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Juventude, ciência e ensino pela pesquisa

Aguçar o interesse dos jovens com estas temáticas é estratégico e fundamental, porém seu envolvimento depende mais de políticas públicas do que responsabilizar os estudantes.

Outubro é o mês dedicado à Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I) com o objetivo de mobilizar e conscientizar a população, em especial crianças e jovens, com temas e atividades da área, valorizando a criatividade, a atitude científica e o ensino pela pesquisa. Neste mês, geralmente, se concentram e ocorrem as principais feiras científicas nas escolas, universidades e entidades científicas.

Aguçar o interesse dos jovens com estas temáticas é estratégico e fundamental, porém seu envolvimento depende mais de políticas públicas do que responsabilizar os estudantes.

Nossa educação é que deveria ser um processo e um espaço público repleto de oportunidades aos estudantes a práticas de reflexão, investigação e discussão, desenvolvendo aprendizagens pela pesquisa e apreendendo a identificar os problemas e desafios do mundo atual e seus impactos em nossas vidas.

No entanto, a cultura educacional brasileira predominante é “dar aula” expositiva aos estudantes em detrimento da “fazer aulas” por meio da pesquisa. Todas as iniciativas nesta perspectiva são válidas, mas não basta promover pequenas experiências esporádicas, como feiras ou eventos de iniciação científica. É preciso priorizar e investir massivamente em laboratórios, infraestrutura tecnológica, formação de professores e pesquisa-ação nas escolas públicas e instituições de ensino superior (IES).

As primeiras iniciativas de programas de iniciação científica no Brasil se fortaleceram na década de 1990, embora houvesse concessões esporádicas de bolsas nessa modalidade desde a criação do CNPq em 1951.

A criação do Programa de Iniciação Científica do CNPq destinado a estudantes de graduação se deu em 1993. Só dez anos depois, em 2003, foi criado o primeiro programa do CNPq destinado ao ensino médio.

No Brasil, tanto a educação como a pesquisa são iniciativas somente do século XX.

No ensino superior brasileiro é quase inacreditável que, das 2.595 Instituições de Ensino Superior (IES), somente se exija pesquisa-ensino-extensão das 205 universidades. As demais 2.349 faculdades e centros universitários não tem obrigação de fazer e promover o ensino pela pesquisa e nem a produção de conhecimento novo.

Interesse dos Jovens e relevância social por ciência e tecnologia

De acordo com a pesquisa O que os jovens brasileiros pensam sobre ciência e tecnologia – 2024, realizada pelo Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Comunicação Pública da C&T (INCT/CPCT), que entrevistou 2.276 jovens de 15 a 24 anos, entre 3 e 25 de fevereiro deste ano, é elevado o interesse dos jovens por vários temas, como: 77% se afirmam ter muito interesse ou interesse por meio ambiente, 67% por ciência e tecnologia e 66% por medicina e saúde – percentuais superiores aos declarados por religião (63%), esportes (63%), arte e cultura (59%) e política (28%).

Por outro lado, 32% afirmaram que o espaço mais visitado são as bibliotecas. Já os museus ou espaços de ciência foram visitados apenas por 8% dos entrevistados. Entre as causas para a não visitação a um museu ou espaço de ciência estão “não tive tempo” e “não existem em minha região”.

Destaca-se, ainda, o desejo dos jovens por maior controle e participação social nas escolhas científicas e tecnológicas. A maioria acredita que a população deve ser ouvida nas grandes decisões sobre os rumos da C&T (84% concordam totalmente ou parcialmente) e desejam maior regulamentação da pesquisa científica por parte do estado (79%).

A pesquisa revela que as opiniões e as atitudes dos jovens brasileiros sobre temas da ciência, tecnologia e inovação indicam diversos aspectos positivos e muitos desafios.

Existe um grupo que parece mais atento às estratégias de desinformação e que demonstra maior equilíbrio em suas percepções. Mas, também, há um público que se informa basicamente pela internet e redes sociais, ambientes em que há maior circulação de notícias falsas e conteúdos duvidosos, e que apresenta baixo acesso a atividades científico-culturais.

Os dados demonstram que os jovens estão vulneráveis à desinformação, à possibilidade de participar em atividades de democratização do conhecimento e ao grau de familiaridade com conceitos científicos. As preocupações sobre aspectos específicos da C&T são muito diferentes em diferentes grupos.

Isso aponta para a necessidade de se pensar ações e conteúdos específicos para nossos jovens, tão diversos e bastante interessados em participar ativamente de uma cidadania que, cada vez mais, precisa de apropriação social da C&T para ser exercida plenamente.

Estes resultados podem direcionar não só gestores, mas também educadores, profissionais de comunicação e os próprios cientistas, em suas ações de aprendizado, apropriação do conhecimento e fortalecimento da cidadania científica.

