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“O livro dos pontos de vista” em forma de pizza literária

Um dos propósitos do site é realizar publicações sobre práticas educativas que apresentem diferentes metodologias e reflitam aprendizagens feitas por professores e professoras e pelos estudantes. Neste caso específico, trataremos de uma prática leitora com estudantes de sétimos anos do Ensino Fundamental.

A EMEF Zeferino Demétrio Costi, em Passo Fundo, RS, desenvolve, em 2024, um projeto de leitura chamado “Ler um livro é ler o mundo”. Quinzenalmente, um período é dedicado à leitura por todos os estudantes e professores da escola. Nessa experiência leitora, surgiu a obra “O livro dos pontos de vista”, do autor Ricardo Azevedo, para a realização de uma atividade interdisciplinar.  Foi realizada uma leitura compartilhada com a turma, utilizando também períodos de Filosofia e de Língua Portuguesa. A leitura necessitou de vários períodos para ser finalizada, fazendo-se leitura de um personagem por período (são 8 personagens no livro).

Chamou-nos atenção o livro tratar de pontos de vista, que nada mais são do que vistas do diferentes pontos. Cada sujeito, cada personagem, manifesta sua opinião a partir de seu contexto, de suas vivências e de suas percepções sobre a realidade, como é o caso desta história onde os personagens compartilham o mesmo lugar, mas veem o mesmo e também aos demais de maneira muito diferente.

Como ilustra a poesia abaixo, cada um tem seu ponto de vista.

Pontinho de vista (Pedro Bandeira)

Eu sou pequeno, me dizem,
e eu fico muito zangado.
Tenho de olhar todo mundo
com o queixo levantado.

Mas, se formiga falasse
e me visse lá do chão,
ia dizer, com certeza:
— Minha nossa, que grandão!

Em seguida, a professora de Língua Portuguesa fez uma discussão sobre os diferentes pontos de vista de cada personagem da obra que habitavam uma casa e seu entorno, um jardim: mãe, pai, filho e quatro animais de estimação: um cachorro, um gato, um sapo e uma tartaruga.

O autor descreveu, de maneira genial, as percepções do ambiente e das relações vividas pelos personagens.

Em grupos, definiu-se por um trabalho de sistematização da obra através da confecção de uma pizza literária.  Criou-se o grupo dos personagens humanos, dos personagens animais, do cenário da história e dos relatos da história.

A construção da pizza, como um dos resultados finais do processo, é representada pelos diferentes pedaços da mesma, como trabalho de cada grupo.

Aprendizagens

Para a professora de Língua Portuguesa, Ângela da Fontoura, “a ideia de “montar” uma pizza literária foi uma forma diferenciada de estimular realização da leitura e sem aquela tradicional cobrança da síntese da obra. A metodologia da leitura compartilhada oportunizou uma discussão a respeito da visão de cada personagem em relação aos demais. Instante também  do compartilhamento das impressões e vivências pessoais atreladas ao texto.   Foi também o momento da argumentação: a discussão com outros leitores enriquece a capacidade argumentativa e desenvolve as habilidades da oralidade, como   também o respeito à opinião do outro. 

Durante a leitura, foi preciso anotar as possíveis palavras desconhecidas, já que a prática leitora permite o contato com novas palavras. É o enriquecimento vocabular estimulado pela leitura. A atividade de montagem da pizza desenvolvida em grupo estimula a integração de vivências e de saberes.

Diante das etapas vivenciadas nas atividades, foi possível perceber que, como os personagens, nós também temos percepções diferentes diante de um mesmo contexto. Embora pensamos diversamente, podemos conviver de forma harmônica e respeitosa.  Também percebemos quão chato seria se pensássemos e agíssemos da mesma forma. O que nos enriquece como humanos é exatamente a nossa forma individual de pensar e agir.

Sugestões de aplicabilidade

Imaginamos que essa experiência de uma prática leitora possa inspirar outros colegas professores e professoras para realização de leituras de obras compartilhadas entre diferentes Componentes Curriculares ou mesmo diferentes áreas de conhecimento, gerando conhecimentos interdisciplinares e complementares, bem como diversificando metodologias de ensino e aprendizagem, tão necessárias para ressignificar a educação no contexto atual.

FOTOS: rede social EMEF Zeferino Demétrio Costi

Edição: A. R.

Temos que nos ocupar em desconstruir a estupidez

Pensemos e perguntemo-nos: é assim, mas poderia ser de outra forma? É assim, mas e se fosse de outra forma?

A estupidez, “notável falta de jeito para entender as coisas”, quando é um traço individual incomoda, mas quando faz parte da cultura de uma época é perigosa porque a naturalização irresponsável de tudo é o passo anterior ao autoritarismo e à aniquilação do pensamento.

Quase tudo no mundo que habitamos conduz-nos, empurra-nos sem resistência para formas de vida superficiais, para uma banalidade que inunda quase todos os níveis da nossa vida cotidiana, mesmo a das pessoas com níveis de formação sofisticados; sutilmente incutida na nossa vida de relacionamento, na educação, na política, na construção de representações do mundo, do outro ou da família.

Exercitamos formas utilitárias e rápidas de dar ação rápida, impensada e não criativa a qualquer situação que nos obrigue a pensar sobre por que fazemos o que fazemos, ou a rever as razões do nosso comportamento; Por esse caminho, passamos a qualificar como genialidade aquilo que nada mais é do que imbecilidade, a aderir alegremente a julgamentos de valores baseados em opiniões formadas levianamente.

Muitas vezes trata-se de microbesteiras, de simplificações, de repetições de lugares-comuns, da criação de uma forma de estar no mundo sem nos perguntarmos se essa forma é a única, se não existem outras, se respondem a que em algum momento, quando tivemos sonhos, pensamos no nosso pouco sentido existencial.

Temos uma tendência alarmante de aceitar como boa qualquer opinião coberta de dados e, não de acordo com isso, reproduzimo-la criando um emaranhado desordenado de ideias, sentimentos, opiniões, falsidades entre as quais às vezes escorrega uma meia verdade; não temos interesse em duvidar ou verificar nada. Em vez disso, repetimos, degradamos ideias, sentimentos, cultivamos um interesse pelos nossos semelhantes que é testado na primeira adversidade: o outro não responde o que esperamos ou não o faz imediatamente, ou o faz com nuances quando olhamos para uma resposta monolítica.

Somos fascinados pelas redes, verdadeiros esgotos do que é execrável num mundo criado ad hoc, em que, por exemplo, a sexualização da vida cotidiana vestida de transgressão engraçada causa estragos, especialmente entre os mais jovens que confundem a vida sexual com pornografia, que até uma criança acessa facilmente ou que nos invade compulsivamente.

Temos que fazer uma tarefa simples, mas chata: pensar contra o bom senso e até contra nós mesmos, em linguagem pugilística, colocar-nos como o outro contra as cordas, fazer o mesmo com o outro e perguntar e nos perguntar repetidas vezes por que, em relação a tudo aceitamos como evidente, ao que normalizamos.

Façamos isso repetidas vezes até que estejamos honestamente convencidos de que atingimos um ponto de convicção que admite dúvida razoável; não nos contentarmos com uma explicação que sabemos ser inconsistente e que, no entanto, aceitamos.

Pensemos e perguntemo-nos: é assim, mas poderia ser de outra forma? É assim, mas e se fosse de outra forma? E não importa que não tenhamos clareza sobre esse outro caminho ou maneira, mas que abramos espaço para a possibilidade de que isso possa acontecer.

O que mais desconcerta quem se alimenta de ódio, ignorância e simplificação são perguntas e afirmações sábias e bem elaboradas. (Nei Alberto Pies) Leia mais: https://www.neipies.com/minha-tolerancia-nao-alimente-sua-estupidez/

 Autor: Eduardo Corbo Zabatel. Ensayista, Psicólogo, Profesor de Historia, Magister en Ciencias Sociales. Mora em Buenos Ayres e está começando a ocupar a sua coluna neste site com esta publicação. Bem-vindo!

Edição: A. R.

Interrogações fazem falta

… a alegria está sempre ameaçada… para desgraça e ensinamento dos homens, a peste acordaria os seus ratos e os mandaria morrer numa cidade feliz.

Camus, A Peste, 1999, p. 269

O título faz uma afirmação [ainda que sem ponto final]. Constata que interrogações já não são tão comuns; adota o lado de quem as entende relevantes; formula um juízo indicativo de sua carência… e, ainda mais, que esta talvez seja a razão da sua própria irrelevância… viciosamente falando: a falta de interrogações leva à irrelevância da interrogação! [com uma exclamativa]. Está expressa a situação? [numa interrogativa].

