tudo que são as favelas e os tais “complexos?”. Basta e basta! Impeachment no Castro e mais oito anos de inelegibilidade!

A primeira razão de ser de uma política de segurança pública é para garantir iguais direitos a toda cidadania. Aliás, criminalizar o consumo de drogas só pode levar a situações assim. Não só matanças, mas crimes. Basta ver o que o Trump e o poderoso exército sob seu comando estão fazendo no Caribe e Pacífico. Abater simplesmente pode ser aceitável? Por que não prende e averigua? Isto vale para nós aqui, para nossas cidades. Quantos mortos ainda precisamos chorar e contar com esta política de “guerra” inútil? Até quando vamos aceitar tal agressão a um direito fundamental de segurança, individual e coletivo?

Bem, podemos divergir como cidadãos sobre a melhor política. Mas estamos realmente buscando uma verdadeira política de segurança pública em todos os níveis de governo?

Concordando com muitos, considero a política de criminalização de drogas um erro e a pior forma de combater uma questão de vício e saúde, que sempre existiu e que a criminalização de seu consumo só aumento mortes e em qualquer lugar do mundo vem se mostrando ineficaz.

Não seria melhor considerar o consumo de drogas como uma grave questão de saúde ao invés de usar arsenais de repressão que só estimulam mais e mais o próprio tráfico e seu investimento em armamento com armas letais e até bombas jogadas por drones, como noticiado e visto no caso de terça-feira, no Rio?

A Suíça, centro financeiro mundial e até de lavagem de dinheiro do crime organizado – pouco criminalizado neste mundo globalizado – na questão das drogas tem uma política de saúde antes e acima da repressão.

Vamos só imitar a lavagem de dinheiro e não os bons exemplos de políticas de cuidado com drogados da Suíça? É uma contradição, eu sei, mas vale a pena lembrar que boas políticas públicas sempre ficam atrás de mercados. Aliás, os traficantes são antes de tudo uma questão de mercado, de bom negócio e sua “ditadura”.

Bem, temos o imediato a tratar e encontrar formas de evitar que volte amanhã a acontecer: uma “guerra interna”, bem ao gosto de ditaduras repressivas e assassinas. Na verdade, simplesmente nada dá para esperar do Governo Estadual que temos, com grande conivência da própria Assembleia Estadual e um Judiciário… que deve muito, fazendo pouco para o que pode fazer. Afinal, é a institucionalidade do Estado do Rio que está em questão.

O que agrava tudo é constatar que os Governos Estadual e os Municipais não criam prioritariamente “virtudes” com suas políticas pois “deixam ao léu” as áreas periféricas e faveladas. Como lembrou-me minha filha, que trabalha na Barra mas mora em Santa Tereza, sobre o verdadeiro terror e paralização da cidade do Rio: “A Zona Sul é outra cidade e outro Estado, não o Rio”. Precisamos de muito mais cidadãs e cidadãos do Rio que vejam assim os contrastes de um território comum com muralhas, cuidando a cidadania de “ricos” e promovendo a repressão/guerra aos pobres”. Isto não pode ser considerado como democracia efetiva.

A política de Segurança Pública que a democracia e a diversidade para ser cidadania necessitam nunca poderá ter como base a possibilidade de usar prioritariamente a repressão e a violência armada, ao invés de ser uma ação assentada na prevenção da violência.  

O que aconteceu na terça-feira no Rio foi uma guerra interna do Estado contra a cidadania. Os inocentes assassinados não são simplesmente “mortes colaterais” em zona de crime. Se é “zona do crime”, foi o Estado negligente que permitiu se formar aí, exatamente nas periferias pobres e excluídas, longe do olhar do Estado e, no caso do Rio, da glamorosa “Zona Sul”. Temos uma cidade partida e políticas públicas partidas. O ocorrido mostra ação estatal desastrosa e até criminosa. “Balas perdidas” não existem, pois sempre são intencionais e dirigidas.

Estamos diante de ação estatal que é um desastre, tanto na concepção como na execução. Inadmissível em democracia, que, aliás, só floresce desde o chão da sociedade, desde os territórios que habitamos e onde buscamos viver tendo por princípio o cuidado, cuidado com todas e todos e cuidado com a própria integridade dos territórios. “Favelas são cidades” e não zonas de crime!

