A criança só precisa sentir que não está sozinha

Temos visto nos consultórios de psicologia e psicanálise, muitas crianças falarem dos seus amiguinhos imaginários como se eles fossem os únicos heróis verdadeiros aos quais podem recorrer nas horas difíceis, deixando de lado os pais, professores e responsáveis mais próximos, porque alegam que são esquecidas e largadas dentro de casa com seus brinquedos ou na escola com as diversas atividades escolares.

Ah, o mundo da criança! Este mundo tão belo e tão incompreendido pelos adultos. Talvez cada criança seja como o menino da peneira do nosso querido poeta Manoel de Barros que gostava dos vazios, pois eles preenchem as nossas dúvidas e nos dão a sensação de que não estamos sozinhos e de que somos livres para decidirmos o que desejamos.

Os pais, responsáveis e professores não conseguem compreender as situações gatilhos que despertam o medo, a angústia e a sensação de que um monstro vai entrar pela janela, de repente, e fazer mal à criança assustada.

Tudo o que a sua criança mais precisa ouvir de você é “Calma! Você não está sozinha!”, mas esta pequena frase é tão difícil de ser dita pelos adultos que costumam chamar as crianças de molengas ou coisa parecida como se os seus medos não fossem coisas importantes. Costumamos ouvir os pais sorrirem dos medos das suas crianças e em voz alta dizerem que já estão grandinhas para terem medo do escuro ou do bicho papão, quando na verdade, até nós sentimos medo várias vezes ao dia.

A sua criança precisa saber que ela não está sozinha em nada que for necessário fazer, principalmente nas tarefas que causam grandes ansiedades, onde elas vão competir com outras crianças, onde elas vão precisar ser corajosas e enfrentarem seus medos, pois assim como nós, as crianças também têm seus monstros e sentem que coisas horríveis podem acontecer se forem deixadas sozinhas. Cabe a nós mostrar para elas que não estarão sozinhas nunca.

E aqui se faz necessária a importância da presença física nas reuniões da escola, nos eventos culturais, no esporte e lazer onde a criança precisar estar com os seus amiguinhos, principalmente se esta for a sua primeira vez e se tiver a presença de estranhos. Competições deixam qualquer um assustado, mas olhar na arquibancada e vê um sorriso com alguém vibrando por a gente não tem coisa melhor! É assim que a sua criança vai se sentir, ou seja, feliz!

Tire um tempinho para se fazer presente nas atividades da sua criança, pois ela crescerá mais saudável e preparada para vencer os obstáculos do mundo sabendo que terá sempre um abraço, uma palavra de conforto, um sorriso, um olhar…, qualquer coisa em que poderá se confortar quando sentir que seu pequeno mundo está sendo invadido por criaturas que não foram convidadas por ela.

O mundo da criança é como os vazios. E nos vazios, segundo Sartre com o seu existencialismo, nos sentimos livres.

Que o vazio de cada criança possa ser livre para poder brincar, pular, correr, cantar, dançar e com coisas lindas os preenchendo, pois a verdadeira liberdade não está nos gritos, nos castigos, no escuro, mas no carinho, afeto e cuidado.

É preciso saber amar a criança respeitando a sua subjetividade. Não deixá-la sozinha no escuro, não obrigá-la a tomar banho, não obrigá-la a comer, sem dar explicações, pois essa liberdade precisa de sempre saber o motivo pelo qual está sendo podada.

Não deixe a sua criança se sentir sozinha nunca.

Tenha cuidado quando for falar algo para ela, saiba usar as palavras para não causarem traumas. Fique com a criança até que ela se sinta confortável sozinha ou na presença de outras pessoas. O medo pode trazer sequelas para a vida adulta assim como a solidão. Sim, tem crianças que se sentem sozinhas!

A solidão na infância é um pouco diferente da dos adultos. Ela acontece logo quando a criança se vê sozinha e sem forças para fazer algo que gostaria. Ela não espera um tempinho para sentir falta. A criança depende de nós, adultos conscientes das nossas responsabilidades. Sejamos mais presença nas horas de silêncios, pois é nestes momentos que elas mais precisam conversar.

Temos visto nos consultórios de psicologia e psicanálise, muitas crianças falarem dos seus amiguinhos imaginários como se eles fossem os únicos heróis verdadeiros aos quais podem recorrer nas horas difíceis, deixando de lado os pais, professores e responsáveis mais próximos, porque alegam que são esquecidas e largadas dentro de casa com seus brinquedos ou na escola com as diversas atividades escolares.

Se você tem uma criança que gosta mais dos vazios do que das coisas cheias, procure dar mais atenção a estes vazios, pois vai depender do seu jeito de cuidar da criança como ela poderá preenchê-lo.

Você sabe que a solidão dói, então não deixe a sua criança senti-la. Fique com ela mesmo quando for difícil para você. Abra uma exceção. Ela está crescendo e logo sairá dos seus cuidados. Logo o mundo vai lhe mostrar grandes desafios e a sua presença não será tão marcante o quanto agora.

A pior solidão é aquela onde há duas ou mais pessoas e ninguém fala um com o outro, deixando a criança esquecida no quarto de dormir com uma tela azul à sua frente. Experimente ser companhia para a sua criança. Tire alguns minutos do dia para ficar juntinho dela.

Autora: Rosângela Trajano. Também escreveu e publicou no site “A criança do século XXI no divã”: www.neipies.com/a-crianca-do-seculo-xxi-no-diva-psicanalitico/

Edição: A. R.

Ainda faz sol no coração do Brasil

Nesses tempos obtusos, seu texto mais do que do passado, nos fala do presente e dialoga com o futuro. Sua pedra literária angular preciosa é atemporal. Uma vez que nos aponta caminhos e nos lembra do amanhã e nossa responsabilidade com o porvir da democracia brasileira. Lembrar-nos do amanhã é um incensurável baluarte de luz; garantidor da justiça e das liberdades democráticas das futuras gerações. Porque, graças à luta e o sacrifício pessoal pela democracia, de milhões de brasileiros e brasileiras, e de famílias como a de Rubens Franken, “ainda” faz sol no coração do Brasil! (Jesus Iroci Couto Carrasco, no Pósfácio)

Repercutimos importante lançamento do Livro “Ditadura, Lei da Anistia e Golpismos: Histórias e reflexões” do autor Rubens Franken, em novembro de 2025.

Segue texto Prefácio, assinado por Júlio Francisco Caetano Ramos.

Prefácio

Recebi a difícil e honrosa missão de prefaciar a obra do meu querido amigo Rubens. Ser humano notável que soube mitigar as agruras sofridas ao longo da vida, em especial dos anos de chumbo da ditadura militar.

Ao ler (e reler) sua obra, sinto um ser preocupado com a vida, com a história e principalmente com a justiça. Escrever é algo notável. Admiro quem tem a capacidade (e a coragem) de redigir a vida, construir em narrativas as experiências vividas criando um legado para eternidade. Escrever é participar do processo de produção do futuro, por isso escrever é produzir tempo e memória.

O livro é uma sucessão contínua de instantes nos quais se desenvolvem eventos; é a complexa observação da realidade a partir da diferença entre passado e futuro construindo o futuro; escrever é transformar emoções em palavras; escrever é ato de generosidade com a condição humana. A obra consiste num relato emocionante sobre o Brasil, ligando de forma multidimensional o passado com o presente e suas projeções para o que está por vir. O passado nos afeta tanto quanto o futuro.