A questão levanta a hipótese de vivermos um tempo no qual se evita ao máximo a interrogação e a reflexão anda escassa, senão ausente. E isso ocorre não porque teria havido um atrofiamento cerebral em consequência do uso excessivo de telas e algoritmos – ou talvez sim, por este motivo –, mas de cerco ao espírito, que passa a se proteger assentado em certezas e em tudo quanto for absolutamente absoluto e definitivamente pronto, dando vazão a fundamentalismos de todo tipo. Ainda haveria espaço para a vida do espírito? Eis a questão, melhor formulada.

A interrogação poderia ser não mais do que um simples sinal gráfico de pontuação, como qualquer outro. Mas, ela é muito mais. É uma questão [que é bem mais que uma pergunta], que denota uma dúvida, ainda mais, uma busca, na expectativa de resposta. Estaria na sua origem a palavra “quaestio”, já que seria uma figuração de sua primeira e última letras compostas “q” e “o”, que virou o “q” sobre o “o”: ? – assim, ou de ponta cabeça, como no espanhol, posto ao início e no final da frase interrogativa.

Victor Klemperer, que se dedicou a estudar a linguagem do Terceiro Reich (LTILíngua Tertii Imperii) (2009), mostra a análise de um filólogo que, tendo vivido o período, procurou entender como a linguagem foi usada para a manipulação ideológica pelos nazistas. Ele defende a tese de que a consolidação do nazismo foi acompanhada de sua dominação da linguagem que conseguiu permear o meio intelectual e popular: “o nazismo se embrenhou na carne e no sangue das massas por meio das palavras, expressões e frases que foram impostas pela repetição milhares de vezes, e foram aceitas inconscientes e mecanicamente” (2009, p. 55).

Ele mostra o uso de certos termos pelo nazismo. É o caso do termo “liquidar” (liquidiert). Oriundo do campo dos negócios, com sentido de fechar, finalizar, transposto para o campo militar, acaba por “reificar” o inimigo, já que “liquidar” estava associado a eliminar os inimigos como coisas, bens materiais. Outro aspecto para o qual chama a atenção é o dar ordens, comandar, que era entendido como determinação superior inquestionável a ser cumprida cegamente (blindlings) transformando subordinados em automatizados, máquinas de cumprir ordens, acionados com sincronização (gliechshalten).

O filólogo também faz a análise do uso de siglas, muito comuns na linguagem nazista. Isso ocorre, por exemplo, com a sigla “SS”, com mostra no capítulo 11, intitulado “Limites mal definidos”, onde diz que “SS é, ao mesmo tempo, imagem e sinal gráfico abstrato, é transposição da fronteira para o lado pictórico, é retrocesso ao aspecto visual dos hieróglifos” (2009, p. 129).

Este mesmo capítulo é concluído com algo que tem relação direta com o que estamos tratando aqui. Diz: “Também neste caso os limites se confundem, surgem insegurança, hesitação e dúvida. Ponto de visa de Montaigne: Que sais-je, o que sei? Ponto de visa de Renan: o ponto de interrogação é o mais importante de todos os sinais de pontuação. É a posição de extremo antagonismo à teimosia e à autoconfiança nazistas” (2009, p. 131).

E, logo em seguida, arremata: “O pêndulo da humanidade oscila entre ambos os extremos, procurando o ponto de equilíbrio. Antes de Hitler e durante o período de Hitler afirmou-se inúmeras vezes que todo progresso se deve aos obstinados e todos os empecilhos se devem aos simpatizantes do ponto de interrogação. Não se pode afirmar isso com certeza. Mas se pode afirmar, com certeza, que mãos sujas de sangue são sempre de obstinados” (2009, p. 132).

O capítulo seguinte, 12, trata exatamente de “pontuação”, sendo que é nele que vai comentar como a linguagem nazista usa “ad nauseam” as “aspas irônicas” [não é o caso do uso de aspas que estamos fazendo agora] como recurso para fazer referência nada neutra a um adversário a ser rebaixado. Um recurso, aliás, ainda muito usual na chamada guerra cultural e nos discursos de ódio em nossos dias.

Uma das características do modo fascista de vida – tão comumente semelhante ao modo neoliberal de vida – foi caracterizado por Theodor Adorno como “ausência de consciência” (2003, p. 121) e de “consciência coisificada” (Verdinglichung) (p. 130). Ele também usa outras expressões, entre elas: “índole dos algozes” (p. 124), ideal da “severidade”, “véu da técnica” (p. 132), naturalização do “ser-assim” (p. 132), indiferença e falta de empatia (p. 134), individualismo (p. 134), neutralidade (p. 136) e “assassinos de gabinete” (p. 137). É exatamente em Educação após Auschwitz (publicado em 1967), onde diz que “a barbárie encontra-se no próprio princípio civilizatório” (2003, p. 120) e que “a barbárie continuará existindo enquanto persistirem no que tem de fundamental as condições que geram esta regressão” (2003, p. 119). Outro crítico, Walter Benjamin, na VII das teses Sobre o Conceito de História (1940) diz que“Nunca há um documento de cultura que não seja, ao mesmo tempo, um documento da barbárie” (2005, p. 70). Diagnóstico feito… na ausência da interrogação está a morte da consciência, da reflexão, da crítica… barbárie! Alertas potentes, nem sempre escutados.

Hannah Arendt também já tinha percebido a corrosão da consciência como parte da experiência nazista no livro-reportagem sobre o julgamentode Eichmann em Jerusalém (1999). Ela classificou o que assistia numa expressão que ficou famosa e polêmica: a “banalidade do mal”. Ela mostrou como a ausência do espírito reflexivo leva à resposta burocratizada e funcionalizada que, na verdade, busca “resolver problemas de consciência” invertendo a posição da vítima e do algoz, transformando o segundo na primeira: “em vez de dizer ‘que coisas terríveis eu fiz com as pessoas!’, os assassinos poderiam dizer ‘que coisas horríveis eu tive que fazer na execução dos meus deveres, como essa tarefa pesa sobre os meus ombros’” (1999, p. 122). A rigor, transforma algozes em heróis!

Outro diagnóstico vem de Dardot e Laval, em A Nova Razão do Mundo (2016), que mostra o “sujeito neoliberal”, a “subjetividade empresarial”, caracterizada como uma “subjetivação pelo excesso de si em si ou, ainda, pela superação indefinida de si” (2016, p.  357). Uma subjetividade cheia de si, mas ao mesmo tempo sempre insatisfeita, visto ter um gozo que está “além de si sempre repelido”. Um sujeito que precisa estar o tempo todo fazendo coisas, competindo com os outros – aliás não há outros, há outros coisificados, instrumentalizados – num realismo raso que nunca pode ir além do si mesmo, por si e para si mesmo, numa rotina do mesmo, a todo o tempo. Nada há fora da disputa e da competição, da acumulação, da eficiência, expressão e garantia de sucesso, de “realização”, que nunca pode parar e sequer perguntar pelos meios e menos ainda pelos fins implicados no “desempenho”. Tudo isso reduz a subjetividade à apreensão factual, quando não a dispensa, reproduzindo-se em “pós-verdades”, e “slogans”, estereótipos simplistas, que desestimulam (para ser mais exato, interceptam) todo tipo de parada, de silêncio, de sono, de ponderação, de hesitação, de introspecção, de reflexão… é o império do “doers” – parar é um risco pois pode alimentar o desejo de não seguir… e não dá para aceitar que há limites!

Adorno indica a superação destas condições pela formação da consciência para a reflexão e a autorreflexão crítica e para a resistência (2003, p. 122), já que, o “único poder efetivo contra o princípio de Auschwitz seria a autonomia, para usar a expressão kantiana; o poder para a reflexão, a autodeterminação, a não participação” (2003, p. 125). Sugestão dada… recolocar estas exigências na mesa.

Em Ensinando a Transgredir, bell hooks pede que todos/as: “[…] abram a cabeça e o coração para conhecer o que está além das fronteiras do aceitável, para pensar e repensar, para criar novas visões, celebro um ensino que permita as transgressões – um movimento contra as fronteiras e para além delas. É esse movimento que transforma educação na prática da liberdade” (2013, p. 24).

Há caminhos… mas inacessíveis sem frear a “locomotiva”… há um trabalho ético, político e pedagógico urgente… recuperar o lugar e o tempo da interrogação…

Referências citadas

ADORNO, Theodor W. Educação após Auschwitz. In: Educação e Emancipação. 3. ed. Trad. Wolfgang Leo Maar. São Paulo: Paz e Terra, 2003. p. 119-138.

ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. Trad. José R. Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

BENJAMIN, Walter. Sobre o Conceito de História. In: LÖWY, Michael. Walter Benjamin:aviso de incêndio. Uma leitura das teses Sobre o Conceito de História. Trad. W. N. Caldeira Brandt [Tradução das teses por J. M. Gagnebin e M. L. Müller]. São Paulo: Boitempo, 2005.