Sei que esperar no imediato algo virtuoso em termos de políticas públicas no Rio é quase perder tempo e mergulhar no desespero. Mas culpar o Governo Federal é ignorar que a Política de Segurança, como vem sendo pensada e proposta, precisa passar pela institucionalidade existe. Ou seja, depende de aprovação do Congresso, dominado pelo execrável “Centrão” – uma espécie de câncer implantado em nossa democracia institucionalizada, com suas virtudes e limites.

No Congresso não predomina a busca do bem público possível. Antes disto, predominam os interesses paroquiais de “lobbies” e do tal “Centrão”, mais preocupado em emendas parlamentares para seus redutos eleitorais do que com a democracia e a busca do bem comum e de direitos iguais na nossa diversidade.

Finalizo afirmando que não teremos saída se a Segurança Pública não for pensada e formulada como base em direitos iguais. Mais, não avançaremos se nós, a diversidade de cidadanias ativas neste nosso imenso país, não tivermos um foco especial em tal política pública.

Este nosso Brasil de múltiplas exclusões e até “guerras internas” depende da nossa ação, como cidadanias ativas na praça pública e apontando caminhos para mudanças profundas, entre elas na Segurança Pública.  Não podemos esperar por milagres em políticas! Ou nós agimos, pois somos a base de políticas, ou nada acontecerá.

Rio de Janeiro, 29.10.2025

Fonte: https://sentidoserumos.blogspot.com/2025/10/massacre-como-o-ocorrido-no-rio-de.html

Autor: Cândido Grzybowski, doutor em Sociologia pela Sorbonne, e ex-diretor do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas – Ibase.

Projeto Frutos da Terra entrega 22 hortas comunitárias em Esteio e Canoas – RS

O tema hortas, sejam elas domiciliares ou comunitárias, é recorrente em nosso site. Entendemos que uma horta é um laboratório de aprendizagem, seja de conhecimentos específicos de produção de alimentos, seja de conhecimentos que envolvam solidariedade, coletividade, empreendedorismo, cooperação, sustentabilidade.

Já publicamos no site.

Crianças degustam alimentos que elas mesmas plantam: www.neipies.com/criancasdegustam-alimentos-que-elas-mesmas-plantam/

Uma experiência associativa de horta domiciliar na cidade: www.neipies.com/uma-experiencia-associativa-de-horta-domiciliar-na-cidade/

Horta residencial é uma alternativa para quem quer economizar: www.neipies.com/horta-residencial-e-uma-alternativa-para-quem-quer-economizar/

Quando descobrimos o Projeto Frutos da Terra, uma parceria entre o Instituto Integrar a e a Petrobrás, vimos uma oportunidade de divulgar e promover iniciativas de hortas comunitárias como laboratórios de cidadania e de acesso a alimentos naturais e saudáveis. Entendemos, também, que projetos de hortas que são implantados em escolas ou em associações de bairros devem estar bem estruturados, com intencionalidade política e pedagógica bem claras, bem como devem ser orientados por profissionais da área técnica de produção.

Com alegria, conversamos com Docimar Querubin, Coordenador do Instituto Integrar, entidade responsável pela implantação deste projeto nas cidades de Canoas e Esteio.

***

P- Como surgiu a ideia de implantar hortas comunitárias na cidade de Esteio e Canoas?

R- O Projeto faz parte da carteira de projetos da Petrobras através do Programa Petrobras Socioambiental. O Instituto Integrar participou da seleção pública e foi selecionado em 2023 para desenvolvimento do projeto Frutos da Terra.

Surge da ideia de ampliar o debate e a construção de alternativas comunitárias na produção de alimentos em áreas urbanas.

P- Qual é a participação do Instituto Integrar – RS e a Petrobras?

R- O Instituto Integrar é a entidade responsável para desenvolver o Projeto Frutos da Terra no território da cidade de Canoas e Esteio e a Petrobras é a patrocinadora do programa, garantindo os recursos financeiros para a execução e desenvolvimento das ações.

