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Os sons dos nossos recreios nos acompanharão para sempre

Acho mesmo que os sons dos nossos recreios de infância nos acompanham e nos acompanharão para todo o sempre. Mas temos de admitir que, de repente, por ordem de um sino qualquer, eles vão… Vão sumir de vez, era o que eu ia dizer. Mas, até isso acontecer, conviveremos em nosso íntimo com risadas e gritos de alegria.

Passamos pela vida de forma discreta. Nem dá para dizer que a humanidade logo nos esquecerá. A “grande humanidade” sequer ficou sabendo de nossa existência. Não estamos nos livros de história, não somos Napoleão Bonaparte, não ganhamos prêmios mundiais, não somos destaques no noticiário internacional, não temos milhares de seguidores nas redes sociais.

Vivemos, de fato, com uma parcela mínima da imensa humanidade, na nossa “pequena humanidade”, aquela que está a nossa volta. Aquela cujos primeiros contatos ocorreu no pátio do colégio, nos recreios. Nossos ouvidos foram alimentados com sons vindos daí.

No meu caso, havia um som que me fazia pensar que havia algo maior: o som do recreio do colégio, porque era um som que surgia de repente e forte, muito forte, como uma explosão; também de repente se extinguia por inteiro. Por ordem de um sino, sumia de vez.

Na vida adulta, é fato, meu mundo foi ampliado por mais relações afetivas, profissão, participação em eventos, por problemas da sociedade em que vivi, por uma série de sons. E desse espaço ampliado acompanhei o que se passava na “grande humanidade”. Me interessei por saber de seu passado, presente e possibilidades futuras.

Agora, no “pós-vida adulta”, percebo que esse interesse por observar a “grande humanidade” diminuiu. Minha atenção passa, gradativamente, a retornar ao pequeno mundo em torno de mim, que, por sinal, mantém semelhanças com aquele da infância.

Ontem, ao dar-me conta de que caminhava na calçada em frente ao pátio do colégio Bom Conselho, moro perto, parei. Esperei. E não é que o som que na minha infância me fazia pensar que havia algo maior ressurgiu bem como antes? Como antes, explodiu do silêncio! Eram vozes! Eram gritos alegres! Risadarias! Eram sons como os do recreio do meu colégio, como se eles estivessem me acompanhando nesses anos todos.

Sim, acho mesmo que os sons dos nossos recreios de infância nos acompanham e nos acompanharão para todo o sempre. Mas temos de admitir que, de repente, por ordem de um sino qualquer, eles vão… Vão sumir de vez, era o que eu ia dizer. Mas, até isso acontecer, conviveremos em nosso íntimo com risadas e gritos de alegria. Viveremos na boa companhia de vozes amigas. Amigas para sempre.

Autor: Jorge Alberto Salton. Também escreveu e publicou no site “Humana beleza de ser empático”: www.neipies.com/humana-beleza-de-ser-empatico/

Edição: A. R.



Escola perdida? Alunos ausentes?

Já pensou na angústia que pode ser a manhã de um aluno que precisa sair urgente da sala… para mergulhar nas redes?

Vamos falar francamente: não parece que a Escola vive seus dias de maior provação? E que neste confronto com as redes sociais pode vir nascer uma escola totalmente diferente?  Para melhor ou pior? Alguém aí lembra em que época, a Escola, como a conhecemos, enfrentou um momento tão desafiador para manter seus alunos em sala? Ou, para a sua própria sobrevivência, manter os alunos acordados?

Um adolescente, sentado em sua cadeira, em apenas 1 minuto, pode passar com seu dedo no celular mais de 20 vídeos. Caso ele se interesse por algum deles, o tempo vira para um minuto. E todos concordam: vídeos acima de 30 segundos, tornam-se chatos.

Até o início das aulas pela manhã, supomos 7h30, a cada dia, um jovem pode ter visto mais de 50 vídeos, somente a esta hora da manhã. E a aula de Física deve começar em minutos. Qual a motivação que este seguidor terá para enfrentar sua rotina na classe, e trocar um mundo de fantasia à sua disposição? Imagens excepcionais e ainda humor, excitação, dança e música? Quem não quer?

E qual a motivação extra que o seu professor terá de tirar da cartola, para segurar uma turma ávida por um mundo que as aguarda fora, muito mais atraente, muito mais empolgante – mesmo que fantasioso, cheios de tramas e imagens superficiais e viciantes.

Porque de nada adianta nós batermos nas mesmas teclas que expurgam as redes e mídias sociais, alertando sobre seus efeitos deletérios sobre crianças e adolescentes… elas simplesmente estão mais atrativas, mais apelativas. Para todos, adultos, inclusive.

Será que a Escola já se deu conta que seu método, pode torná-la obsoleta, isolada, dando de ombros para o que vem aí? 

Foi justamente um professor de Física que nos falou semana passada:

_Os alunos não têm qualquer motivação.  Sequer a inscrição para o Enem os mantém motivados. E completou:  Temos de admitir que está vindo uma grande mudança.

_Sim, completei.  Uma mudança jamais vista.

Ponha-se no lugar de um adolescente, que vive sufocado em meio a uma sociedade de consumo, escandalosamente consumista, ele, magnetizado pelas redes, e pelo seu catálogo, sim, ele fica sabendo que jovens podem faturar alto apenas avaliando produtos, montando lojas virtuais, acessando sites que sequer os seus pais imaginam, para depois…gastar e ostentar. Não é o que se vê na Internet?

O potencial das redes é ilimitado e elas furaram uma bolha de milênios: o mundo da informação!

Gratuito, 24 horas, apresentado por inúmeras fontes, muitas delas legais, regulares e confiáveis, o saber, ou a sua pretensão, está ao alcance na prateleira das ilusões on line.

Desde a invenção da escrita, sabe-se lá em que milênio, passando pela prensa de Gutenberg em 1450, jamais, em tempo algum, o conhecimento esteve à disposição de tantos, ao mesmo tempo, sem custos e de forma instantânea. Sem falarmos nas catacumbas da Internet, da deep web, onde se pode aprender a armar granadas e a contratar matadores de aluguel.

Hoje, em uma parada de ônibus, em qualquer parte do Globo, a pessoa que está a sua espera, voltando para sua casa, pode acessar pelo celular a vida de São Francisco, as Cruzadas, o fim da segunda Guerra Mundial ou uma receita de vatapá.  Não há limites!  E cada vez mais não haverá!

Tanto no nascimento de novas empresas, inovadoras, quanto nos investimentos dedicados às novas tecnologias, nos números de seguidores encantados pelas novidades tecnológicas e pela monetização do ambiente online, a cada mês, a cada dia, afirmo que teremos à mão uma descoberta a nos maravilhar. Ou a nos perturbar!

E a escola? Vai suportar a presença dos alunos ausentes, a invasão de estudantes fantasmas, com o olhar preso às horas que não passam, ávidos para dar um salto rumo ao mundo fantástico das telas do novo querer e da nova alienação. O que restará para fazer na Escola? Em quais investimentos ela está comprometida, na divulgação e na busca de novos empreendimentos escolares e fazer-se genuinamente atualizada, comprometida com as transformações que explodem a cada dia em nossas casas? 

Mas quem é a Escola? 

Creio que como as famílias, Igrejas ou quaisquer instituições, a Escola tem de olhar com grande apreensão os novos tempos que batem em nosso rosto. E o ambiente de troca, de formação do caráter, da afetividade e do crescimento, pode ceder a um consumo das relações, aonde quem tem mais seguidores, dita as regras do comportamento e ainda os objetos de sua adoração.

 Então temos de falar e gritar: vem muita mudança pela frente!