O debate sobre a importância do ensino de ciências e do método científico tem ganhado força diante da disseminação de notícias falsas e da negação da ciência nos mais diversos espaços da sociedade. E na escola não é diferente.

“Os tensionamentos entre os valores trazidos pelos estudantes de suas casas e o que é ensinado em sala de aula sempre foram comuns. No entanto, nos últimos anos, a ascensão de valores conservadores que levam à negação de consensos científicos se exacerbou”, avalia a professora Sandra Selles, da UFF.

Ela atribui essa mudança a um movimento contemporâneo conservador atrelado a princípios religiosos e que envolve a universalização de padrões morais e a negação de consensos científicos.

A professora chama a atenção para o fato de que esse fenômeno é intensificado pelo uso massivo das redes sociais, que aceleram a disseminação de pautas negacionistas, e de que não se trata de meras atitudes individuais, mas de ideias de circulação massiva que têm o poder de atrasar ou mudar a direção de políticas públicas.

Ensino pela pesquisa e autonomia intelectual dos estudantes

Já o educador Pedro Demo, autor de mais de 100 livros, defende a pesquisa como princípio científico e educativo apregoando que ela não deve mais ser considerada algo distante, própria das práticas acadêmicas, mas incorporada aos processos de ensino e de aprendizagem.

O educador aponta que o professor maneja duas rédeas estratégicas para a vida dos estudantes: pode contribuir para forjar sujeitos capazes de história própria, bem como pode fomentar em cada jovem a habilidade de conhecimento com autonomia, em nome da e para a autonomia. Isto implica, necessariamente, educar e conhecer para gestar cidadãos capazes de mudar a sociedade em nome do bem comum.

O processo de formação do estudante compreende o apoio por outra pessoa, geralmente mais adulta, no sentido da construção da autoria e da autonomia. Este outro é apoio, pois ninguém se emancipa sozinho. O outro nos constitui. Formar, segundo Demo significa aprender a construir-se como referência das próprias oportunidades, no contexto social.

Neste sentido, duas referências são relevantes: a) autoria – habilidade de construir a vida como texto próprio, no plano individual e coletivo, e como expressão de cidadania ativa; b) autonomia – habilidade de gestar roteiro de aperfeiçoamento incessante da personalidade, tendo como resultado a constituição de sujeito capaz de história própria.

Pedro Demo, também, adverte que autoria e autonomia não podem ser completas, porque não somos seres completos. Somos seres inacabados. Formação implica capacidade de convivência com outras autorias e autonomias, igualitariamente.

Da mesma forma, formação e aprendizagem não são sinônimos. Aprendizagem acrescenta habilidades relativas à produção do conhecimento e o “aprender a aprender” é tipicamente formativo, no sentido que se baseia na gestação de autoria e autonomia.

Por coerência, prossegue Pedro Demo, a aprendizagem precisa desenvolver habilidades de dentro para fora, tais como:

  • pesquisa – capacidade de manejar conhecimento próprio, questionar, argumentar, fundamentar, duvidar;
  • elaboração própria – lemos um autor para nos tornarmos autor, não mero porta-voz;
  • argumentação – fazer ciência é saber argumentar e principalmente autoquestionar;
  • espirito crítico – é o manejo da incerteza com sua potencialidade disruptivo; e
  • comunicação desimpedida e bem-educada – liberdade de expressão, diálogo crítico, arte de produzir consensos possíveis, saber pensar, saber escutar o outro, falar na sua vez e falar apenas se tiver o que dizer.

Por contingências históricas, nossa educação brasileira e nossas instituições formadoras se vinculam a procedimentos de “ensino”. Até hoje persiste a concepção de “professor horista” contratado para “dar aula”, onde o professor transmite para o estudante o que ele absorveu de maneira reprodutiva de outros autores.

Como, na sua grande maioria, não somos autores, não conseguimos transformar os estudantes em autores de suas aprendizagens e conhecimentos. O ensino pela pesquisa é uma das estratégias que requer professores autores formandos estudantes protagonistas.

O desenvolvimento da autonomia e do protagonismo estudantil decorrem de processos participativos, coletivos e autorais dos docentes e discentes. Não há docência sem discência, as duas se explicam e seus sujeitos, apesar das diferenças que os conotam, não se reduzem à condição de objeto, um do outro. Quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender.

Por consequência, ensinar exige rigorosidade metódica e pesquisa, pois quanto mais criticamente se exerça a capacidade de aprender tanto mais se constrói e desenvolve a “curiosidade epistemológica”, sem a qual não alcançamos o conhecimento cabal do objeto.