Em minhas caminhadas, e ao ler a obra de Rubens, lembro de uma expressão da religião africana: “Exu matou um pássaro ontem, com uma pedra que jogou agora.” O ser humano é produto de suas experiências. Partindo de uma saga de família, a obra aborda situações recentes que afetaram o destino de muitas famílias que não se calaram diante do arbítrio e das injustiças advindas do golpe militar de 1964. A Lei da Anistia de 1979 é retratada na obra sob diversos aspectos.

As múltiplas faces da anistia suscitadas pelo autor desvendam a complexa teia de contradições que a referida lei cria ao tocar a vida de vários atores, que foram atingidos pela violência do estado de exceção. Não existe direito sem passado, sem memória, essa é a primeira proposta da obra, resgatar o passado. Também vemos esperança na obra como tentativa de construção do futuro como instrumento possível e necessário. Também se lê a necessidade do perdão.

A existência humana necessita do perdão. O perdão não quer dizer simplesmente esquecer, implica selecionar o que se vai esquecer, mas com a sensação de que o passado não se repetirá, eis o grande desafio lançado pelo Autor.

A leitura nos remete a nossa condição básica e fundamental, a condição humana, com todas suas diferenças, sofrimentos, angústias, dúvidas e felicidade (s).

Nascemos pelo caos da aventura biológica; na morte, participamos da absoluta e inexorável tragédia cósmica. O ser mais corriqueiro, o destino mais banal participa dessa tragédia e dessa aventura e cada passagem da obra nos impõe essa reflexão, a finitude e a impermanência humana.

O livro é obra de coragem, mas, acima de tudo de paixão. Paixão que se manifesta em cada parágrafo. Impulso que se manifesta independentemente da consciência e da vontade do Autor, que sofre dele um efeito cuja causa não domina totalmente, descrevendo a dor de nascer, viver e perecer. A obra nos faz conhecer o humano, muitas vezes esquecido, sem separá-lo do mundo, mas situá-lo nele. Nos remete as clássicas e necessárias perguntas: Quem somos nós? Onde estamos, de onde viemos, para onde vamos? Qual o sentido de nossa efêmera existência? A saga do Autor – Rubens, ao expor sua vida, sua família e sua história, nos iguala e aproxima e, mesmo com todo sofrimento imposto e vivido, sentimos sua força individual. Fala do passado, do presente, do futuro, do perdão, da memória e, do mais importante: da força que a paixão de viver produz dentro de cada um.

Autor: Júlio Francisco Caetano Ramos. Advogado e Professor.

Os capítulos se organizam como um diálogo: convidam o leitor a pensar, sentir, lembrar, e, acima de tudo, a questionar. Qual o peso do esquecimento? O que ainda nos ameaça hoje? É possível seguir em frente sem nomear o que nos feriu? Este livro é, portanto, uma importante contribuição para os campos da história, do direito, da ciência política e da educação. Um instrumento de reflexão para leitores atentos às ameaças à liberdade e às oportunidades de fortalecer uma democracia verdadeiramente inclusiva, justa e consciente de sua trajetória.

Uma obra para quem se dispõe a caminhar pelas sombras com a esperança de reencontrar a luz.

Parabéns, Rubens.

(Texto do Editor – Mauro Carreiro Nolasco)

Sobre o livro

DITADURA, LEI DA ANISTIA e GOLPISMOS: Histórias e Reflexões.   ISBN 978-65-86274-71-4 – Editora Parthenon – Niterói –RJ . 158 p. 23 cm – 1ª. Edição – 2025.

Contatos e vendas pelo WhatsApp 53 9 9971 8055: Valor R$ 38,00 + taxa de entrega pelos Correios, em qualquer endereço para todo o Brasil, R$ 10,00.  Pagamento por PIX.

Edição: A. R.

Solidariedade e consumo

Hoje só o consumismo garante a manutenção dos círculos virtuosos da sociedade. Aumento de consumo gera maiores tributos, maior capacidade de intervenção estatal, maior lucratividade organizacional e manutenção das taxas de geração de ocupação e renda. O consumismo precisa ser substituído pela ideia de satisfazer as necessidades dentro de ciclos.

Lisabete Alves, coordenadora do serviço educativo da Fundação de Serralves, reflete sobre o paradigma do consumismo, o qual associa diretamente a concepção de sucesso e felicidade. Associar a capacidade de consumo de cada pessoa com satisfação existencial é algo disseminado por todas as culturas ditas “desenvolvidas” do planeta.

Hoje todos são confrontados com claros sinais de colapso da lógica do arranjo econômico global, apoiado em altos níveis de consumo, encontrando-se as pessoas, empresas e países por todo o mundo desenvolvido a viver acima das suas posses, com consequências a longo prazo, quer em termos financeiros quer em termos ambientais.

O planeta não oferece recursos em quantidade suficiente para suportar este modelo de desenvolvimento econômico, ou esta atual autopoiese sistêmica.

A autopoiese sistêmica dominante necessita ser alterada. Pois hoje só o consumismo garante a manutenção dos círculos virtuosos da sociedade. Aumento de consumo gera maiores tributos, maior capacidade de intervenção estatal, maior lucratividade organizacional e manutenção das taxas de geração de ocupação e renda.

O consumismo precisa ser substituído pela ideia de satisfazer as necessidades dentro de ciclos.

A abordagem sociológica e antropológica alicerça movimentos da sociedade que propugnam alterações ideológicas como apanágios para a solução de problemas ambientais.

Não ocorre encaminhamento de soluções, pois tanto vertentes socialistas como da livre iniciativa rezam pela cartilha de crescimento permanente como forma de incrementar círculos econômicos virtuosos.

Outro mundo é possível, mesmo dentro da livre iniciativa. Ocorre enfatizar que nada é contra a livre-iniciativa. Que sem dúvida sempre foi e parece que sempre será o sistema que melhor recepciona a liberdade e a democracia. Mas uma nova autopoiese sistêmica para o arranjo social, é urgente.

A civilização humana determinará nova autopoiese sistêmica, na acepção de Niklas Luhmann e Ulrich Beck, que contemple a solução dos maiores problemas e contradições exibidas pelo atual arranjo de equilíbrio.

Que é um sistema instável, muito frágil e vulnerável. Para sua própria sobrevivência, o “sistema” vai acabar impondo uma nova metamorfose efetiva.

Ao nível social, se sabe que este modelo de desenvolvimento apresenta também impactos elevados, na medida em que tantos dos produtos que se adquire são produzidos em países em que o respeito pelos direitos humanos, direitos da criança e outros tantos reconhecidos, não ocorrem adequadamente.

Por isto se afirma que o “sistema socioeconômico”, da forma como se conhece, influenciou na formação familiar, procurando maximizar as ações de consumo e apenas isto. Nenhuma preocupação com solidariedade, que só é incorporada na família estendida pelas senzalas.

O deslocamento maciço de bens através do planeta por ar, água ou terra apresenta um custo ambiental extremamente elevado e não contabilizado no preço do produto final. Assim, o crescimento demográfico, a diferença de acesso a condições mínimas de sobrevivência nas várias nações, as condições para a paz e justiça e a degradação ambiental constituem alguns dos desafios globais adicionais a resolver.

As pessoas se sentem prisioneiras de um sistema que se desenvolve a um ritmo vertiginoso, em que não existe tempo para parar, pensar, partilhar ou conviver com família e amigos.

É preciso trabalhar mais e mais para ganhar dinheiro para colmatar as necessidades que cada vez são mais e mais ou para pagar o que se consumiu a crédito.