Fica difícil imaginar que a humanidade volte atrás. Hoje, você nem precisa levantar-se da cama para ganhar, gastar, endividar-se, ou mudar de vida, inclusive, permanecendo na cama. Tudo está a distância de um palmo. Como então queremos enquadrar crianças e jovens em padrões de comportamento e avaliações se o mundo real, onde vivem, não para de mudar? Sim, o mundo que começa depois do ‘sino tocar’.  E eles nem precisam alcançar a calçada que estão com seus smarts em punho.

E ouve-se de tudo: 

_corta o celular, disciplina sobre todos, horário para dormir e para desligar as redes…tira o celular!

Mas como? Se os pais saíram para jantar e, preocupados, deixaram o celular ao alcance dos menores para o caso de um imprevisto!

Mas como? Tirar o celular da mão do aluno, às 20 horas, justamente quando ele decidiu pesquisar sobre a República Velha, pois o tema cairá na próxima prova. E não foi possível ligar o lap top por que estava sem energia…e como não tem livro físico, apelou-se pelo cel.  Mais rápido que um milhão de Enciclopédias Barsa, todas as respostas explodem numa telinha brilhante, que reflete os seus olhos como espelho de água azul, mágica.

As propostas que tenho ouvido, de pais amigos a professores, de autores irados ou Secretarias omissas, todas elas, as que têm uma proposta de banir e disciplinar o acesso às plataformas, todas, terão apenas o efeito de incitar uma curiosidade absurda nos controlados. A vontade de ver, ‘curtir’ e rolar suas telas aumentará, na proporção direta de sua proibição.

Será que nos demos conta dessa batalha quase perdida? Ou não está perdida, mas é apenas mais uma batalha?

Quantos estudantes evadidos teremos de assistir, até tomar uma posição que atenda o momento histórico e assustador pelo qual alunos e famílias vivem hoje? Estamos todos tão imersos na rede que quase ninguém pode apontar o dedo. Não há caminhos fáceis quando a inovação exige mudanças constantes. Mas temos de fazer algo! Talvez grifar, sublinhar e ou engarrafar no que temos insistido, em todos estes meses: leitura.

E aqui, uma reflexão aos centralizadores escolares que direcionam livros e conteúdo:  muito do mal que assola o mundo, nasce justamente da leitura e do estudo físico.  E aos alunos que se sentem atraídos pela TI ou pela AI, serão ignorantes contextuais por não saberem interpretar temas ou expor a complexidade que cresce nas demandas no seu entorno. Justamente pela sua falta de contato com livros.

Manter alunos acordados ou, pelo menos atentos, será o grande desafio de professores e profissionais daqui pra frente. Eles estão sendo acostumados a passar rapidamente adiante… o que não os interessa.  E em 10 minutos, caso o assunto não os atrair, serão apenas alunos ausentes, devidamente uniformizados e disciplinados, cumprindo as normas escolares estabelecidas, dezenas de anos atrás, para, em seguida, chispar de qualquer ambiente inanimado para mergulhar nas redes.

A Escola regular não se deu conta que a velocidade desses tempos, ofusca o olhar dos matriculados e todos querem consumir?

Consumir qualquer coisa?  Poderemos nos aliar à Escola, para que ela, mais uma vez, seja a resistência, o espaço de acolhimento e diversidade, como que antecipando o tipo de sociedade real que queremos? Ou que não queremos?

A luta pelo retorno do livro físico deveria ser a bandeira principal do Estado, do País… no mundo inteiro. Não somente o livro, contudo: a leitura, interpretação, o debate, a sistematização das informações (resumo ou esquema dos conhecimentos estudados), o confronto saudável de temas que sempre beiram o futuro e lançam a todos em um labirinto de dúvidas e questionamentos, que, ao final, agrupam os tijolos emocionais e racionais para a construção da humanidade.

Mas, acreditem: será somente na leitura e na escrita que a cognição das próximas gerações poderá ser salva das garras dos gigantes midiáticos e seus ‘influencers.’ E que os pátios de ternura e tolerância das Escolas, que fizeram parte do nosso despertar, nunca sejam trocados por telas enfadonhas.

Retornando à sala, como hoje presenciei, o aluno com quem conversava retornou para estudar a Velha República. Não que não seja importante, hein? Jamais! É que…cá pra nós: entre a história maravilhosa e estes tempos cansativos, eles querem mais é jogar Roblox e Hay day. Querem perguntar ao diretor se ele sabe o que é?

Se quiser, querido leitor, leia esta matéria que aprofunda a temática do monopólio do google e dos celulares fora da escola no Brasil:  https://www.uol.com.br/tilt/colunas/helton-simoes-gomes/2024/08/09/o-monopolio-do-google-e-os-celulares-fora-da-escola-no-brasil.htm

Autor: Nelceu A. Zanatta. Também escreveu e publicou no site “Há cinquenta países que leem mais do que nós: o que nos atrasa”?: www.neipies.com/ha-cinquenta-paises-que-leem-mais-do-que-nos-o-que-nos-atrasa/

Edição: A. R.

A força de 3 mulheres negras brasileiras nas Olimpíadas 2024

É ouro para o Brasil no solo da ginástica artística das Olimpíadas 2024 de Paris, mas não recebemos medalhas no respeito e na opressão às mulheres negras. Infelizmente, este ouro que tanto nos emocionou nesta manhã de cinco de agosto só nos leva a refletirmos sobre o papel da mulher preta na nossa sociedade.

Por que a mulher preta precisa todos os dias mostrar a sua coragem e enfrentar batalhas as mais diversas para alcançar os seus sonhos e objetivos? O que a faz diferente das outras mulheres? O que vimos hoje no pódio das Olimpíadas 2024 foi uma cena de causar choro e fortes emoções, pois não foi apenas Rebeca Andrade, brasileira, a se destacar, mas as outras atletas que subiram o mesmo pódio com ela também são negras e veem de um país que por muitos anos escravizou seus negros.

Tivemos no pódio olímpico a força da mulher negra que se veste todos os dias de coragem para enfrentar a opressão de alguns brancos que não têm empatia ou não sabem amar o próximo como podemos ver nos ensinamentos daquele que foi o maior homem a passar pela Terra, Jesus Cristo, que nos dizia amai ao próximo como a ti mesmo. Não! As mulheres pretas não são amadas pelo próximo! Isto é uma verdade!

Meninas negras de até 13 anos são estupradas a cada 08 minutos no Brasil e 62% das mulheres negras adultas são vítimas de feminicídio num país que usa máscaras, que se veste com a camisa verde e amarela para festejar o ouro olímpico de uma mulher negra maior atleta do país, melhor atleta da história olímpica brasileira. Somos um povo que sabemos fingir não como diria o poeta português Fernando Pessoa “O poeta é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente.”

Falar desse fingimento de que o povo brasileiro está engolindo o ouro olímpico de Rebeca Andrade com amor e emoção parece até utópico, pois como amar uma mulher negra, ter orgulho dela se matamos as nossas mulheres pretas nas favelas e periferias dos grandes centros urbanos, acusando-as de traficantes e esposas de bandidos?

Maltratamos as nossas mulheres pretas todos os dias nas lojas dos shopping centers, nos supermercados, nas escolas e nas diversas instituições públicas onde a maioria dos concursados é formada de mulheres brancas. O pódio olímpico de hoje na ginástica artística foi de um orgulho imenso para um povo que todos os dias sofre racismo das mais diversas áreas da sociedade formado pelas grandes atletas Rebeca Andrade, Simone Biles e Jordan Chiles. Três mulheres pretas que driblaram a branquitude e quebraram estereótipos.