Porém, como ter uma escola emancipatória em uma sociedade opressora? Como motivar, especialmente as crianças e os jovens, num país com extremas desigualdades, com racismo histórico e estrutural, com machismo, exclusão socioeconômica, gravidez precoce, o poder do tráfico, entre outros contextos que configuram o cenário brasileiro atual?

Nos falta valorização e referências científicas reconhecidas.  Porque a Argentina, o México, a Costa Rica e a Guatemala – países latino-americanos – possuem Prêmios Nobels e o Brasil ainda não? Por que nossos cientistas precisam trabalhar fora do país?

É inaceitável que o Brasil, uma das dez maiores economias do mundo, continue persistindo e negando o direito a educação, a ciência e cultura para 86% dos adolescentes e jovens que estudam nas escolas públicas.

Não culpe nem responsabilize as crianças os jovens estudantes pela desvalorização e interesse pela ciência. Esta responsabilidade é das elites e de seus governantes, que não permitem maiores investimentos na Ciência, na Pesquisa e na Educação com qualidade em todas as escolas pelo Brasil.

A comprovação é que a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC), em conjunto com diversas outras entidades científicas, acabam de manifestarem-se sobre a redução de recursos para Ciência no Projeto de Lei Orçamentária para 2025, expressando: “seguimos entendendo que o Brasil não pode prescindir da ciência e da tecnologia para alçar voos mais altos como Nação, assegurando não só seu crescimento econômico, mas também o desenvolvimento social que seu povo merece.

E só conseguiremos isso com investimentos fortes no sistema público de P&D e incentivo ao desenvolvimento tecnológico empresarial. Buscar esse equilíbrio é fundamental”.

FONTE: www.extraclasse.org.br/opiniao/2024/10/juventude-ciencia-e-ensino-pela-pesquisa/

Autor: Gabriel Grabowski, professor e pesquisador. Também já escreveu e publicou no site “A juventude não é preguiçosa, ela pensa o mundo diferente”: www.neipies.com/a-juventude-nao-e-preguicosa-ela-pensa-o-mundo-diferente/

Edição: A. R.

Indigestão burocrática

Em conceituação, narrativa e intento, a Lei de Gestão Democrática em vigência no Rio Grande do Sul está em desacordo ou, no mínimo, em flagrante contradição com o que motivou sua inscrição na Carta Constitucional de 1988 e implica num infeliz “indigestão burocrática”.

Da lei à vida: aquilo antes aprovado agora passa à prática e se veem confirmadas as nossas críticas e preocupações. Quando denunciávamos o teor da nova legislação que versa sobre o princípio constitucional da Gestão Democrática, não o fazíamos por desagrado, veleidade ou oposição pura e simples, mas porque o exame dos pressupostos inscritos na redação do texto indicava um método e sistema estranho e avesso àquilo construído e conquistado historicamente pelo movimento educacional.

Ao tempo da aprovação da nova versão da Lei de Gestão Democrática – no âmbito do Estado do Rio Grande do Sul sob o Governo Eduardo Leite  – incluída num pacote de propostas e medidas batizado de “marco legal da educação” e que tinha ainda o incentivo à municipalização, a desresponsabilização do entendimento estadual em ofertar ciclo completo do ensino fundamental, mudanças na composição e representatividade no Conselho Estadual de Educação e alterações no Ensino Técnico e Profissional, expressávamos a avaliação de que a mesma seria transformada em algo burocrático, tecnocrático e autoritário.

As exigências não dialogam com a realidade social, muito menos com a concepção política do que representa a escola no sistema de educação ou mesmo no imaginário das pessoas. Cursos prévios obrigatórios – com teor e conteúdos discricionários, prazos exíguos e condições precárias de acompanhamento e realização – são apenas a primeira parte de um rosário de imposições e dificuldades.

A aplicação – em caráter excludente – de prova de conhecimentos pode parecer inquestionável, afinal quem pode ser contra uma seleção que distingue e separa “melhores vs. piores” ou “preparados vs. inaptos”. Volta-se à carga: condições de estudo, conteúdo exigido (que circunscreve e aponta para determinado conceito e prática educacional), anulação da dimensão intrinsecamente relacional e humana da gestão político-pedagógico de um educandário. É a substituição da democracia pela burocracia, com óbvios caracteres tecnocráticos e riscos autoritários.

Ainda que vencidas estas etapas problemáticas, restam como obstáculos e impeditivos a própria eleição (e o fato de que se reduz ano a ano a disponibilidade de habilitados ao cargo na medida em que quase 60% dos professores e mais do que isso entre os funcionários não são servidores de carreira e não se realizam concursos públicos conforme a necessidade de preenchimento das vacâncias). E cumpre registrar que o texto legal conserva o absurdo dispositivo de proibição a detentores de mandatos sindicais em concorrer ao cargo (derrubado em caráter liminar pelo Sindicato).