O paradigma do consumismo incita-nos a tornarmo-nos competitivos e sufoca o desenvolvimento de outros sentimentos e afetividades. O individualismo impera. A solidão, a tristeza e o desespero são companheiros próximos de todos aqueles que não conseguem acompanhar o ritmo da máquina e mesmo de muitas pessoas que conseguem.

O valor econômico e felicidade são duas coisas que se vinculam, mas que percorrem caminhos distintos e se influenciam e são influenciadas pelo sistema.

A dependência dos circuitos globais coloca em causa a soberania dos países no que se refere ao aprovisionamento dos produtos para a sobrevivência dos seus habitantes, de entre os quais a mais evidente será possivelmente a soberania alimentar.

Que é a capacidade de cada nação produzir alimentos em quantidade suficiente para responder a uma parte significativa das necessidades da sua população.

Outras soberanias estão também em causa, como a energética, hídrica e geração de emprego.

No estado de dependência atual dos circuitos globais, não se possui um controle mínimo da realidade imediata.

Os seres humanos crescem, constroem a sua identidade e inscrevem as suas marcas no quotidiano, inseridos em contextos sociais que nem sempre conferem sentido às significações. Mas modela a sua forma de conceber e agir no mundo.

Em sociedade se desempenhar diferentes trajetórias e personagens, cada um deles em resposta direta a práticas e valores que se aprende a perceber como “naturais” ou “adequados”. A este conjunto de referências e significados e que confere sentido à existência, modelando práticas e atitudes, se chama “cultura”.

 FONTE: www.ecodebate.com.br/2019/04/30/solidariedade-e-consumo-parte-12-artigo-de-roberto-naime/

Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

Autor: Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.

Edição: A. R.

A tua presença é importante

Num mundo tecnológico onde a grande maioria de telefonemas resume-se a ouvir robôs e a digitar a tecla correspondente ao nosso anseio, onde há muito mais trocas de mensagens e de postagens do que falas ou conversas olho no olho, ESTAR PRESENTE, neste caso, fez a diferença. Paradoxalmente ao seu anúncio de nada fazer, Shoji Morimoto fez muito!

Recebi de um amigo um texto sobre uma história acontecida recentemente com um jovem japonês. Shoji Morimoto, cansado de trabalhos que não o satisfaziam, resolveu fazer uma publicação em redes sociais com as seguintes palavras: “Alugo-me para não fazer nada. Posso estar contigo, ouvir-te, acompanhar-te. Não cozinho, não limpo, não dou conselhos. Apenas existo contigo. Preço: transporte e comida”. 

Assista aqui: https://youtu.be/ni8k4uflkk0?t=14

Dizia que sua intenção era apenas pela expectativa de ver quais resultados adviriam, mas ficou surpreso no dia seguinte ao perceber que tinha recebido mais de 500 mensagens de pedidos. Uma mulher queria que estivesse junto enquanto fosse assinar os papéis de seu divórcio, após alta hospitalar decorrente de uma cirurgia; um jovem pediu-lhe que o acompanhasse caminhando em silêncio até sua casa.

Shoji foi convidado também para ver um pôr do sol, para segurar um guarda-chuva, para ouvir alguém chorar durante uma hora sem julgamentos e até para assistir a uma jovem subir ao palco, já que ninguém da sua família iria. Suas histórias foram publicadas em um livro ainda sem tradução no Brasil, porém, no site da Amazon encontramos a versão em inglês sob o título “Rental person – who does nothing” – que numa livre tradução soa como Pessoa de aluguel que não faz nada. Há também algumas entrevistas de Shoji no Youtube bem como matérias afins.

Estou escrevendo sobre um fato acontecido no oriente, onde a diferença cultural da população deve ser considerada e a honestidade é um valor social fundamental, visto como um pilar da confiança comunitária que impacta a segurança e a economia. Embora exista desonestidade, como em qualquer sociedade, a norma cultural japonesa valoriza a integridade e a palavra.

É possível encontrar em vários lugares do mundo anúncios de serviços de cuidadores e de acompanhantes, normalmente voltados a pessoas idosas ou a outras com alguma doença ou condição especial e que necessitem de ajuda.

No Brasil, o termo em uso é “concierge”, referente a uma palavra francesa que revela uma necessidade corriqueira: a de evitar a solidão e proporcionar autonomia a idosos saudáveis no cenário de aumento da longevidade. 

Segundo os profissionais que atuam com serviços de cuidadores ou de acompanhantes a pessoas idosas, a maioria das solicitações são feitas pelos filhos, os quais alegam falta de tempo por compromissos de trabalhos ou então com seus próprios filhos menores, e justamente por isso pedem ajuda. Também existem ofertas (de empresas ou da parte de algumas pessoas) para a prestação de variados serviços, tais como acompanhante em uma consulta médica, para ir à missa, para uma caminhada, etc., e a qualquer pessoa interessada, independentemente de idade ou condições de saúde.

Voltando ao nosso personagem oriental, é importante pensarmos sobre o que levou o grande número de pessoas a procurá-lo. Em uma de suas falas, ele deixa claro que não está na companhia de alguém para corrigir-lhe ou para julgá-lo, diz que sua proposta é apenas a de estar presente. Esta é a função que fez com que mais de 4 mil pessoas o procurassem, há muita carência no ser humano, e isto digo, também, embasado em minha experiência de mais de duas décadas de trabalho em psicoterapia. 

Num mundo tecnológico onde a grande maioria de telefonemas resume-se a ouvir robôs e a digitar a tecla correspondente ao nosso anseio, onde há muito mais trocas de mensagens e de postagens do que falas ou conversas olho no olho, ESTAR PRESENTE, neste caso, fez a diferença. Paradoxalmente ao seu anúncio de nada fazer, Shoji Morimoto fez muito!

Como estamos presentes na vida de nossa família? Com relação aos amigos, quando trocamos um abraço ou nos colocamos à disposição para algum auxílio? Estar presente é ser solidário, e isso fortalece laços sociais, familiares, dá sentido à vida e nos permite agradecer. Gratidão é o sentimento nobre que advém do bem que fizermos, não se trata de reconhecimento de terceiros, mas da consciência em sermos úteis. Tens dificuldade de expressar teus sentimentos? Sessões de psicoterapia propiciam momentos de franqueza, sinceridade sem julgamentos e auxiliam no processo de autoconhecimento, capaz de fortalece-lo em tua caminhada. Esteja presente em tua vida, comece por ti mesmo.

 Autor: César Augusto R. de Oliveira – psicólogo. Também escreveu e publicou no site “Grupos de whatsapp: a proximidade que pode afastar”: www.neipies.com/grupos-de-whats-app-a-proximidade-que-pode-afastar/

Edição: A. R.

As Instituições e a prisão preventiva de um ex-Presidente

O Brasil não pode ceder à tentação negacionista de demolir os pilares que sustentam a ordem jurídica. Em vez de pregar a destruição, que leva inevitavelmente ao caos e à insegurança generalizada, o momento exige a defesa intransigente da legalidade e o engajamento cívico para o aprimoramento contínuo das estruturas de poder.

O dia 22 de novembro de 2025 será uma data gravada na história brasileira. A decretação da prisão preventiva do ex-Presidente Jair Bolsonaro, independentemente das nuances jurídicas ou da avaliação política, não é apenas um evento midiático ou um desfecho judicial; é, sobretudo, um teste na estrutura institucional da República.