Como dizia o nosso querido técnico de futebol Zagallo “vocês vão ter que me engolir”, Rebeca Andrade e as outras duas atletas americanas que formaram o pódio olímpico com ela hoje pela manhã disseram ao mundo. Vão ter que engolir que três mulheres pretas são as melhores do mundo num esporte feito para mulheres brancas.

O feito é de Rebeca Andrade, nossa mulher preta brasileira que traz pra casa, pra um país racista, um ouro que representa a luta da mulher preta pelo seu lugar de vencedora numa sociedade racista e preconceituosa que a vê como uma lavadora de roupas, empregada doméstica ou outra profissão simples qualquer. Não que estas profissões sejam de menor valor, mas que a mulher preta nunca foi vista como uma rainha ou miss universo. Estamos chegando longe, mulheres pretas!

E o povo preto no Brasil ainda sofre racismo, ainda é morto todos os dias pelos nossos policiais militares nas favelas do Rio de Janeiro e em outros grandes centros urbanos sempre confundidos com bandidos e traficantes. Este é um povo que luta todos os dias pela sua dignidade, pelo seu lugar no mundo, pelo reconhecimento de sua cor e de seus direitos.

Fomos um dos últimos países das Américas a libertar os nossos escravos. E mesmo assim depois de os libertarmos não lhes demos as condições necessárias para que pudessem trabalhar e serem livres de verdade, e há mais de um século continuamos fazendo isso. O povo preto não tem lugar na sociedade elitista e branca do Brasil.

Aonde chega um negro simplesmente é logo visto com um olhar de desconfiança. A branquitude ainda é grande na sociedade brasileira, mas quer queiram quer não, muitas dessas pessoas que ontem não comemoraram o nosso ouro olímpico por ter vindo de uma mulher preta vão ter que engolir que elas estão chegando para mostrarem quem são e o que podem fazer dentro e fora do esporte.

Primeiro vieram as cotas sociais nas universidades públicas que deram o direito de muitos pretos chegarem ao ensino universitário e agora apesar de pouco investimento e iniciativas públicas, temos visto um pequeno movimento nas periferias de organizações sem fins lucrativos que vão atrás dessas mesmas meninas pretas para lhes darem uma oportunidade.

Alguém lá fora já percebeu que as mulheres pretas brasileiras não sabem apenas sambar, mas são médicas, juízas, professoras, advogadas e agora atletas medalhistas olímpicas. Estamos mostrando a força da mulher preta brasileira de pouquinho em pouquinho, mas um dia chegaremos lá com ajuda nacional ou internacional, as modelos brasileiras pretas já começam a se destacarem nas passarelas de Paris. E foi em Paris onde o nosso sonho olímpico do lugar mais alto no pódio foi escrito por uma mulher negra!

Viver num país como o Brasil onde o racismo ainda é grande é um desafio. É todos os dias ter que fazer a travessia de uma ponte sem saber o que nos espera lá na frente.

Contudo, a mulher preta não é mais vista como a Tia Anastácia criada pelo escritor racista Monteiro Lobato, mas agora ela chega e cumpre o seu papel nas instâncias mais altas da sociedade apesar de ainda sofrerem todas as opressões agressivas e inimagináveis. Não vão nos parar mais, quebramos as correntes! Agora sabemos que podemos chegar ao mais alto lugar do pódio: o ouro é de uma mulher preta e chorem os brancos indignados.

Tenho certeza de que a nossa querida Carolina de Jesus estaria com lágrimas nos olhos até agora com este grande feito de Rebeca Andrade no dia de hoje assim como a nossa amada antropóloga americana Zora Neale Hurston que sempre lutou para acabar com a segregação do seu povo na Flórida contando em livro a sua experiência de ser uma mulher negra escritora, roteirista e folclorista.

O mais importante é que a maior medalhista olímpica brasileira é uma mulher preta e que ninguém pode tirar isso dela, representando a mulher negra que foi escravizada durante anos tendo que ficar na cozinha ou sendo ama de leite de crianças filhas de mulheres brancas. A nossa querida Rebeca Andrade é ouro, e este ouro é só o começo do grito da mulher preta contemporânea que nunca mais vai abaixar a sua cabeça para a branquitude nojenta e horrível que se impregna dentro de uma sociedade mesquinha e opressora. O ouro está no peito de uma mulher preta.

Para finalizar, deixo vocês com os versos do poema “Humanidade” da poeta Carolina Maria de Jesus que nos diz

“Depôis de conhecer a humanidade / suas perversidades / suas ambições / Eu fui envelhecendo / E perdendo as ilusões / o que predomina é a maldade…”

É triste saber do sofrimento e opressão pelo qual passou a nossa poeta, mas a história se reescreve, amada Carolina, e em pleno século XXI nasce uma menina preta paulistana de 25 anos que só envelhece a branquitude, pois o seu sorriso no lugar mais alto do pódio de hoje foi o de uma criança que vê o mundo pelos olhos de quem sabe enfrentar à dureza da cor da pele estampada nos pratos de ouro dos senhorios da sociedade brasileira.

Rebeca Andrade, obrigada por você ser tão grande! Espero que a partir de hoje a mulher negra seja vista com outros olhares, pois tudo podemos, até mesmo ganharmos ouro olímpico numa país onde desfilam as mulheres brancas da alta sociedade brasileira porque uma pobre preta de periferia não tem o direito sequer de viajar para ver os seus parentes que moram distante, não temos dinheiro o suficiente para luxos e lazer.

Trabalhamos todos os dias para sobrevivermos, e você treina todos os dias para nos colocar no lugar mais alto do pódio. O Brasil até agora ganhou duas medalhas de ouro e estas duas vieram da luta e da coragem de duas mulheres pretas. Valeu, Rebeca e Bia! Vocês são as pretas mais lindas do Brasil até que outra história seja escrita.

Autora: Rosângela Trajano. Também escreveu e publicou no site “Os diversos Pelezinhos da minha rua”: https://www.neipies.com/os-diversos-pelesinhos-da-minha-rua/

Edição: A. R.

Sobre as Grandes Alegrias da Docência: Alegria do Ensino

A educação é uma atividade maravilhosa, mas pede uma entrega. Nós temos que arriscar. Não podemos ficar esperando que a iniciativa venha do aluno. A iniciativa primeira tem de ser nossa. Há uma alegria enorme. No entanto, só é vivida por quem se entrega.

O Magistério propicia o prazer de ensinar, de ver o outro aprender com nossa mediação. Sabemos que é o outro quem aprende, cresce —por mais que goste de um aluno, não posso conhecer por ele- mas cresce com nossa ajuda. Isto traz uma enorme realização.

Preparamo-nos a vida toda para ser o profissional que somos hoje; dedicamo-nos a estudar, pesquisar, sistematizar determinada área do conhecimento humano, traduzí-la em plano de ação. Agora, na atividade de ensino, percebemos que aquilo que faz tanto sentido para nós, faz sentido também para outras pessoas, com as quais talvez nunca tenhamos nos encontrado antes.

Nada se compara com a satisfação de encontrar um antigo aluno e ouvir aquela carinhosa e significativa saudação: “Professor!…”. Neste momento, temos a certeza de que deixamos uma marca (ensino vem do latim insignare, pôr um sinal —signum—, marcar com sinal, dar a conhecer). Dessa forma, o magistério favorece a experiência radical de ser coautor da criação. O professor, assim, não morre jamais (Rubem Alves), exorcizando um dos medos do ser humano que é o anonimato, a insignificância.