Resta como outro aspecto equivocado e deletério do novo procedimento a exigência de apresentação e aprovação de Plano de Gestão que acompanhe e obedeça estritamente as

diretrizes e ordenamentos da SEDUC, verdadeira afronta a um dos pilares da Gestão Democrática, o a autonomia e que faz letra morta do Projeto Político-pedagógico da escola.

Em conceituação, narrativa e intento, a Lei de Gestão Democrática em vigência no Rio Grande do Sul está em desacordo ou, no mínimo, em flagrante contradição com o que motivou sua inscrição na Carta Constitucional de 1988 e implica num infeliz “indigestão burocrática”.

Apesar dos pesares, Sindicato e categoria – de maneira responsável e inteligente – participarão do processo realmente existente como forma de resistência e construção de bases concretas que possam num momento futuro reaver as máximas de uma Gestão Democrática de verdade em todo o Rio Grande do Sul.

Autor: Alex Sarat, Diretor do CPERS Sindicato, da CNTE e da CT. Estreia hoje sua primeira coluna no site.

Edição: A. R.

Porto alegre – quem perde, quem ganha?

Sem “papas na língua” começo uma série de artigos nos quais falarei sempre e cada vez mais de nossa Porto Alegre. Por enquanto “nossa”; amanhã, não sei…

Aqui quem escreve é um “não eleito”. Vão dizer que é choro de “derrotado”. Nada disso: aos 71, não tenho mais idade para chorar sobre o “leite derramado”. A verdade é que um terço dos porto-alegrenses negou o processo eleitoral em 2024. Não importam as razões do absenteísmo, de todo modo foi rejeição à política.

Fiquei decepcionado com a votação que fiz, 2406 votos. Outrora, fiz quase 9 mil. Com menos amplitude de campanha. Os tempos eram outros. Neste momento não há espaço para “políticos intelectualizados, com visão abrangente de mundo, dotados daquele humanismo universal que Marx via como a essência superior dos seres”, escreve um amigo meu, que não é do PT. Aqueles tempos acabaram.

Com orgulho me considero um dos resistentes ao “domínio do particular, à visão fragmentada das coisas, da pequenez dos interesses de grupos”, usando os ditos do amigo. Recebi dezenas de recados e uma frase foi recorrente: “perdeu a cidade”. Há anos me preparo para a revisão do Plano Diretor. Estive novato na melhor de suas formulações em 1999, como estive em 2009. Queria estar agora. Não estarei. Lastimo por isso, não só pelo meu preparo, pois em minha volta há os melhores quadros do urbanismo local.

O que será da revisão? Pela força da direita mais radical, pelos amigos do Estado mínimo, pelos adoradores do Capital e das privatizações, salve-se quem puder, o que sobrará de nosso capital? Meu compromisso sempre foi com a verdade e com o livre debate. Agora, sem as amarras do parlamento, sem condições de concorrer mais uma vez, vou tentar trazer à baila todos os temas cruciais da cidade, como pensador.

Vou desagradar os segmentos majoritários da atualidade no parlamento, reflexo da sociedade. E sem “papas na língua” começo uma série de artigos nos quais falarei sempre e cada vez mais de nossa Porto Alegre. Por enquanto “nossa”; amanhã, não sei…

 Autor: Adeli Sell, professor, escritor e bacharel em Direito. Também escreveu e publicou no site crônica “Os gaúchos”: www.neipies.com/os-gauchos/

Edição: A. R.

Força feminina na gestão pública em Marau, RS

Naura Bordignon, 45 anos, é uma das poucas mulheres prefeitas eleitas neste pleito eleitoral de 2024. Apenas 39 dos 492 eleitos no primeiro turno do RS são mulheres. Número corresponde a 7,93% do total. Gênero feminino predomina população no estado.

Nesta entrevista exclusiva ao site, a prefeita eleita Naura Bordignon falará da sua experiência em gestão pública, da sua avaliação sobre o pleito eleitoral 2024 e sobre as suas propostas para administrar a pujante e próspera cidade de Marau, RS.

Conte-nos, brevemente, um pouco de tua trajetória pessoal e política junto à comunidade marauense.

Sou filha de agricultores e nasci no interior de Marau, onde aprendi, desde muito cedo, o valor do trabalho duro e da união comunitária. Minha formação em Direito me deu uma base sólida para atuar na administração pública, e nos últimos oito anos, tive a oportunidade de ser chefe de gabinete do Prefeito Iura Kurtz. Esse período foi fundamental para o meu crescimento profissional e pessoal, pois pude estar diretamente envolvida em grandes conquistas para a cidade, especialmente no que se refere ao desenvolvimento do interior, à educação e à saúde. Ao longo desse tempo, estive sempre próxima das comunidades, ouvindo suas necessidades e buscando soluções práticas e justas.