Este momento exige uma reflexão que transcenda a paixão ideológica e se ancore na profundidade do pensamento político, em defesa das instituições, especialmente as que simbolizam o funcionamento e a independência dos três poderes, buscando seu  aperfeiçoamento, pois a sua destruição equivale ao caos e à insegurança, transformando a vida em uma condição próxima ao humanamente insuportável.

 O Fato, a Estabilidade e o Aperfeiçoamento Institucional

A prisão de uma figura política central, especialmente um ex-Chefe de Estado, representa o ápice da tensão entre a esfera política e a judicial. Contudo, é fundamental interpretar esse ato como a manifestação do sistema, e não de sua falência. O poder de julgar, responsabilizar e punir é a prova cabal de que a engrenagem institucional, incluindo o Judiciário, o Ministério Público, e os mecanismos de segurança do Executivo, especialmente a Polícia Federal, continuam funcionando.

Os movimentos e a militância em favor da destruição do sistema institucional, se fragilizam com a concretização de um ato de tamanha gravidade, demonstrando que a República, ainda que enferma, possui anticorpos. O processo, o rito e a legalidade, por mais controversos que possam ser em casos de alta complexidade, são as únicas ferramentas capazes de mediar o conflito, evitando que a disputa política migre para o campo da violência generalizada.

Reconhecer a importância vital das instituições não é sinônimo de santificá-las. A tese da sobrevivência institucional é inseparável do imperativo de aperfeiçoamento.

O aperfeiçoamento das instituições significa garantir a celeridade e a igualdade perante a lei, blindando os processos decisórios contra pressões monetárias, restaurando a confiança pública por meio da retidão e da previsibilidade. Os movimentos para destruir as instituições ignoram a máxima de que não se pode curar um organismo matando-o. O foco deve ser na reforma e na consolidação da legalidade, e não na sua pulverização.

O Caos, a Insegurança e a Vida Insuportável

A destruição institucional é o retorno a um estado de natureza hobbesiano, no qual a vida é, na célebre formulação, “solitária, pobre, desagradável, brutal e curta”. A destruição do aparato estatal que garante os Três Poderes – o Legislativo, que cria a regra; o Executivo, que a implementa; e o Judiciário, que a interpreta e resolve conflitos – dissolve a própria base da segurança e da previsibilidade social.

A ausência de instituições independentes e funcionais significa a ausência de um árbitro imparcial, de um sistema de saúde acessível, de uma escola pública, de uma força policial sujeita à lei e, fundamentalmente, de uma moeda com valor. O caos resultante da destruição institucional não é um vazio neutro, mas a emergência de forças não mediadas: o poder bruto, as facções, o arbitramento pessoal e a barbárie. Nesse cenário de anomia completa, a insegurança torna-se a condição dominante, e a vida, desprovida das proteções básicas da civilidade, transforma-se em uma condição próxima ao humanamente insuportável.

A Prisão como Prova de Resiliência

O episódio da prisão preventiva de Jair Bolsonaro, neste 22 de novembro de 2025, deve ser encarado não como o fim da democracia, mas como a demonstração dramática de sua persistência. A decisão, enquanto ato de poder estatal, reforça a tese central: a instituição judiciária, mesmo sob fogo cruzado, cumpriu seu rito.

O Brasil não pode ceder à tentação negacionista de demolir os pilares que sustentam a ordem jurídica. Em vez de pregar a destruição, que leva inevitavelmente ao caos e à insegurança generalizada, o momento exige a defesa intransigente da legalidade e o engajamento cívico para o aprimoramento contínuo das estruturas de poder. Somente através da manutenção e do fortalecimento, e não da dissolução, dos pilares estatais é que se pode garantir um horizonte de previsibilidade e justiça.

Autor: Israel Kujawa. Também escreveu e publicou no site “O narcoterrorismo e o neoliberalismo para o século XXI”: www.neipies.com/o-narcoterrorismo-e-o-neoliberalismo-para-o-seculo-xxi/

Edição: A. R.

Os pobres devem estar no coração da vida cristã

Se impingimos aos pobres a culpa pela própria miséria e apresentamos a eles um Deus sempre pronto a premiar “os bons” com riqueza e prosperidade, estamos impedindo que conheçam o verdadeiro Deus.

O Papa Leão XIV se inspirou na declaração de fé de uma pessoa pobre e fiel na sua mensagem para a 9ª Jornada Mundial dos Pobres: “Tu és a minha esperança, ó Senhor Deus!” (Salmo 71,5). E começa sublinhando que os pobres são testemunhas de uma esperança forte e confiável, na medida em que a esperança que os move “é professada numa condição de vida precária, feita de privações, fragilidade e marginalização”.

É verdade que a pobreza mais grave é não poder contar com Deus. Se impingimos aos pobres a culpa pela própria miséria e apresentamos a eles um Deus sempre pronto a premiar “os bons” com riqueza e prosperidade, estamos impedindo que conheçam o verdadeiro Deus. Por isso, além de despertar os pobres para as causas estruturais da sua pobreza, precisamos apresentar a eles o coração e o rosto verdadeiros de Deus.

Na sua mensagem para esse dia, o Papa nos lembra que “a pobreza tem causas estruturais que devem ser enfrentadas e eliminadas”, jamais encobertas ou negadas. E isso não tem nada a ver com ideologias esquerdistas ou com ativismo político, mas com o Evangelho e a vida de Jesus Cristo.

Além disso, como cristãos, somos chamados a colocar sinais de esperança que testemunhem nossa solidariedade concreta e transformadora.

Não podemos ir ao encontro dos pobres ou falar deles apenas em alguns momentos especiais do ano, como uma espécie de alívio de consciência. Leão XIV nos adverte que, para a Igreja, eles não são um passatempo. Os pobres são “os irmãos e irmãs mais amados, porque cada um deles, com a sua existência e também com as palavras e a sabedoria que trazem consigo, levam-nos a tocar com as mãos a verdade do Evangelho”.

É tempo de tomar consciência de que “os pobres não são objetos da nossa pastoral, mas sujeitos criativos que nos estimulam a encontrar sempre novas formas de viver o Evangelho hoje”. Compadecer-se e ir ao encontro deles “é uma questão de justiça, muito antes de ser uma questão de caridade”. Isso não é algo que podemos fazer ou não fazer, nem bondade nossa. Eles têm direito a esperar solidariedade dos cristãos e da sociedade.

Por fim, o Papa sublinha que os pobres não podem estar à margem, mas devem ocupar o centro da ação pastoral da Igreja. E pede que, no espírito do Ano Jubilar, engajemo-nos em ações políticas que combatam as antigas e novas formas de pobreza, e em iniciativas de apoio aos mais pobres entre os pobres. “Trabalho, educação, habitação e saúde são condições para uma segurança que jamais se alcançará com armas”, diz o Papa.

Autor: Dom Itacir Brassiani msf Bispo de Santa Cruz do Sul. Também escreveu e publicou no site “Conviver como irmãos ou perecer como loucos”: www.neipies.com/conviver-como-irmaos-ou-perecer-como-loucos/

Edição: A. R.

Educação Infantil e Currículo

O grande desafio, afirmou Paco na conferência, é possibilitar que a Educação Infantil rompa com a lógica escolarizante e construa uma proposta própria, unificada e não discriminadora.

No dia 5 de novembro recente, ocorreu o quarto encontro do Curso de Extensão Currículo e Políticas de Formação de Professores, promovido pelo GRUPO DE ESTUDOS E PESQUISAS SOBRE EDUCAÇÃO SUPERIOR (Gepes) em parceria com o PPGEdu da UPF. O tema de estudo desta noite foi Educação Infantil e Currículo, e contou com a participação especial da conferencista Dra. Cassia Ferri (Furb) e Dr. Ademilson de Sousa Soares (UFMG).