Esta alegria só pode ser experimentada por quem se dedica, se entrega efetivamente ao ensino. Infelizmente, há professores esperando que primeiro os alunos se disponham, para que daí ele “faça sua parte”. Nós somos os adultos da relação, temos de tomar iniciativa, dar o primeiro passo.

Martin Buber (1878-1965), no livro Histórias do Rabi, tem uma colocação muito interessante: “O mestre orienta os discípulos e, nos momentos de depressão, os discípulos reorientam o mestre”. Isto é fantástico. Quem já foi resgatado por seus alunos em momentos difíceis de sua vida sabe o quanto esta afirmação é verdadeira. Todavia, isso só pode acontecer se houve uma entrega primeiro, se vínculos profundos foram criados com os alunos.

Como nos diz Fernando Pessoa (1888-1935): Para ser grande, sê inteiro: nada/Teu exagera ou exclui/Sê todo em cada coisa. Põe quanto és/No mínimo que fazes./Assim em cada lago a lua toda/Brilha, porque alta vive. Este poema remete à necessidade mergulhar, de se entregar àquilo que estamos fazendo.

A educação é uma atividade maravilhosa, mas pede uma entrega. Nós temos que arriscar. Não podemos ficar esperando que a iniciativa venha do aluno. A iniciativa primeira tem de ser nossa. Há uma alegria enorme. No entanto, só é vivida por quem se entrega.

VASCONCELLOS, Celso dos S. Alegria de Educar numa Perspectiva Crítica e Emancipadora. São Paulo: Libertad, 2023 (mimeo).

Autor: Celso Vasconcellos. Também escreveu e publicou no site “Sobre a potência da docência”: www.neipies.com/sobre-a-potencia-da-docencia/

Edição: A. R.

Desafios

A Olimpíada da nossa vida tem muitos troféus e sabemos o que significou cada esforço para conquistá-los. Sempre temos e teremos motivos para comemorar, movidos pela paixão do viver.

Diante dos desafios enfrentados, é importante desenvolvermos a atitude de autoconfiança, que facilita a busca de uma meta, tendo foco nos objetivos almejados. Trata-se de saber querer e saber desejar.

A atuação dos atletas, que vemos nas Olimpíadas, nos traz diversas reflexões, desde o desempenho individual, quanto coletivo, nas diversas modalidades de esporte a qual se dedicam. Como se trata de uma competição entre os melhores, é evidente que vencerá sempre o que tiver melhor desempenho, no momento de sua apresentação. Houve o tempo intenso e disciplinado de treinamento, nas técnicas. Ocorreu o preparo necessário nas dimensões física e psicológica, para atingir a meta, e no momento decisivo do desempenho, é posta a prova a autoconfiança, a resiliência, o foco, o talento do atleta e sobretudo o seu discernimento diante das dificuldades encontradas.

Vários fatores interferem nessa dinâmica: pessoais, coletivos e circunstanciais. Para atingir o êxito, há uma caminhada de dedicação pessoal e de esforço coletivo, tendo a autoconfiança como um eixo de equilíbrio.

O sucesso não surge como um presente, uma gratuidade. Há um registro de muitas horas de solidão, de renúncia, de inquietações, de dúvidas, de escolha de prioridades, que constituem a carga psíquica carregada pelo atleta e que ele precisa saber lidar, com disciplina e tenacidade. Assim se registram as grandes conquistas da história humana, tanto nas artes, quanto nas ciências e no esporte ocorre o mesmo.

No ambiente de competição esportiva, como uma Olimpíada, reúnem-se os melhores, cujas medalhas recebidas expressam o reconhecimento público de um desempenho perfeito, cujas avaliações apoiam-se em diferenças de segundos, de décimos de tempo. É o instante, que não se repete. Foi ali, naquele momento, que o atleta evidenciou o seu preparo e mostrou sua performance. Não se pode esquecer, é lógico, os fatores intervenientes, como as condições familiares, as resistências psicológicas, as condições econômicas, o enfrentamento de contrariedades e o desejo de vencer.

Em momentos decisivos como esses vividos na Olimpíada, as emoções flutuam como as ondas do mar, ora intensas, perigosas, desafiadoras, ora mais mansas, vestidas de ternura e mansidão. Esse também é o flutuar da nossa vida. Às vezes, dominamos a onda forte, com nossas pranchas resistentes, outras, ela pode nos derrubar e nem sempre nos levar à praia mansa, mas ao alto mar solitário e desafiador.

Os desafios fazem parte do viver. Viver é saber lidar com desafios, é confiar na própria capacidade de superação de limites, rompendo a zona de conforto. Isso serve para todos nós, anônimos, que escolhemos pela dignidade de seres livres. A Olimpíada da nossa vida tem muitos troféus e sabemos o que significou cada esforço para conquistá-los. Sempre temos e teremos motivos para comemorar, movidos pela paixão do viver.

Autora: Cecilia Pires. Também escreveu e publicou no site “A fala das àguas”: https://www.neipies.com/a-fala-das-aguas/

Edição: A. R.

Projeto Sofia: onde a leitura e a escrita iluminam os sonhos

Não há necessidade de procurar por grandes aventuras ou feitos espetaculares. A verdade é que as coisas mais significativas da vida, como o sol interno que nos aquece, revelam-se nos cantos mais discretos da existência.

Minha jornada como professor não foi diferente. Desde o momento em que entrei em uma sala de aula pela primeira vez, senti uma afinidade pela profissão. No entanto, foi ao perceber um certo brilho que comecei a verdadeiramente amar o que faço e, de forma modesta, porém consistente, me tornei um educador.

O momento decisivo ocorreu quando comecei a lecionar na Escola Municipal de Ensino Fundamental Daniel Dipp. Logo de início, notei algo incomum: um número significativo de alunos, especialmente meninas, que tinham um apreço pela leitura. Naquele momento, ainda estava impregnado com a ideia equivocada de uma divisão entre professores e estudantes, uma barreira que nos separa em “eles” e “nós”. Muitas vezes, ouvimos discursos que perpetuam essa ideia de antagonismo entre alunos e professores.

Em uma manhã, enquanto ensinava Filosofia para uma turma do sexto ano, observei uma aluna, Lara Morussi Hoppe, folheando um livro. Curioso, como leitor e escritor, aproximei-me dela para perguntar sobre o que estava lendo. Fiquei surpreso ao descobrir que era “Meu Corpo, Minha Casa”, da renomada poetisa Rupi Kaur. Tudo naquele momento me impactou: a jovem idade da aluna, seu interesse pela poesia, sua capacidade de discutir o conteúdo do livro e seu entusiasmo ao falar sobre ele.

Atônito, senti que era meu dever valorizar aquele momento. Quantas vezes pedimos aos alunos que leiam mais? Mas quando a iniciativa parte deles, como reconhecemos e valorizamos esse esforço?

Decidi registrar aquele momento tirando uma foto. Sim, uma simples foto para compartilhar nas redes sociais. Os estudantes têm uma relação ambígua com as redes sociais – orgânica e, ao mesmo tempo, desafiadora. Postar a foto da aluna lendo era uma maneira de reconhecer seu esforço, permitindo que sua ação fosse vista e valorizada pelos outros.

Pedi permissão à aluna para fotografá-la com o livro e fazer uma postagem. Ela concordou, e esse foi o embrião do projeto.

Na semana seguinte, para minha surpresa, muitos alunos já tinham visto a foto da Lara. Além disso, mais estudantes começaram a aparecer com seus próprios livros. Percebi que não poderia perder essas oportunidades e, sempre que via um aluno com um livro, tirava uma foto e compartilhava.