CAMUS, Albert. A Peste. Trad. Valerie Rumjanek. Rio de Janeiro: Record, 1999.

DARDOT, Pierre; LAVAL, Christian. A Nova Razão do Mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016.

HOOKS, bell. Ensinando a Transgredir:a educação como prática da liberdade. Trad. M. B. Cipolla. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2013.

KLEMPERER, Victor. LTI: a linguagem do Terceiro Reich. Trad. Miriam B. P. Oelsner. Rio de Janeiro: Contraponto, 2009.

Autor: Paulo César Carbonari. Doutor em filosofia (Unisinos), militante de direitos humanos (MNDH/CDHPF), educador social. Também escreveu e publicou no site “O pensamento tornou-se cego”: https://www.neipies.com/o-pensamento-tornou-se-cego/

Edição: A. R.

Educar para humanizar e resistir à racionalidade neoliberal

O sistema educacional brasileiro, com suas reformas alinhadas aos princípios e preceitos neoliberais, caminha a passos largos na direção do paradigma da “educação para o lucro” caracterizado por Nussbaum (2015, p.13-26) como uma educação que produz “gerações de máquinas lucrativas” em vez de formar “cidadãos íntegros”.

Em seu manifesto ‘Sem fins lucrativos: por que a democracia precisa das humanidades”, a filósofa americana Martha Nussbaum (2015) faz referência a crise silenciosa da educação provocada pela forma como as reformas educacionais tem pautado seus rumos.

“Obcecados pelo PNB, os países – e seus sistemas de educação”, denuncia Nussbaum (2015, p.4), “estão descartando, de forma imprudente, competências indispensáveis para manter viva a democracia”.

Ao centrarem a educação no lucro deixam de considerar o desenvolvimento humano em sua essência. A retirada das disciplinas humanísticas e as artes dos currículos escolares, contribuem para o embrutecimento da civilização. “Se essa tendência prosseguir”, alerta Nussbaum (2015, p.4), “todos os países logo estarão produzindo gerações de máquinas lucrativas, em vez de produzirem cidadãos íntegros que possam pensar por si próprios, criticar a tradição e entender o significado dos sofrimentos e das realizações dos outros”.

Na perspectiva de Nussbaum formar “cidadãos íntegros” é imprescindível para “o futuro da democracia” e com isso ela justifica a presença das humanidades e das artes nos processos formativos, pois estas possibilitam a pavimentação de três dimensões da cidadania democrática: pensamento crítico, cidadania universal e imaginação narrativa.

A dimensão do pensamento crítico, também pode ser entendida como pensamento ou pedagogia socrática. Sócrates, pontuou sua vida, bem como a perdeu, defendendo que a capacidade de pensar e argumentar é indispensável e “valiosa para a democracia”. (Nussbaum, 2015, p.48). Em tempos obscuros e de incertezas, onde o sentimento é que a lei do mais forte prevalece, a autora traz o ideal socrático como modelo a ser seguido, pois acredita que, especialmente nas sociedades plurais da contemporaneidade, é salutar que os alunos aprendam a pensar criticamente e desenvolvam a capacidade de argumentar por si mesmos, responsabilizando-se pelo seu raciocínio, com ênfase no respeito mútuo quando ocorrer a troca de ideias, seja no seu ambiente, ou nos diferentes espaços globais.

Nussbaum (2015) defende que a argumentação é uma prática social e pode ser ensinada e aprimorada no processo educativo. Salienta que não é utópico querer transformar as salas de aula de acordo com a pedagogia socrática, pois basta criar ambientes de respeito à inteligência das crianças e estar atento às suas necessidades. E, é nesse sentido que Nussbaum defende a filosofia, e, demais disciplinas das ciências humanas como competências que a humanidade precisa “desesperadamente para manter as democracias vivas, respeitosas e responsáveis” (Nussbaum, 2015, p.77).

A segunda dimensão diz respeito à cidadania universal. Nussbaum (2015) aponta que os problemas ambientais, econômicos, políticos e religiosos, ao mesmo tempo que “têm um alcance global” precisam ser resolvidos. E para que isso aconteça é necessário a cooperação. Nesse sentido, a autora aposta na educação, independente do nível, para que os estudantes consigam desenvolver “a capacidade” de se descobrirem sujeitos de uma nação e mundo heterogêneos, apropriando-se da natureza e da história desses grupos, tornando-se assim “[..]cidadãos do mundo, ou seja, pessoas que percebem que seu país faz parte de um mundo complexo e interligado e que mantêm relações econômicas, políticas e culturais com outros povos e nações” (Nussbaum, 2015, p. 91).

Nussbaum (2015) salienta que a cidadania universal precisa de conhecimentos verdadeiros, que podem ser adquiridos sem uma formação humanista. Porém, a cidadania responsável requer a capacidade de avaliação, de compreensão, de entendimento, em especial, de como a narrativa foi construída, e, por esse viés, é a formação humanista que vai proporcionar ao aluno as condições necessárias de aprendizagem. A autora endossa que “a história do mundo e o conhecimento econômico […] devem ser humanísticos e críticos se quiserem ter alguma utilidade na formação de cidadãos do mundo inteligentes”, que estes sejam capazes de fornecer “uma base útil para os debates públicos que devemos realizar se quisermos cooperar na solução dos principais problemas da humanidade” (Nussbaum, 2015, p.94).

A terceira e última dimensão que trataremos nesse texto diz respeito à imaginação narrativa, também entendida como a capacidade de pensar e se colocar no lugar do outro, no que tange as emoções, os desejos, os anseios. Nussbaum (2015) defende que compreender esse desenvolvimento é um conceito fundamental “sobre a educação democrática”.

A autora reconhece que tais ensinamentos devem se originar na família, porém as universidades e escolas também desempenham um papel importante para a concretização de tais capacidades, bem como, para que os objetivos sejam atingidos, faz-se necessário “um lugar de destaque no currículo para as humanidades e para as artes” (Nussbaum, 2015, p. 95), dessa forma, se desenvolve uma educação participativa que estimula e aprimora a capacidade do sujeito dando-lhe condições de manifestar a sua  imaginação narrativa, bem como “[…] desenvolver a capacidade de compreender os outros para além de um corpo, reconhecendo a existência de uma alma, fortalecendo os recursos emocionais e criativos da personalidade, possibilitando que nos maravilhemos conosco mesmo e com os outros.” (Fávero, Agostini, Uangna, Rigoni, 2021, p.177)

Para potencializar esse desenvolvimento, Nussbaum (2015) indica e justifica a importância das brincadeiras lúdicas na infância, as canções infantis, as histórias, a poesia, a literatura, as belas-artes, a dança, a música e o teatro. Manifestações necessárias para o desenvolvimento humano saudável e democrático, capazes de proporcionar, “tanto às crianças como aos adultos a motivação para ir à escola, formas positivas de se relacionar entre si e prazer com o esforço dedicado à aprendizagem” (Nussbaum, 2015, p. 118) consideradas imprescindíveis e necessários para mantermos viva a chama da resistência em prol da democracia, aspecto que passaremos a discutir na próxima seção.

O sistema educacional brasileiro, com suas reformas alinhadas aos princípios e preceitos neoliberais, caminha a passos largos na direção do paradigma da “educação para o lucro” caracterizado por Nussbaum (2015, p.13-26) como uma educação que produz “gerações de máquinas lucrativas” em vez de formar “cidadãos íntegros”.

Essa direção se torna explícita quando analisamos a reforma do ensino médio, a BNCC e mesmo a BNC-Formação. Empreendedorismo, flexibilização, competências, habilidades, gerencialismo, itinerários formativos, inovação, dentre outros, gestão da sala de aula, empresário de si mesmo, são termos do mundo empresarial que aos poucos foram sendo incorporados pelo currículo e passam a fazer parte da formatação da escolarização das crianças e jovens.

A democracia passa a sofrer sérios abalos quando instituições importantes como a escola, a universidade e mesmos os poderes instituídos do Estado passam a ser instrumentalizados pelos donos do capital e, no caso do Brasil, pela elite do atraso. Em seu estudo A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato, o sociólogo Jessé Souza (2017) analisa com detalhes o pacto feito entre os donos do poder (elite do atraso) no Brasil com processos pseudodemocráticos para perpetuar uma sociedade cruel forjada na escravidão, ou seja, uma forma perversa de instituir com requintes de democracia um processo de dependência dos mais pobres marcados pela lógica da casa-grande/senzala.