 O que representa estar entre tão poucas mulheres eleitas prefeitas no primeiro turno, nas eleições de 2024, no RS?

É uma honra e uma grande responsabilidade estar entre as poucas mulheres eleitas como prefeitas no Rio Grande do Sul. Sabemos que as mulheres são a maioria da população, mas ainda ocupamos um espaço pequeno na política, o que torna essa conquista ainda mais significativa. Representar a força feminina na gestão pública é também um compromisso de inspirar outras mulheres a acreditar que podem ocupar qualquer espaço de decisão. O protagonismo feminino é essencial para a construção de uma sociedade mais igualitária e inclusiva.

Conte-nos como vinha se preparando para chegar a tão importante cargo no município de Marau, RS?

Minha preparação foi feita ao longo de toda a minha trajetória na administração pública, especialmente nos oito anos como chefe de gabinete do Prefeito Iura. Nesse período, participei ativamente de decisões estratégicas para Marau, sempre com o foco em melhorar a vida das pessoas e desenvolver o município de forma sustentável. Além disso, sempre busquei me capacitar, estudar e estar em constante diálogo com as comunidades, entendendo suas necessidades e expectativas. Isso me deu a base e a experiência necessárias para assumir esse novo desafio com segurança e responsabilidade.

Como avalia a eleição municipal que transcorreu no último domingo, dia 06 de outubro de 2024?

A eleição de 2024 foi marcada por um processo democrático intenso, mas muito respeitoso. Pude sentir o apoio da população marauense durante toda a campanha, e isso refletiu nas urnas. Ao mesmo tempo, acredito que o pleito demonstrou que a população de Marau quer continuidade no trabalho que já vem sendo feito, mas também espera inovações e melhorias. Essa confiança depositada em mim e na minha equipe nos motiva a seguir firmes no propósito de fazer Marau continuar crescendo e sendo uma cidade melhor para todos.

Quais são, na sua visão, os desafios de suceder uma administração bem avaliada como a de Iura Kurtz (prefeito eleito por duas gestões e do seu partido MDB)?

Sucedê-lo é, sem dúvida, um grande desafio, já que ele teve uma gestão muito bem avaliada pela população e realizou transformações importantes para o município. No entanto, também é uma oportunidade de dar continuidade a projetos estruturantes que já estão em andamento e, ao mesmo tempo, imprimir meu próprio estilo de gestão, focado na proximidade com as pessoas e na inovação. O principal desafio é manter o ritmo de crescimento e atender às novas demandas que surgem conforme a cidade evolui.

Quais são suas propostas para administrar a cidade de Marau, RS, de 2025-2028?

Nossa gestão será focada em continuar o desenvolvimento sustentável de Marau, projetando nosso município para os próximos anos e décadas, com projetos que promovam a melhoria da qualidade de vida da população. Entre as prioridades, destacam-se a ampliação dos serviços de saúde, com a construção de um novo posto de saúde na região norte, a continuidade das melhorias no trânsito e na infraestrutura urbana, além de investimentos em educação e no fortalecimento da economia local. Também daremos uma atenção especial ao desenvolvimento do interior, buscando sempre valorizar e apoiar nossas comunidades rurais.

Por que a política é a mais autêntica e eficiente forma de resolver os problemas sociais e estruturantes das comunidades, a partir dos municípios (sejam eles pequenos, de médio ou grande porte)?

A política é a ferramenta mais eficaz porque é através dela que podemos promover as transformações necessárias para o bem-estar da população. No nível municipal, temos a vantagem de estar mais próximos das pessoas, entendendo diretamente suas necessidades e expectativas. Isso nos permite agir de forma rápida e assertiva, criando políticas públicas que realmente impactam o dia a dia das comunidades. Quando feita com seriedade e compromisso, a política é, sem dúvida, o meio mais eficiente para resolver os problemas sociais e estruturais que afetam nossos municípios.

Outras considerações que desejarias fazer.

Gostaria de agradecer a cada um que depositou sua confiança em mim e na nossa equipe. Sei que os desafios são grandes, mas estou pronta para enfrentá-los com dedicação e seriedade, sempre priorizando o diálogo e a participação da comunidade nas decisões que tomaremos ao longo dos próximos anos. Marau tem um futuro promissor pela frente, e com o apoio de todos, tenho certeza de que continuaremos avançando rumo ao desenvolvimento e à qualidade de vida que todos merecem.

Fotos: Divulgação/arquivo pessoal

Edição: A. R.

Somos professores, somos tesouros

De um dia de formação, passa a rosa, vem a reflexão!

Professor! Professores, suas vidas valem ouro.