Com o tempo, descobri várias outras alunas que também eram ávidas leitoras, como Lívia Bernardes Rodrigues, Nataly Moraes Pedroso e Júlia Regina Domingues. Em uma conversa com elas, surgiu a ideia de formar um grupo de leitura e escrita.

No final de 2023, a diretora Ana Delise Claich Cassol me convidou a criar um projeto para o vernissage da escola. Na mesma hora, pensei nas jovens leitoras.

Meu desejo era transformar as fotos em uma exposição. Dessa vez, porém, queria que elas se vissem lendo através das lentes de um profissional. Foi então que conheci o fotógrafo Diogo Zanatta, que generosamente concordou em fotografar as alunas sem custos. Assim nasceu o grupo “SOFIA – Leitura e Escrita Criativa”

Vejo a escola como um palco artístico, onde professores e alunos colaboram para um espetáculo harmonioso. Para que tudo funcione, é crucial que os professores inspirem os alunos e estes, por sua vez, inspirem os professores.

Acredito que todo projeto precisa crescer organicamente, como uma árvore que germina lentamente. Não pode ser imposto, mas deve atender a uma necessidade coletiva. Assim tem crescido o SOFIA.

Desde a primeira reunião, os estudantes mergulham em leituras, participam de bate-papos literários, tanto entre si como com autores, competem em concursos de contos e frequentam eventos literários. Para as leituras coletivas, utilizamos os livros das sacolas literárias da Biblioteca Pública Municipal Arno Viuniski. Tudo isso é possível graças ao desejo de crescimento dos estudantes, suas famílias, dos professores e da administração escolar. Se um desses elos falhar, a corrente se quebra.

Sobre as parcerias e conquistas do grupo, contarei mais na próxima crônica, semana que vem. Seguimos, banhados pelo sol dos nossos sonhos, energizados pela luz que emana da literatura.

Viva a educação! Viva a literatura! Viva a EMEF Daniel Dipp!                                     

Fotos: Diogo Zanatta                                     

Autor: Aleixo da Rosa. Também escreveu e publicou no site “O curioso caso dos alunos que preferiram os livros”: https://www.neipies.com/o-curioso-caso-dos-alunos-que-preferiram-os-livros/

Edição: A. R.

A importância dos catadores de materiais recicláveis

É preciso que as autoridades reconheçam o trabalho dos catadores de materiais recicláveis os ajudando com políticas públicas de incentivo para que recebam a dignidade e o respeito necessários, afinal eles têm contribuído como já disse acima para um mundo melhor e mais bonito.

Na maioria das cidades há uma multidão que anda apressada e joga lixo pelas ruas sem se preocupar com o meio ambiente. É uma gente que não está nem aí com a sujeira das cidades. Não se preocupa com o próprio bem-estar. Contudo, se tem essa multidão que joga lixo nas ruas também temos os catadores de materiais recicláveis que ajudam as prefeituras e os garis a limparem as ruas dessas mesmas cidades de uma forma bonita e até poética.

O catador de material reciclável é um trabalhador que recolhe os resíduos sólidos recicláveis e reaproveitáveis, como papelão, alumínio, plástico, vidro, entre outros. É ele o nosso guardião do lixo saudável que jogamos fora todos os dias, pensando nós que existe um “fora” quando estamos todos dentro de um mundo que exige cuidados da nossa parte.

Esses catadores de materiais recicláveis, antigamente viviam solitários, sem receberem a ajuda de ninguém, mas hoje já podemos ver organizações, cooperativas e até mesmo associações que lutam pelos seus direitos e os ajudam a fazerem um trabalho melhor com preocupação na saúde e cuidados básicos necessários. Ainda falta muito, mas o primeiro passo já foi dado no reconhecimento da sua importância às cidades.

Os catadores de materiais recicláveis costumam andar pelas cidades buscando plásticos, materiais feitos com alumínio e outros objetos que possam ser reutilizados pelas pessoas nas suas casas e empresas, por isso tais catadores são tão necessários às vidas das cidades urbanas, neste momento prejudicial em que as pessoas não têm tempo para se preocuparem com ruas sujas e bueiros interrompidos por lixos.

As nossas maiores preocupações com os lixos que jogamos no mundo, acontecem quando chegam as chuvas e os esgotos explodem interrompidos pelo mesmo lixo que nós não tivemos o cuidado de descartá-lo no lugar apropriado. E por falar em lixo necessitamos ter o cuidado daquilo que jogamos nas nossas latas e sacolas de lixo, pois alguns desses catadores desavisados podem mexer neles e sem querer serem furados ou cortados por objetos que descartamos de forma errada.

Costumamos fazer do nosso lixo residencial um verdadeiro caos, descartando de tudo dentro das nossas latas de lixo, sem nos preocuparmos com o meio ambiente, querendo mesmo nos ver livre das pilhas, baterias de celulares, aparelhos de televisão e até mesmo vasos sanitários que já vi em alguns lixos de moradias da minha cidade. Tem gente que joga pedaços de vidros ou palitos de churrasquinhos no lixo, causando acidentes nesses catadores que em busca de materiais recicláveis esquecem de se cuidarem.

Na verdade, o bom é que usassem luvas apropriadas para esse tipo de serviço e que nós cidadãos fôssemos educados ambientalmente. Não pensamos no outro, isso sim é que é verdade. Somente olhamos para o nosso umbigo, e assim vamos deixando as cidades feias e sujas com a nossa falta de educação ambiental tendo a certeza de que isso é coisa para os garis, ou seja, jogar lixo nas ruas não vai causar mal nenhum a ninguém. Será mesmo?

Conheço pessoas e as aplaudo por separarem seus lixos nas suas casas tendo uma sacola para os materiais recicláveis. Em datas combinadas com os catadores elas entregam essas sacolas cheias de lixo que será reutilizado e voltará para as estantes de supermercados ou comércios. Sendo assim, a importância dos catadores de materiais recicláveis é grande e bonita, pois eles têm contribuído com a limpeza das nossas cidades não somente em busca de garrafas pets e latinhas de cervejas ou refrigerantes, mas existem alguns catadores que também se preocupam com a limpeza das ruas pegando do chão outros lixos que não servem de nada para eles, ou seja, apenas para deixar feia a cidade.

Nos meus passeios pela minha cidade, gosto de ficar olhando os catadores de materiais recicláveis recolhendo as caixas de papelão das lojas do comércio local que já conhecem os seus trabalhos e empilham as caixas num canto da calçada para que eles as recolham. Bonito isso da parte dos lojistas e comerciantes, merecem aplausos por ajudarem os catadores.

Eu acho que nós também deveríamos ajudar os catadores de materiais recicláveis. Há tantas cooperativas desses materiais que os catadores muito buscam pelas ruas, e se nós tivéssemos a consciência de juntarmos nas nossas casas num canto separado algumas latinhas de cervejas ou de refrigerantes de alumínio dessas festas que damos nos fins de semana e vendêssemos para uma outra cooperativa dessas até ganharíamos um dinheirinho que daria para comprar pães, leite ou outra coisa.

A minha mãe junta as latinhas de cervejas das grandes festas que o meu irmão e seus amigos participam. Ela já chegou a juntar vinte quilogramas de latinhas e vendeu para uma cooperativa. O dinheiro arrecadado ela doou para um hospital que trata crianças com câncer. Você também pode ajudar a quem precisa. Precisamos aprender a ajudarmos uns aos outros. É uma cadeia mútua de boas intenções. Eu, você, os catadores de materiais recicláveis e o resto do mundo que precisa de ajuda. Então, o que quero dizer é que os catadores de materiais recicláveis se tornam tão essenciais nas cidades grandes que estão se profissionalizando e com isso melhorando os seus serviços.