Nas análises de Souza (2017), torna-se temerário e quase impossível avançar num processo de democracia profunda, quando impera na mentalidade da elite do atraso o imaginário de que o único problema do Brasil é a corrupção na política, de que o Estado patrimonialista é corrupto, enquanto que o mercado é santo e de que a solução de todos os problemas, inclusive na educação, é resolvida pela ação livre do mercado. Essa mentalidade possibilita a naturalização de um processo cruel da criação da ralé de novos escravos como continuação da escravidão do Brasil moderno. A mercantilização da educação contribui para pavimentar este processo, na medida em que desconstrói o princípio constitucional da educação como direito e passa a tratá-lo como privilégio de quem tem dinheiro para pagar.

Educar para humanizar e resistir à racionalidade neoliberal significa desenvolver nos espaços escolares processos de conscientização e de leitura crítica da realidade. Tal processo pode acontecer quando a sala de aula não for limitada um simples espaço e tempo de ocupação dos alunos com atividades mecânicas ou com o treinamento da recepção passiva de saberes técnicos.

Tornar a sala de aula um espaço vivo, dinâmico, colaborativo, dialógico, propositivo e provocativo para pensar outros mundos possíveis, é uma forma de resistência à racionalidade neoliberal. É dessa forma que a vida se mais importante que a ganância por lucros, o conhecimento mais significativo que a performance e a convivência fraterna, mais apreciada que a competição destrutiva. Assim, talvez teremos mais chances de fazer da educação um processo de humanização e de democratização da vida coletiva.

Para as que desejarem aprofundar e ampliar as leituras sobre essa temática indico os diversos capítulos que compõe a coletânea Humanidade: futuro comum, organizada pelos amigos Luiz Carlos Bombassaro e Paulo Cesar Nodari. Segue o link de acesso da coletânea completa:

https://www.researchgate.net/publication/376499707_O_NEOLIBERALISMO_PEDAGOGICO_NA_EDUCACAO_O_GERENCIALISMO_EDUCATIVO_EM_DETRIMENTO_A_HUMANIZACAO

Referências:

FÁVERO, Altair Alberto; AGOSTINI, Camila; UANGNA, Elia Maria Leandro; RIGONI, Larissa Morés. Educação das emoções e formação humana: a imaginação narrativa na perspectiva de Nussbaum. In: FÁVERO, Altair Alberto; TONIETO, Carina; CONSALTÉR, Evandro; CENTENARO, Juniro Bufon (orgs.). Leituras sobre Martha Nussbaum e a educação. Curitiba/PR: CRV Editora, 2021, p. 173-188.

NUSSBAUM, Martha. Sem fins lucrativos porque a democracia precisa das humanidades; tradução Fernando Santos. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2015.

SOUZA, Jessé. A elite do atraso: da escravidão à Lava Jato. Rio de Janeiro: Leya, 2017.

Autor: Altair Alberto FáveroE-mail: altairfavero@gmail.com Professor e Pesquisador do Mestrado e Doutorado em educação UPF. Também escreveu e publicou no site “Ética e docência: desafios do tempo presente”: https://www.neipies.com/etica-e-docencia-desafios-do-tempo-presente/

Edição: A. R.

Sala de professores e professoras: que lugar é este?

Alguns aspectos julgo importantes: que a sala dos professores e professoras seja um ambiente acolhedor, de camaradagem, de socialização de angústias e dificuldades naturais do ato de ensinar e aprender, de suporte e acolhimento emocional de cada professor e professora, de respeito e reverência às singularidades formas de ser de cada um e cada uma.

Há muito tempo me chama atenção o espaço e a finalidade das salas de professores nas escolas, principalmente nas escolas públicas, que são as que mais conheço. Já trabalhei em 06 diferentes escolas e, a partir delas, reúno condições para considerar alguns aspectos desta reflexão que segue.

Querido leitor/a, seja você professor ou não, talvez lhe interesse muito saber de algumas coisas sobre salas de professores ou ser capaz de reparar outras coisas de uma sala de professores de uma escola que você conheça.

Particularmente, eu gostaria que as salas de professores refletissem um pouco sobre o que acontece nas escolas e que traduzissem filosofias, métodos e formas de organização escolar. Não importa o tamanho, nem a forma de uma sala de professores: importa como cada escola trata um dos sujeitos principais da aprendizagem escolar: os professores e professoras.

A sala dos professores é uma janela de cuidado, um intervalo de tempo onde professores e professoras se fortalecem e se apoiam mutuamente.  Daí entra o papel dos gestores que deveriam sempre valorizar o trabalho docente. Descuidar da sala de professores é uma forma sutil de controlar professores e professoras.

Li, há um certo tempo, mas não achei mais, texto que dizia que sala de professores é um lugar de humanização, como também um lugar de resistência e da valorização docente, como também um lugar de construção de resiliência. Concordo com todas estas finalidades, mas percebo que não é em todas as escolas que este ambiente tão importante para os professores e professoras é assim tratado.

Neste contexto, recebo de uma colega professora a seguinte mensagem:

Oi. Você não gostaria de escrever um texto sobre a sala dos professores? Estamos sendo proibidos de comentar sobre várias coisas nesse ambiente, desabafar, lamentar…penso que se nos tirarem o sagrado direito de nos acolhermos e solidarizarmos entre os pares não nos sobrará mais nada. Gostaria que escrevesse sobre isso.

Queremos ter nesse ambiente a escuta e a voz que perdemos. Não é sala da direção, é sala dos professores. Eu quero rir, chorar, reclamar, calar…

Não adianta mobiliário legal, cafezinho, AC, etc, se a gente não se sente bem. Mais vale um barraco onde tem felicidade do que um palácio de opressão. Tem professor que fica na sala de aula no recreio ao invés de frequentar a sala de professores…

Esta mensagem acima, nua e crua, que trato como um relato dramático de uma colega professora, é a motivação para esta reflexão de agora.

Fiquei a me perguntar: como é que transformaram algumas salas de professores em ambientes tão tóxicos que levam alguns professores e professoras a não quererem estar lá? Quem está falhando? Como trabalham professores e professoras em escolas que não oportunizam o seu sagrado direito de descansar, tomar um cafezinho (é claro) e jogar conversa fora para se distrair ou, quiçá, descansar?

Inquietei-me e fui, então, fazer uma busca no Google! Lá encontrei poucos textos sobre Sala de professores. Pesquisei, então, o título: reflexão de professores sobre sala de professores. Encontrei nada!

Mas um texto, chamou-me particular atenção. O texto chama “Sala de professores: a escola precisa investir neste espaço”, escrito por Carla Helena Lange, 18 de maio de 2023.

Segue o link do texto: https://www.sponte.com.br/sala-dos-professores-entenda-por-que-voce-deve-investir-nesse-espaco/

Deste texto listado acima, farei alguns recortes que julgo importantes e relevantes. Seguem.

  1. “Assim como os alunos precisam de ambientes adequados para fazer os intervalos entre as aulas, os professores também necessitam de um local para descanso, interação e atividades individuais.
  2. O pesquisador Telmo Caria, que trabalhou, em sua tese de doutorado, com a temática da cultura profissional, concluiu que o espaço de coletivização docente é parte integrante e importante da cultura escolar, pois traduz o nível de interação e de aprendizagens entre pares. Isso porque é onde os professores passam a maior parte do tempo quando não estão em sala de aula. 
  3. Caria diz ainda que a sala de professores deveria ser um lugar privilegiado de coletivização do trabalho dos professores, e também de informalização e internalização das atividades deste grupo. 
  4. … em aspectos gerais, esse espaço, em vez de ser destinado à partilha de experiências e integração social da profissão, é destituído da sua função quando abre espaço para que circulem e permaneçam vários outros profissionais que não estão ligados à estrutura técnico-pedagógica da instituição.
  5. Também não se pensa em sua arquitetura ou disposição dos móveis, as mobílias são desconfortáveis, geralmente é um lugar mal equipado, sem graça, nem conforto. Mas deixar a sala dos professores de lado é um erro. Esse tipo de tratamento ao ambiente inibe qualquer prática ou interação positiva, uma vez que os próprios docentes não se sentem acolhidos ou à vontade para conviver, trabalhar e estudar. 
  6. Uma estrutura inadequada tem impacto direto na produtividade, na motivação, no relacionamento da equipe, no intercâmbio e fluxo de ideias e, consequentemente, na qualidade dos serviços prestados em sua escola. 
  7. Sendo assim, o espaço destinado aos professores merece atenção, não apenas para atender o tempo de pausa dos docentes, mas por propiciar um ambiente que incentive a interação, o trabalho em conjunto, a troca de ideias e, consequentemente, o desenvolvimento de técnicas pedagógicas a serem aplicadas em sala, o debate, o lazer e bem-estar da equipe e o engajamento entre os professores.
  8. Tão importante quanto a estrutura, o clima da sala dos professores é primordial para que o ambiente cumpra seu propósito de integrar e servir como apoio aos educadores para mantê-los engajados. Nesse sentido, a escola pode interferir ativamente nas relações que ocorrem dentro dela, como o relacionamento entre colegas, gestores e alunos, estimulando um ambiente de diálogo, empatia e reflexão.
  9. Mesmo que a escola não tenha muitos recursos, se a sala for pensada e concebida com essa finalidade, será um movimento natural que os educadores se sintam convidados a frequentar esse espaço e conviver”.