Estiveram conectados no Encontro de forma virtual síncrona pelo meet ou pelo Youtube mais de 80 participantes envolvendo mestrandos e doutorandos, professores da educação básica, pesquisadores, alunos da iniciação científica e público em geral. Importante dizer que os participantes são provenientes de mais de 40 municípios Brasileiros espalhados nas cinco regiões do país.

Na intenção de divulgar para o grande público os trabalhos de pesquisa que são feitos no Gepes e no PPGEdu, no texto de hoje faço uma breve síntese das principais ideias que foram apresentadas pelos conferencistas e que estão nos dois textos indicados como leitura prévia para os participantes. Para os que desejarem assistir na íntegra as duas conferências, segue o link do canal do Gepes do Youtube, disponível gratuitamente:

LINK: https://youtu.be/rDBZ4Wu0_LA?t=30

Na primeira parte desta síntese, apresento algumas ideias mesclando a conferência de Cassia Ferri e o texto “Equidade, Justiça curricular e educação infantil: reflexões a partir da Resolução CNE/CEB n.º1/2024” (Ferri; Almeida; Lopes, 2025) indicado como leitura previa para o referido curso. Cassia Ferri é doutora em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP, mestre em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC, graduada em Pedagogia pela Fundação de Ensino do Desenvolvimento do Oeste. Atualmente coordena o Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas de Currículo e Avaliação – GPCA-FURB. Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Regional de Blumenau – PPGE/FURB e dos cursos de Pedagogia e demais Licenciaturas da mesma instituição.

Em sua conferência e no texto referido acima, Cassia Ferri partiu da constatação de que as desigualdades sociais ainda marcam profundamente o acesso e a qualidade da educação no Brasil, afetando, sobretudo, grupos socialmente vulneráveis. A Educação Infantil, primeira etapa da Educação Básica, é tomada como espaço central para a promoção da equidade e da justiça curricular.

Cassia analisou a Resolução CNE/CEB nº 1/2024, à luz dos pressupostos teóricos de Stephen Ball e Jefferson Mainardes (2024) e de Branca Ponce (, Thaís Costa e Wesley Araújo (2019), com base na epistemetodologia, realizando uma articulação entre epistemologia e metodologia. O objetivo foi o de problematizar o conceito de equidade na perspectiva da justiça curricular, entendida como a busca por uma educação de qualidade, democrática e socialmente justa.

Na primeira parte da conferência, Ferri realizou uma reconstrução do percurso histórico das políticas voltadas às infâncias. Iniciando com a criação do primeiro Jardim da Infância público (voltado à elite) em 1924, passando pelo reconhecimento da educação infantil como responsabilidade do Estado e da família, com caráter assistencialista (na constituição de 1934) e pela criação dos Parques infantis de Mário de Andrade (1935-1938) como sendo um marco cultural e pedagógico das políticas da infância que antecedeu a constituição de 1988. Na constituição cidadã de 1988, a criança passou a ser considerada como sujeito de direito e a educação infantil como dever do Estado. Outros marcos importantes apontados por Ferri foi o ECA (1990) que consolidou a proteção integral da infância, a LDBEN 9394 (1996), a Emenda Constitucional 53 (2006) e a Lei 11.274 (2009) que ampliou o financiamento e a obrigatoriedade da matrícula da Educação Infantil, as DCNEI (2009) que estabeleceram o currículo estruturado em eixos de interação e brincadeira, valorizando o direito ao brincar, ao cuidado e ao desenvolvimento integral, e, finalmente a Resolução CNE/CEB n.º1/2024 que introduziu as Diretrizes Operacionais Nacionais de Qualidade e Equidade, reafirmando desta forma a integração entre acesso, permanência, qualidade e equidade.

Todo esse percurso, em termos de políticas educacionais da infância, foi enfatizado por Ferri como sendo uma trajetória que mostra a passagem de uma visão assistencialista para uma concepção educacional, democrática e de direitos, embora persistam desigualdades estruturais.

O segundo ponto apresentado por Cassia Ferri em sua conferência está relacionado a articulação entre documentos curriculares, equidade e justiça social. Ferri destacou que os documentos de 2009 e 2024 partilham de uma educação integral, mas foi a Resolução de 2024, que ampliou o enfoque na equidade. O conceito de Justiça Curricular, com base em Ponce, Costa e Araújo (2023) foi enfatizado por Ferri a partir de três dimensões:

a) conhecimento (valorização dos saberes locais e das experiências das crianças, rompendo com o currículo homogêneo e hegemônico);

b) Cuidado (criação de ambientes afetivos, seguros e respeitosos, compreendendo o cuidar e o educar como ações indissociáveis);

c) Convivência (promoção da democracia participativa e do reconhecimento das diferenças culturais e sociais). A equidade, portanto, na abordada por Ferri na conferência, não se resume à redistribuição de recursos, mas exige o reconhecimento das identidades, culturas e vozes diversas das infâncias. O currículo assim é entendido como campo político e cultural, atravessado por disputas de poder e valores, e não como um conjunto neutro de conteúdos.

Outro ponto abordado por Ferri na conferência e também tratado no texto que serviu de base para os participantes do curso (Ferri; Almeida; Lopes, 2025), diz respeito ao deslocamento do contexto da produção do texto para o contexto da prática e como se articula a problematização da equidade. O movimento de transposição das políticas para a prática é analisado à luz de Ball e Mainardes (2024), que destacam a recontextualização das políticas, isto é, sua tradução e ressignificação nas escolas. Na prática, as intenções de equidade enfrentam desafios como: a) desigualdades históricas entre creches assistencialistas e pré-escolas elitizadas; b) falta de formação continuada e crítica para educadores; c) resistências pedagógicas conservadoras e práticas homogeneizadoras; d) carência de recursos e infraestrutura adequados.

Na interpretação de Ferri, a Resolução de 2024 busca superar essas dualidades ao reconhecer as diversidades étnico-raciais, culturais, territoriais e linguísticas, e ao integrar a educação com saúde e assistência social. Contudo, as autoras afirmam que a equidade só se concretiza no cotidiano das práticas pedagógicas, quando as políticas se transformam em experiências reais de inclusão, reconhecimento e justiça social.
A equidade, nesse sentido, vai além da igualdade formal e requer condições concretas de acesso, permanência e qualidade, integrando dimensões cognitivas, culturais e afetivas.

Foram inúmeras as contribuições que a conferência de Cassia Ferri e o texto de Ferri; Almeida; Lopes (2025) trouxeram para o debate da Educação Infantil, a equidade e a justiça curricular. De modo expressivo gostaria de registar os seguintes aspectos:

a) reafirmar a centralidade da justiça curricular como horizonte ético e político da Educação Infantil;

b) situar a equidade como prática cotidiana, e não mero princípio retórico;

c) propor a epistemetodologia como caminho teórico-metodológico para articular conhecimento, ética e prática;

d) evidenciar as tensões entre intenção normativa e realidade escolar, convidando à ação transformadora; e) reconhecer a Educação Infantil como espaço político, onde se constroem identidades, se exercita a democracia e se combate a reprodução das desigualdades.

Enfim, cabe ressaltar que a defesa do compromisso com a justiça curricular implica reconfigurar as relações de poder na escola, valorizar os saberes das crianças e das comunidades, e sustentar práticas pedagógicas que concretizem a equidade como direito e experiência vivida.