Conheço um homenzinho que mora num bairro de periferia da minha cidade que tem uma carrocinha anexada ao seu automóvel onde ele sai catando materiais recicláveis pela cidade e vive somente da renda que consegue com a venda deles. Ademais, os catadores de materiais recicláveis estão até mesmo virando artistas ou ajudando pessoas que trabalham com artes plásticas quando saem buscando outros tipos de lixo que podem servir para performances, quadros e criações as mais diversas de poesias.

Os materiais recicláveis e seus catadores contribuem para um mundo melhor. São esses catadores pessoas sensíveis às necessidades de mantermos as nossas cidades limpas e organizadas. Eles contribuem todos os dias para que as ruas estejam sempre bonitas e boas de nos locomovermos. Já pensou andarmos pelas ruas pisando em pedaços de vidro ou palitos de churrasquinhos? Não é o serviço deles tirar esse tipo de lixo das ruas, mas muitos fazem isso.

Geralmente, os catadores de materiais recicláveis costumam trabalhar durante as madrugadas quando as cidades dormem, porque o trânsito pelas ruas diminui e assim podem andar com as suas carrocinhas puxadas pelos seus braços fortes e incansáveis. Sem esses profissionais tenho a certeza de que os mares e esgotos estariam muito mais poluídos e entupidos. Muitos dos esgotos entupidos são consequências dos materiais largados nas ruas pelas pessoas que têm esse hábito.

Se bebo água numa garrafa ou copo plásticos na rua sempre trago para descartá-los em casa, mas costumo ver as pessoas os jogando nos cantos de árvores e em meio as praças públicas. Assim sendo, os catadores de materiais recicláveis cuidam da seleção, triagem, venda, reuso desses materiais dos demais encontrados nos lixos das grandes cidades. São profissionais merecedores do nosso reconhecimento, pois sem eles as cidades estariam com mais problemas do que os que temos e os desastres naturais como as chuvas talvez fossem maiores.

É triste, mas os catadores de materiais recicláveis estão sujeitos a muitos problemas: insalubridade, insegurança, marginalidade, condições de trabalho, dentre outros que somente eles podem nos relatar com as suas centenas de experiências pelas ruas das cidades grandes quando não têm sequer como se identificarem com roupas coloridas ou com luminosidade para indicarem que ali existe a presença de um ser vivo.

As histórias dos catadores de materiais descartáveis são diversas. Muitas tristes, mas outras são bonitas e emocionantes. Conheço um dos milhares de catadores do nosso país que comprou a sua casinha com o dinheiro do seu trabalho, ou seja, dos materiais recicláveis e abriu a sua própria cooperativa ajudando atualmente cerca de mais de sessenta outros catadores. Embora exerçam um trabalho tão bonito para o meio ambiente, os catadores de materiais recicláveis, na sua grande maioria, vivem duramente, não sendo reconhecidos muitas vezes como profissionais, não tendo incentivos das autoridades, vivendo numa situação de extrema vulnerabilidade social devido a discriminação em relação ao trabalho que fazem sendo algumas vezes confundidos até mesmo com bandidos.

É preciso que as autoridades reconheçam o trabalho dos catadores de materiais recicláveis os ajudando com políticas públicas de incentivo para que recebam a dignidade e o respeito necessários, afinal eles têm contribuído como já disse acima para um mundo melhor e mais bonito.

Para finalizar deixo vocês com os versos da canção de Marcelo Torca intitulada “Reciclagem” em que ele nos diz

“O importante é reciclar / Reciclar plástico, papel / O importante é reciclar / Para economizar / Se o papel vem da árvore / Para que derrubar mais uma / O importante é reciclar / Se o plástico vem do petróleo Para que retirar mais…”

Sejamos todos catadores de flores e amores neste existir de preciosidades raras, respeitando os catadores de materiais recicláveis que fazem do LIXO um LUXO, como já diz o poeta

Autora: Rosângela Trajano. Também escreveu e publicou no site “Por que trocamos àrvores por concreto?: www.neipies.com/por-que-estamos-trocando-arvores-por-concreto/

Edição: A. R.

“Quero ser cientista”

Se eu já admirava os professores antes, hoje eu os considero os meus super-heróis brasileiros. E consegui perceber as dificuldades de levar projetos: quem está de fora pode achar que é simples implementar em sala de aula, mas não é. Conheça mais nesta conversa com a pesquisadora, escritora e mãe, Raquel da Hora, sobre a comunicação da ciência com crianças e jovens.

Uma mãe cientista que resolveu fazer um livro para explicar como funcionam nossas células e o maravilhoso mundo visível apenas ao microscópio. Bióloga, especialista em genética, com mestrado e doutorado pelo Instituto Nacional do Câncer (INCA) e pós-doutorados nas áreas de Genética, pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Ciências Médicas e Microbiologia e Parasitologia Aplicadas, ambos pela Universidade Federal Fluminense (UFF): o currículo de Raquel da Hora é extenso. Ela se orgulha, em igual medida, de seu trabalho de divulgação científica nas redes sociais, com a página Quero ser cientista, e com a literatura em que busca popularizar a ciência para crianças.

Mãe de Davi e Benjamin, de 8 e 11 anos, ela viu em muitos momentos a vida pessoal atravessar suas pesquisas e vice-versa, como ter feito boa parte de seus estudos no INCA após a perda do pai para o câncer. Ou ter entrado para um dos grupos de pesquisas pioneiros que estudavam as relações entre o zika vírus e a microcefalia em bebês, logo após ter dado à luz ao segundo filho. 

Se voltarmos ainda mais no tempo, a pequena Raquel, que cresceu em Bangu, no subúrbio do Rio de Janeiro, um dia afirmou que seria cientista. E hoje busca despertar o interesse de crianças e jovens pela ciência na internet, em sala de aula ou por meio de seu livro O Maravilhoso Mundo da Célula. Para se aprofundar mais sobre a melhor forma de fazer isso, ela se tornou aluna da especialização em Divulgação e Popularização da Ciência da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz).

Raquel conversou com Radis sobre as diferentes formas de fazer a ciência estar mais próxima do cotidiano de crianças e adolescentes, de maneira inclusiva, interessante e didática.

Raquel é pesquisadora, mãe do Davi e do Benjamin e criadora da página Quero ser cientista, do instagram. — Foto: arquivo pessoal.

Como a pequena Raquel cresceu e se tornou cientista?

Sempre fui muito curiosa, muito ‘perguntadeira’ e isso tem a ver um pouco com a história da página Quero ser cientista. Sou bióloga, formada em licenciatura e bacharelado em Ciências Biológicas e depois fiz mestrado e doutorado na divisão de Genética do Instituto Nacional do Câncer (INCA) quando desenvolvi projetos sobre retinoblastoma, um tipo de câncer infantil que acomete os olhos e pode levar à cegueira, se não houver um tratamento urgente. Mas um pouquinho antes disso, durante o meu Ensino Médio, fiz o curso de formação de professores. Cheguei a trabalhar um ano com crianças, na educação infantil. A questão do lúdico na infância é algo que sempre acompanhou a minha carreira. Quanto à genética, quando fui fazer Ciências Biológicas, logo se tornou minha área de interesse porque meu pai foi paciente oncológico e, infelizmente, faleceu. A temática do câncer foi algo que atravessou a minha juventude.

Como foi conciliar maternidade e pesquisa científica?