Na mesma linha de pensamento, localizei documento em PDF com o título: “Sala de Professores: espaço de socialização profissional?”. Segue link: https://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/20893/20893_6.PDF

Acreditamos que as salas de professores e professoras deveriam ser ambientes acolhedores, de camaradagem, de socialização de angústias e dificuldades naturais do ato de ensinar e aprender, de suporte e acolhimento emocional de cada professor e professora, de respeito e reverência às singularidades formas de ser de cada um e cada uma. Desta forma, este espaço único e singular traria aos professores e professoras um ambiente de valorização e consideração, num contexto onde sala de aula e sociedade duelam para questionar, sem tréguas, a sua nobre e insubstituível função de humanizar através dos conhecimentos.

Os professores e professoras reclamam e querem de volta a sala de professores como um espaço de acolhida, descanso, amparo e liberdade (individual e coletiva). Querem também que este lugar acolha sentimentos, ideias, críticas e angústias que envolvem sua vida profissional, justamente com quem convive sob as mesmas condições: seus pares.

Fica, como sugestão, breve resenha do filme “A sala dos professores”, lançado em 2023:

“A Sala dos Professores é uma abordagem inteligente e ousada à profissão de docente, aos protocolos no domínio educativo. Quem pensa que o filme exagera faria bem em dar uma olhada em qualquer instituição de ensino hoje. Obviamente, trata-se de ficção, e a equipe do filme sabe criar um ritmo sensacional, administrando as informações com muita habilidade, evitando tramas secundárias que prejudicariam a enorme tensão deste thriller, que em nenhum momento é uma paródia. A inclusão na história do jornal escolar, as conversas com o pessoal administrativo, a conduta da diretora, etc., é muito inteligente nesse sentido”. Leia mais em: https://www.gazetadopovo.com.br/cultura/thriller-escolar-a-sala-dos-professores-aborda-educacao-como-poucos-filmes/

Em outra publicação do site, um relato do desafio de um professor novato numa sala de professores. Recomendamos leitura! www.neipies.com/um-ambiente-desafiador-chamado-sala-de-professores/

Autor: Nei Alberto Pies, professor, escritor e editor do site.

Edição: A. R.

Por que cidadãos de bem costumam ser tão cruéis?

Há quem pense fazer o bem, enquanto faz o mal. Há quem destile ódio em nome de um amor não correspondido. Há quem seja movido por vingança, alegando agir por justiça. Há quem viva uma mentira alegando ser em defesa da verdade.

Ter esperança nada mais é do que seguir confiante de que o melhor, eventualmente, se sucederá. Todavia, há desfechos pelos quais jamais ousaríamos ansiar. Nem tudo nessa vida é preto no branco. Há vitórias que são verdadeiros fracassos.

Davi experimentou isso. A crise gerada por seu filho Absalão não poderia terminar bem. Qualquer das alternativas seria igualmente devastadora para o coração do velho pai. Se Absalão obtivesse êxito em sua conspiração, Davi perderia o trono. Porém, se fosse derrotado, Davi perderia o filho.

Insistentemente esperançoso, Davi ordenou a seus generais que por amor a ele tratassem brandamente ao jovem Absalão. Para garantir que sua ordem fosse cumprida, o rei tratou de falar pessoalmente com todos os capitães na presença do povo. Ele queria desbaratar a rebelião, mas manter ileso o seu causador. Afinal, tratava-se de seu filho e não de um estranho qualquer.

Durante a sangrenta batalha no bosque de Efraim que estancou a rebelião, eliminando ao menos vinte mil soldados, Absalão foi encontrado por acaso pelos servos de seu pai. Montado numa mula, seus cabelos longos se prenderam nos ramos de um carvalho. A mula seguiu sua marcha, mas ele ficou suspenso no ar. Um dos homens correu e contou a Joabe, general de Davi, o que flagrara. Indiferente ao que Davi tanto lhe recomendou, Joabe perguntou ao soldado: “Por que não o derrubaste logo por terra? Eu te haveria dado dez siclos de prata e um cinto” (2 Samuel 18:11). Duvido que Joabe esperasse ouvir dos lábios daquele anônimo a resposta que recebeu: “Ainda que eu pudesse pesar nas minhas mãos mil siclos de prata, não estenderia a mão contra o filho do rei, pois bem ouvimos que o rei deu ordem a ti, e a Abisai, e a Itai, dizendo: Guardai-vos, cada um, de toca no jovem Absalão. E se eu tivesse procedido falsamente contra a sua vida, coisa nenhuma se esconderia ao rei, e tu mesmo te oporias a mim” (vv.12-13).

Esta resposta merece que nos debrucemos um pouco mais sobre ela. Engana-se quem pensa que todos têm um preço. Entre as massas facilmente manipuláveis, sempre encontraremos quem tenha valor e jamais permita que sua alma seja etiquetada. Infelizmente temos que admitir que não são muitos. Há que se garimpa-los.

Geralmente, estão entre os anônimos, entre os que não venderam suas almas em busca de fama e reconhecimento. Joabe, considerado fiel escudeiro de Davi, finalmente se deparou com alguém mais fiel do que ele. E aqui se vê a diferença entre lealdade e fidelidade. Joabe se revela leal a Davi ao se prontificar a matar quem se lhe opunha. Ao passo que se mostra infiel ao mesmo rei ao deixar de atender à sua solicitação de poupar o rapaz. Num mesmo gesto, lealdade e infidelidade. Numa cortada brusca e deselegante, Joabe respondeu àquele homem: “Não vou perder tempo assim contigo. E, tomando três dardos, trespassou com eles o coração de Absalão” (v.14). Alguém como Joabe não se prestaria a perder tempo com quem não se deixasse manipular. Aquele moço era carta fora do baralho, um idiota inútil.

Havia a necessidade de tão grande covardia? Não teria sido melhor simplesmente prendê-lo e entrega-lo vivo ao rei? Porém, Joabe achou que matando a Absalão, estaria zelando pelos mais nobres interesses do reino. Por isso, não se importou com a ferida que abriria no coração de Davi. Não se importou com a dor dilacerante que provocaria em seu amigo. Seus interesses falavam mais alto que seus sentimentos.

Quem diria que o mesmo Joabe que lá trás intercedeu a Davi para que recebesse de volta a seu filho Absalão, agora remetia contra a sua vida. Talvez fosse justamente por isso, por um sentimento de culpa, pois se sentia responsável por haver reintroduzido Absalão em Jerusalém, convencendo seu pai a perdoá-lo. Joabe havia sido seu avalista, daí achar-se no direito de interromper seu motim mesmo que fosse através de um ato covarde como aquele. Possivelmente pensasse que, sendo ele quem abrira aquela ferida no reino de Davi, competia a ele estancá-la, mesmo que fosse por uma atitude tão covarde, matando-o a sangue frio, sem direito de defesa. Seja qual tenha sido o mecanismo usado para driblar sua consciência, o fato é que Joabe foi infiel ao seu rei na medida em que se negou a atender a um pedido seu.

Há quem pense fazer o bem, enquanto faz o mal. Há quem destile ódio em nome de um amor não correspondido. Há quem seja movido por vingança, alegando agir por justiça. Há quem viva uma mentira alegando ser em defesa da verdade. De fato, só precisamos de uma boa justificativa para sermos cruéis. E assim, sacrificamos nossa fidelidade no altar da lealdade. A lealdade visa preservar o interesse do outro, desde que este não se esbarre com o nosso. A fidelidade leva mais em conta o desejo, a vontade expressada, do que meramente o suposto interesse.

Jesus advertiu aos Seus discípulos: “Vem a hora em que qualquer que vos matar julgará prestar um serviço a Deus” (João 16:2). Poderia haver mal entendido maior que esse?

Paulo mesmo admite que perseguia a igreja por causa do zelo que tinha pela lei de Deus (Filipenses 3:6). Portanto, Paulo era-lhe leal, porém, sem ser-lhe fiel. Não basta estar do lado certo da história, defendendo o belo, o justo e o bom. Nem é suficiente ser zeloso do bem.

De que adianta fazer o bem sem ser bom? De que vale uma generosidade cruel? De que vale fazer justiça com as próprias mãos, sem ser realmente justo, ser honesto, sem ser íntegro, ser verdadeiro, sem ser sincero? 