Ao longo de três anos, a iniciativa oportunizará o plantio, o cultivo e o consumo de alimentos saudáveis. O objetivo do programa é oferecer para a mesa da comunidade um produto livre de qualquer tipo de agrotóxico e insumos que possam prejudicar a saúde da comunidade.

 P- Como uma horta comunitária pode ser um espaço ou ferramenta de educação ambiental?

R – O Projeto Frutos da Terra parte do princípio de que a questão ambiental é responsabilidade de todos, mesmo que em pequenos atos e ações. Desta forma o projeto aprofunda junto a comunidade elementos como alimentação, organização comunitária, direitos humanos, empreendedorismo e economia solidária.

Assim o projeto tem a intenção de que a partir das ações de hortas comunitárias a comunidade pode levar para suas casas essas experiências de cuidado, de alimentação e de preocupação com o planeta. Não podemos pensar em cuidar do planeta se não cuidamos de nosso quintal. Ao mesmo tempo em que sabemos que a qualidade de vida das comunidades só será possível se ela se tornar protagonista desse cuidado e ao mesmo tempo cobrar políticas públicas dos órgãos competentes para esta finalidade.

P- Quais são os detalhes da implantação e da continuidade das hortas nas comunidades no entorno da REFAP?

R – O Projeto tem uma duração inicial de 03 anos, conforme contrato assinado entre a Petrobras e o Instituto Integrar. Após esse período se a Petrobras considerar estratégico a continuidade do projeto o mesmo poderá ser renovado por igual período.

P – Qual é a vinculação/relação das hortas comunitárias com as práticas de educação formal (escolas e escolinhas)?

R – A vinculação com a comunidade escolar acontece em diversos momentos do projeto. Primeiro a relação da escola de educação infantil, fundamental ou ensino médio em participar na organização da horta comunitária, neste aspecto estamos com diversas escolas que tem atuado e isso ajuda na formação geral dos educandos e na articulação curricular em sala de aula em disciplinas como ciência, biologia, química, geografia, etc.

Em segundo momento o projeto proporciona aos estudantes e professores a experiência prática de convívio com a natureza e a produção de alimentos e, por fim, em terceiro momento temos a horta escola, um espaço que todas as escolas e turmas podem ir com o professor e desenvolver oficinas, cursos e conhecimentos voltados ao meio ambiente e a produção de alimentos. A Horta escola temos hoje na Associação do Hip Hop em Esteio e teremos uma na cidade de Canoas.

P – Quais já são os primeiros impactos que podem ser mencionados após a implantação das primeiras hortas comunitárias?

R – O impacto mais importante neste momento sem sombra de dúvidas está vinculado às primeiras colheitas e o consumo dos produtos que são produzidos na horta. Ver as famílias levando para suas casas um alimento saudável é extremamente gratificante e mostra que o projeto realmente colheu os primeiros frutos. A comunidade tem participado com alegria neste espaço de produção e ele vai para além da produção é um espaço de convívio, de tr4oca de experiência e de conhecimentos.

Para muitos é um retorno a infância ou a história dos pais e avós que plantaram e cultivaram a terra, então tem uma relação afetiva. Mas notamos que muitas comunidades estão transformando a horta comunitária como seu espaço preferido e se puderem estar todos os dias lá, elas estão. Outro aspecto importante é que a grande maioria das pessoas que participam da horta são mulheres e isso tem gerado alegria do encontro e da convivência entre elas. O Projeto proporcional muitos espaços de diálogo e formação com temos sobre direitos humanos, cultivo e plantio de alimentos e alternativas de rendas em comunidades com grande número de pessoas em situação de vulnerabilidade.

P – Quais são os principais objetivos finais traçados por este projeto?

R – O principal objetivo do projeto é de que no decorrer do mesmo as pessoas possam ter a oportunidade de convivência, de troca e de construção coletiva. Ter uma experiência de conviver com o outro, de apreender com o outro e de levar seus conhecimentos e trocá-los de forma natural. Se as comunidades chegarem ao fim do projeto com uma relação de troca e conseguirem perceber o mundo de outra forma, seus direitos, suas lutas e conquistas o projeto terá alcançado seu objetivo.