Temos fome de valorização, de cuidado e proteção.

Temos sede de acolhimento, respeito, afeição, da verdadeira relação.

Somos pessoas, somos professores, somos educadores, temos missão.

Não buscamos perfeição e sim superação, aprendizagem e processo.

Queremos esperançar, falar, gritar, ouvir, protestar, exigir e vibrar.

Continuamos acreditando, construindo, transformando.

Desistir, nunca! Levantar e avançar sempre. E, nesse caminho, vamos desatando nós, criando laços e entrelaços.

Somos tesouros. Nossa riqueza?  A palavra.

Somos exemplo, somos mãos, somos bençãos!

Nosso segredo? Estudo, planejamento, reflexão, ação, gratidão. Não sabemos, mas o que fica é a história, a memória, o legado, a formação.

E ao final do dia, desejamos nos permitir, nos acolher, nos abraçar, viver, semear e colher. Aprender, tentar e errar. Sofrer, chorar, protestar. Sentir, sorrir, conquistar, nos emocionar, porque nossa vida vale ouro e isso é ser professor.

Leia também: Poesia escrita em 2019, Nossas mãos!: https://www.neipies.com/nossas-maos/

Autora: Profª Adriana Severo dos Santos, EMEF Zeferino Demétrio Costi, Coordenação Anos Finais, 25/09/2024. Também escreveu e publicou no site poesia “Nossas mãos”: www.neipies.com/nossas-maos/

Falta pouco, meu pobre João!

Esqueça o dia, qualquer dia meu pobre João!

E que fique assim, o dito pelo não dito.

Pois o que era se para ouvir em silêncio,

não foi dito. E virou grito,

o maldito pito.

Esqueça a noite João, a raiva e o pavor.

Lembre-se!  Em um tempo foi bom sonhar.

E ao ver este senhor no andor, em dor,

ninguém veio acudir. Aliás,

 viraram o olhar.

Esqueça o fio da fúria!  Um dia passará.

Quem se importou ou quem esqueceu.

Sequer um sapé, um rio, uma curva, terão vocês.

Então a foice os podou, depois queimou,

matou e nem doeu.

Esqueça a dor e vire a face, João, a outra.

Saiba que nada mudará neste chão vil:

o insulto, o desprezo, nesta vida ou noutra.

Pois de ódio em ódio,

seu rosto há de brilhar no céu de anil.

(15/08/2023)

Autor: Nelceu A. Zanatta. Também escreveu e publicou no site a crônica “Para pensar no teto de todos nós”: https://www.neipies.com/para-pensar-no-teto-de-todos-nos/

Edição: A. R.

Mudança de perspectiva

Neste céu de manto azul,

Pelo vento pastoreados,

Carneirinhos de algodão

São, aos poucos, transformados em

Monstros aterradores,

Cuspindo raios, prantos, dores,

Nos vastos rincões do sul.

Parceiros do dia a dia,

Nos banhos e pescarias,

Rios, riachos e sangas,

Tão mansas corredeiras,

Tornam-se sobremaneira

Tsunamis arrasadores

De vidas, sonhos, cores.

Está tudo acabado…

Recuso-me a acreditar que

Irá renascer meu pago,

Feridas vão cicatrizar,

O povo, hoje, cansado

Mais forte irá levantar.

Já que é difícil mudar

Realidade tão dura,

Muda-se o modo de olhar.

Isso faz parte da cura.

O fim é um novo começo.

Que tal olhar o avesso?

Para entrar em novo clima,

Leia de baixo pra cima.

Poema originalmente publicado na obra “Sol das Águas de Maio” (2024, p. 220-221) a qual constitui o resultado de ações solidárias entre escritores independentes, idealizada e coordenada por Nurimar Bianchi (Soledade/RS), com o objetivo de levar livros e recursos às populações atingidas pelas enchentes de maio no estado. O lançamento do livro em Passo Fundo será no próximo dia 05 de maio, no Auditório da Academia Passo-Fundense de Letras (APL).

Autora: Roseméri Lorenz. Também escreveu e publicou no site o texto “Decepção pronominal”: https://www.neipies.com/decepcao-pronominal/

Edição: A. R.

Por um amor que vale a pena

Seu amor contagia. Suas palavras ateiam fogo nos corações ávidos de vida. Sua postura subversiva ante as demandas da vida desafiam seus pares a que deixem o ostracismo e voltem a acreditar num amor que valha a pena. Sinceramente, espero ser contado entre esses.

Todos sonhamos viver um grande amor. Do tipo que nos deixe sem fôlego, sem sono, sem chão. Uma paixão arrebatadora, digna de um roteiro de cinema.