Autor: Hermes C. Fernandes. Também escreveu e publicou “Que tipo de revolucionário foi Jesus”?: www.neipies.com/que-tipo-de-revolucionario-foi-jesus/

Recomeçar, reconstruir, renovar, reciclar, esperançar

Esperançar, na visão de Paulo Freire, significa se levantar, ir atrás, levar adiante e juntar-se com os outros para fazer de outro modo o que é preciso ser feito. É não se conformar com a situação caótica ocorrida e com as consequências que se está vivendo, fazendo diferente para não ver o processo se repetir.

São verbos que precisam os gaúchos, hoje, declinar, vivenciar, primeiro na mente e depois colocar em prática para reorganizar as vidas a partir dos estragos que ocorreram diretamente em   duzentos e noventa e oito municípios, dos quatrocentos e noventa e sete que compõem o Rio Grande do Sul.

É preciso não desanimar e prosseguir sempre. Erguer o moral e seguir adiante, contemplando o infinito. Não esquecer que a mente humana, na esperança de dias melhores, tonifica o corpo e fortalece a alma dando coragem para avançar, na certeza de que unidos uns com os outros, se encontrarão as condições de vencer estes percalços do caminho.

Esperançar, na visão de Paulo Freire, significa se levantar, ir atrás, levar adiante e juntar-se com os outros para fazer de outro modo o que é preciso ser feito. É ser capaz de buscar o que aparentemente é inviável e buscar fazer o inédito.  É não se conformar com a situação caótica ocorrida e com as consequências que se está vivendo, fazendo diferente para não ver o processo se repetir.

O sentimento de esperança ajuda a nos mantermos comprometidos com os nossos objetivos de vida. Nos dá motivação para continuar lutando e acreditar que a situação pode melhorar, dependendo da vontade pessoal do grupo e do planejamento correto da ação a ser executada e de como se organizar para tal empreendimento.  

A esperança é o ponto central do planejamento das atividades para reorganizar os estragos da catástrofe.  Os objetivos a serem atingidos devem ser claros; o programa de recuperação dos lares, das instituições sociais e dos espaços naturais de cada município tem que contar com a colaboração de todos os envolvidos através de seus legítimos representantes.  As   fontes de recursos financeiros, humanos e materiais precisam ser conhecidas, prevendo-se sempre o tempo de execução destas ações e o seu controle.

Urge, no momento, levar em conta a emergência do atendimento médico, psicológico e espiritual e da saúde mental dos que foram diretamente atingidos pela catástrofe e tratar, também, os efeitos colaterais dos medos, das incertezas e ansiedade das crianças, adolescentes, adultos e idosos, pois todos passam por processos profundos de dor pelas perdas materiais e humanas que ocorreram. O estresse pós-traumático precisa ser tratado adequadamente.  Os planos de recuperação precisam incluir esta questão de saúde mental.

Outro grande problema resultante da tragédia climática é representado pelo lixo; são toneladas de entulho colocadas em lugares específicos de muitos municípios. Estas montanhas de escombros aguardam o trabalho da reciclagem.

Reciclar é o processo de reaproveitamento do material descartado que poderá ser reintroduzido na cadeia produtiva. Além de gerar valores com uma nova utilidade, ajuda a manter a preservação dos recursos naturais e poderá melhorar a qualidade de vida das pessoas envolvidas com esta atividade. Não se pode perder de vista a questão da possibilidade de reciclagem que vai resultar em novos recursos, de acordo com o princípio do 3R: reduzir, reutilizar e reciclar. Lembremos que o grande químico e filósofo francês, Antoine Lavoisier (1742 – 1794), após inúmeras pesquisas científicas, concluiu que na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.

Não resta dúvida que essas tragédias climáticas que estão ocorrendo em vários locais do planeta são resultantes do aquecimento global, provocado pela poluição do ar, da Terra, dos rios e mares e pelo desmatamento e uso indiscriminado de agrotóxicos.  Cidades que, há alguns anos, foram atingidas por situações semelhantes a que ocorreu no Rio Grande do Sul agora nos mostram como se reconstruíram de forma mais adequada em relação ao meio ambiente e que devem servir de exemplo para reconstrução dos nossos municípios.

Temos que levar em conta a necessidade de respeitar a natureza, o meio ambiente, a paisagem natural, aprender a conviver em equilíbrio com a flora e a fauna. O meio ambiente, quando agredido pela ação do ser humano, vai reagir. O rio, por exemplo, volta na época das cheias para o seu leito natural. A árvore, que é um organismo vegetal que possui as funções da vida na escala inferior, através de suas raízes embaixo da terra, se espalha longe na busca da água e dos nutrientes que precisa para frutificar e produzir, pelos seus galhos, o fenômeno da fotossíntese, oxigenando o ar. Tudo está conectado em rede na vida.

A religiosidade básica, inata no ser humano, pois estamos ligados a Deus, o criador da vida, mais do que nunca, precisa ser acessada pelas pessoas atingidas diretamente por este processo de ver seus pertences e, às vezes, até entes queridos tragados pela água. O recurso da prece, da oração é o meio de nos conectarmos com as forças transcendentais   da vida. “A alma, reconhecendo a sua fragilidade e pobreza de recursos específicos, busca o núcleo de onde partem as energias superiores para a preservação da vida e tenta sintonizar, mediante a prece, com as nascentes do bem inominado.  

A oração brota do pensamento enriquecido do amor e de esperança, e busca o apoio e o conforto, a diretriz e a segurança provinda das regiões sublimes da Espiritualidade… No fragor das lutas, quando as dificuldades se fazem mais graves, a mente dispara o apelo a Deus, conforme é e se encontra, na expectativa do socorro que sempre virá. Orar é o ato de comungar com Deus”. (Livro: Vidas Vazias –  Joanna de Angelis, Divaldo Franco, Ed. LEAL, página 95)

Comovente é percebermos a corrente de solidariedade que se levantou no Brasil e em outras partes do mundo para auxiliar os flagelados do Rio Grande do Sul. Tem se destacado a ajuda voluntária que demonstra que a humanidade está viva em nossas almas. O retorno gradativo à rotina diária vai se fazer com muito esforço, pois dificilmente será a mesma que as pessoas atingidas estavam acostumadas. A fraternidade deverá estar presente ainda por longo tempo, dando sustentação amorosa para que todos se sintam apoiados nesta nova etapa da vida. O amor ao próximo tem reunido muitas pessoas, até de religiões diferentes, a se unirem em grupo virtual para orarem pelas pessoas e famílias que estão fragilizadas.

Esperançar é vislumbrar, num futuro breve, os lares, as escolas, as indústrias, o comércio, os postos de saúde, os hospitais, as instituições religiosas. Enfim, a vida voltar a palpitar em cada rua, bairro, cidade: nos jardins, nos pomares, nas hortas, nos animais… O gaúcho voltará a cantar:  -É o meu Rio Grande do Sul, céu, sol, sul, terra e cor, onde tudo que se planta cresce e o que mais floresce é o amor!

Autora: Gladis Pedersen de Oliveira – Educadora. gladispedersen@gmail.com Também escreveu e publicou no site “Depois da tempestade vem a bonança”: https://www.neipies.com/depois-da-tempestade-vem-a-bonanca/

Edição: A. R.

Sobre idiotas e monstros: a necessidade de regulação das redes sociais

Há que se estabelecer um regramento mínimo no meio digital que iniba a proliferação da desinformação e do extremismo político-religioso, sob pena de termos que não apenas tolerar os tais “idiotas”, mas sermos governados por eles.

 

A internet deu voz a uma legião de idiotas, já dizia o escritor e filósofo italiano Umberto Eco quando as redes sociais começaram a ganhar protagonismo. O que Eco, falecido em 2016, contudo, não considerou é que esses idiotas votam, se elegem e atualmente governam países ou se ensaiam para voltar a governar.

Essencialmente, sempre discordei dessa afirmação do escritor italiano por considerá-la um preconceito elitista, pois como ocorre de tempos em tempos – foi assim com o livro impresso, depois com o jornal, o rádio e a televisão – as massas encontram nesses meios uma oportunidade de dar visibilidade às suas pautas e questões. A democratização dos meios de comunicação é um fato e uma ocasião única para aqueles que raramente têm voz e vez.

Outro intelectual italiano – Gramsci – já dizia que a transição entre uma nova ordem que ainda não nasceu e um velho mundo que ainda não saiu de cena normalmente é uma época dominada por monstros. Foi assim na transição do mundo que antecedeu à I Guerra Mundial para o mundo que veio após a II Grande Guerra, quando, no intervalo entre essas duas conflagrações, o fascismo floresceu na Europa e no Leste Asiático. Não por acaso período em que o rádio, como meio de comunicação de massa, foi protagonista.