A segunda conferência da noite foi proferida pelo meu grande amigo Ademilson de Sousa Soares da Universidade Federal de Minas Gerais, carinhosamente chamado de professor Paco. O professor Ademilson é Pós-doutor em Educação (PUCMinas), doutor em Educação (UFMG), graduado em Filosofia (PUCMinas), atua em cursos de graduação e de pós-graduação da Faculdade de Educação da UFMG. Integrante do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Infância e Educação Infantil (NEPEI-FAE-UFMG) e do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Superior – GEPES-UPF. Editor-chefe da Editora Selo FaE (FaE-UFMG). Coordenador do projeto financiado pela FAPEMIG intitulado: “Análise das políticas para Educação Infantil a partir do pensamento de Hannah Arendt”. Coordenador da pesquisa em andamento “Metapesquisa no campo dos estudos da infância entre 2000 e 2024”. Participa junto com seus orientandos de mestrado e doutorado no Gepes desde 2023 e tem prestado uma contribuição ímpar para nossos estudos, de modo especial no campo da educação infantil. Neste escrito vou chama-lo carinhosamente de professor Paco. Na sequência exponho uma síntese das principais ideias apresentadas em sua conferência e contidas no texto “A educação infantil não rima com currículo escolar: palavras e conceitos que nos desafiam” (Soares; Silva; Lopes; Oliveira; Santos, 2025) indicado como leitura prévia para os participantes do curso de extensão.

A conferência do meu amigo professor Paco teve como foco principal demostrar por que a Educação Infantil não rima como o currículo escolar entendido em seu formato tradicional, como sendo uma lista de conteúdos, disciplinas e prescrições rígidas. Paco e os demais autores que escreveram o texto acima mencionado (Soares; Silva; Lopes; Oliveira; Santos, 2025) argumento que o currículo da Educação Infantil deve ser compreendido como conjunto de práticas que articulam experiências, saberes das crianças e conhecimentos culturais.

Para além da perspectiva normativa (Base, Diretrizes, Documentos), há palavras e conceitos emergentes que expressam uma outra concepção de infância e de currículo: identidade, inventividade, território, diversidade, projetos e justiça curricular. Os argumentos de Paco e do seu grupo estão baseados num qualificado e reconhecido estudo que produziu uma Base de Dados (BD) dos estudos da infância (2000–2022), composta por 4.015 trabalhos, da qual foram selecionados 143 estudos relacionados ao currículo, nos quais situam a discussão na tradição crítica e pós-crítica, mobilizando autores como Hall (2006), Ball (2004; 2006) e Apple (2001) para compreender currículo como texto político, cultural e ideológico.

A tese central defendida pelo meu amigo e seu grupo é de que um currículo para a Educação Infantil não pode ser equivalente ao currículo escolar prescritivo, pois a lógica da infância exige práticas inventivas, abertas e contextualizadas.

Na conferência Paco e nas reflexões do seu grupo existe muitas polêmicas que nos desafiam não currículo da Educação Infantil e estão presentes tanto nos debates históricos quanto nos desafios contemporâneos, os quais expressam tensões e polaridades das quais destacam-se:

a) assistencialismo x escolarização precoce; desde as análises de Kramer 1995) e Cerizara (1999) as análises oscilam entre modleos assistencialistas (voltados ao cuidado, higiene e proteção) e os modelos escolarizantes (focados em conteúdos disciplinares e preparação para o ensino fundamental);

b) Currículo prescritivo x currículo como caminha aberto: trata-se de uma disputa entre documentos bem escritos, linerarizados e universais de uma lado e a ideia de que o currículo deve ser processual, democrático e construído no cotidiano;

c) descompasso entre políticas, pesquisas e práticas: um grande distanciamento entre o que dizem as legislações (RCNEI, DCNEI, BNCC) e as práticas reais das instituições:

d) invisibilidade das crianças e ausência de participação infantil: a construção curricular ainda não incorpora suficientemente as vozes das crianças, seus modos de viver e produzir cultuar;

e) tensões entre Padronização nacional e contextos locais: a BNCC acabou padronizando e induzindo a adaptações forçadas das práticas, desconsiderando ou invisibilizando as culturas locais (escolas do campo, populações ribeirinhas, contextos indígenas, negros etc).

f) precariedades estruturais e formação docente insuficiente: a implementação curricular é visivelmente afetada e dificultada por condições materiais frágeis, ausência de plano de carreira para professores, formação inicial precária, carência ou ausência de formação continuada. O grande desafio, afirmou Paco na conferência, é possibilitar que a Educação Infantil rompa com a lógica escolarizante e construa uma proposta própria, unificada e não discriminadora.

Um ponto importante abordado pelo professor Paco na conferência e também explicitado no texto referência, diz respeito as palavras e conceitos centrais encontrados na análise dos 4.015 trabalhos que consta na Base de Dados (2000 a 2022) compilado por ele e seu grupo de pesquisa na UFMG. Na intenção de fazer “pesquisa sobre pesquisas” a equipe trabalho dois conjuntos de termos/conceitos:

  1. Conceitos recorrentes (normativos): são os conceitos mais ligados a políticas, documentos e prescrições (base, documento, política, diretriz, referencial, proposta, orientação). Todas estas palavras indicam a formação do campo normativo e da agenda oficial do debate curricular.
  2. Conceitos emergentes (cotidiano, experiências, invenção): são conceitos que revelam agendas pós-críticas e interculturais que afirma o protagonismo das crianças, o sentido social do currículo, os territórios vividos, as práticas inventivas, as lutas por justiça cognitiva, cultural e emocional. Neste segundo conjunto destacam-se palavras como identidade, projetos, território, diversidade, inventividade, justiça curricular. Os conceitos emergentes, afirmou Paco na conferência, constituem a chave para afirmar que a Educação Infantil exige um currículo diferente do escolar.

Tanto a conferência do professor Paco quanto o texto indicado como leitura prévia escrita por ele e sua equipe de pesquisa trazem contribuições importantes para o estudo do currículo da educação infantil. Dentre as contribuições destacam-se:

1) afirmação inequívoca da especificidade da Educação Infantil no sentido que ela não pode ser tratada nem como uma etapa preparatória, nem uma extensão do Ensino Fundamental, mas como campo que possui uma identidade própria;

2) Articulação entre estudos críticos, pós-críticos e decoloniais: identidades culturais, territórios, justiça curricular, escuta das crianças, percpectivas antirracistas e interculturais são conceitos/termos que abrem uma agenda promissora de pensar a articulação de diversos estudos;

3) Análise inédita da Base de Dados dos estudos da infância (2000-2022) composta de 4.015 trabalhos possibilita estudos amplos para indicar tendências, disputas, lacunas, necessidades de outras pesquisas, mudança gradual dos conceitos mobilizados;

4) Denúncia da força escolarizante da BNCC e das políticas de padronização, mostrando que os documentos nacionais sofrem influências globais, são tensionados por estas influências e muitas vezes restringem a potência da Educação Infantil;

5) Contribuição teórica e política para a afirmação dos direitos das crianças no sentido de lutar por um currículo que seja democrático, aberto, inventivo, contextualizado, construído com crianças, famílias e professores, que esteja atento à diversidade e aos marcadores sociais da diferença; por fim,

6) Reposição da centralidade do território, do brincar e da inventividade na produção curricular no sentido de reafirmar a Educação Infantil como espaço em que o currículo se faz nas relações, nas experiências, na cultura das crianças e, principalmente, na vida que se inventa no cotidiano.