P- O que mais gostaria de considerar?

R – Esse projeto iniciou com uma meta de atuar em 22 hortas, sendo que duas dessas serão hortas escola, um conceito de aprendizagem socioambiental que mobiliza a comunidade e as escolas na perspectiva do cuidado com o mundo e com a natureza. Hoje estamos com uma demanda de 25 hortas, sendo que metade dessas já em produção e colheita e outras serão concluídas até o final de 2025. Para o ano de 2026 vamos investir em formação para a comunidade, em tecnologias de conhecimentos que estão por muito tempo abandonadas no cuidado e cultivo das hortaliças e dos produtos das hortas.

Vamos organizar espaços coletivos na cidade de Canoas e de Esteio, de troca entre os produtores de alimentos, de fóruns municipais que debatam a agricultura urbana nessas cidades. Já estamos participando e articulando com diversas entidades locais como Fórum da Agricultura Urbana de Porto Alegre, trocas com a EMATER, Institutos Federais e outros espaços coletivos que se preocupam com alimentação e meio ambiente.

Inauguração da horta Raízes do axé, No Ilê de Ogum e Iemanjá.

PARA SABER MAIS:

1. Conheça o projeto Frutos da terra no Instagram: https://www.instagram.com/reel/DNEJ5DhRim-/?igsh=aTZidmkxd2tkcmty

    2.      Bate-papo com a Professora Iara Pacheco projeto Frutos da Terra do Instituto Integrar: https://youtu.be/6d9kOC2q_38?t=1240

     3.      Site do Instituto Integrar – Canoas, RS: https:integrar.org.br/

    4.      Jornal do almoço ao vivo, direto da nossa horta geodésica: https://www.instagram.com/p/DQFdf2BkdAq/?img_index=1

     Fotos: Divulgação Instituto Integrar-Projeto Frutos da Terra.

    Edição: A. R.

    Passo Fundo pelo Clima: documento coletivo será apresentado na COP30, em Belém

    Atividade proposta pelo mandato da vereadora Marina Bernardes (PT) reuniu entidades ambientais, instituições de ensino e pesquisa, construtoras e incorporadoras, Poder Público e ativistas em torno da construção de uma carta com eixos temáticos sobre o clima em Passo Fundo

    A proteção e a promoção do meio ambiente como elemento central no desenvolvimento das cidades orientou as discussões da Pré-COP do mandato de Marina Bernardes, uma ação coletiva organizada pelo gabinete da vereadora durante a manhã de sábado (25), na Câmara de Vereadores. A iniciativa, explicou Marina, teve o objetivo de produzir um documento coletivo com ideias e metas locais que possam contribuir com as discussões sobre o futuro do planeta na COP 30, que ocorre em novembro, em Belém.

    Marina estará entre as lideranças ambientais do Rio Grande do Sul que integrará a COP das Juventudes, um dos espaços centrais de discussão no maior evento global sobre o clima. “Participar da COP vai ser importante para inserir Passo Fundo num debate internacional sobre o meio ambiente. Por isso, organizamos uma atividade de escuta e construção do que chamamos de ‘Passo Fundo pelo Clima’, uma carta em que diferentes setores da sociedade expuseram suas reivindicações e reflexões sobre o nosso papel local neste tema que tem impactos globais”, argumentou ela.

    Durante o encontro, que lotou as dependências do Plenarinho da Casa Legislativa, participaram ativistas, representantes de construtoras, membros de entidades e organizações ambientais, instituições de ensino e pesquisa e do Poder Público. “O debate sobre o meio ambiente atravessa a dimensão partidária, porque estamos todos envolvidos na produção de frentes de trabalho que garantam não apenas o futuro do planeta, mas como podemos chegar lá em condições menos desiguais. Todas as perspectivas são importantes e foram inseridas em nossa carta”, disse Marina.