Poucos, porém, realizam tal sonho. Daí vem a frustração, o desapontamento com o roteiro que a vida nos impõe. Somos vencidos pela rotina. A monotonia sabota nossos sonhos. Não há dragões a serem vencidos pelo mocinho valente, nem mocinha a ser salva. Não há príncipe para despertar a princesa de seu sono profundo. O sapo segue sendo sapo, mesmo depois do beijo.

As cores da vida vão se desbotando aos poucos. Temos aquela amarga impressão de termos sido enganados. Tudo não passou de um conto… não de fadas, mas do vigário. É esse súbito desapontamento com a vida o responsável por parir o que chamamos de maturidade.

Seguimos em nossa jornada, cativos do cronograma existencial. Acordar, escovar os dentes, tomar café, sair para o trabalho, voltar para casa, jantar, voltar a dormir. Dia após dia, os mesmos cenários, o mesmo script, a mesma dor, o mesmo sorriso amarelo, o mesmo tudo. Já decoramos nosso papel. Já sabemos o que dizer e como proceder em cada situação ‘inusitada’. Infelizmente, de inusitada só tem o nome. Tudo é absolutamente previsível.

De repente, 30. E mais um pouco, 40. E quando menos esperamos, 50, 60, 70, tchau.

Tomando emprestada a frase de um célebre humorista brasileiro já falecido, não tenho medo de morrer, tenho é pena. Pena por não ter vivido tudo o que havia para se viver.

Os maiores arrependimentos não são por aquilo que fizemos, mas pelo que deixamos de fazer.

Parafraseando Lennon, a vida vai passando, escapando-nos pelos dedos, enquanto estamos ocupados com outras coisas.

Mas há os que conseguem escapar da tirania das trivialidades. Há os que se recusam a ser simples engrenagens de um sistema fadado a entrar em colapso. Estes, embora tenham crescido, lá no fundo ainda são crianças. Abaixo da crosta, das camadas geológicas da alma, ainda há um magma buscando passagem, pronto para entrar em erupção.

Esses ainda cortejam a ingenuidade, o idealismo. Não importa o quão desgastados estejam seus corpos, suas mentes seguem intactas, ou nas palavras de Paulo, o apóstolo, seu ‘homem interior’ se renova dia a dia. São os que descobriram que há vida após a adolescência.

Estes não se contentam em ser plateia, figurantes ou coadjuvantes, antes, decidiram protagonizar a história escrita pelo Supremo Roteirista.

Apesar de crescidinhos, ainda acreditam que o mundo possa ser um lugar melhor. Ainda acalentam sonhos. O cinismo não logrou capturá-los.

Por isso, vivem e deixam viver quem quer que aposte no amor.

Seu amor contagia. Suas palavras ateiam fogo nos corações ávidos de vida. Sua postura subversiva ante as demandas da vida desafiam seus pares a que deixem o ostracismo e voltem a acreditar num amor que valha a pena.

Sinceramente, espero ser contado entre esses.

Autor: Hermes C. Fernandes. Também escreveu e publicou no site a crônica “Do que você jamais deveria se arrepender”: www.neipies.com/do-que-voce-jamais-deveria-se-arrepender/

Uma escola que ensine a subir escadas

O tempo avança, inventamos a roda e ficamos muito mais rápidos, mas ouso aqui afirmar: a escada é uma invenção ainda mais sábia pois nos leva “ao céu ” um passo de cada vez. É preciso ensinar a subir escadas!

Em meus mais inspirados dias destes 25 anos de atuação pedagógica, aprimorei técnicas psicomotoras de desenvolvimento infantil na primeira infância que auxiliaram várias gerações a alcançarem uma passagem tranquila para alunos e professoras pela fase desafiadora do Fundamental I.

Modéstia à parte, a criatividade sempre foi fundamento de atividade e mesmo no desafiador período de tempos pandêmicos as aulas de educação física e psicomotricidade transformavam qualquer ambiente e objetos em ferramentas essenciais para o desenvolvimento neurofuncional.

Sim, as crianças aprendem a ler, a escrever, a calcular, a organizar, a distribuir e a pensar sobre as ações desenvolvidas lá mesmo, no pátio, na educação física.

Entre as ferramentas permanentes das minhas aulas, a escada sempre foi utensílio básico para o desenvolvimento cognitivo global de um grupo de crianças. O ato que parece simplista, desnecessário e até de risco para alguns, faz com que a criança estabeleça metas, objetivos, escalas de mudança, vença o medo, compreenda seus próprios limites, ganhe força, equilíbrio, estabilidade, espaço temporal, agilidade, utilize-se de membros superiores e inferiores, estimule a curvatura normal da coluna e na pior das visões pedagógicas e com licença poética, “Alcance o céu”.