Certamente, foi uma noite saborosa de conhecimentos sobre Currículo e Educação Infantil. As contribuições tanto de Cassia Ferri quanto do professor Paco nos ajudaram a pensar mais longe, compreender articulações, tensões, desafios e possibilidades de dar a Educação Infantil o lugar que ela merece nas agendas do tempo presente. Nossa gratidão aos dois conferencias.

Referências:

BALL, Stephen J.; MAINARDES, Jefferson. (Organizadores). Pesquisa em Políticas educacionais: debates contemporâneos. São Paulo: Cortez, 2024.

PONCE, Branca Jurema; COSTA, Thais Almeida; ARAÚJO, Wesley B. Justiça Curricular: por uma educação escolar comprometida com a justiça social. Editora Dialética, 2023.

Autor: Dr. Altair Alberto Fáveroaltairfavero@gmail.com Gepes/PPGEdu/UPF. Também escreveu e publicou no site “Ética, currículo e formação de professores”: www.neipies.com/etica-curriculo-e-formacao-de-professores/

Edição: A. R.

Emblemático!

Trezentos e trinta anos após sua morte, Zumbi segue nos vigiando do alto da Serra. A luta antirracista é também a luta anticolonial, logo anti-imperialista e de libertação nacional, lutas por sua vez estritamente conectadas com a luta pelo socialismo.

Na véspera de uma das datas máximas não só da negritude, também da brasilidade, o episódio de ofensas, injúrias e ataques contra o jovem deputado negro Renato Freitas, replica pela enésima vez a gravidade e profundidade daquilo tudo que nas profundezas das mentalidades, imaginários e ideologias se retroalimenta secular e colonialmente na vida cotidiana e social do Brasil e dos brasileiros.

A consciência política crítica e revolucionária – longe dos modestos pós-modernos e identitários – já compreendeu e sintetizou uma visão que unifica classe, gênero e raça e dá devida dimensão histórica e sociológica aos fatos, processos e realidades instituídas na carne e no cerne do Brasil que ousamos transformar.

Renato Freitas é mais um entre tantos que sofrem e enfrentam o drama e a tragédia do racismo, da discriminação e do preconceito potencializada pelo discurso de ódio, mentiras e pela própria violência – nada discursiva ou figurativa: física, carnal, letal.

A reação – motivo de hipocrisia ou escárnio por parte de internautas cujas mentes estão intoxicadas e as almas já parecem não ter salvação – criou uma falsa celeuma. Conhecessem os ignóbeis detratores do agredido – condição muito diferente da vitimização atribuída com notas de fraqueza – a concepção dos Panteras Negras ou da luta do MPLA, só para citar dois exemplos forâneos, calariam a boca.

Mas como conheceriam tais exemplos históricos se ignoram e recusam Zumbi e Palmares, se quilombos lhes são a versão apavorante do que nunca deveria ter sido porque a eles lhes agrada sentada, tronco e pelourinho? Se não compreendem que a periferia-favela tem sua razão de ser e existir na pobreza, mas também na resistência e identidade? Se são contra a emancipação racial, social e nacional como parte intrínseca de um único processo?

Trezentos e trinta anos após sua morte, Zumbi segue nos vigiando do alto da Serra. A luta antirracista é também a luta anticolonial, logo anti-imperialista e de libertação nacional, lutas por sua vez estritamente conectadas com a luta pelo socialismo.

Ao nosso companheiro Renato Freitas a máxima solidariedade; aos trabalhadores e trabalhadoras de ontem e de hoje – em sua maioria negros, quando não, ainda assim explorados e oprimidos – uma saudação vigorosa ao 20 de Novembro, Dia Nacional – e porque não internacional – da consciência negra, responsável pela construção da consciência geral de que um outro mundo é possível, necessário e urgente!

Autor: Alex Saratt. Professor de História nas redes públicas municipal e estadual em Taquara/RS. Saratt estreia sua coluna no site com esta publicação. Bem-vindo!

Edição: A. R.

Vozes Caladas

Pelas ruas da cidade / Racismo, misoginia, preconceito/ Isso não é drama, não é exagero. /É a verdade nua e crua/ de um mundo imperfeito.

Nas vielas por onde andas,

há rostos que o mundo evita.

Barracos pendem entre o barro e o céu,

sonhos costurados com fio cruel.

A fome não é só prato vazio,

é falta de oportunidade, falta de justiça.

Enquanto uns brindam com taças de ouro

outros mendigam migalhas no escuro.

A escola distante, o livro negado,

o futuro que surge, já está condenado.

Há quem diga que é questão de esforço,

sem ver que o ponto de partida é torto.

Em cada esquina, o racismo sussurra,

O preconceito impera, ele machuca.

Olhares maldosos… já chega por favor!

Quebremos correntes, clamemos AMOR.

Vozes caladas por anos na história

Hoje ecoam em busca de glória.

Memórias reprimidas, nunca esquecidas

Erguem-se fortes rompendo feridas.

Pelas ruas da cidade

Racismo, misoginia, preconceito

Isso não é drama, não é exagero.

É a verdade nua e crua

de um mundo imperfeito.

Que clama por atitudes

Que clama por respeito….

Autora: Professora Mara Regina Souza, professora da rede municipal de Passo Fundo. Poetisa.

Edição: A. R.

Livros no lugar de telas

Repercutimos, com certo atraso, entrevista de Martha Medeiros ao Jornal Extra-classe, jornal do SINPRO-RS, Ano 30, número 284, setembro e outubro de 2025. Esta entrevista revela o amor de Martha à literatura e a sua convicção do papel da leitura na formação das novas gerações.

Livro é expansão, aventura, viagem, autoconhecimento, promessas que as redes sociais não têm como fazer. “A entrega tecnológica nos satisfaz, mas não nos transforma”, afirma Martha Medeiros ao sintetizar as vantagens da literatura em comparação com as redes sociais. “Me pergunto como fazer para que a garotada que já nasceu com um celular na mão se interesse por um objeto sem luz, sem cor, sem imagem e som – e sem os algoritmos, que roubam a espontaneidade de tudo, moldam os nossos desejos. O jeito talvez seja divulgar o livro como algo que também é extremamente moderno”, aponta nesta entrevista a patrona da 71ª Feira do Livro de Porto Alegre – de 31 de outubro a 16 de novembro, na Praça da Alfândega.

Nona mulher a representar o maior evento literário a céu aberto da América Latina, Martha nasceu em Porto Alegre, em 20 de agosto de 1961, tem 40 anos de literatura, mais de 1 milhão de livros vendidos ao longo de uma exitosa carreira como cronista de jornal: escreve de forma ininterrupta há três décadas na Zero Hora e há 21 em O Globo.

Extra Classe – São 71 edições e apenas nove patronas. Por que essa invisibilização das mulheres na Feira do Livro de Porto Alegre?

Martha Medeiros – Nove patronas é pouco, claro, foram 62 homens até aqui. Mas a visibilidade das mulheres na literatura está cada vez maior e confio que muitas outras merecerão essa distinção, a fim de equilibrar este número e fazer justiça ao talento das escritoras gaúchas. O caminho está aberto para Eliane Brum, Leticia Wierzchovski, Claudia Tajes, Lilian Rocha, Eliane Marques, Julia Dantas, Carol Bensimon e tantas outras.

EC – O que representa ser patrona da Feira em um ambiente político contaminado pelo desprezo à cultura e às mulheres?