    Entre as demandas apresentadas pelos participantes da agenda proposta pela vereadora Marina, a educação ambiental de crianças, jovens e adultos recebeu atenção especial. Para a coordenadora da Escola Pública de Sustentabilidade da Prefeitura de Passo Fundo, Gabriela Tagliari, que acompanhou as discussões, essa tarefa é central para fomentar uma conscientização da comunidade acerca da relevância de se defender e promover o meio ambiente em sua transversalidade. “A educação ambiental deve ser reforçada e precisa ser constantemente estimulada, envolvendo todos os públicos”, comentou.

    Conforme um dos coordenadores do Grupo Ecológico Sentinela dos Pampas (GESP), Paulo Fernando Cornélio, o Município precisa se dedicar a constituir uma política municipal de educação ambiental alinhada a outras legislações federais, dando uma continuidade e sistematizando ações que são realizadas de forma individual. “A educação ambiental precisa ser permanente, constante e atingir a todos os públicos”, defendeu, citando ainda que outro tema urgente a ser observado em Passo Fundo é a gestão dos resíduos sólidos e orgânicos e também a proteção dos recursos hídricos.

    Ao final do evento, as pessoas participantes assinaram a carta com os tópicos centrais que serão levados para os debates da COP 30 pela vereadora Marina. “Foi uma atividade sensacional, porque aproximou os atores envolvidos no debate ambiental e tornou possível uma construção coletiva que, agora, será tornada pública em oficial em Belém, durante a programação da COP”, finalizou ela.

    Meio ambiente como pauta transversal

    Para a vereadora Marina Bernardes, o meio ambiente precisa ser discutido a partir de sua transversalidade. “Não podemos isolar o componente ambiental dos outros setores econômicos, políticos, sociais e culturais. Eles estão interconectados e devem ser trabalhados de forma articulada”, defende a parlamentar, destacando que um dos eixos de seu programa de mandato coloca este assunto no centro das questões. “Desde o período eleitoral nós entendemos que uma cidade mais verde e sustentável é fundamental para o desenvolvimento de Passo Fundo. Por isso, alinhamos o eixo ‘Cidade Sustentável’ em que nos preocupamos em propor ações ambientalmente responsáveis, criando uma agenda pró-meio ambiente no município”.

    Edição: A. R.

    O livro que nenhum passo-fundense vivo, até então, havia lido

    Impossível afirmar, embora seja muito provável, que, se há um livro que nenhum passo-fundense vivo, até então, nesse começo de século XXI, havia lido, esse é Flores Incultas, de Bento Porto da Fontoura.

    Durante muito tempo, essa obra, publicada em 1875, foi considerada – erroneamente frise-se – a primeira de um autor passo-fundense. E bastou eu ter feito menção a esse fato, na coluna que semanalmente assino em O Nacional, na edição de 7 de abril de 2023, para que a suspeição sobre essa afirmação fosse, novamente, levantada. Então, só nos restou buscar as origens dessa assertiva e tentar desvendar o mistério, se, efetivamente, Flores Incultas foi ou não foi o primeiro livro escrito e publicado por um passo-fundense.

    Não há dúvida que, localmente, a relação entre Flores Incultas, Bento Porto da Fontoura e Passo Fundo, foi popularizada por textos e falas do acadêmico Paulo Monteiro. Mas, de onde Paulo Monteiro tirou essa informação? Quais fontes que ele consultou? Não casualmente, Paulo Monteiro e sua peculiar generosidade, distribuindo cultura e livros à mancheia, presenteou-me com três obras do seu acervo pessoal, nas quais encontrei o que eu buscava e, até um pouco mais, o caminho para seguir adiante.

    Acadêmico da APLetras, Paulo Monteiro, com o livro Flores Incultas.

    A primeira dessas obras foi o livro História da Literatura do Rio Grande do Sul, de Guilhermino Cesar, publicado pela Editora Globo, de Porto Alegre, em 1956. Uma preciosidade, autografada, no lançamento, pelo autor. Nesse livro, o célebre professor Guilhermino Cesar esmiúça autores e livros do Rio Grande do Sul, cobrindo o período 1737-1902. E, na página 244, vamos encontrar: “Anote-se também, somente para documentar a descentralização literária que aludimos em vários passos dessa obra, o aparecimento, na vila de Passo Fundo, de Bento Porto da Fontoura, com as suas Flores Incultas. Livro soberanamente cacete, de forma dura e inspiração tarda, seu único mérito é relembrar o pai do autor, a grande figura moral de Antônio Vicente da Fontoura, a quem o filho consagra algumas rimas lamentáveis: Foi o oito de setembro/ Que o feroz assassino/ No templo do Senhor/ Matou-me o pai tão dino”.