Mais adiante, no meu primeiro pós-doutorado, tive o meu primeiro filho e resolvi fazer uma pausa porque era um verdadeiro malabarismo, estava sem rede de apoio e não ficava bem com aquela situação. Decidi parar. Ao retornar, quando o Davi já tinha dois anos, resolvi ir para o programa de Microbiologia e Parasitologia Aplicadas da Universidade Federal Fluminense (UFF). Continuei na área de Genética, mas dessa vez, tratando mulheres que tinham desenvolvido HPV. E no final do primeiro ano do pós-doutorado, já desenvolvendo trabalho, me descobri grávida novamente e pensava: “Nossa, mas acabei de voltar e vou ter que parar de novo? Dessa vez não posso parar, esse bebê vai junto comigo até quando eu aguentar com essa barrigona”. E aí tive o Benjamin.

Como sua experiência como mãe ajudou a ampliar o seu olhar de pesquisadora?

Em 2015, foi o momento em que estavam nascendo muitas crianças com microcefalia. Até então ninguém sabia exatamente que era por causa de um vírus. Fui chamada para integrar um grupo de pesquisa na UFF sobre a relação entre zika e microcefalia e isso foi ainda mais importante no processo de humanização, pois estava ali diante de mães e eu também mãe de um bebezinho.

Foi um trabalho do qual tenho muito orgulho de ter participado, pois queríamos fazer isso da forma menos traumática possível para as mães e resolvemos estudar a genética das células oculares, para ter acesso ao sistema nervoso e, assim, colhíamos nosso material a partir da lágrima dos bebês. Cada vez que você pisca, lubrifica e tem célula se soltando da camada ocular. Todo mundo me perguntava como eu fazia o bebê chorar (risos). A oftalmologista pingava um colírio que não interferia nas células e desenvolvi uma ‘membraninha’ de papel, bem fininha, que não machucava e, com isso, conseguíamos uma boa quantidade de células.

Acompanhamos crianças que tinham desenvolvido microcefalia cujas mães foram confirmadas com zika durante a gestação. E fui conversar com todas elas, eu com um bebê pequenininho, cheia de leite, e foi muito lindo participar disso. Sou apaixonada pela ciência e muitas vezes vejo esses atravessamentos ocorrendo entre vida e ciência.

Como surgiu a página Quero ser cientista?

Surgiu da minha lembrança de que, desde criança, eu já falava que queria ser cientista. E de onde veio essa afirmação? Havia o trabalho que hoje é do agente comunitário, de recolher amostras de água parada nos tubinhos para verificar se havia larva do mosquito Aedes Aegypti. Sempre fui muito curiosa, gostava de fazer perguntas. O moço que fazia esse trabalho foi me explicando e, entre tantas perguntas, ele falou assim: “Nossa, você tem todo jeito para ser cientista!” E eu perguntei: “O que o cientista faz?” Aí ele respondeu: “Faz perguntas o tempo todo”. E me deu alguns tubinhos, me explicou como fazer a coleta e levei tudo para a escola. 

Em que momento você percebeu que o trabalho de divulgação científica seria uma forma de alcançar mais pessoas?

Já nos Estados Unidos para fazer pesquisa, antes da pandemia, me deparei com a notícia sobre um estudo realizado por pesquisadores da COC/Fiocruz em que foram entrevistados uns dois mil jovens e eles desconheciam nomes de cientistas nacionais, mesmo que boa parte deles afirmasse ter interesse na área de ciência. E aquilo me atravessou de uma forma, que pensei: “Poxa, sou cientista e o que eu faço é muito legal. Mas estou falando apenas para os meus pares. Qual vai ser o momento de começar a falar com a sociedade? E como falar?” Aí criei a página com esse nome, não no sentido de convencer que todos se tornem cientistas, mas com o objetivo de popularizar a ciência e mostrar o que um cientista faz.Comecei tirando fotos do que eu fazia e acabei dialogando muito com as mães, porque publicava bastante com os meus filhos. Nesse caso, a cientista é mãe e mulher também. A princípio, o conteúdo era voltado para crianças e jovens.

Vários estudos mostram que é na infância que a curiosidade é mais aguçada. E com o tempo isso vai se perdendo. Não é que elas se tornem totalmente desinteressadas, mas muitos estudos apontam que isso acontece muito mais em meninas. Existe uma janela de idade em que elas podem começar a se achar menos capazes para os diferentes tipos de ciências, como tecnologia, matemática e artes. Por isso, acabei direcionando também para um público de meninas na ciência. 

Como foi a experiência de despertar o interesse pela ciência em sala de aula?

Estar mais em contato com a questão do letramento científico me fez voltar a pensar sobre essa questão da janela de tempo: é na Educação Básica justamente em que as meninas começam a se sentir menos capazes. Então me coloquei à disposição para ser uma cientista em sala de aula. Nunca havia passado por essa experiência, com adolescentes e crianças, porque lá atrás trabalhei na educação infantil, ou seja, com crianças muito pequeninas. Fui para uma escola rural no município de São Pedro da Aldeia (RJ). Estavam sem professores de ciência. Peguei turmas do sexto ao nono ano do ensino fundamental. E é uma experiência incrível estar dentro da sala de aula, sendo professora de ciências e cientista ao mesmo tempo. Se eu já admirava os professores antes, hoje eu os considero os meus super-heróis brasileiros. E consegui perceber as dificuldades de levar projetos: quem está de fora pode achar que é simples implementar em sala de aula, mas não é.

E como nasceu O Maravilhoso Mundo da Célula?

Eu sentia falta de um livro sobre a prática do cientista para as crianças. Publiquei O Maravilhoso Mundo da Célula no fim de 2022. O lançamento foi na Flip [Festa Literária Internacional de Paraty] e, em braile, saiu recentemente na Bienal de 2023. Toda a história foi pensada como uma grande brincadeira. Meu filho mais velho é autista com nível 1 de suporte e altas habilidades. E ele também começou a falar que queria ser cientista como a mãe e eu o levei ao laboratório. Esse primeiro livro foi muito pensando neles também, como se eu estivesse contando para eles como é o meu trabalho. É como se eu quisesse dizer: “Olha o que eu faço, como é legal. Como a célula é incrível e maravilhosa, como a gente usa o microscópio…”

Como surgiu a possibilidade de fazer um livro inclusivo?

A escolha da editora foi bem consciente porque queria que fosse um lugar que tivesse uma proposta inclusiva, para ser publicado em braile, em livro narrado com a opção em Libras e, mais recentemente, com a possibilidade de pictograma para crianças do espectro autista. Fazer o livro em braile é algo que conversa muito comigo por ter trabalhado por quase 20 anos com uma doença que afeta os olhos e pode levar à cegueira. Comecei a pensar como as crianças que conheci lá atrás durante a pesquisa poderiam ter acesso a algum conhecimento que estou publicando. 

Como fazer com que esse movimento de popularização da ciência chegue a todas as crianças e jovens?

Quando comecei a fazer a página, me deparei com uma frase da astronauta Sally Ride [primeira mulher estadunidense a viajar para o espaço], que traduzindo é: “A gente não pode ser aquilo que a gente não pode ver”. Então, se não tivermos o contato, fica muito difícil. É preciso ter referências para mostrar para crianças e jovens o que o cientista faz e que não somos apenas aqueles que estão no laboratório, já que temos vários tipos de ciências.

Quais foram as minhas referências para ser hoje uma cientista? Para as crianças e jovens de agora, temos a incrível doutora Jaqueline Góes [biomédica que coordenou a equipe responsável pelo sequenciamento do genoma do vírus da covid-19]. Inclusive na minha primeira aula como professora da escola rural, resolvi levar o tema das mulheres nas ciências e falei sobre a doutora Jaqueline. É uma referência que impacta bastante. É um trabalho de formiguinha, mas o caminho, ao meu ver, é tentar garantir o acesso e trazer as referências para que eles possam concretizar isso cada vez mais, ou seja, fazer valer a expressão “Ciência para todos”.