Pois bem, o tempo passou, já não atuo mais na educação formal e o que vejo hoje é que parece não termos absorvido o impacto de precisarmos nos manter vivos diante da tecnologia, não aprendemos mais a subir escadas.

Recordo-me da minha professora de primeira série que parou uma aula inteira, por várias vezes, as atividades para me ensinar a colocar o pé um em cada degrau. Pois assim aprendi com minha mãe, deficiente física, e isso me atrasava e aos colegas. Lembrei de escolas privadas que não colocam crianças a subir escadas em razão de um possível “risco” e lembrei também das escolas públicas que enjaulam as crianças em sala, muitas vezes por falta de espaço ou em prol de uma disciplina que criança, família e escola não tem ou ainda para digitalizar as experiências pensando apenas na rede social da vez.

Pois bem, o tempo avança, inventamos a roda e ficamos muito mais rápidos, mas ouso aqui afirmar: a escada é uma invenção ainda mais sábia pois nos leva “ao céu ” um passo de cada vez. É preciso ensinar a subir escadas!

Autor: Alexandre da Rosa Vieira, Acadêmico Academia Passofundense de Letras, cadeira 26. Também já escreveu e publicou no site a crônica “Educação: um buraco de minhoca”: https://www.neipies.com/educacao-um-buraco-de-minhoca/

Nessas eleições, um de direita ou um de esquerda?

Estamos próximos das eleições municipais brasileiras e em nossa querida Passo Fundo esperamos viver uma festa democrática. Buscando evoluir como sociedade, o mínimo que se espera é respeito a quem tem ponto de vista diferente, desde que a explanação da sua ideia não seja feita de maneira ofensiva e discriminatória.

Tornar-se professor da educação pública pressupõe anos de estudos, dedicação e ser aprovado em concurso seletivo. Normalmente essa conquista é motivo de orgulho, de satisfação pessoal e profissional, embora a crescente desvalorização do magistério. No caso de um professor de Filosofia, Geografia, História ou Ensino Religioso a carga de leitura costuma ser densa e exigente, com destaque para a reflexão sobre a vida humana em sociedade.

O título do artigo se refere a uma brincadeira entre amigos que já presenciei. Pergunta: “qual a diferença entre um professor de Humanas e um soco?” Resposta: o golpe pode ser de direita; ou então: qual a diferença entre um empresário e um soco? O golpe pode ser de esquerda. 

Não se trata de dado científico, comprovado, porém se percebe que boa parte dos profissionais das ciências humanas tendem a defender ideias mais alinhadas com a esquerda política, entendendo essa como uma busca por maior igualdade de oportunidades e redução de privilégios das classes mais endinheiradas.

Por outro lado, geralmente as categorias da sociedade economicamente mais favorecidas tendem a desenvolver um gosto maior pela chamada “direita” política, entendendo que as diferenças sociais são inevitáveis, simpatizando com conceitos mais conservadores. Claro que essa divisão é permeada de contradições, por exemplo, temas polêmicos como aborto ou maioridade penal costumam ter muitas divergências entre pessoas de um mesmo lado político.

A origem dos termos esquerda e direita remontam à Revolução Francesa, do final do século XVIII, na qual quem estava mais à esquerda no Parlamento defendia mudanças mais radicais.

Hoje, qualquer menção a defender um “lado” ou um partido político parece ser uma agressão a quem pensa diferente. Algumas redes sociais, por exemplo, tornam-se terreno fértil para disseminação de discursos de ódio e preconceito, pois o agressor muitas vezes se esconde em perfis falsos e dificilmente recebe uma punição adequada.

A história não se repete, mas pode haver muitas semelhanças entre contextos com certa distância temporal. Hoje, parece que voltamos aos tempos da Guerra Fria, onde praticamente só havia o Capitalismo dos Estados Unidos (EUA) e o Comunismo da União Soviética (URSS). Quem não se alinhar a um dos lados pode ser classificado com “em cima do muro”.

Estamos próximos das eleições municipais brasileiras e em nossa querida Passo Fundo esperamos viver uma festa democrática. Buscando evoluir como sociedade, o mínimo que se espera é respeito a quem tem ponto de vista diferente, desde que a explanação da sua ideia não seja feita de maneira ofensiva e discriminatória.

Em tempos de campanha eleitoral, promessas mirabolantes costumam surgir como solução para os nossos problemas cotidianos. Estaria na hora de trocar de representantes políticos? Seguir com aqueles que nos corresponderam?

Ser classificado como de direita ou de esquerda, nesse caso, não é o mais importante, mas que nossos vereadores e o prefeito mereçam a grande oportunidade que lhes será dada novamente. Por uma cidade de todos. Você acredita?

Autor: Fabiano Barcellos Teixeira, professor de História da rede municipal de Passo Fundo.

Edição: A. R.

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