    Os outros dois livros, que Paulo Monteiro ofertou-me, são assinados pelo bibliógrafo Pedro Leite Villas-Bôas. Dois clássicos da literatura sul-rio-grandense: Notas de Bibliografia Sul-Rio-Grandense, publicado em 1974, em Porto Alegre, pela Editora Nação em coedição com o Instituto Estadual do Livro, sob os auspícios da Secretaria de Educação e Cultura do Rio Frande do Sul. E o Dicionário Bibliográfico Gaúcho, de 1991, publicado pela Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana (EST) em parceria com a Editora e Distribuidora Gaúcha Ltda (Edigal), em Porto Alegre.

    Pedro Leite Villas-Bôas foi figura de proa do Círculo de Pesquisas Literárias (CIPEL), fundado em Porto Alegre, em 1966. Dedicou-se à coleta de elementos bibliográficos e à ordenação de verbetes sobre autores e obras. Visitava bibliotecas públicas e particulares em busca de obras e confidenciou, pessoalmente, a Paulo Monteiro, que havia manuseado todas as obras que havia feito citações. Nos seus dois catálogos, sobre Bento Porto da Fontoura, ainda que com a marca da dúvida, posta pelo ponto de interrogação, foi taxativo: “Passo Fundo, RS, 12 de janeiro de 1840 (?) – Rio de Janeiro, GB, 25 de janeiro de 1913. Poeta, Bib: Flores Incultas, livro de rimas, 1ª Ed. 1875, 87 pág. Tip. Jornal do Comércio, P. Alegre”.

    Até aqui nada errado.

    Mas, não podemos ignorar que Guilhermino Cesar e Pedro Leite Villas-Bôas não são fontes primárias, que mereçam crédito incondicional a tudo que escreveram. Foi então que, depois de ter lido o que eu havia escrito, recebi uma mensagem de áudio da historiadora Mirian Ritzel, de Cachoeira do Sul, dizendo que Cachoeira também reivindicava ser a terra natal de Bento Porto da Fontoura, além de acrescentar muitas outras informações adicionais. Afinal, ele tinha uma forte relação com a cidade, por intermédio do pai Antônio Vicente da Fontoura (o articulador da paz entre os revolucionários Farrapos e o Império), além de ter atuado como advogado e dirigido o jornal Cachoeirense e ter colaborado com O Commercio. A dúvida de Mirian era se ele teria nascido em Cachoeira do Sul ou em Alegrete.

    Nesse ínterim, entraram na conversa os historiadores e acadêmicos Alex Antônio Vanin e Djiovan Vinícius Carvalho, que, em consulta a uma fonte primária, o livro de registros de casamentos da Igreja Nossa Senhora da Conceição Aparecida, desvendaram, de vez, a ligação de Bento Porto da Fontoura e Passo Fundo.

    Ele não nasceu aqui. Não é passo-fundense. Nasceu e foi batizado em Alegrete, conforme declaração dele próprio. Viúvo de Virgínia Rosalina Macedônia, com quem não deixou descendentes, se casaria, em segundas núpcias, na paróquia Nossa Senhora da Conceição Aparecida, no dia 22 de maio de 1873, com Virgília Ferreira Prestes, que era irmã do advogado, líder político e militar passo-fundense Antonio Ferreira Prestes Guimarães.

    Inclusive, no “prefácio” de Flores Incultas, ao encerrar com “Vosso cunhado e amigo, Antonio Ferreira Prestes Guimarães / Passo Fundo, 14 de Agosto de 1873”, isso fica, cabalmente, comprovado. Ou seja, a ligação de Bento Porto da Fontoura com Passo Fundo, que deu causa à confusão, foi de casamento e não de nascimento.