FONTE: https://radis.ensp.fiocruz.br/entrevista/popularizacao-da-ciencia-entrevista/quero-ser-cientista/

Por Licia Oliveira, repórter na Revista Radis. Profissional do texto/Revisora/Jornalista.

Edição: A. R.

Arte e tempo

Eu digo que se formos cancelar o pecador – e não o pecado – não sobrará uma obra sequer da vasta produção humana que não sofra cancelamento, seja ela em tela, página ou melodia. Nada restará de pé para que nossa civilização possa degustar sem culpa.

Meu pai costumava dizer “As virtudes são do sujeito e sua genialidade será eterna; já os defeitos são de seu tempo e lá devem ficar”. Com isso, procurava relativizar as falhas e defeitos encontrados nas biografias de gênios da literatura, música, artes plásticas e até da ciência. “É injusto, continuava ele, analisar o sujeito fora do seu tempo, alijado de seu contexto, sem a pressão do seu campo simbólico, no tempo e no espaço. Sem levar em conta seu tempo nosso julgamento sucumbe ao anacronismo”.

Eu digo que se formos cancelar o pecador – e não o pecado – não sobrará uma obra sequer da vasta produção humana que não sofra cancelamento, seja ela em tela, página ou melodia. Nada restará de pé para que nossa civilização possa degustar sem culpa.

Quem, dotado de genialidade criativa, estaria isento de ser seduzido pelos próprios monstros internos? Quem, diante da fama, fortuna e o poder que delas deriva, não seria chamado a se lambuzar nos sabores mundanos? Quem pode julgar o sujeito – não o delito – que podendo, errou?

Por essa razão, eu me oponho de forma veemente a todo tipo de julgamento moral de artistas e pensadores. Nada é mais danoso à cultura contemporânea do que a patrulha moralista, em especial a identitária.

Nada é mais embutrecedor do que apagar o passado por julgamentos morais do presente. A tentativa de remediar estas falhas, colocando embrulhos de celofane nos malfeitos é ainda pior; a solução encontrada por alguns de mudar as obras, fazendo “correções” para amenizar “erros” é absurda e mutilatória. “Corrigir” Heidegger, Monteiro Lobato, Picasso ou Wagner é destruir a história que circunda seus trabalhos, o que lhes veste de significados e relevâncias.

Deixem os termos racistas, antissemitas, misóginos e homofóbicos intactos e discutam esses fatos abertamente, como uma janela aberta no tempo para enxergar nossos valores mutantes no passado, assim como os erros de lá que desejamos combater aqui. Apagar da história as obras de gênios controversos é um crime de lesa-arte. Ao fim e ao cabo acabamos percebendo que a avaliação moral do artista serve sempre a interesses políticos, e libertar-se desse tipo de constrição é sempre um ato de justiça à própria arte, que será livre ou não será arte.

Autor: Ricardo Herbert Jones. Também escreveu e publicou no site “Gênios e médico””: www.neipies.com/genios-e-medicos/

Edição: A. R.

Filme ‘Divertida Mente faz bem para adultos, crianças, adolescentes e jovens

Adultos e crianças, ao se perderem nesse mar de cores e sentimentos, encontrarão não apenas diversão, mas uma rica tapeçaria de significados e insights que reverberarão muito além dos créditos finais. É uma dança com nossas próprias sombras, uma celebração do emaranhado de sentimentos que nos torna humanos”.

As profundezas do nosso ser no qual os mares da mente se entrelaçam com os rios do coração, ‘Divertida Mente’ convida-nos a embarcar em uma jornada encantadora pelas paisagens do inconsciente que nos foi apresentado por Freud e Jung. Não é apenas um filme, mas um mapa para o labirinto de emoções que nos compõe, um convite para navegar no oceano de sentimentos que habitam cada um de nós.

Na história de Riley, uma jovem em meio à turbulência da transição de sua vida, vemos a materialização de cinco personagens: Alegria, Tristeza, Raiva, Medo e Nojinho.

Cada um desses personagens é uma pincelada vibrante no quadro emocional que pinta o nosso mundo interior. Alegria, com seu brilho solar, nos ensina que a felicidade é uma dança de luz sobre as sombras. Tristeza, por outro lado, nos lembra que há beleza e profundidade na melancolia, como a chuva que alimenta o solo seco, preparando-o para novas florescências. Raiva, com suas chamas indomáveis, mostra-se como uma força de mudança, enquanto o Medo nos sussurra cautela, um vigia constante no castelo da mente. E, por fim, Nojinho, com seu ar de superioridade, nos protege dos perigos do mundo, seja de brócolis ou de corações partidos.

‘Divertida Mente’ nos oferece um espelho, refletindo a complexidade de nossas próprias paisagens emocionais. É um lembrete sutil de que as emoções não são simples hóspedes em nossa casa interior, mas os arquitetos de nossa experiência. Em Riley, vemos a batalha contínua para equilibrar esses habitantes, cada um lutando por seu lugar ao sol da consciência. É através de seus olhos que aprendemos que nossas emoções não apenas nos influenciam, mas tecem o tecido de nossa identidade.

A jornada de Riley é, em última análise, uma lição de empatia e resiliência.

Enquanto ela atravessa os desafios inevitáveis da mudança — uma nova cidade, uma nova escola, um novo mundo — somos lembrados de que o caminho não é fácil, mas é necessário. Assim como um rio esculpe seu caminho através de rochas intransigentes, somos convidados a enfrentar nossos próprios desafios com coragem e compaixão. A resiliência, assim, emerge como a ponte entre o que fomos e o que podemos ser.

Mais do que uma exploração do universo individual de Riley, o filme é uma porta aberta para conversas significativas. Ele nos proporciona uma linguagem universal para discutir o inefável: as emoções. Quando famílias se reúnem em torno desta narrativa, elas têm a chance de desvendar suas próprias histórias emocionais, de falar sobre o que muitas vezes permanece silencioso. As crianças, ao assistirem às aventuras emocionais de Riley, são encorajadas a expressar seus próprios sentimentos, enquanto os adultos são levados a refletir sobre as raízes e ramos de suas próprias experiências emocionais.

Visualmente, “Divertida Mente” é um banquete para os olhos, uma tapeçaria animada de cor e imaginação. A genialidade da Pixar ao traduzir conceitos abstratos em visuais tangíveis inspira-nos a sonhar além das limitações do cotidiano. Esse universo onírico, onde a criatividade não conhece fronteiras, é uma ode ao poder da imaginação, que nos convida a explorar as vastidões ainda não mapeadas de nossas mentes.

Assistir “Divertida Mente” é mais do que uma mera atividade de entretenimento; é um mergulho nas profundezas do inconsciente, uma exploração poética das emoções que nos definem. Adultos e crianças, ao se perderem nesse mar de cores e sentimentos, encontrarão não apenas diversão, mas uma rica tapeçaria de significados e insights que reverberarão muito além dos créditos finais. É uma dança com nossas próprias sombras, uma celebração do emaranhado de sentimentos que nos torna humanos”.

Autor: Prof. Dr. Mauro Gaglietti. Titular da Cadeira 31 da Academia Passo-Fundense de Letras/ Professor da Pós-Graduação em Justiça Restaurativa e Mediação por intermédio da empatia da URI [Santiago, RS] /Mediador de Conflitos e Mentor em Soft Skills nas empresas, escolas e instituições. Também escreveu e publicou no site “Chamado das rosas noturnas no sul do Brasil”: https://www.neipies.com/chamado-das-rosas-noturnas-no-sul-do-brasil/

Edição: A. R.

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