Martha – O desprezo à cultura e às mulheres é herança de um governo federal que não está mais aí. Temos que olhar para frente e saudar a diversidade. De minha parte, pretendo ser uma anfitriã da Feira, receber os leitores com alegria e informalidade, transmitir a ideia de que a leitura é um prazer tão necessário como escutar música, ir ao cinema. As pessoas não maratonam séries? Por que não maratonar um livro, emendar um capítulo após o outro, até concluí-lo?

EC – Acredita que a tua literatura, de maneira geral, deu voz às mulheres? Por quê?

Martha – Tenho muitos leitores homens, mas sem dúvida que a maioria do meu público é composto por mulheres, e com elas a identificação se dá mais naturalmente. Temos vivências e emoções em comum. Certamente, já dei voz a muitas delas, mas não existe estatística que comprove isso. O retorno é pessoal, acontece na rua, dentro do supermercado, na fila de autógrafo. Elas relatam que, em determinado momento de suas vidas, eu escrevi algo que foi inspirador, que as ajudou a tomar uma decisão, ou que as fez sentirem-se menos sozinhas. São frases recorrentes e que me enchem de satisfação, pois a literatura tem mesmo esse poder. Marina Colasanti teve o mesmo efeito sobre mim, abriu janelas no final da minha adolescência, trouxe assuntos que ajudaram a me formatar como mulher. É maravilhoso quando a gente se conecta sem precisar se conhecer pessoalmente. É um vínculo invisível, mas igualmente poderoso.

EC – Teu primeiro livro foi de poesia. Como começou a escrever crônicas e ficção?

Martha – Quando comecei a publicar poesia, em 1985, eu ainda era redatora publicitária, minha principal atividade. Publiquei quatro livros sequenciais, mas era um hobby, a poesia não pagava minhas contas. Só depois que voltei do Chile, onde morei por quase um ano, é que surgiu a oportunidade de escrever crônicas em jornal, sem nunca ter pensado nisso antes. Foi um divisor de águas. Minha primeira crônica saiu em julho de 1994, em Zero Hora. Era praticamente um calhau (não sei se é um termo que ainda se usa). Só mais adiante é que conquistei uma coluna assinada, e à medida que fui me estabelecendo, troquei a propaganda pela literatura. Quando me senti segura para novos voos, lancei Divã, meu primeiro livro de ficção, em 2002, a convite de uma editora carioca. O livro foi muito bem recebido no Rio de Janeiro e não demorou para virar peça de teatro. Ali, comecei a expandir meu trabalho para o resto do país. Dois anos depois, passei a ser colunista de O Globo.

EC – Quais são as tuas referências na literatura?

Martha – Além de Marina Colasanti, sempre fui muito fã do já saudoso Luis Fernando Verissimo, com quem divido o box Dose única, da editora Vitrola, a ser lançado em breve. Caio Fernando Abreu foi também um autor que me encantou desde o início, desde Morangos mofados, quando percebi o fascínio de se mergulhar mais profundamente em si mesmo. Eu lia mais autores nacionais que estrangeiros na adolescência, mas lembro também de Somerset Maugham, Herman Hesse, Dorothy Parker… Fome, de Knut Hamsun, me impressionou muito. Hoje, são inúmeros autores, brasileiros e estrangeiros, que me arrebatam. Acabei de ler O desabamento, de Edouard Louis. Estou gostando muito da autoficção que se produz hoje. E comecei ontem Dia de ressaca, da francesa Maylis de Kerangal, que já havia me cativado com o seu Coração e Alma.

EC – O livro perde leitores para o ambiente digital? Como lidar com isso e como evitar a dependência de crianças e jovens às telas?

Martha – Sem dúvida que a leitura perde para as redes, é uma competição desigual. O digital tem um poder de atração que condiz com o mundo de hoje, mais visual e imediatista. É preciso muito autocontrole para não se deixar abduzir pela quantidade inesgotável de conteúdo despejado nas redes. Eu pego o celular para buscar uma informação e, quando dou por mim, estou há vinte minutos olhando postagens de gente que nem conheço. É hipnótico. Por sorte, tenho o hábito da leitura desde criança, e capacidade de me concentrar, ainda que ela esteja um pouco comprometida. Também me pergunto como fazer para que a garotada que já nasceu com um celular na mão se interesse por um objeto sem luz, sem cor, sem imagem e som – e sem os algoritmos, que roubam a espontaneidade de tudo, moldam os nossos desejos.

O jeito talvez seja divulgar o livro como algo que também é extremamente moderno, que promete expansão, aventura, viagem, autoconhecimento. Essas promessas, as redes sociais não têm como fazer. A entrega tecnológica nos satisfaz, mas não nos transforma.

EC – Qual é a tua percepção sobre o espaço conquistado pela literatura antirracista, de gênero, periférica?

Martha – Sou uma fã empolgada da literatura que abraça distintos universos, que traz realidades apresentadas não por observadores distanciados, mas por quem vive o que escreve. Não acho que seja uma obrigação ser engajado, ainda que todo escritor, de certa forma, o seja, pela natureza da sua atividade, mas aplaudo a literatura que se propõe a ser inclusiva e faz isso com qualidade narrativa, como os livros de Jeferson Tenório, Eliane Marques, José Falero. Por muito tempo, enxergávamos o que acontecia fora da bolha através de um viés jornalístico e televisivo, que costumava favorecer uma visão marginalizada de quem fosse “diferente”. Ora, somos todos diferentes entre si, mas todos com direitos iguais. A literatura tem contribuído muito para esclarecer sobre essa questão que é básica.

EC – Qual é o papel da educação na formação de leitores?

Martha – Fico feliz de ver que a maioria das escolas hoje organiza sua própria Feira do Livro, e promove encontros entre autores e estudantes. É um passo. Mas é preciso investir em bibliotecas escolares, transformá-las num espaço de lazer e interesse dos alunos. Investir em atividades que os seduzam. Criar festivais de filmes baseados em livros, estudar as letras de música escritas por Chico Buarque, Leminski, Arnaldo Antunes. Agregar todas as artes em torno da literatura, incentivar grupos de teatro a montarem Guimarães Rosa, promover saraus de poesia, enfim, o livro tem que deixar de ser visto como algo chato. E, fundamental: pagar melhor os professores para que, entre outras coisas, eles possam consumir seus próprios livros, pois só assim conseguirão transmitir pra valer o amor pela leitura.

EC – Quais livros tu vais publicar neste ano de Feira?

Martha – Lançarei na Feira o box Dose única, da Vitrola: são dois livros de capa dura, em venda casada. Um é do Luis Fernando Verissimo, com curadoria de seus filhos, e o outro é um livro que reúne frases, versos, reflexões extraídas do meu trabalho nesses últimos 40 anos, “drágeas” da minha literatura, ilustradas pelo premiado artista gráfico Daniel Kondo. Ficou um projeto lindo, perfeito para quem quiser conhecer melhor, e de uma vez só, o trabalho de dois escritores do Sul. E a L&PM, com quem tenho uma longa parceria editorial, está relançando boa parte das minhas coletâneas em versão de bolso, o que celebro. Os pockets têm um custo mais acessível e são fáceis de serem transportados. Muitos, como eu, ainda preferem os livros físicos, então é uma bem-vinda facilitação.

FONTE: www.extraclasse.org.br/cultura/2025/10/entrevista-com-martha-medeiros-livros-no-lugar-de-telas/

Edição: A. R.

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