    Ninguém, em Passo Fundo, que eu tivesse conhecimento, vivendo nos tempos atuais, havia manuseado ou lido o livro Flores Incultas. Todavia, sabia-se da existência de um exemplar dessa obra no acervo da Biblioteca Central Irmão José Otão na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), em Porto Alegre. O título em questão faz parte da Coleção Júlio Petersen, que ao longo da vida tratou de reunir um vasto acervo bibliográfico sobre o Estado do Rio Grande do Sul, sobretudo, publicações das áreas de história, geografia e literatura. Após seu falecimento, a PUCRS adquiriu dos herdeiros o conjunto, disponibilizando-o à comunidade. O exemplar do Flores Incultas inicialmente fazia parte da coleção privada de Petersen, confrade de Villas-Bôas no CIPEL, sendo, possivelmente, o mesmo que foi manuseado pelo autor de Notas de Bibliografia Sul-Rio-Grandense.

    Seguindo a praxe demandada para obter acesso ao acervo de obras raras da PUCRS, finalmente, em 2025, Alex Vanin conseguiu, finalmente, tocar e fotografar, página por página, o raríssimo exemplar do livro de Bento Porto da Fontoura. Iniciava o périplo da nova edição de Flores Incultas.

    De imediato, digitou-se a obra conforme a versão original, obedecendo à grafia da língua portuguesa do século XIX. Ao mesmo tempo, iniciou-se a atualização da grafia segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990, que entrou em vigor no Brasil em 2009, e começou a busca por informações complementares sobre Bento Porto da Fontoura, para compor uma biografia do autor, ainda que breve.

    Alex Vanin localizou, em São Paulo, a Sra. Amaryllis Schloenbach, bisneta de Bento Porto da Fontoura, mas que, apesar da boa vontade, em função da idade avançada e dificuldades de visão e locomoção, não pode colaborar muito, pois desconhecia a história familiar. Todavia, ficou muito feliz em saber do lado poético do bisavô, uma vez sendo ela também poeta com livros publicados. Não foi sem motivos então, que, apesar das muitas possibilidades, a escolha, para ilustrar a capa da nova edição de Flores Incultas, recaiu em uma imagem de uma flor da espécie Amaryllis reginae, planta ornamental nativa da América do Sul. Um tributo, pela solicitude e disposição a colaborar, à bisneta de Bento Porto da Fontoura, a Sra. Amaryllis Schloenbach.

    Não se dispunha de fotografia de Bento Porto da Fontoura. Eis outra busca tão desafiadora quanto a obtenção de informações fidedignas sobre o autor de Flores Incultas. Foi então que eu lembrei de Pedro Paulo Pons, misto de filósofo e historiador amador, que havia conhecido no ambiente das casas de estudante da UFRGS, no começo dos anos 1980. O abnegado Pedro Paulo Pons, figura por demais conhecida no Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul e no Arquivo Público de Porto Alegre, saiu à cata de informações e da fotografia de Bento Porto da Fontoura. Vasculhou documentos, arquivos públicos e privados, levantou informações até então ignoradas ou pouco conhecidas sobre Bento Porto da Fontoura e, no acervo particular do médico Ronaldo Bastos, conseguiu a fotografia do autor de Flores Incultas, que ora ilustra a biografia do escritor nessa nova edição da obra. Nossa gratidão a Pedro Paulo Pons e ao Dr. Ronaldo Bastos!

    Enquanto, nesse entremeio, ao Professor Eládio Weschenfelder, foi solicitada uma análise sobre a obra e a filiação literária de Bento Porto da Fontoura, como poeta do século XIX, que também está inclusa na edição do livro que ora é publicada.

    Por fim, compete registrar o esmero e a qualidade do trabalho feito pelo historiador e editor Alex Vanin, que, além do bom-gosto para a estética apurada da apresentação do livro, foi cirúrgico no aporte de notas editoriais que valorizaram sobremaneira a obra. A nova edição de Flores Incultas, o primeiro livro escrito em Passo Fundo, sai, em 2025, pelo selo Lettere, da Acervus Editora, 150 anos depois dessa obra ter sido, originalmente, publicada em Porto Alegre. E ficou um primor!