As redes sociais inauguraram a comunicação digital no século XXI e, por ser um fenômeno relativamente recente – as primeiras redes de alcance mundial surgiram a partir de 2004 –, não se encontram devidamente regulamentadas, apresentando-se como um vasto campo de possibilidades para serem exploradas, especialmente pelo marketing político e empresarial.

É nesse terreno sem lei onde nascem e prosperam os monstros, sustentados pelas massas cujo gosto, de regra, inclina-se para o mexerico, o escândalo, o grotesco e a mentira – os idiotas, de que falava Humberto Eco. Terreno onde o fundamentalismo religioso e a extrema direita atuam sem qualquer controle.

Movidos por projetos de poder distintos, mas muito próximos, extremistas usam da estratégia de aliciamento que passa por retroalimentar essas massas com matérias e pautas alinhadas com o seu gosto, gerando engajamento – para usar um termo do jargão das redes. 

Com pautas negacionistas e anticientíficas, no plano cultural e reacionárias, no plano dos costumes, eles suscitam a chamada guerra cultural ou guerra santa, ao acusarem os avanços nessas áreas como uma conspiração da esquerda para dominar o mundo – na Europa do final do século XIX era o sionismo, levando ao que depois vimos o que ocorreu durante a II Grande Guerra com os judeus. Hoje é o globalismo, o esquerdismo, o comunismo, o gaysismo, os destruidores dos costumes e da família.

A intolerância e o ódio ao outro instauram-se como práticas comuns no meio virtual, quando não descambam para o meio físico.

As instituições são descredibilizadas por não atenderem mais aos anseios populares, especialmente àquelas ligadas à essência da democracia, como as eleições livres, o voto popular, os partidos políticos e a política como forma de mediação dos conflitos, naturalizando a ideia de que toda forma de acesso ao poder é válida, inclusive pelo emprego da força.

O que foram os ataques ao Capitólio, nos EUA, em 06/01/2021 e às sedes dos três poderes, em Brasília, em 08/01/2023 senão manifestações desse pensamento?

Como dito, contudo, essa é uma época de transição, quando ainda não aprendemos como lidar com a revolução que as redes sociais trouxeram na comunicação de massa e com o protagonismo que elas ganharam em detrimento das mídias tradicionais. Urge, no entanto, que aprendamos e aprendamos rápido, estabelecendo regras para esse meio, dado a ameaça que a sua hegemonia, sem controle, vem representando para a democracia em todo o mundo.

É inegável, no entanto, que é preciso preservar o que a democratização dos meios de comunicação proporcionada pelas redes sociais trouxe de bom, na medida em que elas representam uma alternativa à mídia tradicional, à forma de realização do debate público e de organização dos movimentos populares, os quais hoje já não dependem mais da institucionalidade de um partido político, de um sindicato ou de outras formas tradicionais para se organizarem, evidenciando uma outra característica desse meio: a ausência de institucionalidade. O que agrada ao público, por não requerer qualquer forma de mediação para que ele se manifeste e se sinta acolhido. Acolhido, aliás, por quem não o menospreza, como fazia Humberto Eco, ao considerá-lo idiota, pois é esse “idiota” hoje que sustenta a ascensão da extrema direita e do fundamentalismo religioso que ameaçam às instituições e a democracia em todo mundo.

Há, pois, que se abolir esse preconceito e estabelecer um regramento mínimo no meio digital que iniba a proliferação da desinformação e do extremismo político-religioso, sob pena de termos que não apenas tolerar os tais “idiotas”, mas sermos governados por eles. 

Autor: Júlio Perez. Também escreveu e publicou no site “Eu e os da minha geração”:https://www.neipies.com/eu-e-os-da-minha-geracao/

Edição: A. R.

Em dúvida quanto à intenção do outro, devo agir como se ele fosse mau ou bom?

strong black man

Procuro decidir com base nas probabilidades e não nas possibilidades. Por exemplo: é possível que eu, digamos, iniciando uma viagem, possa sofrer um acidente de carro, mas não é provável que isso aconteça. Posso, então, viajar.

Estou num apartamento em reformas, em um andar muito alto de um prédio ainda inacabado de uma grande cidade. Fim de tarde. Os trabalhadores foram embora.

De repente, me vejo sozinho, na sala da frente, com um homem muito musculoso que ri sadicamente para mim e bate lenta e repetidamente na palma da mão esquerda um cano grosso de ferro, que segura com firmeza com a mão direita. Um frio corre pela minha espinha. Vou morrer, é óbvio. Não sou páreo para ele.

É tão forte e seguro de sua força que, sempre rindo, faz um sinal com a cabeça indicando, no chão, um cano semelhante. Quer me matar numa luta, suponho. Abaixo-me para pegar o cano e penso: minha única chance é bater primeiro.

No mesmo movimento de erguer o corpo com toda a força, movo os dois braços segurando o cano e atinjo sua cabeça. Ele cai.

Batem na porta. E agora? O que fazer?

Ergo o corpo morto. É tão leve quanto um balão. Levo-o à sacada e jogo-o num terreno baldio que descubro existir ao lado do prédio.

Aflito, pergunto-me se devo me apresentar à polícia ou aguardar, na expectativa de que não me descubram. Sei que tudo depende da explicação convincente que eu conseguir criar.

Esse sonho, na verdade pesadelo tipo Stephen King, me trouxe culpa: será que ele me mataria ou apenas estava a mostrar algum defeito no cano que segurava e no que estava no chão? Porém, havia indícios de que se tratava de alguém perigoso: sorriso sádico, mutismo, músculos à vista, aparecer de surpresa.

O busílis da questão: se deduzi certo, agi certo, minha única chance de sobreviver estava na atitude de atacar primeiro. Mas, se deduzi errado, matei, no sonho, um operário da construção civil, no final da tarde de uma grande cidade, quando estava a mostrar canos defeituosos.

O pesadelo — felizmente foi pesadelo, nada mais que pesadelo — me colocou frente a esta questão: se estamos em dúvida quanto à intenção do outro, devemos agir como se ele fosse mau ou como se ele fosse bom?

Procuro decidir com base nas probabilidades e não nas possibilidades. Por exemplo: é possível que eu, digamos, iniciando uma viagem, possa sofrer um acidente de carro, mas não é provável que isso aconteça. Posso, então, viajar.

No sonho era possível, mas não provável que eu fosse atacado. O problema é que eventos possíveis, mesmo não prováveis, podem ocorrer. E, no caso, decidindo pelas probabilidades, se enganado, estaria morto. Seria este o caso de uma exceção em que a decisão tem de se basear nas possibilidades e não nas probabilidades?

Como tenho a tendência meio errada de imaginar que a intenção dos outros é sempre boa, não faria o que fiz no pesadelo.

Autor: Jorge Alberto Salton. Também escreveu e publicou no site “Fui me transformando em gaúcho, precisava”: www.neipies.com/fui-me-transformando-em-gaucho-precisava/

Edição: A. R.

Novo bispo missionário em Santa Cruz do Sul, RS

Com carinho e muita alegria, publicamos esta entrevista exclusiva ao site do novo bispo da Diocese de Santa Cruz do Sul, RS, Itacir Brassiani. Conhecemos e reconhecemos sua trajetória religiosa na Congregação Missionários da Sagrada Família e desejamos que, passada sua perplexidade inicial (como afirmou em entrevista à Rede Vida de Televisão) agora possa viver um intenso e bom período de doação, entrega e serviço à Igreja, atuando como bispo em Santa Cruz do Sul, RS.

Conheça um pouco mais de Itacir Brassiani, por ele mesmo.

Conte-nos um pouco da sua história de vida.

Nasci no dia 28 de dezembro de 1959 no povoado de São José do Herval, município de Soledade/RS, o segundo de três filhos de Segundo Brassiani e Gema Vêscovi Brassiani. Fui batizado no dia 10 de janeiro de 1960 na Paróquia Nossa Senhora do Rosário (São José do Herval), até hoje animada pelos Freis Capuchinhos. No mesmo ano, fui crismado, conforme costume daquele tempo, aproveitando a visita do bispo. Na época, a paróquia pertencia à recém-criada diocese de Santa Cruz do Sul. Meus pais eram pequenos agricultores e diaristas. Minha mãe teve 1 ano de escola, e meu pai nunca frequentou os bancos escolares. Mas ambos aprenderam a ler e a escrever.

Em meados de 1962 migrei com a família para Anchieta/SC, em busca de melhores condições de vida. Lá minha família dedicou-se à agricultura. Ali cresci, frequentei os primeiros anos de escola, e participei da Comunidade Nossa Senhora do Caravágio. Fiz minha primeira comunhão aos 6 anos de idade, tendo minha mãe como catequista. Em 1970 passei a estudar na Escola Básica Professor Osni Paulino da Silva, na sede do município. Em 1975 iniciei a ensino médio no Colégio Cenecista Pe. José de Anchieta, obtendo, em 1977, o título de Técnico em Contabilidade.