    Finalmente, compete deixar explicitado o apoio dado à publicação desse livro pela Câmara de Vereadores de Passo Fundo, por intermédio de emenda parlamentar, de autoria da nobre edil Eva Valéria Lorenzato, direcionada à publicação de obras relevantes para a cultura local. E Flores Incultas, indiscutivelmente, faz parte desse grupo de obras.

    Sinta-se privilegiado ou privilegiada em poder manusear e ler o primeiro livro escrito em Passo Fundo.

    Livros que serão lançados em Sessão coletiva na 37@ Feira do Livro

    Fotos: Divulgação/arquivo pessoal

    Autor: Gilberto Cunha. Também escreveu e publicou no site

    Edição: A. R.

    Transferência dos 9ºs anos para a rede estadual: reorganização ou retrocesso educacional?

    Mais do que uma simples mudança administrativa, a decisão de transferência dos 9ºs anos coloca em debate o tipo de educação que desejamos construir: uma educação centrada em planilhas e divisões legais ou uma educação voltada para as pessoas, para os vínculos e para o desenvolvimento humano?

    No último dia 17 de outubro, muitas comunidades escolares foram surpreendidas pela decisão do Governo Municipal através da SMED transferir os 9ºs anos de quinze escolas municipais para a rede estadual de ensino. À primeira vista, pode parecer apenas uma reorganização administrativa, uma solução para resolver o problema de falta de vagas na Educação Infantil. No entanto, essa medida traz implicações profundas para a vida escolar de alunos, famílias e professores.

    Leia também aqui: www.radiocaxias.com.br/prefeitura-de-caxias-transfere-928-estudantes-de-9o-anos-de-15-escolas-municipais-para-estaduais-a-partir-de-2026/

    O argumento oficial é o de que a demanda de vagas para a Educação Infantil é maior que a capacidade das escolas, outro argumento utilizado é sobre a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) a qual define que os municípios devem priorizar a Educação Infantil e o Ensino Fundamental, enquanto os estados assumem o Ensino Médio. Porém, o 9º ano faz parte do Ensino Fundamental, etapa em que os municípios têm larga experiência e tradição pedagógica.

    Em muitas escolas, essa turma representa a conclusão de um ciclo, sendo o momento de síntese de todo um percurso formativo construído ao longo dos anos. Transferir os 9ºs anos significa romper vínculos afetivos e pedagógicos estabelecidos entre alunos e professores. A mudança de rede implica novos ambientes, novas metodologias e novas relações, justamente em um momento de transição delicado para o adolescente. Além disso, a medida foi tomada sem diálogo com a comunidade escolar, o que reforça uma lógica burocrática e autoritária em que a educação é tratada como questão de gestão e não de formação humana.

    O resultado pode ser um prejuízo pedagógico e emocional para os estudantes, que se veem obrigados a se adaptar rapidamente a uma nova realidade. Do ponto de vista das redes, há também o risco de sobrecarga para o estado e o esvaziamento das escolas municipais, que perdem parte significativa de seu corpo discente e docente.

    A educação pública precisa ser pensada de forma integrada e cooperativa. Estado e município não devem atuar como estruturas concorrentes, mas como parceiros no compromisso de garantir continuidade e qualidade ao processo educativo. Decisões que afetam o cotidiano escolar exigem escuta, planejamento e responsabilidade social.

    Mais do que uma simples mudança administrativa, a decisão de transferência dos 9ºs anos coloca em debate o tipo de educação que desejamos construir: uma educação centrada em planilhas e divisões legais ou uma educação voltada para as pessoas, para os vínculos e para o desenvolvimento humano?

    A decisão tomada foi um golpe duro à educação. Temos que nos preparar para o desmonte dos serviços públicos que está sendo implementado ao longo dos anos. E o preparo não deve ser somente como absorção dos impactos, mas sim com o enfrentamento aos ataques sofridos.

    Saulo Rodrigo Bastos Velasco. Professor de História e Geografia. Rede Municipal de Ensino de Caxias do Sul Especialista em Metodologia do Ensino em Filosofia e Sociologia. Escritor e Pesquisador. Esta é a estreia de sua coluna no site. Bem-vindo!

    Edição: A. R.

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