Em julho de 1976, com 16 anos de idade e frequentando o segundo ano do curso técnico em contabilidade, deixei a roça e mudei-me para a cidade, começando a trabalhar como balconista numa empresa varejista. Um ano depois, na mesma empresa, passei a trabalhar como auxiliar de contabilidade. Nesse período, participei do grupo de jovens da paróquia Santa Lúcia (Juventude Unida a Serviço da Amizade). No ano seguinte, integrei a organização regional da juventude (Liga de Jovens do Oeste Catarinense).

Como surgiu a vontade de servir a Deus, pela vida consagrada?

No final do ano de 1978, participei de dois eventos que mudaram o rumo da minha vida. O primeiro, foi o TLC (Treinamento de Lideranças Cristãs), que me colocou frente a frente com a superficialidade da minha fé e com as incoerências daquela fase da minha vida. O segundo, foi a ordenação presbiteral do Pe. Loacir Luiz Luvizon msf, que suscitou em mim um turbilhão de questionamentos sobre meu projeto de vida e minha vocação. Busquei orientação vocacional e comecei a atuar como catequista de crisma. No início de 1979 busquei ajuda do Serviço de Animação Vocacional dos Missionários da Sagrada Família, que atuavam em Anchieta desde os primórdios, decidi deixar meu trabalho e iniciar a caminhada de formação para a vida consagrada e ministerial.

Em fevereiro de 1980 ingressei no aspirantado e, depois, no postulantado dos Missionários da Sagrada Família junto ao Escolasticado São José (Passo Fundo/RS). De 1980 a 1982 frequentei o curso de licenciatura em Filosofia na Universidade de Passo Fundo. Em 1983 fiz o ano de noviciado canônico em Caibi/SC. Emiti os primeiros votos, tornando-me Missionário da Sagrada Família no dia 29 de janeiro de 1984. Uma semana depois, iniciei o curso de Teologia no recém-criado Instituto Missioneiro de Teologia (Santo Ângelo/RS), residindo com os colegas e o formador em uma casinha de madeira no Bairro Braga. Fui ordenado presbítero em minha paróquia de origem, por Dom José Gomes, Bispo Diocesano de Chapecó, no dia 21 de fevereiro de 1987, ainda durante o 4º ano de teologia.

Nos meses seguintes, ainda em 1987, concluí o curso de teologia, e atuei como formador do Juniorado e Vigário paroquial da Paróquia Sagrada Família (Santo Ângelo/RS). Em 1988 e 1989 prossegui na missão de formador e vigário, e comecei a lecionar Introdução à Teologia e Pneumatologia e Graça no Instituto Missioneiro de Teologia, no qual fui o primeiro aluno a ser ordenado presbítero. Em 1990 e 1991, a pedido da Província e do Instituto Missioneiro de Teologia, fiz o curso de especialização em Teologia Dogmática no Centro de Estudos Superiores da Companhia de Jesus (Belo Horizonte), obtendo o título de Mestre, em maio de 1992. Durante esse período, fiz parte da equipe da Pastoral de Rua da Arquidiocese de Belo Horizonte e desenvolvi trabalhos na Paróquia Rainha da Paz (Bairro JK, Contagem).

O que gostaria de destacar do seu trabalho como religioso e sacerdote, ao longo de 40 anos?

Nesta caminhada de 40 anos como religioso e 37 anos como padre, atuei em vários campos e regiões. Nos primeiros anos, duas experiências me marcaram profundamente: a atuação nas comunidades dos bairros periféricos de Santo Ângelo, de 1984 a 1989; o trabalho com os moradores de rua, em Belo Horizonte, em 1990 e 1991. Os anos em que estive à frente dos trabalhos paroquiais (paróquia Sagrada Família e Paróquia Santo Antônio, ambas em Santo Ângelo) também foram importantes no sentido de ensaiar caminhos novos para a organização paroquial.

Também foram significativos os desafios de coordenar os Missionários da Sagrada Família da Província Brasil Meridional (RS, SC, RJ, GO, AM) e, posteriormente, da América Latina (Argentina, Bolívia, Brasil, Chile e Moçambique), missão que se estendeu por 15 anos. Não menos desafiadora foi a missão de seis anos como vice-superior geral da Congregação, quando vivi em Roma e tive oportunidade de acompanhar os trabalhos dos Missionários em mais de 20 países. Mais exigente e complexa, mas igualmente enriquecedora, foi a missão como formador dos seminaristas, em três diferentes períodos (1987-1989; 1997-1998; 2014-2017).

Como encara agora o desafio de servir a Deus como Bispo da Igreja Católica?

Depois de mais de 20 anos nos serviços de animação e coordenação, alimento um intenso desejo – que é também uma necessidade – de voltar ao trabalho na base eclesial. Alimentava a disponibilidade para servir à missão em Moçambique, mas o pedido da Igreja está me levando a Santa Cruz do Sul, como futuro bispo diocesano. Essa mudança de ministério é o primeiro grande desafio, pois nunca me imaginei atuando fora dos quadros e prioridades dos Missionários da Sagrada Família.

Veja também matéria e entrevista: https://youtu.be/FErnwAl0ZbA?t=96

Iniciar uma missão diferente, numa posição diferente, numa diocese da qual ainda não conheço absolutamente nada, com um clero e com comunidades sobre as quais não sei nada certamente vai exigir uma profunda humildade: deixar-me conduzir, aprender com os outros, pedir licença para entrar numa Igreja que ainda não é a minha. Além disso, os desafios que interpelam hoje toda a Igreja: confirmar o trabalho generoso de tantos padres, diáconos e lideranças leigas; dinamizar um processo sinodal baseado na comunhão, na participação e na missão; assegurar a equidade das mulheres nos espaços e serviços de animação; aprofundar a consciência sobre a responsabilidade coletiva em relação ao cuidado da “casa comum”; abrir os olhos e o coração dos cristãos para a necessidade de combater as injustiças a desigualdade social e econômica.

Como avalia o momento histórico que passa a Igreja Católica, sob a liderança do Papa Francisco?

A Igreja Católica vive um momento histórico crítico e cheio de possibilidades. Ela não pode cair na armadilha de competir com outras denominações pela “posse” de fiéis, mas centrar todas as suas forças no anúncio do Evangelho do Reino de Deus, com a humildade de quem sabe que propõe algo esperando uma adesão livre e adulta, mas também como quem tem a convicção de que é algo que contribui decisivamente com o progresso e o bem-estar das pessoas e da humanidade inteira.

Papa Francisco tem exercido uma liderança corajosa nesse processo, chamando-nos a sair dos espaços fechados, a dialogar e cooperar com as demais denominações cristãs, a curar feridas causadas pelos próprios membros da hierarquia, a tratar com severidade as práticas abusivas na área do poder, da sexualidade e da consciência.

Qual a mensagem aos amigos, aos coirmãos da tua Congregação e aos leitores do site?

Aos leitores do site: Vocês que lutam pela paz e pela justiça, pela emancipação dos homens e mulheres e pela humanização das relações, não estão fora da Igreja nem longe de Jesus Cristo e seu Evangelho, mas são parte integrante da grande caravana dos homens e mulheres de boa vontade, daqueles humanos seres dos quais Jesus Cristo se orgulha de chamar de irmãos e irmãs.

Aos cristãos católicos: Vivam e testemunhem a alegria do Evangelho, a impagável felicidade de ser povo de Deus, de ser semente de uma nova humanidade. Ousem propor o Evangelho de Jesus e chamar à comunidade de fé, fazendo dela uma escola na qual aprendemos a ser irmãos e irmãs sem fronteira. Cresçam na convicção de que, seguindo Jesus Cristo, ninguém perde ou sacrifica nada de verdadeiramente importante, e recebe gratuitamente tudo o que necessita para ser gente.

Aos coirmãos Missionários da Sagrada Família: Sentirei saudades do espírito missionário, da convivência cotidiana, das buscas feitas lado a lado, do desejo de coerência e criatividade, das tensões e discussões acaloradas. Quero continuar crescendo e amadurecendo em sabedoria, graça e testemunho. Com a graça de Deus, continuaremos próximos e com a possibilidade e o desejo de encontros frequentes. E peço a Deus que me conceda a graça de, mesmo que depois dos 75 anos, estar com vocês em alguma missão de fronteira.

Entrevista à Rede Rede Vida de Televisão: https://www.facebook.com/joao.ebertz.14/videos/466402499461826

Fotos: divulgação/arquivo pessoal

Edição: A. R.

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